Arquivo de 18 de Abril de 2008

A crise estrutural da política

István Mészáros [*]

István Mészáros. 1. Sintomas de uma crise fundamental

Gostaria de começar com um breve exame dos desenvolvimentos muito inquietantes — na verdade deveria dizer ameaçadores, à escala mundial — no campo da política e do direito. A este respeito pretendo sublinhar que há cerca de 23 anos tive conhecimento pessoal na Paraíba, Brasil, das penosas consequências dos tumultos explosivos por alimentos. Vinte e três anos depois, no tempo da campanha eleitoral do presidente Lula, li que ele anunciara como parte mais importante da sua futura estratégia a determinação em acabar com o grave problema social da fome no país. As duas décadas decorridas desde o tempo daqueles dramáticos tumultos por alimentos na Paraíba não foram obviamente suficientes para resolver este problema crónico. E mesmo hoje, disseram-me, as melhorias no Brasil ainda são muito modestas. Além disso, as sombrias estatísticas das Nações Unidas sublinham constantemente a persistência do mesmo problema, com consequências devastadoras, em muitas partes do mundo. Isto é assim apesar do facto de as capacidades produtivas hoje à disposição da humanidade permitirem relegar para todo o sempre no passado o agora totalmente indesculpável fracasso social da fome e da desnutrição.

Pode ser tentador atribuir estas dificuldades, como acontece frequentemente no discurso político tradicional, a contingências políticas corrigíveis de forma mais ou menos fácil, postulando assim como remédio mudanças de pessoas nas oportunidades eleitorais seguintes e estritamente dentro da ordem. Mas isto seria a evasão do costume e não uma explicação plausível. Pois a teimosa persistência dos problemas em causa, com todas as suas penosas consequências humanas, aponta para conexões enraizadas muito mais profundamente. Elas indicam alguma força aparentemente incontrolável de inércia que parece ser capaz de transformar, com frequência deprimente, mesmo as “boas intenções” de manifestos políticos prometedores em pedras para pavimentar a estrada para o inferno, nas palavras imortais de Dante. Por outras palavras, o desafio é enfrentar as causas e determinações estruturais subjacentes as quais, pela força da inércia, tendem a descarrilar muitos programas políticos concebidos para a intervenção correctiva. A descarrilá-los até mesmo quando na origem os autores de tais programas admitem que o estado de coisas existente é insustentável.

Vamos considerar uns poucos exemplos gritantes que demonstram claramente não só que há alguma coisa a afectar perigosamente o modo como regulamos nossos intercâmbios sociais como, ainda pior, que a tendência observável é de intensificação dos perigos em direcção ao ponto de não retorno.

Escrevi seis anos atrás, para uma palestra pública feita em Atenas em Outubro de 1999, que “Com toda a probabilidade, a forma final de ameaçar o adversário no futuro — a nova “diplomacia da canhoneira”, exercida a partir do “ar patenteado” — será a chantagem nuclear. Mas o seu objectivo seria análogo àquele do passado, ao passo que a modalidade contemplada só poderia sublinhar a indefensabilidade de tentar impor deste modo a racionalidade extrema do capital sobre as partes recalcitrantes do mundo”. Nestes seis anos tais práticas potencialmente letais de fazer política, do imperialismo hegemónico global, tornaram-se não só uma possibilidade geral como também uma parte integral da “concepção estratégica” neoconservadora admitida abertamente pelo governo dos EUA. E a situação hoje ainda é pior. Nas últimas poucas semanas, em relação ao Irão, entrámos na etapa do planeamento real de uma rota de acção que poderia ameaçar não só aquele país como toda a humanidade com um desastre nuclear. [2] A habitual artimanha cínica utilizada ao publicitar tais ameaças é “nem confirmá-las nem desmenti-las”. Mas ninguém pode ser enganado por tal espécie de truque. De facto, foi este perigo muito real de desastre nuclear, recentemente materializado, que induziu um grupo de prestigiosos físicos americanos, dentre eles cinco Prémio Nobel, a escrever uma carta aberta de protesto ao presidente Bush na qual declaram: “É gravemente irresponsável para os EUA, como a maior superpotência, considerar rotas de acção que pudessem acabar por conduzir à destruição generalizada da vida sobre o planeta. Urgimos a administração a anunciar publicamente que está a retirar da mesa a opção nuclear no caso de todos os adversários não nucleares, presentes ou futuros, e urgimos o povo americano a fazer ouvir sua voz sobre esta matéria”. [3]

Estarão as legítimas instituições políticas das nossas sociedades em posição de rectificar as situações mais perigosas através da intervenção democrática no processo real de tomada de decisão, tal como o discurso político tradicional continua a reassegurar-nos, apesar de toda a evidência em contrário? Somente os mais optimistas — ou um tanto ingénuos — poderiam asseverar e acreditar sinceramente que tal estado de coisas feliz se verifica. Pois as principais potências ocidentais neste últimos poucos anos embarcaram, de forma bastante desimpedida, em guerras devastadoras utilizando dispositivos autoritários — como a “prerrogativa executiva” e a “Prerrogativa Real” — sem consultarem seus povos sobre matérias tão graves, e varrendo brutalmente para o lado a estrutura do direito internacional e os órgãos apropriados para a tomada de decisões das Nações Unidas. [4] Os Estados Unidos arrogaram-se o direito moral de actuar como lhes agrade, sempre que lhes agrade, mesmo ao ponto de utilizar armas nucleares — não só antecipativamente (preemptively) como até mesmo preventivamente (preventively) — contra todos os países que quiserem, todas as vezes que os seus afirmados “interesses estratégicos” assim o ditarem. E tudo isto é feito pelos Estados Unidos como pretenso campeão e guardião da “democracia e liberdade”, submissamente seguida e apoiada nas suas acções ilegais pelas nossas “grandes democracias”.

Em outros tempos o acrónimo MAD — mutually assured destruction, destruição mutuamente assegurada — era utilizado para descrever o estado existente da confrontação nuclear. Agora que os “neoconservadores” não podem mais pretender estarem os Estados Unidos (e o Ocidente em geral) ameaçados pela aniquilação nuclear, o acrónimo tornou-se a loucura (madness) literal, como a “orientação política legítima” da insanidade militar/política institucionalizada. Isto em parte é consequência do desapontamento neoconservador acerca da guerra do Iraque. Pois “os neo-cons americanos tiveram a esperança de que a invasão do Iraque poria em andamento um efeito dominó através da região, com o povo do Irão e de outros estados ricos em petróleo a levantarem-se para exigir liberdades de estilo ocidental e democracia. Infelizmente a verdade foi o reverso, pelo menos no Irão”. [5] Mas é muito pior do que isto, porque todo um sistema de “pensamento estratégico” institucionalmente arraigado e assegurado, centrado no próprio Pentágono, espreita por trás disto. É isto o que torna a nova LOUCURA (MADNESS) tão perigosa para todo o mundo, incluindo os Estados Unidos cujos piores inimigos são precisamente tais “pensadores estratégicos”.

Podemos verificar isto de forma muito clara no livro de 2004 de Thomas P. M. Barnett, The Pentagon’s New Map, revisto na Monthly Review por Richard Peet. Citando Peet:

O 11 de Setembro de 2001 foi uma prenda admirável, diz Barnett, tão retorcido e cruel quanto isto possa soar. Foi um convite da história para os Estados Unidos despertarem do sonho da década de 1990 e forçarem novas regras sobre o mundo. O inimigo não é nem a religião (Islão), nem lugares, mas a condição de desligamento (disconnectedness). Estar desligado neste mundo é estar isolado, privado, reprimido e não educado. Para Barnett estes sintomas de desligamento definem perigo. Dizendo simplesmente, se um país estiver a perder para a globalização, ou a rejeitar muito dos seus fluxos de conteúdo cultural, as probabilidades são que os Estados Unidos acabem por enviar tropas para ali… A visão estratégica nos Estados Unidos necessita focar o “número crescente de estados que reconhecem um conjunto de regras estáveis respeitantes à guerra e à paz” — o que é a condição sob a qual é razoável travar guerra contra inimigos identificáveis da “nossa ordem colectiva”. Expandir esta comunidade é uma simples questão de identificar a diferença entre os bons e os maus regimes e encorajar os maus a modificar os seus modos. Os Estados Unidos, pensa, têm a responsabilidade de usar o seu tremendo poder para tornar a globalização verdadeiramente global. De outro modo porções da humanidade estarão condenadas a um estatuto de marginalidade que eventualmente as definirá como inimigas. E após os Estados Unidos terem designado estes inimigos, invariavelmente travará a guerra com eles, desencadeando morte e destruição. Isto não é uma assimilação forçada, defende Barnett, nem a extensão do império; ao invés, isto é a expansão da liberdade. [6] (ênfase adicionada)

Evidentemente, esta “visão” raia a insanidade. As suas implicações brutais estão explicitadas numa entrevista dada por Barnett à revista Esquire: “O que significa esta nova abordagem para este país e para o mundo a longo prazo? Deixe-me ser muito claro em relação a isto: os rapazes nunca mais virão para casa. A América não sairá do Médio Oriente até que este se junte ao mundo. É tão simples como isto. Sem saída quer dizer sem estratégia de saída”. [7]

Na verdade, seria difícil apresentar as coisas de forma mais clara do que Barnett nesta entrevista e no seu livro. Desta forma podemos observar a idealização gratuita das presunções absurdas do “tremendo poder” dos EUA e a correspondente projecção da “globalização” como sendo a dominação nua da América, reconhecendo abertamente que os seus meios são ” morte e destruição “. E se alguém pensasse que Barnett é um escrevinhador inconsequente, ficaria bastante alarmado com os factos. Pois Barnett foi um investigador estratégico sénior no U.S. Naval War College em Newport, Rhodes Island, e um “homem de visão” no Office of Force Transformation ligado ao secretário da Defesa. Além disso, ele é apresentado com toda a seriedade como um “homem de visão” a ser ouvido e a ser seguido.

