Arquivo de 9 de Abril de 2008

Blog do IZB

Camaradas.

O blog do IZB é mais uma ferramenta do Instituto Zequinha Barreto para ampliar o contato não só com os nossos sócios, mas com todos aqueles que queiram fazer o debate sobre o socialismo e as idéias de esquerda.
Como todos poderão ver, numa simples navegação pelo blog, a idéia é tratar de temas contemporâneos compondo um amplo mosaico, ou seja, de forma plural e procurando dar destaque ao conjunto dos pensadores socialista. Sem esquecer, é óbvio, de reverenciar a memória daquele que dá nome ao instituto, o companheiro José Campos Barreto, para quem não conhece, militante e lutador contra a ditadura, importante liderança operária da greve de 68 em Osasco e dirigente da VPR e depois MR-8. Zequinha tombou junto com o capitão Carlos Lamarca, no sertão da Bahia, em 17 de setembro de 1971, após um cerco covarde do exército e da polícia comandada por Fleury.
O IZB existe a cinco anos, a dedicação e o trabalho voluntário de dezenas de companheiros e companheiras, possibilitou uma série de debates, cursos, palestras e a nossa biblioteca popular, Arcênio Rodrigues, hoje o nosso maior patrimônio, com um acervo de mais de 6 mil livros, além de DVDs, documentos, jornais históricos etc.

Márcio Bento (Coordenador de Comunicação do IZB)

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Aventuras na luta

Por Graça Lisboa

Zuenir Ventura, em seu livro 1968 o ano que não terminou, narra um exemplo pitoresco de como se dá a divisão da esquerda e o pensamento em torno das disputas de poder, mesmo nos momentos mais crítico. O cenário era o Congresso da UNE de 1968, realizado de forma clandestina na cidade de Ibiuna, em outubro daquele ano, num dos períodos de maior repressão por parte da ditadura militar. VAmos ao trecho em questão: “Ás 3 horas da madrugada alguém entrou para acordar o presidente da UNE, que dormia ao lado de Jean-Marc sobre um tatame, imprensados no meio de um grupo da Dissidência…Era urgente. A direção do Congresso mandara chamá-lo para uma reunião de emergência.
Ao voltar, quase uma hora depois, comunicou com ar grave ao seu candidato: “Eles receberam a informação de São Paulo de que o congresso vai cair ao meio dia. Temos que evacuar o local.”
A situação era tensa, o risco enorme, mas a divisão era maior: a reunião de emergência não chegou a um acordo…
O que se passou então é revelador. Jean-Marc chamou a um canto o pernambuco Cândido Pinto, dirigente máximo do PCBR, e expôs a situação:
- Isso tá parecendo manobra - desconfiou Cândido, que nessa altura tendia mais para a Dissidência.
Os dois estavam no meio da discussão quando algo como um tiro reverberou pelos pequenos vales e colinas que formam o sítio.
- E isso parece o quê, Candido
As rajadas seguintes, inconfundíveis, eram o sinal de que estava encerrado esse diálogo surrealista - e o Congresso. Para quem ainda tinha dúvidas, os tiros anunciavam que 400 soldados da Força Pública e alguns agentes do DOPS estavam invadindo o sítio”.

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José Ramos-Horta quer “reconstruir a unidade nacional” em Timor Leste

Eleito presidente com 69% dos votos, o novo dirigente, prêmio Nobel da paz de 1996, terá de reerguer um país cuja unidade está “em frangalhos”

Do correspondente Francis Deron
Em Bancoc, Tailândia

José Ramos-Horta, o incansável defensor da causa de Timor Leste na cena internacional durante a ocupação do território pela Indonésia, de 1975 a 1999, venceu com enorme facilidade a primeira eleição presidencial organizada desde a independência, sacramentada em 2002.

Nesta sexta-feira, 11 de maio, a comissão eleitoral anunciou que Ramos-Horta havia obtido 69% dos votos válidos por ocasião do segundo turno do pleito presidencial que foi realizado na quarta-feira. Os 520.000 eleitores de Timor Leste aprovaram de forma inquestionável a candidatura de José Ramos-Horta para substituir Xanana Gusmão, o herói nacional que havia desistido de se apresentar para pleitear um segundo mandato, e para tentar salvar o país da falência política na qual ele está mergulhado já faz um ano. O seu concorrente, Francisco Guterres, conhecido como “Lu-Olo”, obteve 31% dos votos. Ele declarou que estava se inclinando “diante da escolha da maioria”, “porque eu respeito o princípio da democracia”.

Foi apurada a totalidade dos votos no nível dos treze distritos. Esta contagem oficial deverá ser confirmada por uma nova contagem em nível nacional, que permitirá então anunciar os resultados definitivos.

Nascido em 1949 em Dili, a capital do que era então o Timor português, José Ramos-Horta, de pai português - exilado pelo ditador Salazar - e de mãe timorense, recebeu sua educação na missão católica, assim como muitos dos seus compatriotas. Ele mesmo enviado em exílio para a África portuguesa pela administração colonial, por seu ativismo em prol da independência do Timor, ele ocupou em novembro de 1975 o cargo de ministro das relações exteriores da efêmera República Democrática do Timor Oriental, fundada por ocasião da partida dos colonos de Lisboa e que foi aniquilada um mês mais tarde pelo exército de Jacarta.

Foi ele quem tentou alertar a administração americana, sob Gerald Ford e
Henry Kissinger, a respeito da iminência de uma anexação do território pela Indonésia. Em vão: o caso havia sido objeto de um acordo, concluído por Washington com o ditador Suharto em troca de vantagens estratégicas e econômicas substanciais para os Estados Unidos no arquipélago

Durante os combates da resistência contra o exército indonésio, Ramos Horta perderá cinco dos seus onze irmãos e irmãs. Exilado mais uma vez, ele estudou o direito internacional em várias universidades ocidentais (Holanda, Estrasburgo, Estados Unidos), tornando-se simultaneamente a figura a mais visível, nas arenas internacionais, da resistência timorense.

O seu combate, que contou com um apoio poderoso do Vaticano, lhe valerá compartilhar em 1996 o Prêmio Nobel da paz com o bispo de Dili, Carlos Belo, uma distinção que foi apresentada explicitamente como uma manifestação em defesa dos “pequenos povos oprimidos”.

Enfrentamentos entre clãs

Um excelente orador, pouco conhecido em seu próprio país, que havia sido promovido ao posto de chefe da diplomacia de Timor Leste depois da proclamação da independência, José Ramos-Horta fora obrigado a ceder, em
2006, às exortações do seu amigo Xanana Gusmão. Na ocasião, o chefe do
Estado convocou Ramos-Horta para substituir - quando ele esteve forçado a abandonar o seu então eterno nó borboleta - o primeiro-ministro Mari
Alkatiri, que havia sido conduzido a este cargo pela ala marxista do partido histórico do independentismo, o Fretilin.

Constatando, na quinta-feira, a sua vitória inelutável, José Ramos-Horta afirmou querer “reconstruir uma unidade nacional” reduzida a frangalhos pelos enfrentamentos entre clãs do ano passado, que esvaziaram a pequena capital timorense de uma boa parte da sua população.

Francisco Guterres, o candidato derrotado do Fretilin, declarou que a sua intenção daqui para frente é de animar um movimento de reconquista eleitoral que tem como primeiro objetivo as eleições legislativas, previstas para o final de junho, início de julho.

O balanço dos cinco primeiros anos da mais nova nação da Ásia não permite grandes esperanças para o partido oriundo da luta armada, e, pior ainda, oferece perspectivas sombrias para a próxima equipe dirigente, da qual Xanana Gusmão está decidido a ser o motor à frente de um governo sólido: enquanto o país dispõe em alto-mar de reservas de hidrocarbonetos que a Austrália não lhe contesta mais, a metade dos timorenses adultos está sem emprego, e a outra vive com uma renda média situada, salvo algumas exceções, entre as mais baixas do planeta.

Tradução: Jean-Yves de Neufville.

Jornal Le Monde

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O jeito Toyota de pensar e agir

A Toyota chegou à liderança do mercado mundial de automóveis ultrapassando um dos símbolos máximos do capitalismo americano, a General Motors. No primeiro trimestre deste ano, a Toyota produziu 2,35 milhões de veículos em todo o mundo - ante 2,26 milhões fabricados pela GM no mesmo período. Por detrás do sucesso da montadora americana está o Sistema Toyota de Produção (TPS - em inglês) e as suas “tartarugas ninjas”, como são conhecidos os operários em outras partes do mundo. Sob o título “Por dentro da maior montadora do mundo”, a revista Exame, nas bancas desse final de semana, aborda em matéria de capa o jeito Toyota de pensar e agir. Na seqüência apresentamos uma síntese da matéria. Os subtítulos são nossos.

Eis a reportagem

Olhada por dentro, fica claro que nada é mais forte na Toyota do que sua cultura. Qualquer um dos 296 000 funcionários da montadora sabe exatamente quais os princípios e os valores da empresa. Como seguidores de uma doutrina, eles parecem acreditar em cada palavra que dizem. Da lista de “preceitos” da montadora constam recomendações como “Seja gentil e generoso, lute para criar uma atmosfera calorosa e caseira”.

Kaizen - a obsessão pela qualidade

Enquanto em boa parte das empresas o principal motor do crescimento é o reconhecimento do sucesso individual - que se manifesta no pagamento de bônus atrelados ao cumprimento de metas, em programas de opções de ações e na ascensão meteórica na carreira -, na Toyota o que move os funcionários é a certeza de que é possível fazer mais e melhor a cada dia, o chamado kaizen. Todos os empregados devem ser eternos insatisfeitos, buscando obsessivamente a qualidade - uma lógica que se aplica do operário ao presidente e que privilegia o trabalho em grupo.

Para que todos saibam exatamente qual é seu papel na engrenagem, os recém-contratados passam por um treinamento de cinco meses antes de assumir seu posto: 30 dias dedicados à cultura Toyota, dois meses numa fábrica, para ver de perto como os carros são produzidos, e o restante dentro de uma concessionária, porque é preciso saber o que quer o consumidor.

O sistema Toyota de produção

A revolução silenciosa protagonizada pela Toyota levou 50 anos para atingir seu ápice. Fundada há 70 anos, a montadora viveu sua pior crise após o final da Segunda Guerra. Às portas da falência, o então presidente da empresa, Eiji Toyoda (primo do fundador, Kichiro Toyoda), pediu a seu principal executivo, o engenheiro Taiichi Ohno, que reinventasse o processo produtivo da montadora. Os tempos de aperto não permitiam mais o desperdício e os estoques altos, comuns às indústrias da época. Para encontrar a resposta ao problema, Ohno não recorreu a consultorias - ele foi para dentro da fábrica e passou um pente-fino em cada etapa do processo de fabricação de automóveis. Nascia ali o que veio a ser chamado de sistema Toyota de produção, cujos principais pilares são o estoque zero, a melhoria contínua e a qualidade na fabricação.

“O sistema Toyota de produção só pode funcionar quando todos os funcionários se tornam tartarugas”

Durante cinco décadas, a Toyota dedicou-se a aperfeiçoar seu método de trabalho, tornando a produção cada vez mais enxuta e eficiente. Aos poucos, virou referência não apenas para outras montadoras - as fábricas da GM, da Ford ou da Volkswagen, por exemplo, são praticamente idênticas às da japonesa - mas também para empresas de outros setores, casos de Alcoa e Bosch, duas de suas seguidoras. O segredo do sucesso do modelo é resultado da mais pura cultura Toyota. “A lenta - mas mais coerente - tartaruga causa menos perda e é muito mais desejável do que a lebre veloz que corre na frente e pára de vez em quando para cochilar.

