A derradeira transformação dos comunistas italianos

De cisão em cisão, o PCI acabou se transformando nos Democratas de esquerda, um partido que tem a cor laranja e afinidades com a democracia cristã

Jean-Jacques Bozonnet
Correspondente em Roma

O martelo e a foice há muito acumulavam poeira na loja de acessórios do antigo Partido Comunista Italiano (PCI). Por ocasião do congresso dos Democratas de esquerda (DS), de 19 a 21 de abril em Florença, os herdeiros de Antonio Gramsci (membro fundador) e de Enrico Berlinguer (secretário-geral de 1972 a 1984) também guardaram a bandeira vermelha e o seu hino, “A Internacional” na prateleira das recordações. A decoração do palácio dos esportes onde se reuniram 1.500 delegados do DS tendia mais para o laranja, a cor das revoluções atuais. Uma canção popular italiana, escolhida por supostamente abrir novos horizontes, “O Céu É Sempre Mais Azul”, foi tocada para marcar a conclusão do encontro.

Não sobrou sinal algum, nem nos símbolos nem nas palavras, do passado comunista no momento da derradeira muda. Ao votarem na sua dissolução e na sua fusão com os centristas de esquerda de A Margarida, um movimento de inspiração democrata cristã, com o objetivo de fundar uma agremiação reformista moderada, os Democratas de esquerda, segundo a opinião unânime da imprensa italiana, “ratificaram o encerramento definitivo da experiência histórica que havia sido iniciada em 1921 em Livorno”. Foi nesta cidade que nascera o PCI, a partir de uma cisão do Partido Socialista Italiano (PSI).

Dirigido por Amadeo Bordiga, e depois por Antonio Gramsci, o novo partido é proibido em 1926 pelo regime fascista. Ele renascerá em 15 de maio de 1943, e Palmiro Togliatti, o seu chefe clandestino desde 1927, permanecerá à sua frente até a sua morte, em 21 de agosto de 1964. A partir de 1956, com os eventos que ocorrem na Hungria, o PCI abre “uma via italiana rumo ao socialismo”. A tendência a tomar suas distâncias em relação ao grande irmão soviético se concretizará com Enrico Berlinguer. Eleito secretário em 1972, este elegante gentleman oriundo da Sardenha adota a linha “eurocomunista”, que conduzirá à ruptura com Moscou em 1981.

Esta época será caracterizada pelo apogeu da influência do PCI: nas eleições legislativas de 1976, ele conquista 34,4% dos votos. A maior parte dos dirigentes de esquerda, e mesmo de direita, assim como um grande número de intelectuais desta geração, foram simpatizantes desta cultura, ou até mesmo membros do partido. A Itália era compartilhada - e nem tanto dividida - por este peso pesado com o seu pendente no centro-direita, a Democracia Cristã (DC).

Para um bom número de observadores, os pós-comunistas de 2007 e os herdeiros da DC estão no processo de realizar, de uma maneira mais discreta, o famoso “compromisso histórico” entre as duas culturas políticas do país, uma aliança com a qual haviam sonhado Enrico Berlinguer e Aldo Moro (DC), e pela qual este último pagou com a sua vida em 1978, assassinado pelas Brigadas Vermelhas.

“Aquilo foi uma tragédia; agora nós estamos envolvidos numa farsa que tem tudo para ser bem pior de que uma tragédia”, escreveu depois do congresso de dissolução dos DS “Il Manifesto”, um jornal de esquerda que segue acrescentando ao seu título a menção “Diário comunista”. O seu fundador, Valentino Parlato, que fora excluído do PCI em 1969 por ter criticado a URSS, e principalmente a invasão da Tchecoslováquia em 1967, estima que “é a última das retiradas que foram iniciadas por aquela de Achille Occhetto”. Então o secretário do partido, este último havia anunciado, em 12 de novembro de 1989 perante a seção de Bolonha, alguns dias depois da queda do Muro de Berlim, o começo do fim do PCI, que em breve seria dissolvido e transformado em 1991 no Partido dos Democratas de esquerda (PDS). O carvalho é o seu símbolo, mas, num dos cantos do seu logotipo, a bandeira vermelha marcada com a estrela, a foice e o martelo, ainda resiste.

