Jogo de cena esconde o real objetivo do conflito em Gaza

Ainda não há previsão para o fim da escalada genocida na Faixa de Gaza, iniciada em 27 dezembro e chamada por Israel de “Operação Chumbo Fundido”. Mas qual é mesmo o objetivo da guerra? Por traz das tão exploradas controvérsias religiosas, do suposto apelo americano pelo fim dos ataques de Israel, e o absurdo silêncio da ONU, uma análise mais detida do conflito pode revelar um complexo jogo geopolítico para garantir à elite israelense a tomada da Palestina e aos EUA o controle do Oriente Médio.
Segundo o chefe dos serviços de emergência do Ministério da Saúde do Hamas em Gaza, os ataques do Exército israelense já mataram pelo menos 500 palestinos, sendo 87 deles crianças, e deixou 2.450 feridos. Hasanein destacou que 22 dos 40 palestinos mortos na invasão terrestre a Gaza, iniciada na noite de sábado (3), eram civis. Entre os mortos deste domingo (4) estão uma mãe palestina e seus quatro filhos, atingidos por bombardeio israelense.
Mesmo diante de tantas mortes, a fome de sangue do Exército israelense não está nem perto de acabar. O chefe dos serviços de emergência relatou que na manhã deste domingo, forças israelenses abriram fogo contra uma zona comercial na Cidade de Gaza, provocando um número ainda não determinado de mortos e feridos.
Ainda neste domingo, palestinos disseram à imprensa que testemunharam a chegada de mais de 80 veículos blindados do Exército, como tanques, sendo estacionados no antigo assentamento judaico de Mitzarin, cerca de três quilômetros ao sul da Cidade de Gaza.
Palestina: 500 mortos; Israel: cinco
O desproporcional poderio bélico de Israel comprova-se pelas notícias divulgadas na mídia da região. Segundo a rede de TV qatariana Al Jazeera, o Hamas disse ter matado cinco soldados israelenses e ferido outros 20 nos combates deste domingo em Gaza. Já o Exército de Israel confirmou, por meio de um porta-voz, a morte de apenas um soldado.
Foi a primeira morte israelense anunciada pelo serviço militar desde o início da operação por terra na Faixa de Gaza. Segundo Israel, outros 32 israelenses ficaram feridos durante a invasão por terra.
O sanguinário presidente de Israel, Shimon Peres, voltou a destilar seu ódio neste domingo ao reafirmar que não haverá interrupção nos ataques a Gaza. ‘’Queremos acabar com o terrorismo. E o Hamas precisa de uma lição real e séria. E agora eles estão tendo essa lição'’, disse Peres ao programa This Week, da ABC News.
Onde Peres diz ‘lição’, pela determinação com que o chefe de Estado tem levado à frente sua guerra cruel, e a despeito dos milhares de protestos pela paz que crescem em todo o mundo, inevitavelmente se compreende ‘extermínio’.
ONU permanece calada
Em sua terceira reunião desde que o conflito se iniciou, e após quatro horas de debates a portas fechadas — e apenas algumas depois da invasão terrestre de Israel a Palestina —, a conclusão da reunião deste sábado do Conselho de Segurança da ONU foi vexatória. De lá não saiu qualquer acordo sobre os termos de uma declaração pedindo o cessar-fogo na Faixa de Gaza.
‘’Não houve acordo entre os países membros, mas houve concordância quanto à preocupação sobre a escalada da violência e a deterioração da situação, além de um forte consenso quanto a um cessar-fogo imediato, duradouro e respeitado pelas partes”, tentou amenizar Jean-Maurice Ripert, que preside o Conselho.
O presidente geral da Assembléia da ONU, o nicaraguense Miguel D’Escoto, foi mais realista e classificou a incursão israelense como ‘’uma monstruosidade'’, acrescentando, “e, mais uma vez, o mundo assiste consternado a disfuncionalidade do Conselho de Segurança'’.
Os EUA foram decisivos para o fracasso da reunião. O país, um dos cinco com poder de veto no grupo e aliado de Israel, vetou a proposta de cessar-fogo sob a alegação de que o Hamas não acataria as medidas. “O direito de defesa de Israel é inegociável”, disse o embaixador americano, Alejandro Wolff.
Diante dos fatos, a justificativa para o início da invasão — proteger o sul israelense dos ataques de foguetes do Hamas — não convence a ninguém. Mesmo assim, com o voto dos Estados Unidos — justamente no Ano Novo, momento de apelo à paz e não de um chamado à guerra —, a ONU preserva o silêncio assustador sobre o genocídio de Israel a Palestina.
A disputa política pela paz
Com Shimon Peres de um lado, e de outro a polêmica tática de resistência do Hamas, os setores mais elitistas de Israel encontram um cenário propício para colocar em prática um antigo plano: o controle político da Palestina.
Para tanto, como tem reiteradamente mostrado o presidente israelense, não serão poupados nem mesmo os mais sórdidos meios para que a Palestina tenha a sua ‘lição’. Doa a quem doer, gostem ou não gostem: o verdadeiro terrorismo de Estado é praticado por Shimon Peres, escrevem colunistas.
Corroborara com o plano de Israel o silêncio garantido pelos EUA do Conselho de Segurança. Ao calar a ONU — além de abrir graves precedentes contra a paz mundial — o governo americano sustenta à guerra de Israel e, em troca, ganha o apoio israelense para controlar a região.
Solidariedade e luta pela paz
A fim de melar o propalado acordo geopolítico, espera-se que o crescente aumento do número de vítimas civis intensifique a pressão internacional sobre Israel para que encerre sua maior operação na Faixa de Gaza em quatro décadas. Há também os significativos riscos políticos que os combates — especialmente se suas forças sofrerem pesadas baixas nos confrontos de rua — trazem para os líderes israelenses nas vésperas da eleição nacional, marcada para 10 de fevereiro.
Como se vê, neste complexo e histórico conflito joga grande papel a solidariedade à Palestina e a mobilização mundial pela paz. Em diversas cidades, de inúmeros países e em todos os continentes, crescem os protestos pela imediata retirada das tropas de Israel e luta pela paz.
Mesmo estando tão distante, a população brasileira já começou a dar a sua contribuição realizando, na última sexta (2), um ousado ato que contou com mais de 300 pessoas. “Me comovi com as notícias da violência que eles estão sofrendo. É a primeira vez que me envolvo em uma manifestação assim”, disse na ocasião a estudante Kátia da Costa, de 17 anos. Kátia não é descendente de árabes e nem é muçulmana. Ela foi até a Avenida Paulista por se identificar com a causa e ficou sabendo do ato por uma comunidade do Orkut.

Texto: Por Carla Santos, do site Vermelho/com informações / Postado em 05/01/2009 ás 11:23

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A mídia em Israel toca as trombetas da guerra

 

 

 

Há notícia de que 40 tanques

israelenses avançam por terra

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, se encontra nesta segunda-feira no Cairo com o presidente do Egito, Hosni Mubarak, como parte de duas iniciativas européias para tentar mediar um cessar-fogo na Faixa de Gaza, onde uma operação militar israelense entra em seu décimo dia.
Sarkozy segue depois para encontros em Jerusalém, Ramallah, na Cisjordânia, e na capital síria, Damasco. Uma outra delegação, da União Européia, liderada pelo ministro do Exterior da República Tcheca, Karel Schwartzenberg, também manteve reuniões com lideranças egípcias no Cairo.
Enquanto isso, o Exército israelense segue avançando na Faixa de Gaza. Há notícia de que cerca de 40 tanques israelenses estão se dirigindo à cidade de Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza.
Palestinos dizem que dois adultos e cinco crianças foram mortos, somando-se às mais de 500 pessoas que já morreram desde que a ofensiva começou, há dez dias.
Segundo representantes do Hamas, dez de seus combatentes foram mortos até agora na ofensiva por terra. Os militares israelenses, por sua vez, afirmam que um de seus soldados morreu e 34 ficaram feridos.
Ajuda humanitária
Depois de conversações com o ministro do Exterior do Egito, Ahmed Abul Gheit, Schwartzenberg apelou para que Israel suspenda o bombardeio à Faixa de Gaza e para que os militantes palestinos parem de lançar foguetes em território israelense.
Gheit disse que há necessidade urgente de uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Há ainda notícias de que o movimento palestino, Hamas, pretende enviar uma delegação ao Egito a convite de Mubarak, que mediou o cessar-fogo entre o Hamas e Israel expirado no mês passado.
A Comissária para Relações Exteriores da UE, Benita Ferrero-Waldner, disse que é vital fazer chegar alimentos e suprimentos médicos na Faixa de Gaza para garantir que hospitais estejam em condições de funcionar.
Israel disse que vai permitir a entrada de mais ajuda humanitária em Gaza, entregue por 80 caminhões carregados de comida e remédios.
Em outra iniciativa, o emissário da Presidência da Rússia, Alexander Saltanov, reuniu-se com a ministra do Exterior de Israel, Tzipi Livni, no domingo, mas não conseguiu persuadi-la a aceitar Moscou como mediador em negociações com o Hamas.
O analista de assuntos internacionais da BBC, Jonathan Marcus, disse que é improvável que toda esta atividade diplomática traga resultados rápidos.
Segundo Marcus, Israel não deverá suspender as operações antes de conseguir seus objetivos militares e o Hamas dificilmente irá capitular, como mostra seu lançamento contínuo de foguetes contra alvos no sul de Israel.
Vítimas
O Ministério da Saúde palestino afirma que 509 palestinos, a maioria civis, foram mortos desde o início dos ataques israelenses, em 27 de dezembro. Outras 2,5 mil pessoas ficaram feridas.
Mais de 70 palestinos morreram desde o início da ofensiva terrestre, entre eles 21 crianças, conforme o ministério.
Do lado israelense, foi confirmada a morte de um soldado desde o início da ação terrestre. De acordo com o Exército de Israel, outros 34 soldados ficaram feridos, três deles em estado grave.
O Exército afirma que 80% dos mortos na ofensiva terrestre eram militantes do Hamas. O grupo palestino afirma que 10 de seus combatentes foram mortos.
Apesar da ofensiva terrestre, militantes palestinos continuam lançando foguetes contra o território israelense.
Nas últimas horas, pelo menos 40 mísseis foram lançados contra sul de Israel. Duas pessoas ficaram levemente feridas na região de Eshkol e outra na cidade de Sderot.
Na Cisjordânia, houve novos protestos violentos contra a ofensiva israelense. Segundo fontes médicas, um palestino foi morto a tiros por tropas israelenses que enfrentaram manifestantes perto da cidade de Qalqilya.
Blecautes
Na noite deste domingo, diversos blecautes deixaram a maior parte da Faixa de Gaza no escuro. No entanto, as luzes das explosões podiam ser vistas claramente na fronteira ao norte do território, e o som regular de tiros também podia ser ouvido.
Segundo correspondentes, ao longo do dia os combates se deslocaram do norte do território em direção a áreas mais populosas no oeste.
De acordo com membros do Hamas e testemunhas, os principais combates estão ocorrendo em cinco áreas: a leste do campo de refugiados de Jabaliya; em Zeitoun, a leste da Cidade de Gaza; na rodovia costeira próxima ao antigo assentamento judaico de Netzarim, ao sul da Cidade de Gaza; no centro de Gaza e nas proximidades da cidade de Khan Younis, no sul.
O Hamas afirmou que seus combatentes estão, em alguns casos, envolvidos em batalhas "cara a cara" com soldados israelenses.
O Exército israelense havia dito anteriormente que os militantes palestinos não estavam envolvidos em combates diretos com os soldados, mas usando morteiros e bombas improvisadas.
Como Israel continua impedindo a entrada de jornalistas estrangeiros na Faixa de Gaza, muitos dos relatos sobre o conflito não podem ser confirmados.
Ajuda humanitária
Segundo o correspondente da BBC na Cidade de Gaza, Rushdi Abu Alouf, os combates interromperam o envio de suprimentos médicos aos hospitais.
O ministro da Saúde palestino, Fathi Abumoghli, disse que o Exército israelense estava restringindo a movimentação de ambulâncias, fazendo com que feridos morressem antes de receber socorro. Segundo Abumoghli, um médico e dois paramédicos também foram mortos.
A organização de ajuda humanitária Oxfam também afirmou que um paramédico de uma organização parceira foi morto e outros dois feridos por uma bomba.
A Oxfam disse que foi obrigada a suspender seus trabalhos, mantendo apenas auxílio médico emergencial, devido à falta de suprimentos.
Israel afirma que 400 caminhões carregados com ajuda humanitária puderam entrar na Faixa de Gaza desde o início dos ataques. No entanto, muitas agências que atuam no território dizem que a quantidade não é suficiente.
Reações
O vice-presidente americano, Dick Cheney, defendeu neste domingo a ação terrestre israelense.
Em entrevista à rede de TV americana CBS, Cheney disse que ataques aéreos não eram suficientes para destruir as bases de onde os militantes palestinos lançam foguetes contra Israel.
Cheney também afirmou que Israel não buscou o aval americano para lançar sua ofensiva terrestre.
O presidente de Israel, Shimon Peres, rejeitou apelos por um cessar-fogo, mas disse que seu país não pretende reocupar a Faixa de Gaza nem destruir o Hamas.
O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, disse estar fazendo todo o possível para interromper a "cruel agressão" israelense.
Uma missão da União Européia foi enviada à região. Segundo o chefe de Política Externa do bloco, Javier Solana, a crise na Faixa de Gaza representa um fracasso da diplomacia.