O sistema Toyota de produção só pode funcionar quando todos os funcionários se tornam tartarugas”, afirma Ohno no livro O Modelo Toyota, escrito por Jeffrey Liker, professor de engenharia na Universidade de Michigan. É justamente essa paciência e atenção aos detalhes que as rivais, por mais que tentem, não conseguem replicar. “Embora muitas montadoras saibam como o sistema funciona, a Toyota tem mais disciplina e visão de longo prazo para esperar os resultados”, afirma Marcos de Oliveira, presidente da operação brasileira da Ford.

As “tartarugas ninjas” da montadora japonesa não se atrasam e não faltam ao trabalho

Nas linhas de produção, as “tartarugas ninjas” da montadora japonesa não se atrasam e não faltam ao trabalho. Como os trabalhadores são altamente especializados e não podem ser substituídos do dia para a noite, a Toyota chega a premiar as fábricas cujo índice de absenteísmo é zero (nos Estados Unidos, por exemplo, os empregados de unidades que registram 100% de assiduidade concorrem anualmente a sorteios de carros). Esse exército de operários trabalha sempre obedecendo a um mesmo ritmo. Nos treinamentos é utilizado até um metrônomo, instrumento que estabelece um padrão fixo para os andamentos musicais para que todos se acostumem a manter a mesma velocidade. Essa precisão é fundamental, uma vez que as linhas de produção operam com estoques baixíssimos - em geral, não mais que o necessário para meia hora de trabalho. Se algum dos operários encontra o mínimo defeito em uma peça ou no carro que está sendo montado, imediatamente puxa uma cordinha esticada ao lado da linha de produção para interromper o processo.

Funcionários das fábricas da Toyota não são sindicalizados

A ascensão da Toyota ao topo da indústria deveu-se, em parte, à crise aguda pela qual passam as montadoras americanas. Atoladas em dívidas, GM e Ford chegaram perto da insolvência e hoje tentam desesperadamente reverter a situação. A GM iniciou um programa de redução de custos que inclui o fechamento de 12 fábricas e a demissão de 30 000 empregados até 2008. A Ford, que no ano passado registrou o prejuízo recorde de 12,7 bilhões de dólares, também planeja fechar 14 fábricas e demitir 30 000 funcionários nos próximos anos.

Há décadas, as duas montadoras oferecem aos funcionários benefícios que estrangulam suas finanças, como aposentadorias com valor preestabelecido (na maioria das empresas, o valor do benefício a ser pago no futuro depende do rendimento das aplicações) e planos de saúde gratuitos até mesmo para os aposentados. A Toyota escapou dessas armadilhas. “Uma das razões é que os funcionários das fábricas da Toyota nos Estados Unidos não são sindicalizados”, afirma John Casesa, sócio da consultoria americana Case sa Shapiro Group, especializada no setor automotivo. Blindada contra problemas trabalhistas, a Toyota avançou quase ininterruptamente no mercado americano desde que se instalou por lá, em 1984, e hoje tem 17% das vendas de automóveis no país.

Desafios para continuar sendo a nº 1

Para manter a média anual de crescimento de dois dígitos das últimas quatro décadas, a Toyota precisará superar alguns desafios. Com a liderança do mercado, a Toyota agora passa também a ser mais visada. “Certamente os executivos da montadora estão mais preocupados do que felizes com o título de maior do mundo”, afirma José Roberto Ferro, diretor do Lean Institute do Brasil. O principal temor é que os consumidores tenham uma reação anti-Toyota, sobretudo nos Estados Unidos, onde os problemas das montadoras locais ganham ampla repercussão na mídia e, em alguns estados, servem de combustível a campanhas nacionalistas.

“Já temos uma boa idéia de como serão as cidades e as estradas nos próximos 30 anos”

O outro desafio é continuar desenvolvendo carros que caiam no gosto dos consumidores. Para alcançar a meta, a Toyota alicerça seu processo de inovação num longo planejamento e num investimento mais que generoso - no ano passado foram mais de 8 bilhões de dólares aplicados em pesquisa e desenvolvimento. “Já temos uma boa idéia de como serão as cidades e as estradas nos próximos 30 anos e que tipo de carro pode ser a melhor solução para elas”, afirma Shinzo Kobuki, chefe do departamento de pesquisa e desenvolvimento da companhia e um dos engenheiros responsáveis pela criação do Prius.

O modelo híbrido, aliás, é um exemplo contundente do estilo Toyota de inovar. No início da década de 90, o então presidente da empresa, Eiji Toyoda, pediu que seus engenheiros pensassem em qual seria o tipo de veículo ideal para o século 21. O Prius nasceu não de uma idéia brilhante formulada por um engenheiro fenomenal, mas como resultado de um árduo trabalho em grupo que levou quatro anos para ser finalizado. Atualmente, a equipe de pesquisa dedica-se a desenvolver modelos que utilizem energias alternativas como combustível (quatro tecnologias estão em estudo) e a criar carros de baixo custo que possam competir em mercados emergentes. Uma das possibilidades é que o Brasil - onde a Toyota detém tímidos 3% de participação de mercado -venha a sediar uma nova fábrica para produzir veículos baratos.

Muitos desses desafios deverão ser enfrentados não apenas por Watanabe mas também por Akio Toyoda, seu provável sucessor. Aos 51 anos de idade e membro da família fundadora da empresa, Akio ocupa atualmente uma das vice-presidências da companhia e tem entre suas atribuições a área de tecnologia. Com experiência fora do Japão, é um dos raros executivos da montadora a falar inglês fluentemente. “Ele tem um estilo mais de executivo global que de executivo japonês”, diz um funcionário da Toyota que o conhece pessoalmente. Esse “estilo global” deverá ser crucial para garantir o sucesso da empresa no futuro. Mas a passagem de bastão ainda deve demorar alguns anos para ocorrer - no melhor estilo Toyota, a decisão está lenta e silenciosamente amadurecendo na mente dos homens que comandam a empresa.

Os oito mandamentos da Toyota

Os princípios que regem o dia-a-dia da maior montadora do mundo segundo reportagem da revista Exame, nas bancas nesse final de semana:

1. Qualidade, qualidade, qualidade

O mantra é repetido à exaustão por todos os funcionários da empresa. A busca pela perfeição é o motor do aprimoramento contínuo da Toyota.

2. Obsessão por corte de custos

Não é apenas nas fábricas que a montadora busca reduzir suas despesas continuamente. Na matriz, por exemplo, é proibido tirar impressões coloridas e todo o papel utilizado é reciclável.

3. Investimento em treinamento

Antes de começar a trabalhar, todos os funcionários recém contratados passam por um treinamento de cinco meses, independentemente do cargo que vão ocupar.

4. Emprego vitalício

Embora fora de moda na maioria das empresas, empregar um funcionário por décadas ainda é uma das principais características da Toyota, sobretudo no Japão.

5. Busca pela simplicidade

Na montadora japonesa, o negócio é ser simples. Nas reuniões de executivos, por exemplo, as apresentações devem caber numa folha de papel no formato A3.

6. Visão de longo prazo

O planejamento é chave na companhia. Hoje, o departamento de pesquisa e desenvolvimento da empresa já está avaliando como devem ser os carros da montadora em 2030.

7. Decisão por consenso

A maioria das decisões ainda é tomada em conjunto pelos 30 principais executivos. Embora mais longo, o processo minimiza riscos e evita rachas internos.

8. Proximidade com o consumidor

Em vez de criar carros que sejam ícones da indústria automotiva, a Toyota investe em pesquisas para criar automóveis que os clientes queiram (ou precisem) comprar.

Instituto Humanitas Unisinos
http://www.unisinos.br/ihu/index.php

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Manifesto Antropofágico

Cultura e sociedade nos anos 20
A Semana de 22 – A aventura modernista no Brasil. Alembert, Francisco.

Os anos 20 deste século presenciaram o auge da mais vertical e profunda ruptura na história da cultura no Brasil: o Modernismo. Mais do que meramente um movimento artístico, o Modernismo representou toda uma época na vida intelectual e política brasileira. Inscrito num grande processo social e histórico, foi resultado e fonte de transformações que vão muito além dos seus limites estéticos.
Para compreendermos o Modernismo, suas implicações históricas e o sentido das interpretações de que é objeto até hoje, precisamos conhecer um pouco desse processo social e histórico no qual fundou-se a cultura modernista no Brasil.
Os intelectuais e artistas dos anos 20 tentaram eliminar definitivamente da cultura brasileira qualquer vestígio da influência lusitana e colonizadora que porventura houvesse escapado à escola romântica do século XIX, que se havia proposto a criar conscientemente uma literatura eminentemente nacional. Esse novo grupo lançou-se ao mun¬do de braços dados com as vanguardas artísticas e culturais europeias, mas com o cuidado de não tirar os olhos (e, em alguns casos, os pés) do “caráter brasileiro”, já visto, nessa época, sob um outro prisma, o da ambiguidade: o que nos define culturalmente é a herança latina somada à cultura europeia, além da nossa etnia mestiça, influenciada por culturas “primitivas” dos trópicos (ameríndias e africanas).
Compreender e saber se valer dessa ambiguidade básica era a chave para penetrar, esclarecer e então transformar a realidade brasileira. Era também a nossa originalidade diante das culturas europeias de origem tão diversa.
Em seus textos, sons, imagens e atitudes, os artistas e intelec¬tuais modernistas procuravam esquadrinhar, tentar sínteses, buscar explicações para o problema da inserção de uma nova cultura no Bra¬sil e vice-versa. O dilema entre a vontade de colaborar com a com¬posição de um acervo cultural e artístico universal — estar de acordo e no mesmo passo dos movimentos culturais e das ideias européias, por exemplo — e o desejo de interferir na ordenação da comunidade em que viviam — atualizar, modificar, criticar a produção cultural e as normas que os antecederam — marcaram a crise maior de consciência desses intelectuais.
Na Europa, o período denominado entre-guerras caracterizou-se por uma profunda crise económica, social e moral que atingiu os paí¬ses capitalistas na década de 20. Os liberais sentiam-se derrotados. A Revolução Russa e a barbárie da Primeira Guerra mergulharam os liberais ilustrados, e seu projeto de esclarecimento num parado¬xo. A partir de então a ideia de um progresso contínuo e inevitável perdeu o pouco sentido que porventura lhe restava.
A falência desse projeto significou também um questionamen-to profundo a uma determinada ideia de razão e de racionalidade em política, em cultura e em arte, como veremos adiante. Os intelectuais que não se situavam à esquerda abriam espaços a obscurantismos e nacionalismos beligerantes. A brecha para o fascismo estava aberta.
Por isso, o nacionalismo, no contexto de reorganização das forças após a Primeira Guerra, tornou-se um fato marcante nas artes e na cultura. Serviu de base ideológica para as produções estéticas de muitos intelectuais europeus, em especial, após a assinatura do Tratado de Versalhes, que pôs fim à Guerra e redistribuiu o poder entre os países. As nações vencedoras (EUA, França, Inglaterra, Itália) procuravam exercer forte influência cultural sobre os países economicamente dependentes (em especial, os pobres), ao mesmo tempo que tentavam afastá-los de culturas politicamente opostas às suas. Mais tarde, com o advento do fascismo na Itália, após 1922, registrou-se a presença de missões culturais italianas no Brasil, que tentavam, através do nacionalismo, aproximar-se da intelectualidade local.
Enquanto isso, os artistas e intelectuais brasileiros também buscavam na Europa as novas técnicas para suas obras sem, entretanto, importar a temática do trágico e da angústia, que caracterizava a nova cultura europeia que se desenvolveu nesse período entre-guerras. A visão de mundo que orientou a maior parte do Modernismo no Brasil foi, a princípio, de um relativo otimismo, uma crença na “nova civilização” que emergia dos escombros de um país agrário atrasado. Vivendo a euforia do dinheiro proveniente da plantação e co¬mércio do café e a possibilidade de unir essa riqueza agrária à nova riqueza industrial e cosmopolita que a metrópole paulistana prometia, os modernistas brasileiros buscaram inventar a cultura desse novo país utópico: uma cultura que mesclasse as técnicas da arte mo¬derna europeia com urna certa visão da “cultura brasileira”, plane¬jando uma nação modernizada.(…)
Podemos, entretanto, dizer com certeza que o grande marco des¬se processo de reflexão e reinterpretação da cultura por um grupo social que se constituiu no Modernismo brasileiro foi a chamada Se¬mana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. Um evento que, se não significou exatamente um ponto de partida, pode ser visto co¬mo o coroamento ou o desdobramento mais visível e espalhafatoso de todo um processo intelectual.

