Arquivo de 10 de Abril de 2008

Toda Luta (II)

Importante vitória na UnB

O reitor pediu afastamento por 60 dias. Quem assume agora é o vice-reitor, que aliás, também está envolvido em corrupção.
O movimento já declarou que a ocupação continua, a próxima assembléia marcada para segunda deve avaliar a continuidade, de qualquer forma, trata-se de uma vitória importante do movimento, até pela expressiva mobilização que já aconteceu.

Veja matéria sobre afastamento publicada no Portal Terra

Reitor da UnB decide se afastar por 60 dias
Elaine Lina
Direto de Brasília

O reitor da Universidade de Brasília (UnB), Timothy Mulholland, decidiu hoje se afastar da instituição por 60 dias. No seu lugar, assumirá o vice-reitor, Edgar Mamya. De acordo com a nota, foi uma decisão de cunho pessoal.

Em nota lida para a assembléia da Associação dos Docentes da UnB, ele afirma que “tomo a iniciativa com o objetivo de assegurar os princípios constitucionais da eficiência, publicidade, moralidade, impessoalidade, legalidade e transparência nas apurações dos fatos”.

Mulholand é acusado de ter usado recursos da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec), superiores aos de mercado, para fazer a reforma do apartamento funcional que ocupava. Há uma semana, os estudantes da instituição ocuparam a reitoria reivindicando a saída dele.

De acordo como Movimento Autônomo de Ocupação da UnB, os alunos permanecerão na reitoria. Eles convocaram uma nova assembléia para segunda-feira para debater o assunto. O grupo quer uma nova eleição para reitor. “Não é suficiente o afastamento, e o vice também está envolvimento em supostos desvios de verbas”, disse Luiza Oliveira, coordenadora-geral do DCE.

O reitor foi intimado a prestar depoimento no Ministério Público do Distrito Federal e Territórios na próxima quarta-feira, para esclarecer possíveis irregularidades em contratos firmados pela universidade com a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico na Área de Saúde (Funsaúde).

Redação Terra

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Toda Luta (I)

Por Graça Lisboa

Estudantes da UnB decidem manter ocupação e paralisar aulas

Os estudantes que ocuparam a reitoria da UnB (Universidade de Brasília) decidiram ontem, em assembléia, manter a ocupação e paralisar as aulas. Hoje a tomada do prédio completa uma semana.

O movimento mantém firme a principal reivindicação, a de só deixarem o prédio após a renúncia do reitor, Timothy Mulholland. Na avaliação dos entudantes, a assembléia reuniu 1.600 alunos.

Os alunos também decidiram interromper negociações com a reitoria até que a água e a luz sejam religadas –foram cortadas na segunda.

Ja o reitor, Timonth Mulholland, foi intimado, na noite de anteontem, a depor no Ministério Público do Distrito Federal, na próxima quarta, para explicar as relações entre as fundações de apoio e a UnB.

Ele foi acusado em ação de improbidade administrativa de usar de forma “ilegal” recursos que deveriam ser destinados a pesquisa na decoração de apartamento funcional.
Duas assembléias, uma de professores e outra de servidores, estão previstas para hoje.

Na terça, o movimento viveu até aqui seu momento mais tenso, quando houve o confronto com os seguranças da UnB e os estudantes conseguiram ampliar a ocupação para todas as áreas do prédio da reitoria.

Pouco se fala, mas a reitoria da UFMG também está ocupada por estudantes

O principal motivo da ocupação é o protesto dos estudantes à forma truculenta como a PM agiu no campus da universidade na última quinta, quando uma sessão de cinema foi barrada a cacetadas pela PM. Aproximadamente cinqüenta policiais, em várias viaturas e até num helicóptero, cercaram o Instituto de Geociências da UFMG, impedindo a entrada e saída de trabalhadores e estudantes do prédio. A PM foi convocada e autorizada a agir pelo reitor Ronaldo Tadêu Pena e pela vice-reitora, Heloisa Starling.

A ocupação começou na tarde da última segunda feira, com cerca de 400 estudantes.

Veja abaixo as principais reivindicações do Movimento de Ocupação da UnB

Em janeiro deste ano, surgiram diversas denúncias de corrupção envolvendo a atual gestão da reitoria da UnB, envolvendo desvio de verbas por meio da FINATEC para uso privado do Reitor. O Ministério Publico abriu inquerito e nas investigações descobriu mais irregularidades envolvendo a FUB e a FUNSAUDE. O grupo que está a frente da reitoria desde 1998 já esteve envolvido também em outros escândalos como o do Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (CESPE), o da Casa do Estudante (CEU) e o da própria eleição da atual gestão. Vale lembrar que desde 1996 após o decreto do Governo FHC, a UnB não tem eleições paritárias para reitor.

Reivindicações da Ocupação da Reitoria da Universidade de Brasília (UnB)

1.Saída imediata do reitor e vice

2.Dissolução do conselho diretor

3.Convocação imediata de eleição direta e paritária ou universal para reitor

4.Convocação de um congresso estatuinte paritário.

5.Abertura das contas de todas as fundações da UnB.

6.Que os bens adquiridos para o apartamento funcional do reitor sejam leiloados e os recursos investidos na Casa do Estudante.

7.Abertura imediata de concursos públicos para professores e técnico-administrativos, para suprir o déficit atual do quadro da universidade.

8.Contra o corte de bolsas-permanência feito pela reitoria! Que as bolsas permanências sejam transformadas em bolsas de pesquisa e extensão e que subam para o valor do salário mínimo.

9.Que todos os estágios oferecidos pela FUB sejam exclusivos para alunos da UnB, salvo os de pesquisa.

10.Pela construção imediata de um RU no campus de Planaltina.

11.Garantia da reforma da Casa do Estudante, respeitando condições dignas de moradia durante a reforma.

12.Pela ampliação dos horários de circulação do transporte interno gratuito da UnB, e que este faça o trajeto até a rodoviária e pelo passe-livre.

13.Criação de linha de ônibus que integre os campus da UnB.

14.Pela construção imediata de novos prédios nos campus Ceilândia, Gama e prioritariamente, Planaltina.

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SP vive cada vez mais nas alturas

Nos últimos 4 anos, foram construídos na cidade 257 prédios com mais de 21 andares, comerciais e residenciais

Sérgio Duran

A cidade de São Paulo está cada vez mais alta. Levantamento da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp) mostra que, entre 1995 e 1998, foram lançados 92 edifícios com mais de 21 andares. Já nos últimos quatro anos, surgiram 257 arranha-céus do mesmo porte - em média, 1 a cada 6 dias.

No ranking do site Sky Scraper, um dos maiores bancos de dados do mundo sobre prédios, entre os 50 edifícios mais altos da cidade de São Paulo, 18 surgiram nesta década. O maior, o Mirante do Vale, no Anhangabaú, região central, com 51 andares de escritórios distribuídos em 170 metros de altura, foi inaugurado em 1960.

E a tendência de crescer não está restrita aos condomínios comerciais, apesar de esses ainda liderarem o ranking. No mercado residencial, a ordem é morar nas alturas, em genuínas mansões com vistas espetaculares. Na Rua Inhambu, quase na frente do Parque do Ibirapuera, na zona sul, o lançamento The Place, por exemplo, oferece 38 andares, com apartamentos de 500 metros quadrados de área útil.

Na Marginal do Pinheiros, também na zona sul, o recém-entregue Mandarim tem dimensões variadas de planta distribuídas em 42 andares. Um lançamento com prédios de 28 andares próximo ao Golf Clube, em Santo Amaro, promete vista para a Represa de Guarapiranga, que fica a alguns quilômetros de distância. Prestes a ser entregue, o Cyragan, a poucas quadras da Avenida Paulista, oferece 36 pavimentos.

Especialistas apontam vários motivos para o aumento no número de arranha-céus, incluindo a expansão do mercado imobiliário de São Paulo nesta década e a aprovação do Plano Diretor, em 2002. O plano, aliás, provocou uma corrida de construtoras para aprovar projetos pela legislação antiga, menos rigorosa. A lei atual diminuiu a proporção entre tamanho do terreno e área da construção (coeficiente de aproveitamento, no jargão técnico), justamente para coibir a verticalização excessiva. Essa iniciativa obrigou as construtoras a procurarem terrenos maiores.

O coeficiente de aproveitamento é um índice municipal. Quando um lote de 1.000 m² tem coeficiente 1, isso significa que a edificação deverá ter no máximo 1.000 m² de área construída. Depois do Plano Diretor, a capital passou a ter um coeficiente básico e outro, chamado máximo, que pode ser atingido apenas quando a construtora paga taxas à Prefeitura (a chamada outorga onerosa). A legislação, porém, só limita altura nas rotas de aviões.

Jornal Estado de S. Paulo

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“É preciso retomar o conceito de classes nas lutas sociais”, afirma economista

Durante o Encontro terra e Cidadania, realizado em Curitiba, o professor Claus Germer afirma que sem a socialização dos meios de produção, há apenas ilusões no sistema capitalista;

17/05/2007

Pedro Carrano,
de Curitiba (Paraná)

Contrapondo-se à idéia mais presente no imaginário social atual, de que a divisão da sociedade em classes foi superada e que, portanto, não há mais lugar na atualidade para a luta pelo socialismo, o professor de economia, Claus Germer (UFPR), afirma que sem a socialização dos meios de produção, há apenas ilusões dentro do sistema capitalista. A idéia foi defendida durante o debate realizado no Encontro Terra e Cidadania, que acontece até sexta-feira, 18, em Curitiba (PR), do qual também fez parte o economista Márcio Pochmann (Unicamp).

