Arquivo de 8 de Abril de 2008

“Humoristas estão muito certinhos”

O cartum está morrendo, o “Pasquim” não foi assim tão influente e o mundo anda ficando sem graça. Apesar de fazer diagnósticos tão alarmistas, o humorista Jaguar não se diz um nostálgico. “Nostalgia é coisa de velho gagá”, diz. O humorista avalia que a vida do “Pasquim” poderia ter sido mais curta, pois o jornal foi perdendo influência e tiragem. “Devia ter ido cuidar da minha vida, mas insisti de teimoso, de burro.”

SYLVIA COLOMBO
ENVIADA ESPECIAL AO RIO

Aos 75 anos e ainda freqüentando de modo assíduo os botequins do Rio -e os da cidade onde estiver-, Jaguar encontrou a Folha num tradicional restaurante da rua São José, no centro da cidade, na tarde da última sexta-feira.
O motivo da entrevista é o fato de ele estar agora à frente da coleção de humor da editora carioca Desiderata, publicando novos cartunistas e gente da época do “Pasquim”, incluindo ele próprio. Entre os lançamentos vindouros, um livro de cartuns que ele havia publicado apenas na Argentina, há mais de 30 anos, e do qual não lembrava mais. “Voltei para o Rio, cai na gandaia, e esqueci dele.”
O título, sugestivo, é “Nadie Es Perfecto” (ninguém é perfeito). Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista.

FOLHA - Como anda o cartum?
JAGUAR - O cartum é uma espécie em extinção. Tem muita gente publicando história em quadrinhos, charges, caricaturas. Não é a mesma coisa. Sou cartunista, mas sobrevivo fingindo que sou chargista. Se não, não pago as minhas contas.

FOLHA - Qual é a diferença essencial entre cartum e charge?
JAGUAR - Simples. Por exemplo. Hoje fiz uma charge sobre a visita do Bush. Desenhei o Lula chamando o Bush, que está indo embora do quadrinho. Só aparecem os pezinhos dele. Lula estica o dedo e chama: “Ei, ô companheiro, e a saideira?”. Isso é uma charge. Uma piada que, daqui a cinco anos, ninguém vai entender, porque é em cima de uma circunstância.

FOLHA - E o cartum?
JAGUAR - É um troço que você faz sobre assuntos que daqui a 20 anos qualquer um entenderá. Um exemplo clássico, uma piada qualquer sobre o “Ricardão dentro do armário”. Todo mundo sabe do que eu estou falando. Piadas sobre vida conjugal, sexual, todo mundo entende. Em qualquer época. Já piadas em cima de fatos políticos momentâneos vão ficando incompreensíveis.

FOLHA - E por que o cartum está em extinção?
JAGUAR - Porque ninguém mais publica. Eu não tenho onde publicar. De vez em quando emplaco um cartum. Mas tem de ser disfarçado de charge. Se não for assim, não passa.

FOLHA - O mundo está se desinteressando do humor?
JAGUAR - Pelo menos deste formato de humor, sim. Tanto que revistas no mundo todo estão desaparecendo. A única que ainda publica cartum de verdade é a “The New Yorker”.

FOLHA - Há uma nostalgia excessiva com relação ao “Pasquim”? As pessoas romantizam demais essa época?
JAGUAR - Eu não tenho nostalgia nenhuma. Só quero saber o que vou fazer amanhã. Mas as pessoas ficam com esse papo: “Ah, no tempo do “Pasquim’”. É uma bobagem, coisa de velho gagá. Como se tivesse sentido existir o “Pasquim” até hoje.

FOLHA - Quando lê os jornais, vê a influência do “Pasquim”?
JAGUAR - Os jornais mudaram muito. Mas acho que mudariam de qualquer jeito. Se não fosse por um lado, seria pelo outro. As coisas já estavam em transformação.

FOLHA - Mas você escreveu que, com o “Pasquim”, a imprensa tirou o paletó e a gravata.
JAGUAR - É verdade, mas a mudança já estava acontecendo. O “Pasquim” deu certo porque as pessoas se identificaram. Por outro lado, posso dizer que quem começou essa transformação toda na imprensa brasileira fui eu, e por acidente.

FOLHA - Como assim?
JAGUAR - A gente tinha feito uma entrevista com o Ibrahim Sued. Fomos eu, o Tarso de Castro e o Sérgio Cabral. Mas depois todo mundo sumiu.

FOLHA - Sumiu?
JAGUAR - Sim, sumiu. Éramos um bando de porra-louca. Os dois foram para a farra e eu tive de tirar a entrevista sozinho. Só que eu não sou jornalista e não sabia fazer isso. E deixei o texto com o jeito coloquial mesmo. Virou nosso “estilo”.

FOLHA - E pegou na hora?
JAGUAR - Não. Demorou. Os jornais resistiram a adotar o tom coloquial. Só depois que a publicidade começou a usá-lo é que a imprensa foi atrás. Mas hoje já acho que essa fórmula se esgotou.

FOLHA - Por quê?
JAGUAR - Nossas entrevistas ficavam boas porque éramos um monte de caras de porre que íamos falar com um coitado de um entrevistado que não tinha chance de abrir a boca. Passava um aperto danado. Depois que a coisa pegou, a imprensa começou a usar essa fórmula, só que para levantar a bola do entrevistado. Aí perdeu a graça.

FOLHA - Até quando, então, você acha que o “Pasquim” justificou a sua existência?
JAGUAR - O “Pasquim” foi uma experiência muito divertida, mas eu poderia tê-la diminuído em dez anos. Fiquei fazendo o jornal de teimoso. Me endividei. Foi um horror. Todos pularam fora e eu fiquei. O jornal perdeu a influência, a tiragem era pífia. Podia ter feito como os outros, que foram cuidar de suas vidas. Mas, não, fiquei lá, morando na redação, dormindo num colchonete debaixo da prancheta. Um maluco.