Texto: Fonte: BBC Brasil / Postado em 05/01/2009 ás 11:28

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Esquerda Palestina repudia agressão sionista

5 DE JANEIRO DE 2009 - 13h57

Por: O Vermelho

 

As forças da Esquerda Palestina nos territórios ocupados pelo exército de Israel divulgaram uma declaração política na qual condenam a “criminosa agressão sionista” ao povo palestino.

‘’É tempo de sangue e sacrifício'’, diz o documento, que conclama o povo palestino a resistir aos ataques criminosos israelenses. Leia abaixo o texto:

Declaração conjunta da Esquerda Palestina

Nesta quinta feira, dia 1º de janeiro de 2009, a direção da Frente de Esquerda, da qual participam a Frente Democrática para Libertação da Palestina, a Frente Popular para Libertação da Palestina e o Partido do Povo Palestino, se reuniu para analisar o modo de enfrentar e resistir à criminosa agressão sionista contra o nosso povo e declarou o seguinte:

Continua o brutal ataque contra nosso povo; aumenta o número de mártires entre as crianças, mulheres e idosos; se multiplica, indiscriminadamente, a destruição das casas dos palestinos.

Mas, por nossa vez, a resistência palestina representada pela unidade popular, com participação de todas as organizações e braços armados continua atuando e lutando! Saudamos nosso povo e saudamos nossos aguerridos lutadores!

Hoje o povo palestino escreve uma página de glória que demanda lealdade e responsabilidade ante estes sacrifícios, assim como responder à urgente necessidade de consolidar a Resistência e unir suas fileiras para poder enfrentar o agressor.

Reiteramos, uma vez mais, nossos chamamentos para solucionar a divisão interna e convocamos ao diálogo nacional para recuperar a unidade. No dia de ontem, recebemos dos irmãos Mahmoud Abbas, presidente palestino, e Ismail Haniyeh, respostas positivas neste sentido. Acolhemos com alegria a aceitação e disposição de ambas as partes ao diálogo e a reconciliação e de prevalecer as contradições com o inimigo sionista.

É tempo de sangue e sacrifício; não é suficiente repetir palavras; estes tempos exigem fatos concretos, um movimento urgente e passos precisos e sérios que conduzam ao imediato e desejado diálogo.

Aos filhos de nosso querido povo:

Ainda que hoje estejam marcando o mais valioso exemplo de resistência e sacrifício, convocamos todos a:

1 - Levar a cabo a coordenação local através de um posto de mando unido entre os diferentes braços armados, sem exceção, para que se logre organizar a resistência de forma unida frente ao agressor.

2 - Criar comitês populares nos acampamentos e bairros, nas cidades e aldeias. Que sejam incluídas nessas fileiras todas as forças políticas, organizações da sociedade civil e personalidades nacionais que desejem colaborar para que estas estruturas sejam as que organizem todas as formas de solidariedade e socorro para os necessitados.

3 - Ditos comitês terão a tarefa de coordenar e manter a comunicação com a UNRWA ( Agência da ONU para os refugiados palestinos) e as sedes municipais e outras instituições oficiais com o objetivo de unir o trabalho e garantir um alto nível de solidariedade e apoio que se faz necessário.

Saudamos o nosso querido povo!
Glória aos nossos mártires!
Vitoria para a Resistência!

Partido do Povo Palestino
Frente Popular para a Libertação da Palestina
Frente Democrática para a Libertação da Palestina

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Despedimentos proíbidos na Venezuela até ao final de 2009

Na Venezuela, os patrões não podem despedir trabalhadores que ganhem menos de três salários mínimos. A medida já se encontra em prática desde 2002, sendo renovada periodicamente. O governo anunciou que vai estender o decreto de "imobilidade laboral" por mais mais um ano, vigorando até Dezembro de 2009, e sublinha que o país tem a taxa de desemprego mais baixa dos últimos 10 anos.

O governo venezuelano decidiu prolongar outra vez a vigência do decreto de "imobilidade laboral" que impede os patrões de despedir trabalhadores, desta feita até Dezembro de 2009. Na verdade, trata-se da 15ª extensão do decreto, pela primeira vez aprovado em Maio de 2002. Contudo, se nas primeiras aprovações do decreto a sua validade era apenas de alguns meses, as duas últimas extensões da medida foram anuais: em Dezembro de 2007 a validade do decreto foi estendida até ao final de 2008 e agora o governo decidiu estendê-lo até ao final de 2009.
A medida permite "proteger os empregados dos sectores público e privado, regidos pela Lei Orgânica do Trabalho" e estipula que os trabalhadores que ganhem mensalmente o equivalente até três salários mínimos mensais (aproximadamente 800 euros) não podem ser despedidos.
Para o governo venezuelano, que prevê dificuldades com a crise económica mundial, esta medida é fundamental para não pôr em risco a consistente descida do desemprego no país. Há poucas semanas, Chavez vangloriava-se de ter atingido a taxa de desemprego mais baixa dos últimos 10 anos, que se cifrou em 6,1% no passado mês de Novembro.
No entanto, o decreto de "imobilidade laboral" não é universal, pois deixa de fora trabalhadores temporários ou ocasionais, cargos de confiança, empregados que aufiram mais de três salários mínimos mensais, e certos casos em que a redução de pessoal se faça por acordos voluntários entre trabalhadores e patrões.
O objectivo futuro do governo venezuelano é integrar a medida definida por este decreto na reforma da Lei Orgânica do Trabalho, pendente há quase dez anos. Além de proibir o despedimento de trabalhadores, a nova Lei Orgância do Trabalho deverá incluir a redução do horário de trabalho para seis horas por dia e o aumento dos dias de férias.

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Invasão israelita é "intolerável crime de guerra", diz Bloco

A entrada de tropas israelitas em Gaza é um "intolerável crime de guerra" que irá precipitar a crise humanitária que se vive no território. No comunicado enviado à imprensa, o Bloco critica ainda o governo português e a União Europeia por manterem uma posição conciliatória com o ataque israelita.

Bloco de Esquerda está preocupado com a crise humanitária em Gaza. Em comunicado, afirma que "a entrada de tropas israelitas em Gaza é um intolerável crime de guerra que irá precipitar a crise humanitária que já se vive actualmente neste território totalmente cercado e bloqueado por Israel".
E exige do governo português e da União Europeia uma posição firme de condenação da invasão israelita. "O Governo português e a UE não podem manter uma posição conciliatória com a ataque e ocupação de Gaza, que, ao contrário do que é propagandeado por Israel, não deixará de afectar essencialmente a população civil, devendo concentrar todos os esforços diplomáticos para forçar o imediato cessar-fogo e a retirada das forças israelitas de ocupação", sublinha o Bloco, em comunicado enviado à imprensa.
A posição da União Europeia, sobre a invasão israelita a Gaza, tem sido confusa e polémica. Sábado à noite, o porta-voz do primeiro-ministro checo Mirek Topolanek para a presidência da UE qualificou a operação de Israel de "mais defensiva do que ofensiva". "Trata-se de um passar da fronteira de Gaza, não houve violência, nem vítimas. Esperamos mais informações", disse então à France Press. Mais tarde, o Ministério checo dos Negócios Estrangeiros recuou e, em nome da presidência da UE, declarou que Israel não tinha o direito de executar acções militares que "afectam os civis".

 

Por: Esquerda.NET

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Por que bombardear Asklan é a mais trágica ironia

Tanto Yitzhak Rabin como Shimon Peres declararam, ainda na década de 1990, que desejavam que Gaza simplesmente desaparecesse, que sumisse mar adentro. A existência de Gaza é um indício permanente das centenas de milhares de Palestinos que perderam suas casas para o Estado de Israel, que fugiram apavorados ou foram expulsos por temor à limpeza étnica executada por Israel há 60 anos. A análise é de Robert Fisk.