Cronologia

Alguns Fatos Importantes que Antecederam a Semana de Arte Moderna de 1922
Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

1911 — Oswald de Andrade funda o periódico “O Pirralho”

1912 — Oswald chega ao Brasil trazendo da Europa o conhecimento de novas formas de expressão artística, como as de Paul Fort e as sugeridas pelo “Manifesto Futurista” do poeta italiano Marinetti. Surgem as primeiras colagens de Braque e Picasso, possíveis origens do cubismo

1913 — Exposição do pintor Lasar Segall em Campinas (São Paulo)

1914 — O francês Marcel Duchamp lança os ready-mades

1915 — O poeta Ronald de Carvalho participa no Rio da fundação da revista “Orfeu”, dirigida em Portugal por Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro

1917 — Exposição de Anita Malfatti. O escritor Monteiro Lobato escreve o artigo “Paranóia ou Mistificação?”, onde critica vigorosamente as inovações na pintura de Anita e se envolve em uma polêmica com os principais artistas do movimento modernista

1918 — É lançado o “Manifesto Dadá”

1919 — Surgimento do Fascismo na Itália e adesão de Marinetti

1920 — Oswald de Andrade e Menotti del Picchia fundam a revista “Papel e Tinta”. Graça Aranha publica “Estética da Vida”. Victor Brecheret expõe as maquetes do monumento às Bandeiras (SP). Exposição de Anita Malfatti e John Graz.

1921 — Oswald de Andrade publica “Meu Poeta Futurista” e Mário de Andrade responde com “Futurista?!”. Mário publica o artigo “Mestres do Passado”

A SEMANA

13.fev.1922 — A Semana de Arte Moderna é inaugurada no Teatro Municipal de São Paulo com palestra do escritor Graça Aranha, ilustrada por comentários musicais e poemas de Guilherme de Almeida. O primeiro dia corre sem tropeços. Depois da longa e erudita fala de Aranha, um conjunto de câmara ocupa o palco para executar obras de Villa-Lobos. Após o intervalo, Ronald de Carvalho discursa sobre pintura e escultura modernas. A platéia começa a se manifestar. Diante dos zurros do público, Ronald de Carvalho devolve: “Cada um fala com a voz que Deus lhe deu.” O gran finale surge na forma de um recital de música comandado pelo maestro Ernani Braga

15.fev.1922 — A noite que celebrizou a semana começa com um discurso de Menotti del Picchia sobre romancistas contemporâneos, acompanhado por leitura de poesias e números de dança. É aplaudido. Mas, quando é anunciado Oswald de Andrade, começam as vaias e insultos na platéia, que só param quando sobe ao palco a aclamada pianista Guiomar Novaes. Heitor Villa-Lobos se apresenta no palco do Municipal apoiado em um guarda-chuva e calçando chinelos

17.fev.1922 — A última noite da programação é totalmente dedicada à música de Villa-Lobos. As vaias continuam até que a maioria pede silêncio para ouvir Villa-Lobos. Os instrumentistas tentam executar as peças incluídas no programa apesar do barulho feito pelos espectadores e levam o recital até o fim

Logo após os bulhentos espetáculos do Teatro Municipal, é lançada a revista “Klaxon”, que divulga as produções da nova escola. Calcados no êxito conseguido com as agitadas noites de fevereiro, os jovens artistas conseguem espaço e estímulo para, ainda em 1922, dar continuidade ao seu trabalho. Mário de Andrade lança “Paulicéia Desvairada”, o livro de poesias no qual todos os procedimentos poéticos mais arrojados eram expostos e reunidos pela primeira vez. Oswald de Andrade lança “Os Condenados”.

Manifesto Antropofágico

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.

Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem n6s a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.

A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.

Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaig-ne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos..

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.

Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.

Só podemos atender ao mundo orecular.

Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

O instinto Caraíba.

Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.

Catiti Catiti

Imara Notiá

Notiá Imara

Ipeju*

A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.

Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.

Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.

Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.

Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.

Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.

Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.

As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.

De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.

O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.

É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.

O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

A alegria é a prova dos nove.

No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.

A alegria é a prova dos nove.

A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.

A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha.” (Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)

* “Lua Nova, ó Lua Nova, assopra em Fulano lembranças de mim”, in O Selvagem, de Couto Magalhães

Oswald de Andrade alude ironicamente a um episódio da história do Brasil: o naufrágio do navio em que viajava um bispo português, seguido da morte do mesmo bispo, devorado por índios antropófagos.

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Adorno e a cultura de massa

Voltaire Schilling – site Terra

Theodor Adorno, filósofo e sociólogo alemão, projetou-se como um dos críticos mais ácidos dos modernos meios de comunicação de massa. Ao exilar-se nos Estados Unidos, entre 1938 e 1946, percebeu que a mídia não se voltava apenas para suprir as horas de lazer ou dar informações aos seus ouvintes ou espectadores, mas fazia parte do que ele chamou de indústria cultural. Um imenso maquinismo composto por milhares de aparelhos de transmissão e difusão que visava produzir e reproduzir um clima conformista e dócil na multidão passiva.
Theodor Adorno – cujo centenário de nascimento celebra-se neste 11 de setembro – nascido em Frankfurt, na Alemanha, em 1903, foi daqueles tantos intelectuais, cientistas, artistas, compositores e escritores alemães, que, na década de 1930, por serem de descendência judaica ou por inclinarem-se pelo socialismo, ou ambas as coisas, foram obrigados a emigrar para os Estados Unidos, naquilo que foi, talvez, a maior evasão de cérebros registrada na história contemporânea. Ele pertencia a um grupo de pensadores extremamente sofisticado que fazia parte da famosa Escola de Frankfurt, fundada em 1923, e que fora constrangido a sair do país nos anos seguintes da ascensão do nacional-socialismo ao poder.
É de se imaginar o contentamento dele quando, ainda na Suíça, no outono de 1938, recebeu um inesperado telefonema de Londres do seu particular amigo e parceiro, Max Horkheimer. Era um convite para que ele fosse à América para assumir uma pesquisa a serviço da Universidade de Princeton, a mesma que, em 1933, convidara Albert Einstein para integrar o seu corpo docente.
Tratava-se de um projeto e tanto, pois a Radio Research Projet queria saber tudo sobre os ouvintes norte-americanos. Nova Iorque provocou-lhe uma estranha reação. Chocou-o a convivência dos “palácios colossais…dos grandes cartéis internacionais”, com sombrios edifícios erguidos para os pequenos negócios, formando, no geral, um ar de cidade desolada. Nem mesmo o plano municipal de levar gente a morar nos subúrbios mais afastados, dando as residências um ar de individualidade, o consolou.
A estandartização americana
Para ele, um europeu refinado que passara boa parte da sua vida cultivando a música modernista de Alban Berg e, depois, a de Schönberg e sua atonalidade incidental, a América pareceu-lhe toda igual. Contraditoriamente, o país que mais celebrava e enaltecia a singularidade, a cada um procurar ser algo bem diferente dos demais, não parava de produzir e imprimir tudo idêntico, tudo estandartizado. A imensa rede de atividades que cobria toda a cidade era regida apenas pela ideologia do negócio. Numa sociedade onde as pessoas somente sorriam se ganhavam uma gorjeta, nada escapava das motivações do lucro e do interesse. Aprofundando-se no estudo da mídia norte-americana, entendeu que por detrás daquele aparente caos, onde rádios, filmes, revistas e jornais, atuavam de maneira livre e independente, havia uma espécie de monopólio ideológico cujo objetivo era a domesticação das massas. Quando o cidadão saía do seu serviço e chegava em casa , a mídia não o deixava em paz, bombardeando-o, a ele e à família, com programas de baixo nível, intercalados com anúncios carregados de clichês conformistas, comprometendo-o com a produção e o consumo.
Não se tratava, para ele, de que aqueles sem fim de novelas e shows de auditórios refletissem a vontade das massas, algo autêntico e espontâneo, vindo do meio do povo. Um anseio que os profissionais da mídia apenas procuravam dar corpo, transformando-os diversão e entretenimento. Ao contrário, demonstrava isso sim, a existência de uma poderosa e influente indústria cultural que, de forma planejada, impingia aos seus consumidores doses cavalares de lugares comuns e banalidades, cujo objetivo era ajudar a reproduzir “o modelo do gigantesco mecanismo econômico” que pressionava sem parar a sociedade como um todo.
Lá, na América, não havia espaço neutro. Não ocorria uma cisão entre a produção e o lazer. Tudo era a mesma coisa, tudo girava em função do grande sistema. Dessa forma, qualquer coisa que causasse reflexão, uma inquietação mais profunda, era imediatamente expelida pela indústria cultural como indigesta ou impertinente. Adorno, terminada a Segunda Guerra, voltou para a Europa, para Frankfurt, atarefado em reabria a sua escola de sociologia. Morreu em 1969, arrasado a humilhação que estudantes ultra-esquerdistas o submeteram em plena sala de aula, durante a revolta de 1968/9.

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Nazismo contra o Modernismo

Durante o Congresso do Partido Nazista reunido em Nuremberg, em 1933, Hitler citou a si mesmo utilizando-se de uma passagem do Mein Kampf referente à opinião dele sobre a arte moderna. Considerava-a obra de loucos e degenerados, parecer não muito distante do público comum perante os experimentos estéticos dos cubistas, dos expressionistas, e demais vanguardistas que vinham desde o período anterior à Guerra de 1914-1918.

Walter Laqueur, estudioso da cultura alemã daquela época, indica que os nazistas não tiveram inicialmente participação muito ativa nas polêmicas sobre a arte e a estética moderna que inundavam as revistas e semanários alemães dos anos vinte. Mas isso não demorou a mudar.

Foi por atuação pessoal de Alfred Rosenberg, o ideólogo oficial do partido nazista, que a luta contra o modernismo se materializou. Em 1927, ele publicou uma série de ensaios no jornal Völkische Beobachter sob o título geral de “Der Sumpf” (O pântano), em que acusava a estética do seu tempo de ser uma doença da alma, do desequilíbrio, da alienação, do resultado do capitalismo (dominado pelo mamonismo, isto é, pelo dinheirismo) em conjugação com o coletivismo, a cultura de massas manobrada por comunistas.

Tratava-se, segundo ele, de retirar as críticas à arte moderna feitas em nichos intelectuais reacionários ou elitistas e transformá-la numa luta. Em vista de tal propósito, Rosenberg associou-se com um pintor e arquiteto, Paul Schultze-Naumburg, para lançar-se numa campanha organizada contra a chamada “arte degenerada” no periódico Weltkampf.

Em 1929, os dois aliaram-se para estruturar a Kampfbund für Deutsche Kultur, que seria um instrumento de combate do partido nazista e voltado contra a arte do seu tempo, contra o que chamavam de Kulturbolchevismus, a cultura bolchevista.