FOLHA - Dá para viver de cartum?
JAGUAR - Não. Eu trabalhei 17 anos no Banco do Brasil. E nunca faltei nem um dia. O banco foi fundamental. Não só pela grana, mas porque me ensinou a ser profissional. Sou um porra-louca, bêbado, alcoólatra, um monte de coisa. Mas nunca faltei no trabalho. Também nunca deixei de entregar um desenho no horário, no dia certo. Isso eu devo ao banco.

FOLHA - Houve um retrocesso no humor brasileiro com relação aos anos da ditadura?
JAGUAR - Sim. Essa coisa de não poder chamar crioulo de crioulo, por exemplo. Fui casado dez anos com uma crioula. Não é pejorativo. Não vou começar a dizer que casei com uma afro-descendente. É uma hipocrisia.
Mas a maioria dos humoristas hoje é muito certinha. Criou-se um limite e, se a gente passa um pouco, leva pito. Eu não levo mais porque sou velho e sou o Jaguar. Aí as pessoas dizem: “Ah, é o Jaguar, deixa ele”.

Jornal Folha de S. Paulo

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Luc Ferry ensina como vencer os medos

O pensador francês, que estará em Porto Alegre na terça (20) durante o seminário internacional Fronteiras do Pensamento, fala sobre sua interpretação da filosofia como meio de salvação.

Entrevista concedida a Geraldo Galvão Ferraz

CULT - Aprender a viver foi traduzido agora no Brasil. Antes de tudo, vê-se que o livro não é uma introdução didaticamente cronológica à filosofia. Isso foi deliberado?

Luc Ferry - O objetivo do livro é fazer com que se compreenda em profundidade o que é a filosofia. Os primeiros filósofos gregos partiam da idéia de que nossas existências são mais ou menos imobilizadas, travadas por medos, sobretudo pelo medo da morte. Para eles, a razão da filosofia é ajudar os homens a escapar dos medos, a superá-los para chegar à sabedoria, isto é, à serenidade sem a qual não se pode ser livre, nem ser generoso e aberto aos outros. No meu livro, conto a história das grandes respostas oferecidas para esta imensa pergunta: como vencer os medos. O livro é assim, de alguma forma, no que é essencial, cronológico: começa pela antiguidade grega e termina em Nietzsche e a filosofia contemporânea.

CULT - O estilo de Aprenda a Viver também se faz notar. É uma obra muito acessível e chega a levar o leitor a lê-la como um romance. Foi difícil de escrever?

L.F. - Para ser honesto, sim. Aliás, foi aprimeira vez que consigo escrever um livro realmente legível para todos aqueles que o quiserem ler! O que me ajudou a chegar aí foi o fato de ter uma leitora ideal e real em mente: minha filha Gabrielle, que tem 15 anos e a quem me dirigi constantemente ao escrever, o que me ajudou a suprimir todo jargão inútil e, sobretudo, todas as alusões que a gente faz até sem refletir e que excluem os leitores não profissionais…

CULT - O senhor leu O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, que é a introdução à filosofia que conseguiu vender muitos exemplares em todo o mundo? O que acha dele? É um livro tão útil quanto o seu?

L.F. — Sim, eu o li, e conheço pessoalmente Gaarder por quem tenho muito simpatia. Mas nossos livros não têm nenhum ponto de contato: o dele é uma história da filosofia clássica acrescida de um bonito romance de ficção científica que mantém o leitor em suspense. O meu tem objetivo bem diferente: o que me estimula, é que as pessoas, inclusive a maioria dos professores de filosofia, não sabem o que é filosofia. Na maioria das vezes, acham que é o exercício da reflexão, da argumentação, do espírito crítico… Ora, a filosofia não tem nada a ver com isso! A prova é que todo mundo argumenta, todo mundo reflete sem ser filósofo por isso. A idéia que defendo no meu livro, dando exemplos, é que a filosofia é uma doutrina do resgate, da “salvação”, que, diferentemente das religiões, não recorre nem a Deus nem à lei: trata-se, para os filósofos de se salvar dos medos que impedem de chegar à vida boa, mas fazendo isso através da razão (e não pela fé) e por si mesmo (em vez de um Deus). Isso é a filosofia e nada mais e essa definição vale como eu mostro no meu livro para todas as grandes visões do mundo, de Platão até Nietzsche, incluídos!

CULT — Como seus livros têm sido recebidos pela igreja católica? Seu humanismo espiritualista pode parecer, aos olhos dela, uma espécie de heresia contemporânea?

L.F. — Sim, é verdade, mas ao mesmo tempo, foi junto aos teólogos que meu livro foi lido, sem dúvida, com mais interesse, na medida em que faço da filosofia a grande concorrente da religião: nos dois casos trata-se de atingir a salvação, de enfrentar, como, por exemplo, Cristo no Evangelho com seu amigo Lázaro, a questão da morte do ser amado, o que é a mais difícil, entre todas. Simplesmente, diante de uma questão desse tipo, com a qual todo mundo se defronta ou se defrontará, crentes e filósofos não respondem do mesmo jeito. Os primeiros o fazem por Deus e pela fé, os segundos, como acabo de dizer, tentam agir pela lucidez e por sua própria razão. Conto no livro a história das grandes respostas a essa questão crucial. Assim, cada um poderá julgar e tenho certeza que, mesmo para os crentes, é interessante se defrontar com a filosofia…

CULT - O senhor pensa que a religião, sobretudo nos países em desenvolvimento, pode ser um obstáculo à liberdade de pensamento?

