Arquivo de Abril de 2008

WOODY ALLEN - A vida é trágica

Cineasta expõe sua “visão sombria e pessimista” sobre a condição humana e conta que o assassinato é um ato dramático que o “interessa muitíssimo”

Aos 72, Woody Allen lança “O Sonho de Cassandra”, que estréia hoje no Brasil, reclamando de Hollywood, da velhice, da crítica e até de seus filmes… Em entrevista a Bruno Lester, da International Feature Agency, nega que seja um “intelectual”: “Não me interesso por livros complicados”. Allen comenta ainda o lado trágico de “Cassandra”, em que Ewan McGregor e Colin Farrell vivem irmãos endividados que recebem proposta para cometer um crime. (DA REDAÇÃO)

PERGUNTA - Do que trata “O Sonho de Cassandra”?
WOODY ALLEN - É simplesmente a história de alguns jovens muito simpáticos que se envolvem numa situação trágica, em função de suas fraquezas e ambições. A intenção deles é boa. Eles foram educados com decência, mas os acontecimentos e seus próprios atos os conduzem a um final trágico.

PERGUNTA - Como “Crimes e Pecados”, é sobre morte e culpa.
ALLEN - Sempre me interessei pelo assassinato e pelo lado sombrio do drama e da tragédia. O assassinato é uma das ferramentas que dramaturgos e cineastas vêm usando há séculos para elucidar o que querem mostrar, quer fossem tragédias gregas, Shakespeare ou, mais adiante, os suicídios nas peças de Arthur Miller. Tirar a vida é um ato muito dramático e que me interessa muitíssimo.

PERGUNTA - Fazia algum tempo que você não criava um drama.
ALLEN - Acontece que meus pontos fortes mais evidentes sempre foram cômicos, mas eu sempre quis ser um escritor trágico -escritor de materiais trágicos. Finalmente, agora que estou ficando mais velho, estou tendo a chance de fazê-lo.

PERGUNTA - Você disse uma vez que a vida é “uma experiência bastante trágica”.
ALLEN - Sempre senti que a vida é uma confusão muito grande. Tenho uma visão sombria e pessimista da vida e da fé do homem, da condição humana. Mas acho que há alguns oásis extremamente divertidos no meio dessa miragem. Há momentos de prazer e momentos que são divertidos, mas, basicamente, a vida é trágica.

PERGUNTA - Por que você deixou de fazer filmes nos EUA?
ALLEN - É mais fácil conseguir financiamento na Europa. Me dão mais liberdade, porque se respeita o artista mais do que nos EUA. Quando estúdios de Hollywood financiam meus filmes, eles interferem muito. Na Europa, me deixam fazer o que eu quiser. Além disso, aqui eu consigo fazer filmes a um custo mais baixo, e eles não ficam parecendo filmes feitos com pequeno orçamento.

PERGUNTA - “O Sonho de Cassandra” foi recebido com frieza em Veneza, em setembro do ano passado. Você lê as críticas de seus filmes?
ALLEN - Não o faço há 30 anos. Elas não me ajudam. Também nunca assisto a documentários ou leio artigos a meu respeito, porque representam imagens de mim que não reconheço. Não fiz nada de diferente em “O Sonho de Cassandra” do que fiz em outros filmes anteriores.

PERGUNTA - Todo ano há um novo filme de Woody Allen. Como se explica você ser tão produtivo?
ALLEN - É o que faço e tenho bastante tempo livre. Tenho metade do ano sem nada para fazer. Quando termino um filme, fico parado em meu apartamento, caminho pelas ruas, e então tenho uma idéia e penso: “Meu Deus, isso vai ser um outro “Cidadão Kane’!”. Começo a escrever e, em pouco tempo, estou com um roteiro. É claro que, quando o resultado está ali, não é nenhum “Kane”.

PERGUNTA - Você já recebeu 21 indicações e três Oscars (roteiro e direção de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” e roteiro de “Hannah e Suas Irmãs”). O que está faltando? Você pensa em se aposentar algum dia?
ALLEN - Enquanto puder continuar a fazer filmes, não vejo razão para não fazê-los. O que mais deveria fazer? Gosto de trabalhar. Sinto prazer em escrever, é meu hobby.

PERGUNTA - E sua saúde é boa.
ALLEN - Nunca estive no hospital; ainda sou ativo. Tenho bons genes. Minha mãe chegou aos 98 anos; meu pai, aos 100. Mas envelhecer é uma coisa terrível. Minha vista já não é o que era, perdi um pouco da audição, a comida não tem o mesmo gosto. Não ganhei sabedoria nenhuma. Não há nada de bom em envelhecer. Você simplesmente deteriora e morre.

PERGUNTA - É mais fácil escrever comédias do que dramas?
ALLEN - Sei mais sobre a comédia, então ela parece vir à tona a todo momento. É claro que quem escreve comédia pensa que a verdadeira essência do mundo está nas mãos dos escritores de dramas sérios. E não há nada que os autores de dramas sérios gostariam mais do que escrever comédias.

PERGUNTA - Por que você não anda atuando tanto quanto antes?
ALLEN - Eu atuo apenas quando acho que sou a pessoa perfeita para o papel. Não sou realmente um ator. Sou muito, muito limitado. Sou capaz de dizer falas espirituosas curtas, e isso é divertido. Consigo representar o tipo de personagem nova-iorquino neurótico que se assemelha ao que sou na vida real.

PERGUNTA - Quando passa algum tempo sem atuar, sente falta disso?
ALLEN - Não. Não me chatearia se eu nunca mais voltasse a atuar. Não ligo. Acho difícil avaliar minha própria performance quando estou na sala de edição. Quase sempre me odeio. É tão constrangedor ver sua imagem na tela grande, agindo como uma pessoa tola. Então, minha tendência é jogar fora muitas coisas que faço, enquanto outras pessoas dizem: “Oh, não tire isso do filme, isso é engraçado”. Então, o que você vê na tela -acredite se quiser- é a destilação do que eu consegui fazer de melhor. Portanto, você pode imaginar o que vai parar na máquina de picar papel!

PERGUNTA - Por que você não deixa seus atores lerem o roteiro inteiro?
ALLEN - Constatei que, se eles não sabem o que está acontecendo, não representam o resultado de suas ações. Eles não atuam sabendo para onde vai o roteiro -atuam de maneira muito espontânea, porque não têm certeza do que está acontecendo. E, de fato, os personagens não devem saber o que está acontecendo.

PERGUNTA - Você é conhecido por não dar muita direção.
ALLEN - Não gosto de sobrecarregar atores com muita conversa, análise e direção. Contrato as melhores pessoas, e então saio do caminho delas. Dou liberdade enorme aos atores.

PERGUNTA - “Vicky Cristina…” é estrelado por Scarlett Johansson. É o terceiro filme que fazem juntos. O que há de especial nela?
ALLEN - Ela tem tudo: é linda, sexy, inteligente, divertida, espirituosa e boa para se trabalhar. Gosto de tudo nela. Se ela mantiver a cabeça no lugar nesse campo de trabalho maluco, o futuro será dela.

PERGUNTA - Como você se sente com a história de ela ser descrita como sua musa?
ALLEN - Fico grato quando a chamam de minha musa, mas não é verdade. Com Diane Keaton, foi diferente. Fizemos oito ou nove filmes e tínhamos uma ligação especial. Mas gosto de trabalhar com Scarlett.

PERGUNTA - Você fica nervoso durante as filmagens?
ALLEN - Nunca fico nervoso quando estou escrevendo ou dirigindo, mas o pânico se instala no momento da montagem, quando você vê tudo o que fez. É um banho de água fria.

PERGUNTA - Você não costuma ficar satisfeito com os resultados?
ALLEN - Não. Quando está filmando, você sempre pensa que está fazendo história, e, quando termina, você diz: “Meu Deus, o que eu fiz?”. Sempre pensei que tenho um pouco de talento e muita sorte.

PERGUNTA - De quais filmes seus você se orgulha mais?
ALLEN - Tenho três dos 39 filmes que fiz: “Match Point”, “A Rosa Púrpura do Cairo” e “Maridos e Esposas”. Todos os outros, eu gostaria de refazer.

PERGUNTA - Alguma vez você já ficou tão decepcionado com um filme que não queria que estreasse?
ALLEN - Fiquei muito decepcionado com “Manhattan”. Prometi ao estúdio que, se não o lançasse, eu faria o filme seguinte de graça. Mas o estúdio se recusou, e o filme teve bom desempenho. Com “Setembro”, foi o mesmo. Disse ao estúdio que queria refilmar tudo.

PERGUNTA - Você é admirado por outros cineastas. Você enxerga a sua influência no trabalho deles?
ALLEN - Nunca senti que influenciei ninguém. Não quero que isso soe como falsa modéstia, mas sempre pude sentir a influência de meus contemporâneos -Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Robert Altman, Steven Spielberg- e nunca vi minha influência sobre ninguém.

PERGUNTA - Quem o inspirou mais?
ALLEN - Provavelmente os comediantes Groucho Marx e Bob Hope.

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Tradução de CLARA ALLAIN

Diretor contesta imagem de intelectual recluso e diz que “cinema não é prioridade”
DA REDAÇÃO

Leia, a seguir, a continuação da entrevista de Woody Allen.

PERGUNTA - Você acha que as pessoas têm a impressão correta de quem você realmente é?
ALLEN - Não. Acham que sou um recluso, uma pessoa temível que tem hábitos excêntricos e criativos. Nada poderia estar mais distante da verdade. Levo uma vida de classe média com minha família. Fazer cinema não é minha prioridade.

PERGUNTA - Você é conhecido como intelectual.
ALLEN - E não sou. Não leio muito e não me interesso por livros complicados. Não li livro nenhum até os 18 anos, e então, quando o fiz, foi com o único intuito de impressionar garotas.

PERGUNTA - Mas você é neurótico?
ALLEN - Sou um pouco claustrofóbico e agorafóbico. Sou um pouco depressivo e pessimista. Tenho medo de elevadores e aviões. Até os 40, mais ou menos, dormia de luz acesa. E fiz terapia durante 24 anos.

PERGUNTA - Por que parou?
ALLEN - A terapia me ajudou a passar por fases de minha vida em que estava muito infeliz e inseguro. Mas agora estou muito feliz. Adoro estar casado. Adoro ser pai. Não preciso mais de terapia.

PERGUNTA - Antigamente, você nunca saía de Nova York. Agora, anda viajando muito, apresentando-se no exterior com seu grupo de jazz, visitando festivais de cinema e filmando em países estrangeiros.
ALLEN - Nunca fui sociável. Sempre preferi estar em casa, trabalhando, escrevendo e tocando meu clarinete. Desde que passei a viver com Soon-Yi, passei a curtir mais sair de casa. Saio para fazer compras e viajar porque minha mulher gosta disso. Adoro fazer coisas que a deixam feliz.

PERGUNTA - Como é estar casado com alguém 35 anos mais jovem?
ALLEN - Nunca imaginei que terminaria com uma pessoa tão mais jovem, coreana e que não se interessasse pelo show business. Mas funciona como uma mágica. É uma daquelas coisas de sorte que me aconteceram.

PERGUNTA - Finalmente, qual a importância do cinema em sua vida?
ALLEN - Assistir a filmes tem sido um dos meus maiores prazeres. Mas não encaro o cinema com paixão. Se não tiver a chance de fazer outro filme, ficarei perfeitamente feliz trabalhando com teatro ou escrevendo livros. Mas gosto mais do cinema; é uma maneira muito divertida de passar o tempo.