Robert Fisk - The Independent

Como é fácil desconectar o presente da história palestina, deletar a narrativa de sua tragédia, e evitar a ironia grotesca de Gaza que, em qualquer outro conflito, os jornalistas estariam descrevendo desde suas primeiras reportagens: qual seja, que os habitantes originais e legais da terra israelense almejada pelos foguetes do Hamas, hoje vivem em Gaza.
Por isso existe Gaza: porque os Palestinos que vivem em Ashkelon e campos ao seu redor – Asklan em árabe - foram destituídos de suas terras em 1948 quando foi criado o Estado de Israel e empurrados para onde residem hoje, na Faixa de Gaza. Eles –ou seus filhos, netos e bisnetos- estão entre o um milhão e meio de Palestinos espremidos na fossa séptica de Gaza. 80% dessas famílias viviam no que é hoje o Estado de Israel.
Assistindo os noticiários, tem-se a impressão de que a história começou apenas ontem, que um bando de lunáticos islâmicos barbudos anti-semitas apareceu de repente nas favelas de Gaza –um lixão povoado por pessoas destituídas de origem - e começou a atirar mísseis contra a democrática e pacífica Israel, apenas para dar de encontro com a indignada vingança da força aérea israelense. Nessa história simplesmente não consta o fato de que as cinco meninas mortas no campo de Jabalya tinham avós oriundos da mesmíssima terra de onde os atuais habitantes as bombardearam à morte.
Percebe-se porque tanto Yitzhak Rabin como Shimon Peres declararam, ainda na década de 1990, que desejavam que Gaza simplesmente desaparecesse, que sumisse mar adentro. A existência de Gaza é um indício permanente das centenas de milhares de Palestinos que perderam suas casas para o Estado de Israel, que fugiram apavorados ou foram expulsos por temor à limpeza étnica executada por Israel há 60 anos, momento no qual uma imensa onda de refugiados varria a Europa no pós Segunda Guerra Mundial, e um punhado de árabes expulsos de suas propriedades não importava ao mundo.
Mas agora o mundo deveria se preocupar. Espremido nos poucos quilômetros quadrados mais densamente povoados do mundo, está um povo destituído, vivendo no isolamento, no esgoto, e, durante os últimos seis meses, na fome e no escuro, sancionados pelo Ocidente. Gaza sempre foi insurrecional. A "pacificação" sangrenta de Ariel Sharon, começando em 1971, levou dois anos para ser completada e não vai ser agora que conseguirão dobrar Gaza.
Infelizmente para os palestinos, perderam sua mais poderosa voz política –refiro-me a Edward Said e não o corrupto Yasser Arafat (e como os Israelenses devem sentir sua falta)- ficando a sua sorte, em grande medida, sem explicação, no que depender dos seus atuais porta-vozes ineptos. "É o lugar mais deplorável que já vi", disse Said, certa vez, sobre Gaza. "É um lugar terrivelmente triste devido ao desespero e à miséria em que vivem as pessoas. Não estava preparado para encontrar campos que são piores do que qualquer coisa que eu tivesse visto na África do Sul".
Claro que ficou a cargo da Ministra de Relações Externas, Tzipi Livni, admitir que "às vezes os civis também pagam o preço", um argumento que ela não usaria se a estatística de mortes fosse invertida. Foi certamente educativo ouvir ontem um membro do Instituto Empresarial Americano –repetindo fielmente os argumentos israelenses- defender o indefensável número de mortos palestinos, dizendo que "não faz sentido entrar no mérito dos números". No entanto, se mais de 300 israelenses tivessem sido mortos, contra dois palestinos, pode ter certeza que se entraria "no mérito dos números", e a violência desproporcional seria absolutamente relevante. O simples fato é que as mortes palestinas importam muito menos que as mortes israelenses. É verdade que 180 dos mortos eram membros do Hamas, mas e o restante? Se a estatística conservadora da ONU de 57 civis mortos for verdade, ainda assim seria uma desgraça.
Não é de surpreender que nem os EUA nem a Grã-Bretanha condenem o ataque Israelense, e ponham a culpa no Hamas. A política norte-americana para o Oriente Médio é indistinguível da israelense, sendo que Gordon Brown está assumindo a mesma devoção de cão à administração Bush, já demonstrada pelo seu antecessor.
Como sempre, os Estados árabes clientes –pagos e armadas pelo Ocidente- permanecem em silêncio, absurdamente, chamando uma cúpula árabe para discutir e (se chegar a isso) apontar um "comitê de ação" que redigiria um relatório que jamais será escrito. É assim que funcionam o mundo árabe e seus líderes corruptos. Quanto ao Hamas, este terá, é claro, que suportar a desmoralização dos Estados árabes enquanto cinicamente esperam que Israel fale com eles. O que farão. De fato, dentro de alguns meses, chegará a notícia de que Israel e Hamas mantêm "diálogos secretos" –assim como outrora ouvimos falar em relação a Israel e a ainda mais corrupta OLP. Mas, até lá, os mortos estarão enterrados e estaremos ingressando na próxima crise do Oriente Médio.
Artigo publicado originalmente no jornal The Independent e reproduzido na Folha de São Paulo.

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Crise sistémica global: Novo ponto de inflexão em Março de 2009

 

— ‘quando o mundo tomar consciência de que esta crise é pior que a dos anos 1930′

por GEAB [*]

O LEAP/E2020 prevê que em Março de 2009 a crise sistémica global venha a experimentar um novo ponto de inflexão de uma importância análoga ao de Setembro de 2008. Nossa equipe considera com efeito que este período do ano de 2009 será caracterizado por uma tomada de consciência geral da existência de três importantes processos desestabilizadores da economia mundial, a saber:
1. A tomada de consciência da longa duração da crise
2. A explosão do desemprego no mundo inteiro
3. O risco do colapso brutal do conjunto dos sistema de pensão por capitalização.
Este ponto de inflexão será assim caracterizado por um conjunto de factores psicológicos, a saber: a percepção geral pelas opiniões públicas na Europa, na América e na Ásia de que a crise em curso escapou ao controle de qualquer autoridade pública, nacional ou internacional, que ela afecta severamente todas as regiões do mundo ainda que algumas sejam mais afectadas do que outras (ver GEAB Nº 28), que ela atinge directamente centenas de milhões de pessoas no mundo ‘desenvolvido’ e que ela não faz senão pior à medida em que as consequências se fazem sentir na economia real. Os governos nacionais e as instituições internacionais têm apenas um trimestre para se prepararem para este situação que potencialmente é portadora de um risco importante de caos social. Os países menos bens equipados para gerir socialmente a ascensão rápida do desemprego e o risco crescente sobre as reformas serão os mais desestabilizados por este tomada de consciência das opiniões públicas.
Neste GEAB Nº 30, a equipe do LEAP/E2020 pormenoriza estes três processos desestabilizadores (dois dos quais são apresentados neste comunicado público) e apresenta as suas recomendações para enfrentar este aumento dos riscos. Além disso, este número faz também, como todos os anos, uma avaliação objectiva da fiabilidade das antecipações do LEAP/E2020, que permite precisar igualmente certos aspectos metodológicos do processo de análise que executamos. Em 2008, a taxa de êxito do LEAP/E2020 é de 80%, com uma ponta de 86% para as antecipações estritamente sócio-económicas. Para um ano de grandes perturbações, é um resultado de que estamos orgulhosos.

geab30

Como pormenorizámos no GEAB Nº 28 , a crise afectará de maneira diversificada as diferentes regiões do mundo. Contudo, e o LEAP/E2020 deseja ser muito claro acerca deste ponto, ao contrário dos discursos actuais dos mesmos peritos que negavam a existência de uma crise em gestação há três anos, que negavam que ela fosse global há dois anos e que negavam há apenas seis meses que ela seja sistémica, nos antecipámos uma duração mínima de três anos para esta fase de decantação da crise [1] . Ela não estará terminada nem na Primavera de 2009, nem no Verão de 2009, nem no princípio de 2010. É só nos fins de 2010 que a situação começará a se estabilizar e a melhorar um pouco em certas regiões do mundo, a saber na Ásia e na zona Euro, assim como para os países produtores de matérias-primas energéticas minerais ou alimentares [2] . Alhures, ela continuará. Em particular nos Estados Unidos e no Reino Unido e nos países mais ligados a estas economias, em que ela se inscreve numa lógica decenal. É apenas por volta de 2018 que estes países podem encarar um retorno ao crescimento real.
Além disso, não se pode imaginar que a melhoria do fim de 2010 assinalará o retorno a um crescimento forte. A convalescença será longa. As bolsas, por exemplo, precisarão igualmente de uma década para retornar aos níveis do ano de 2007, se elas ali chegarem um dia. É preciso recordar que a Wall Street precisou de 20 anos para retornar aos seus níveis do fim dos anos 1920. Ora, segundo o LEAP/E2020 esta crise é mais profunda e durável que aquela dos anos 1930. Esta tomada de consciência da longa duração da crise vai progressivamente tornar-se clara junto às opiniões públicas no decorrer do próximo trimestre. E ela desencadeará imediatamente dois fenómenos portadores de instabilidade sócio-económica: o medo pânico do amanha e a crítica reforçada dos dirigentes do país.
O risco de colapso brutal do conjunto dos sistemas de pensão por capitalização
Finalmente, no quadro das consequências da crise que afectarão directamente dezenas de milhões de pessoas nos Estados Unidos, no Canadá, no Reino Unido, no Japão, na Holanda e na Dinamarca em particular [3] , é preciso integrar o facto de que a partir deste fim de ano de 2008 vão multiplicar-se noticias referentes a perdas maciças dos organismos que gerem activos destinados a financiar estas reformas. A OCDE estima e US$4 milhões de milhões as perdas dos fundos de pensão apenas para o ano de 2008 [4] . Na Holand [5] assim como no Reino Unido [6] , os organismos de vigilância dos fundos de pensão acabam de lançar gritos de alarme exigindo com urgência um acréscimo das quotizações obrigatórios e uma intervenção do Estado. Nos Estados Unidos, são anúncios múltiplos de aumento das contribuições e de diminuição dos pagamentos que são emitido a um ritmo crescente [7] . E é só nas próximas semanas que numerosos fundos vão poder fazer realmente o cálculo do que perderam [8] . Muitos iludem-se ainda sobre a sua capacidade de reconstituir o seu capital no momento de uma próxima saída da crise. Em Março de 2009, quando gestores de fundos de pensão, reformados e governos vão simultaneamente tomar consciência de que a crise vai durar, que ela vai coincidir com a chegada maciça dos "babyboomers" à aposentadoria e que as bolsas tem pouco probabilidade de recuperar antes de longos anos os seus níveis de 2007 [9] , o caos vai instalar-se neste sector e os governos vão se aproximar cada vez mais da obrigação de intervir para nacionalizar todos estes fundos. A Argentina, que tomou esta decisão há alguns meses, surgirá então como um precursor.
Todas estas tendências já estão em curso. A sua conjunção e a tomada de consciência pelas opiniões públicas das consequências que elas implicam constituirá o grande choque psicológico mundial da Primavera de 2009, a saber, que estamos todos mergulhados numa crise pior que aquela de 1929; e que não há saída possível da crise a curto prazo. Esta evolução terá um impacto decisivo sobre a mentalidade colectiva mundial dos povos e dos decisores e modificará pois consideravelmente o processo do desenrolar d crise no período que se seguirá. Com mais de ilusões e menos de certezas, a instabilidade sócio-política global vai aumentar consideravelmente.
Finalmente, este GEAB Nº 30 apresenta igualmente uma série de 13 perguntas/respostas a fim de ajudar de maneira quase interactiva os poupadores/investidores/decisores a melhor compreender e antecipar os desenvolvimentos a acontecer da crise sistémica global:
1- Esta crise será diferente das crise que anteriormente afectaram o capitalismo?
2- Esta crise será diferente da crise dos anos 1930?
3- A crise será tão grave na Europa e na Ásia quanto nos Estados Unidos?
4- As medidas empreendidas actualmente pelos Estados do mundo inteiro serão suficiente para jugular a crise?
5- Quais os principais riscos que pesam sobre o sistema financeiro internacional? E todas as poupanças são iguais face à crise?
6- A zona Euro constituirá uma verdadeira protecção contra os piores aspecto da crise? E o que poderia ela fazer para melhorar este estatuto?
7- O sistema de Bretton Woods (sob a sua última versão dos anos 1970) está em vias de afundar? O euro deve substituir o dólar?
8- O que se pode esperar do próximo G20 em Londres?
9- Pensa que a deflação seja actualmente a maior ameaça que paira sobre as economias mundiais?
10- Pensa que o governo Obama estará em condições de impedir os Estados Unidos de soçobrar na "Muito grande depressão americana"?
11- Em termos de moedas, para além da vossa antecipação referente à retomada da queda do dólar dos EUA ao longo de todos os próximos meses, pensa que a libra esterlina e o franco suíço sejam sempre moedas de estatuto internacional?
12- Pensa que o mercado dos CDS esteja a ponto de implodir? E quais seriam as consequências de um tal fenómeno?
13- A "bolha dos Títulos do Tesouro dos EUA" estará a ponto de explodir?