L.F.– Não sou crente, mas respeito profundamente a fé das pessoas. Dito isto, há atitudes religiosas muito diferentes. No Evangelho, Cristo é deslumbrante de liberdade. Penso, por exemplo, no episódio da mulher adúltera, que ele não condena, mas, ao contrário, consegue salvar. Para a época, é fabuloso! Se todas as religiões de hoje pudessem se inspirar nesse exemplo, a vida certamente seria mais bela. Infelizmente, acontece demais o contrário. Se pensar nisso, você verá que todas as guerras que hoje ensangüentam o mundo, são de origem religiosa: o que vale tanto para o Iraque como para o Sudão, para a ex-Iugoslávia e para a Irlanda.

CULT — O Mal, o inferno está em nós, como dizia Satre. Há lugar para o homem se tornar melhor numa situação de genocídios, capitalismo selvagem e consumerismo?

L.F. — Certamente, mas não confunda duas coisas diferentes: as questões de morais e as questões que se referem ao sentido, à salvação e à sabedoria e que abrangem, em geral, algo não forçosamente religioso, do que se poderia chamar a espiritualidade. Reflita nisso, por exemplo: imagine que tenha uma varinha mágica que lhe permitisse fazer com que todos os humanos se comportassem “moralmente” uns com os outros, que eles se respeitassem, que respeitassem os direitos do homem: não haveria mais genocídios, massacres, exploração, etc. Apesar disso, não evitaríamos envelhecer, nem ver morrer uma pessoa próxima, não termos sorte no amor ou termos dúvidas sobre a educação de nossos filhos. No fundo, a moral não é o essencial e as questões de sentido, de salvação, que as religiões e os grandes filósofos abordam de frente são as mais interessantes, a meu ver.

CULT - Um fenômeno editorial como O Código Da Vinci, de Dan Brown, conseguiu confirmar, de certa maneira, suas teses de humanização do divino?

L.F. - Não li esse livro - devo ser, aparentemente, o único que não o fez! Dito isso, creio que, na verdade, vivemos o fim dos valores tradicionais e o surgimento de novos valores ligados à sacralização do outro. Esclarecendo: nenhum dos meus alunos estaria perto atualmente de sacrificar sua vida por Deus, pela pátria ou pela revolução. Em troca, conheço muitas pessoas que estariam dispostas a arriscar suas vidas, se necessário, para defender uma criança, um amigo, talvez até um desconhecido Em outros termos, os valores transcendentais desceram do céu à terra e, pouco a pouco, eles se encarnam, aos nossos olhos, na humanidade em si. É uma verdadeira revolução e ela merece reflexão. Isso vai mudar, sobretudo, toda a maneira de fazer política…

CULT - Há uma possibilidade para o mundo de se libertar da multiplicação de medos e do ideal do risco mínimo, que o senhor mostre como uma mudança de nosso tempo?

L.F. - Na verdade, temos medo de tudo: do sexo, da bebida, do fumo, da velocidade, da vaca louca, dos pássaros por causa da gripe aviária, mas também da globalização, do Islã, da bomba atômica e sei lá mais do quê. O que é novo não é a proliferação dos medos em si. Isso sempre existiu. Não, o que é novo é o fato de que o medo tenda a ser desculpabilizado. Com isso, quero dizer que, quando eu era pequeno, explicavam-nos em geral que crescer, tornar-se adulto, era superar os medos. Um menino crescido não tem medo do escuro, tem coragem para ajudar uma pessoa fraca agredida na rua, etc. Hoje, sobretudo por causa do peso da ecologia, pensa-se que o medo é o primeiro passo rumo à sabedoria.

CULT - O aquecimento global torna mais premente que nunca uma nova ordem ecológica?

L.F. — Claro, é preciso agir, deter a destruição do mundo, salvar esse mundo que é nosso único lar. Mas não ao preço da transformação do homem num ser lamuriento e débil. Esmagado pelos medos. Conservemos o ideal filosófico de uma vitória sobre os medos. Não no sentido de acabar com eles, mas no de que, como o judoca, deve-se conseguir fazer algo usando a força do adversário

CULT - Uma discussão que ocorre hoje no Brasil sobre a educação fundamental é de que o aluno, apesar de um fraco desempenho, deve sempre ser promovido e nunca repetir de ano. Qual é sua opinião?

L.F. - Um tema difícil! Teria vontade de defender que o aluno refaça a série, que não se deixe passar de ano os alunos sem nível, mas todos os estudos sérios mostram que não é uma solução. Os alunos que repetem geralmente não ficam melhores que antes. Na minha opinião, a solução verdadeira é pôr todos os meios de que dispomos a serviço de nossas crianças, nos primeiros anos, isto é, no período em que se faz a aquisição do que é fundamental: saber ler, escrever, contar, exprimir-se convenientemente. Aí é que é necessário, como se diz, colocar todas as fichas. Em outros termos, melhor prevenir que remediar, pois nossos sistemas escolares não sabem ou pouco sabem curar o fracasso.

Revista Cult

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A multinacional americana Chiquita financiou as milícias paramilitares colombianas

Ela pagou US$ 1,7 milhão às AUC entre 1997 e 2004, “motivada pela preocupação legítima de proteger os empregados”

Marie Delcas
correspondente em Bogotá

A multinacional Chiquita Brands financiou grupos paramilitares colombianos para que estes garantam a sua proteção. Nos Estados Unidos, isso lhe custará uma multa de US$ 25 milhões (R$ 52,25 milhões). A firma agroalimentar anunciou na quarta-feira, 14 de março, ter chegado a um acordo com o Departamento americano da Justiça, que vinha conduzindo o inquérito há três anos.

As Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC, de extrema-direita) estão inscritas na lista das organizações terroristas por Washington desde 2001. Elas cometeram inúmeros crimes contra civis na região bananeira da Uraba (noroeste da Colômbia), onde a Chiquita tinha plantações. Hoje desmobilizadas, essas milícias paramilitares estavam muito envolvidas no tráfico de drogas nesta área.

Em Bogotá, o ministro colombiano da defesa, Juan Manuel Santos, comemorou a decisão. Os defensores dos direitos humanos pedem que a multa seja revertida para as vítimas dos paramilitares. A guerrilha de extrema-esquerda e os paramilitares disputaram entre si durante mais de dez anos o controle da Uraba.

Segundo informa o relatório das autoridades americanas, a Chiquita teria inicialmente remunerado os guerrilheiros que se dedicavam a atividades de extorsão na região. No final dos anos 1990, as AUC nela começaram a se instalar. Sob o pretexto de acabar de uma vez por todas com as exações da guerrilha, os paramilitares massacraram camponeses e sindicalistas, sob o olhar cúmplice do exército e das companhias bananeiras, e foi a sua vez de praticar a extorsão.

US$ 1,7 milhão

A Chiquita reconhece que pagou mais de US$ 1,7 milhão (R$ 3,55 milhões) às AUC entre 1997 e 2004, mas alega ter agido com boa-fé. “Os pagamentos efetuados foram motivados pela preocupação legítima de proteger os nossos empregados”, declarou na quinta-feira (15/03) Fernando Aguirre, o presidente da companhia, cuja sede fica em Cincinnati (Ohio).

Segundo o Departamento americano da justiça, diretores “do alto escalão” da Chiquita autorizaram e dissimularam os pagamentos incriminados. Os nomes dos responsáveis não foram revelados.

O acordo assinado com a administração americana é uma “solução ao dilema ao qual a companhia foi confrontada vários anos atrás”, precisa um comunicado da firma. Em 2003, a Chiquita informou espontaneamente a justiça dos pagamentos realizados por uma das suas antigas filiais, constatando que os beneficiários figuravam na lista das organizações que a lei americana considerava criminoso financiar. Um ano mais tarde, o grupo abandonou as suas operações na Colômbia.

Outras empresas americanas também são suspeitadas de ter vínculos com os paramilitares colombianos. A companhia carvoeira Drummond e a Coca-Cola foram processadas perante tribunais americanos, suspeitas de terem encomendado o assassinato de vários sindicalistas.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Jornal Le Monde

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Nos passos de Hannah Arendt

Uma das mais importantes pensadoras políticas do século 20 é tema de biografia

Ubiratan Brasil

Descobrir toda a complexidade de Hannah Arendt - a meta da escritora francesa Laure Adler, ao iniciar a pesquisa sobre a vida e obra de uma das mais importantes pensadoras da política do século passado, era estimulante. Autora de uma biografia de Marguerite Duras, Laure não buscava apenas o retrato da intelectual, da filósofa, da escritora, mas principalmente desvendar a mulher que conhecia o sofrimento, a mulher obrigada a procurar seu lugar, tanto intelectual como físico, entre a língua alemã e a cultura judaica, entre uma paixão proibida (pelo filósofo Heidegger) e a rotina de esposa, entre o amor pela filosofia e o gosto pela política.

Hannah acreditava ter vindo ao mundo para cumprir uma sina. ‘Em nome de suas próprias idéias, ela escolheu, durante 60 anos, questionar-se sobre o que produz o mal, sobre o que vai mal: as violências políticas, os totalitarismos, o conflito israelense-palestino, o crescimento incessante da sociedade de consumo, o aumento do número de refugiados no mundo, a redução do espaço público, a degradação de nossas liberdades’, comenta Laure, que não só se debruçou sobra a obra de Hannah Arendt (1906-1975) como visitou os lugares onde ela viveu, pesquisa que resultou no livro Nos Passos de Hannah Arendt (644 páginas, R$ 75), que a editora Record pretende lançar na sexta-feira.

Trata-se de um relato sobre os anos de formação da pensadora, marcados pelo contato com dois mestres (Martin Heidegger e Karl Jaspers), além da construção de sua obra, caracterizada pelo esforço de explicar os acontecimentos políticos de sua época, especialmente o aparecimento dos regimes totalitários. ‘Ela sempre confessou suas incertezas, assumiu sua violência - pronta para ser insultada - e reivindicou seu lugar de pessoa politicamente incorreta, sabendo que pagaria caro por isso.’

Laure visitou lugares onde Hannah viveu e, graças à confiança de Jerome Kohn, herdeiro testamentário da filósofa, teve acesso à sua correspondência inédita e numerosos trabalhos. Descobriu, assim, uma mulher para quem a filosofia não era saber tudo, mas saber de si mesmo como princípio de acesso à liberdade. ‘Seu talento mais evidente era a atividade do espírito’, comenta Laure, em conversa com o Estado por e-mail.

Teórica política do momento pós-totalitário, Hannah exibia capacidades intelectuais que a impediam de desfrutar a existência. Para ela, pensar era um dom. Era como se um raio lhe caísse na cabeça, na visão de Laure. ‘Ela se alongava, inclinava a cabeça para trás, abria os olhos, mirava o teto e colocava os braços embaixo da cabeça. Isso podia acontecer-lhe em qualquer lugar. Seus amigos sabiam. E se retiravam na ponta dos pés para não atrapalhá-la.’