Infelizmente, os mais altos escalões do “pensamento estratégico” nos Estados Unidos estão povoados por tais “homens de visão”, que estão determinados a adicionar os seus maciços blocos de pavimento não de boas mas de muito más e agressivas intenções na estrada do inferno de Dante. Pois o grande poeta italiano nunca sugeriu que a estrada para o inferno de que falava fosse pavimentada exclusivamente por boas intenções. Segundo um destes perigosos “homens de visão”, Max Boot – que é membro sénior no prestigiado Council on Foreign Relations – “Qualquer nação empenhada em policiamento imperial deverá sofrer alguns revezes. O exército britânico, durante as pequenas guerras da Rainha Vitória, sofreu enormes derrotas com milhares de baixas na Primeira Guerra Afegã (1824) e na Guerra Zulu (1879). Isto não refreou apreciavelmente a determinação britânica de defender e expandir o império; tornou-os antes sedentos de vingança. Se os americanos não podem adoptar uma atitude igualmente cruel, então não podem assumir o policiamento imperial”. [8]

Neste tipo de “visão estratégica” agressiva é-nos oferecida a idealização aberta da construção do Império Britânico, incluindo os seus aspectos mais brutais. Cinicamente, em nome da “difusão da democracia e da liberdade”, a adopção irrestrita da passada violência colonial é recomendada como o modelo para a actual construção do império americano.

O que torna tudo isto particularmente perturbante é o facto de relativamente a todos os assuntos de grande importância – alguns dos quais podem resultar na destruição da humanidade – encontramos nos mais altos níveis de tomada de decisão política nos EUA um consenso absolutamente perverso. Isto é verdadeiro apesar dos rituais periódicos das eleições para a presidência assim como para o Congresso, onde é suposto oferecerem-se alternativas reais. Contudo, as diferenças afirmadas em tais assuntos vitais são, em regra, apenas pretensas diferenças. Como comentei em Dezembro de 2002, muito antes da invasão do Iraque, “O presidente democrata Clinton adoptou as mesmas políticas que o seu sucessor, ainda que de forma mais camuflada. Relativamente ao candidato presidencial democrata, Al Gore, ele declarou recentemente que apoiou sem reservas a guerra planeada contra o Iraque porque tal guerra não significava uma “mudança de regime” mas apenas “o desarmamento de um regime que possuía armas de destruição em massa”. [9] Além disso, não devemos esquecer que o primeiro presidente americano a bombardear o Afeganistão foi nem mais nem menos que o muitas vezes ridiculamente idealizado Bill Clinton. É portanto longe de surpreendente que o sucessor de Al Gore como candidato presidencial democrata, o senador John Kerry, se apressasse a declarar na última corrida presidencial, ecoando as palavras do seu oponente republicano George W. Bush, que “os americanos divergem sobre o se e o como devíamos ter ido para a guerra. Mas seria impensável agora para nós se nos retirássemos em desordem e deixando para trás uma sociedade mergulhada em disputa e dominada por radicais”. É compreensível, portanto, que o célebre escritor e crítico americano, Gore Vidal, tenha descrito a política dos EUA, com ironia amarga, como um sistema unipartidário com duas alas de direita.

Desafortunadamente, os EUA não são de forma alguma o único país que deveria ser caracterizado nestes termos. Há muitos outros onde as funções de tomada de decisão política são monopolizadas por acordos institucionais consensuais auto-legitimadores muito similares, com desprezível diferença (se alguma) entre eles, não obstante a mudança ocasional do pessoal ao nível do topo. Confinar-me-ei a este respeito à discussão de um caso proeminente, o Reino Unido (ou Grã-Bretanha). Este país em particular – tradicionalmente auto-promovendo-se como o país “mãe da democracia” por conta da histórica Magna Carta – sob a liderança de Tony Blair se habilita à mesma distinção dúbia de “um sistema unipartidário com duas alas de direita”, tal como o poderoso Estado norte-americano. A guerra do Iraque foi carimbada no Parlamento Britânico quer pelo Partido Conservador quer pelo “New Labor”, com a ajuda de mais ou menos óbvias manipulações e violações legais. Embora possamos agora ler que “Transcrições de provas apresentadas em privado pelo Procurador-geral, Lord Goldsmith, num inquérito oficial sugerem que o conselho crucial quanto à legalidade da guerra, apresentado ao parlamento em seu nome, foi escrito para ele por dois dos aliados mais próximos de Tony Blair … O anterior ministro das Relações Exteriores Robin Cook afirmou na noite passada que tendo-se demitido no dia anterior ao início da guerra, nunca ouviu Lord Goldsmith apresentar o processo legal no Conselho de Ministros. “Eu agora penso que ele nunca escreveu uma segunda opinião formal”, afirmou ao The Guardian. ” [10] Naturalmente, a subsequente exposição pública e condenação de tais práticas por eminentes peritos legais, relativamente à “guerra ilegal de Bush e Blair”, não faz qualquer diferença. [11] Pois os interesses encapotados do imperialismo hegemónico global – servidos sem hesitação e de forma vergonhosa pelo sistema político consensual de uma antiga grande potência imperialista – devem prevalecer a todo o custo.

As consequências desta forma de regular os intercâmbios políticos e sociais são de longo alcance. De facto, elas podem ter implicações devastadoras para as alegadas credenciais democráticas de todo o sistema legal. Três casos importantes devem bastar para ilustrar o ponto.

O primeiro diz respeito ao alarme criado por um escritor famoso, John Mortimer, que no passado foi um apoiante apaixonado do Partido Trabalhista Britânico, e não é de forma alguma uma figura socialmente radical. Contudo, à luz de desenvolvimentos políticos e legais recentes, e em particular devido à abolição do habeas corpus, salvaguarda legal crucialmente importante, ele sentiu a necessidade de protestar com igual paixão, escrevendo num artigo de jornal que “agora que o facto horrendo emergiu aquela ideia de ‘modernização’ do New Labour é forçar-nos a um período anterior à Magna Carta e à Bill of Rights, dias negros quando não havíamos chegado à presunção de inocência… Tony Blair parece ser a favor de condenações sumárias repartidas pela polícia sem a necessidade de qualquer julgamento num grande número de casos. Portanto descartaram-se séculos da constituição na qual temos tanto orgulho”. [12]

O segundo caso mostra como o governo britânico responde à crítica severa mesmo vinda dos mais altos órgãos judiciários: através da rejeição autoritária . Como foi tornado claro recentemente: “Um juiz de um alto tribunal qualificou ontem o sistema governamental de controlo de ordens contra suspeitos de terrorismo com ‘uma afronta à justiça’ e sentenciou que violava as leis dos direitos humanos… O Home Office rejeitou a sentença do tribunal “. [13]

Relativamente ao terceiro caso, indica uma questão de grande importância legislativa: a autoridade do próprio Parlamento, ameaçada pela “Reform Bill” do governo New Labour. Para citar John Pilger: “A Lei de Reforma Legislativa e Regulamentar já passou a sua segunda audiência parlamentar sem [despertar o] interesse da maioria dos deputados trabalhistas e dos jornalistas que cobrem aquela casa; contudo o seu objectivo é absolutamente totalitário … Significará que o governo poderá secretamente alterar o Parliament Act, e a constituição e as leis poderão ser revogadas por decreto da Downing Street. A nova lei marca o fim da verdadeira democracia parlamentar: nos seus efeitos, é tão significativa quanto o abandono da Bill of Rights pelo Congresso dos EUA no ano passado “. [14]

Porém a manipulação e a violação das leis internas e internacionais, para justificar o injustificável, acarreta perigos consideráveis até para as condições constitucionais mais elementares. As mudanças negativas – a remoção do escrutínio legal vital e das salvaguardas do quadro político e legal dos seus “aliados” – não podem ser confinadas ao contexto (imposto pelos EUA) internacional. Elas tendem a por em causa a constitucionalidade em geral, com consequências incontroláveis para a operacionalidade do sistema legal interno dos “aliados voluntários”, subvertendo as suas tradições políticas e legais. A arbitrariedade e o autoritarismo podem levar à loucura como resultado de tais mudanças altamente irresponsáveis que não hesitam em arruinar até mesmo a constituição estabelecida.

Um debate actual no Japão oferece um caso gritante:

Surgiu uma situação grave na qual as forças políticas a favor da revisão constitucional adversa estão realmente a competir entre si na redacção de uma nova constituição. A “minuta de uma nova Constituição” do LDP (o há muito governante Partido Democrático Liberal) … eliminou o segundo parágrafo do Artigo 9º da Constituição e adicionou uma cláusula autorizando o Japão a “manter a auto-defesa militar” para desempenhar “actividades coordenadas internacionalmente para assegurar a paz e a segurança da comunidade internacional,” abrindo portanto caminho ao Japão para a utilização da força no estrangeiro. Também contém uma cláusula para restringir direitos humanos fundamentais em nome do “interesse e da ordem públicas” o que leva à negação do constitucionalismo. Além disso, é também grave que a minuta de Constituição do LDP facilite a possibilidade de mais alterações adversas à Constituição aligeirando o requisito para o início do processo de revisão pelo Dieta passando de dois terços da maioria presente para apenas a maioria de todos os membros de cada câmara.

O objectivo imediato de tais mudanças é, obviamente, tornar o povo japonês o alimento “voluntário” para os canhões na guerra que decorre actualmente e nas futuras guerras do imperialismo americano. Mas pode alguém oferecer seguranças e garantias – ignorando a evidência dolorosa das aventuras imperialistas japonesas no passado, em conjunto com a sua muito repressiva história interna – de que a longo prazo não haverá consequências humanas horrendas resultantes destas mudanças?