Pode-se dizer que poucas vezes na história da cultura, a arte foi objeto de tanta polêmica, ódio e difamação como durante os anos vinte na Alemanha. Parte deste destempero deveu-se aos próprios artistas que, desde os tempos do futurismo não paravam de lançar manifestos arrogantes em que insultavam o mau gosto da gente comum e jogavam no opróbrio aqueles que se lhes opunham ou simplesmente não os entendiam, englobando-os todos sobre a palavra infamante de “filisteus”.

A mão negra

Em 1911, Vassily Kandinsky, um dos mais famosos expressionistas, nascido na Rússia, em seu tratado Über das geistige in der Kunst, (Sobre o espiritual na arte), afirmou que as grandes realizações da pintura da vanguarda tinham o status de gestos simbólicos de liberação universal e – premonitoriamente - denunciava a existência de uma “mão negra”, o mal, o princípio negativo, que procurava limitar a liberdade dos artistas com seu espírito medíocre e conservador. A ela, contrapunha o “raio branco”, o espírito livre, construtivo, capaz de sozinho demolir os preconceitos dos reacionários e do público medíocre em geral contra as inovações apresentadas pelos artistas em geral.
A tragédia que se abateu sobre a arte moderna alemã (e de certo modo sopre parte considerável da arte moderna de outros países) foi que ela se difundiu num momento de desgraça nacional. A estreita relação histórica entre sua complexidade, abstração, niilismo, deformação propositada, com a decadência socioeconômica ocorrida na Alemanha depois de 1918, foi-lhe fatal. A Catástrofe de 1918 e o Movimento Modernista pareciam andar de mãos dadas.Ela passou a ser vítima dos ataques de extremistas ultranacionalistas que denunciaram suas tortuosidades e inquietações como responsáveis pelo clima derrotista e pessimista que passou a imperar no país nos anos vinte.

Em pouco tempo os grandes nomes da inovação estética alemã, tais como Ernst Nolde, Kirchner, Müller, Purrmann, Max Beckmann, Franc Marc, Kokoschka, Feininger, Paul Klee, Otto Dix, George Grosz e Vassily Kandinsky, entraram na lista dos criadores a serem política e ideologicamente execrados. Eles, os artistas, estavam numa situação deveras perigosa. Ao afirmarem enfaticamente o primado expressionista, cujo princípio básico era a pureza dos sentimentos sobre todo o resto, terminavam por retratar em seus quadros e gravuras uma sociedade dilacerada, desmoralizada pelo Tratado de Versalhes, atormentada pela depressão econômica e por violentas convulsões políticas (como a rebelião espartaquista de 1919, o putsch Kapp, de 1920, e o levante nazista de 1923, em Munique, demonstravam). Não havia nada de belo a ser levado em consideração, ou que fosse digno de merecer uma obra de arte otimista na Alemanha do tempo deles.

Nas ruas de Berlim, Hamburgo , Frankfurt, e de tantas outras, espalhavam-se os mendigos, os mutilados, os desempregados, os deserdados e desamparados de uma guerra em que a nação, outrora orgulhosa, resultara vencida.. Ao serem fiéis aos seus sentimentos e honestos na sua maneira de olhar a realidade circundante, mostrando aos alemães uma pátria deformada e dissoluta, os artistas atraíram para si o rancor dos extremistas da direita que os acusaram de produzir uma arte Volksverbunde (inacessível ao povo). As cores predominantes deles eram o preto e o cinza. O líder nazista os estigmatizou por isso. Para Hitler, os modernistas ou eram loucos ou charlatães:

Se cada coisa a que deram à luz - disse ele - foi resultado de uma experiência interior, então eles são um perigo público e devem ficar sob supervisão médica […] se era pura especulação, então deviam estar numa instituição apropriada para o engano e a fraude.
ADOLF HITLER, sobre o artista moderno, 1933

As exigências ideológicas

Outros elementos, por igual, pesaram na perseguição que se desencadeou sobre eles. Nunca como até então as ideologias que irromperam no após Primeira Guerra Mundial utilizaram-se tão abertamente da estética para atingir seus objetivos políticos. Vivia-se na época da polit-art, quando a arte foi aparelhada, transformando-se em instrumento de uma monumental propaganda político-partidária, ocorrendo à restauração do naturalismo idealizado como a forma mais adequada e ajustada a serviço da política. de estado. Esperava-se do artista que, ao invés de concentrar-se em abstrações complicadas, descrevesse um mundo idílico, clássico, radioso, virtuoso, que imperaria no futuro não muito distante, desde que grande causa, fosse ela qual fosse, vencesse as suas rivais. Havia um imenso abismo entre os expoentes máximos da arte de vanguarda daquela época e as ambições estéticas feitas pelas ideologias dominantes em vários estados europeus nos anos vinte e trinta.(*)

A consagração histórica daqueles que foram então perseguidos, todavia, terminou se dando por meios transversos. Para afirmar a magnitude da arte nacional-socialista sobre a cultura “degenerada”, Hitler orientou Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda e Cultura do Reich, que realizasse uma exposição concorrente na Haus der Deutschen Kunst, em Munique, em julho de 1937. O desejo do Führer era confrontar a “arte verdadeiramente alemã” com a “arte degenerada” para destacar o processo de purificação que ele desencadeara na Alemanha desde sua ascensão em 1933. Ocorre que nos dias de hoje praticamente nenhum daqueles artistas que se tornaram obedientes soldados da estética nacional-socialista são lembrados, ocorrendo o contrário com aqueles que os nazistas perseguiram ou desterraram. Os nomes de Kandinsky , Klee, e tantos outros, tidos como degenerados, foram universalmente consagrados no transcorrer do século XX.

(*) A posição dos comunistas soviéticos e alemães em relação às vanguardas artísticas ou ao Movimento Expressionistas não era um tanto diferentes das dos nazistas. Em 1938, pelas páginas do periódico Die Wort (A Palavra), jornal editado em alemão em Moscou, G.Lukács,crítico eminentes e grão-sacerdote da estética stalinista, atacou o expressionismo defendido pelo filósofo Ernst Bloch e seu parceiro, o compositor Hanns Eisler, ambos exilados nos Estados Unidos, considerando-o anti-realista e, portanto, contra os princípios progressistas do Realismo Socialista (desde 1934 política cultura oficial da Rússia Stalinista). Anna Seghers, romancista esquerdista não-dogmática, mulher culta, enfrentou Lukács por carta, remetida em 29 de julho de 1938, questionando-lhe os conceitos de “decadência” e mesmo de “realismo”, defendendo a pluralidade artística como a mais adequada para expressar a época em que se vive (ver Essays über Realismus de G. Lukács). Alexander Abusch, um dirigente comunista, por sua vez, foi muito claro em afirmar que a defesa que faziam dos artistas perseguidos pelos nazistas não significava nenhum voto de simpatia do partido em favor do expressionismo ou das vanguardas em geral. As críticas aos comunistas centravam-se no fato deles retoricamente defenderem a liberdade de criação enquanto propunham que a arte estivesse submetida à linha do partido e do Estado Soviético.

Bibliografia

Haffmann, Werner – Banned and Persecuted: dictatorship of Art under Hitler.Colônia; DuMont Buchverlag, 1986.
Laqueur, Walter - Weimar, a Cultural History, 1918-1933, Londres: Weidenfeld and Nicolson, 1974.
Laqueur, Walter – Weimar: 1918-1933. Paris. Laffont, 1978.
Lukács, Georgy – Materiales sobre el realismo. Barcelona; Ediciones Grijalbo, 1977.
Richard, Lionel – Le nazisme & la culture. Paris: Frnaçois Maspero, 1978.
Kandinsky, Vassily – Gramática da Criação. Lisboa: Edições 70,1998.

Voltaire Schilling - Terra

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Trabalhar mais, para ganhar menos

Um balanço da políticas neoliberais “de emprego” na França revela: além de rebaixarem salários, elas ampliaram as diferenças de rendimento entre homens e mulheres, a precariedade e a necessidade de trabalhos complementares. Que mais será preciso para uma mudança de rumos?

Michel Husson

A cada três pessoas sem domicílio fixo, apenas uma dispõe de emprego em Paris [1]. Essa estatística chocante evidenciou a existência de uma nova categoria de indivíduos: os trabalhadores pobres. Tal fenômeno não se restringe apenas à França, já que os salários baixos [2] correspondem aproximadamente a um assalariado dentre seis na Europa. Pode ser visto como resultante de um processo de degradação desencadeado há mais de 25 anos.

É impossível dissociar a amplitude de salários baixos da evolução da partilha do valor agregado. Durante os anos 1960 e 1970, os salários representavam por volta de três quartos do Produto Interno Bruto (PIB), na Europa. Desde os anos 1980, essa fatia praticamente não parou de diminuir, chegando a atingir 66,2% em 2006 [3]. Em relação a 1993, a perda equivale, em média, a sete pontos do PIB.

Tal redução reflete uma verdadeira mudança do sistema: até a crise de meados dos anos 1970, o poder de compra do salário era fixado sobre sua produtividade. A participação dos salários sobre na nacional mantinha-se aproximadamente constante e as desigualdades tendiam a se reduzir. Sob a pressão do desemprego, essa dinâmica foi interrompida. Ao mesmo tempo, desenvolveram-se diversas formas de instabilidade associadas aos salários baixos. Na França, os rendimentos do trabalho não representavam mais do que 53% da renda disponível das famílias em 2003 (contra 67% em 1978); enquanto isso, a proporção de assalariados aumentou de 83,6% da população ativa ocupada para 91,4%.
Desmontar um falso mito: baixos salários não reduzem o desemprego

“A tendência quase ininterrupta à diminuição das desigualdades salariais parou a partir de meados dos anos 1980. O leque salarial voltou a se abrir na segunda metade da década [4]”, destaca o economista Pierre Concialdi. A proporção dos salários baixos passou de 11,4% em 1983 para 16,6% em 2001. No plano europeu, o mesmo movimento se repete. Há uma relativa estabilização das desigualdades salariais ao longo dos anos 1990. Entretanto, ela se dá num nível elevado de desigualdade e os indicadores disponíveis têm dificuldade em determinar o aumento das formas de empregos instáveis e pouco remunerados. Em 1996 – isto é, de acordo com as últimas estatísticas conhecidas, o que mostra o quanto de interesse está voltado a essa questão – os salários baixos eram, em média, 15% do total, na Europa [5], indo de 6% em Portugal a 21% no Reino Unido. A posição da França está um pouco abaixo da média.

Na lógica liberal, as desigualdades de remuneração são explicadas, e até mesmo justificadas, pelo leque de qualificações que, supostamente, refletiria a diversidade das produtividades individuais. Toda política pública – inclusive a bem intencionada – voltada para a correção da hierarquia de salários acabaria por se tornar uma fonte de desemprego. Essa pseudo-racionalidade, postulado fundamental da economia dominante, equipara o trabalho a uma mercadoria como outra qualquer e funda uma filosofia social que legitima as desigualdades em nome da eficiência.

Mas nenhum estudo sustenta essa hipótese. As comparações internacionais mostram que não há correlação entre a variação das qualificações e a das remunerações, se excluídos os países anglo-saxões. Também não se encontra uma relação inversa entre desigualdades de remuneração e taxa de desemprego, conforme ressaltam os pesquisadores Howell e Friedrich Huebler [6]. Até mesmo a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE) ressalta que “é muito difícil relacionar o número de empregos perdidos com os níveis dos salários mínimos em diferentes países; alguns estudos revelam efeitos significativos, enquanto que outros não confirmam nenhum deles [7]”. Portanto, não existem leis econômicas universais que fixem uma amplitude “ótima” do leque de salários, mas sim modelos sociais que atribuem uma importância variável a uma certa “eqüidade” salarial.
Aumento de prestação de serviços… perpetuação do baixo salário

As desigualdades salariais dependem simultaneamente da remuneração por hora e do tempo de trabalho, combinados diferentemente pelos países. No Reino Unido, há mais trabalhadores ganhando pouco por hora que na Holanda. Mas os empregos de curta duração são tão freqüentes nesses dois países, e envolvem tantos trabalhadores, que no cômputo final a proporção dos salários baixos em ambos os países aparece muito mais elevada do que na média. Esse exemplo mostra que a revalorização das remunerações passa, também, pela luta contra o tempo de trabalho parcial e, de maneira geral, contra a instabilidade. Em todos os países, o risco de baixa remuneração é maior para os assalariados cujo contrato é de duração determinada.