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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‘O suor, o sangue e a morte banham o açúcar e o álcool brasileiro’ afirma reportagem da IstoÉ

São 4h30 em Guariba, cidade do noroeste do Estado de São Paulo, quando o ronco dos motores de dezenas de ônibus quebra o silêncio da madrugada. Por seis vezes na semana, o barulho das rodas sobre as acanhadas calçadas do município anuncia o trabalho a um exército de bóias-frias. Dali a pouco, essa legião estará nas lavouras de cana para mais uma vez fazer história. Se na última safra – 2006/07 – os brasileiros cortaram e moeram mais de 425 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, este ano as estimativas prevêem uma produção 10% maior. São recordes sobre recordes de produtividade extraídos de plantações espalhadas por mais de seis milhões de hectares de terra. O feito consolida o País no invejável patamar de maior produtor mundial de álcool e etanol.

Tal riqueza atraiu os olhares do mundo para o produto que já é classificado por economistas como o novo “ouro branco” do planeta. Empresários, banqueiros e até o presidente dos Estados Unidos se interessaram pelo tesouro e desembarcaram no Brasil nas últimas semanas buscando transformá-lo numa commodity alternativa e barata aos combustíveis fósseis. Enquanto uns foram à Bolsa de Valores, outros estiveram em tratativas com o governo brasileiro. Porém, o que Bush e os investidores não viram e talvez não saibam é que a riqueza gerada pela fantástica produção desse “ouro branco” se assenta na exploração brutal de milhares de homens e mulheres que cortam e colhem cana pelo Brasil adentro.

Quase 120 anos depois da abolição da escravidão, os cortadores de cana ainda vivem o cativeiro da terra, sob o tacão de um “chicote invisível”, como definiu Maria Cristina Gonzaga, pesquisadora do Ministério do Trabalho. A cana literalmente mói a carne de um milhão de miseráveis trabalhadores rurais. Quem entra nos canaviais brasileiros tem a impressão de estar fazendo uma viagem no tempo, retornando ao século XVII.

Homens e mulheres são comercializados como gado, trabalham jornadas de até 12 horas, muitos passam fome e outros chegam a tombar mortos de pura exaustão. Relatório do Ministério do Trabalho (MT), divulgado no início do mês de março, mostra que só no ano passado 450 trabalhadores do setor sucroalcooleiro morreram nas usinas. Alguns foram assassinados, mas muitos morreram em conseqüência de banais acidentes de transporte. Outros foram carbonizados durante as queimadas. Vários perderam a vida simplesmente por excesso de trabalho.

“O suor, o sangue e a morte banham o açúcar e o álcool brasileiro”, denuncia a ISTOÉ Maria Cristina Gonzaga, técnica da Fundacentro, órgão do MT, responsável pelo estudo. Nas contas dela, nos últimos cinco anos, o trabalho na lavoura de cana ceifou a vida de 1.383 trabalhadores.

Entre eles, o migrante mineiro Antônio Moreira, que largou o Vale do Jequitinhonha na década de 70 para “fazer safra” nas lavouras paulistas. Aos 55 anos, Antônio caiu morto de cansaço em meio às canas que empilhava. “Ele tinha cortado 16 toneladas aquele dia”, lembra a viúva Maildes Moreira Araújo, 55 anos, também cortadora de cana. Foi a terceira vez que tal desgraça se abateu sobre os Moreira. “Meu tio e um primo também morreram na mesma situação”, diz Antônio Moreira Filho, 32 anos, que trabalhava com o pai nos canaviais desde os 14.

“Do cortador de cana é esperada a produção de uma máquina”, diz Miguel Ferreira, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cana de Jaboticabal, interior paulista, região responsável por 60% da produção nacional de álcool e açúcar. Miguel fala de cátedra. O atual sindicalista foi cortador de cana durante seis anos e, assim como seus pares, produzia diariamente seis toneladas de cana.

“Hoje exige-se a produção de no mínimo dez toneladas diárias por homem. Não tem corpo que agüente”, constata Miguel. Segundo a Universidade Federal de São Carlos para cortar dez toneladas e ganhar R$ 24 é preciso percorrer cerca de nove quilômetros a pé por entre o canavial, desfechar cerca de 73.260 golpes de podão (facão) em 36 mil flexões de pernas. E mais, o cortador de cana terá que levantar e carregar pelo menos 800 montes de 15 kg de cana cada um, por uma distância de três metros, empilhando a produção do dia. Os médicos do Ministério do Trabalho, que estudaram a saúde do cortador de cana concluíram que eles chegam a perder em um dia de trabalho cerca de oito litros de água.

E o pior é que a situação desses condenados da terra pode se agravar. A partir deste ano, começa a ser colhido um novo tipo de cana, mais leve por ter sido geneticamente modificada. Além de pesar menos – pois elimina bastante a água –, esse tipo de cana concentra uma quantidade muito maior de sacarose (açúcar). Tudo ótimo, menos para o trabalhador, que precisava cortar 100 metros de cana para produzir dez toneladas e por causa da novidade transgênica precisará cortar o triplo para produzir a mesma quantidade.

Aos 52 anos, Maria dos Santos corta nove toneladas para levar para casa R$ 512 no final do mês. Quando soube que terá que trabalhar três vezes mais para ter o mesmo rendimento, não se conteve: “Vamos morrer!”, desesperou-se.

Hábeis em implementar modernizações tecnológicas, os usineiros não demonstram intenção de alterar as arcaicas relações de trabalho que predominam no setor sucroalcooleiro. “As práticas impostas por eles, em muitos casos, ainda são escravagistas”, diz a técnica do Ministério do Trabalho. Veja-se, por exemplo, o processo de seleção dos trabalhadores. Eles são “vendidos” para intermediários que selecionam a mão-de-obra para usinas.

Trazidos das profundezas do País para dar duro nos canaviais, esses escravos do século XXI são cooptados por “gatos”, uma espécie de empreiteiro que busca pessoas que, em troca de migalhas, se submetem a todo tipo de humilhação. Para cada cortador de cana trazido para a usina, capaz de produzir 12 toneladas por dia, o “gato” recebe em média R$ 60. Qual a vantagem? Esses cortadores são escolhidos a dedo e não reclamarão de serem obrigados a viver em alojamentos decrépitos.