Para Germer, uma análise que não passe pela luta de classes encobre a atual situação dos trabalhadores assalariados. O economista critica os intelectuais, até mesmo os de esquerda, que abandonaram a premissa básica desenvolvida por Max e Engels de que a sociedade é dividida em classes sociais antagônicas.

Em 2000, cerca de 2,9% da população brasileira era composta por empregadores, ao passo que a ampla maioria, 44 milhões de pessoas, formam uma massa de assalariados que responde por 67% da população, explicou o economista, mostrando dados do Censo 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estáticas (IBGE).

Segundo Germer, a ideologia capitalista da classe dominante conseguiu penetrar de tal forma que, em alguns casos, acaba contaminando a luta dos trabalhadores. “As referências à divisão da sociedade em classes estão sendo encobertas”, diz. “Hoje o que temos são lutas específicas, as lutas indígenas, quilombolas, das mulheres, dos negros. É típico do neoliberalismo pulverizar as lutas. Todas são lutas legítimas, mas elas precisam estar amarradas numa luta mais ampla, que é por um outro modelo de sociedade.”

No campo a situação não é diferente. Para Germer os movimentos de trabalhadores rurais precisam ficar atentos ao levantarem algumas bandeiras, que podem ser características da pequena burguesia. “Os trabalhadores não podem assumir a bandeira dos “pequenos agricultores” [que detém os meios de produção]. Os movimentos precisam defender os assalariados e semi-assalariados rurais, àqueles que acabam vendendo a mão de obra para as fazendas mais próximas. Essa é a base dos movimentos de trabalhadores do campo, como o MST”.

Nessa mesma linha, Germer é enfático ao afirmar que não há reforma agrária possível nos marcos da burguesia, como aconteceu em alguns países da Europa e nos Estados Unidos. “Nos marcos do capitalismo não é mais necessária a reforma agrária, porque o capitalismo não precisa mais dela para sobreviver”, afirma. Para Germer a reforma agrária no Brasil passa necessariamente pela socialização dos meios de produção.

Modelo atual é excludente

Diferente na análise, mas como a mesma avaliação do atual sistema, o economista Márcio Pochmann (Unicamp) afirmou que não é possível aos países ditos subdesenvolvidos alcançar o patamar de vida dos países desenvolvidos. E não se trata de um problema conjuntural, e sim estrutural, uma vez que, o próprio sistema capitalista, em vigor hoje, sobrevive da exclusão.

Nos EUA, segundo Pochmann, para cada três pessoas, duas possuem automóveis. No Brasil, por outro lado, existem 40 milhões de automóveis em circulação. Caso o Brasil alcançasse o modelo estadunidense, esse número subiria para 120 milhões de carros nas ruas o que resulta em um “padrão de consumo ambientalmente insustentável”.

Pochman afirmou que é preciso fazer a economia do Brasil crescer para gerar empregos, sobretudo para os jovens, atualmente os mais afetados pelas altas taxas de desemprego. No entanto, em citação ao economista Celso Furtado, também criticou esse modelo de desenvolvimento que busca reproduzir o modelo dos países hegemônicos e que por isso, acaba gerando mais concentração de renda. O Encontro Terra e Cidadania está sendo promovido pelo Instituto de Terras, Cartografia e Geociências (ITGC).

Jornal Brasil de Fato

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Mundos do Trabalho

“A classe operária é a única que tem tudo a ganhar, em qualquer circunstância, com o conhecimento da verdade. Ela nada tem a esconder, pelo menos na história. As mentiras sobre o social servem sempre, servem ainda, para enganar. A classe operária as refuta para vencer e vence ao refutá-las. No entanto, já ocorreu de alguns historiadores proletários adaptarem a história a preocupações de atualidade política. Desse modo, submeteram-se a tradições que nunca foram as suas e sacrificaram, por interesses parciais e passageiros, interesses superiores e permanentes de sua classe”.

Victor Serge[1]

“Mas o uso da força de trabalho é a própria atividade vital do trabalhador, a manifestação de sua própria vida. E ele vende essa atividade a outra pessoa para conseguir os meios de subsistência necessários. Assim, sua atividade é para ele apenas um meio que lhe permite existir. Ele trabalha para viver. Nem mesmo considera o trabalho como parte de sua vida, é antes o sacrifício de sua vida. É uma mercadoria, que ele transferiu a outro. Daí, também, não ser o produto de sua atividade o objeto dessa atividade. O que ele produz para si mesmo não é a seda que tece nem o ouro que arranca do fundo da mina, nem o palácio que constrói. O que ela produz para si são os salários e a seda, o ouro, o palácio se resolvem, para ele, numa quantidade definida de meios de subsistência, talvez um paletó de algodão, algumas moedas de cobre e um quarto num porão. E o trabalhador, que durante 12 horas tece, fura, dribla, constrói, quebra pedars, carrega pesos, etc., considera essas 12 horas como uma manifestação de sua vida, como vida? Ao contrário, a vida começa quando cessa essa atividade; começa na mesa, no bar, na cama. As 12 horas de trabalho, por outro lado, não têm significado para ele como tecelagem, mineração etc., mas como ganho que o leva à mesa, ao bar, à cama. Se o bicho-da-seda tivesse que tecer para continuar sua existência como lagarta, seria um trabalhador assalariado completo”.

Marx, Trabalho Assalariado e Capital.

“Toda criança sabe que uma nação que parasse de trabalhar, não por um ano, mas por algumas semanas, pereceria. Toda criança sabe, também, que as massas de produtos correspondentes às diferentes necessidades requerem massas diferentes e quantitativamente determinadas do trabalho total da sociedade. Que essa necessidade de distribuição do trabalho social em proporções definidas não pode ser abolida, podendo apenas modificar-se a forma pela qual se manifesta, é evidente por si mesmo. Nenhuma lei natural pode ser abolida. O que pode mudar, em circunstâncias historicamente diferentes, é apenas a forma sob a qual estas leis operam. E a forma sob a qual estas leis operam. E a forma sob a qual esta distribuição proporcional do trabalho se manifesta, num estado de sociedade em que a inter-relação do trabalho social se manifesta na troca privada de produtos individuais de trabalho, é precisamente o valor de troca desses produtos”.

Marx, Carta a Kugelmann, 11.06.1868.

“O reino de liberdade só começa, realmente quando cessa o trabalho que é determinado pela necessidade e pelas considerações mundanas. Assim, pela natureza mesma das coisas, ele está além da esfera da produção material real. Tal como o selvagem tem de lutar com a natureza para satisfazer suas necessidade, para manter e reproduzir a vida, também o homem civilizado precisa travar essa luta, em todas as formações sociais e em todos os modos possíveis de produção. Com o desenvolvimento da produção, essa esfera da necessidade física se expande, em conseqüência de suas necessidades; mas, ao mesmo tempo, as forças produtivas que satisfazem essas necessidades também aumentam. A liberdade nesse campo, só pode consistir no homem socializado, nos produtos associados, regulando-a sob seu controle comum, em lugar de serem dominados por ela e pelas forças cegas da natureza; e realizando isso com o mínimo dispêndio de energia possível e nas condições mais favoráveis à sua natureza humana, e dignas dela. Não obstante, ela continua pertencendo à esfera da necessidade. Além dela começa aquela evolução da energia humana que é um fim em si mesmo, o verdadeiro reino da liberdade; reino que, porém, só pode florescer com essa esfera da necessidade como sua base. A redução da jornada de trabalho é seu pré-requisito básico.

Marx, O Capital. Primeiro Manuscrito: Salário do Trabalho.

O SISTEMA FABRIL[2]

Diante de circunstâncias favoráveis, como o interesse cada vez maior no aumento da produção e as limitações impostas pela manufatura e essa expansão, a especialização das ferramentas (decorrente do parcelamento das tarefas executadas pelo trabalhador) criou condições para o surgimento da máquina, uma combinação de ferramentas simples, que, por sua vez, favoreceu a ocorrência do que veio a ser denominado revolução industrial, no século XVIII na Inglaterra.

A ferramenta foi retirada das mãos do trabalhador e passou a fazer parte da máquina, rompendo-se a unidade entre trabalhador parcelar e sua ferramenta, existente na manufatura.

A máquina, na medida em que permite a substituição da força motriz humana por novas fontes de energia no processo de produção (inicialmente o vapor, posteriormente o gás e a eletricidade), libera o processo produtivo dos limites do organismo humano, o que possibilita um grande aumento da produção.

Com a introdução da máquina, elimina-se a necessidade, seja de trabalhadores adultos e resistentes, seja de operários especializados e hábeis, uma vez que o operário nada mais tem a fazer senão vigiar e corrigir o trabalho da máquina. Há, assim, uma maior desqualificação do trabalho do operário, que não mais precisa passar por uma longa aprendizagem para exercer sua função: como conseqüência, torna-se possível a utilização a utilização de mão-de-obra não qualificada (principalmente mulheres e crianças).

Na produção mecanizada (sistema fabril), o trabalhador perde o controle do processo de trabalho. É ele quem se adapta ao processo de produção (e não mais o contrário, como acontecia na manufatura). A máquina determina o ritmo do trabalho e é responsável pela qualidade do produto. Também a quantidade de produtos e o tempo de trabalho necessário à elaboração de um produto deixam de ser determinados pelo trabalhador.