ISTO É WOODY ALLEN

FILMES DOS QUAIS MAIS SE ORGULHA
“Match Point” (2005), “A Rosa Púrpura do Cairo” (1985) e “Maridos e Esposas” (1992)
UMA DECEPÇÃO
“Manhattan” (1979). “Prometi ao estúdio que, se não lançasse, eu faria o filme seguinte de graça”

QUEM MAIS O INSPIROU
Groucho Marx e Bob Hope

PRIORIDADES
“Fazer cinema não é a minha primeira prioridade. É sempre a família ou voltar pra casa dentro do horário”

SCARLETT JOHANSSON
“É linda, sexy, inteligente, divertida, espirituosa e boa para trabalhar”

Folha de S. Paulo - 30 de abril de 2008

Comentários

Conselho Indígena diz que arrozeiros usam até bombas para impedir ação da PF em RR

Conselho Indígena de Roraima

“Os arrozeiros que ocupam a faixa sul da Raposa Serra do Sol utilizam táticas de guerrilha para impedir o cumprimento do decreto de homologação da terra indígena. De domingo até hoje já foram destruídas três pontes, lançadas bombas caseiras e duas pessoas foram feitas reféns na região.

Com a inicio da Operação Upatakon 3, no dia 27 de março, diversas manifestações contrárias à operação foram realizadas no Estado. As manifestações começaram no dia 30 quando populares bloquearam por mais de 2 horas a ponte do Cauamé na BR-174, entrada de Boa Vista, pedindo a retirada imediata dos policiais federais no Estado.

Ainda no dia 30, dois ônibus com aproximadamente 70 ‘sem-teto’ da invasão brigadeiro de Boa Vista chegaram ao Surumu para apoiar os rizicultores. Para integrar os protestos a eles teria sido prometido a doação de lotes de terras em Pacaraima.

Na segunda-feira (31), a manifestação se concentrou na Raposa Serra do Sol, principalmente na região de Surumu. Naquele dia, as pontes de madeira do igarapé Araçá e do Araújo, que ligam Pacaraima a Surumu foram queimadas para impedir a chegada dos agentes federais.

No mesmo dia, a ponte do rio Surumu foi bloqueada por indígenas contrários à homologação, apoiados por rizicultores. Tratores, carretas e colheitadeiras agrícolas foram estacionadas em cima da ponte impedindo o acesso ao local. As maquinas continuam sobre a ponte até hoje.

A PF chegou à ponte para desobstruí-la mas declinou da intenção devido à presença de mulheres e crianças. No entanto, segundo a PF, os agentes teriam sido hostilizados pelo rizicultor Paulo César Quartiero, que foi preso em flagrante por desacato, desobediência e bloqueio de via pública. Conduzido a Boa Vista ele foi liberado após pagar fiança de R$ 500,00.

Renato Quartieiro, filho do rizicultor foi ferido na mão, tórax e no rosto por um artefato explosivo quando tentava lançá-lo contra os policiais. Ele foi atendido no hospital geral em Boa Vista e está fora de perigo.

Durante a noite, o tuxaua da aldeia do Barro (área da antiga vila Surumu) foi atingido por uma bomba caseira lançada por um motoqueiro na porta da sua maloca (casa). Ele foi socorrido pela família e no outro dia removido de avião para atendimento em Boa Vista. Após ser atendido no hospital geral, ele foi liberado.

Ainda no dia 31, o coordenador do Conselho Indígena de Roraima, Dionito José de Souza, promoveu uma reunião com a Polícia Federal, Ministério Público Federal, Advocacia Geral da União, Funai e Comitê Gestor da Presidência da República. Dinito solicitou proteção às comunidades da Raposa Serra do Sol. As autoridades garantiram que a Operação não vai parar por pressão dos arrozeiros.

No dia 1° de abril, o governador Anchieta Júnior, junto como secretário de segurança Cláudio Lima, foram até Surumu e reuniram-se com os manifestantes em busca de um acordo de paz. A resposta foi negativa. No mesmo dia, os manifestantes bloquearam a ponte do rio Cotingo que fica localizada próxima à maloca do Contão, isolando completamente o acesso às lavouras de arroz.

No dia 2 de abril, o CIR foi informado que a ponte sobre o igarapé Grande, acesso para Normandia teve os pilares serrados com moto-serra e que a cabeceira da ponte do rio Surumu foi destruída com explosivos pelos manifestantes.

O tuxaua do Barro relatou à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal que homens estão andando livremente pela aldeia armados com pistolas, rifles e revólveres, além de estarem fabricando bombas caseiras a partir de explosivos, pregos e pedaços de vidro.

Ainda no dia 2, dois homens foram feitos reféns dos manifestantes em Surumu. Os líderes dos protestos avaliaram que eles seriam espiões da PF infiltrados na região. Após duas horas de cárcere, eles foram liberados.

A Polícia Federal não divulga a data de concretização da Operação Upatakon 3 e a efetiva retirada dos arrozeiros, mas todos os dias chegam mais agentes em Boa Vista.

Apesar dos riscos que correm as comunidades, o CIR reforça a necessidade urgente da retirada dos arrozeiros. A organização acredita que as instituições do Estado vão fazer cumprir a lei e amparar os direitos indígenas.”

“Repórter Social”

Comentários

Muito além de Gutenberg

A convergência digital, a blogosfera e a comunicação compartilhada não ameaçam apenas a oligarquia da mídia corporativa. Também requerem um novo projeto para democratizar o jornalismo, e outros mecanismos para remunerar os produtores culturais

Antonio Martins

1.Nos últimos anos, graças a certas ferramentas tecnológicas, mas especialmente a algumas mudanças de paradigma, os antigos conceitos de liberdade de informação e propriedade intelectual estão sendo superados. Em seu lugar, surgem idéias como comunicação compartilhada, inteligência coletiva, fim da passividade do receptor, direito à intercomunicação. Essas mudanças têm enormes repercussões em nossa vida social, econômica, política e simbólica. Estão, por sua vez, relacionadas a sinais de que uma outra lógica de organização das sociedades – capaz de superar a que está baseada no lucro e na competição – é possível e necessária.

2.Um dos problemas-chaves a resolver é, precisamente, a produção de símbolos — arte, comunicação, literatura — num mundo em que a vida continua sendo comprada e vendida como mercadoria. Em outras palavras: se queremos que as obras culturais circulem e sejam apropriadas e recriadas por todos; se queremos fazer de cada ser humano um criador cultural, como remunerar o trabalho do artista? Como permitir que, sendo livre seu trabalho, possa ele alimentar-se, vestir-se, habitar, viajar, equipar-se – em suma, satisfazer suas múltiplas necessidades e desejos.

3.Um dos pontos essenciais para encontrar uma resposta foi oferecido em conferência pronunciada no ano passado, durante o Fórum Cultural Mundial, por Gilberto Gil. Vivemos num mundo em transição e em transe. São tão profundos quanto os que marcaram a passagem do mundo feudal à modernidade e geraram, entre outros fenômenos, o Renascimento europeu.

4. Alguns dos mecanismos sociais que marcaram a modernidade e representaram, em sua época, liberdade, transformaram-se em prisões. O ser humano medieval recuperou a moeda e ampliou os mercados para se libertar das relações obrigatórias e limitadas que o prendiam à terra, ao senhor, aos afazeres que haviam sido repetidos por seus ancentrais desde muitas gerações. A cidade e o mercado eram os espaços em que cada um podia oferecer livremente seu trabalho – ou seja, encontrar uma alternativa à obrigação de permanecer no feudo, trocando favores pessoais com o senhor, sempre subordinado, sempre sem liberdade de escolher seu próprio destino pessoal. A moeda era o que permitia a tal ser humano “livre” ganhar o mundo e comprar sua vida sem o limite dos vínculos de favor.

Quando os mercados, que o ser humano desenvolveu para se livrar do mundo feudal, passam a dominar seu criador

5. Ocorre que o mercado é, por natureza, um espaço marcado pela competição, pela desigualdade e por um tipo de alienação que leva à hipervalorização do produto e apagamento do produtor. Se produzo laranjas, ou fios de cobre mais baratos, serei o vencedor. O mercado ignora se meu vizinho é obrigado a lavrar terras mais áridas, ou se as relações sociais na fábrica em que trabalha são mais humanas. Algo muito semelhante se dava no mundo da indústria cultural, onde os padrões de belo, bom e agradável eram definidos por um sistema onde alguns grandes operadores tinham enorme poder de definir, por exemplo, que estilo de produção cinematográfica, ou que enfoque de cobertura midiática, tinham o poder de encantar ou convencer.

6.No terreno da produção simbólica, o período que vivemos é marcado por duas tendências contraditórias. Alguns fatores tendem a padronizar os produtos de forma cada vez mais intensa . Garantir a circulação de um jornal diário em papel, na escala e nos padrões de “qualidade” requeridos pelo mercado, exige investimentos de dezenas de milhões de reais. As produções cinematográficas tradicionais consomem uma parcela cada vez maior de seu orçamento com publicidade.

7.No entanto, dois fatores combinados têm servido como uma contra-tendência formidável, que questiona a própria idéia de mercantilização da produção simbólica. A primeira é tecnológica: a internet começou, a vários anos, a erodir a receita da indústria cultural. Primeiro, veio o compartilhamento de música, sem contrapartida financeira. Depois – e ainda mais interessante e transformador – surgiram as possibilidades não apenas de trocar o que já está pronto, mas de criar em conjunto, a partir de múltiplos pontos do planeta.

8. Estes enormes passos tecnológicos teriam pouco sentido e efeito se não coincidissem com um profundo mal-estar em relação aos paradigmas que marcaram a modernidade – em especial a mercantilização do mundo. Tem crescido – o Fórum Social Mundial é expressão disso – a consciência de que o mercado, embora surgisse como uma ferramenta de libertação do ser humano, se não cotrolado, domina seu criador. Já não somos o que somos, mas o que compramos. O mais interessante é que surgem, em paralelo, alternativas. Afirma-se a lógica dos direitos. Debate-se, nos Fóruns Sociais, a idéia de que certos bens e serviços, necessários para assegurar vida digna, devem ser oferecidos a todos os seres humanos do planeta, independentemente de sua capacidade de pagar por eles. Acesso à terra, água potável, eletricidade, renda básica da cidadania, saúde de qualidade, educação, internet, bens culturais. A lista vai se refinando, felizmente, e é possível vislumbrar o dia em que essa lógica se desdobrará no direito a viajar para ter contato com novas culturas, ou no direito à psicanálise.

Tecnologia é fator secundário. Conhecimento livre é movido pela busca de nova lógica social e desencanto com oligopólio das narrativas

9. É precisamente nesse contexto que surgem o direito à intercomunicação, a inteligência coletiva, o fim da passividade do receptor, o conhecimento livre. Graças à tecnologia — mais especialmente à busca de um mundo organizado segundo uma nova lógica social —, está se esfacelando um dos grandes instrumentos de dominação da era capitalista: o oligopólio das narrativas e discursos. Embora partidária do neoliberalismo, a revista Economist apontou, num estudo publicado em meados de 2006, que está se encerrando a era da comunicação de massa. Iniciada com a invenção dos tipos móveis, por Gutemberg, ela foi marcada pela produção de um volume cada vez mais maciço de bens simbólicos, por um número cada vez mais reduzidos de emissores. Em seu lugar, está surgindo a era da comunicação pessoal e participativa. Sua marca será o poder que uma parcela cada vez maior da humanidade terá para se livrar da condição de mero consumidor, e tornar-se, também, produtor de bens simbólicos. As transformações serão tão profundas que Economist chega a prever o fim do jornal diário impresso, ainda na primeira metade do século atual.