Entretanto tantos problemas sérios gritam por soluções genuínas, as quais poderiam muito bem estar ao nosso alcance. Alguns deles têm-nos acompanhado ao longo de várias décadas, impondo terrível sofrimento e sacrifícios a milhões de pessoas. A Colômbia é um exemplo actual. Durante quarenta anos as forças de opressão – interna e externa, dominadas pelos EUA – tentaram sufocar a luta do povo colombiano, sem êxito. Tentativas de se chegar a um acordo negociado – “com a participação de todos os grupos sociais, sem excepção, de forma a reconciliar a família colombiana”, nas palavras de Manuel Marulanda Velez, o líder das FARC-EP – foram sistematicamente frustradas. [16] Como escreveu Velez numa carta aberta dirigida recentemente a um candidato presidencial: “Nenhum governo, liberal ou conservador, produziu uma solução política eficaz para o conflito armado e social. As negociações foram usadas para se atingir o objectivo de não alterar coisa alguma, para que tudo permanecesse igual. Todos os esquemas políticos dos governos utilizaram a Constituição e as leis como uma barreira, para se assegurarem de que tudo se mantinha da mesma forma que antes”. [17]

Assim, quando os interesses sociais dominantes o ditam, a “constitucionalidade” e as regras do “consenso democrático” são usadas na Colômbia (e em qualquer parte) como instrumentos cínicos para a fuga e o adiamento eterno da solução mesmo dos assuntos mais candentes, independentemente da enormidade da escala de sofrimento imposto, como resultado, ao povo. E, da mesma forma, num contexto social diferente mas sob o mesmo tipo de determinações estruturais profundamente enraizadas, até as mais flagrantes e abertamente admitidas violações da constitucionalidade estabelecida são ignoradas, apesar do ritual periódico do falso elogio devido à necessidade de respeitar os requisitos constitucionais. Neste sentido, quando o Comité do Congresso que investigava o “Irangate Contra Affairs” concluiu que a administração Reagan era responsável pela ” subversão da Lei e o enfraquecimento da Constituição “, absolutamente nada aconteceu para condenar, quanto mais remover do cargo, o presidente culpado. E ainda num outro tipo de caso – como vimos na determinação para subverter a Constituição japonesa por parte do partido governante LDP – quando as cláusulas da constituição originais aparecem como obstáculos ao embarque em novas aventuras militares perigosas, os interesses dominantes políticos e sociais do país impõem um novo quadro legal cuja função principal é liquidar as anteriormente proclamadas garantias democráticas e transformar aquilo que anteriormente era decretado como ilegal em “legalidade constitucional” arbitrariamente institucionalizada. Tão pouco deveríamos esquecer o que tem acontecido num sentido muito adverso, e na sua tendência perigosamente autoritária, à constitucionalidade britânica e americana durante estes últimos anos.

Como indiquei no início, não podemos atribuir os problemas crónicos dos nossos intercâmbios sociais a mais ou menos facilmente corrigíveis contingências políticas. Está demasiado em jogo, e temos historicamente um tempo limitado à nossa disposição para remediar, de uma forma socialmente sustentável, os muitos sofrimentos óbvios das classes sociais estruturalmente subordinadas. A questão do porquê? – relativamente a problemas substantivos, e não simplesmente os insucessos pessoais contingentes, mesmo quando são sérios, como são os muitas vezes destacados exemplos de corrupção política generalizada – não pode ser evitada indefinidamente. É necessário investigar as causas sociais e as determinações estruturais nas raízes das perturbadoras tendências negativas na política e na lei; de forma a se poder explicar a sua teimosa persistência e o seu agravamento actual. O problema do porquê é o que pretendo agora analisar.

2. A natureza da crise estrutural do capital

A este respeito é necessário clarificar as diferenças relevantes entre tipos ou modalidades de crise. Não é uma questão indiferente se uma crise na esfera social pode ser considerada uma crise periódica / conjuntural ou alguma coisa muito mais fundamental que isso. Pois, obviamente, a forma de lidar com uma crise fundamental não pode ser conceptualizada em termos de categorias de crise periódica ou conjuntural.

Para antecipar um ponto principal desta palestra, na medida do que à política diz respeito a diferença crucial entre os dois tipos nitidamente contrastantes de crise em questão é o facto de que uma crise periódica ou conjuntural evolui e é mais ou menos resolvida com êxito num determinado enquadramento político, enquanto que a crise fundamental afecta aquele enquadramento em si mesmo na sua totalidade. Por outras palavras, relativamente a um determinado sistema sócio-económico e político estamos a falar acerca da diferença vital entre as mais ou menos frequentes crises na política, por oposição às crises da própria modalidade de política estabelecida, com requisitos qualitativamente diferentes para a sua possível solução. É com estas últimas que estamos hoje preocupados.

Em termos gerais, esta distinção não é simplesmente uma questão da aparente severidade dos tipos de crise contrastantes. Pois uma crise periódica ou conjuntural pode ser dramaticamente severa – como a “Grande Crise Económica Mundial de 1929-1933″ acabou por ser – e contudo ser capaz de uma solução dentro dos parâmetros de um determinado sistema. Interpretar incorrectamente a severidade de uma determinada crise conjuntural como se ela fosse uma crise sistémica fundamental, como Estaline e os seus conselheiros fizeram a meio da “Grande Crise Económica Mundial de 1929-1933″, está condenado a levar a estratégias erradas e na verdade voluntaristas, como declarar a social-democracia como sendo a “principal inimiga” no início dos anos 30, o que apenas poderia reforçar, como de facto tragicamente aconteceu, as forças de Hitler. E do mesmo modo, mas no sentido oposto, o carácter “não explosivo” de uma crise estrutural prolongada, em contraste com as “tempestades de trovões” (Marx) através das quais crises periódicas de conjuntura podem descarregar-se resolverem-se, pode também conduzir a estratégias fundamentalmente mal concebidas, como resultado da má interpretação da ausência de “trovões” como se a sua ausência fosse a prova esmagadora de uma estabilidade indefinida do “capitalismo organizado” e da “integração da classe trabalhadora”. Este tipo de má interpretação, altamente promovida pelos interesses ideológicos dominantes sob a capa de “objectividade científica”, tende a reforçar a posição daqueles que representam a aceitação auto-justificante de abordagens reformistas acomodatícias nos institucionalizados – anteriormente genuinamente de oposição – partidos e sindicatos da classe trabalhadora (agora, contudo, “Oposição Oficial a Sua Majestade,” como diz o ditado). Mas até entre os críticos comprometidos do sistema capitalista mais profundamente, a mesma má interpretação relativamente à perspectiva indefinidamente livre de crise da ordem estabelecida pode resultar na adopção de uma postura defensiva auto-paralisante, como testemunhámos no movimento socialista nas últimas décadas.

Não pode ser suficientemente sublinhado que a crise da política no nosso tempo não é inteligível sem ser referida ao enquadramento social mais vasto do qual a política é parte integrante. Isto quer dizer que para se poder clarificar a natureza da crise persistente e em aprofundamento da política no mundo hoje devemos focar a nossa atenção na crise do próprio sistema capitalista. Pois a crise do capital que estamos a experimentar – pelo menos desde o início da década de 1970 – é uma crise estrutural universal. [18]

Vejamos, resumidas de forma tão breve quanto possível, as características definidoras da crise estrutural com a qual nos preocupamos.

A novidade histórica da crise actual é manifestada através de quatro aspectos principais:

# (1) o seu carácter é universal, em vez de restrito a uma esfera particular (por exemplo, financeira, comercial, ou afectando apenas este ou aquele ramo específico da produção, ou que se aplica a este em vez daquele outro tipo de trabalho, com o seu alcance específico de habilidades ou graus de produtividade, etc);
# (2) o seu âmbito é verdadeiramente global (no sentido literal mais ameaçador do termo), em vez de confinado a um conjunto particular de países (como foram todas as grandes crises ocorridas no passado);
# (3) a sua escala temporal é prolongada, contínua – se preferirem: permanente – ao invés de limitada e cíclica, como acabaram por ser todas as anteriores crises do capital.
# (4) o seu modo de evolução pode ser chamado de rastejante – em contraste com as mais espectaculares e dramáticas erupções e colapsos do passado – enquanto se soma à condição de que mesmo as convulsões mais veementes ou violentas não podem ser excluídas relativamente ao futuro; quer dizer, quando a complexa maquinaria agora activamente empenhada na “gestão da crise” e no mais ou menos temporário “deslocamento” das contradições em crescimento ficar sem vapor…

[Aqui] é necessário fazer algumas observações gerais acerca do critério de uma crise estrutural, assim como acerca das formas como a sua solução pode ser encarada.

Colocando isto em termos mais simples e muito gerais, uma crise estrutural afecta a totalidade de um complexo social, em todas as suas relações com as suas partes constituintes ou sub-complexos, assim como com outras complexos com os quais está ligado. Em contraposição, uma crise não-estrutural afecta apenas algumas partes do complexo em questão, e portanto não importa quão severa possa ser relativamente às partes afectadas, não pode colocar em perigo a sobrevivência continuada da estrutura global.

Consequentemente, o deslocamento das contradições é factível apenas enquanto a crise é parcial, relativa e internamente controlável pelo sistema, exigindo não mais do que mudanças – ainda que significativas – dentro do próprio sistema relativamente autónomo. Do mesmo modo, uma crise estrutural põe em causa a própria existência do respectivo complexo global, postulando a sua transcendência e substituição por algum complexo alternativo.