Esse problema foi especialmente evidenciado pelo último relatório do Conselho do Emprego, das Rendas e da Coesão Social (CERS) [8]. Analisando o salário anual (e, mais precisamente, apenas a remuneração por hora), o estudo indica que “o principal fator de desigualdade é a duração do emprego no ano”. Ela depende do recurso ao tempo parcial e do número de semanas trabalhadas. Os salários baixos são, primeiramente, os empregos instáveis. E, na França, eles são inúmeros (ver nessa edição).

Da forma como funciona, o mercado de trabalho tende a reproduzir um “pipocar” de empregos pouco remunerados. É o que acaba de mostrar um relatório oficial sobre a previsão de trabalhos para o período de 2005 a 2015 [9]. Sobre as criações líquidas de empregos previstas, mais de um quarto (400 mil) seriam no setor de serviços particulares (o auxílio a pessoas idosas ou dependentes, cuidado de crianças etc.), chamados “serviços às pessoas”. Destes, 80 mil são postos de empregados domésticos. De acordo com Michèle Debonneuil [10], conselheira do ministro do emprego, da coesão social e da habitação Jean Louis Borloo, o desenvolvimento desse tipo de emprego constituiria, para alguns, uma solução elegante ao problema do desemprego. Bastaria que “cada família francesa consumisse, em média, três horas desses serviços por semana, para criar dois milhões de empregos”.

A tendência não é inédita: os empregos de babás e de empregados domésticos aumentaram em mais de 80% entre 1990 e 2002. São postos ocupados, principalmente, por mulheres cuja qualificação não é reconhecida e que trabalham, majoritariamente, em tempo parcial. Sua “remuneração mensal é, em mais 90% dos casos, inferior ou igual a 1,3 salário-mínimo (SMIC) [11]”. Assim, esse “reservatório de empregos” é também um “reservatório de salários baixos”: o mínimo bruto pago às babás, por exemplo, é de 2,32 euros por hora.
Em vez de substituir as tarefas domésticas, mercantilizá-las

Há mais de vinte anos, André Gorz já criticava o caráter fundamentalmente desigual dessa “contra-economia terciária que busca antes criar empregos sub-remunerados do que desenvolver os serviços sociais. Segundo ele, “não se trata mais de socializar as tarefas domésticas, para que elas absorvam menos tempo social; trata-se, ao contrário, de fazer com que essas tarefas ocupem o máximo de pessoas e que absorvam o máximo de tempo de trabalho possível, mas agora sob a forma de serviços comerciais. Logo, o desenvolvimento de serviços pessoais só é possível num contexto de desigualdade social crescente, no qual uma parte da população monopoliza as atividades bem remuneradas e restringe uma outra parte ao papel de servente [12]”.

Diante da amplitude das baixas remunerações, acentua-se a diferença entre o salário recebido pelo empregado e o custo para o empregador - intervalo batizado como “cunha fiscal”. Com o intuito de conciliar a exigência de um salário justo e a de um custo do trabalho dito competitivo, a Comissão Européia e a OCDE pleiteiam uma redução das contribuições sociais, principalmente para os menos qualificados, e “redes de segurança” sob a responsabilidade do poder público. A França foi, sem dúvida, o paísonde essas receitas foram aplicadas de forma mais fiel. Desde 1993, os sucessivos governos diminuiram as contribuições sobre os salários baixos. Atualmente, essa redução se estende até 1,6 vezes o SMIC.

Se o impacto dessas medidas sobre o emprego é controverso, seus efeitos sobre a estrutura salarial são facilmente percebidos. O principal deles é acumulação na parte inferior da escala salarial: a porcentagem dos salários inferiores o 1,3 SMIC passou de 30%, no início dos anos 1990, para 39% em 2002. As reestruturações do smic, que concerniam 8 a 9 % dos trabalhadores no início dos anos 1990, atingiram 17% em 2005 [13]. Ao mesmo tempo, as reestruturações repercutem menos do que antes sobre o conjunto dos salários, diminuindo a progressão salarial no interior das empresas. Assim, as políticas de contribuições sociais reduzidas contribuíram para a formação de um “núcleo resistente” de salários baixos.
Entre os assalariados pobres, 80% mulheres

No plano da luta contra a pobreza, os liberais insistem que a revalorização do salário mínimo não é precisamente a medida mais adequada, já que os salários baixos (individuais) e a pobreza (das famílias) não se correspondem. De fato, conforme a definição oficial, é possível que um trabalhador pouco remunerado não seja considerado como pobre, se ele pertencer a uma família cuja renda excede o limite de pobreza. As duas categorias se distinguem: 19% da população ativa recebe uma renda inferior a 75% do smic, mas somente um quarto dessas pessoas se encontra em situação de pobreza monetária [14]. Segundo Pierre Concialdi, “se a população dos trabalhadores pobres é majoritariamente masculina (mais de 60%), a dos trabalhadores com salário baixo é aproximadamente 80% feminina [15]”. Para tanto, seria legítimo pensar no nível da família? Dessa forma, corre-se o risco de “minimizar a inferioridade na qual as mulheres se mantêm no mercado de trabalho [16]”, de confirmar o esquema do salário da esposa como “salário de apoio” e de ocultar a situação das mulheres sozinhas em tempo parcial.

Tais desigualdades não parecem preocupar os liberais. Esses propõem compensar os baixos salários com prestações sociais melhor focalizadas ou com dispositivos como a gratificação pelo emprego na França, pressuposta como incentivadora do trabalho. É oferecida às pessoas que tenham retomado uma atividade profissional, sob certas condições de recurso.

De fato, essas medidas constituem verdadeiras “armadilhas”: acabam por ratificar os salários baixos, enquanto que as baixas de contribuições sociais determinadas sobre esse tipo de remuneração funcionam como uma incitação à aglomeração em pontos da escala salarial. Sob pretexto de ajudar os mais desprovidos, tais medidas alimentam um processo generalizado de degradação salarial.
A importância de um salário mínimo europeu

O mesmo acontece com a flexibilidade do mercado de trabalho: “a constatação estatística não apresenta nenhuma ambigüidade, mas também não traz nenhuma grande surpresa: quanto mais se distancia do emprego estável para se reaproximar das zonas de emprego instável e flexível ou das alternâncias entre desemprego, emprego e inatividade, maior é o risco da pobreza aumentar [17]”. Assim, o CERC se esforça para evidenciar a conclusão óbvia: “o emprego de qualidade continua sendo a principal proteção contra a pobreza”.

Para inverter a tendência, seria necessário restabelecer a participação dos salários na renda nacional e impedir o avanço das formas de empregos instáveis. A revalorização dos salários baixos constitui, com efeito, o único meio de chegar à raiz do problema da pobreza, sem prejulgamento do sexo do assalariado e da configuração da sua família. A garantia de um salário justo é a melhor maneira de “fazer com que o trabalho pague”.

Nessa via, a criação de um salário mínimo europeu seria uma etapa importante; tal perspectiva é a da atualidade. Após ter sido instituído pelo Reino Unido, em 1999, e pela Irlanda, em 2000, o debate sobre o salário mínimo está aberto na Alemanha, na Áustria e até na Suíça [18]. A entrada, na UE, de países cujo nível salarial é inferior ao da média torna esse debate ainda mais indispensável. No momento, parece que, em vários desses países, a revalorização do salário mínimo contribui para um movimento de recuperação salarial. Mas essa evolução poderia ser reforçada pela implantação de um sistema europeu de salários mínimos.

Levando em conta as disparidades, não se poderia fixar um nível único para todos. Porém, é possível conceber uma norma geral, adaptada às realidades de cada país. Fixar, por exemplo, o salário mínimo em 60% do salário médio de cada país, como é o caso da França [19]. Nesse contexto, a Alemanha ocupa um lugar central, pois lá a idéia de um salário mínimo nasceu justamente dos estragos sociais provocados pelas reformas do mercado de trabalho. A porcentagem dos trabalhadores com salários baixos passou de 14,3% a 15,7% entre 1995 e 2000, para atingir o mesmo nível que o da França [20]. Se um salário mínimo legal foi adotado nesse país, seria possível discutir a sua extensão em escala européia. Seria “na esfera social o que o euro é na esfera monetária [21]”.
Nova política salarial: limite da “economia competitiva”

Na verdade, a maneira mais simples de defender o “valor trabalho”, tão corrente nesses últimos tempos, não seria aumentar os salários? Objetamos que uma tal medida conduziria diretamente ao aumento do desemprego: nossos produtos perderiam em competitividade; os assalariados pouco qualificados parariam de ser empregados, pois custariam mais caro, às empresas, do que aquilo que pudessem lhes render de produtividade.

A observação dos fatos mostra que essa série de argumentos não apresenta fundamento: não são os países que têm o mais “moderado” dos salários que geraram o máximo de empregos. A redução das contribuições também não permitira criá-los. Deveríamos refletir sobre o contra-exemplo da Alemanha: o congelamento dos salários certamente contribuiu para estimular as exportações, mas também freou o consumo dos assalariados. Desses dois efeitos, foi o segundo que prevaleceu, conduzindo a um aumento de três pontos da taxa de desemprego, entre 1995 e 2005.

A versão liberal se apóia sobre dois postulados discutíveis. O primeiro é o da concorrência geral espalhada pela Europa. Se for verdade que um país que limita a progressão dos salários pode ganhar partes do mercado em detrimento de seus vizinhos, a generalização dessa falsa boa idéia conduz a um fraco dinamismo do emprego, quando todos os países seguem a mesma política. É exatamente o que ocorre na União Européia.

O segundo postulado consiste em dizer que não se pode mexer na distribuição das rendas. Ora, assim como os salários, os dividendos são um elemento da determinação dos preços: um aumento dos salários pode, perfeitamente, ser compensado por uma baixa dos benefícios financeiros, de tal forma que a competitividade permaneceria imutável. Portanto, uma outra política salarial é possível. Essa deve ser coordenada no nível europeu e acompanhar o repasse dos rendimentos financeiros para os salários - contrariamente ao que ocorre há mais de duas décadas.

Quanto a trabalhar por longo tempo para ganhar mais, isso também não é nada coerente. O prolongamento da jornada de trabalho vai de encontro a novas criações de empregos e não pode engendrar por si só um aumento da atividade se a distribuição de renda continua a mesma. Inúmeros acordos de empresas mostram que, sob pretexto de “livre escolha”, trata-se, na realidade, de reduzir o pagamento por hora e não de o revalorizar. Essa orientação, que invoca a pressão dos países emergentes, é um impasse. Para se adaptar a seus custos salariais, seriam necessárias diminuições de salário tamanhas que a economia européia ficaria competitiva, mas morta.

Enfim, a proposta – comum a Nicolas Sarkozy e a François Bayrou – de aumentar as horas suplementares, de forma a exonerá-las das contribuições sociais, acabaria por liquidar a noção da duração legal do trabalho e por reduzir um pouco mais os recursos da garantia social.