10. A mudança de paradigma, extremamente positiva, cria dois problemas complexos. O primeiro é a necessidade de recriar espaços públicos de debate, para evitar que a multiplicação dos produtores de conteúdo gere apenas um caos multifônico. O fato de cada ser humano ser um produtor de narrativas e discursos não deve significar que cada um se satisfaça consigo mesmo e dispense o diálogo. Nesse caso, estaríamos diante de uma nova forma de incomunicação e alienação. Para evitar o risco, é importante criar outros nós na grande rede, certos lugares onde os produtores de símbolos se encontram, se reconhecem e estabelecem trocas. Isso não se faz de forma piramidal, nem com base em relações mercantis, nem sob a batuta de um editor todo-poderoso – mas a partir de recortes e pontos de vista compartilhados por uma comunidade. No Brasil, um exemplo desbravador é o site de jornalismo cultural Overmundo. Centenas de leitores, muitos dos quais mantêm seus próprios blogs, ou produzem vídeo ou áudio – ou seja, já são produtores de conteúdo cultural – sentem-se atraídos para contribuir também para o Overmundo. Por que surgiu um nó, onde é possível estabelecer diálogos mais amplos. Lançado em outubro, o Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique persegue um objetivo semelhante, no terreno do pensamento crítico e da busca de alternativas políticas. Num primeiro momento, ela reunirá colaboradores já reconhecidos por sua capacidade de análise, ou por atuar em iniciativas transformadoras e refletir sobre elas. Numa segunda etapa, como em Overmundo, a participação estará aberta a qualquer leitor que se tenha pontos de vista relevantes a expressar.

Uma possibilidade radical: desmercantilizar o trabalho humano, desvinculando o direito à vida digna de um emprego assalariado

11. O segundo grande desafio é o da remuneração e sobrevivência dos novos produtores de símbolos. De certa maneira, a liberdade de conhecimento e de produção cultural é profundamente utópica, no melhor sentido do termo: o de antecipar um futuro possível. Ela aponta para a possibilidade da desmercantilização mais radical: a do próprio trabalho humano. Produzir comunicação, cultura ou arte não deve ser algo que dependa de remuneração, mas um prazer e algo inerente à própria condição humana. Outras atividades, cada vez mais numerosas, deveriam ter o mesmo status: cuidar da natureza, educar as crianças, mostrar nossa cidade a visitantes que não a conhecem. No caso de muitas outras atividades, o desenvolvimento da tecnologia poderia ser visto como um alívio, não como um drama – desde que houvesse outras relações sociais. Se novas máquinas permitem fabricar computadores empregando muito menos operários, ou se é possível automatizar a coleta de lixo, isso não deveria ser visto como ameaça de desemprego, mas como redução do tempo de trabalho, eliminação das tarefas humanas mais penosas e desagradáveis. A condição é nos dispormos a imaginar a ultrapassagem da sociedade-mercadoria e do trabalho-mercadoria. Uma decisão-chave é reconhecer que, na época em que vivemos, a garantia de uma vida digna não pode mais estar associada a um emprego remunerado. Por isso, é tão decisivo o debate sobre a criação de uma Renda Cidadã internacional – e mesmo medidas muito tímidas nesta direção, como o Bolsa-família brasileiro merecem todo apoio.

12. Mas como viveremos nós, enquanto continuarmos imersos nas relações capitalistas? Em primeiro lugar, é preciso afastar a idéia de que uma nova sociedade pode ser construída num único ato, a partir do qual as relações sociais transformam-se por encanto. Durante muito tempo, teremos de ampliar o espaço das relações de solidariedade e compartilhamento, estando, contudo, obrigados a aceitar as relações de mercado, a vender nossa capacidade de produzir bens simbólicos. Uma grande arte haverá em equilibrar esses dois aspectos de nossa vida social.

13. Isso exige, ao mesmo tempo, imaginar e testar desde agora novas relações. Se o trabalho necessário para produzir Overmundo é remunerado graças ao apoio de uma empresa pública, mediante patrocínio, devemos ter a ousadia de debater com a sociedade que se trata de uma relação muito mais avançada que vender o conteúdo do site aos que podem pagá-lo.

14. No Brasil, uma importantíssima janela de oportunidades em favor da comunicação compartilhada e de novos mecanismos de remuneração dos produtores culturais está se abrindo, há vários meses. Certas atitudes políticas adotadas quase em bloco pelo oligopólio que controla a mídia provocaram um grave desgaste de sua legitimidade, principalmente entre a parcela mais esclarecida e politizada de sua audiência. Surgiram, em paralelo, sinais de articulação embrionária entre publicações e produtores de conteúdo que atuam na blogosfera, o que poderia ser, no futuro, uma rede – horizontal e não-hierárquica – de novas iniciativas de comunicação independente.

Tiro pela culatra: o oligopólio da mídia tenta manipular duas vezes a opinião pública, e sai com credibilidade arranhada

15. Em pelo menos dois episódios, a mídia comercial tentou manipular acontecimentos importantes, servindo-se do controle que julgava ter sobre a opinião pública para produzir fatos políticos que interessavam a si própria e às correntes políticas com quem se identifica. Às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais de 2006, ela envolveu-se com a campanha do candidato conservador, e com setores da Polícia Federal, para produzir ilegalmente fotos, que foram apresentadas como comprometedoras de outro candidato – o então presidente da República, que acabou se reelegendo. Mais tarde, no primeiro semestre de 2007, o oligopólio tentou tirar proveito de uma tragédia – um desastre aéreo com 200 mortes – para fabricar apressadamente uma suposta causa (problemas na pista do aeroporto de Congonhas), responsabilizar o governo federal e vitaminar um movimento de oposição de direita liderado por grandes empresários, auto-denominado “Cansei”.

16. Em ocasiões anteriores, campanhas promovidas em bloco pelo oligopólio foram capazes de sensibilizar a sociedade e produzir os efeitos desejados. [1] Mas as novas tentativas fracassaram e se voltaram contra os que as promoveram. Em ambos os casos, a tentativa de manipulação foi denunciada por matérias jornalísticas publicadas em meios alternativos. [2] O que normalmente ficaria restrito ao leitores dessas publicações, contudo, dessa vez passou a circular maciçamente, por meio de blogs e listas na internet, e a gerar novas denúncias e pontos de vista. Como resultado, a mídia tradicional sofreu um desgaste que pode ter conseqüências de médio e longo prazo. A perda de credibilidade, junto a públicos informados, dificilmente é revertida – ainda mais porque não há nenhum indício de providências para rever a postura a adotada e evitar que novas manipulações se produzam. O mais importante é que foi possível construir, em momentos muito relevantes, um olhar alternativo ao da mídia tradicional. Ainda é difuso e pouco articulado, mas pela primeira vez deixou os pequenos círculos de convertidos, e repercute entre boa parte da opinião pública. O efeito multiplicador dos primeiros resultados deve ser levado em conta. Milhares de pessoas, que se envolveram de algum modo nas redes de propagação de versões alternativas às da mídia sentiram, pela primeira vez, a possibilidade – e o prazer – de romper falsos consensos e de participar da narrativa de seu tempo.

17. A partir dos episódios acima, surgiu um debate, entre parte dos comunicadores que se opõem à mídia tradicional e setores das forças políticas que apóiam o governo Lula: é justo que a sociedade brasileira continue a financiar, por meio do Estado (e com base em mecanismos como publicidade oficial, subsídios à compra de papel, empréstimos favorecidos, reescalonamento de dívidas dos grupos de mídia, etc) meios de comunicação tendenciosos?

Ao invés de orientar a publicidade estatal segundo critérios ideológicos, abrir os olhos para a comunicação compartilhada

18. O problema desta pergunta é que ela pode conduzir a uma solução autoritária e centralista, na qual o Estado determina – e promove, graças a recursos públicos – o que é, por exemplo, uma cobertura jornalística adequada, ou uma obra de arte de qualidade. Seria muito mais interessante se a janela de oportunidade aberta fosse aproveitada com uma postura alternativa: a defesa da diversidade e do direito à produção simbólica; e a necessidade de promovê-los ativamente.

19. Isso não significa controlar, mas incluir; não equivale a censurar, mas a multiplicar. É preciso argumentar que os instrumentos usados tradicionalmente pelo Estado para promover a circulação de informações (um direito da cidadania) estão ultrapassados, social e tecnologicamente. Esses instrumentos beneficiam um pequeno grupo de empresas que oligopolizam a comunicação de massa. Mas esquecem milhares de produtores de conteúdo comunicativo e cultural que estão povoando a comunicação compartilhada.

20. Alguns bilhões de reais são transferidos pelo Estado, todos os anos, aos meios de comunicação de massa. Não se trata de eliminá-los, mas apenas de exigir uma política menos excludente. Os produtores de conteúdo brasileiros estão se tornando conhecidos pela capacidade incomum de atuar nos sistemas contemporâneos de comunicação compartilhada. Têm uma participação expressiva na blogosfera mundial, no You Tube e entre os usuários de sistemas de comunicação instantânea – e uma presença quase colonizadora em plataformas como o Orkut e o Second Life. Tal desenvoltura é atribuída com freqüência a traços culturais, como a capacidade de conviver e valorizar a diversidade, ou a tendência à extroversão. No entanto, atenção ao paradoxo: esse universo, que reúne milhares de produtores de conteúdo; cuja audiência cresce de modo explosivo; que expressa o surgimento do paradigma que sucederá a comunicação de massa; e que é uma alternativa aos riscos de manipulação não recebe apoio de nenhuma política pública relevante.

Um enorme cardápio de medidas de incentivo, desconcentradoras e capazes de mover cultura, comunicação e educação

21. Quando existirem, elas serão capazes de produzir a revolução democrática e participativa de que a comunicação precisa, no Brasil. Os caminhos para incentivar essa mudança são diversos – e sempre desconcentradores. Ao contrário do que ocorre na comunicação de massas, é possível produzir grandes saltos com pouquíssimos recursos. E, nesse caso, cada passo pode ser replicado em todo o país, gerando também efeitos sociais transformadores. Seria possível, por exemplo, multiplicar o número de produtores de conteúdo oferecendo bolsas àqueles cuja ação é reconhecida por suas comunidades – territoriais ou virtuais – como promotora de formação e informação. Isso incluiria blogueiros, produtores de vídeos, músicos que produzem de forma compartilhada, fotógrafos. Os beneficiados pela bolsa teriam como responsabilidade aprender continuamente novas técnicas, e transmiti-las na comunidade. As milhares de lan-houses que se espalharam nas periferias brasileiras podem ser incentivadas a se transformar em pequenos centros culturais. Elas receberiam recursos públicos para isso, desde que assumissem compromissos de qualificação: por exemplo, usar software livre e manter monitores capacitados para estimular o uso de ferramentas que transformam a expressão das individualidades em algo criativo e enriquecedor. A criação de um perfil no Orkut, hoje tão difundida, seria vista como ponto de partida para projetos pessoais mais refinados (criar um blog coletivo da comunidade, organizar sua memória oral por meio de entrevistas com pessoas que conhecem parte da história comum, gravar em áudio e vídeo as festas e outras manifestações da cultura coletiva), igualmente contemplados por bolsas.