O mesmo contraste pode ser expresso em termos dos limites que qualquer complexo social particular possa ter nas suas proximidades, em qualquer tempo dado, quando comparados com aqueles para além dos quais concebivelmente não pode ir. Assim, a crise estrutural não está preocupada com os limites imediatos mas sim com os derradeiros limites de uma estrutura global…. [19]

Assim, num sentido razoavelmente óbvio nada pode ser mais sério que a crise estrutural do modo social de reprodução metabólica do capital o qual define os derradeiros limites da ordem estabelecida. Mas apesar de profundamente sério em todos os seus importantes parâmetros gerais, à sua superfície a crise estrutural pode não parecer ser de uma importância tão decisiva quando comparada com as dramáticas vicissitudes de uma grande crise conjuntural. Pois os “trovões” através das quais as crises conjunturais se descarregam são especialmente paradoxais no sentido de que no seu modo de desdobramento elas não só se descarregam (e impõem) mas também se resolvem a si próprios, até ao ponto em que isso é possível tendo em conta as circunstâncias. Eles podem fazer isto precisamente devido ao seu carácter parcial que não põe em questão os limites derradeiros da estrutura global estabelecida. Ao mesmo tempo, todavia, e pela mesma razão, eles apenas podem ” solucionar ” os problemas estruturais subjacentes profundamente enraizados – os quais necessariamente se reafirmam reiteradamente na forma de crises conjunturais específicas – de uma forma estritamente parcial e também temporalmente bastante limitada. Isto é, até que a crise conjuntural seguinte surja no horizonte da sociedade.

Em contraste, tendo em conta a inevitavelmente complexa e prolongada natureza da crise estrutural, a desdobrar-se em tempo histórico num sentido de época e não episódico/instantâneo, é a inter-relação cumulativa do todo que decide a questão, ainda que sob a falsa aparência de ” normalidade “. Isto porque na crise estrutural tudo está em jogo, envolvendo os limites derradeiros universais de uma dada ordem da qual não pode possivelmente haver uma ocorrência “simbólica/paradigmática” específica. Sem se compreender as conexões sistémicas globais e as implicações dos eventos específicos e os seus desenvolvimentos perdemos de vista as mudanças realmente significativas e as correspondentes alavancas de potencial intervenção estratégica para afectá-las positivamente, no interesse da necessária transformação sistémica. A nossa responsabilidade social consequentemente requer uma consciência crítica intransigente da inter-relação cumulativa emergente, ao invés de procurar garantias reconfortantes no mundo da normalidade ilusória até a casa desabar sobre as nossas cabeças.

Dada a crise estrutural do capital no nosso tempo, seria um milagre absoluto se essa crise não se manifestasse – e de facto num sentido profundo e amplamente abrangente – no domínio da política. Pois a política, em conjunto com o seu enquadramento legal correspondente, ocupa uma posição vitalmente importante no sistema do capital. Isto deve-se ao facto de o estado moderno ser a estrutura de comando político totalizadora do capital, exigida (enquanto a ordem reprodutiva agora estabelecida sobreviver) de forma a introduzir algum tipo de coesão (ou uma unidade de funcionamento eficaz) – mesmo numa bastante problemática e periodicamente avariada – dentro da multiplicidade de constituintes centrífugos (o “microcosmos” produtivo e distributivo) do sistema do capital.

Esta espécie de coesão só pode ser instável porque depende da sempre predominante, mas pela sua própria natureza mutável, relação de forças. Uma vez rompida essa relação de forças, ela tem de ser reconstruída de alguma maneira, para corresponder à nova relação de forças. Quer dizer, até que seja rompida novamente. E isto repete-se vezes sem conta, como algo rotineiro tido como garantida. Esta espécie de dinâmica problematicamente auto-renovadora aplica-se tanto internamente, entre as forças dominantes de países específicos, e internacionalmente, exigindo reajustamentos periódicos de acordo com as relações de forças cambiantes entre a multiplicidade de estados na ordem global do capital. Foi assim que o capital dos EUA pôde adquirir o seu domínio global durante o século XX, em parte através da dinâmica interna do seu próprio desenvolvimento, e em parte através da imposição progressiva da sua superioridade imperialista sobre as enormemente enfraquecidos potências imperialistas anteriores – sobretudo a Grã-Bretanha e a França – durante e após a Segunda Guerra Mundial.

A grande questão a este respeito é: por quanto tempo pode este tipo de quebra e de reconstrução da coesão em funcionamento do sistema dado ser executado sem activar a crise estrutural do capital? O reajustamento forçado da relação de forças inter-estatal não parece constituir um limite derradeiro a este respeito. Afinal de contas, devemos lembrar-nos que a humanidade teve que, e fê-lo, suportar os horrores de duas Guerras Mundiais sem pôr em questão a adequação do capital para permanecer como o controlador sistémico da nossa reprodução social metabólica. Isto poderia não só ser considerado compreensível mas, pior que isso, também aceitável, pois sempre fez parte da normalidade do capital determinar que “deve haver guerra se o adversário não puder ser subjugado de nenhuma outra forma”. Contudo, o problema é que este tipo de “raciocínio” – que nunca foi mais “racional” que a afirmação categórica de que “o mais forte prevalece, sejam quais forem as consequências” – é agora totalmente absurdo. Pois uma Terceira Guerra Mundial não poderia parar no ponto de apenas subjugar o adversário denunciado. Ela destruiria a totalidade da humanidade. Quando Albert Einstein foi questionado sobre a espécie de armas com que seria combatida a Terceira Guerra Mundial, a sua resposta foi de que não poderia dizer isso, mas ele poderia garantir absolutamente que todas as guerras subsequentes seriam combatidas com machados de pedra.

O papel da política na reconstituição da coesão necessária sempre foi grande no sistema do capital. Muito simplesmente, um tal sistema não poderia ser mantido sem ela. Pois ele teria tendência a desfazer-se em pedaços sob a força centrifugadora das suas partes constituintes. O que aparece em geral sob a normalidade do capital como uma grande crise política, num sentido mais profundo deve-se à necessidade de produzir uma nova coesão ao nível societário global, de acordo com as materialmente modificadas – ou em modificação – relações de forças. Assim, por exemplo, as tendências monopolizadoras do desenvolvimento não podem ser simplesmente deixadas a si próprias sem provocar enormes problemas por toda a parte. Elas devem ser de alguma forma trazidas para um enquadramento relativamente coeso através da política – a estrutura de comando totalizadora do capital. Isto deve ser feito mesmo se os passos regulatórios adoptados como demonstração muitas vezes não passam senão de uma flagrante racionalização e justificação ideológica da nova relação de forças, a ser ainda mais favorável às corporações monopolistas (ou quase-monopolistas) como determina a tendência subjacente. Naturalmente, os desenvolvimentos monopolísticos internacionais têm lugar com base na mesma espécie de determinações. Mas todos estes processos são em princípio compatíveis com a normalidade do capital, sem resultar necessariamente em crise estrutural no sistema. Nem, de facto, na crise estrutural da política. Pois, no que diz respeito à questão da crise, estamos ainda a falar sobre a crise na política – ou seja, crises específicas que se desdobram e se resolvem por si próprias dentro dos parâmetros administráveis do sistema político estabelecido – e não sobre a crise da política.

As instituições políticas estabelecidas têm a importante função de gerir, e em certo sentido até mesmo de rotinizar, a maneira mais conveniente ou duradoura de reconstituir a necessária coesão social, em sintonia com os contínuos desenvolvimentos materiais e a correspondente relação de forças cambiante, activando ao mesmo tempo também o arsenal cultural e ideológico disponível ao serviço daquele fim. Nas sociedades democráticas capitalistas este processo no domínio político é habitualmente gerido na forma de eleições parlamentares periódicas mais ou menos contestadas genuinamente. Mesmo quando os necessários reajustamentos reconstitutivos não podem ser contidos dentro de tais parâmetros ordeiros, devido a algumas mudanças significativas na relação de forças subjacente, trazendo com elas tipos ditatoriais de intervenção política/militar, ainda podemos falar de crise na política que pode ser contida pelo capital, desde que mais cedo ou mais tarde possamos observar um retorno à característica “constitucionalidade democrática” da normalidade do capital. Além disso, tais desenvolvimentos são frequentemente controlados em grande extensão a partir do estrangeiro, como testemunham na América Latina os numerosos exemplos de governos de gestão autoritária inspirados pelos EUA.

Isto, está claro, é um assunto inteiramente diferente quando processos profundamente autoritários e tendências de desenvolvimento começam a prevalecer não em regiões subordinadas mas no núcleo interno – as partes estruturalmente dominantes – do sistema do capital global. Nesse caso, o padrão anterior do “duplo critério”, que consiste em dominar brutalmente outros países (mesmo de forma militar e imperialista) enquanto em casa vigoram “regras do jogo democráticas”, incluindo a plena observância da constitucionalidade, torna-se não mais administrável. O deslocamento das contradições é uma aspiração sistémica do capital, enquanto for praticável. Dadas as hierarquias estruturais que prevalecem e devem prevalecer em qualquer época determinada também nas relações inter-estatais, faz parte da normalidade do sistema que os países dominantes tentem exportar – na forma de intervenções violentas, incluindo guerras – as suas contradições internas para outras, menos poderosas, partes do sistema. Isto eles fazem-no na esperança de fortalecer internamente, e em meio a enormes choques intensificando-se mesmo através das fronteiras de classes, a necessária coesão social.

Contudo, isto torna-se cada vez mais difícil – não obstante todas as mitologias em causa própria acerca da “globalização universalmente benéfica” – quanto mais globalmente entrelaçado se torna o sistema capitalista. Como resultado, têm de se desenvolver mudanças significativas, com sérias consequências por toda a parte. Pois a preocupação primária do país esmagadoramente dominante, actualmente os Estados Unidos, é assegurar e reter o controlo sobre o sistema capitalista global, como o supremo poder do imperialismo hegemónico global. Mas tendo em conta os custos materiais e humanos proibitivos envolvidos, que têm de ser pagos de uma forma ou de outra, este desígnio de dominação global inevitavelmente traz consigo imensos perigos assim como a resistência implícita, não só internacionalmente mas também internamente. Por esta razão, a fim de manter o controlo autoritário sobre o sistema do capital como um todo, sob as condições de uma crise estrutural em aprofundamento inseparável da globalização capitalista no nosso tempo, as inconfundíveis tendências autoritárias têm de se intensificar não só no plano internacional mas também dentro dos países imperialistas dominantes, de forma a subjugar toda a provável resistência. As graves violações da constitucionalidade a que já assistimos nos Estados Unidos e no enquadramento legal/político dos seus aliados próximos, e o que provavelmente assistiremos mais no futuro, como pressagiado nas medidas e cláusulas legais codificadas até à data, ou ainda sob uma enviesada “consideração” particularmente no pipeline legislativo cinicamente manipulado, são indicações claras desta tendência perigosa, sob o impacto da crise estrutural do capital.