Tradução: Leonardo Teixeira da Rocha leorocha2003@yahoo.com.br

[1] Brigitte Debras, Hélène Chamborédon, Patrick Thiery, “Dans l’agglomération parisienne, un sans-domicile sur trois déclare avoir un emploi ”, na página, Insee Île de France, n° 241, 2004.
[2] Considera-se “salário baixo” todo salário situado abaixo de 60% do salário mediano, que define a linha de divisão dos salários em dois grupos iguais.
[3] No Brasil, a participação dos salários formais na riqueza nacional caiu de 55% (até a década de 1960 para 45% (em 1995) e para 35% (em 2004). O percentual é obtido ao se relacionar o salário médio com o PIB per capita. Conferir Comissão Européia, A Economia Européia, (L’Economie européenne), Bruxelas, outono de 2006.
[4] Pierre Concialdi, “Bas salaires et “travailleurs pauvres” ”, Les cahiers français, La Documentation française, n° 304, Paris, 2001.
[5] Eric Marlier e Sophie Ponthieux, Les bas salaires dans les pays de l’Union européenne, Eurostat, Statistiques en bref, Bruxelas, 2000. Os dados se referem a 13 dos 15 países da União Européia (estão fora a Suécia e a Finlândia) e deixam de lado as pessoas que trabalham menos de 15 horas por semana.
[6] David Howell e Friedrich Huebler, “Trends in Earnings Inequality and Unemployment Across the OECD”, Working Paper n° 23, Center for Economic Policy Analysis (CEPA), Nova Iorque, maio de 2001.
[7] OCDE, Perspectives de l’emploi, Paris, 2006.
[8] CERC, La France en transition 1993-2005, La Documentation française, Paris, 2006.
[9] Centro de Análise Estratégica – Dares (Direção de Incentivo à Pesquisa, Estudos e Estatísticas do ministério do Emprego, da Coesão Social e da Moradia), Les métiers en 2015, relatório Perspectivas dos Empregos e Qualificações, janeiro de 2007, Paris.
[10] Michèle Debonneuil, “ Deux millions d’emplois qui dépendent de nous ”, Le Monde, 16 de fevereiro de 2006.
[11] Bertrand Lhommeau, Trajectoires passées par un emploi à bas salaire, Dares, Documento de trabalho n°78, Paris, 2003. O SMIC equivale ao valor bruto de 8,27 euros por hora, aproximadamente ao valor bruto de 1.254,28 euros por mês (para 151,67 horas de trabalho) e ao valor líquido de 985,11 euros.
[12] André Gorz, Métamorphoses du travail. Quête du sens, Ed. Galilée, Paris, 1988.
[13] Malik Koubi et Bertrand Lhommeau, “La revalorisation du Smic et ses effets de diffusion dans l’échelle des salaires sur la période 2000-2005”, Dares, Premières Synthèses n°27.1, julho de 2006.
[14] Nadine Laïb, “Situation sur le marché du travail et pauvreté monétaire”, Direção da Pesquisa, dos Estudos, da Avaliação e das Estatísticas (Drees), Etudes et résultats Paris, n°499, 2006.
[15] Pierre Concialdi, Pauvreté, bas salaires et minima… op.cit.
[16] Margaret Maruani, “ Les working poor version française ”, Problèmes économiques, Paris, n°2833, 2003.
[17] CERC, op.cit.
[18] Ler o número especial da Chronique internationale de l’Ires n°103, Noisy-le-Grand, 2006, consagrado aos salários mínimos.
[19] horsten Schulten, Andreas Rieger, Michel Husson, Thèses pour une politique européenne de salaires minimaux, Düsseldorf, Paris, Zurique, 2005.
[20] Ver Odile Chagny, “Les réformes du marché du travail en Allemagne ”, La Revue de l’IRES n° 48, 2005.
[21] Fundação Robert Schuman, “ Le salaire minimum européen : un projet réalisable ?”, Questions d’Europe n°43, Paris, 2006.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Alba, Alternativa para a Nossa América

Luiz Bassegio

A proposta da Alba, até agora assumida por Venezuela, Cuba, Bolívia e Nicarágua, aponta para a perspectiva de superação da acumulação capitalista dos países industrializados que aprofunda o aumento das contradições e assimetrias entre os países. Países subdesenvolvidos, que geram 15% da produção mundial, se vêem obrigados a importar grande quantidade de bens e serviços dos países industrializados que controlam os preços dos produtos. Essa dinâmica aumenta a dívida externa dos países pobres obrigando-os a investir boa parte do PIB para o pagamento dos juros e da dívida.

As conseqüências desta política imperialista são muitas: entrega das empresas estatais estratégicas para o capital transnacional; implemento da flexibilização das relações trabalhistas; negação e supressão de direitos; privatização de serviços públicos de saúde, educação, habitação e seguridade social.

Como relação a esta situação, os povos da América Latina e do Caribe estão optando por caminhos alternativos de integração. É o caso da Venezuela, Bolívia e Equador. Na 5ª Cumbre da Alba foram assumidos diversos acordos de cooperação entre os governos: cooperação na educação, na saúde, além de acordos comerciais relativos ao gás, petróleo, energia. A solidariedade entre estes países também é um diferencial nas relações . A Venezuela é um exemplo. Com relação ao petróleo se propôs a vendê-lo aos países que integram a Alba em condições muito favoráveis: prazo de 90 dias para o pagamento de 50%. Dos 50% restantes, 25% teria um prazo de 25 anos para pagar (com dois anos de carência a uma taxa de 2%) e 25% seriam colocados num fundo da Alba para créditos a pequenos projetos.

Por outro lado, os países que compõem a Alba, concordam em retirar-se do CIADI (Centro Internacional de Acertos de Diferenças Relativas a Inversões). Este órgão garante o direito soberano dos povos de controlar as inversões estrangeiras no próprio território. Sempre que nossos países tentam chegar a um acordo com um país rico, este recorre ao CIADI. É o que ocorre, por exemplo, na Bolívia.

Os movimentos sociais, reunidos no marco da 5ª Cumbre, assumiram o compromisso de pautarem-se pelos princípios de inspiração socialista como a complementaridade, o internacionalismo, a igualdade e a integração dos povos. No debate realizado no dia 29, em Tintorero, entre os presidentes dos países presentes na Cumbre e movimentos sociais, decidiu-se organizar o Conselho dos Movimentos Sociais da Alba. O Conselho terá como tarefa definir seu papel e preparar a Cumbre Alternativa Iberoamericana a se realizar no mês de novembro, em Santiago, Chile, por ocasião da Cumbre Ibero-americana de Presidentes e Chefes de Estado.

No documento entregue aos presidentes, em Tintorero, os movimentos fizeram diversas propostas, entre elas:

- Contribuir na elaboração da Carta da Alba;

- Plano de Cooperação com o Haiti: que os governos colaborem com a Haiti através de projetos de saúde e educação, alfabetização, agricultura, cooperação econômica e comércio justo;

- Criação da Universidade do Sul e de uma Escola Latino-americana e Caribenha de Políticas Públicas;

- Criação de um mecanismo, a partir da Alba, para solucionar o problema das migrações causada pelo terrorismo de estado e pelas políticas neoliberais dos governos submetidos aos ditames do imperialismo;

- Apoio a TELESUR e criação de uma Agência de Notícias da Alba;

- Que o Banco do Sul tenha uma área de atenção econômica voltada para as questões sociais, principalmente visando erradicar a feminilização da pobreza;

- Criação de uma rede de intercâmbio de alimentos sadios;

Ao final do Encontro diversas campanhas foram assumidas coletivamente: apoiar a luta do povo de Costa Rica contra a implementação do Tratado de Livre Comércio; pela extradição do terrorista Luis Posada Carriles para a Venezuela e a imediata libertação dos cinco lutadores cubanos presos nos Estados Unidos. Também houve o compromisso de luta permanentemente e intransigente para conseguir um território livre do analfabetismo e dos transgênicos.

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Sincretismos do Brasil

REGINALDO PRANDI

Diz a pesquisa Datafolha que 17% dos brasileiros freqüentam cultos ou serviços religiosos de alguma religião diferente da que professam. Esse número sobe a 19% entre os católicos, cresce para 37% entre os umbandistas e chega a 48% entre os seguidores do candomblé. Mais sectários, os evangélicos pentecostais se mostram numa cifra bem mais modesta: 9%.
E o que vão fazer numa religião que não é a sua? Uns vão participar de atos com finalidade religiosa. Outros, presenciar ritos como casamento e funeral, numa atividade mais social que religiosa. Não raro, a coisa se faz por necessidade religiosa ou mágica, uma religião complementando outra. Isso é comum no Brasil, pelo caráter sincrético de nossas religiões. Umas mais, outras menos, toda religião é sincrética.
Quando uma igreja pentecostal adota práticas mágicas afro-brasileiras, como é o caso do “descarrego”, ela toma de empréstimo de suas maiores rivais um rito mágico caro ao brasileiro, seja ele umbandista, católico, evangélico etc. O empréstimo aproxima as religiões em termos de linguagem e reforça sua eficácia mágica. O catolicismo carismático foi buscar no pentecostalismo a prática do falar em línguas estranhas e outros dons que, apesar da origem cristã comum, são especialmente estruturadoras do pentecostalismo. Se um fiel encontra na sua religião elementos presentes em outras, a outra religião nunca lhe é inteiramente estranha. Afinal, costuma-se dizer que todos os caminhos levam a Deus.
Pelo caráter de sua constituição histórica, as religiões afro-brasileiras são as que mais se aproximam das outras, especialmente do catolicismo. Quando o candomblé se formou, o catolicismo era a religião oficial do Brasil, e nenhuma outra era tolerada. Todo brasileiro, fosse branco, índio ou africano, devia ser batizado católico. Antes de serem embarcados nos navios negreiros, ainda na África, os escravos eram batizados e introduzidos nas práticas rituais da Igreja Católica. Desse modo, os negros que instituíram no Brasil as religiões afro-brasileiras eram, por força da sociedade da época, e da lei, também católicos. Acabaram por estabelecer paralelos entre as duas religiões, identificando, por meio de símbolos ou patronagens comuns, orixás com santos católicos, Jesus ou Nossa Senhora. Olorum foi equiparado ao Deus judaico-cristão, e Exu, por seu caráter lascivo, astuto e trapalhão, acabou assumindo o papel do diabo. O quadro de equivalências se completara. A isso se chamou sincretismo afro-brasileiro.
No contexto cultural católico do Brasil do século 19, o candomblé se firmou como religião subalterna e tributária do catolicismo, do qual ainda hoje tem dificuldade de se libertar para se constituir como religião autônoma. No lado de cá do Atlântico, mitos foram adaptados à nova realidade social, rituais ganharam feições condizentes com o novo território, deuses africanos tornaram-se santos afro-brasileiros.
A umbanda, surgida mais tarde do candomblé e do kardecismo, manteve e reforçou tal sincretismo. Não é estranho à umbanda e ao candomblé ter seus adeptos freqüentando missas e sacramentos católicos. No fundo, também são católicos. A Igreja Católica faz vistas grossas, assim como finge não ver seus fiéis buscando nos terreiros e centros ajuda no jogo de búzios, nos despachos, nos conselhos dos caboclos e pretos-velhos e nos passes. A mestiçagem brasileira também se faz ver no sincretismo religioso.

REGINALDO PRANDI, professor de sociologia da USP, é autor do modelo de pesquisa usado pelo Datafolha e autor de “Mitologia dos Orixás”, “Segredos Guardados” e “Morte nos Búzios”.

Jornal Folha de S. Paulo

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Linguagem e medo global

Eduardo Galeano

Na era vitoriana, as calças não podiam ser mencionadas na presença de uma senhorita.

Hoje, não fica bem dizer certas coisas na presença da opinião pública. O capitalismo ostenta o nome artístico de economia de mercado, o imperialismo chama-se globalização.

As vítimas do imperialismo chamam-se países em vias de desenvolvimento, o que é como chamar de crianças aos anões.

O oportunismo chama-se pragmatismo, a traição chama-se realismo.

Os pobres chamam-se carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos.