A produção mecanizada elimina o artesanato, o sistema doméstico e a manufatura, onde quer que apareça (ANDERY, Maria Amália. “O sistema fabril”. In: Para compreender a ciência. São Paulo: EDUC, 2000, pp. 173 e 174).

[1] Victor Serge (1890-1947) – Escritor russo participou dos processos revolucionários que foram desencadeados a partir de 1917. Escreveu as obras O Ano I da Revolução Russa, Memórias de um revolucionário, Trotsky: Vida e Morte entre outras.
[2] Fragmento de texto extraído de ANDERY, Maria Amália. “O sistema fabril”. In: Para compreender a ciência. São Paulo: EDUC, 2000, pp. 173 e 174. Objetivo: trazer indicativos das transformações no interior da produção no decorrer da Revolução Industrial.

Site Verinotio

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Das catacumbas para as massas

Sem o imperador Constantino, que adotou e financiou o cristianismo no século 4ø, religião não teria passado de “seita de vanguarda”, diz Paul Veyne

MARCOS STRECKER
DA REDAÇÃO

Para o historiador Paul Veyne, o “inventor” do cristianismo viveu 300 anos depois de Cristo.
Um dos principais especialistas em Roma Antiga, ele defende em seu novo livro (”Quand Notre Monde Est Devenu Chrétien”, Quando Nosso Mundo Se Tornou Cristão, 322 págs., 18 euros, R$ 50) que o imperador romano Constantino é o verdadeiro responsável pela cristianização do mundo, no século 4°.
Sem ele, o cristianismo “não poderia ser nada além de uma seita de vanguarda”.
Esse papel do imperador romano, que teria marcado o destino da Europa quase como um capricho pessoal, amplia as já polêmicas discussões sobre o estabelecimento do cristianismo como religião dominante no mundo europeu.
Veyne, 76, que é professor emérito do Collège de France, defende que o cristianismo se estabeleceu apenas por razões históricas e que não é possível falar na existência de “raízes cristãs” européias. “O cristianismo só se impôs quando incorporou um pouco do paganismo”, disse em entrevista exclusiva à Folha.
O autor usa analogias polêmicas com o mundo contemporâneo, ao comparar a ambição histórica de Constantino com as de Lênin e Trótski.
No conturbado mundo pós-11 de Setembro, o historiador relativiza o papel dos EUA: “[George W.] Bush é um bufão momentâneo, e a era Bush é apenas um incidente momentâneo, um episódio como o macarthismo”.

FOLHA - Em seu último livro, o sr. defende a importância de Constantino como o real introdutor do cristianismo. O desenvolvimento da religião era inevitável ou Constantino teve papel fundamental? Ele é o “inventor” do cristianismo?
PAUL VEYNE - Sim, Constantino é o inventor ou, acima de tudo, o “estopim” desse processo. Ele colocou em movimento essa organização, essa formidável máquina de enquadramento, esse “partido único” hierarquizado que é a igreja.
Nunca devemos esquecer que o cristianismo é a única religião do mundo que é, ao mesmo tempo, uma igreja e uma organização. Não havia papas nem bispos no paganismo.
Constantino se converteu por fé sincera mas também porque o cristianismo era espiritualmente e filosoficamente bem superior ao conto de fadas ingênuo que era o paganismo. O cristianismo, pela sua superioridade, era aos seus olhos a única religião digna do trono assim como o fato de qoe o imperador devia habitar o palácio mais belo.
Constantino, homem de fé sincero, viu sobretudo um papel imenso a desempenhar na história universal.
Ele faria a felicidade eterna da humanidade ao favorecer a verdadeira religião, enviar seus povos ao paraíso.
Ele teria um papel gigantesco na história da humanidade. Um pouco como Lênin ou Trótski, que em 1917 disseram que fariam a felicidade material da humanidade estabelecendo o comunismo, o “paraíso soviético”.
Mas o papel de Constantino nunca foi o de converter pela força os pagãos, que compunham 90% da população do império. Isso seria irrealizável. Ele não forçou ninguém; não há mártires pagãos.
Fez apenas duas coisas. Primeiro, decidiu que o cristianismo era a religião “pessoal” do imperador, “sua” religião pessoal. O império e suas instituições continuavam pagãos, ainda que os ambiciosos tenham se convertido para agradar o imperador.
Segundo, ele favoreceu, sustentou e financiou a igreja.
Então essa organização formidável, essa máquina que era a igreja, se pôs em marcha e se impôs como novo hábito, como novo conformismo.
O bispo se tornou o grande personagem em todos os lugares, a grande autoridade moral. Isso impressionava as pessoas comuns. Outro exemplo: enquanto um proprietário de terras rico se convertia por ambição, todos os camponeses e subordinados se convertiam também, por docilidade em relação ao mestre.
Constantino teve um papel fundamental, desencadeando e sustentando essa formidável organização que é a igreja.

FOLHA - A Europa tem “raízes cristãs” ou o cristianismo se desenvolveu no continente por razões históricas?
VEYNE - O cristianismo se desenvolveu apenas por razões históricas, porque Constantino colocou a igreja no poder.
Sem sua ajuda, o cristianismo não poderia ter se imposto, não poderia ter se enraizado.
Era uma religião muito erudita e exigente, que não poderia ser nada além de uma seita de vanguarda, só para os particularmente crentes.
De fato, o paganismo não era exigente, não obrigava as pessoas a respeitarem a moral, a ir à missa, a acreditar em dogmas. O paganismo não exigia nada e prometia bastante: boas colheitas, cura de doenças, viagens sem naufrágios.
Enquanto o cristianismo primitivo não prometia nada (as pessoas se limitavam a obedecer a Deus) e exigia muito de seus fiéis. Era pesado demais.
O cristianismo pôde se tornar a religião corrente de toda a população romana apenas quando deixou de ser muito exigente, quando tolerou que existissem pecadores e, sobretudo, quando passou a prometer a felicidade, como prometia o paganismo.
Foi a partir do ano 400 que os cristãos passaram a pedir a Deus (e aos santos) a cura, viagens a salvo etc.
E que eles passaram a oferecer ex-votos, como ofereciam os pagãos. E as pessoas passaram a pedir a Deus e aos santos boas colheitas, como faziam os pagãos.

O cristianismo só se impôs quando incorporou um pouco do paganismo.
FOLHA - O Brasil é o maior país católico do mundo, em número absoluto de fiéis. A partir do seu estudo, o que é possível inferir em relação ao desenvolvimento do cristianismo no Novo Mundo?
VEYNE - Suponho que as coisas tenham se passado da mesma maneira como ocorreram no Império Romano.
Os conquistadores espanhóis e portugueses e seus reis ajudaram na construção da igreja, cuja autoridade teve papel importante para as populações.
A igreja se impôs, por sua autoridade e seu orgulho, como o novo conformismo, como a grande coisa a ser respeitada.

FOLHA - Religiões são ideologias?
VEYNE - Podem servir de ideologia ou pode não ser utilizada para isso. Uma religião pode servir para tudo: de pretexto para festas, para solenização dos grandes momentos da vida (batismo, enterro, casamento), hábitos étnicos (proibições alimentares), prever o futuro ou curar doenças.
A religião serve para determinações morais, para explicar fenômenos naturais, para as utopias sociais ou políticas, para legitimar um poder político e uma sociedade.
Também pode servir como ideologia de classe, para expressão de uma identidade nacional etc. E para o erotismo, quase me esqueci de mencionar! Ela pode servir de ideologia étnica…
O cristianismo tornou-se uma ideologia e uma bandeira para uma comunidade apenas por volta do ano 500, quando quase todos os habitantes do império se tornaram cristãos. O cristianismo passou a servir então de símbolo de identidade.

FOLHA - O mundo greco-romano representou a primeira “globalização”? Qual é a relação que pode ser estabelecida com o presente?
VEYNE - Houve uma primeira globalização na Antigüidade, mas foi anterior ao Império Romano e ao cristianismo. Foi na época de Alexandre, o Grande, a partir dos anos 300 a.C.
A civilização grega dominava a cultura “mundial”, do atual Afeganistão (onde os budas são esculpidos como bacos) ao atual Marrocos.
A língua grega ocupava o lugar que o inglês ocupa hoje. Os próprios romanos possuíam uma cultura grega, assim como o Japão atual é ocidentalizado…

FOLHA - Após o 11 de Setembro, com a política antiterror do governo George W. Bush, o sr. considera que houve um retorno à idéia de que é necessário cristianizar o mundo para salvá-lo?
VEYNE - Francamente não! A era Bush é só um incidente momentâneo, em via de se extinguir.
É um episódio, como o macarthismo. É uma circunstância menor, não tem a dimensão de um evento histórico. Bush é um bufão momentâneo, um anão ridículo e sanguinário. Não é do tipo que muda o destino do mundo.

Jornal Folha de S. Paulo

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Construindo significados para o centro degradado das metrópoles

De que maneira a cultura pode ser utilizada para ressignificar territórios? Como utilizar práticas culturais para o desenvolvimento humano e social de regiões degradadas como o centro de São Paulo?