Um exemplo revelador da manipulação legislativa tendenciosa é a forma como leis importantes são redigidas pelo ramo executivo do governo. Não surpreendentemente, portanto, um juiz de um Supremo Tribunal na Grã-Bretanha teve que se queixar acerca uma questão vital de direitos humanos dizendo que “as leis aprovadas tinham sido redigidas de tal forma que impedia os tribunais de inverter as ordens de controlo… O juiz afirmou que Charles Clarke [o secretário do Interior britânico na época] havia tomado a decisão de emitir a ordem com base em informação unilateral, mas foi incapaz de encarar circunstâncias que permitissem ao tribunal revogar a decisão do secretário do Interior. Como resultado, disse o juiz, ele teria de manter a ordem em vigor, apesar de ter decidido que violava a lei dos direitos humanos. [20]

No período pós-Segunda Guerra Mundial, “o fim do imperialismo” foi celebrado, um tanto apressadamente e ingenuamente. Pois na realidade apenas vimos um há muito devido reajustamento na relação de forças internacional, em linha com a maneira como as relações de poder políticas e sócio-económicas se tinham objectivamente transformado antes e durante a Segunda Guerra Mundial, como previsto já numa passagem-chave do First Inaugural Adress do Presidente Roosevelt a defender a “política da porta aberta” em todo o lado, incluindo os então territórios coloniais. O reajustamento do pós-guerra trouxe consigo, obviamente, a relegação das antigas potências coloniais à segunda e terceira divisão, como forças subordinadas do imperialismo americano. Porém, durante um considerável número de anos – no período pós-guerra da reconstrução e relativamente imperturbada expansão económica que ajudou ao estabelecimento com êxito e ao financiamento do estado providência – a mudança mais significativa apregoada pela resolutamente instituída “política da porta aberta” (isto é, aberta aos Estados Unidos) foi combinada com a ilusão de que o próprio imperialismo fora para sempre relegado ao passado. Além disso, foi também combinada com a ideologia amplamente difundida, infectando pesadamente não só os intelectuais mas também alguns movimentos organizados importantes da esquerda tradicional, segundo a qual a crise da ordem política e sócio-económica estabelecida (admitida apenas até pouco antes da guerra), pertencia irreparavelmente ao passado. Esta ideologia foi promovida – em conjunto com a sua irmã gémea ideológica que anunciava “o fim da ideologia” – com base na assumpção gratuita de que agora vivíamos num mundo de “capitalismo organizado” que obtivera êxito no domínio das suas contradições numa base permanente.

Tinha que haver um despertar brusco, também na política e na ideologia, quando a crise estrutural universal e em aprofundamento do sistema do capital se declarou. Em 1987, quando houve uma grande crise nas bolsas de valores internacionais, os bancos mercantis argumentaram numa discussão pública televisiva que a razão daquela crise era a recusa dos EUA em fazer algo quanto à sua dívida astronómica. O banqueiro americano retorquiu agressivamente na discussão que eles deviam apenas esperar até os Estados Unidos começarem a fazer alguma coisa quanto à sua dívida, e então eles iriam ver a enormidade da crise que explodiria na sua cara. E num certo sentido ele estava certo. Pois era extremamente ingénuo imaginar que a Europa poderia isolar-se convenientemente do impacto brutal em todos os aspectos da cronicamente não resoluta crise estrutural global da qual a dívida dos EUA é apenas um aspecto, que envolve completamente a cumplicidade interesseira dos países credores.

Nas últimas duas décadas temos observado o regresso de um imperialismo claramente flagrante com uma vingança, depois de por muito tempo se ter camuflado com êxito como o mundo pós-colonial de “democracia e liberdade”. E sob as circunstâncias agora predominantes ele assumiu uma forma particularmente destrutiva. Agora domina a etapa histórica casado com a afirmação aberta da necessidade de se envolver, no presente e no futuro, em “guerras ilimitadas”. Além disso, como mencionado anteriormente, nem mesmo receou decretar a “legitimidade moral” da utilização de armas nucleares – de forma “antecipativa” e “preventiva” — mesmo contra países que não possuem tais armas.

Desde o começo da crise estrutural do capital no princípio da década de 1970, os graves problemas do sistema têm estado a acumular-se e a piorar em todos os campos, e não menos no domínio da política. Apesar de, contrariamente a todas as evidências, a lavagem cerebral da “globalização universalmente benéfica” continuar a ser propagandeado por toda a parte, não possuímos órgãos políticos internacionais viáveis capazes de reparar as consequências visíveis claramente negativas das tendências de desenvolvimento em curso. Até o limitado potencial das Nações Unidas é anulado pela determinação americana de impor ao mundo as políticas agressivas de Washington, como aconteceu no começo da guerra do Iraque sob falsas alegações.

Actuando desta forma o governo dos EUA assumiu arbitrariamente para si próprio o papel incontestável de ser o governo global do sistema do capital como um todo, imperturbado pelo pensamento do necessário fracasso derradeiro de um tal desígnio. Pois não é suficiente desencadear uma “força esmagadora”, como prescreve a doutrina militar dominante, destruindo o exército da outra parte e infligindo no curso das aventuras militares empreendidas um enorme “dano colateral”, como é obscenamente chamado, a toda a população. A ocupação e dominação permanente e sustentável – incluindo a imperturbada e lucrativa exploração económica – dos países atacados deste modo é um assunto completamente diferente. Imaginar que mesmo a maior super-potência militar poderia fazer isto, como “normalidade forçada” imposta a todo o mundo, e assim imposta como situação inalterável da “nova ordem mundial”, é uma proposição totalmente absurda.

Infelizmente, os acontecimentos e desenvolvimentos têm apontado para esta direcção desde há muito tempo. Pois não foi o presidente George W. Bush mas o presidente Bill Clinton que arrogantemente declarou que ” apenas existe uma nação necessária, os Estados Unidos da América “. Os neocons apenas quiseram pôr em prática, e reforçar, essa crença. Mas mesmo os chamados liberais não puderam pregar nada mais positivo que o mesmo credo pernicioso, com o mesmo espírito geral. Eles queixavam-se de que temos hoje no muno “demasiados Estados”, e defendiam uma chamada integração jurisdicional como a solução viável de tal problema. [21] Quer dizer, uma grotescamente apelidada “integração jurisdicional” que realmente significaria a pseudo-legitimação de um controlo directo autoritário dos deplorados “Estados a mais” por menos do que um punhado de potências imperialistas, sobretudo os Estados Unidos. Este conceito, apesar da sua terminologia ofuscante, não é muito diferente da teorização de Thomas P. M. Barnett sobre como lidar com a lastimada “condição de desconexão ” citada acima.

Se hoje existem “Estados a mais”, eles não podem ser eliminados da existência. Nem podem ser destruídos através da devastação militar, para se estabelecer com base nisto a felicidade globalizada da “nova normalidade”. Os interesses nacionais legítimos não podem ser reprimidos indefinidamente. De todos os lugares no mundo, o povo da América Latina pode atestar eloquentemente esta verdade.

A crise estrutural da política é uma parte integrante da há muito supurada crise estrutural do sistema capitalista. É omnipresente e, consequentemente, não pode ser resolvida através da manipulação auto-perpetuadora e apologética de qualquer dos seus aspectos políticos isolados. Muito menos poderia ser resolvida através da manipulação da própria constitucionalidade, da qual podemos observar muitos exemplos alarmantes. Nem mesmo pela subversão e abolição de uma vez da constitucionalidade. Se os juízes do Supremo Tribunal Britânico e os magistrados italianos podem protestar contra tais tentativas, independentemente de quão agressivamente os Berlusconis deste mundo os censurem mesmo três dias antes de umas eleições gerais, então também nós podemos fazer o mesmo, com consciência crítica do que está em jogo. [22] O nosso modo estabelecido de controlo metabólico social está em crise profunda, e pode ser remediado apenas através da instituição de outro radicalmente diferente, baseado na igualdade substantiva que se torna de facto possível no nosso tempo, pela primeira vez na história. Muitas pessoas criticam com razão os dolorosamente óbvios fracassos da política parlamentar. Mas também em relação a isto, o necessário reequacionamento do parlamentarismo passado e presente não pode levar a resultados sustentáveis sem ser inserido no seu enquadramento mais amplo, como parte integrante da pretendida nova ordem metabólica social, inseparável das exigências de igualdade substantiva.

Muitas pessoas concordam hoje em que — devido à sua escalada de destruição até mesmo no plano ambiental, assim como na esfera da produção e da esbanjadora acumulação do capital, para não mencionar as crescentes manifestações directas da mais irresponsável destruição militar — a nossa ordem metabólica social não é viável a longo prazo. Contudo, o que tem de ser trazido para o primeiro plano da nossa consciência crítica quanto às tendências de desenvolvimento em andamento e ao seu impacto cumulativo é o facto de que o longo prazo se está a tornar cada vez mais curto no nosso tempo. A nossa responsabilidade é fazermos alguma coisa quanto a isto antes que se acabe o tempo.