Eles também não reclamam do pagamento abaixo dos pisos salariais e ainda admitem viver confinados nas propriedades onde a colheita ocorre oito meses por ano. “Só 20% dos trabalhadores ligados ao setor sucroalcooleiro no Brasil têm conquistas preservadas, o resto são escravos”, garante Miguel, o sindicalista. “Não é difícil constatar a miséria e a exploração a que essas pessoas estão submetidas. O Ministério do Trabalho é que dá as costas para o problema”, indigna-se Miguel.

A União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Única), entidade que representa os usineiros, não fala sobre direitos do trabalho. Segundo a assessoria de imprensa, eles apenas “cumprem a lei”. Mas em relação ao crescimento da produção eles são expeditos. Para os donos dos engenhos, as máquinas produzirão, até 2013, 36 bilhões de litros de álcool – um bilhão a mais que a atual produção mundial. Grande parte dessa produção atenderá aos mercados americano e europeu. No ano passado, 19 bilhões de litros de álcool foram destilados, uma supersafra que movimentou mais de R$ 40 bilhões na economia, US$ 8 bilhões em exportações, equivalentes a mais de 3,5% do PIB brasileiro. Segundo as estimativas do setor sucroalcooleiro, uma nova usina de cana surgirá a cada mês no País nos próximos dois anos.

Este crescimento acelerado no plantio e na produção preocupa governantes e economistas. Muitos temem que esse boom leve o Brasil de volta à monocultura. Hoje, várias plantações de alimentos e áreas de pastagem estão sendo substituídas por lavouras de cana-de-açúcar. Preocupados com essa possibilidade, alguns Estados já se preparam para enfrentar a situação.

Em Mato Grosso, na região do Pantanal, já foi proibida a implantação de usinas de álcool. No Estado de Goiás, algumas prefeituras querem limitar a entrada da cultura da cana. Em São Paulo, responsável por 60% da produção nacional, um projeto do deputado estadual Simão Pedro (PT) propõe que os fazendeiros de regiões do Estado onde a cultura da cana se expande sejam obrigados a reservar 10% das terras para outros tipos de cultura. “É fato a expansão do setor, mas precisamos criar alguns limites, senão daqui a uns dias seremos obrigados a importar alimentos básicos”, diz Simão. Enquanto isso, o presidente Lula, inebriado com o etanol, disse que os usineiros passaram de bandidos a heróis.

IstoÉ SP

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Tortura nunca mais?

Rogério Tuma

Um estudo mostra que os EUA dão aos presos de guerra um tratamento equivalente às piores agressões físicas

Alguns países parecem ter adotado a irônica definição de Millôr Fernandes para democracia (“é quando eu mando em você”) e ditadura (“é quando você manda em mim”) para ignorar a dignidade humana de prisioneiros de guerra.

Um importante artigo foi publicado nos Archives of General Psychiatry deste mês, para provar que o efeito do tratamento dado aos prisioneiros de Guantánamo em nada difere das práticas mais sórdidas e violentas de tortura, e dá a base científica para que autoridades internacionais as proíbam rígida e eficazmente.

O estudo, desenvolvido pelo dr. Metin Basoglu e colaboradores do King’s College da Universidade de Londres, avalia o impacto da tortura não física nos sobreviventes das guerras mais recentes. Foram entrevistados 279 pessoas torturadas em Saravejo, na Bósnia-Herzegovina, Banja Luka e Belgrado, na Sérvia, e Rijeka, na Croácia, sobre as agressões não físicas sofridas – humilhações, manipulações psicológicas, exposição a condições ambientais aversivas e estresse forçado. Essas situações foram comparadas às torturas físicas quanto ao impacto na geração de estresse pós-traumático e na perda de controle psíquico dos torturados. Foi demonstrado que o efeito em nada diferiu do provocado pelas torturas físicas.

Tortura é definida como a provocação de intensa dor ou sofrimento físico ou mental em alguém, com propósitos particulares. Porém, os militares americanos de Guantánamo escolheram uma definição mais curta e retiraram o efeito psicológico de seus relatórios, permitindo que fossem adotados, nos interrogatórios, máscaras, vendas, cordas, privação de sono, fome, sede, nudez forçada, exposição ao frio e à escuridão e outras manipulações psicológicas, para romper a resistência do prisioneiro. A definição de tortura psíquica deveria incluir a duração prolongada e intensa das ações, além da comprovação das profundas mudanças no estado psicológico dos prisioneiros. O artigo mostra que, apesar dos limites bem definidos, as práticas de interrogatórios dos americanos não passam de tortura.

Dos voluntários entrevistados, foram excluídos 49, cuja fonte maior de estresse foi a guerra em si e não as práticas de tortura, dos 230 restantes, 76% tiveram síndrome de estresse pós-traumático (SEPT) – outros 56% ainda sofriam de SEPT na ocasião da entrevista. A depressão ocorreu em 17,4% dos ouvidos, enquanto 17% padeciam de depressão grave mais de dois anos depois da prisão. Dos que sofreram mais estresse, 30% desenvolveram depressão.

Mais de 80% dos entrevistados relataram ter recebido pelo menos 30 tipos de tortura estressante durante o aprisionamento. O estresse desencadeado por situações de humilhação e ameaça, como ver prisioneiros torturados, ser amarrado pelos genitais e isolado, foi semelhante ao estresse causado pela tortura física e maior que o provocado por ações de privação como sede, fome, escuridão e falta de assistência, apesar de esses últimos terem recebido também alta nota nas escalas de estresse.