A expulsão das crianças pobres do sistema educativo é conhecida sob o nome de deserção escolar.

O direito do patrão a despedir o operário sem indemnização nem explicação chama-se flexibilização do mercado laboral.

A linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria.

Ao invés de ditadura militar, diz-se processo.

Quadro de Fernando Botero. As torturas chamam-se pressões ilegais, ou também pressões físicas e psicológicas.

Quando os ladrões são de boa família, não são ladrões e sim cleptómanos.

O saqueio dos fundos públicos pelos políticos corruptos responde pelo nome de enriquecimento ilícito.

Chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos automóveis.

Para dizer cegos, diz-se não visuais, um negro é um homem de cor.

Onde se diz longa e penosa enfermidade deve-se ler cancro ou SIDA.

Doença repentina significa enfarte, nunca se diz morte e sim desaparecimento físico.

Tão pouco são mortos os seres humanos aniquilados nas operações militares.

Os mortos em batalha são baixas, e as de civis que a acompanham são danos colaterais.

Em 1995, aquando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: “Não me agrada essa palavra bomba, não são bombas. São artefactos que explodem”.

Chamam-se “Conviver” alguns dos bandos que assassinam pessoas na Colômbia, à sombra da protecção militar.

Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade a maior prisão da ditadura uruguaia.

Chama-se Paz e Justiça o grupo paramilitar que, em 1997, metralhou pelas costas quarenta e cinco camponeses, quase todos mulheres e crianças, no momento em que rezavam numa igreja da aldeia de Acteal, em Chiapas.
O medo global

Os que trabalham têm medo de perder o trabalho.

Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho.

Quem não tem medo da fome, tem medo da comida.

Os automobilistas têm medo de caminhar e os peões têm medo de ser atropelados.

A democracia tem medo de recordar e a linguagem tem medo de dizer.

Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas.

É o tempo do medo.

Medo da mulher à violência do homem e medo do homem à mulher sem medo.

Resitir
http://resistir.info/

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Trinta anos de vida vencendo a morte

Adital

Há 30 anos, as Madres de Plaza de Maio começaram uma vigília para que seu filhos detidos-desaparecidos jamais caíssem em esquecimento, entraram para a história do país e se constituíram como um dos principais símbolos de resistência em toda a América Latina. Os eventos comemorativos serão encerrados na próxima segunda-feira com um grande concerto latino-americano.

Durante todo este mês foram feitas várias atividades, entre caravanas que percorreram cidades argentinas e ações de solidariedade como a que aconteceu ontem (26), quando a partir das 0h00 iniciaram um jejum em apoio aos professores que estão em greve e para que as crianças possam voltar às aulas. Às 15h30 começaram novamente a marcha na Praça que se repete toda quinta-feira desde 1977.

A história das Madres começa com a ditadura militar na Argentina. Na década de 70 foram muitos os desaparecidos. Sem ter notícias de seus filhos, as mães percorriam todos os lugares oficiais e não-oficiais em busca de notícias. Quando a ditadura se instalou os casos de desaparecidos aumentaram consideravelmente. E, com isso, a busca das mães.

Segundo conta Hebe Bonafini, fundadora da Associação, sem respostas para seus questionamentos e angustiadas, depois de mais uma ida a Igreja Stella Maris, as mães decidiram ir até a Plaza de Mayo para redigir uma carta, na qual pediam uma audiência para saber o que, afinal, havia acontecido com seus filhos. Era um sábado, 30 de abril.

“Não demos conta que não tinha nenhum sentido. Era um 30 de abril. Decidimos voltar na outra semana, numa quinta-feira. E na outra semana também na quinta-feira(…) Quando nos demos conta que íamos avisando uma às outras que nas quintas, às 15h30, nos reunimos nessa praça, num banco, não caminhávamos, nem marchávamos”, conta Bonafini, no sítio oficial das Madres.

Atualmente, além de manterem viva a memória de seus filhos, a Associação atua em outras frentes, como a construção de moradias, e da Universidade Popular Madres da Plaza de Mayo.

Matéria publicada em 12 de maio de 2007

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Tempo e falta de tempo

Roseli Sayão

Cada vez mais ouço pessoas reclamarem do tempo ou da falta de tempo para conseguir dar conta de todas as responsabilidades e realizar as aspirações diárias e projetadas para curto e médio prazos. Parecemos os coelhos brancos do país de Alice, sempre atrasados e a dizer “É tarde, é tarde!”. Talvez não seja o tempo. Pode ser excesso de atividades distribuídas no tempo disponível, por exemplo. Queremos fazer de tudo e não nos contentamos mais em fazer um pouco de tudo: queremos muito de tudo.

Trabalho, por exemplo, não ocorre mais só no local de trabalho. Não há mais horário de trabalho, principalmente com o advento do telefone celular. Qualquer hora é hora para resolver algo, responder a uma dúvida, fazer uma indagação, gravar um memorando, marcar uma reunião, ter uma idéia, checar a correspondência eletrônica profissional. Parece mesmo que tudo é urgente. Aliás, a expressão “é para ontem” é cada vez mais usada no campo profissional. Ironia que aponta o paradoxo que vivemos em relação ao tempo: afinal, o que era para ontem já está atrasado ou não pode mais ser realizado, não é?

Do mesmo modo, as relações familiares, principalmente a com os filhos, não ocorrem apenas no lar ou quando pais estão reunidos com os rebentos: o mesmo telefone móvel leva os filhos com os pais a todos os lugares e, assim, todo o tempo fica dividido com eles. Nas casas de espetáculos, por exemplo, todos ouvem um aviso para que desliguem o celular. Muitos optam por deixá-lo no modo silencioso: assim não perturbam o ambiente, mas, ao mesmo tempo, não perdem um chamado que, garantem os que são pais, pode ser dos filhos. Isso sem falar das constantes ligações dos filhos quando os pais estão no trabalho.

Talvez não seja o tempo escasso nosso problema, mas a dificuldade de administrá-lo. Não tem sido fácil, por exemplo, diferenciar o que é urgente do que é importante, tanto na vida profissional quanto na pessoal. E tem mais: não raramente desconhecemos o nosso próprio ritmo. E quem não tem intimidade com seu ritmo na vida aceita assumir mais -ou menos- coisas do que poderia realizar num determinado espaço de tempo. E será que temos colaborado para que os mais novos aprendam a conhecer o seu ritmo e a administrar o seu tempo?

Pelo jeito, a resposta é um sonoro e forte não! Na escola, por exemplo, os alunos aprendem muito pouco a esse respeito. Eles devem fazer suas atividades e aprender no tempo determinado pelo modo de funcionamento da escola, pela duração das aulas ou pelo comando do professor. Em geral, os alunos saem da escola -inclusive a de terceiro grau- sem saber efetivamente avaliar o tempo que precisam para realizar bem um projeto.

De modo similar, os pais costumam impor aos filhos a sua própria noção de ritmo para usar o tempo disponível. Desse modo, muitos filhos são caracterizados como rápidos ou lerdos de acordo com a velocidade dos pais para comer, para falar, para tomar banho etc. Ajudar o filho a aprender a administrar seu tempo não é cobrar que façam as coisas mais rapidamente e sim exigir que realizem as obrigações do dia sem ficar sem tempo para se dedicar ao que gostam e querem fazer. Agora, lotar o tempo dos filhos com atividades é uma péssima maneira de ajudá-los a se apropriarem de seu tempo e de seu ritmo.

Pais e escolas têm imposto o uso de agenda como estratégia para ensinar aos mais novos a administração do tempo. Ora, esse recurso só funciona para quem já aprendeu a se organizar no tempo por conhecer bem seu ritmo e ser capaz de distinguir prioridades, o que não é o caso crianças e adolescentes e, muitas vezes, nem de adultos, não é verdade?

Folha Equilíbrio

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Ex-torturador é chefão da máfia do bingo

Ailton Guimarães Jorge voltou a frequentar o noticiário, acusado de explorar jogos de azar. Mas, não só os crimes atuais fazem do ex-capitão um personagem emblemático do que há de pior neste país.

Celso Lungaretti

Nas últimas semanas, o ex-capitão do Exército Ailton Guimarães Jorge voltou a frequentar o noticiário policial, agora como um dos 25 contraventores cuja prisão foi pedida pela Polícia Federal, sob a acusação de explorarem jogos de azar no país, inclusive subornando membros do Executivo, Legislativo e Judiciário.

O presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro já havia sido condenado em 1993 por envolvimento com o jogo-do-bicho, ao lado de outros 13 banqueiros, pela juíza Denise Frossard. Sabia-se que eles todos eram responsáveis por, pelo menos, 53 mortes.

Pegaram seis anos de prisão cada, a pena máxima por formação de quadrilha. Mas, em dezembro de 1996 estavam todos de volta às ruas, beneficiados por liberdade condicional ou indultos.

Mas, não são só os crimes atuais que fazem do Capitão Guimarães um personagem emblemático do que há de pior neste país. Ele é o mais notório exemplo vivo do banditismo inerente aos órgãos de repressão da ditadura militar.

A outra celebridade capaz de rivalizar com ele nesse quesito já morreu, ao que tudo indica como um arquivo apagado pelos próprios comparsas: o delegado Sérgio Paranhos Fleury, em cujo benefício os militares chegaram até a criar uma lei, com o único objetivo de mantê-lo fora das grades.

O Capitão Guimarães atuava na II seção (Inteligência) da PE da Vila Militar, que, como todas as equipes de torturadores da ditadura, auferia ganhos substanciais ao capturar ou matar militantes revolucionários.

Tudo que era apreendido com os resistentes e tivesse algum valor, virava butim a ser rateado entre aqueles rapinantes. Jamais cogitavam, por exemplo, devolver o dinheiro aos bancos que haviam sido expropriados pelos guerrilheiros urbanos. Numerário, veículos, armas e até objetos de uso pessoal iam sempre para a caixinha do bando. De mim, até os óculos roubaram.

Havia também as recompensas oferecidas pelos empresários direitistas, bem expressivas. Eles definiram inclusive uma tabela com os órgãos de repressão: dirigente revolucionário preso valia tanto; integrante de grupo de fogo, um pouco menos, e assim por diante.

Ocorre que, em novembro de 1969, morreu como conseqüência das torturas aplicadas por Ailton Guimarães Jorge e seus comparsas o estudante Chael Charles Schreier. O episódio repercutiu pessimamente no mundo inteiro e no próprio Brasil, onde a revista Veja fez uma matéria-de-capa histórica sobre a tortura.

As Forças Armadas decidiram, então, proibir que cada unidade de Inteligência de cada Arma fosse à caça por sua própria conta. Unificaram o combate à luta armada no quartel da PE da rua Barão de Mesquita (Tijuca), que passou a ser a sede do DOI-Codi, integrado por oficiais da II Seção do Exército, do Serviço de Informações da Aeronáutica (Sisa) e do Centro de Informações da Marinha (Cenimar), mais investigadores da polícia civil.

A equipe do Ailton Guimarães Jorge, até como punição pela morte do Schreier, foi alijada desse vantajoso esquema. Então, quando cheguei preso lá, em junho de 1970, aqueles rapinantes estavam desesperados com a falta de grana.

Tinham se habituado a um padrão de vida mais elevado e já não conseguiam subsistir apenas com o soldo. Tentavam de todas as maneiras convencer seus superiores de que mereciam ser readmitidos no combate à luta armada, em vão.

Foi por isso que, em 1974, a equipe de torturadores da PE da Vila Militar envolveu-se com contrabandistas, para obter a renda adicional que tanto lhe fazia falta. O Exército acabou descobrindo e instaurando um Inquérito Policial-Militar contra soldados, cabos, sargentos e quatro oficiais, inclusive o tenente Ailton Joaquim (um dos 10 piores torturadores do período, segundo o Tortura Nunca Mais) e o capitão Aílton Guimarães Jorge.