Notas:
[1] István Mészáros, Socialism or Barbarism (New York: Monthly Review Press, 2001), 40.
[2] “Seymour Hersh relata que uma das opções envolve o uso de uma arma nuclear táctica destruidora de bunkers, tal como a B61-11, para assegurar a destruição da principal unidade de centrífugação do Irão, em Natanz”. Sarah Baxter, “Gunning for Iran”, The Sunday Times, 9 de Avril, 2006.
[3] Esta iniciativa de 17 de Abril de 2006 foi antecedida, no Outono de 2005, por uma petição assinada por mais de 1800 físicos em que repudiavam as novas políticas de armamento nuclear dos EUA que incluem o uso antecipativo (preemptive) de armas nucleares contra adversários “não-nucleares”, http://www.globalresearch.ca .
[4] John Pilger criticou correctamente o primeiro ministro Tony Blair neste ponto. Ele escreveu que: “Blair demonstrou o seu gosto pelo poder absoluto com o seu abuso da Prerrogativa Real, a qual ele tem utilizado para ultrapassar o parlamento ao ir para a guerra”. O artigo de Pilger do qual esta passagem é retirada foi publicado no New Statesman, 17 de Abril, 2006. Podemos também acrescentar que tais dispositivos como a “Prerrogativa Real”, assim como os seus igualmente problemáticos equivalentes em outras constituições, foram inventados no seu todo precisamente com o objectivo de serem abusados, como cláusulas de escape autoritário auto-legitimador que podem arbitrariamente anular as exigências democráticas em circunstâncias difíceis, ao invés de aumentarem os poderes democráticos da tomada de decisão, como deveria ser o caso em situações de crise significativa.
[5] Baxter, “Gunning for Iran”.
[6] Richard Peet, “Perpetual War for a Lasting Peace”, Monthly Review (Janeiro de 2005), 55-56.
[7] Peet, “Perpetual War for a Lasting Peace”.
[8] Max Boot, Savage Wars of Peace, citado em “The Failure of Empire”, os Editores, Monthly Review (Janeiro de 2005), 7.
[9] István Mészáros, O século XXI, socialismo ou barbárie (São Paulo: Boitempo, 2003) 10.
[10] “Transcrições mostram a mão do n.º 10 no aconselhamento jurídico da guerra” The Guardian, 24 de Fevereiro de 2005. Devia mencionar-se aqui em jeito de esclarecimento que a primeira opinião de Lord Smith era altamente céptica da legalidade da guerra em questão.
[11] Philippe Sands, Lawless World (Londres: Penguin Books, 2005).
[12] John Mortimer, “Não posso acreditar que um Governo Trabalhista estaria tão pronto a destruir a nossa lei, a nossa liberdade de expressão e os nossos direitos civis”, The Mail on Sunday, 2 de Outubro, 2005.
[13] “Terror Law na affront to justice”, The Guardian, 13 de Abril, 2006.
[14] “John Pilger vê a liberdade morrer em silêncio”, New Statesman, 17 de Abril, 2006.
[15] Japan Press Weekly (Março de 2006), 26.
[16] Manuel Marulanda Velez, “Carta enviada pelo líder histórico das FARC da Colômbia a Álvaro Leyva, candidato às Eleições Presidenciais marcadas para 24 de Maio de 2006″, http://resistir.info/colombia/marulanda_abr06.html , Abril de 2006.
[17] Vélez, “Carta enviada pelo líder histórico das FARC da Colômbia”.
[18] Escrevi em Novembro de 1971, no prefácio da terceira edição de Theory of Alienation de Marx, que o desdobramento dos acontecimentos e desenvolvimentos “sublinhava dramaticamente a intensificação da crise estrutural global do capital “.
[19] István Mészáros, Beyind Capital, 680-82. No capítulo 18 o assunto é discutido com muito maior pormenor.
[20] “Terror Law an affront to justice”, The Guardian, 13 de Abril, 2006. Outro artigo no mesmo número do The Guardian, de Tania Branigan, correspondente política do jornal, noticiava que “Críticos afirmam que a Lei da Reforma Legislativa e da Regulação iria permitir que o governo alterasse praticamente todas as leis que desejasse – até mesmo introduzindo novos tipos de crimes ou alterando a constituição – sem escrutínio… os Tories e os Lib Dem baptizaram-na de «lei da abolição do escrutínio parlamentar.»”
[21] Martin Wolf, Why Globalization Works? (New Haven: Yale University Press, 2004).
[22] Giorgio Ruffolo, “Un paese danneggiato”, La Republica, 7 de Abril, 2006.

[*] Autor de Socialism or Barbarism: From the “American Century” to the Crossroads (2001) e Beyond Capital: Toward a Theory of Transition (1995), publicados pela Monthly Review Press. Este ensaio constituiu o discurso de abertura do 13º Congresso Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho, em Maceió, Brasil, 04/Maio/2006.

O original encontra-se na Monthly Review, vol. 58, nº 4, Setembro/2006 e em www.globalresearch.ca/ . Tradução de TB.

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Dialética da empulhação

César Benjamin

O ser humano foi definido, até hoje, de muitas maneiras. Ele é “o animal que trabalha” (Marx), “o animal não fixado” (Nietzsche), “o animal que troca” (Simmel), “o animal que fala” (Saussurre), e assim sucessivamente, conforme o enfoque predominante em cada pensador. (Nenhuma definição é suficiente: sendo criador de cultura, o homem está sempre recriando a si próprio.) Uma leitura livre de uma passagem da Fenomenologia do Espírito, de Hegel, permite propor outra definição, igualmente parcial: o homem é “o animal que erra”. Em versão mais forte, é “o animal que mente”. “Se a natureza comete um erro, ela o elimina. Só os erros cometidos pelo homem perduram indefinidamente e se propagam longe, graças à linguagem. Pode-se definir o homem como um erro que se mantém na existência, que perdura na realidade (…). O homem é o único [animal] que pode enganar-se sem, por isso, ter de desaparecer: pode continuar a existir, mesmo enganado a respeito do que existe; pode viver seu erro ou no erro; o erro ou o falso, que nada são em si mesmos, nele se tornam reais.” Para que seja assim, como Hegel enfatiza, são imprescindíveis os artifícios da linguagem. “Mostra-me como argumentas e te direi quem és”, alguém poderia dizer. A forma da argumentação, freqüentemente, revela mais do que o conteúdo que ela pretende expressar.
Ninguém pode afirmar, com absoluta certeza, onde o governo Lula está errando, onde está acertando. “Pãos ou pães”, dizia Guimarães Rosa, “é questão de opiniães.” Mas podemos dizer, sem medo de errar, que suas formas de argumentação mais recorrentes denunciam uma patologia grave.
A primeira dessas formas - também muito usada, contra a esquerda, por colunistas da imprensa - tem como ponto de partida a criação de um interlocutor imaginário, perfeitamente idiota, feito sob medida para ser demolido. Cada vez mais, as autoridades ou seus porta-vozes iniciam suas falas e artigos criticando “os que defendem a volta da inflação”, “os que acham que o Brasil deve isolar-se do mundo”, “os que cobram que em poucos meses o novo governo solucione todos os problemas do país”, “os que desejam mudar tudo de uma só vez”, e assim por diante. Em seguida, com muita paciência e alguma comiseração, dedicam-se a demonstrar que a inflação não é coisa boa, que o Brasil é parte do mundo, etc., etc., etc., e crêem que isso basta para justificar as políticas que resolveram adotar. O procedimento demonstra, no entanto, coisa bem diferente, pois a suprema imbecilidade desses interlocutores imaginários denuncia a estatura intelectual de quem precisa recorrer a eles para construir o seu próprio discurso.
A segunda forma recorrente - a preferida de Lula - é o uso de analogias como se fossem argumentos. Com irritante freqüência, decisões sobre temas específicos e bem definidos, que interferem no destino da sociedade brasileira atual, são justificadas da seguinte maneira: “um Boeing não dá cavalo-de-pau em pleno vôo”, “um transatlântico não faz curva fechada”, “um jogo de futebol tem noventa minutos e o importante é vencer, mesmo que seja no fim”, “às vezes, um remédio amargo é necessário para curar o doente”, “todos temos que ir ao dentista, mesmo sendo desagradável”. Tudo se passa como se tais afirmações banais, transformadas em premissas, transmitissem sua obviedade, por osmose, a qualquer outra afirmação colocada na seqüência da frase. Mais ou menos assim: “Como um Boeing não dá cavalo-de-pau, a taxa de juros da economia brasileira deve ser de 26,5%.” Ou então: “Ir de vez em quando ao dentista é inevitável; logo, precisamos dar autonomia ao Banco Central.” Só os radicais não aceitam proposições tão bem fundamentadas.
A terceira forma recorrente são as tautologias, as platitudes e as generalidades. Todos os problemas são “bastante complexos” e exigem “muita responsabilidade”; deve-se ter “coragem para mudar”, mas sem esquecer a “cautela necessária”; nada de “queimar etapas”, nem “ser voluntarista”, pois é preciso “conhecer os limites da realidade”. A versão mais vulgar dessa maneira de argumentar apela à linguagem de botequim, indigna de um presidente ao dirigir-se publicamente a um ministro: as verbas para a educação devem ser mesmo cortadas, sem contestação, pois, como se sabe, “apressado come cru”. A versão mais sofisticada costuma apelar a uma entidade mítica chamada “correlação de forças”, que ninguém sabe bem o que é, e, justamente por isso, cada um usa ao seu bel-prazer, como um tapa-buracos de qualquer raciocínio. Como ocorre com outras categorias abstratas e impessoais, a “correlação de forças” também serve para retirar dos ombros dos governantes a responsabilidade moral pelas conseqüências de suas decisões. Reduzimos a zero os investimentos do Estado brasileiro, para pagar juros insanos? Suspendemos a bolsa-escola para crianças que viviam de catar lixo? Vamos cortar direitos dos aposentados? Não damos dinheiro para a cultura? O desemprego aumentou, aumentando o medo e o desespero de milhões de pessoas? É mesmo danada essa tal “correlação de forças”!
O governo Lula mal começou e já não pode esconder a profunda crise de pensamento em que se debate, que no fundo é uma crise moral. A bem da verdade, a crise o antecede. É marca registrada do PT há vários anos, só não viu quem não quis. Tendo abandonado o esforço, penoso e meritório, de constituir um espaço político “socialista, democrático e de massas”, como era sua proposta original, e adotado o caminho fácil da burocratização e da incorporação ao status quo, o PT passou da juventude revolucionária à senilidade liberal, sem o meio-termo de uma maturidade reformista que, sendo séria, estaria de bom tamanho. Como o próprio presidente esclareceu, para perplexidade geral dos militantes de boa-fé, essa crise pôde ser protelada enquanto o partido, estando na oposição, podia “viver de bravatas”. Agora, o contexto é outro, e os personagens já rasgaram a fantasia. O ex-trotskista Antônio Palocci repete todos os dias que sua política econômica é diferente da de Fernando Henrique Cardoso, sem perceber que sua obsessão por enfatizar diferenças é o maior indício de que ambas as políticas são essencialmente iguais. Não é assim, dr. Freud?
O PT dedicou-se com tamanho afinco a ganhar as eleições, que evidentemente não sabe o que fazer, depois de ganhá-las. No fundo da cena, como sempre, está o povo brasileiro, não como sujeito da história, mas como objeto de marketing. Dirige-se a ele a esquizofrênica peça de Duda Mendonça, em horário nobre na televisão: “Até 1962, no Brasil, as mulheres casadas não podiam trabalhar sem autorização do marido. Graças a uma reforma, essa condição humilhante foi superada. É assim que o país progride, com reformas. Reforma da Previdência, o povo exige, o governo faz!”
Ninguém muda um país, tratando seu povo como débil mental. Talvez não possamos mais esperar que Lula ajude a transformar o Brasil, como em algum momento sonhamos. Talvez isso se torne possível, se o povo lutar. Mas, desde já, eu gostaria de pedir ao governo, pelo menos, um pouco mais de respeito à inteligência alheia.