Georgia Nicolau

O centro de uma cidade é, ou deveria ser, o lugar da democracia por excelência, local da prática da convivência com a diferença. Ocorre que vivemos em uma era na qual, cada vez mais, os indivíduos - ou aqueles que “podem”- confinam-se em bairros, condomínios e territórios onde apenas os seus semelhantes têm lugar. Qualquer tipo de diferença, marginalidade que seja, é prontamente eliminada por meio da distância “segura” promovida por seguranças particulares, câmeras de vigilância, ou até mesmo atos violentos.

De que maneira a cultura pode ser utilizada para modificar os territórios, resignificando-os? Como utilizar práticas culturais para o desenvolvimento humano e social de uma região como o centro de São Paulo? Na sexta-feira, 30, uma fria e caótica véspera de feriado, cerca de 30 pessoas estiveram no debate “Políticas de Cultura e Desenvolvimento Humano no centro de São Paulo”, promovido pelo Instituto Pólis para pensar essa e outras questões.

Participaram da conversa o urbanista do Instituto Pólis, Kazuo Nakano; Beatriz Kara José, também urbanista e autora do livro Políticas Culturais e Negócios Urbanos – A Instrumentalização da Cultura na Revitalização do Centro de São Paulo; Rodolfo Garcia Vázquez diretor teatral do Grupo Satyros; e Sebastião Nicomedes, ator, dramaturgo e integrante do Movimento Nacional da População em Situação de Rua. O mediador foi Altair Moreira , integrante do Fórum Intermunicipal de Cultura (FIC).

A discussão na calçada
O ex-morador de rua Sebastião Nicomedes, o Tião, expôs como, através do estímulo do imaginário, ele e seus colegas conseguiram criar um canal de comunicação com outros moradores de rua, para discutir questões pessoais e coletivas.“Nós fazíamos nossos seminários [fóruns de população de rua] com mais adesão porque descobrimos os capoeiristas que têm no meio da população, músicos, gente que declama poesias. Com isso, criou-se a possibilidade de discutirmos coisas sérias de uma forma mais agradável, não tão agressiva, não tão deprimente como costumava ser.” A maneira de atrair as pessoas, diz Tião, era ir “com uma carroça equipada de som aos moradores de rua. Eu levava os bonecos e conseguíamos, com aquelas pessoas, senão discutir políticas, direitos, que a maioria nem tava mais sabendo o que era isso, mas levamos alegria, contar as histórias, lembrar quem são, de onde veio, sentir saudades, reconstruir vínculos. Com os bonecos eles conversavam, com a gente não.”

Tião denunciou ainda o crescente desaparecimento de artistas de rua do centro.“A GCM [Guarda Civil Metropolitana] conseguiu roubar o espetáculo, fazer um show melhor do que os artistas”. Tião acredita que o cerne do problema está no público das políticas culturais. “Cultura é pra quem tem, pra quem sabe, pra quem pode.” Ao priorizar espaços fechados , criam-se empecilhos para a troca e o acesso às várias dimensões das práticas culturais. “É reflexo do mundo inteiro, vale quem tem dinheiro, vale quem tem renda, vale quem gera lucro. Quem vai associar uma marca a um morador de rua?”

Status da região central
Rodolfo Garcia Vasquez falou da experiência do grupo Satyros – o qual ele dirige (leia mais). Desde o “auto-exílio” na França, na vazia década de 90, até a decisão, em 2000, de criar um teatro em uma área completamente abandonada como a praça Roosevelt, até agora, quando o grupo decidiu fazer o caminho inverso: ir do centro para a periferia. No ano passado, foi inaugurado um espaço dos Satyros no bairro Jardim Pantanal, periferia da Zona Leste – o terceiro do grupo.

Segundo Vasquez, um dos principais motivos de recomeçar em um local tão distante foi a transformação da praça Franklin Roosevelt durante 2005. “Em 2003 e 2004 vivemos a fase mais rica da praça. Eram travestis sentadas com escritores com artistas plásticos, jornalistas, traficantes. E a grande imprensa ainda não a tinha ´descoberto´.” A convivência entre os diferentes fazia toda a graça e a vida do local. “Cenas incríveis aconteciam como a de uma velhinha, sentada com um casal de lésbicas de 60 anos e uma travesti de 22 com seu namorado. Caiu nas graças da mídia, e o que era uma comunhão se transformou numa especulação imobiliária.”

A região, então, já não era mais tão maldita e novos moradores começaram a chegar. Moradores que já não achavam o teatro tão interessante, muito menos o “barulho” produzido pela sua presença. “Fomos para o Jardim Pantanal sem dinheiro, sem estrutura, só com vontade de voltar a ter contato com a vida real. Não com os valores mortos da vida tranqüila que a gente leva.”, explicou Vasquez.

A criação de uma nova atmosfera cultural como fez o Satyros, ou como faz o Tião com seu teatro de bonecos é bastante apropriada para a construção de um novo e desejado contexto social. No entanto, a urbanista Beatriz Kara José demonstrou como esse mecanismo potencializado e deturpado foi utilizado pelo Estado para revitalizar o centro a partir da década de 90. A criação e a intervenção em equipamentos culturais entrou na agenda de transformação da região central, como forma de recuperar um status que não existe há muito tempo e que não é mais a realidade . Nascem assim Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), Sala São Paulo, Museu da Língua Portuguesa, Projeto Monumenta – parceria com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) para a recuperação de patrimônio histórico, entre muitos outros.

Para Beatriz, “a política pública passa a trabalhar a favor de interesses muito específicos como a valorização imobiliária, para atrair um tipo de público que tem medo de vir pra essa região. Um público que pode inclusive resolver morar, atraindo a iniciativa privada, os empreendedores, que naturalmente vão gerar a transformação urbana do local, sem que o estado precise desembolsar”.

Como exemplo, o Projeto Monumenta, no qual uma das condições impostas pelo BID para a concessão do empréstimo é a comprovação da capacidade de valorização imobiliária da região. Só podem ser recuperados os imóveis que possam gerar renda, o que significa que a população que reside na região será obrigada a se mudar porque não terá mais condição de pagar pelo valor do aluguel.

Recriar sentidos
Ficou a cargo de Kazuo Nakano construir formulações a partir da fala de seus colegas. “Eu observei dimensões práticas da realidade sendo mostradas. E práticas criam sentidos e criam territórios.” Nakano questionou então seus companheiros, sobre quais maneiras a recriação de sentido pode resultar numa delimitação política de afirmação e resistência. “Quais possibilidades e dimensões de resistência a um processo de disputa por definir o sentido sócio-político do território do centro? Diante das forças que existem em disputa nesse território, é possível criar processos de resistências articulados com processos de criação?”

No dicionário, a palavra “resistir” possui vários significados. Entre eles está “não ceder, opor-se, recusar-se, sobreviver, durar, oferecer resistência”. Para Tião, recém-saído da rua, resistir é sobreviver, existir a despeito da experiência do desprezo e da perda total da condição humana. Já Rodolfo não gosta da palavra. Prefere outras, como impor, propor, atuar. Beatriz tem esperança de que a brecha aberta pelo fato de o capital privado não ter comprado a idéia de revalorização do centro possa ser aproveitada. Já Kazuo acredita que a resistência pode assumir um significado vivo, enquanto princípio de vida e criação de novas – e mais promissoras - formas de vida, através da viabilização de novas práticas sociais e existenciais.

Cultura e desenvolvimento social na cidade possuem uma relação possível e necessária. A cidade-modelo está para ser construída. As práticas culturais estão a ser concluídas. O sentido está para ser recriado. As práticas culturais no centro podem ser utilizadas como formas de resistência ao processo de desumanização e higienização.

Carta Maior

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Pecuária é líder em utilização de mão-de-obra escrava, diz ONG

Ricardo Viel

Estudo elaborado pela ONG (Organização Não-Governamental) Repórter Brasil, apresentando no encontro sobre o 2º Ano do Pacto de Erradicação para o Trabalho Escravo, revela que a atividade pecuária representa 62% da mão-de-obra escrava utilizada hoje no país. Em segundo lugar vem a produção de carvão, com 12%; a soja com 5,2%; e o algodão, com 4,7%.

Em relação ao estudo elaborado pela entidade em 2004, o índice da pecuária baixou 18 pontos percentuais —representava 80% do trabalho escravo. Segundo o jornalista e cientista político Leonardo Sakamoto, presidente da Repórter Brasil, o estudo é baseado em dados do Ministério do Trabalho.

Por ano, uma média de 4.000 trabalhadores são encontrados em condições análogas à de escravidão. Segundo Sakamoto, estima-se que 25 mil pessoas são escravizadas a cada ano no Brasil.

Estados
De acordo com o estudo apresentado, o Estado campeão em utilização de trabalho escravo é o Pará —tanto em número de trabalhadores libertados como de propriedades que utilizam este tipo de mão de obra. O Mato Grosso é o segundo, seguido de Rondônia.

Para Sakamato, o aumento do cultivo de cana e soja nas regiões do Pará e no Mato Grosso, que deve se acentuar ainda mais nos próximos anos por causa da expansão da bioenergia, “pode significar uma degradação nas condições dos trabalhadores, inclusive do trabalho escravo”. “O combate a isso passa por diversos fatores, entre eles, o fim da impunidade”, afirma o pesquisador.

Domingo, 20 de maio de 2007

Última Instância

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Um choque entre dois modelos

A lógica dos combustíveis fósseis está emaranhada com os ideais da modernidade e do mercado. Pela primeira vez, está surgindo uma alternativa real a esse paradigma (A possível Revolução Energética, parte 2)

Como obter uma transformação tão radical? E se há condições para fazê-lo, por que insistimos no modelo da devastação? Das 96 páginas de [R]evolução Energética emergem duas conclusões cruciais: nas últimas décadas, surgiram condições para alterar o paradigma de produção de energia vigente nos três últimos séculos; essa transição implica mudanças políticas, sociais e culturais de enormes proporções.