22. Os projetos de incentivo devem mirar a formação de redes. Os produtores de conteúdo que atuam em cada comunidade devem ser estimulados a manter permanente diálogo com outros, que se dedicam a temas semelhantes, ou estão empenhados em dominar técnicas de interesse comum. Precisa haver programas que facilitem a realização de encontros e oficinas, virtuais e presenciais, para troca de experiências, capacitação, construção de projetos coletivos. Iniciativas de comunicação compartilhada que já acumularam conhecimento editorial e técnico aprofundado devem ser convidadas a difundi-lo em seminários específicos ou turnês.

23. A dimensão educacional de um projeto como esse merece ser ressaltada. Organizações que atuam na área deveriam ser estimuladas, também por meio dos recursos públicos, a desenvolver conteúdos digitalizados para educação a distância. Eles deveriam levar em conta a dificuldade crescente de concentração que os alunos enfrentam em sala de aula, ao depararem com um mundo freqüentemente menos atraente, dinâmico e desafiador que o que vivem numa lan-house. A partir de um exame dos recursos de inteligência mobilizados por um game, e com base em recursos audiovisuais disponíveis em licenças de compartilhamento, deveria ser possível, por exemplo, produzir conteúdos e formatos instigantes para as disciplinas do currículo escolar – e para outros saberes, hoje subestimados pela educação formal.

Meta: destinar ao mundo da comunicação compartilhada ao menos o mesmo que é transferido ao oligopólio da comunicação de massas

24. As formas de incentivo mencionadas acima são apenas um pequeno exemplo de um enorme repertório que certamente surgirá, se houver disposição política para a mudança. Uma meta simbólica deve ser perseguida. Os recursos destinados pela sociedade brasileira, por meio do Estado, à comunicação compartilhada e à produção de conteúdos para ela deve ser, numa primeira fase, no mínimo igual ao canalizado, por múltiplos mecanismos (publicidade oficial, subsídios ao papel, empréstimos favorecidos, reescalonamento de dívidas etc) à comunicação de massa.

25. É possível começar a transformação desde já. O Estado brasileiro dispõe de um instrumento pronto, para favorecer o surgimento de múltiplas redes de produção de conhecimento livre. Trata-se do FUST – o Fundo de Universalização dos Sistemas de Comunicação. Ele é constituído por cada usuário de linha telefônica, por meio de um percentual acrescido ao valor das contas de serviço. Ficou contingenciado nos últimos dois governos, devido a políticas de “ajuste fiscal” ultra-ortodoxas. Precisa ser liberado criteriosamente, mas sem mesquinharias. Pode começar a dar vida a uma nova forma de inclusão digital. Aquela em que os cidadãos adquirem não apenas o direito de usar um computador, mas a capacidade e os meios para superar a condição de consumidor e se transformar ao prossumidores – produtores e consumidores, simultaneamente.

26. Os movimentos de grandes mudanças são sempre instantes de dor e delícia. Nas sociedades pós-modernas, as sociedades do conhecimento, é justamente no território da criação coletiva e circulação do conhecimento que estão se multiplicando os sinais de uma nova lógica social possível. É hora de fazer um pacto simultâneo com a vida e a utopia. É hora de assumir os compromissos de refletir permanentemente sobre a possibilidade dessa lógica, e de agir para torná-la real.

[1] Para ficar apenas em dois exemplos: por meio de campanhas semelhantes, o oligopólio obteve, em 2002, a inviabilização da candidatura presidencial de Roseana Sarney, então líder nas pesquisas de opinião pública; e conseguiu abortar, em 2004, a criação do Conselho Nacional de Jornalismo e da Agência Nacional de Cinema e Audivisual

[2] Vale a pena ler, em especial, a reportagem em que Raimundo Pereira (em Carta Capital) descreve a construção, pela mídia e pela candidatura de Geraldo Alckmin, de uma versão que comprometia Lula, no chamado “escândalo da compra do dossiê”.

“Le Monde diplomatique”

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Sementes do poder

Christina Palmeira

A Monsanto produz 90% dos transgênicos plantados no mundo e é líder no mercado de sementes. Tal hegemonia coloca a multinacional norte-americana no centro do debate sobre os benefícios e os riscos do uso de grãos geneticamente modificados. Para os defensores da manipulação dos genes, a Monsanto representa o futuro promissor da “revolução verde”. Para ecologistas e movimentos sociais ligados a pequenos agricultores, a empresa é a encarnação do mal.

Esse último grupo acaba de ganhar um reforço a seus argumentos. Resultados de um trabalho de três anos de investigação da jornalista francesa Marie-Monique Robin, o livro Le Monde Selon Monsanto (O Mundo Segundo a Monsanto) e o documentário homônimo são um libelo contra os produtos e o lobby da multinacional.

O trabalho cataloga ações da Monsanto para divulgar estudos científicos duvidosos de apoio às suas pesquisas e produtos, a exemplo do que fez por muitos anos a indústria do tabaco, relaciona a expansão dos grãos da empresa com suicídios de agricultores na Índia, rememora casos de contaminação pelo produto químico PCB e detalha as relações políticas da companhia que permitiram a liberação do plantio de transgênicos nos Estados Unidos. Em 2007, havia mais de 100 milhões de hectares plantados com sementes geneticamente modificadas, metade nos EUA e o restante em países emergentes como a Argentina, a China e o Brasil.

Marie-Monique Robin, renomada jornalista investigativa com 25 anos de experiência, traz depoimentos inéditos de cientistas, políticos e advogados. A obra esmiúça as relações políticas da multinacional com o governo democrata de Bill Clinton (1993-2001), e com o gabinete do ex-premier britânico Tony Blair. Entre as fontes estão ex-integrantes da Food and Drug Administration (FDA), a agência responsável pela liberação de alimentos e medicamentos nos EUA.

A repórter, filha de agricultores, viajou à Grã-Bretanha, Índia, México, Paraguai, Vietnã, Noruega e Itália para fazer as entrevistas. Antes, fez um profundo levantamento na internet e baseou sua investigação em documentos on-line para evitar possíveis processos movidos pela Monsanto. A empresa não deu entrevista à jornalista, mas, há poucas semanas, durante uma apresentação em Paris de outro documentário de Robin, uma funcionária da multinacional apareceu e avisou que a companhia seguia seus passos. Detalhe: a sede da Monsanto fica em Lyon, distante 465 quilômetros da capital francesa

Procurada por CartaCapital, a Monsanto recusou-se a comentar as acusações no livro. Uma assessora sugeriu uma visita ao site da Associação Francesa de Informação Científica, onde há artigos de cientistas com críticas ao livro de Robin. A revista, devidamente autorizada pelo autor, reproduz na página 11 trechos do artigo de um desses cientistas, Marcel Kuntz, diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica de Grenoble.

Não é de hoje, mostra o livro, que herbicidas da Monsanto causam problemas ambientais e sociais. Robin narra a história de um processo movido por moradores da pequena Anniston, no Sul dos EUA, contra a multinacional, dona de uma fábrica de PCB fechada em 1971. Conhecida no Brasil como Ascarel, a substância tóxica era usada na fabricação de transformadores e entrava na composição da tinta usada na pintura dos cascos das embarcações. Aqui foi proibida em 1981.

A Monsanto, relata a repórter, sabia dos efeitos perversos do produto desde 1937. Mas manteve a fábrica em funcionamento por mais 34 anos. Em 2002, após sete anos de briga, os moradores de Anniston ganharam uma indenização de 700 milhões de dólares. Na cidade, com menos de 20 mil habitantes, foram registrados 450 casos de crianças com uma doença motora cerebral, além de dezenas de mortes provocadas pela contaminação com o PCB. Há 42 anos, a própria Monsanto realizou um estudo com a água de Anniston: os peixes morreram em três minutos cuspindo sangue.

Robin alerta que os tentáculos da Monsanto atingem até a Casa Branca. A influência remonta aos tempos da Segunda Guerra Mundial e ao período da chamada Guerra Fria. Donald Rumsfeld, ex-secretário de Defesa do governo Bush júnior, dirigiu a divisão farmacêutica da companhia. A multinacional manteve ainda uma parceria com os militares. Em 1942, o diretor Charles Thomas e a empresa ingressaram no Projeto Manhattan, que resultou na produção da bomba atômica. O executivo encerrou a carreira na presidência da Monsanto (1951-1960).

Na Guerra do Vietnã (1959-1975), a empresa fornecia o agente laranja, cujos efeitos duram até hoje. A jornalista visitou o Museu dos Horrores da Dioxina, em Ho Chi Minh (antiga Saigon), onde se podem ver os efeitos do produto sobre fetos e recém-nascidos.

Alan Gibson, vice-presidente da associação dos veteranos norte-americanos da Guerra do Vietnã, falou à autora dos efeitos do agente laranja: “Um dia, estava lavando os pés e um pedaço de osso ficou na minha mão”.

Boa parte do trabalho de Robin é dedicada a narrar as pressões sofridas por pesquisadores e funcionários de órgãos públicos que decidiram denunciar os efeitos dos produtos da empresa. É o exemplo de Cate Jenkis, química da EPA, a agência ambiental dos Estados Unidos.

Em 1990, Jenkis fez um relatório sobre os efeitos da dioxina, o que lhe valeu a transferência para um posto burocrático. Graças à denúncia da pesquisadora, a lei americana mudou e passou a conceder auxílio a ex-combatentes do Vietnã. Após longa batalha judicial, Jenkis foi reintegrada ao antigo posto.

Há também o relato de Richard Burroughs, funcionário da FDA encarregado de avaliar o hormônio de crescimento bovino da Monsanto. Burroughs diz ter comprovado os efeitos nocivos do hormônio para a saúde de homens e animais e constatou que, com o gado debilitado, os pecuaristas usavam altas doses de antibióticos. Resultado: o leite acabava contaminado. Burroughs, conta a jornalista, foi demitido. Mas um estudo recente revela que a taxa de câncer no seio entre as norte-americanas com mais de 50 anos cresceu 55,3% entre 1994, ano do lançamento do hormônio nos Estados Unidos, e 2002.

Segundo Robin, a liberação das sementes transgênicas nos Estados Unidos foi resultado do forte lobby da empresa na Casa Branca, principalmente durante o governo Clinton. Uma das “coincidências”: quem elaborou, na FDA, a regulamentação dos grãos geneticamente modificados foi Michael Taylor, que nos anos 90 fora um dos vice-presidentes da Monsanto.

A repórter se detém sobre o “princípio da equivalência em substância”, conceito fundamental para regulamentação dos transgênicos em todo o mundo. A fórmula estabelece que os componentes dos alimentos de uma planta transgênica serão os mesmos ou similares aos encontrados nos alimentos “convencionais”.

Robin encontrou-se com Dan Glickman, que foi secretário de Estado da Agricultura do governo Clinton, responsável pela autorização dos transgênicos nos EUA. Glickman confessou, em 2006, ter mudado de posição e admitiu ter sido pressionado após sugerir que as companhias realizassem testes suplementares sobre os transgênicos. As críticas vieram dos colegas da área de comércio exterior.

Houve pressões, segundo o livro, também no Reino Unido. O cientista Arpad Pusztai, funcionário do Instituto Rowett, um dos mais renomados da Grã-Bretanha, teria sido punido após divulgar resultados controversos sobre alimentos transgênicos. Em 1998, Pusztai deu uma entrevista à rede de tevê BBC. Perguntado se comeria batatas transgênicas, disparou: “Não. Como um cientista que trabalha ativamente neste setor, considero que não é justo tomar os cidadãos britânicos por cobaias”. Após a entrevista, o contrato de Pusztai foi suspenso, sua equipe dissolvida, os documentos e computadores confiscados. Pusztai também foi proibido de falar com a imprensa. No artigo reproduzido à página 11, Kuntz afirma que o cientista perdeu o emprego por não apresentar resultados consistentes que embasassem as declarações à imprensa.