César Benjamin é autor de A opção brasileira (Rio de Janeiro, Contraponto Editora, 1998, nona edição) e integra a coordenação nacional do Movimento Consulta Popular.

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As cicatrizes do Oriente Médio

De como o jihadismo se infiltrou em grupos palestinos, potencializando o ódio e as rivalidades

Fred Halliday*

Nas últimas semanas, Líbano e Palestina viveram momentos dramáticos. Primeiro, o pesado choque entre o exército libanês e a facção palestina Fatah al-Islam, que acontece próximo à cidade de Trípoli, desde 20 de maio. Depois, a erupção de violência entre Fatah e Hamas, em Gaza, que levou à divisão da Palestina, no último dia 15. Estes dois conflitos parecem ter causas diferentes, mas estão relacionados: marcam o ápice de um processo deflagrado no início da década de 1980, para diminuir a influência da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) e de seu então líder, Yasser Arafat.
Naquela época, à frente da estratégia estavam Síria e Israel, países que, por motivos distintos, promoveram rivais da OLP.
Durante o governo de Jimmy Carter, nos EUA, o então assessor de segurança nacional, Zbigniew Brzezinski, resumiu esta política numa frase simples: ‘Adeus, OLP’.
Hoje, aquilo que Brzezinzki desejava se concretizou parcialmente. Aquela OLP de princípios dos anos 1990, que negociou os Acordos de Oslo com Israel e criou a Autoridade Palestina em Gaza e Cisjordânia, dissipou-se. Em parte, a culpa é de sua corrupção e ineficiência.
Mas o ocaso também se deve à sabotagem do Hamas e à intransigência israelense. As vantagens que Brzezinski e seus colaboradores sírios e israelenses imaginaram para este momento de crise da OLP, no entanto, não apareceram.

A CHAMA DO LÍBANO
A batalha nas proximidades do campo de Nahr el-Bared, em 20 de maio, jogou o exército libanês contra um dos muitos grupos islâmico sunitas militantes que surgiu no país. A tentativa de assumir o controle do lugar foi impedida pelo Fatah al-Islam, organização desconhecida até 20 de novembro de 2006.
Os militantes sunitas que controlam os campos palestinos não estão dispostos a negociar com o governo libanês, que consideram um agente dos EUA e de Israel. Também não são, apesar de Beirute acusálos disso, grupos sob comando sírio. Seu crescimento é resultado da forma como Síria e Irã tentaram diminuir a influência da OLP nos anos 80, primeiro promovendo rachas no Fatah de Arafat, depois financiando e treinando grupos dissidentes.
Desde então, estes campos são controlados por militantes sunitas e os Acordos de Oslo, de 1993, reforçaram esta posição.
Oslo determinou que os 400 mil palestinos exilados no Líbano deveriam abrir mão do direito de retorno às terras onde seus pais viviam, em 1948. Conseqüentemente, eles acusaram o acerto de ser uma ‘conspiração arafatista-zionista’ induzida pelas ditaduras árabes do Golfo Pérsico. Os novos militantes reforçaram sua retórica jihadista e caíram, por vários canais informais de contato, sob influência da al-Qaeda. Este elo foi consolidado porque Abdullah Azzam, um dos pais intelectuais da organização de Osama bin-Laden, é palestino.
Por volta de 2000, a população palestina no Líbano já estava sob controle de grupos religiosos que não deviam lealdade a nenhum país. No início, a Síria permitiu que tais grupos se desenvolvessem por conta da rivalidade entre Damasco e Arafat, mas com o tempo eles se aproximaram da Irmandade Muçulmana síria, o principal grupo de oposição ao regime de Hafez al-Assad. Enquanto isso, o Irã também apoiou a expulsão da OLP do território libanês através do Hizbollah, mas os jihadistas palestinos já estavam consumidos pela ideologia anti-xiita da al-Qaeda.
A propaganda jihadista palestina não considera os xiitas ‘muçulmanos de verdade’ e os acusa de politeísmo: do seu ponto de vista, são uma gente que reza em templos por imames e santos, portanto mais de um Deus. A milícia xiita Hizbollah também é desqualificada por sua participação na política libanesa, assim como o Hamas é desacreditado por ter participado das eleições palestinas. Os militantes palestinos do Líbano, como seus pares no Iraque e Afeganistão, recusam qualquer contato com instituições e Estados que consideram ilegítimos.
O Estado libanês, que sempre quis negar aos refugiados palestinos residência ou emprego, se limitou a abandonar os campos. As organizações que levavam educação e outros serviços sociais aos campos foram sendo paulatinamente expulsas pelos jihadistas. O resultado é que o nível de vida caiu. Um puritanismo semelhante ao da al-Qaeda faz com que estes grupos proíbam vídeos, censurem televisão e cerceiem direitos femininos. Dentre as características deste regime está a de que todo jihadista tem o direito de matar ‘mulheres comunistas’, ou seja, quaisquer mulheres que discutam o regime patriarcal autoritário.
Esta é uma crise que cresce faz duas décadas. Para compreender a explosão militante no Líbano é preciso lembrar dessas correntes. As conseqüências da hegemonia jihadista nos campos de refugiados persistirão por muito tempo. À luz disso, a intolerância crescente por parte da sociedade libanesa (e a incompreensão do resto do mundo) deve ser substituída por compreensão.

O MOMENTO DE GAZA
A insurreição do Hamas em Gaza é conclusão paralela da mesma história. O Hamas é a forma moderna de uma tendência que existe na sociedade palestina há muitas décadas, com origem no movimento pan-islâmico a Irmandade Muçulmana. A Irmandade, fundada no Egito em 1929, já exercia papel fundamental na região desde o primeiro levante palestino, em 1936.
Ninguém diria que Israel ou Síria criaram o Hamas. Mas, entre as décadas de 1970 e 80, Israel permitiu que grupos educacionais em Gaza e Cisjordânia abrissem faculdades financiadas pela Arábia Saudita. No mesmo período, a Síria ofereceu santuário para Khalid Meshal, líder político do Hamas. Seja como for, desde a intifada de 1987, a lealdade do Hamas começou a pender para o Irã. O país arma e financia o Hamas desde sua vitória eleitoral, em janeiro de 2006.

ESTADOS E MILÍCIAS
O surgimento de rivais da OLP, bem como a presença do Irã em Gaza e no Líbano, via Hizbollah, toca numa questão central da política contemporânea do Oriente Médio: a relação entre milícias e guerrilhas, de um lado, e Estados, do outro.
Em tempos de conflito, é rotineiro ver governos acusando seus rivais guerrilheiros de serem ‘agentes’ de outros países.
Em alguns casos, foi verdade: Israel patrocinou o Exército Libanês do Sul, os países árabes financiaram a OLP em 1964, Irã e Iraque apoiaram os grupos curdos no território um do outro, os mujahideen afegãos foram treinados por Paquistão, Arábia Saudia e CIA.
Em outros casos, acusações de terrorismo financiado por Estados foram exageradas. Nenhum país teve qualquer influência sobre a oposição iraniana que levou a cabo a revolução de 1979, assim como a Frente Libertadora da Argélia não era controlada por ninguém no processo que a levou à independência da França. Israel jamais foi um peão dos EUA, assim como Egito, Síria ou Iraque jamais o foram da União Soviética.
Hoje, há um contraste nítido entre o caso libanês e o palestino: embora no primeiro a influência externa seja muito menor do que diz Beirute, em Gaza a mão do Irã é claramente percebida. Em outros casos, embora houvesse apoio inicial por parte de um governo, isso mudou.
Uma das conseqüências da Guerra Árabe-Israelense de junho de 1967 foi que o Egito perdeu o controle de grupos rebeldes no mundo árabe, da OLP às guerrilhas no Iêmen.
Um processo parecido ocorreu com as guerrilhas afegãs após a retirada soviética, em 1989. Naquele momento, por conta da aliança entre Arábia Saudita e EUA para expulsar Saddam Hussein do Kuwait, a al-Qaeda, que era até então próocidente, virou-se contra seus criadores, iniciando o processo que levou ao 11 de setembro.
Mais dramático é o que acontece com os xiitas do Iraque. Entre 2003 e 2004, o Irã exercia influência nítida na população e em seus líderes, como o aiatolá al-Sistani. Nos últimos dois anos, isso deixou de ocorrer.
Após a ascensão de Muqtada alSadr, a fragmentação de sua milícia e a violência espontânea entre sunitas e xiitas, Teerã perdeu o controle. Neste caso, a decisão de Irã e EUA de se encontrarem para negociações frente a frente veio tarde. Se algum acordo viesse em 2003, eles talvez tivessem conseguido estabilizar o país no governo pós-Saddam, como desejavam os iraquianos.
Os acontecimentos do último mês em Trípoli e Gaza reforçam o argumento de que surpresas dramáticas e mudanças repentinas continuarão a acontecer. Se o futuro de todo o Oriente Médio depende do que acontecerá no Iraque, então ninguém sabe se será um país (EUA, Irã ou Arábia Saudita) ou um dos vários grupos independentes que vencerá no final.