16/Dezembro/2008

Notas:
(1) Acerca desta crise é útil ler uma contribuição muito interessante de Robert Guttmann publicada no 2º semestre de 2008 no sítio web Revues.org , apoiado pela Maison des Sciences de l’Homme Paris-Nord..
(2) São as matérias-primas que começam a relançar o mercado do transporte marítimo internacional. Fonte: Financial Times, 14/12/2008
(3) Um vez que são os países que mais desenvolveram os sistemas de reforma por capitalização. Ver GEAB Nº 23 . Mas também é o caso da Irlanda. Fonte: Independent, 30/11/2008
(4) Fonte: OCDE , 12/11/2008
(5) Fonte: NU.NL , 15/12/2008
(6) Fonte: BBC , 09/12/2008
(7) Fontes: WallStreetJournal, 17/11/2008 ; Phillyburbs , 25/11/2008 ; RockyMountainNews , 19/11/2008
(8) Fonte: CNBC , 05/12/2008
(9) E não mencionamos sequer a influência da explosão da bolha dos Títulos do Tesouro dos EUA que também afectará brutalmente os fundos de pensão. Ver Q&A, GEAB N°30.
[*] Global Europe Anticipation Bulletin.
O original encontra-se em www.leap2020.eu

Este comunicado encontra-se em http://resistir.info/ .

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Apelo da sociedade civil palestina: "Cessar o massacre de Gaza já!"

O sionismo volta a assassinar:
  • 282 mortos e 900 feridos pelos F-16 de Israel
  • 100 toneladas de bombas sobre uma população civil indefesa
  • cumplicidade da União Europeia no crime
  • Apelo da sociedade civil palestina:
    "Cessar o massacre de Gaza – Boicotar Israel já!"

    por BNC [*]

     gaza_27dez08

  • Hoje, 27/Dezembro/2008,o exército israelense de ocupação cometeu um novo massacre em Gaza, matando e ferindo centenas de civis palestinos, inclusive um número ainda não estabelecido de escolares que retornavam da escala quando começaram os primeiros ataques israelenses. Este último banho de sangue, se bem que mais implacável que os anteriores, não é o primeiro perpetrado perpetrado pelo Estado sionista. Ele coroa meses de um sítio israelense contra Gaza que deveria ser amplamente condenado e sancionado como um acto de genocídio contra 1,5 milhão de palestinos que vivem naquela faixa costeira.
    Gaza, 27 décembre 2008 (palestine-info.cc)
    Israel parece querer marcar o seu 60º ano de existência da mesma maneira como se instalou – a perpetrar massacres contra o povo palestino. Em 1948, a maioria da população palestina autóctone sofreu uma limpeza étnica sendo expulsa dos seus lares e das suas terras, em parte por massacres como o de Deir Yassin. Hoje, os palestinos de Gaza, cuja maior parte é constituída por refugiados, não tem mesmo a opção de procurar refúgio em outro lado. Aprisionados por trás dos muros de um gueto e acuados à beira da fome pelo sítio, eles são os alvos fáceis dos bombardeamentos cegos de Israel.
    O professor Richard Falk, relator especial do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas para os Territórios Palestinos Ocupados e professor emérito de direito internacional na Universidade de Princeton, descreveu nestes termos o cerca israelense de Gaza no ano passado, quando este ainda não era comparável em gravidade à situação actual:

  • "Será um exagero irresponsável associar o tratamento dos palestinos às práticas de atrocidades colectivas dos nazis? Não creio. Os recentes desenvolvimentos em Gaza são particularmente inquietantes porque exprimem de modo evidente uma intenção deliberada da parte de Israel e dos seus aliados de submeter toda uma comunidade humana a condições da maior crueldade que põem em perigo a sua vida. A sugestão de que este esquema de conduta é um holocausto em vias de ser feito representa um apelo bastante desesperado aos governos do mundo e à opinião pública internacional para que ajam com urgência a fim de impedir que estas tendências actuais ao genocídio não conduzam a uma tragédia colectiva".

    O episódio mais brutal desta "tragédia colectiva" é o que vemos hoje
    Os crimes de guerra de Israel e outras graves violações do direito internacional em Gaza, assim como no resto dos territórios palestinos ocupados, inclusive Jerusalém, não teriam podido ser cometidos sem a cumplicidade directa ou indirecta dos governos do mundo, em particular dos Estados Unidos, da União Europeia, do Egipto e de outros regimes árabes.
    Enquanto o governo dos Estados Unidos sempre apadrinhou, financiou e protegeu da censura internacional as políticas do apartheid e coloniais de Israel contra a população autóctone da Palestina, a União Europeia mostrou-se incapaz no passado de apresentar uma cara de respeito pelo direito internacional e pelos direitos humanos universais. Esta distinção terminou efectivamente a 9 de Dezembro último, quando o Conselho da União Europeia decidiu por unanimidade recompensar o desprezo criminoso de Israel pelo direito internacional com a revalorização do Acordo de associado entre a UE e Israel. Este deduziu claramente, a partir desta decisão, que a UE tolera as suas acções contra os palestinos submetidos à sua ocupação. A sociedade civil palestina recebeu igualmente a mensagem: os governos europeus tornaram-se tão cúmplices dos crimes de guerra de Israel quanto o governo dos EUA.
    A grande maioria dos governos do mundo, particularmente no Sul, têm igualmente uma parte da responsabilidade. Continuando como de costume a fazer negócios com Israel, por acordos comerciais, compras de armas, ligações universitárias e culturais, aberturas diplomáticas, ele forneceram a base necessária para a cumplicidade das potências mundiais e, em consequência, à impunidade de Israel. Além disso, a sua inacção na ONU é indesculpável.
    O padre Miguel D’Escoto Brockman, presidente da Assembleia Geral da ONU, preconizou num discurso recente diante da Assembleia o único caminho moral a seguir pelas nações do mundo nas suas relações com Israel:

    "Há mais de 20 anos, nós, as Nações Unidas, havíamos seguido a via da sociedade civil quando havíamos acordado que eram necessárias sanções para proporcionar meios de pressão não violentos contra a África do Sul a fim de que ela ponha fim às suas violências. Hoje deveríamos considerar seguir a via de uma nova geração da sociedade civil, que apela a uma campanha não violenta semelhante de boicote, de desinvestimento e de sanções para fazer pressão sobre Israel a fim de que ponha um fim às suas violações".

    Agora, mais do que nunca, o Comité Nacional Palestino para o Boicote, o Desinvestimento e as Sanções (BNC) apela à sociedade civil internacional a que não se limite a protestar e condenar de diversas maneiras o massacre perpetrado por Israel em Gaza, mas a igualmente associar-se à campanha internacional de Boicote, Desinvestimento e Sanções contra Israel para por fim à sua impunidade e fazê-lo responsável por suas violações sistemáticas do direito internacional e dos direitos dos palestinos. Sem uma pressão sustentada e eficaz exercida pelas pessoas de consciência do mundo inteiro, Israel continuará a perpetrar gradualmente seus actos de genocídio contra os palestinos, enterrando toda perspectiva de uma paz justa no sangue e sob as ruínas de Gaza, Nablus e Jerusalém.
    Comité Nacional Palestino para o Boicote, o Desinvestimento e as Sanções (BNC)
    [Palestinian Boycott, Divestment and Sanctions National Committee, (BNC)]
    Ramalá ocupada, Palestina
    27 de Dezembro de 2008.

    [*] O Comité Nacional Palestino para o Boicote, o Desinvestimento e as Sanções (BNC) inclui as seguintesorganizações:
    Council of National and Islamic Forces in Palestine ; General Union of Palestinian Workers ; Palestinian General Federation of Trade Unions ; Palestinian Non-Governmental Organizations’ Network (PNGO) ; Federation of Independent Trade Unions ; Union of Palestinian Charitable Organizations ; Global Palestine Right of Return Coalition ; Occupied Palestine and Golan Heights Advocacy Initiative (OPGAI) ; General Union of Palestinian Women ; Palestinian Farmers Union (PFU) ; Grassroots Palestinian Anti-Apartheid Wall Campaign (STW) ; Palestinian Campaign for the Academic and Cultural Boycott of Israel (PACBI) ; National Committee to Commemorate the Nakba ; Civic Coalition for the Defense of Palestinian Rights in Jerusalem (CCDPRJ) ; Coalition for Jerusalem ; and Palestinian Economic Monitor.
    Ver também http://www.uruknet.de/?l=x&p=-6&size=1&hd=0
    Texto original em inglês: http://www.bds-palestine.net/ ?q=node/235
    Texto em francês: http://www.silviacattori.net/article646.html

    Este texto encontra-se em http://resistir.info/ .

  • Comentários

    História da Intifada Palestina

    Israel: cinco décadas de pilhagem e limpeza étnica

    Por Cecília Toledo, jornalista e militante do PSTU,
    para a revista Marxismo Vivo

    “Foi para uma terra sem povo que lentamente, no final do século passado, começou a se encaminhar um povo sem terra”.1 Essa história, que desde a fundação de Israel em 1948 vem sendo martelada na cabeça dos povos do mundo inteiro, começa a ruir. E já não mais apenas por obra dos marxistas revolucionários, mas dos próprios israelenses. Tom Segev, um dos mais destacados historiadores de Israel da atualidade, entrevistado recentemente pelo jornal Folha de S.Paulo2, demonstra essa falácia. Autor do livro 1949 – Os Primeiros Israelenses, Segev se baseia no diário do pai-fundador de Israel, David Ben Gurion, no qual ele descreve sua política para forçar a saída dos árabes do recém-criado país. O livro, antes repudiado por mostrar que a versão oficial, em voga até então, era fantasiosa e que os árabes não deixaram Israel por vontade própria, mas foram expulsos com requintes de crueldade, já está inclusive sendo adotado nas escolas.