Pusztai afirma que só compreendeu a situação, em 1999, ao saber que assessores do governo britânico haviam ligado para a direção do instituto no dia da sua demissão. Em 2003, Robert Orsko, ex-integrante do Instituto Rowett, teria confirmado que a “Monsanto tinha ligado para Bill Clinton, que, em seguida, ligou para Tony Blair”. E assim o cientista perdeu o emprego.

Nas viagens por países emergentes, Robin colheu histórias de falta de controle no plantio de transgênicos e prejuízos a pequenos agricultores. No México, na Argentina e no Brasil, plantações de soja e milho convencionais acabaram contaminadas por transgênicos, o que forçou, como no caso brasileiro, a liberação do uso das sementes da Monsanto (que fatura com os royalties).

De acordo com a jornalista, o uso da soja Roundup Ready (RR), muito utilizada no Brasil e na Argentina, acrescenta outro ganho à Monsanto, ao provocar o aumento do uso do herbicida Roundup. Na era pré-RR, a Argentina consumia 1 milhão de litros de glifosato, volume que saltou para 150 milhões em 2005. De lá para cá, a empresa suprimiu os descontos na comercialização do pesticida, aumentando seus lucros.

Um dos ícones do drama social dos transgênicos, diz o livro, é a Índia. Entre junho de 2005 (data da introdução do algodão transgênico Bt no estado indiano de Maharashtra) e dezembro de 2006, 1.280 agricultores se mataram. Um suicídio a cada oito horas. A maioria por não conseguir bancar os custos com o plantio de grãos geneticamente modificados.

Robin relata a tragédia desses agricultores, que, durante séculos, semearam seus campos e agora se vêm às voltas com a compra de sementes, adubos e pesticidas, num círculo vicioso que termina em muitos casos na ingestão de um frasco de Roundup.

A jornalista descreve ainda o que diz ser o poder da Monsanto sobre a mídia internacional. Cita, entre outros, os casos dos jornalistas norte-americanos Jane Akre e Steve Wilson, duramente sancionados por terem realizado, em 1996, um documentário sobre o hormônio do crescimento. No país da democracia, a dupla se transformou em símbolo da censura.

Os cientistas, conta o livro, são frequentemente “cooptados” pela gigante norte-americana. Entre os “vendidos” está o renomado cancerologista Richard Doll, reconhecido por trabalhos que auxiliaram no combate à indústria do tabaco. Doll faleceu em 2005. No ano seguinte, o jornal britânico The Guardian revelou que durante 20 anos o pesquisador trabalhou para a Monsanto. Sua tarefa, com remuneração diária de 1,5 mil dólares, era a de redigir artigos provando que o meio ambiente tem uma função limitada na progressão das doenças. Foi um intenso arquiteto do “mundo mágico” da Monsanto.

“Carta Capital”

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Estudantes descobrem parede falsa com documentos na FSA

Vanessa Selicani (vanessa@abcdmaior.com.br)

Manifestantes querem que especialista analise teor das pastas. Entre os arquivos, dizem ter encontrado investigações sobre alunos.

Os estudantes da Fafil (Faculdade de Ciências Sociais, História e Letras) instalados desde domingo (27/04) na reitoria do Centro Universitário Fundação Santo André encontraram uma parede falsa na secretaria auxiliar do prédio com diversos documentos da instituição.

Entre as pastas, algumas possuíam processos ativos sobre alunos que participaram da primeira ocupação da reitoria em setembro do ano passado e de manifestações contra a administração.

A assessoria de imprensa da Fundação Santo André disse que não havia parede falsa, mas que os documentos eram sigilosos e por isso não ficavam em local acessível.

Integrantes da comissão de segurança do movimento de ocupação do prédio disseram ter achado o local quando procuravam mais espaço para os acampados. Atrás de alguns móveis e preso por parafusos, havia um tapume da mesma cor da parede que protegia a sala com a documentação.

Os estudantes disseram que não olharam todas as pastas porque sabem que são documentos sigilosos. “Queremos que alguém que entenda os papéis e que tenha autoridade verifique o teor do material encontrado nesta sala”, afirmou o aluno de Geografia do quarto ano da Fafil Paulo Daniel Souza Ferreira, 21 anos.

Dos documentos que chegaram a ler, os estudantes afirmam ter encontrado notas de almoços de membros da direção e cópias das cartas enviadas a pessoas que se inscreveram nos cursos da faculdade que não tiveram número mínimo de inscritos. “Apesar da reitoria ter dito que havia apenas nove alunos inscritos para Geografia, foram enviadas 56 cartas”, contou Ferreira.

Também foi encontrado o material sobre alunos envolvidos com o movimento estudantil, como hábitos diários e local de trabalho. “Isso é invasão de privacidade, dos direitos dos cidadãos. Não podem investigar a vida dos alunos desta forma”, reclamou o estudante do segundo ano de História, Yousseph Igor.

A ocupação da reitoria já dura três dias. Os estudantes dizem que só sairam do prédio depois da saída do reitor Odair Bermelho e da reabertura dos cursos da Fafil fechados por falt de número mínimo no começo do ano.

A Fundação Santo André disse que protocolou nesta segunda-feira o pedido de reintegração de posse do prédio da reitoria no Fórum de Santo André e aguarda a decisão judicial.

ABCD Maior

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1º de Maio, ato na Praça da Sé

1º de Maio na Sé: De luta, classista e independente

O povo brasileiro continua vivendo sob precárias condições. A manutenção da política econômica e de um modelo de estado que privilegia o pagamento da dívida pública impedem a realização de investimentos massivos nas políticas sociais. O serviço público (Saúde, Educação, Moradia, Transporte, Saneamento, etc.) permanece sendo desmontado, com prejuízo aos servidores e à grande maioria da população.

A partir do governo Lula não houve espaços, como o povo esperava, para reverter o quadro de barbárie social que se abate sobre o Brasil. O lucro dos bancos e dos grandes monopólios demonstra, de fato, quem são os beneficiários do modelo econômico. A reforma agrária tão necessária regride com o avanço do agronegócio e das monoculturas. A juventude permanece vítima da violência urbana. A ausência de moradia popular deixa milhares de trabalhadores sem teto. Os recursos naturais são exauridos com a ganância do grande capital.

No plano estadual, Serra prepara a privatização de 18 empresas estatais, além de atacar os serviços públicos e responsabilizar os servidores pela falência das políticas do PSDB. Apesar disso os trabalhadores em todo o país resistem. Os metalúrgicos da GM rejeitaram a redução de direitos, os servidores estaduais estão organizando ações unitárias contra os ataques do governo, os movimentos sociais realizaram a jornada de lutas pela tarifa social e fortalecem a luta contra a transposição do Rio São Francisco e a juventude realizou ocupações de reitorias em todo o país.

Diante disso, aqueles que lutam por uma vida digna são tratados como criminosos pelo estado, governos e patrões. Continuam e crescem as violentas repressões sobre os movimentos sociais. Por isso, não temos motivos a festejar, promovendo shows nesse 1º de Maio. Ao completar 40 anos do histórico 1º de Maio de 1968 na Sé, quando em plena ditadura militar os trabalhadores derrubaram o palanque dos pelegos e expulsaram o governador biônico, queremos resgatar o sentido histórico de independência de classe pela superação da sociedade do capital.

Enquanto algumas centrais sindicais realizarão atos festivos para apoiar o governo, várias organizações estarão construindo um 1º de Maio de luta, classista e independente na Praça da Sé. Participe!

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O papel dos especuladores na crise global de alimentos

Vastas quantidades de dinheiro estão ingressando no mercado global de commodities, elevando os preços de alimentos básicos como trigo e arroz. Biocombustíveis e secas não são os únicos responsáveis pela recente crise de alimentos -fundos hedge e pequenos investidores também têm responsabilidade

Beat Balzli e Frank Hornig

Há não muito tempo, Dwight Anderson recebia os repórteres com braços abertos. Ele gostava de entretê-los com histórias do mundo dos altos investimentos. Anderson é um administrador de fundo hedge de Nova York e recentemente, em outubro passado, ele gostava de falar com entusiasmo sobre suas visitas às plantações para óleo de palma na Malásia e às fazendas de grãos brasileiras. “É possível ver claramente como a oferta está ficando apertada”, ele disse.

Em meados de 2006, Anderson apregoava a “lucratividade extraordinária” de plantações de milho e soja. Ele estava convencido de que a crescente fome mundial seria sinônimo de alta lucratividade e barganhas de investimento certas.

Em busca de novos investimentos, Anderson envia dezenas de seus funcionários para visitar regiões agrícolas ao redor do mundo. De volta a Nova York, na sede de sua empresa no 27º andar de um prédio comercial na Park Avenue, eles apostam em mercados agrícolas do Peru ao Vietnã.

Mas nas torres acima dos desfiladeiros urbanos de Manhattan, é fácil perder contato com o solo. O administrador de fundo hedge, John Paulson, recentemente foi celebrado por obter o lucro anual recorde de US$ 3,7 bilhões. Aqueles que trabalham neste ambiente só têm uma regra: não decepcione os investidores ávidos por lucros.

“Eu estou constantemente ligado”, Anderson costumava dizer, quando falava com os jornalistas. Seu apelido no setor é “Rei dos Commodities” e seu fundo hedge Ospraie é o maior do mundo. Atualmente, entretanto, Anderson evita a mídia. Ele até mesmo manteve seu rosto longe da mídia ao comprar os direitos de todas suas fotos disponíveis no mercado. Seu porta-voz é atualmente pago, em grande parte, para não dizer nada.

Um mercado quebrado?
Há muitas perguntas a serem feitas a Anderson -em particular sobre o papel dos investidores internacionais na atual alta dos preços de alimentos básicos. Não apenas comenta-se que os investidores lucraram com a fome desesperada em Honduras, Filipinas e Bangladesh; os críticos também se perguntam se os especuladores de commodities estão agravando a crise.

Na terça-feira em Washington, DC, um órgão regulador chamado Comissão de Comércio de Commodities e Futuros (CFTC, na sigla em inglês) realizou audiências públicas sobre este assunto. Produtores rurais e de alimentos argumentaram que o mercado estava “quebrado”, sugerindo que o aumento acentuado no preço de alimentos básicos estava prejudicando a todos -tanto produtores rurais quanto as pessoas que alimentam. “O mercado está quebrado, não está funcionando direito”, disse Billy Dunavant, chefe de uma empresa produtora de algodão nos Estados Unidos, na audiência de terça-feira.

Os reguladores da comissão recomendaram contra a intervenção do governo, assim como, sem dúvida, também recomendariam administradores como Anderson. Mas a crise continua piorando. A Índia e o Vietnã impuseram proibições de exportação ao arroz comum. A Indonésia fará o mesmo. Segundo a ONU, a Coréia do Norte está à beira de uma crise humanitária. Após turbulências terem sacudido países do Egito e Uzbequistão até Bangladesh, milhares de sul-africanos foram às ruas de Johannesburgo na última quinta-feira para protestar contra as altas dos preços dos alimentos. No Haiti, o primeiro-ministro perdeu o cargo após os tumultos causados pelo preço do arroz.