O paradigma energético atual é uma das marcas da modernidade. Foi essencial para o surgimento da indústria, para a multiplicação de nossa capacidade de locomoção pelo planeta e para a definição de boa parte de nossos hábitos atuais de consumo. Ao mesmo tempo, permitiu uma expansão extraordinária das relações sociais capitalistas. Curiosamente, boa parte de seus elementos foi copiada com entusiasmo pelas experiências do chamado “socialismo real”…

Este padrão baseia-se em ao menos seis princípios centrais, todos muito relacionados e interdependentes entre si. Apoiou-se no uso energético, em larga escala, dos combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás). Floresceu numa época em que se cultivava uma visão antropocêntrica do mundo, para a qual a natureza era, em essência, um “recurso” a ser explorado incessantemente pelo ser humano. Tirou proveito um padrão de consumo individualista, que considerava legítimo adquirir qualquer bem (um super-iate, um automóvel 4x4), bastando ter recursos para tanto. Adotou a concentração produtiva: as jazidas de carvão, petróleo e gás estão presentes apenas em alguns pontos do planeta, e para explorá-las são necessários grandes obras e vastos capitais. Estimulou a competição empresarial: os combustíveis eram abundantes, a concorrência entre as empresas era benéfica ao consumidor, pois tendia a oferecer preços mais baixos. Praticou o descaso com a justiça social: enxergou a eletricidade e transporte como mercadorias (às quais tem acesso quem tem poder de compra) e não direitos (que devem ser assegurados a todos, independentemente de capacidade financeira).

A partir de meados do século passado, começou a ficar claro que este paradigma era ambiental e socialmente insustentável. Como destacou o último relatório do IPCC, esse modelo divide a humanidade. Uma pequena parcela tem acesso a um padrão ilusório (e cada vez mais extravagante) de conforto e luxo. A maioria é estimulada a se aproximar do estilo de vida e consumo dos primeiros, mas é cada vez mais atingida pelas conseqüências do modelo. O grande mérito dos movimentos ambientalistas e contraculturais foi argumentar que, nessas bases, a igualdade é, além de impossível, indesejável. Quando cada habitante viver e provocar emissões de CO2 semelhantes às do mundo rico, estaremos num planeta morto. Aliás, o descuidado e devastação da natureza no antigo bloco soviético foi ainda mais brutal que no ocidente.
Sementes visíveis de outro futuro

[R]evolução Energética revela algo novo e curioso, tanto do ponto de vista da energia quanto da transformação social. Ao se espraiar entre as sociedades, a contestação ao velho paradigma gerou elementos de um modelo novo. A alternativa não é apenas hipotética ou retórica. Rapidamente, estão surgindo e se multiplicando idéias, iniciativas e tecnologias que invertem, um a um, os princícipos do modelo anterior e tornam possível um mundo de energia limpa.

Dois capítulos do relatório do Greenpeace são dedicados, aliás, à descrição das novas fontes energéticas e aos passos (tecnológicos e políticos) que é preciso dar para que elas substituam os combustíveis fósseis. Em geração eólica, por exemplo, houve avanços no desenho das turbinas, na variedade das usinas (de pequenos cataventos, para suprir comunidades isoladas a verdadeiras usinas de vento, localizadas no oceano, capazes de abastecer grandes cidades) e na difusão da fonte (na Dinamarca, Alemanha e Espanha, os ventos já são parte não-desprezível da matriz energética; em todo o mundo, o volume energético gerado vem crescendo a taxas de mais de 10% ao ano). Outra fonte onde há enormes avanços é a solar. Já não se trata apenas dos coletores térmicos para aquecer a água de residências. Há duas vertentes muito promissoras: as células fotovoltaicas (que permitem gerar eletricidade a partir da luz) e as usinas de concentração solar (nas quais espelhos ou parabólicas captam a radiação e a direcionam para pontos onde, por meio de altíssimas temperaturas, produz-se vapor que move turbinas).

Há novidades nas usinas hidrelétricas, já responsáveis por 20% da eletricidade gerada no planeta. Para evitar a construção de enormes represas, que inundam territórios, destróem ecossistemas e deslocam populações, estão surgindo tecnologias “do fluxo do rio”, que dispensam ou reduzem significativamente a necessidade de armazenamento de água.
Biomassa: uma fonte importante, mas não única

O Greenpeace também não despreza a biomassa. Embora sua queima (em motores automotivos ou na geração de eletricidade) desprenda gás carbônico, esse efeito é compensado, às vezes com sobras, pela fotossíntese das plantas que mais tarde serão usadas para produzir combustível. Uma ampla variedade de fontes e métodos está sendo pesquisada: a produção de álcool, a gasificação (e posterior queima) da matéria orgânica e a geração de energia por meio de fermentação. Aqui, a questão a enfrentar não é a qualidade da energia (incomparavelmente mais limpa que a fóssil), mas o sentido social e ambiental das políticas que serão adotadas para produzi-la. Não é necessário devastar florestas para originar biomassa: há enormes áreas cultiváveis ociosas. Ao invés de se estimular o cultivo em latifúndios (como no caso do álcool automotivo brasileiro), pode-se perfeitamente estimular a agricultura familiar (como se faz, também no Brasil, com o biodiesel).

Uma característica essencial das energias limpas é a diversidade. Em vez de apostar todas as fichas nos fósseis, o novo padrão está em busca permanente de novas fontes. O relatório do Greenpeace cita a oceânica (a ser gerada a partir do choque das ondas com captadores sólidos) e a geotérmica (produzida a partir de gêisers e talvez, no futuro, de vulcões). No cenário da revolução, vislumbrado pelo documento, as fontes renováveis responderão, em 2050, por 69,3% da eletricidade consumida no planeta. Irão se destacar a energia eólica (23,1%), solar (18,64%, sendo 9,48% térmica e 9,16% fotovoltaica), hidrelétrica (15,22%) e da biomassa (9,51%). Contribuirão de algum modo a marítima (0,5%) e geotérmica (2,3%). As fontes sujas responderão por 30,7% da eletricidade.

Como energia também significa aquecimento e transporte, o peso dos combustíveis fósseis na matriz energética geral ainda será importante: 50,24% (contra 80% hoje). Abolida a energia nuclear, as fontes limpas responderão, em 2050, por 49,76% do total. O gás natural (22,05%) superará o petróleo, em esgotamento (20,6%, contra 33,8% atuais). Nesse cômputo mais amplo, a biomassa adquire grande relevância. O relatório prevê que ela será, isoladamente, a principal supridora das necessidades de energia do planeta, respondendo por 24,9% do consumo primário.

Jornal Le Monde

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Cartas de Darwin vão para a internet

DA REDAÇÃO

“Pode ser uma delícia para quem se interessa, mas como eu gosto mais de mulheres solteiras do que daquelas no estado abençoado, eu declaro [isso] um tédio.”
O rapaz que declina os supostos prazeres do casamento na frase acima é provavelmente a última pessoa que poderia ser chamada de playboy mulherengo: Charles Robert Darwin, pai da teoria da evolução das espécies pela seleção natural.
A carta, endereçada à irmã Caroline em abril de 1832 (escrita, por sinal, no Rio de Janeiro), é uma das 5.000 correspondências de Charles Darwin que estão à disposição na internet desde ontem.
O site Darwin Correspondence Project (www.dar winproject. ac.uk) é a primeira base de dados a reunir textos integrais das cartas que o naturalista inglês trocou com mais de 2.000 pessoas ao longo da vida.
Há correspondências de e para parentes (Caroline, irmã mais velha, era uma de suas maiores confidentes), amigos, como Charles Lyell, pai da geologia moderna, Thomas Huxley, maior defensor de Darwin, e Alfred Russel Wallace, co-descobridor da seleção natural.
Resultado de um esforço de dez anos para reunir e transcrever o acervo (mais de 14 mil cartas já foram localizadas) em formato digital, o site promete ser a fonte de muitas pesquisas sobre a trajetória intelectual de Darwin, e de algumas respostas sobre controvérsias históricas (como qual era de fato a posição do gênio britânico sobre a religião).
Mas, mais do que isso, dá vislumbres saborosos da vida pessoal do cientista -como uma carta, escrita aos 12 anos a um amigo não-identificado, na qual o jovem Charles confessa que só lava os pés uma vez por mês. “Não posso evitar”, escorrega.

Jornal Folha de S. Paulo

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Cientistas põem em evidência os mecanismos do aparecimento do diabetes

Uma nova pesquisa mapeou os processos moleculares e inflamatórios que provocam a obesidade e o surgimento do diabetes do tipo 2

De Paul Benkimoun

Uma dieta rica em gorduras aumenta os riscos de adquirir peso e contrair um diabetes. O fato é conhecido. O que a equipe dos professores Jacques Amar e Rémy Burcelin - pólo cardiovascular e metabólico do Centro Hospitalar Universitário (CHU) de Toulouse e do Inserm (Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica) - acaba de pôr em evidência, são os mecanismos moleculares deste fenômeno no rato. Estes estudos mostram a ocorrência de modificações da flora bacteriana intestinal e de reações inflamatórias. Os dados da pesquisa podem ser consultados, online, no site da revista americana “Diabetes”.