    Esse “reconhecimento” por parte da história oficial é um tanto quanto tardio se levamos em conta que outros autores, em especial os marxistas, já haviam, exaustivamente, contado a história real do sionismo e desmascarado uma das mais monumentais falsificações históricas já feitas até hoje. Entre esses historiadores marxistas destacam-se o militante revolucionário Abraham Leon, morto nas câmaras de gás de Auschwitz aos 26 anos, e autor do importante livro A Questão Judia, e Ralh Schoenman, que escreveu a História Oculta do Sionismo, um relato detalhado e que não deixa dúvidas sobre a ocupação judia da Palestina. No entanto, esse reconhecimento é mais uma demonstração de que a situação é tão grave e o avanço da Intifada tão forte que até importantes historiadores israelenses já estão admitindo que a ideologia “da terra sem povo” é pura invencionice, e negam a torrente de mentiras que os sionistas vêm pregando há décadas e que serviram para iludir muita gente.

    Judeus: um povo-classe nas sociedades pré-capitalistas

    Abraham León parte da proposta de Marx para demonstrar que a suposta originalidade do povo judeu tem causas materiais e históricas, sem qualquer relação com Jeová ou uma pseudo “essência” racial imutável, como supõem tanto os anti-semitas quanto os sionistas. Segundo Marx, para entender a questão judia, “não devemos buscar o segredo do judeu em sua religião, mas o segredo da religião no judeu real” 3. Partir da religião, como normalmente se costuma fazer, não explica a questão judia; para entendê-la é preciso entender o judeu em seu papel econômico e social.

    León vai em busca das origens do povo judeu e chega à importante e rica noção de povo-classe. Nas sociedades pre-capitalistas, os judeus foram uma classe social, um povo-classe4, como são, entre outros povos, os ciganos. Os judeus representavam as formas “pré-históricas” do capital, tanto no mundo antigo como no mundo feudal. No feudalismo, as transações com dinheiro ocorriam relativamente à margem do modo de produção, já que essas sociedades eram produtoras de valores de uso e não de troca. Por ser uma atividade marginal, era exercida por “estrangeiros”, por povos-comerciantes, como os fenícios, os judeus e os lombardos. Esses eram povos-classe que, como dizia Marx, existiam nos poros da sociedade produtora de valores de uso. Assim, os judeus são a sobrevivência de uma velha classe mercantil e financeira pre-capitalista.

    Sobre essas relações materiais dos judeus se assentava uma superestrutura institucional e ideológica: autoridades comunitárias, uma religião “especial” e o mito de considerar-se descendentes do primitivo povo hebreu que habitava a Palestina no início de nossa era. Essa superestrutura ajudava a manter a coesão do povo-classe mas, ao mesmo tempo, falsificava a verdadeira natureza de sua existência. É o fenômeno da falsa consciência, comum a todas as ideologias. E explica porque não há unidade racial entre os judeus. Oculto sob esse manto ideológico-religioso, ocorria o fenômeno da incorporação de indivíduos ou grupos inteiros ao povo-classe. Isso explica que tenha existido judeus de “raça” mongólica no Daghestão, judeus negros (os falasha) na Etiópia, judeus árabes no Islã e judeus de origem eslava na Europa Oriental. Isso prova que a descendência comum de Abraham ou dos habitantes da Palestina no início de nossa era é puro mito.

    Com o desenvolvimento do capitalismo, a velha classe comercial pre-capitalista judia foi perdendo as bases materiais de sua existência como povo-classe. Na Europa Ocidental, especialmente na Inglaterra, os judeus começam a assimilar-se de forma natural. Mas antes que esse processo atingisse a Europa Oriental, de capitalismo mais atrasado, entramos na etapa imperialista do capitalismo, de decomposição no mundo todo.

    Os judeus, tanto na Europa Ocidental quanto Oriental, passaram a enfrentar uma situação dramática. Ao colocar a solução do problema judeu nos termos na luta pelo socialismo, o marxismo começou a exercer uma grande atração sobre as massas judias. Seu caminho era fundir-se com a classe trabalhadora em suas lutas contra o capitalismo, porque para as massas judias miseráveis de Varsóvia ou de Kiev, o caminho seguido por seus correligionários mais afortunados da Inglaterra ou da França, da assimilação como burgueses nos marcos do capitalismo, já estava fechado para elas. Na Rússia, enquanto o império zarista alentava os choques entre russos e polacos ou ucranianos, ou destes contra os judeus, e enquanto o Império Austro-Húngaro fazia o mesmo no mosaico de povos que dominava, os marxistas revolucionários chamavam a unidade de todos os trabalhadores (de qualquer língua, nacionalidade ou “raça”) para lutar contra esses regimes e contra toda a burguesia imperialista européia.

    Por isso, muitos operários, estudantes e intelectuais de origem judia ingressaram nas fileiras socialistas e se assimilaram aos trabalhadores de seus países. Mas o velho povo-classe, nas condições do capitalismo moderno, era cada vez menos homogêneo. E assim também famílias ricas, como os Rothschild e outros milionários se ligaram à burguesia imperialista dos diversos países europeus. E, entre as saídas burguesas para o problema judeu apontadas por esses setores, a mais importante é o sionismo. Outra saída reformista foi proposta por aqueles que ficaram conhecidos como bundistas.

    O que foi o bundismo

    Os bundistas eram membros do Bund, a União Geral de Operários Judeus da Lituânia, Polônia e Rússia, fundada em 1897. Surgiram na Rússia como um setor da social-democracia, tanto que, no início, fez parte do Partido Operário Social-Democrata Russo, mas quando este se dividiu, o Bund se colocou contra os bolcheviques5.

    A base social do Bund era constituída por setores de artesãos, semiproletários ou operários de pequenas oficinas, especialmente da indústria de vestuário. Era um vasto setor com um pé no velho gueto e outro no proletariado industrial moderno. Isto se refletia na ideologia do Bund que, por um lado se reivindicava marxista e revolucionário e, de outro, negava o internacionalismo ao levantar barreiras entre os operários de distintas nacionalidades. Com a bandeira de defender a cultura nacional, pregava que os operários judeus deviam organizar-se de forma separada dos operários russo, poloneses etc. Assim, acabava por fazer o jogo da burguesia, ao dividir os trabalhadores de cada fábrica ou cidade segundo sua origem nacional ou “racial”.

    Esse caráter contraditório, reflexo de uma contradição real de sua base social, determinava que, apesar de sua capitulação ao nacionalismo burguês, o Bund não propunha que os trabalhadores judeus se separassem da luta de classe e se unissem à burguesia judia para ir colonizar a Palestina ou algum outro território. Quem fez isso foram os sionistas.

    O surgimento do sionismo

    Também em 1897, quando surgiu o Bund, realizou-se em Basiléia, Suíça, o Congresso de Fundação da Organização Sionista6. O pano de fundo da irrupção do movimento sionista foi a rápida capitalização da economia russa depois da reforma de 1863, que tornou insustentável a situação das massas judias das pequenas cidades. No Ocidente, as classes médias, trituradas pela concentração capitalista, começam a se voltar contra o elemento judeu, cuja competição agrava sua situação.7

    Em meio a esse clima, surge na Rússia a Associação dos Amantes de Sion e é publicado o livro de León Pinsker, A Auto-emancipação, preconizando o retorno à Palestina como única solução possível para os judeus. Logo depois, um jornalista judeu de Budapest, Teodoro Herzl, escreve O Estado Judeu, que até hoje é considerado o evangelho do movimento sionista, segundo Abraham Leon.8 Na França, o barão de Rothschild, junto com outros magnatas judeus, se opõe à chegada em massa de imigrantes judeus nos países ocidentais e começa a apoiar a obra de colonização judia da Palestina. “A seus ‘irmãos desafortunados’ a voltar ao país de seus ‘antepassados’, ou seja, a ir o mais longe possível, nada tinha de desagradável para a burguesia judia do Ocidente, que temia, com razão, o crescimento do anti-semitismo”, diz León. Assim, ainda que a Organização Sionista passasse a disputar a mesma clientela que o Bund e inclusive o socialismo revolucionário, seu caráter de classe era marcadamente distinto: aparecia como o programa de um setor da grande burguesia judia, que terminaria sendo dominante dentro dela.

    No princípio, o sionismo aparece como uma reação da pequena burguesia judia, duramente golpeada pela crescente onda de anti-semitismo, tendo que se bandear de um país a outro, que quer atingir a Terra prometida a todo custo para livrar-se dessa situação. No entanto, o sionismo procura assentar-se em uma explicação religiosa para justificar sua existência. No ano 70 da era cristã, os judeus teriam sido expulsos de Jerusalém, ocupada pelos invasores romanos. Como na Bíblia, Jerusalém era considerada a pátria dos judeus, eles teriam sido expatriados; foi a famosa diáspora, que espalhou os judeus pelos quatro cantos do mundo.

    Voltando a Marx, para entender a questão judia é preciso partir das condições materiais de vida do judeu e não da religião, das fantasias e ideologias criadas ao longo da história. “Enquanto que o sionismo é, realmente, produto da última fase do capitalismo, ou seja, do capitalismo que começa a se descompor, se vangloria de ter sua origem em um passado mais que bimilenário. E se bem o sionismo é essencialmente uma reação contra a crise do judaísmo gerada pela combinação do desmoronamento do feudalismo com a decadência do capitalismo, afirma ser uma reação contra a situação existente desde a queda de Jerusalém, no ano 70 da era cristã”, diz A.León.

    Mas o próprio surgimento do movimento sionista refuta essas pretensões. “Como crer que o remédio a um mal existente há dois mil anos só tenha sido encontrado no final do século XIX? O sionismo vê a queda de Jerusalém como causa da dispersão e por conseguinte, a origem de todos os males do judeus no passado, no presente e no futuro. “A fonte de todas as desgraças do povo judeu está na perda de sua pátria histórica e sua dispersão em todos os países”, declara a delegação “marxista” do Poalé-Sión no Comitê holando-escandinavo9.

    Essa história dos judeus, como é contada pelos sionistas, trata de criar o pano de fundo para justificar a ocupação da Palestina. Assim, depois da violenta dispersão dos judeus por obra dos romanos, os judeus não quiseram assimilar-se. Imbuídos de sua “coesão nacional”, “de um sentimento ético superior” e de “uma indestrutível crença em um Deus único”, teriam resistido a todas as tentativas de assimilação.10 O que não é verdade, já que, como vimos anteriormente, houve ao longo desses dois mil anos inúmeros casos de assimilação. Mas, de acordo com a histórica construída pelos sionistas, isso jamais teria ocorrido; a única esperança dos judeus durante esses dias sombrios que duraram dois mil anos era retornar à antiga pátria.

    Segundo A.León, nunca o sionismo havia se colocado essa questão de forma séria. Por que, pergunta, durante esses dois mil anos jamais tentaram voltar realmente a essa pátria? Por que foi necessário esperar até o fim do século XIX para que Herzl os convencesse dessa necessidade? Por que todos os seus predecessores eram tratados como falsos messias? Para responder a essas incômodas perguntas, o sionismo recorre aos mitos. “Enquanto as massas acreditaram que deviam esperar na Diáspora até a chegada do Messias, foi preciso sofrer em silêncio”, diz Zitlovski.11 No entanto, como diz León, essa explicação não explica nada. Se trata precisamente de saber por que as massas judias acreditavam que deviam esperar o Messias para poder ‘regressar à sua pátria’. Como a religião é um reflexo ideológico dos interesses sociais, a partir do final do século XIX ela começou a deixar de ser um obstáculo para o avanço do sionismo e a se transformar numa cortina de fumaça para seu expansionismo, servindo para encobrir e justificar todas as suas mazelas.