Biocombustíveis e aquecimento global foram culpados pela escassez que está provocando a alta dos preços dos alimentos, e ambas as tendências tiveram um papel. As reservas de grãos do planeta estão quase vazias por vários motivos, incluindo crescimento da população mundial e maior prosperidade em alguns países, como a Índia. O milho está em falta porque os países industrializados o usaram para etanol. As secas -na Austrália, por exemplo- arruinaram as safras de arroz e trigo. As reservas mundiais de trigo só são suficientes no momento para cobrir cerca de 60 dias de demanda.

Isto ajuda a explicar por que os preços dos commodities estão subindo desde o início de 2006, com uma alta de 217% no preço do arroz, 136% no do trigo, 125% no do milho e 107% no da soja.

Mas a teoria clássica de oferta e demanda oferece apenas uma explicação parcial. As altas repentinas nos preços desde janeiro foram alarmantes. A ONU estima que pelo menos US$ 500 milhões em ajuda imediata são necessários até 1º de maio para evitar uma fome grave. Cientistas agrícolas da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) apresentaram um relatório sobre a crise mundial de alimentos. E cresce as críticas de que fundos hedge, fundos de índices, fundos de pensão e bancos de investimento têm parte da culpa.

A história dos futuros
A especulação de commodities se expandiu há muito tempo de produtos-padrão como petróleo e ouro para qualquer coisa comestível e disponível para negociação na Bolsa de Futuros de Chicago. Atualmente há contratos futuros para tudo, de trigo e suco de laranja até carne de porco. O mercado de futuros é uma ferramenta tradicional para agricultores venderem suas colheitas antes do tempo. Em um contrato futuro, quantidades, preços e datas de entrega são fixados, às vezes bem antes dos produtos serem plantados. Os contratos futuros permitem aos agricultores e atacadistas de grãos uma certa proteção contra condições climáticas adversas e flutuações excessivas dos preços. Eles também podem ajudar um agricultor a planejar quanto plantar em um determinado ano.

Mas agora os especuladores estão tirando proveito deste mecanismo. Eles podem comprar contratos futuros para trigo, por exemplo, a um baixo preço, apostando que o preço subirá. Se o preço do grão subir até a data de entrega acertada, eles lucram.

Alguns especialistas agora acreditam que os investidores tomaram conta do mercado, comprando futuros em níveis sem precedentes e provocando alta nos preços a curto prazo. Desde agosto passado, este mecanismo fez com que o arroz chegasse ao dobro do preço -incluindo as 500 mil toneladas que o governo filipino planeja comprar no início de maio para compensar sua própria escassez.

Greg Warner trabalha no setor atacadista de grãos por mais de duas décadas. Seu escritório fica a um quarteirão da Bolsa de Futuros de Chicago. Ele é um analista da firma AgResource, e ele diz que o que está acontecendo agora no mercado de trigo é sem precedente.

“O que normalmente temos é um grupo previsível de vendedores e compradores -principalmente agricultores e operadores de silos”, ele diz. Mas a paisagem mudou desde o ingresso dos grandes fundos de índices. Os administradores de fundos buscam maximizar seus lucros usando contratos futuros, diz Warner, “e os preços continuam subindo e subindo”.

Ele calculou que os investidores financeiros atualmente detêm os direitos de duas safras anuais inteiras de um grão específico negociado em Chicago chamado “trigo vermelho de inverno”.

Wagner está espantado com estes desdobramentos. Ele os vê como evidência de que o capitalismo está literalmente consumindo a si mesmo.

‘É um ano eleitoral’
Mesmo a CFTC em Washington reconheceu a natureza potencialmente explosiva da questão. Na audiência de terça-feira, a comissão convocou não apenas produtores rurais, mas também representantes do banco de investimento Goldman Sachs e grandes investidores como Pimco e AIG para testemunhar. Um membro da comissão, Bart Chilton, rejeitou a regulação dos investidores, dizendo: “Estes mercados precisam trabalhar para todos os participantes. Se não houver especuladores nos mercados, não há liquidez e não há mercado”. E o editor de um boletim de commodities, Dennis Gartman, negou veementemente que os especuladores eram culpados.

“Este é um ano eleitoral”, ele disse. “Achar que não teríamos senadores e deputados atribuindo os altos preços aos especuladores é ingenuidade.”

Mas algumas regras básicas do mercado parecem ter deixado de funcionar. “O enorme afluxo de capital fez com que os mercados de futuros não mais refletissem a oferta e demanda”, diz Todd Kemp, da Associação Nacional de Grãos e Alimentos dos Estados Unidos. Ironicamente, os investidores fizeram suas maiores apostas em alimentos básicos. A informação sobre os gargalos de oferta e fome no outro lado do mundo não é mencionada nas cotações de mercado.

Um mercador de commodities chamado Christoph Eibl conclui de forma sóbria que os administradores financeiros só querem “se beneficiar com a escassez destas commodities”. A firma de investimento de Eibl, a Tiberius, com sede em Stuttgart, administra US$ 1,6 bilhão. Seus especialistas internos estimam que centenas de bilhões de dólares migraram para o setor de futuros como um todo nos últimos cinco anos, grande parte para commodities agrícolas. Eibl admite que a coisa toda exige uma “discussão ética”. Alguns investidores de futuros argumentam que não causam alta dos preços no mundo real, porque como regra eles nunca recebem a entrega de um dado produto -outra parte da economia controla o preço real nas ruas. Mas os preços dos futuros afetam o comportamento do mundo real (como a formação de estoques) e Eibl diz que a compra de contratos futuros de arroz, por exemplo, “no final provoca alta nos preços ao consumidor em países em desenvolvimento como o Haiti”.

‘Passiva e voltada ao lucro’
Vozes como a de Eibl são raras até agora, talvez porque um boom comparável nas commodities nunca existiu antes. Especialistas já estão discutindo o que chamam de “superciclo”, provocado pela crescente demanda na China, e por agricultores incapazes, a longo prazo, de atender o aumento da demanda. O planeta possui uma quantidade finita de terras para agricultura.

O resultado é que mais e mais pequenos investidores estão subindo no vagão das commodities. Muitos investidores, não diferente dos administradores de fundo hedge, buscam a diversificação de seus portfólios, em parte por meio de investimento em commodities agrícolas. Do ponto de vista destes investidores, safras ruins que provocam alta dos preços são boas para seus portfólios. Muitos investidores não se importam ou simplesmente ignoram o fato de que ao investir no cassino global, eles podem estar apostando o suprimento alimentar diário das pessoas mais pobres do mundo.

Andreas Grünewald é um astro entre os pequenos investidores na Alemanha. Ele lançou seu Munich Investment Club (MIC), juntamente com oito colegas estudantes e seu avô, em 1989, com cerca de 15 mil euros de capital inicial. Grünewald, formado em escola de administração e negócios, agora administra mais de 50 milhões de euros para os 2.500 membros do MIC.

As commodities são um item importante para Grünewald. “Eles são a megatendência da década”, ele diz. Seu portfólio neste setor já vale cerca de US$ 24 milhões. Segundo Grünewald, isto é apenas o início.

Grünewald diz que deseja “permanecer amplamente concentrado” em água e commodities agrícolas e, em particular, “expandir estes investimentos se possível”. Ele já fez suas apostas em laranja, açúcar e milho nas bolsas de futuros. Sua aposta em trigo sozinha rendeu um lucro de 93% até o momento.

Ele já planejou seu próximo passo. “O arroz é outro item interessante que poderia muito bem complementar nosso portfólio”, diz Grünewald. Há escassez de escrúpulos no clube de investimento de Grünewald.

“A maioria de nossos membros é passiva e voltada ao lucro”, ele reconhece. Nos eventos nacionais do MIC, poucas pessoas levantam as conseqüências sociais de seus investimentos. Tumultos por causa da explosão dos preços do arroz? Organizações de ajuda em estado de alerta? Nada disso importa muito para os fornecedores preferenciais e apóstolos do lucro na comunidade dos pequenos investidores. O setor financeiro regularmente introduz novos “produtos” de investimento para cada setor atraente, independente de quão questionáveis.

O gigante financeiro ABN Amro é particularmente adepto de obter lucro no atual mercado. Como provedor de produtos de investimento em commodities para investidores privados, o ABN Amro se tornou em março passado o primeiro banco a oferecer certificados que permitem aos pequenos investidores apostarem na alta dos preços do arroz na Bolsa de Futuros de Chicago.

O departamento de marketing do banco reagiu com precisão fria às manchetes sobre a fome ao redor do mundo. Há duas semanas, quando especialistas alertaram sobre a crise de fome iminente e a instabilidade política associada a ela, o ABN Amro apresentou uma nova campanha publicitária em seu site. Com a proibição pela Índia da exportação de arroz, dizia o anúncio, a oferta mundial de arroz caiu ao mínimo: agora o ABN Amro está possibilitando, pela primeira vez, investir no alimento básico mais importante da Ásia.

Apresentar um produto de investimento durante um gargalo de oferta que tem provocado tumultos? Os banqueiros do ABN Amro são realmente aqueles contadores de centavos inescrupulosos clichês? “Nós estamos cientes das atuais discussões relacionadas às commodities agrícolas”, diz Önder Ciftci, chefe do setor de certificados alemães do ABN Amro. Mas ele não está interessado em uma discussão de ética. “Nós produzimos as semeadeiras, mas outros precisam semear”, ele diz.

O ABN Amro realmente semeou uma fonte substancial de lucros. No intervalo de apenas três semanas, os investidores obtiveram retornos de mais de 20%. O número de contratos futuros negociados em Chicago foi às alturas.

Nenhum alimento?
Jim Rogers, o ex-sócio do lendário investidor e filantropo George Soros, talvez seja o investidor mais conhecido em fundos de commodities. Ele começou a transferir seu dinheiro para commodities nos anos 90. Em suas viagens ao redor do mundo, ele percebeu que quase tudo, de níquel ao cacau, está em falta em uma economia globalizada.

Ele tem apostado nas altas dos preços desde então. Isto teve um impacto em todo o setor, porque o Índice Internacional de Commodities Rogers é um referencial para inúmeros fundos. Estas máquinas de fazer dinheiro atraíram bilhões em investimentos nos últimos anos e parte do dinheiro foi colocado em contratos futuros, aquecendo ainda mais os preços.

Mas agora Rogers, entre todas as pessoas, está alertando: “A menos que algo aconteça logo, nós veremos pessoas sem receber comida alguma, a nenhum preço. Este é o tipo de coisa sobre a qual lemos em livros de história, mas agora tenho medo de que poderá acontecer em breve”.

Mas do seu ponto de vista, a calamidade não é culpa de investidores como ele, mas das políticas dos países em desenvolvimento -como a imposição de proibições de exportação e o estabelecimento de tetos para os preços. Isto priva os produtores rurais, que enfrentam custos cada vez maiores de itens necessários como combustíveis e fertilizantes, de qualquer incentivo para produzir mais arroz.

“Eu acho que esta postura é moralmente repreensível”, diz Rogers. “Estes governos prefeririam deixar as pessoas passarem fome do que permitir um aumento natural dos preços.” A remoção dos controles de preços, ele diz, é a única forma de aumentar novamente os níveis de produção de arroz.

Os produtores, afinal, não dariam seu arroz aos pobres, diz Rogers. Mas ele não explicou como os pobres pagariam pelos preços mais altos. Quem sabe este seja um problema para os políticos?