A obesidade e a diabetes do tipo 2 são vinculadas a uma resistência à
insulina. Diferentemente do diabetes de tipo 1, que aparece logo na infância e resulta de uma insuficiência de secreção deste hormônio, a diabetes de tipo 2 surge após anos no decorrer dos quais a insulina secretada não age suficientemente sobre os tecidos do organismo para fazer diminuir a taxa sangüínea de glicose. Na diabetes de tipo 2 assim como na obesidade existem também fenômenos inflamatórios.

Meses atrás, a equipe americana de Jeffrey Gordon havia mostrado, no rato, que um desequilíbrio na flora bacteriana intestinal constitui um fator de obesidade (Reportagem publicada no “Le Monde” de 22 de dezembro de 2006). Segundo esses estudos, esta modificação da ecologia intestinal aumenta a capacidade dos ratos de extrair calorias a partir de um nutrimento.

Adotando uma abordagem paralela, a equipe dos professores Amar e Burcelin interessou-se pela flora intestinal, mas, desta vez, à procura de um fator causal na origem dos mecanismos inflamatórios envolvidos no aparecimento de uma resistência à insulina, de uma obesidade e de uma diabetes.

Os pesquisadores franceses debruçaram-se em particular sobre uma substância, o liposacaride (LPS), que é um dos constituintes da parede das bactérias de tipo Gram negativo, também conhecida pelo nome de endotoxina. Essas bactérias são produzidas continuadamente no intestino. O LPS se transfere então no sangue.

“O nosso estudo permite mostrar que o tipo de dieta seguida, dependendo de se ela é mais ou menos gordurosa, modula a quantidade de endotoxina no sangue, fora de todo processo infeccioso”, explica o professor Amar. O aumento da taxa sangüínea de LPS provoca uma reação inflamatória que resulta no desenvolvimento de uma diabetes e de uma obesidade nos ratos que foram submetidos a um regime alimentar rico em gorduras.

“Nós também pudemos comprovar que esta ação inflamatória do LPS passa por um ‘interruptor’, no caso um receptor chamado CD14, presente em células sangüíneas assim como na superfície das células do tecido adiposo e do fígado”, acrescenta o professor Amar. “Quando se inibe a reação inflamatória, impede-se com isso a aquisição de peso e o aparecimento de um diabetes nos ratos submetidos a uma dieta rica em gordura”.

Perspectivas importantes

O mecanismo que conduz da inflamação até à resistência à insulina já era conhecido. A inflamação no tecido adiposo provoca a liberação de citoquines.

Esses mediadores vão agir sobre o receptor da insulina situado na superfície das células. As moléculas de insulina produzidas pelo organismo vão efetivamente se afixar neste receptor, mas a “mensagem” que elas trazem não consegue ser passada para a célula, que resiste então à insulina.

Desta forma, desponta uma avalanche de eventos, a qual foi analisada no nível molecular pela equipe de Toulouse. Resumindo: a dieta rica em gorduras modifica a flora bacteriana e facilita a passagem no sangue do LPS. A elevação da taxa sangüínea de LPS desencadeia uma reação inflamatória por intermédio de um receptor. Esta reação provoca, no rato, um aumento do peso e uma diabetes, os quais podem ser debelados inibindo a reação inflamatória.

“Esta explicação não exclui o mecanismo que foi descrito pela equipe de
Jeffrey Gordon”, comenta o professor Amar.

O cientista acrescenta que a sua equipe dispõe de dados preliminares, ainda não publicados, que mostram que os processos evidenciados no rato também existem no homem, mas isso ainda está por ser confirmado. “Com esses estudos aparecem várias perspectivas importantes: seria possível prevenir o desenvolvimento de uma obesidade e de uma diabetes de tipo 2 modulando a taxa de LPS no sangue?”, sublinha o professor Amar.

A resposta poderia ser fornecida no futuro estudando-se o impacto de uma modificação da flora bacteriana intestinal sobre a taxa de LPS. “Uma adaptação da flora por meio de uma alimentação apropriada seria suscetível de diminuir a passagem do constituinte tóxico da parede bacteriana do intestino para a circulação sangüínea”, explica o professor Amar.

Concretamente, alguns pro bióticos, que são bactérias benéficas para o homem contidas em alimentos tais como os iogurtes, poderiam ser testados com este objetivo.

Números

Obesidade: Em 2006, a França contava cerca de 6 milhões de obesos
(”Le Monde” de 20 de setembro de 2006), segundo a mais recente enquête que tem por nome Obepi (Obesidade epidemiologia). Isso representa 12,4% da população com idade acima de 15 anos e traduz um aumento de 50% em dez anos.

Uma pesquisa realizada por uma equipe francesa mostra que o crescimento dessa taxa é mais importante entre os filhos de operários, ao passo que a obesidade diminuiu entre as crianças cujos pais exercem uma profissão intermediária ou ocupam um posto de executivo. Nos Estados Unidos, 24,6% da população é considerada atualmente como obesa (ao menos 15 kg a mais do que a normal), contra 20% em 2000.

Diabetes: Em todo o mundo, mais de 200 milhões de pessoas são diabéticas. No ritmo atual, as previsões para 2030 apontam a possibilidade de haver cerca de 360 milhões de diabéticos. O aumento será particularmente acentuado nos países em desenvolvimento.

A região onde ele deverá ser o mais elevado é o Oriente Médio (+ 164%), seguido pela África (+ 162%) e a Ásia do Sudeste (+ 161%).

O aumento deverá ser de 150% na Índia, de 148% na América Latina, de 104% na China, e de 72% na América do Norte.

Na Europa, o número de diabéticos, que era de 28,3 milhões em 2000, deverá ser de 37,4 milhões, ou seja, um crescimento de 32%.

Tradução: Jean-Yves de Neufville.

Jornal Le Monde

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Objetofilia, fetichismo e neo-sexualidade: apaixonados por coisas

Algumas pessoas amam seus notebooks mais que qualquer outra coisa no mundo. Outras excitam-se sexualmente com instrumentos musicais ou edifícios. Especialistas estão tentando entender uma bizarra obsessão sexual conhecida como objetofilia

Frank Thadeusz

O dia 9 de novembro de 1989 foi terrível para Eija-Riita Eklöf-Mauer. Uma horda furiosa avançou sobre seu marido em Berlim, atacando-o com martelos e arrancando pedaços inteiros de seu corpo.

“E junto com ele ligações emocionais, amor profundo, boas lembranças… A única maneira de sobreviver é ‘bloquear’ esse evento”, escreveu a sueca traumatizada em seu site na web anos depois.

Em 11 de setembro de 2001, o namorado de Sandy K., que vive em Berlim, foi publicamente executado nas ruas de Nova York. As cenas e as datas dos dois crimes podem ser distantes, mas o que une as duas mulheres é uma estranha e obscura obsessão.

Em 1979, Eklöf se “amarrou” com o Muro de Berlim e modificou legalmente seu nome para marcar a ocasião (”Mauer” significa “muro” em alemão). Desde os 8 anos de idade, Sandy K. foi terrivelmente apaixonada pelas Torres Gêmeas de Nova York. Nenhum desses dois amantes monumentais era conhecido como especialmente comunicativos. Nem pareciam dotados de qualidades de sedução. Mas para suas admiradoras as construções eram masculinas, sensuais e extremamente desejáveis.

Para Sandy, de 25 anos, a atração pelas coisas é tão poderosa que ela
confessa: “No que se refere a amor, só sou atraída por objetos. Não poderia imaginar um caso de amor com um ser humano”.

Sua renúncia radical ao amor entre duas pessoas não transformou a jovem em uma solitária. Ela foi admitida há muito tempo em um círculo de pessoas que pensam de modo semelhante, todas as quais se dedicam ao amor pelas coisas. Elas chamam-se objetófilas, ou “objectum-sexuals”. Os especialistas hoje enfrentam a tarefa de interpretar o fenômeno.

Volkmar Sigusch, professor aposentado e ex-diretor do Instituto de Ciências Sexuais da Universidade de Frankfurt, acredita ter desvendado os mistérios da objetofilia. Ele sondou extensamente essa atração pelos objetos como parte de sua pesquisa sobre várias formas de “neo-sexualidade” moderna.

O sexólogo vê essa inclinação como prova de sua hipótese de que a sociedade cada vez mais ruma para a assexualidade: “Um número crescente de pessoas declara abertamente ou pode ser vista vivendo sem um relacionamento íntimo ou de confiança com outra pessoa”, diz Sigusch, acrescentando que as cidades são povoadas por um exército de indivíduos socialmente isolados: “solteiros, pessoas isoladas, sodomitas culturais, muitos pervertidos e viciados em sexo”.

Não apenas fetichistas

“De modo algum somos meros fetichistas”, insiste Joachim A., e explica imediatamente a diferença: “Para algumas pessoas, seu carro torna-se um fetiche que elas usam para se colocar em destaque. Para o objectum-sexual, por outro lado, o carro em si - e nada mais - é o parceiro sexual desejado, e todas as fantasias sexuais e emoções se concentram nele”.

Hoje com 41 anos, ele diz que reconheceu e aceitou sua inclinação quando tinha apenas 12. Foi então que mergulhou “em um relacionamento emocional e fisicamente muito complexo e profundo, que durou anos”. Seu parceiro na época era um órgão Hammond. Agora ele tem um relacionamento firme com uma locomotiva a vapor, há vários anos. Como ele é excitado sexualmente pelos mecanismos internos dos objetos, empregos como técnico muitas vezes o levaram à infidelidade.