    Essas concepções idealistas do sionismo são inseparáveis do dogma do anti-semitismo eterno, ou seja, de que passe o que passe, os judeus serão sempre perseguidos. Dessa forma, o sionismo transpõe o anti-semitismo moderno para toda a história, economizando o trabalho de investigar as diversas formas de anti-semitismo e suas causas, e inclusive omitindo o fato de que em diversas épocas históricas os judeus não foram oprimidos, mas opressores, como membros da classe dominante.

    “Na verdade, a ideologia sionista, como toda ideologia, não é senão o reflexo desfigurado dos interesses de uma classe. É a ideologia da pequena burguesia judia, oprimida entre o feudalismo em ruínas e o capitalismo em decadência, sintetiza A.León. Ele ressalta um fato justo, ou seja, que a refutação das fantasias ideológicas do sionismo não refuta, naturalmente, as necessidades reais que o fizeram nascer. É o moderno anti-semitismo e não o mítico anti-semitismo “eterno” o melhor agitador em favor do sionismo. Assim a questão fundamental é saber em que medida o sionismo é capaz de resolver não “o eterno problema judeu” mas a questão judia na época da decadência capitalista.

    O defensores do sionismo o comparam com os demais movimentos nacionais. Mas o movimento nacional da burguesia européia é conseqüência do desenvolvimento capitalista; reflete a vontade da burguesia de criar as bases nacionais da produção, de abolir os resquícios feudais. Mas no século XIX, época do florescimento dos nacionalismos, a burguesia judia, longe de ser sionista, era profundamente assimilacionista. O processo econômico que fez surgir as nações modernas lançava as bases para a integração da burguesia judia na nação burguesa. Só quando o processo de formação das nações chega ao fim, quando as forças produtivas deixam de crescer, premidas pelas fronteiras nacionais, surge o processo de expulsão dos judeus da sociedade capitalista e o moderno anti-semitismo. A eliminação do judaísmo acompanha a decadência do capitalismo. Longe de ser um produto do desenvolvimento das forças produtivas, o sionismo é justamente a conseqüência da total paralisia desse desenvolvimento, da petrificação do capitalismo, nas palavras de A Leon. Assim, enquanto o movimento nacional é um produto do período ascendente do capitalismo, o sionismo é fruto da era imperialista. A tragédia judia do século XX é uma conseqüência direta da decadência do capitalismo.12

    Com toda razão, A.León lembra que justamente aí está o principal obstáculo para a realização do sionismo, a chave para se compreender a crise que vive a Palestina desde a fundação do Estado de Israel. A decadência capitalista, base do crescimento do sionismo, é também a causa da impossibilidade de sua realização. A burguesia judia se vê obrigada a criar um Estado nacional e assegurar as condições para o desenvolvimento de suas forças produtivas justamente na época em que as condições para isso desapareceram há muito tempo. A decadência do capitalismo, se por um lado colocou de forma tão aguda a questão judia, por outro torna impossível sua solução pela via sionista. E não há nada de assombroso nisso, diz Leon. Não se pode suprimir um mal sem destruir suas causas. O sionismo quer resolver a questão judia sem destruir o capitalismo, principal fonte dos sofrimentos dos judeus”.13

    Isso remarca, como ferro em brasa, o caráter de classe do movimento sionista. É certo que os pioneiros da colonização da Palestina eram artesãos, pequenos comerciantes pobres, pessoas sem grandes posses. Dessa forma, tratou-se de criar uma imagem “plebéia” e até “operária” e “socialista” ao sionismo. Seus defensores, principalmente os que se dizem de esquerda, aceitam a idéia de que o movimento sionista não era um fator progressivo na política européia, mas argumentam que isso era secundário frente a um fato essencial: o sionismo seria o movimento de liberação nacional do povo judeu. E do “povo mais pobre”, daí ser uma “causa justa”.

    É claro que não estava nos planos de Rothschild e da grande burguesia judia irem pessoalmente à Palestina cultivar a terra. O que fizeram foi um impulsionar um movimento para confinar os judeus mais pobres na Terra Santa e, com isso, afastá-los da luta de classes na Europa e dos partidos de esquerda, e, por outro lado, livrarem-se, eles em primeiro lugar, da fúria antisemita que crescia a olhos vistos. Outro objetivo desse movimento impulsionado pela burguesia judia era transferir essas massas para fora da Europa para constituir um Estado Judeu num ponto estratégico, em meio à maiores reservas de petróleo do mundo, ameaçadas pelo ascenso das massas árabes. Por isso, o Estado de Israel se tornou um enclave do imperialismo na região, o gendarme do mundo árabe.

    Uma região “vazia”

    Segundo os sionistas, a Palestina era uma região praticamente vazia. “Vastas regiões do país permaneciam inexploradas e pertenciam a senhores feudais ausentes. Estavam infestadas de malária e, além de algumas barracas de beduínos dispersas, estavam desabitadas e, por isso, disponíveis”.14 Nas vizinhanças da Terra Santa havia apenas alguns núcleos heterogêneos, muçulmanos, chequizes, maronitas, cristãos e gregos ortodoxos. Foi para uma terra sem povo que lentamente, no final do século passado, se começou a encaminhar um povo sem terra”.15

    Vive-se a época da expansão colonial da Europa na Ásia e África. É nesse marco histórico se inicia o sionismo. E a Palestina, longe de ser uma terra vazia e sem dono, estava ocupada por outro povo, o povo árabe. Isso era um problema para a burguesia judia européia, tanto que Herzl nem menciona a palavra “árabe” em seu livro, apesar de saber, obviamente, da existência dos árabes. Essa falsificação, escondida durante tantos anos, não resiste mais à evidência dos fatos e, principalmente, ao recrudescimento da luta palestina, obrigando até mesmo os historiadores oficiais de Israel a reconhecer que aquela “não era uma terra sem povo”.

    Esse foi o papel reservado aos desesperados judeus da Europa Oriental: servir de ponta de lança dos planos colonizadores da burguesia imperialista, em especial os Estados Unidos, interessados em criar uma cabeça de lança no Oriente Médio. Com um discurso filantrópico, a expansão colonial usava as massas miseráveis de judeus para seus fins nada louváveis. Quem poderia se opor a que os pobres judeus saíssem da escuridão dos guetos para o sol da Palestina? Infelizmente, essa troca, por mais benéfica que tivesse sido para eles, foi feita às custas dos árabes, massacrados e, estes sim, expulsos de sua terra de fato, e não por obra e graça de uma história bíblica.

    Declaração Balfour: a segunda etapa do sionismo

    A política de Teodoro Herzl, o pai do sionismo, e seus sucessores foi a de aproveitar-se do processo de expansão colonial imperialista para ocupar a Palestina. Para isso, precisava que alguma potência imperialista abraçasse a causa sionista. Assim, sua atividade principal foram as gestões perante as diversas potências européias, buscando insertar o sionismo como parte de sua política colonial. Esse apoio veio, em primeiro lugar, da Inglaterra, um império que, desde meados do século, se expandia a todo vapor.

    As gestões de Herzl em Londres foram bem acolhidas, mas havia um problema objetivo: a Palestina estava em mãos da Turquia. A Inglaterra então oferece a Herzl colonizar a Uganda ou o Sinai egípcio, mas essa possibilidade não se concretiza. Havia um segundo problema objetivo: o sionismo não era muito forte entre as massas judias. Os que queriam emigrar, o faziam massivamente para a América; tanto que uma das opções discutidas foi a constituição do Estado sionista na Argentina. Pouquíssimos judeus iam para a Palestina. E uma boa parte dos que ficavam eram antisionistas, ou estavam sob a influência dos partidos de esquerda.

    Com a I Guerra Mundial, chegara a hora da repartição da Turquia. Para apressá-la, a Inglaterra se serve do movimento nacional dos árabes que havia começado a despertar. E, por outro lado, firma um acordo com a França, de repartição da zona, além de assinar a chamada Declaração Balfour (2/11/1917), que ficou conhecida como a “aliança de casamento” entre o sionismo e o imperialismo inglês.

    Assim começava a segunda etapa do sionismo, que culminaria com a criação do Estado de Israel. Além de dar aos ingleses um valioso auxiliar para estabelecer um futuro protetorado em Palestina, a Declaração Balfour colocava em mãos inglesas uma poderosa arma para liquidar o movimento nacional árabe, fortalecer a política de guerra do imperialismo britânico e sua luta contra a Revolução Russa.

    O caminho em direção a Israel estava sendo traçado com as seguintes características: 1) por uma declaração unilateral de uma grande potência imperialista; 2) essa declaração impunha o destino de uma região da Ásia que jamais havia pertencido à Inglaterra, que dava de presente a Lorde Rothschild o território de uma nação alheia; 3 não levava em conta os desejos do povo palestino, que era 93% árabe em 1917. Esses 93% eram reduzidos à condição de não-judeus, confinados em um “lar nacional judeu”, ou seja tratados como estrangeiros em sua própria terra.

    O mandato britânico (1918-1948)

    No final da I Guerra Mundial, os Aliados (Inglaterra, França, Itália e EUA) criaram a Sociedade das Nações, antecessora da atual ONU, que “outorgou” à Inglaterra o mandato sobre a Palestina. Mas naqueles tempos as coisas não corriam muito tranqüilas para o imperialismo. Havia surgido, pela primeira vez na história, um Estado Operário, a URSS que se opunha à expansão colonialista e em todo o mundo colonial começava uma grande onda de lutas antiimperialistas.

    Dentro do mundo árabe, o Oriente Médio concentrou as lutas mais importantes contra os imperialismos inglês e francês. A Palestina foi o eixo dessa luta, especialmente durante a insurreição de 1936/39, que começou com uma greve geral que durou seis meses e, para ser sufocada, exigiu a metade dos efetivos de todo o exército britânico, um dos mais poderosos do mundo nesse momento. Centenas e centenas de palestinos foram mortos, detidos e condenados à forca ou a longas penas de prisão. Em 1939, o povo palestino estava derrotado. Essa é a chave para entender a relativa facilidade com que em 1947/48 foi instalado aí o Estado de Israel. 16

    A ocupação, explica Jon Rothschild, se deu em base a três pilares do movimento sionista: kibush hakarka (conquista da terra), kibush haavoda (conquista do trabalho) e t’ozteret haaretz (produto da terra)17. “Detrás dessas sonoras palavras havia uma dura realidade. Conquista da terra significava que toda a terra possível fosse adquirida (legalmente ou não) dos árabes, e que nenhuma terra de judeus fosse vendida ou de alguma maneira retornasse aos árabes. Conquista do trabalho significava que nas fábricas e terras de judeus dava-se preferência aos trabalhadores judeus. O trabalhador árabe era boicotado. De fato, a Histadrut, que hoje se diz a Central Operária em Israel, foi criada para impor o boicote aos trabalhadores árabes. Produto da terra significava praticar o boicote à produção árabe por parte dos colonizadores judeus, e manter somente a compra de produtos das terras ou negócios judeus”.18

    Essa política de ocupação – da qual os sionistas faziam propaganda dizendo que era uma política “socialista”, que visava ajudar os trabalhadores e pobres judeus – significou a desgraça para o povo palestino, porque foi imposta sobre a terra que eles ocupavam. Apesar de serem minoria no início (depois cresceram muito), os sionistas tinham um poder econômico muito maior que os árabes, além de contar com o apoio do imperialismo. Isso lhes deu força para cair arrasando o povo árabe da Palestina, que ficaram reduzidos a trabalhadores sem trabalho e camponeses sem terra. Muito estranho esse tipo de socialismo, que ataca os trabalhadores. “O árabes eram expulsos ou boicotados nas empresas de propriedade sionista ou de capital estrangeiro (concessões), que geralmente eram administradas por gerentes sionistas. Cerca de 53% das empresas eram concessões e 40% de propriedade sionista, sendo que apenas 6% eram de propriedade de árabes (dados de 1939). Assim, ficava um mercado de trabalho super-reduzido para os trabalhadores árabes.