Das torturas físicas, a mais comum foi o espancamento, que ocorreu com mais de 80% dos entrevistados. Apesar de ser difícil separar os efeitos da tortura não física nesses indivíduos, os autores os separaram em três grupos de acordo com a associação das duas modalidades de tortura. Porém, perceberam que a intensidade da tortura física pouco interferia no desencadear de SEPT ou depressão. Além disso, viram que os efeitos psíquicos da tortura não física isolada podem causar catástrofes psíquicas de mesma gravidade que as associadas à tortura física.

Os autores concluem que técnicas agressivas de interrogação ou aprisionamento, que incluem privação das necessidades básicas, isolamento, manter posturas forçadas, tratamento humilhante e outras práticas de manipulação psicológica, preenchem integralmente os critérios de tortura e devem ser abolidas nos países que respeitam os direitos humanos. Não há diferença alguma entre tortura e tratamento cruel ou degradante, como querem alguns.

Existe um fundamental agravante nisso tudo, pois uma das poucas ações que melhoram o estresse e a depressão do torturado é a demonstração de ódio e revolta contra o torturador. Nesse caso, a vítima pode ser também o cidadão do país que tortura.
Este artigo é fundamental para mostrar às autoridades internacionais que elas podem e devem interferir nas práticas de interrogatório não só dos EUA, mas de todos os países que não respeitam a dignidade humana. A revista também demonstrou coragem ao oferecer a todos a íntegra do artigo gratuitamente. Acesse http://archpsyc.ama-assn.org.

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Os “desaparecidos” estão de volta

Fatos novos desmoralizam a versão da ditadura sobre os crimes políticos, desmascaram falsos testemunhos de líderes da direita militar e transformam o debate sobre a tortura num assunto nacional

José López Mazz

Em 2 de dezembro de 2005, por volta das 11h30, em uma zona próxima da cidade de Pando, uma estudante de arqueologia da Universidade da República descobriu, durante uma surpreendente escavação, um osso humano posteriormente identificado como um perônio. Ao fim de uma hora e meia de trabalho meticuloso, um esqueleto completo apareceu. Pouco tempo depois, um helicóptero do exército uruguaio pousou no local. A bordo estavam Tabaré Vázquez, presidente da República, e Azucena Berrutti, sua ministra da Defesa. Tratava-se da primeira descoberta de um dos cerca de 260 prisioneiros desaparecidos durante a ditadura (1973-1984) – um operário comunista morto sob tortura em 1974, mas declarado pelos militares na época como “fugitivo da prisão”.

Durante os primeiros governos democráticos pós-ditadura, as pesquisas sobre violações dos direitos humanos não avançaram muito. Ainda que imprescritíveis na visão do direito internacional, os crimes ficaram, em sua maior parte, sem punição — graças a uma lei que, em 1986, durante a gestão do ex-presidente Julio Sanguinetti (1985-1989), estabeleceu o princípio da “caducidade da pretensão punitiva do Estado” [1]. O último chefe do Exército da ditadura chegou, inclusive, a ser o ministro da Defesa do governo Sanguinetti.

Antes da aprovação da Lei de Caducidade, as convocações dos militares para que respondessem à justiça eram feitas dentro de um “cofre forte”, para usar a expressão do general Hugo Medina, ministro da Defesa da época. O mandato de Luis Lacalle (1990-1995) e o segundo mandato de Sanguinetti (1995-2000) não permitiram nenhum progresso. Foi finalmente com o presidente Jorge Batlle (2000-2004) que se criou a Comissão pela Paz, encarregada de fazer aplicar o artigo número 4 da Lei de Caducidade, que estabelecia a obrigação do Estado de promover o esclarecimento de crimes da ditadura e de localizar os corpos dos desaparecidos.

O caso emblemático da filha de Juan Gelmán
Um progresso importante foi conquistado com a localização da filha do poeta argentino Juan Gelmán, nascida em 1978, quando sua mãe de 19 anos (e que não era uma militante política notória) estava seqüestrada na Argentina, antes de ser transferida para Montevidéu e, mais tarde, executada. A criança havia sido adotada e educada por um comissário da polícia uruguaia, “compadre” de outros policiais e militares ligados ao Partido Colorado, de Sanguinetti e Batlle.

Entretanto, a informação colhida pela Comissão para a Paz direcionou a investigação para pistas que não permitiram nem a demonstração dos fatos, nem a localização dos corpos, nem a identificação dos culpados. Resultado: um silêncio pesado paira sobre os “desaparecimentos”.

Estranhamente, a Lei de Caducidade levava o Estado a renunciar à punição dos militares por seus crimes, mas não protegia os civis ligados a eles. Foi assim que, em 2006, a justiça uruguaia pôde julgar o ditador Julio María Bordaberry. Pioneiro do Plano Condor, seu ex-ministro das Relações Exteriores, Juan Carlos Blanco, também foi preso. As demandas recentes de extradição de um juiz argentino levaram ao encarceramento de uma dezena de militares e policiais.

Desde que a Frente Ampla chegou ao poder, foi formada uma equipe de historiadores da Faculdade das Humanidades com o objetivo de se apropriar dos arquivos da ditadura e tirar deles informação útil para esclarecer as páginas obscuras da história recente. Um grupo de arqueólogos também recebeu a missão de buscar os restos de prisioneiros desaparecidos.

O “grande inferno” e a tentativa de disfarçá-lo
Os trabalhos começaram em 17 de junho de 2005, nas instalações do Batalhão 13, onde funcionou o centro de torturas tristemente batizado de “300 Carlos”, também conhecido pelos prisioneiros como o “grande inferno”. As pesquisas puderam revelar que foram feitas transformações radicais na paisagem: operações de “preenchimento” no terreno, reflorestamentos realizados no final dos anos 1970 em áreas indicadas como zonas de enterramento, destruição e reconstrução de edifícios. Estas transformações tornam difícil a reconstrução do cenário da época.