Tradução: George El Khouri Andolfato

Der Spiegel

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Líder indígena que vive em área vizinha à Raposa Serra do Sol critica arrozeiros

Marco Antônio Soalheiro
Repórter da Agência Brasil

Brasília - O coordenador da Associação dos Povos Indígenas da Terra São Marcos (APITSM), Lourenço Wapichana, manifestou hoje (30), durante entrevista coletiva em Brasília, solidariedade aos índios que moram na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. A associação representa 5 mil indígenas que vivem em área vizinha à reserva. Wapichana criticou a atuação na região do líder dos arrozeiros e prefeito de Pacaraima - município no limite das duas localidades - Paulo César Quartiero.

“Temos lá esse senhor Paulo César, uma pessoa que tem vários processos e está lá criando confusão e conflito, jogando uns contra os outros, pisando na sociedade indígena e, de repente, é conduzido a prefeito de Pacaraima. Isso assustou nossa população. Onde está o pensamento das autoridades brancas?”, argumentou Lourenço, ao questionar a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que anulou a cassação de Quartiero em processo de acusação de compra de votos.

O representante da etnia Wapichana lembrou que Terra Indígena São Marcos também já foi afetada por ações atribuídas aos arrozeiros, que teriam queimado pontes e interditado estradas da reserva que dão acesso à Raposa Serra do Sol. Ele avalia que a demarcação em ilhas, que permitiria a permanência dos produtores na região, seria “muito ruim para o povo [indígena]” e “abre precedente para todas as terras do Brasil”.

As críticas foram reforçadas pelo coordenador-geral do Conselho Indígena de Roraima (CIR), o makuxi Dionito José de Souza. Para ele, são os arrozeiros que ameaçam a soberania nacional, e não a terra indígena em área contínua na fronteira, conforme defendido por setores militares. “Lá tem um arrozeiro invasor que destruiu pontes, levou pistoleiros, colocou uma bandeira da Venezuela na entrada da terra indígena e incentivou a fabricação bombas caseiras.”

Na entrevista, os índios também sustentaram que não são “empecilho ou entrave” para o desenvolvimento econômico de Roraima e se disseram responsáveis pela preservação ambiental da região. “Os não-índios seguem desmatando a terra. Onde tem só índio a terra é verde e a água é limpa, pura e gostosa”, afirmou Dionito. “Não negociamos de qualquer forma com os rizicultores”, acrescentou.

O dirigente do CIR disse ainda temer o que acontecerá se a Polícia Federal - que no momento atua na manutenção da ordem na terra indígena - deixar a região. “Podem voltar a guerrilha e os ataques às nossas comunidades”.

A posição dos índios que apóiam a permanência dos arrozeiros na Raposa Serra do Sol foi definida da seguinte forma: “Há uma dominação pelos rizicultores, que dão alguma mixaria, um quilo de arroz, para alguns indígenas aparecerem na mídia e dizerem que a saída deles [produtores] levaria índios a passar fome. Eu desafio qualquer um e isso não vai acontecer.”

Segundo Dionito, os índios da Raposa Serra do Sol têm produção própria de feijão, mandioca, farinha e carne bovina. A promessa é fazer uma “grande churrascada” para comemorar um decisão favorável do Supremo Tribunal Federal (STF) à demarcação contínua da terra.

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Teatro: Aquele que diz sim e aquele que diz não, de Brecht

TERÇA-FEIRA, 06 DE MAIO

20h00 - São Paulo

O Grupo Pulga de Teatro convida para a apresentação na Mostra de Teatro Experimentos 2008 da pesquisa Pulgas atrás de orelhas - A peça didática de Brecht e a mediação da recepção teatral: uma perspectiva pedagógica, que Sandra Grasso, coordenadora do grupo, desenvolveu como trabalho de conclusão do curso de Licenciatura em Artes Cênicas da USP.

A apresentação, que consiste na encenação da peça didática Aquele que diz sim e Aquele que diz não (1929), de Bertolt Brecht e atividades de mediação da recepção teatral.

LOCAL: CEU Butantã, Av. Eng Heitor Antonio Eiras García, 1700/ 1870 - Jardim Bonfiglioli - Butantã, São Paulo.

Mais Informações: Telefone 3732-4551. A entrada é GRATUITA.

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Exposição “Direito à Memória e à Verdade: A Ditadura no Brasil 1964/1985”

QUINTA-FEIRA - 1º DE MAIO

11h00 - São Paulo

Inauguração da Exposição “Direito à Memória e à Verdade: A Ditadura no Brasil 1964/1985” no Memorial da Resistência, no dia 1º. de maio de 2008, quinta-feira,11 horas.

LOCAL: Estação Pinacoteca do Estado - Largo General Osório, 66, São Paulo – SP.

Promoção: Governo do Estado de São Paulo e Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República.

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Meio Ambiente: Área desmatada dispara em 2 Estados no período de chuva

Juntos, MT e PA derrubaram 214 km2, contra 77 km2 no ano passado, segundo o Imazon

As motosserras voltaram a roncar em Mato Grosso e no Pará nos três primeiros meses do ano, justamente quando o governo federal anunciou medidas para combater o desmatamento na Amazônia. Nos dois Estados, recordistas da destruição, praticamente triplicou a área devastada no período, um movimento atípico para esta época do ano, quando a ação no campo é mais difícil por causa das chuvas na região.

A área desmatada nos dois Estados passou de 77 km2, de janeiro a março de 2007, para 214 km2 no mesmo período deste ano, dos quais 149 km2 foram em Mato Grosso. O levantamento foi feito pela organização não-governamental Imazon usando imagens de satélites.

“É sintomático esse crescimento no primeiro trimestre porque, a partir das medidas tomadas pelo governo, o desmatamento deveria ceder e não subir”, explica Adalberto Veríssimo, pesquisador do Imazon. Ele reconhece que os agentes da destruição florestal podem ter se antecipado ao efeito das medidas e cortado o quanto podiam no período, enquanto elas ainda não surtem o efeito.

Desde o início do ano, o governo federal anunciou uma série de ações para tentar conter o avanço do desmatamento na Amazônia Legal. Entre elas estão restrições ao crédito para proprietários rurais e a Operação Arco de Fogo, realizada pela Polícia Federal, Ibama e Força Nacional. Já foram alvo da operação municípios como Tailândia, Paragominas e Ulianópolis.

O secretário de Meio Ambiente do Pará, Valmir Ortega, diz que há uma pressão muito forte no preço das commodities no mercado mundial e o aumento do desmatamento pode ser um reflexo. Além disso, lembra ele, o aperfeiçoamento dos métodos de controle e monitoramento mudou a dinâmica da destruição florestal. Antes superavam os 50 km2 (5 mil campos de futebol). Hoje, são pulverizados, alguns menores que 1 km2. “Há uma imensidão de polígonos sendo desmatados e o controle é mais difícil.”

Já o secretário interino de Mato Grosso, Salatiel Alves de Araújo, diz que os dados indicados estão acima da realidade. “Os setores pecuário e agrícola estão saindo de uma crise e com a retomada no preço das commodities se espera um aumento do desmatamento. Mas não na proporção indicada, totalmente desconectada da realidade.”

Veríssimo lembra que o aumento na produção da soja, predominante em Mato Grosso, pode ter ocorrido sobre estoques de terra já aberta, sem desmates significativos. Os sojicultores preocupam-se em não associar o seu produto ao desmatamento amazônico. Medo de perder o mercado internacional cada vez mais sensível a questões ambientais. Porém, em solo brasileiro, a pressão agrícola pode estar provocando novos movimentos. Um deles seria a expansão do setor sucroalcooleiro no Centro-Sul, que empurra a produção de grãos para o Centro-Oeste e, por sua vez, a pecuária para o Norte.

O Estado procurou o Ministério do Meio Ambiente para tratar do tema, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.

TENDÊNCIA

No acumulado do calendário anual do desmatamento, que começa em agosto, as taxas crescem no Pará, enquanto em Mato Grosso caem. No primeiro, o desmatamento passa de 775 km2 para 1.362 km2. Já em Mato Grosso cai de 2.203 km2 para 1.853 km2 (veja quadro acima).

Tanto os dados do Imazon como os apresentados pelo sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostram que o desmatamento voltou a apresentar níveis alarmantes (mais informações nesta página). Sobre os dados do Inpe, os dois Estados mostraram comportamentos distintos. O Pará reconhece o problema, alega que a situação se arrasta há anos e diz que a união dos governos federal e estadual vai render frutos no médio prazo. Já Mato Grosso, que ao contrário do vizinho tem a maior parte das propriedades em mãos privadas e com situação fundiária praticamente regularizada, contesta o Inpe e contrapôs um estudo em mais de 600 pontos do Estado para dizer que não houve um recrudescimento do corte florestal.

Dos 36 municípios listados pelo MMA como os campeões de desmatamento, 6 do Pará e 7 de Mato Grosso figuram entre os 20 que mais desmataram no acumulado desde agosto, segundo o Imazon. Localizando-os no mapa, há uma coincidência geográfica. A maior parte deles fica no norte de Mato Grosso ou no sul do Pará. Formam o que os ambientalistas vêem como um cinturão da carne, porque coincide com as áreas de maior expansão da pecuária na Amazônia. (Eduardo Nomura, com colaboração de Cristina Amorim - Agência Estado)

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“Heróis” de Lula viram alvo prioritário de fiscalização contra trabalho escravo

Se para o presidente Lula os usineiros “estão virando heróis mundiais”, para Ruth Vilela, secretária de Inspeção do Trabalho, eles já viraram o “foco prioritário” de ações de combate ao trabalho análogo à escravidão no país.

Só nos três primeiros meses deste ano, foram resgatadas 1.094 pessoas do setor sucroalcooleiro (81% do total registrado pelos grupos móveis). Em todo o ano passado, foram 3.117 (53% do total).

“Desde o ano passado, foi colocado no planejamento geral da fiscalização o setor de cana como prioritário. Isso é justificável não pelo crescimento do setor, mas pelas notícias de problemas relacionados à exaustão, doenças profissionais e eventualmente mortes dos trabalhadores”, afirmou Vilela à Folha.

Segundo ela, a fiscalização nas usinas está sendo feita “independentemente de denúncias”, diferentemente da atuação rotineira dos grupos móveis que atuam pelo país.

Vilela disse que o Ministério Público do Trabalho, a Procuradoria da República e a Polícia Federal foram avisadas da nova prioridade, assim como as empresas do setor.

“Em janeiro, enviei a todas as usinas e fornecedoras uma notificação preventiva, já chamando a atenção para os pontos fundamentais de condições de trabalho, para, quando a fiscalização chegar, os empregadores já estarem previamente avisados do tipo de cobrança que será feita.”

Apesar de, em discursos recentes, Lula ter minimizado o trabalho escravo no país, ao comparar o trabalho dos cortadores de cana com o de operários de carvoarias do século 18, Vilela disse tomar as declarações em um contexto “macropolítico”, “de defesa do produto nacional”. E afirmou que elas não impactam nas operações. “As ações [de combate ao trabalho escravo] são de Estado, não de governo.”

O usineiro Maurílio Biaggi Filho, conselheiro da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), considera o aumento da fiscalização positivo, desde que seja “construtivo”, o que, para ele, é atualmente raro no país.

“Hoje, (as fiscalizações) só acontecem sob holofotes. Isso é extremamente negativo para o Brasil lá fora”, afirmou ele, para quem há exageros nas ações dos fiscais.

Biaggi disse que as recentes notícias sobre irregularidades trabalhistas nas usinas brasileiras já causaram um prejuízo real à imagem do setor no exterior. Ele teme que esse dano seja ainda maior. “O grande problema é a generalização. Atrapalha a idéia sobre o Brasil como um todo”, afirmou. “E, hoje, uma das coisas que nos diferenciam é o biocombustível.”