    Outro tanto ocorria com o t’ozteret haaretz (produto da terra), uma política que significava o boicote à força, praticado por bandos armados da Histadrut, de todo produto árabe, uma repressão que não poupava nem mesmo os judeus que ousassem adquirir algum alimento produzido por mãos árabes.

    Alijados da terra, do trabalho e da possibilidade de comercializar seus produtos, os palestinos se tornaram uma massa marginalizada e pronta para ser expulsa de suas terras. A resistência palestina, em forma de guerrilha, é praticamente esmagada em 1939 pelo Exército Britânico e a Haganá, o exército extra-oficial formado pelo sionismo, num ataque conjunto para mostrar “quem manda na Palestina”. Nessa época, tinha início a Segunda Guerra Mundial e os sionistas estavam preocupados com o destino da Inglaterra, seu imperialismo protetor, diante de uma nova repartição do mundo em zonas de influência. Queriam garantir para a Palestina a proteção imperialista, já que tudo indicava que os EUA e não mais a Inglaterra seriam daí em diante o grande senhor do mundo. A suposta luta antiimperialista alardeada pelo sionismo era, simplesmente, o desejo de passar de um sócio menos forte para outro mais poderoso. Isso foi expresso com clareza por Ben Gurion:

    “Nossa maior preocupação era a sorte que seria reservada à Palestina depois da guerra. Já estava claro que os ingleses não conservariam seu Mandato. Se se tinha todas as razões para crer que Hitler seria vencido, era evidente que a Grã Bretanha, mesmo vitoriosa, sairia muito debilitada do conflito. Por isso, eu não tinha dúvidas de que o centro de gravidade de nossas forças deveria passar do Reino Unido para a América do Norte, que estava em vias de assumir o primeiro lugar no mundo”. 19

    Sob a órbita norte-americana, o sionismo começou a dar passos largos em direção à criação do Estado de Israel. Ao final da guerra, as grandes potências, através da ONU, não só fizeram vistas grossas à ocupação e massacre do povo palestino, como deram o status legal à situação colonial criada durante a dominação britânica. Em base a uma proposta de partilha da Palestina feita durante o Mandato inglês20 e que incendiou a revolta em todo o mundo árabe, em 29 de novembro de 1947 vota-se a divisão do país em dois estados: um sionista e outro árabe. Novamente, sem qualquer consulta ao povo palestino e com o aval da burocracia soviética, que enviou armas e aviões para ajudar o imperialismo a massacrar os árabes. Afogada em um banho de sangue a resistência palestina, é proclamado o Estado de Israel, em maio de 1948.

    Israel: a tragédia palestina

    Em 1947 havia 630 mil judeus e um milhão e trezentos mil árabes palestinos21. Assim, no momento em que as Nações Unidas dividem a Palestina, os judeus eram minoria (31% da população). Essa divisão, promovida pelas principais potências imperialista com o apoio de Stalin, deu 54% da terra fértil ao movimento sionista. Mas, antes de que se formasse o Estado de Israel, o Irgun e as Haganah (organizações paramilitares israelenses) já haviam se apoderado das três quartas partes da terra e expulsado seus habitantes. Assim, dos 475 povoados palestinos que havia em 1948, 385 foram completamente arrasados, reduzidos a cinzas e os 90 que ficaram tiveram suas terras confiscadas. Esse processo ficou conhecido como a “judaização” da Palestina.

    Raphael Eitan, então chefe do Estado Maior das Forças Armadas israelenses, não podia ser mais claro quando disse que “Declaramos abertamente que os árabes não têm qualquer direito a um só centímetro de Eretz Israel. Os de bom coração, os moderados, devem saber que as câmaras de gás de Adolf Hitler serão como brincadeira de criança. O único que entendem e entenderão é a força. Utilizaremos a força mais decisiva, até que os palestinos se aproximem de nós de joelhos”.22

    David Ben Gurion, em um discurso pronunciado em 13 de outubro de 1936, formulava assim a estratégia sionista: “Quando nos tornemos uma força com peso depois da criação do estado, aboliremos a partição e nos expandiremos a toda Palestina. O estado será somente uma etapa na realização do sionismo, e sua tarefa é preparar o terreno para nossa expansão. O estado terá que preservar a ordem, não com palavras, mas com metralhadoras”.23

    E, de fato, assim foi feito. Entre 29 de novembro de 1947, data da divisão da Palestina pela ONU e 15 de maio de 1948, quando foi formalmente proclamado o Estado de Israel, o exército sionista e as milícias paramilitares se apoderaram de 75% da Palestina, expulsando do país 780 mil árabes. Os que ficaram foram vítimas de perseguições selvagens e uma carnificina só comparada ao holocausto nazista.

    Assim começou a tragédia palestina que dura até hoje.

    Roubo, puro e simples, das terras e dos negócios dos árabes

    É preciso entender o alcance e as conseqüências dessa política assassina por parte do sionismo. No território ocupado por Israel depois da partilha havia 950 mil árabes palestinos, vivendo em cerca de 500 povoados e em todas as grandes cidades, entre elas Tiberíades, Safed, Nasaré, Shafa Amr, Acre, Haifa, Yaffa, Lidda, Ramle, Jerusalém, Majdal (Ashquelon), Isdud (Ashdod) e Beersheba. Em menos de seis meses sobraram apenas 138 mil pessoas. A grande maioria dos palestinos haviam sido assassinados, expulsos pela força ou fugido aterrorizados diante dos bandos assassinos das unidades do exército israelense.

    Em discurso pronunciado para uma platéia de estudantes do Instituto de Tecnologia de Israel, Moshe Dayan, herói da “guerra dos seis dias”, não se preocupou em esconder o fato de que Israel fora fundada sobre uma tenebrosa falsificação histórica: “Viemos aqui, a um país que estava povoado por árabes, e estamos construindo aqui um estado hebreu, judeu. No lugar dos povoados árabes levantamos povoados judeus. Vocês nem sequer sabem os nomes desses povoados, e não os reprovo por isso, porque esses livros de geografia já não existem. Nem os livros, nem os povos existem mais. Nahalal surgiu no lugar ocupado antes por Mahalul, Gevat no lugar de Jibta, Sarid no lugar de Hanifas e Kafr Yehoushu’a no lugar de Tel Shamam. Não há um só assentamento que não tenha sido construído no lugar que um antigo povoado árabe”.24

    Com isso, grandes extensões de terra foram confiscadas ao amparo da Lei de Propriedades de Ausentes, ditada em 1950 em Israel. Até 1947, os judeus possuíam 6% da terra da Palestina. Quando surge formalmente o Estado de Israel, o Fundo Nacional Judeu calcula que tenha se apoderado de 90% da terra. O valor das propriedades roubadas aos árabes era superior a 300 milhões de dólares, em cálculos da época. Se multiplicamos essa cifra pelo valor atual do dólar, cai a máscara: Israel tem pouco a ver com Jeová ou a terra santa, e muito a ver com a pirataria e a pilhagem.

    A ocupação das propriedades palestinas era indispensável para que o Estado de Israel fosse viável. Entre 1948 e 1953 foram criados 370 povoados e assentamentos judeus, sendo 350 deles em propriedades de “ausentes”. Em 1954, calculava-se que 35% dos judeus de Israel viviam em propriedades confiscadas de “ausentes” e 250 mil novos imigrantes se haviam estabelecido em áreas urbanas das quais os palestinos haviam sido expulsos.

    Dez mil empresas e comércios foram entregues a colonos judeus. Se na zona urbana, o saque foi generalizado, no campo a usurpação corria solta. Todas as plantações de limão dos palestinos foram confiscadas; cobriam mais de 240 mil dunums (correspondentes a 21.200 hectares). Até 1951, um milhão de caixas de limões colhidos de propriedades arrebatadas dos árabes – o que correspondia a 10% de todas as divisas de exportação – estavam em mãos israelenses. Nesse mesmo ano, 95% das plantações de oliveiras de Israel eram feitas em terra palestina ocupada. As azeitonas que produziam representavam o terceiro produto mais exportado por Israel, depois dos limões e dos diamantes. Um terço da produção de pedra provinha de 52 pedreiras palestinas usurpadas. As terras confiscadas dos árabes iam parar num Fundo Nacional Judeu, criado em 1954 pelo governo israelense.

    Como lembra Schoenman, a mitologia sionista pretende passar a idéia de que o espírito de sacrifício, de abnegação no trabalho e de perícia dos judeus transformaram a terra desértica, descuidada por seus anteriores guardiães árabes – nômades e primitivos – fazendo florescer o deserto. As plantações palestinas, a indústria, a madeira, as fábricas, casas e fazendas foram espoliadas e saqueadas depois de uma conquista sangrenta: “o barco do estado é um barco pirata, a bandeira que carrega é a caveira com dois ossos cruzados.”25

    Racismo contra o trabalhador árabe

    Mas Israel não é só isso. A sua é uma história que começou com uma grande espoliação e isso obrigou o país a continuá-la, mais e mais. O barco da espoliação nunca encontrou um porto seguro. Essa viagem macabra continuou em frente, espoliando também o mercado de trabalho dos árabes, tanto no campo quanto nas cidades. Esse processo de judaização do trabalho se assentou em uma ideologia racista contra o trabalhador árabe.

    No campo, qualquer relação do homem com a terra era regida por uma lei racista: “O arrendatário deve ser judeu e tem de aceitar realizar todas as atividades relacionadas com o cultivo da terra somente com mão-de-obra judia”. 26 Portanto, a terra não pode ser arrendada por um não-judeu, nem subarrendada, vendida, hipotecada, dada ou cedida a um não-judeu. Os não-judeus não podem ser empregados na terra e nem em qualquer trabalho relacionado com o cultivo.

    Em Israel, as terras estatais, que estão nas mãos do Fundo Nacional Judeu, são consideradas “terra nacional”, o que significa terra judia. A contratação de trabalhadores não-judeus é ilegal. Devido a escassez de operários agrícolas judeus, e dado que os palestinos ganham um salário menor que os trabalhadores judeus, alguns agricultores judeus (como Ariel Sharon) contratam mão-de-obra árabe, violando explicitamente a lei.