Em 20 de agosto de 2005, a pedido do presidente Vázquez, o exército reabre um relatório precisando o local onde está enterrada a nora de Gelmán, na área do Batalhão 14, assim como outros locais usados como cemitérios clandestinos individuais e coletivos. Estas informações fazem surgir diversas esperanças, mas o trabalho dos arqueólogos mostrou que a jovem assassinada não se encontrava no lugar indicado e jamais foi localizada. O mesmo aconteceu com vários outros supostos enterros clandestinos – um dos quais provavelmente ligado à execução de um grupo de pessoas levadas de Buenos Aires em um vôo clandestino da Força Aérea Uruguaia.

A demanda de colaboração e de informações feita por Vázquez a três integrantes das Forças Armadas obteve respostas diferentes nos três casos. A Marinha ficou em um profundo mutismo. A Força Aérea reconheceu ter sido responsável pela morte de… dez operários, e indicou o local onde estariam enterrados — em uma propriedade rural tomada alguns anos antes de guerrilheiros tupamaros. Foi neste pedaço de terra, em Pando, que os trabalhos arqueológicos localizaram Ubagesner Chaves Sosa, morto sob tortura na base aérea de Boiso Lanza, em 1976.

Em 4 de dezembro de 2005, localizou-se, nas instalações do Batalhão 13, o corpo do professor universitário Fernando Miranda, pai do advogado Javier Miranda, uma das figuras mais visíveis da Organização das Famílias de Presos Desaparecidos (OFDD). Esta descoberta deixou transparecer as fraquezas da Comissão pela Paz do governo de Batlle e do relatório do exército endereçado ao presidente Vázquez. Contrariamente aos fatos, os documentos afirmavam que Miranda havia sido enterrado no Batalhão 14, exumado, cremado e que suas cinzas haviam sido jogadas na baía de Montevidéu.

Pouco tempo depois, em 15 de dezembro de 2005, um fragmento do osso rádio de um corpo humano foi encontrado no Batalhão 13, numa zona que conservava os traços de reformas (escavações, preenchimentos de terreno etc.). A descoberta ocorreu perto de um campo de futebol geralmente mencionado como local de enterros clandestinos. Autoridades do Instituto Médico Legal do Uruguai sugeriram que este fragmento pertencia a uma mulher, hipótese que não pôde ser comprovada – três análises de amostras de DNA, em diferente laboratórios, não chegaram a resultados conclusivos – mas que acordou mais uma vez o fantasma de alguns desaparecidos (María Claudia García Gelmán ou a professora Elena Quinteros).

Um tema não mais restrito à “esquerda radical”
No dia 19 de dezembro de 2006, e após uma nova descoberta, o presidente Vázquez colocou fim à primeira etapa de buscas. Se os resultados podem parecer tímidos, são igualmente insuficientes para colocar luz sobre diversos pontos.

Em primeiro lugar, e depois de 30 anos, o pacto secreto firmado entre os mentores da repressão e seus subalternos da época ainda está em vigor [2]. Isso tornou-se claro quando o atual comandante do exército forneceu informações falsas em resposta a uma questão do chefe de Estado. As explicações obtidas pela Comissão de Paz, assim como as fornecidas por militares que deram explicações duvidosas, informavam, por exemplo, que os corpos das vítimas haviam sido “enterrados, exumados, cremados e jogados na Baía de Montevidéu”. Uma descoberta simples, como a do corpo de Fernando Miranda, desmentiu este tipo de versão.

Em segundo lugar, e após quase um ano e meio de trabalho, os responsáveis pela busca mantêm a idéia de que a dispersão geográfica dos enterros clandestinos é mais importante do que se pensava, e que o número de corpos é, sem dúvida, superior ao anunciado oficialmente.

Por sua vez, a OFDD pôde confirmar que tinha razão (ao contrário do que vinha sendo sustentado caprichosamente pelo ex-presidente Sanguinetti): é provável que a maior parte dos uruguaios desaparecidos na Argentina tenham sido vítimas, dentro da sistemática da Operação Condor, de ações uruguaias de repressão.

Enfim, estas buscas engendraram uma grande esperança popular, a aprovação de todos os partidos políticos e o apoio da maior parte da opinião pública. A questão permanece aberta, a elucidação de todos esses crimes ainda está por vir, mas a questão dos “prisioneiros desaparecidos” não é mais uma “fábula da esquerda radical” como sustentava a direita política…

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[1] Esta lei foi ratificada por um plebiscito ganho por seus promotores (52,7% dos votos), em 1987. Fora os incondicionais da ditadura, os partidários da anistia dos militares, assim como seus adversários, votaram todos pela mesma razão: salvaguardar a frágil democracia. Muito, temerosos de um “retorno do bastão” caso os militares se sentissem ameaçados.

[2] Em 17 de setembro de 2006, na Argentina, Jorge Julio Lopez, “desapareceu”, aos 77 anos. Seu testemunho tinha permitido a condenação, a pena perpétua, de um dos piores torturadores da ditadura, Miguel Etchecolatz. Em 27 de dezembro, Luiz Angel Gerez foi seqüestrado, torturado e libertado apenas ao final de três dias. Suas declarações impediram o antigo sub-comissário Luis Patti, torturador nos anos 1970, de assumir o posto de deputado, no início de 2007.Na televisão, em 30 de dezembro, o presidente Nestor Kerchner abriu o debate sobre elementos “paramilitares” e “parapoliciais” (BBC, Londres, 30 de dezembro de 2006

Jornal Le Monde

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