Justiça poética
As investigações foram conduzidas com o método que o Exército invariavelmente utilizava. Então, aqueles notórios torturadores acabaram conhecendo na própria pele a tortura. Houve até caso de assédio sexual à esposa de um dos acusados, por parte dos seus próprios colegas de farda…

Como o Élio Gaspari relata em “A Ditadura Escancarada”, o caso acabou, entretanto, em pizza:

– Todos os indiciados disseram em juízo que o coronel do 1PM lhes extorquira as confissões. A maioria deles sustentou que, surrados, assinaram os papéis sem lê-los. Num procedimento inédito, os oficiais do Conselho de Justiça decidiram que o processo tramitaria em segredo. Durante o julgamento a promotoria jogou a toalha, e, em maio de 1979, os 21 acusados foram absolvidos. O caso voltou ao STM, cinco ministros recusaram-se a relatá-lo, e, por unanimidade, confirmou-se a absolvição. A sentença baseou-se num só argumento: ‘Tudo o que se apurou nestes autos, o foi, exclusivamente, através de confissões, declarações e depoimentos extrajudiciais, retratados e desmentidos posteriormente em juízo, sob a alegação de violências e ameaças praticadas durante o IPM”.

Ora, todos os IPMs instaurados contra os resistentes poderiam ser anulados pelos mesmíssimos motivos. Dois pesos, duas medidas.

A carreira militar do Capitão Guimarães, ficou, entretanto, comprometida. Nos quartéis, ele seria sempre visto como ovelha negra e tratado com má vontade. Então, pediu baixa e foi capitanear o jogo-do-bicho, conforme narra o Gaspari:

– Coube ao bicheiro Tio Patinhas consertar a vida de Ailton Guimarães Jorge. (…) O processo do contrabando ainda tramitava (…) quando ele se transferiu formalmente para a contravenção, levando a patente por apelido e diversos colegas como colaboradores. Começou como gerente do banqueiro Guto, sob cujo controle estavam quatro municípios fluminenses. Um dia três visitantes misteriosos tiraram Guto de casa e sumiram com ele. (…) Tio Patinhas passou-lhe a banca. Em três anos o Capitão Guimarães foi de tenente a general, sentando-se no conselho dos sete grandes do bicho, redigindo as atas das reuniões, delimitando as zonas dos pequenos banqueiros. Seu território estendeu-se de Niterói ao Espírito Santo. Seguindo a etiqueta de legitimação social de seus pares, apadrinhou a escola de samba Unidos de Vila Isabel e virou a maior autoridade do Carnaval, presidindo a liga das escolas do Rio de Janeiro. Rico e famoso, adquiriu uma aparência de árvore de Natal pelas cores de suas roupas e pelo ouro de seus cordões. Tornou-se um dos mais conhecidos comandantes da contravenção carioca. Do seu tempo da PE ficou-lhe o guarda-costas, um imenso ex-cabo que, como ele, começara no crime organizado da repressão política.

Esse cabo, Polvarelli, pesava 140 quilos e lutava judô. No final de 1969, ao tentar prender meu companheiro Eremias Delizoicov, que tinha apenas 18 anos, foi por ele atingido com um disparo no braço. Ele e os outros torturadores/meliantes retalharam então o Eremias com 35 tiros, tornando impossível até sua identificação (só souberam quem era pelas digitais).

Depois, em junho de 1970, unicamente por ter sabido que eu era amigo do Eremias desde a infância, ele fez questão de vingar-se em mim pelo final prematuro de sua carreira de judoca: estourou meu tímpano com um fortíssimo tapa de mão aberta. Nunca mais tive audição normal, apesar das três cirurgias por que passei.

Eram essas as pessoas de quem a ditadura servia-se para combater os heróis e mártires da resistência.

Celso Lungaretti é jornalista e escritor, ex-preso político e autor do livro “Náufrago da Utopia”.

Carta Maior

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A derradeira transformação dos comunistas italianos

De cisão em cisão, o PCI acabou se transformando nos Democratas de esquerda, um partido que tem a cor laranja e afinidades com a democracia cristã

Jean-Jacques Bozonnet
Correspondente em Roma

O martelo e a foice há muito acumulavam poeira na loja de acessórios do antigo Partido Comunista Italiano (PCI). Por ocasião do congresso dos Democratas de esquerda (DS), de 19 a 21 de abril em Florença, os herdeiros de Antonio Gramsci (membro fundador) e de Enrico Berlinguer (secretário-geral de 1972 a 1984) também guardaram a bandeira vermelha e o seu hino, “A Internacional” na prateleira das recordações. A decoração do palácio dos esportes onde se reuniram 1.500 delegados do DS tendia mais para o laranja, a cor das revoluções atuais. Uma canção popular italiana, escolhida por supostamente abrir novos horizontes, “O Céu É Sempre Mais Azul”, foi tocada para marcar a conclusão do encontro.

Não sobrou sinal algum, nem nos símbolos nem nas palavras, do passado comunista no momento da derradeira muda. Ao votarem na sua dissolução e na sua fusão com os centristas de esquerda de A Margarida, um movimento de inspiração democrata cristã, com o objetivo de fundar uma agremiação reformista moderada, os Democratas de esquerda, segundo a opinião unânime da imprensa italiana, “ratificaram o encerramento definitivo da experiência histórica que havia sido iniciada em 1921 em Livorno”. Foi nesta cidade que nascera o PCI, a partir de uma cisão do Partido Socialista Italiano (PSI).

Dirigido por Amadeo Bordiga, e depois por Antonio Gramsci, o novo partido é proibido em 1926 pelo regime fascista. Ele renascerá em 15 de maio de 1943, e Palmiro Togliatti, o seu chefe clandestino desde 1927, permanecerá à sua frente até a sua morte, em 21 de agosto de 1964. A partir de 1956, com os eventos que ocorrem na Hungria, o PCI abre “uma via italiana rumo ao socialismo”. A tendência a tomar suas distâncias em relação ao grande irmão soviético se concretizará com Enrico Berlinguer. Eleito secretário em 1972, este elegante gentleman oriundo da Sardenha adota a linha “eurocomunista”, que conduzirá à ruptura com Moscou em 1981.

Esta época será caracterizada pelo apogeu da influência do PCI: nas eleições legislativas de 1976, ele conquista 34,4% dos votos. A maior parte dos dirigentes de esquerda, e mesmo de direita, assim como um grande número de intelectuais desta geração, foram simpatizantes desta cultura, ou até mesmo membros do partido. A Itália era compartilhada - e nem tanto dividida - por este peso pesado com o seu pendente no centro-direita, a Democracia Cristã (DC).

Para um bom número de observadores, os pós-comunistas de 2007 e os herdeiros da DC estão no processo de realizar, de uma maneira mais discreta, o famoso “compromisso histórico” entre as duas culturas políticas do país, uma aliança com a qual haviam sonhado Enrico Berlinguer e Aldo Moro (DC), e pela qual este último pagou com a sua vida em 1978, assassinado pelas Brigadas Vermelhas.

“Aquilo foi uma tragédia; agora nós estamos envolvidos numa farsa que tem tudo para ser bem pior de que uma tragédia”, escreveu depois do congresso de dissolução dos DS “Il Manifesto”, um jornal de esquerda que segue acrescentando ao seu título a menção “Diário comunista”. O seu fundador, Valentino Parlato, que fora excluído do PCI em 1969 por ter criticado a URSS, e principalmente a invasão da Tchecoslováquia em 1967, estima que “é a última das retiradas que foram iniciadas por aquela de Achille Occhetto”. Então o secretário do partido, este último havia anunciado, em 12 de novembro de 1989 perante a seção de Bolonha, alguns dias depois da queda do Muro de Berlim, o começo do fim do PCI, que em breve seria dissolvido e transformado em 1991 no Partido dos Democratas de esquerda (PDS). O carvalho é o seu símbolo, mas, num dos cantos do seu logotipo, a bandeira vermelha marcada com a estrela, a foice e o martelo, ainda resiste.

Apesar do sucesso da esquerda nas legislativas de 1996, o PDS de Massimo D’Alema, principal partido da coalizão da Oliveira (21,1% dos votos), não sobrevive à crise do governo Prodi. Os DS nascem em novembro de 1998 sob a liderança de Walter Veltroni. Atualmente o prefeito de Roma, este último é favorito para assumir a direção do futuro Partido Democrata. Mas, em 2007, as “relíquias” comunistas cedem o lugar, debaixo do carvalho, para o cravo socialista e as estrelas da União Européia. “Essas retiradas sucessivas nada tiveram de estratégico”, insiste Valentino Parlato num editorial publicado na primeira-página do seu jornal. “Aquela de Florença é uma retirada política e cultural sem princípio e sem saída, exceto a de deixar o caminho livre para uma não improvável onda de direita”.

Convidado a participar do congresso dos DS, Silvio Berlusconi aplaudiu o discurso do secretário, Piero Fassino: “Se o Partido Democrata for mesmo isso, eu estou disposto, numa proporção de 95%, a me inscrever nele também”, exclamou “Il Cavaliere”. “O que eu ouvi aqui foi uma série de posicionamentos social-democratas que, em alguns pontos, são decididamente liberais; eu estou de acordo com a política social da qual falou o secretário dos DS”. Este último se referiu à “necessidade histórica” de uma evolução “para aqueles dos nossos filhos que só conheceram o pagamento do seu salário em euros e que talvez nem tivessem nascido por ocasião da queda do Muro”.

Esta guinada para o centro foi recusada pela ala esquerda dos DS. Houve choros, abraços e beijos, assim como costuma ocorrer em cada ruptura na família comunista, quando Fabio Mussi, o líder de uma corrente que representa cerca de 15% dos militantes, aceitou confirmar “a falência política do desafio que havia nascido com o fim do PCI”.

Alguns dias antes do congresso de Florença, Gavino Angius, um dos “históricos” do movimento pós-comunista (vice-presidente do Senado, ele foi chefe de grupo dos DS), comparava “a experiência fracassada” dos DS com uma missão espacial: “Nós havíamos partido para realizar uma grande empreitada, mas nós fracassamos, e o nosso problema agora é de retornar vivos à base”, explicava ele em entrevista ao “Le Monde”. “Se nós não descobrirmos o ângulo certo para a entrada na atmosfera, estamos condenados a nos desintegrar. Ora, o Partido Democrata não constitui a trajetória certa, pois ele representa a dispersão das forças socialistas”.

Após alguns dias de reflexão, este sardônio que reivindica a herança de Berlinguer também decidiu ejetar-se no “grande vazio da esquerda”. Será que ele se juntará ao outro dissidente, Fabio Mussi, que anuncia para o mês de maio a criação de uma nova força de esquerda? Em 1991, a minoria do PCI havia feito secessão para criar o Partido da Refundação Comunista (PRC), conhecido como “Rifondazione”.

Com o Partido dos Comunistas Italianos (PDCI), nascido de uma cisão ulterior, o voto comunista ainda conseguiu pesar mais de 10% nas legislativas de 2006. O Rifondazione já propôs um “agrupamento dos membros da família” que teria como base o antiliberalismo, o pacifismo e o laicismo.

No centro de Roma, sobre a fachada da seção histórica dos Democratas de esquerda, cujo endereço é via dei Giubbonari, há duas placas. Estão se preparando para trocar a dos DS para pôr no lugar aquela do PD. Mas a outra, a que indica “PCI, seção Regola Campitella”, com a foice e o martelo gravados na pedra, ninguém sequer cogita arrancá-la do muro. “Está fora de questão, ai de quem se atrever a fazer uma tentativa”, advertem os dirigentes locais. “É uma recordação”.

Tradução: Jean-Yves de Neufville.

Jornal Le Monde

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