Pressão externa

Vilela disse que “não encara com nenhuma ingenuidade” os interesses econômicos envolvidos, mas afirmou que o órgão “não faz segredo das ações nem dos resultados para a imprensa, inclusive a estrangeira, por uma questão de princípios”.

“Não há o que esconder. Vários outros países da América Latina que não divulgam tanto os seus problemas internos em princípio até podem ser beneficiados com o silêncio, mas o Brasil decidiu enfrentar o problema e não varrer a sujeira para debaixo do tapete.”

Francisco Alves, professor de engenharia de produção na Universidade Federal de São Carlos, vê o aumento da fiscalização como um resultado direto da degradação das condições de trabalho dos canavieiros. “Os usineiros reclamam demais e reformulam de menos as relações trabalhistas, que ainda são arcaicas.”

Quatro grandes empresas do setor foram procuradas pela reportagem, mas nenhuma comentou o direcionamento da fiscalização. (THIAGO REIS e JOÃO CARLOS MAGALHÃES, da Agência Folha)

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Acusado de furtar galinha vai para cela lotada em Rincão (SP)

Preso sob acusação de tentar furtar cinco galinhas em uma granja na cidade de Ibitinga, um rapaz de 25 anos foi levado à superlotada cadeia de (310 km a noroeste de São Paulo), revela reportagem de Juliana Coissi, publicada na edição desta terça-feira (29/04) da Folha de S.Paulo.

O ajudante de motorista de caminhão Valmes Pereira da Silva dividiu a cadeia com outros 25 detentos, em um espaço projetado para abrigar 12 pessoas. Aos finais de semana, a situação da cadeia se agrava, chegando a abrigar até 65 presos, já que o local serve de triagem para detidos em 20 cidades da região, mostra a reportagem.

Em março, as péssimas condições da unidade foram denunciadas pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) ao governo do Estado. Para a mesma cadeia foram levados, nos últimos dias, um homem acusado de furtar dois potes de sopa e outro que teria tentado furtar frascos de desodorante. (Folha Online)

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Tragédia do Metrô: Empresa ignorou conselhos técnicos

Relatórios sugeriam escavações mais profundas, o que reduziria a possibilidade de desabamentos no local

A Companhia do Metrô desconsiderou recomendações técnicas que dariam mais segurança às escavações da Estação Pinheiros da Linha 4-Amarela. Por causa de problemas no solo na região, dois relatórios obtidos pelo Estado indicavam necessidade de obras mais profundas que as realizadas. Isso, porém, atrasaria a inauguração em seis meses e demandaria novos gastos, não só durante a obra como também após a abertura da estação, incluindo mais lances de escadas rolantes e maior uso de energia elétrica. A estação foi escavada a 30 metros de profundidade, quando o ideal, conforme especialistas, seria de 35 a 45 metros. Isso reduziria a possibilidade de desabamentos no local, como o ocorrido em 12 de janeiro de 2007, que deixou sete mortos.

O Metrô alega que a elaboração do projeto que poderia rebaixar a cota é de responsabilidade do Consórcio Via Amarela - formado pela OAS, Odebrecht, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez e Alstom (leia texto ao lado). Segundo a companhia, a determinação final sobre a construção caberia aos empreiteiros.

“O projeto teve várias etapas e mudaram as cotas (a profundidade). Na última mudança, ela subiu, deixando a linha e a estação mais rasas”, explicou o engenheiro Roberto Kochen. Diretor do Departamento de Engenharia Civil do Instituto de Engenharia, ele participou entre 1993 e 2002 da elaboração dos projetos da Linha 4. Segundo ele, a tendência hoje no mundo é trabalhar com escavações mais profundas, que afetam menos a superfície - incluindo edificações e galerias de água e esgoto - e evitam problemas com surpresas geológicas. “A execução fica mais segura. Mas também amplia os gastos”, explica.

Em 2001, após reelaboração do projeto básico e da análise das seções geológicas do trajeto da Linha 4, feita pelas empresas Figueiredo Ferraz, Maubertec e Noronha, foram alterados não só o traçado como também o chamado greide - projeto em perfil longitudinal - da Estação Pinheiros. A modificação tomou como base a revisão dos estudos geológicos e geotécnicos feita pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), contratado pelo Metrô em 1997. Engenheiros explicam que calcular o greide significa definir qual deve ser a profundidade da obra.

Num relatório feito pela Themag Engenharia em 21 de maio de 2005, sobre as condições geológicas do lote 2 e implicações para a escavação, Luiz Ferreira Vaz, responsável técnico, e Tarcísio Barreto Celestino, engenheiro responsável, ressaltaram que a avaliação do comportamento do maciço de rocha sob a Linha 4 e bibliografia especializada apontavam que as condições geológicas do lote 2 poderiam resultar em “colapsos da frente de escavação”.

Um parágrafo adiante, recomendavam que a escavação fosse mais profunda e indicavam “avaliação de métodos alternativos de escavação, mais adaptados às novas condições geológicas do lote 2, reveladas pelos estudos adicionais”.

“No caso da Linha 4-Amarela, uma profundidade ideal do ponto de vista da construção dos túneis e das estações poderia ter sido cerca de 35 a 45 metros abaixo da superfície”, explicou Nick Barton, autor de outro estudo. “Isso não removeria a possibilidade de encontrar argilas, mas teria reduzido bastante a freqüência de tal ocorrência. Em tal profundidade, a construção dos túneis e das estações seria a partir de cotas subterrâneas e as escadas rolantes teriam de ser maiores”. (Eduardo Reina e Bruno Tavares - Agência Estado)

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BLACK-TIE - Mistificando como antigamente

Maurício Segall

Novos Estudos Cebrap, V. 1, N. 2, 1982,
pgs.: 18- 26 (125)

Só mesmo uma razoável dose de irritação me levaria a perturbar um evento cultural nosso, sobretudo em cinema e teatro, cujas vicissitudes são do conhecimento público. Mas, como a fita Eles Não Usam Black-Tie já deu na bilheteria o que tinha que dar, e como não tenho a pretensão de “fazer a cabeça” das pessoas e, finalmente, porque discordo radicalmente de algumas colocações da fita, aceitei o convite para escrever este artigo, pressupondo que o leitor já tenha assistido a ela.
Não se trata de uma critica, para o que seria incompetente, mas sim uma espécie de denúncia do que eu considero ser uma manipulação e/ou mistificação política.
0 fato é que se a peça Black-Tie, escrita em 1955 e estreada em 1958, representou um marco da dramaturgia nacional, a fita ,Black-Tie não é um marco da nossa cinematografia. E se é certo que Gianfrancesco Guarnieri cresceu a partir desta sua primeira peça escrita aos 2 1 anos de idade e nos deu, entre outras, a madura A Semente, Leon Hirszman nem de longe, a meu ver, consegue atingir o nível de suas fitas anteriores, como por exemplo São Bernardo, baseado na . obra de Graciliano Ramos.
Por outro lado no entanto a fita tem obtido um razoável sucesso de público. No caso, creio que a explicação não é complicada. Entre outras razões, me parece, em primeiro lugar, que ela é correta e seu artesanato e carpintaria estão à altura do talento e experiência do seu diretor e, portanto “funciona”.
Além disso, responde ao clima de descontentamento generalizado contra os donos do poder e do dinheiro. Três: o alto nível de algumas interpretações. Quatro: a fita “maneja” de forma competente os seus componentes fáceis, inclusive as cenas de sexo e nudez. Maria, peladinha da silva, pergunta a Tião - “gosta?”. Não sei se ele gostou, mas eu, certamente, sim.
Em quinto lugar, como se sabe, a mani¬queização sempre fatura, pois simplifica de forma esquemática aquilo que nem sempre é facilmente compreensível. Em sexto, a obrigatória repercussão dos numerosos A . que recebeu, não obstante estes freqüentemente serem fruto de uma “politização” indevida.

DA PEÇA À FITA
ou “uma adaptação ou uma avacalhação?”

A comparação da peça e da fita é necessária para apontar as modificações (e não simplesmente adaptações) que resultaram objetivamente numa evidente manipulação política.
Para inicio de conversa, a fita conseguiu enfraquecer a peça. Isto decorre, a meu ver, principalmente do agravamento qualitativo da desumanização (e/ou maniqueização e/ou moralização e/ou dogmatização) que alguns dos personagens da peça já apresentavam em grau incipiente e da introdução na fita de novos personagens totalmente esquemáticos.
A exceção à regra vai por conta do personagem Romana que mantém, em boa parte, a dosagem humana que a peça lhe conferia. O Otávio da peça era um operário sem qualificação, habitante de barraco no morro, cuja energia de luta e consciência política se situavam ao nível espontâneo. Como tal, era um personagem muito mais contraditório (humano, portanto) do que o Otávio da fita, que SABE TUDO, sobretudo o que quer e precisa a classe operária.
Na fita, ele é um operário com casa própria na periferia de São Paulo e é retratado como uma espécie de “irmão” mais velho encarregado de zelar pelos “irmãos” menores - bem intencionados, impulsivos, “porras-loucas”.
A cena da fita na qual Otávio, voltando da prisão, recomenda a Bráulio - “não sai de perto do Italiano (Santini), não deixa ele fazer besteira”, ilustra bem este pater¬nalismo.
O mesmo pode-se dizer de Bráulio, que, na fita, é um alter ego de Otávio. Sem falar que, para os fins colimados pela fita, como veremos adiante, Bráulio é assassinado no piquete, o que não acontecia na peça.
O personagem Tião é completamente adulterado. Importante salientar que, na fita, Tião vê o pai ser preso e pouco se incomoda, havendo uma tendência clara de colocar o personagem nas fronteiras do mau-caratismo, o que não acontecia nem de longe na peça.
Através do personagem Tião, tanto a peça como a fita abordam o problema “fura-greve”. Na fita, porém, este é tratado com acentuado maniqueísmo e moralismo, o que já ocorria na peça, mas de forma muito mais matizada. A fita chega a associar fura-greve com delator, o que a peça nem insinuava.
Ao introduzir o “dedo-duro” na fita (que não existia na peça, pois ali Jesuíno era muito mais tímido que o próprio Tião e em nenhum momento falava em delatar), ela o faz de forma caricata. O homem é mau, inclusive nas caretas.
Na peça, a greve, ou pelo menos sua mobilização, foi vitoriosa (só dezoito operários, entre os quais Tião, a furaram), enquanto na fita a greve aborta, pois praticamente todos entram para trabalhar, a despeito do esforço dos minguados piquetes.
No entanto, a fita escolhe apenas Tião’ para fura-greve. Só porque é filho de Otávio, apesar de ficar claro, tanto na peça como na fita, não ser ele politizado nem conscientizado (ressalvando que isto se deu por ter sido educado fora de casa e longe do “Pai-herói”, portanto).
Na verdade, a fita agrava o moralismo que a peça já dedicava ao fura-greve. Fura-greve é um filho-da-puta e ponto final. Como se não existissem alguns direitos como ao medo, o direito à insegurança. o direito a um certo egoísmo, em contraponto aos deveres evidentes de solidariedade e de companheirismo. Isto não só é uma simplificação, como também é uma moralização do tipo “realismo socialista” deturpado.
Na personagem Maria, a maniqueização é evidente. Na peça, ela era cheia de cinzas - os cinzas peculiares aos seres humanos -, mas na fita inicialmente é branco (apa