    Schoenman ressalta que Israel emprega todas as expressões normais em um sentido racista. O “povo” significa somente os judeus. Um “imigrante” ou um “colono” só pode ser um judeu. Um assentamento significa um assentamento só para judeus. A terra nacional significa terra judia, não terra israelense.27 Dessa maneira, a lei e os direitos, as garantias e o direito ao trabalho ou à propriedade correspondem somente aos judeus. A cidadania ou nacionalidade israelense corresponde estritamente aos judeus em todas as aplicações específicas de seu significa e jurisdição. Como a definição de judeu se baseia inteiramente num preceito religioso ortodoxo, gerações de ascendência materna judia é o pré-requisito para gozar do direito de propriedade, de emprego e de proteção legal. Atualmente, 93% da terra do chamado Estado de Israel é administrada pelo Fundo Nacional Judeu, sendo que para ter o direito a viver na terra, arrendá-la ou trabalhar nela, a pessoa tem de demonstrar que tem pelo menos três gerações de ascendência materna judia.

    O sionismo, o fascismo e os judeus

    Se é importante que a história oficial comece a reconhecer que a Palestina não era uma terra sem povo, é preciso também esclarecer outro aspecto tão sórdido quanto esse que envolve a criação do Estado de Israel. Trata-se da relação do sionismo com os próprios judeus e com o nazi-fascismo.

    O caráter racista do movimento sionista tem sua face mais abominável na relação que sempre manteve com os próprios judeus. Ralph Schoenman lembra que “os fundadores do sionismo estavam desesperados por combater o anti-semitismo e, paradoxalmente, consideravam os próprios anti-semitas como aliados, porque compartiam o desejo de arrancar os judeus dos países em que viviam. Passo a passo, assimilaram os valores do ódio aos judeus e o anti-semitismo, chegando, o movimento sionista, a olhar os próprios anti-semitas como seus mais fiéis padrinhos e protetores”.28 Ele cita inclusive uma carta que Theodor Herzl enviou ao Conde Von Plehve, autor dos piores pogroms na Rússia – os pogroms de Kishinev – com a seguinte proposta: “Ajude-me a conseguir o quanto antes a terra (Palestina) e a revolta (contra a dominação zarista) acabará. Von Plehve concordou e começou a financiar o movimento sionista

    Trata-se, na verdade, de um pedido de colaboração entre a burguesia sionista e as classes dominantes de outros países para combater os judeus de esquerda, que se incorporavam aos partidos revolucionários. Nesse sentido, o sionismo, em sua colaboração com o fascismo, cumpriu um papel sórdido, pois jogava com os sentimentos religiosos dos judeus para massacrar os que fossem de esquerda. O movimento juvenil sionista Betar serviu de bucha de canhão para Mussolini formando esquadrões com camisas negras. Quando Menajem Beguin se tornou chefe do Betar, trocou suas camisas negras pelas beges, como usavam os bandos de Hitler; era o uniforme que Beguin e os membros do Betar usavam em todas as assembléias e concentrações.

    A estratégia do sionismo foi recrutar os europeus que odiavam os judeus e alinhar-se com os movimentos e regimes mais perversos, para que apoiassem a criação de uma colônia sionista na Palestina. E essa estratégia incluiu o nazismo. A Federação Sionista da Alemanha enviou um memorando de apoio ao Partido Nazista em 21 de junho de 1933. Dizia: “… um renascimento da vida nacional como o que ocorre na vida alemã… deve ocorrer também no grupo nacional judeu. Sobre as base de um novo estado (nazi) que estabeleceu o princípio da raça, desejamos enquadrar nossa comunidade na estrutura de conjunto de maneira que também para nós, na esfera a nós designada, possa desenvolver uma atividade frutífera pela Pátria…”.29

    Longe de repudiar essa política, o Congresso da Organização Sionista Mundial, de 1933, derrotou por 240 votos contra 43 uma resolução que chamava a atuar contra Hitler. Durante esse mesmo congresso, Hitler anunciou um acordo comercial com o Banco Anglopalestino da Organização Sionista Mundial (OSM), que significava o rompimento do boicote judeu ao regime nazista em um momento em que a economia alemã era extremamente crítica. A OSM rompeu o boicote judeu e se tornou a principal distribuidora de produtos nazis em todo o Oriente Médio e Norte da Europa. Fundaram na Palestina o Ha’avara, banco destinado a receber dinheiro da burguesia judia-alemã, com o qual se adquiriu grande quantidade de produtos nazis.

    Traindo a Resistência

    Um dos reflexos mais sórdidos dessa política foi a ação do sionismo em relação à resistência judaica contra os massacres de judeus na Europa. Em julho de 1944, o dirigente judeu eslovaco, rabino Dov Michael Weissmandel, escreveu aos funcionários sionistas encarregados das “organizações de resgate”, propondo uma série de medidas para salvar os judeus de Auschwitz. Ofereceu mapas exatos das ferrovias e planejou o bombardeio das linhas que levavam aos crematórios. Pediu que bombardeassem os fornos de Auschwitz, que lançassem de pára-quedas munição para 80 mil presos e bombas para explodir o campo e pôr fim à cremação de 13 mil judeus por dia.

    Caso os aliados se recusassem a colaborar, Weissmandel propunha que os sionistas, que dispunham de fundos e organização, comprassem aviões, recrutassem voluntários e fizessem a operação.

    Weissmandel não era o único a pedir isso. No final dos anos 40 e durante os anos 40, porta-vozes judeus da Europa pediram socorro, campanhas públicas, resistência organizada, manifestações para obrigar os governos aliados a colaborar. Mas sempre se deparavam com o silêncio sionista ou mesmo com sua sabotagem ativa.

    O rabino Weissmandel, em julho de 1944, um ano antes de terminar a guerra, enviou aos sionistas uma carta de protesto, publicada em parte em História Oculta do Sionismo, de Schoenman: “Por que não fizeram nada até agora? Quem é o culpado por esta terrível negligência? Não são vocês os culpados, irmãos judeus, que têm a maior sorte do mundo, a liberdade? Enviamos a vocês esta mensagem especial: informamos que ontem os alemães iniciaram a deportação de judeus da Hungria. Os que foram para Auschwitz serão mortos com gás cianido. Essa é a ordem do dia de Auschwitz desde ontem: A cada dia serão asfixiados doze mil judeus – homens, mulheres e crianças, anciãos, crianças de peito, doentes ou não.

    E vocês, nossos irmãos aí na Palestina, e de todos os países livres, e vocês, ministros de todos os reinos, por que mantêm silêncio diante desse grande assassinato? Silenciam enquanto assassinam milhares, já são seis milhões de judeus? Silenciam agora, quando dezenas de milhares estão sendo assassinados ou esperam na fila da morte? Seus corações destroçados pedem socorro, choram por vossa crueldade.

    São brutais, vocês também são assassinos, pelo sangue frio do silêncio com que olham, porque estão sentados com os braços cruzados sem fazer nada, apesar de que nesse mesmo instante poderiam deter ou postergar o assassinato de judeus.

    Vocês, nossos irmãos, filhos de Israel, estão loucos? Não sabem o inferno que nos rodeia? Para quem guardam seu dinheiro? Assassinos! Loucos! Quem faz caridade aqui, vocês, que soltam uns centavos daí, de suas casas seguras, ou nós, que entregamos nosso sangue neste inferno?”

    Nenhum dirigente sionista apoiou esta petição, nem os governos ocidentais bombardearam um único campo de concentração.

    A colaboração entre o sionismo e o fascismo fez com que o primeiro traísse a resistência e voltasse as costas para o operativo que resultou na morte de pelo menos 6 milhões de judeus. Hoje, quando se lembra mais um aniversário do holocausto, é preciso dizer com toda clareza que o sionismo não lutou de fato para impedi-lo. E, mesmo assim, o utiliza como álibi para massacrar os palestinos. Algo tão indignante que a jornalista israelense Amira Hass, do jornal Haaretz, chegou a exortar os sobreviventes do Holocausto e seus descendentes a não interpretarem o assassinato de seu povo e o de suas famílias na Europa como um eterno aval para suprimir e expropriar o povo palestino e para apresentá-lo como o inimigo que substituiu os alemães 30.

    De fato. Está na hora de Israel deixar de usar o holocausto como justificativa para oprimir e perseguir os palestinos, fazendo com eles o mesmo que os alemães fizeram com os judeus.

    NOTAS

    1 Frase do livro de Dov Barnir, Os Judeus, O Sionismo e o Progresso, p.486, citada em Revista de América, n.12.

    2 A entrevista com Tom Segev está na edição da Folha de S. Paulo de 4 de fevereiro de 2001.

    3 A Questão Judia.

    4 Abraham León foi um dos máximos dirigentes do sionismo de esquerda europeu até as vésperas da Segunda Guerra mundial. Escreveu A Questão Judia, um dos mais importantes estudos marxistas sobre o tema. León, que chegou a romper totalmente com o sionismo e ingressar nas fileiras da IV Internacional, foi assassinado no campo de concentração de Auschwitz pelas tropas nazistas.

    5 Em 1917, o Bund apoiou Kerensky contra Lenin e Trotsky e, até a II Guerra Mundial, manteve grande força na Polônia.

    6O termo sionismo deriva da palavra Sion (Tzion, em hebraico), que é o nome de um monte em Jerusalém. Na Bíblia, esse nome era usado tanto para designar a Terra de Israel como “sua capital nacional e espiritual”, Jerusalém. Ao longo de toda a história judaica, Sion foi sinônimo de Israel, e a expressão “retorno a Sion” a bandeira do movimento sionista.

    7 A Questão Judia, p.150.

    8 Idem, p. 151.

    9 Idem, p.151.

    10 Idem, p.152.

    11 Em Le Materialisme et la Question nationale, ditado por A León, in op.cit. p.152.

    12 A Questão Judia, p. 154.

    13 Idem, p.154.

    14 Dov Barnir, “Os Judeus, o Sionismo e o Progresso”, Inova, Portugal, 1968.

    15 Ephraim Tari, O Significado de Israel.

    16 Revista de América, p.16.

    17 Jon Rothscild, “How the Arabs Were Driven Out of Palestine”, citado em Revista de América nº 12.

    18 Idem.

    19 Michael Bar-Zohar, em The Armed Prophet: A Biography of Ben Gurion. Citado por Revista de América, p.24.

    20 Proposta da Comissão Peel, de 1937, aceita por Ben Gurión.

    21 Em 1917 havia na Palestina 56 mil judeus e 644 mil árabes palestinos. Em 1922 havia 83.794 judeus e 663 mil árabes. Em 1931 havia 174.616 judeus e 750 mil árabes. (Schoenman, p.34)

    22 Citado por Schoenman, p.40.

    23 Citado por Schoenman, p.41.

    24 Citado por Schoenman, p. 48,

    25 História Oculta do Sionismo, p. 50.

    26 Citado por Schoenman, p. 50.

    27 História Oculta do Sionismo, p.51.

    28 Idem, p.53.

    29 Citado em História Oculta do Sionismo, p.54.

    30 Publicado pelo Jornal do Brasil de 22/4/01.

    Artigo publicado no Portal do PSTU - www.pstu.org.br

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