“Um caso de amor pode começar com um radiador quebrado”, diz o amante hoje monógamo, lembrando como começaram seus antigos casos. Joachim gradualmente percebeu que “você pode se revelar para um parceiro objeto de maneira íntimas, de uma maneira que nunca se revelaria para outra pessoa”. Isso inclui o desejo de “experimentar a sexualidade juntos”, ele acrescenta.

Experiência erótica sem limites

É verdade que a forma exterior do amante pode apresentar problemas para a consumação da parceria. Mas estes são resolvidos de maneira altamente pragmática pela maioria dos “objectum-sexuals”.

Sandy K. tinha uma maquete das Torres Gêmeas fabricadas em escala de 1:1000. A fachada é feita de alumínio anodizado, como a das originais - “para que a maquete pareça real”.

A miniatura em metal tem outra vantagem palpável: não enferruja quando Sandy toma “um delicioso banho com ela”. Aparentemente não há limites para a capacidade humana de experiência erótica: “Você entra com ela na cama, o que pode ser muito excitante”, explica.

O estudante de psicologia Bill Rifka, de 35 anos, que se relaciona com um iBook, admite que “muitas vezes flertei com lindos laptops no eBay e senti verdadeiro desejo”. Como todos os “objectum-sexuals”, Rifka também atribui um gênero claro a seu parceiro: “Para mim, meu Mac é masculino. Estou vivendo uma relação homossexual, por assim dizer”.

Rifka compartilha sua tendência homoerótica por objetos com Doro B., de 41 anos, que se apaixonou por uma máquina de processamento de metal em seu trabalho e “imediatamente senti uma presença feminina”. A máquina a excita com seu “doce zumbido” desde então. Mas às vezes também a deixa preocupada: “Minha gatinha teve um de seus acessos e entrou em pane”, ela anotou temerosa em seu diário online.

Na vida cotidiana, Doro precisa limitar suas demonstrações de afeto a “afagos e carícias - então não há muito problema se alguém vir”. Quando ela está em casa e quer “mais”, pega uma peça ou um modelo de sua namorada. Mas, acrescenta, “não é um substituto; é mais um suplemento. É por isso que não conta como trapaça. O modelo serve como uma espécie de máquina de fax que transmite meus sentimentos para minha amada”.

O sexólogo Sigusch não quer classificar esses comportamentos estranhos como patológicos. “Os objetófilos não prejudicam ninguém. Não estão abusando ou traumatizando outras pessoas”, ele avalia. E então pergunta suavemente: “De quem você poderia dizer a mesma coisa?”

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Der Spiegel

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Teologia da Libertação já foi além da Igreja Católica, diz Boff

Denize Bacoccina e Gary Duffy
De Brasília e São Paulo

Um dos nomes mais importantes da Teologia da Libertação nos anos 60 e 70, o ex-frei franciscano Leonardo Boff disse em entrevista à BBC que a teologia vive, mas não é tão visível como antes, “porque antes ela era polêmica, e hoje ela é fundamentalmente uma teologia ecumênica, não é só católica”.

“A Teologia da Libertação e a temática da Libertação não dependem mais da Igreja, ganham curso próprio. É uma temática que inspira as pessoas eticamente a lutar contra as injustiças, lutar contra as opressões e buscar alternativas para uma sociedade que não produza tanta desigualdade e tanto sofrimento”, afirmou o teólogo.

Segundo Boff, a Teologia da Libertação, que defende um maior engajamento da igreja na sociedade e contra as desigualdades sociais, “é levada adiante pelos grupos bíblicos, dos quais há mais de 500 mil no Brasil, e mais de 80 comunidades de base”.

Influência

Boff ironizou a declaração do arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, que há duas semanas disse que a Teologia da Libertação “já passou”.

“Dom Odilo deveria ganhar o Prêmio Nobel de Economia. Porque não existem mais pobres, não existem mais miseráveis, não existem mais famintos neste mundo.”

O papel da Teologia da Libertação na sociedade brasileira continua, na avaliação dele, inclusive porque vários membros do governo e o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva foram influenciados por ela.

“Há vários ministros do governo Lula que são filhos da Teologia da Libertação. O próprio Lula diz: eu, como cristão, sou da igreja da Libertação. Há dois ou três governadores que são filhos da Teologia da Libertação”, disse Boff.

Leonardo Boff afirmou que que as igrejas “que levam a sério a opção pelos pobres” têm a Teologia da Libertação como referência.

“Agora, há igrejas que são alienadas, que não escutam o grito do oprimido, e por isso elas têm pouco a dizer a Deus, e acham que a Teologia da Libertação morreu.”

“Nostálgico”

O papa Bento 16, responsável pelo silêncio obsequioso com o qual o então frei Leonardo Boff foi punido anos anos 80, “é um nostálgico”, na avaliação do teólogo.

“Ele não é um conservador, ele é um nostálgico”, disse Boff.

“Ele é de uma Igreja com muita liturgia, muito latim, muito incenso, muita piedade. Não é uma Igreja de engajamento na sociedade e no mundo, mas uma Igreja-fortaleza que se defende contra os riscos do mundo”, afirmou. “É uma nostalgia de uma igreja que já não existe mais.”

Foi Joseph Ratzinger, quando era cardeal e prefeito da Congregação para a Fé do Vaticano, o responsável pelo silêncio obsequioso em 1985 ao frei franciscano, como punição pelas idéias da Teologia da Libertação apresentadas no livro “Igreja: Carisma e Poder”, publicado no ano anterior.

“Humilhação”

A punição foi suspensa em 1986 pelo papa João Paulo Segundo, segundo Boff quando dom Paulo Evaristo Arns argumentou com o papa que a medida era semelhante à censura imposta pelo governo militar.

“Eu não pude falar oficialmente nas igrejas, em público. Mas foi o ano que eu mais falei em privado, porque as pessoas me procuravam”, afirmou.

Ex-frei franciscano, Boff abandonou a batina em 1992, quando seria condenado pelo Vaticano pela segunda vez ao silêncio, por declarações que deu durante uma conferência na época da Rio 92.

“Da primeira vez eu obedeci, por humildade. Da segunda, eu achei que era humilhação, e humilhação é pecado, eu disse que não aceitava”, contou.

Desde então, Boff passou a dar aulas de Teologia e Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e continuou escrevendo livros e participando da Igreja como leigo.

BBC Brasil

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40 anos de psicodelia

Beatles, funeral, sons de animais e música indiana. Juntos, esses elementos resultaram em Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, álbum que influenciou muitos roqueiros e o tropicalismo

Por Guilherme Bryan

Poucos discos se tornaram tão fundamentais para a história da música quanto o clássico dos Beatles, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, que completa em junho 40 anos. Eleito em 2003 pela revista norte-americana Rolling Stone o melhor álbum de todos os tempos, são várias as razões que o tornaram tão emblemático, caso de sua técnica de gravação e até da concepção de sua capa.

Gravado em aproximadamente 700 horas em oito canais, com dois consoles de quatro canais (uma novidade para a época) e vencedor de 4 Grammys em 1967, entre eles o de melhor álbum do ano, o disco mistura orquestrações, sons de animais (como em “Good Morning, Good Morning”, onde se escuta o cacarejar de um galo) e gravações tocadas ao contrário com rock, jazz e uma canção de forte influência oriental, “Within You Without You”, a única faixa não composta pela dupla John Lennon e Paul McCartney, mas, sim, por George Harrison, que foi baseada na sonoridade do músico indiano Ravi Shankar.

“Para quem era fã dos Beatles, ele era muito diferente dos outros discos. Diria até que era esquisito e demandava uma certa paciência para ser escutado, pois trazia uma série de novidades, principalmente nas músicas. As melodias já não eram tão pop e os arranjos eram puxados para música clássica e indiana. Escutavam-se também vários instrumentos diferentes, como a harpa de ‘She’s Leaving Home’ (tocada por Sheila Bromberg, a primeira mulher a tocar com a banda de Liverpool)”, comenta o vocalista do Ultraje a Rigor e beatlemaníaco, Roger Rocha Moreira, que, na época em que o disco foi lançado, tinha apenas 11 anos.

Outro garoto na época, Kid Vinil, radialista, jornalista, cantor e que deve lançar em breve um almanaque do rock, tem outra opinião: “O Sgt. Pepper’s é um marco da psicodelia, muito em função do resultado perfeito que os Beatles conseguiram nesse estilo, que já estavam presentes em seus álbuns anteriores, como ‘Rubber Soul’ e ‘Revolver’. Desse modo, é possível afirmar que o Sgt. Pepper’s foi o resultado final de toda a loucura psicodélica, tanto em termos de apresentação de disco quanto das orquestrações de George Martin, que foi fundamental para dar uma cara a esse trabalho”.

O nome do álbum surgiu a partir de vários extensos que batizaram bandas psicodélicas ao redor do mundo. De acordo com Paul McCartney, ele foi concebido inicialmente com o propósito de soar como se todas as canções, emendadas umas nas outras, estivessem sendo tocadas pela Banda do Clube de Corações Solitários do Sargento Pimenta (Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band). Esse conceito, no entanto, foi abandonado logo após a gravação da segunda faixa, “With a Little Help From My Friends”, que, curiosamente, começa com o vocal do baterista Ringo Starr, nomeado Billy Shears.