Apesar do sucesso da esquerda nas legislativas de 1996, o PDS de Massimo D’Alema, principal partido da coalizão da Oliveira (21,1% dos votos), não sobrevive à crise do governo Prodi. Os DS nascem em novembro de 1998 sob a liderança de Walter Veltroni. Atualmente o prefeito de Roma, este último é favorito para assumir a direção do futuro Partido Democrata. Mas, em 2007, as “relíquias” comunistas cedem o lugar, debaixo do carvalho, para o cravo socialista e as estrelas da União Européia. “Essas retiradas sucessivas nada tiveram de estratégico”, insiste Valentino Parlato num editorial publicado na primeira-página do seu jornal. “Aquela de Florença é uma retirada política e cultural sem princípio e sem saída, exceto a de deixar o caminho livre para uma não improvável onda de direita”.

Convidado a participar do congresso dos DS, Silvio Berlusconi aplaudiu o discurso do secretário, Piero Fassino: “Se o Partido Democrata for mesmo isso, eu estou disposto, numa proporção de 95%, a me inscrever nele também”, exclamou “Il Cavaliere”. “O que eu ouvi aqui foi uma série de posicionamentos social-democratas que, em alguns pontos, são decididamente liberais; eu estou de acordo com a política social da qual falou o secretário dos DS”. Este último se referiu à “necessidade histórica” de uma evolução “para aqueles dos nossos filhos que só conheceram o pagamento do seu salário em euros e que talvez nem tivessem nascido por ocasião da queda do Muro”.

Esta guinada para o centro foi recusada pela ala esquerda dos DS. Houve choros, abraços e beijos, assim como costuma ocorrer em cada ruptura na família comunista, quando Fabio Mussi, o líder de uma corrente que representa cerca de 15% dos militantes, aceitou confirmar “a falência política do desafio que havia nascido com o fim do PCI”.

Alguns dias antes do congresso de Florença, Gavino Angius, um dos “históricos” do movimento pós-comunista (vice-presidente do Senado, ele foi chefe de grupo dos DS), comparava “a experiência fracassada” dos DS com uma missão espacial: “Nós havíamos partido para realizar uma grande empreitada, mas nós fracassamos, e o nosso problema agora é de retornar vivos à base”, explicava ele em entrevista ao “Le Monde”. “Se nós não descobrirmos o ângulo certo para a entrada na atmosfera, estamos condenados a nos desintegrar. Ora, o Partido Democrata não constitui a trajetória certa, pois ele representa a dispersão das forças socialistas”.

Após alguns dias de reflexão, este sardônio que reivindica a herança de Berlinguer também decidiu ejetar-se no “grande vazio da esquerda”. Será que ele se juntará ao outro dissidente, Fabio Mussi, que anuncia para o mês de maio a criação de uma nova força de esquerda? Em 1991, a minoria do PCI havia feito secessão para criar o Partido da Refundação Comunista (PRC), conhecido como “Rifondazione”.

Com o Partido dos Comunistas Italianos (PDCI), nascido de uma cisão ulterior, o voto comunista ainda conseguiu pesar mais de 10% nas legislativas de 2006. O Rifondazione já propôs um “agrupamento dos membros da família” que teria como base o antiliberalismo, o pacifismo e o laicismo.

No centro de Roma, sobre a fachada da seção histórica dos Democratas de esquerda, cujo endereço é via dei Giubbonari, há duas placas. Estão se preparando para trocar a dos DS para pôr no lugar aquela do PD. Mas a outra, a que indica “PCI, seção Regola Campitella”, com a foice e o martelo gravados na pedra, ninguém sequer cogita arrancá-la do muro. “Está fora de questão, ai de quem se atrever a fazer uma tentativa”, advertem os dirigentes locais. “É uma recordação”.

Tradução: Jean-Yves de Neufville.

Jornal Le Monde

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