Na época em que o disco foi lançado, ele também foi motivo de discórdia em função da relação estabelecida entre a droga LSD e a primeira letra das palavras que dão nome à canção “Lucy In The Sky With Diamonds”. Apesar de John Lennon alegar que a música havia sido inspirada num desenho de seu filho de quatro anos, ela foi proibida pela rádio BBC. Justamente a emissora que, com sua Radio 2, acompanha agora a regravação do disco por uma série de bandas conhecidas internacionalmente como Oasis, Killers, Travis e Kaiser Chiefs.

“Com Sgt. Pepper’s, as letras passaram a ser mais introspectivas, e afetadas por experiências com drogas, LSD principalmente. Havia uma certa dúvida: ‘Será que ‘Lucy In The Sky With Diamonds’ é LSD ou não?’. ‘Ah, o John Lennon disse que é inspirado nos desenhos do filho dele’. Ou seja, os Beatles já falavam por metáforas naquela época e suas letras ficaram bem mais sugestivas e complexas”, acrescenta Roger.

Outro fator que ajudou a aumentar a mística em torno do lançamento foi a possível morte de Paul McCartney que estava sendo anunciada pelos Beatles na emblemática capa do álbum. “Na época, surgiu um boato da morte do Paul e começaram a inventar algumas coisas que estavam presentes na capa do Sgt. Pepper’s, como um possível velório, e que era escutado (’Paul is dead’) ao girar a última faixa ao contrário”, lembra Kid Vinil.

A BBC Radio 2 elegeu, no ano passado, a capa de Sgt. Pepper’s, a melhor a alcançar o número um das listas de sucessos. Com projeto visual de Peter Blake e fotos de Michael Cooper, ela mostra os Beatles vestidos com coloridas e psicodélicas fardas de sargentos, como se estivessem num funeral, onde se vê uma guitarra formada por flores e plantas.

Eles estão em frente a uma colagem da imagem de pessoas famosas como Oscar Wilde, Marlon Brando, Sigmund Freud, Carl Jung, Marilyn Monroe, Bob Dylan, Aleister Crowley, Albert Einstein, Lewis Carrol, O Gordo e o Magro, Edgard Allan Poe e Marlene Dietrich, entre outras. Houve a intenção de incluir Jesus Cristo, o que não aconteceu em função de Lennon ter declarado, anos antes, que os Beatles eram mais populares do que a entidade religiosa.

Paul McCartney, também revelou em algumas de suas entrevistas que esse álbum é fruto de sua rivalidade com Brian Wilson, o líder da famosa banda de surf music dos anos 60, Beach Boys. Afinal, após escutar o disco Pet Sounds, ele achou que deveria, junto com os companheiros de banda, ir ainda mais longe nas experimentações e ousadias que haviam realizado em Revolver, de 1966. Esse desejo, misturado com seu interesse por música clássica, e o de George Harrison e John Lennon pela cultura indiana, e aliado ao trabalho elaborado e minucioso do produtor George Martin, resultaram nesse trabalho que sempre influenciou milhares de novos artistas ao redor do mundo.

As influências geradas por Sgt. Pepper’s foram rapidamente percebidas. Já em 1968, o guitarrista Frank Zappa adotou uma paródia da capa do disco dos Beatles para a do seu álbum We’re Only In It For The Money. Por sua vez, em 1978, o diretor Robert Sigwood realizou um filme com o mesmo nome do álbum e que foi estrelado por Bee Gees e Peter Frampton, mas recebeu muitas críticas negativas e foi bem mal de bilheteria. Kid Vinil cita que a influência continuou a ser percebida nos anos 1980 em trabalhos de bandas como Echo & The Bunnymen. “Essa influência é percebida também em muitos representantes do britpop dos anos 90, como Oasis, e até em bandas novas, que usam bastante a psicodelia, caso do Arcade Fire, que explora muitas novas sonoridades para colocar em suas músicas”.

Em 1998, foi lançada a coletânea Pepperisms, que reúne uma série de canções inspiradas nas que compuseram o LP dos Beatles. Entre artistas canadenses, tchecos, húngaros e malaios, estão presentes os uruguaios Los Shaker’s, os australianos Twligths e o sul-africano Quentin E. Klopjaeger.

No Brasil, as influências de Sgt. Pepper’s foram sentidas com bastante intensidade, principalmente no movimento tropicalista, que começava a surgir em 1967 e tem como um de seus marcos inaugurais a canção “Domingo no Parque”, composta por Gilberto Gil, arranjada por Rogério Duprat e que contou com a participação dos Mutantes. “Inclusive o fato dos Mutantes aparecerem fantasiados também foi uma inspiração nos Beatles, que começaram a mudar seu visual com o Revolver, mas acentuaram mesmo com o Sgt. Pepper’s, numa época em que usar cabelo comprido, por exemplo, era quase como usar vestido (risos)”, destaca Roger. “Os Mutantes se baseavam bastante no que os Beatles faziam e diria que o Rogério Duprat, que misturou música orquestral com a música popular brasileira, é uma espécie de George Martin brasileiro, tupiniquim”, concorda Kid Vinil.

Revista Cult

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“Quinto” evangelho reabilita Judas

Assinado pelo romancista Jeffrey Archer e um teólogo, livro nega milagres como transformação de água em vinho. Autores se baseiam em evangelhos canônicos e usam narrador fictício, Benjamin Iscariotes, primogênito de Judas.

EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL

Um escritor best seller se une a um acadêmico com boas relações no Vaticano para conceber um quinto evangelho que redime Judas. A ação entre amigos evangelizante resultou no lançamento em março deste ano de “The Gospel According to Judas” (o evangelho segundo Judas), livro de apenas 100 páginas em que Jeffrey Archer -um dos romancistas mais bem-vendidos da Inglaterra- e Frank J. Moloney -respeitado especialista na Bíblia- defendem que Judas não traiu Jesus por 30 moedas de prata nem se enforcou. Morreu crucificado.
A traição, sustentam os autores, aconteceu por diferenças ideológicas entre mestre e apóstolo: Judas teria se decepcionado com Jesus por ele não ter tirado os romanos do poder.
Publicado em nove países simultaneamente, o livro deve chegar ao Brasil até julho, pela editora Bertrand, que tem outros quatro títulos de Archer em catálogo. A edição original é um pastiche de “livro sagrado”, com capa que imita textura de couro, páginas com bordas douradas e um marcador com fita de tecido. Segundo os autores, o formato e o conteúdo teriam sido pensados para agradar “leitores do século 21″ e soar críveis para “cristãos e judeus do século 1″.
Archer e Moloney fazem uma releitura das escrituras sagradas e lançam mão de um expediente ficcional: a trajetória de Jesus -e suas interseções com a de Judas- é narrada por um certo Benjamin Iscariotes, primogênito de Judas. Já no primeiro capítulo o narrador propõe algumas revisões dos quatro evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João, dos quais Archer toma emprestado passagens), afirmando, por exemplo, que Jesus não era um messias, e sim um profeta.
“Achei que era importante escrever um evangelho de um ponto de vista completamente diferente. E como a perspectiva de Judas era mais interessante do que a dos outros 11 apóstolos, a escolha me pareceu fascinante”, diz Archer à Folha. “Não creio que o livro reabilite Judas, mas ele mostra a vida de Jesus de um ângulo diferente.”
O novo evangelho também sustenta que Jesus não teria feito alguns milagres, como transformar água em vinho ou caminhar sobre a água. Archer diz, no entanto, que não se trata necessariamente de revisionismo. Mas que o seu evangelho, graças à pesquisa séria de Moloney, “permite que os cristãos praticantes reconsiderem alguns mitos que realmente podem ser pouco precisos”.
Em nenhum momento, o projeto do livro foi oficialmente abençoado pela igreja. Mas recebeu um empurrãozinho do cardeal Carlo Maria Martini -”rival” de Joseph Ratzinger na sua eleição para o papado-, que apresentou Archer a Moloney. E do arcebispo sul-africano Desmond Tutu, que não só chamou o evangelho de “interessante e plausível”, como gravou a versão em áudio.
“Também achamos que o papa leu uma cópia em alemão”, conta Archer, para quem Bento 16 é um homem sensato e menos “duro” do que se esperava. “Não sabemos qual a foi a reação dele, mas Moloney teve permissão de falar sobre o livro no Vaticano, e achamos que isto fala por si.”

Auto-reabilitação
Anglicano como Tutu, barão, Jeffrey Archer também atuou na política. Foi membro do Parlamento inglês e dirigente do partido Conservador, de Margaret Thatcher e viu sua carreira política degringolar, em 1986, quando o tablóide “Daily Star” publicou uma reportagem segundo a qual Archer teria pago 2.000 libras para uma prostituta. O escritor fabricou um álibi, foi preso em 2001 por perjúrio e obstrução da justiça e libertado em 2003.
A imprensa inglesa torceu o nariz para o projeto do “quinto evangelho”, insinuando que se tratava de um projeto de redenção do próprio Archer. O “Times” ironizou, dizendo que o evangelho é uma obra de reabilitação de um autor familiarizado com projetos do gênero. O “Guardian” sugeriu que Archer “permanece inabalado pelos seus anos na prisão” e deve fazer “bem mais do que 30 moedas de prata” com o livro.

Jornal Folha de S. Paulo

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