UMA LIÇÃO DA HISTÓRIA
A História me ensinou uma lição dura muito cedo. Em 1974, publiquei meu primeiro livro, uma análise dos movimentos revolucionários que surgiram na península arábica após 1967.
Embora tratasse do surgimento de forças ‘marxistas-leninistas’ no norte e sul do Iêmen, meu principal foco era uma guerrilha em Omã. No pensamento do tempo, aquilo parecia a faísca que difundiria a revolução iemenita por todos os países do Golfo, derrubando sultões, emires, xeques e reis.
Conforme caminhava pelas ‘áreas liberadas’ pelos guerrilheiros, em 1970, lembrava de uma passagem da História da Revolução Russa, de Trotsky.
Omã seria a base, a Sierra Maestra da revolução árabe. Mas ela jamais aconteceu. Um ano após a publicação do livro, a guerrilha foi esmagada e a fronteira do Iêmen, fechada. Um exército financiado pelo Reino Unido, Paquistão, Irã e Jordânia venceu a guerra. Estados venceram o conflito contra grupos independentes.
Quando, dois anos depois, comecei a trabalhar num livro sobre o regime do xá, no Irã, jurei me livrar dos excessos trostkistas-maoístas do primeiro trabalho. O estudo do Irã, sóbrio e consistente, foi publicado em 1978. Semanas depois, a revolução iraniana começou. Milhões foram às ruas. Uma greve geral, a maior de toda história, estrangulou o país. O líder que o Estado ignorava, aiatolá Khomeini, surgiu como símbolo daquele momento. Em 15 de janeiro de 1979, o xá deixou o país. A História me havia passado a perna pela segunda vez.
Hoje, Líbano, Palestina e Iraque estão no centro deste conflito entre Estado e sociedade.
Ninguém é capaz de prever quem vencerá.

*Fred Halliday é professor de Relações Internacionais da London School of Economics.
Seu último livro, de 2005, é
100 Myths About the Middle East - 100 mitos sobre o Oriente Médio. Ele é colunista do site OpenDemocracy.net

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O horror da ‘Califórnia brasileira’

Raúl Zibechi

“Olhando mais de perto para as condições de trabalho dos cortadores de cana aparece um mundo terrível que deveria fazer refletir aqueles que estão entusiasmados com a proposta de substituir os combustíveis fósseis por agrocombustíveis”, alerta Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio. Além de analisar as duras condições de trabalho a que estão expostos os cortadores de cana, avalia o impacto ambiental causado pela extensão das plantações da monocultura, em especial a da cana, mas também as pretensões geopolíticas e geoeconômicas do Brasil. O artigo de Zibechi encontra-se no sítio do Programa das Américas do International Relations Center Reporte e foi postado no dia 21-06-2007. A tradução é do Cepat.

O Brasil aposta em converter-se numa grande potência emergente graças à liderança capitaneada com a produção de biocombustíveis. O preço dessa ambição é pago pelo meio ambiente e pelos cortadores de cana, que continuam sendo a parte invisível desta história.

“Uma certa vez, né, quando o avião passou dando aquele banho de veneno, meu pai, ele molhou todinho (…) ficou muito mal do veneno da cana. Está acabando com muita gente jovem”, disse uma ex-cortadora de cana da região de Ribeirão Preto, São Paulo.

“A gente trabalha e ele passa um papel, um risco no papel e passa pra gente comprá no supermercado. A gente num vê dinheiro, só vê a conta do que deve”, garante um trabalhador da mesma região, onde sete de cada dez cortadores de cana não terminaram a escola primária (Testemunhos recolhidos na cartilha Agronegócio e biocombustíveis: uma mistura explosiva, do Núcleo Amigos da Terra/Brasil. Rio de Janeiro Núcleo Amigos da Terra/Brasil, 2006, p. 15. A cartilha está disponível no sítio da entidade.).

Outros cortadores garantem que são enganados pelas balanças controladas pelos patrões, e calculam que têm que levar 110 quilos para que a balança marque 100. Quase todos foram arrancados do Nordeste com promessas de que ganhariam salários muito altos. As condições de trabalho lembram a muitos analistas moderados o período da escravidão. Mas o presidente Lula disse na Cúpula do G-8 que os biocombustíveis têm “enorme potencial para gerar empregos e rendas” e que “oferecem uma verdadeira opção de crescimento sustentável” (Cartilha Agronegócio…).

Por trás da linguagem “politicamente correta” se esconde uma realidade que está fadada a destruir a Amazônia, que destrói milhões de corpos jovens e promete fantásticos negócios para os investidores. O próprio nome biocombustíveis parece estar destinado a fomentar a confusão. João Pedro Stédile, dirigente do Movimento Sem Terra, aponta que os defensores do etanol “utilizam o prefixo bio para dar a entender que é uma coisa boa”, por isso eles preferem falar claro e os chamam “agrocombustíveis”, porque se trata de uma energia produzida pelo agronegócio (Cartilha Agronegócio…).

Regredir quatro séculos

Segundo o ex-governador do Estado de São Paulo, Cláudio Lembo, com os agrocombustíveis a monocultura se estenderá a todo o país. Mesmo que seja um político conservador, membro do Democratas (DEM), acredita que o Brasil “percorreu 500 anos para voltar ao mesmo lugar” que tinha quando era colônia portuguesa. Na sua opinião, as terras dedicadas à agricultura se perderão ao serem usadas para a plantação de cana e se repetirá a história destes quatro séculos, quando “milhares foram expulsos de suas comunidades pelo Leviatã da monocultura, que cria riqueza concentrada” (O Estado de S. Paulo, 13-03-2007).

Olhando mais de perto para as condições de trabalho dos cortadores de cana aparece um mundo terrível que deveria fazer refletir aqueles que estão entusiasmados com a proposta de substituir os combustíveis fósseis por agrocombustíveis. Segundo vários relatórios, o setor emprega aproximadamente um milhão de pessoas, das quais 511 mil estão na produção agrícola. Cerca de 80% da colheita da cana é manual. Os trabalhadores da cana só recebem pelo dia trabalhado se atingirem o rendimento pré-estabelecido pelos patrões, que na região de Ribeirão Preto se situa em 12 toneladas diárias, o dobro do que foi em 1980. Se não alcançam esse patamar, não recebem nada pelo trabalho realizado (Cartilha Agronegócio… p. 14).

Para alcançar esse rendimento devem trabalhar de 10 a 12 horas por dia, mas às vezes 14, muita delas sob um sol escaldante. Muitos pais levam seus filhos menores para que os ajudem a alcançar essa meta de produção. Mesmo que a quantidade de menores que trabalham tenha diminuído, em 1993 um de cada quatro cortadores de cana tinha entre sete e 17 anos no Estado de Pernambuco e muitos dos quais não recebiam nenhum salário. Nas duas últimas safras morreram 14 pessoas [na realidade já são 19] por excesso de trabalho. Os cortadores são recrutados em outras regiões e devem viver na mesma fazenda, em cabanas sem colchões, sem água nem cozinha; devem cozinhar em latas sobre pequenas fogueiras e têm que comprar os alimentos na própria fazenda a preços muito acima dos de mercado.

A cana é cortada depois da queima, o que facilita a colheita mas prejudica gravemente o meio ambiente e produz problemas pulmonares. No município de Piracicaba, interior de São Paulo, o número de internações de crianças e adolescentes com problemas respiratórios aumenta 21% nos períodos de queima da cana. Para cada dez toneladas o cortador deve dar cerca de 72 mil golpes de facão, fazer 36 mil flexões de perna, perde cerca de dez litros de água por dia e caminha dez quilômetros diários enquanto realiza seu trabalho. O salário mensal oscila entre 300 e 400 reais por mês. Segundo o sociólogo Francisco de Oliveira a vida média dos cortadores é inferior à dos escravos da colônia.

O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, confessou na Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra, que uma parte da produção de cana no Brasil se faz com trabalho degradante e em péssimas condições: “Trabalham sem luvas e até perdem os dedos”. Maria Aparecida de Moraes Silva, que há 30 anos estuda o trabalho nos canaviais, garante que 45% dos cortadores provêm do Nordeste. Os migrantes (são preferidos pelos empregadores porque ao estarem longe de suas famílias suportam as imposições sem protestar e depois dos sete meses que dura a safra regressam para seus lugares de origem, de modo que têm mais dificuldades para organizar sindicatos (Entrevista concedida à Revista IHU On-Line).

Isso que chamam progresso

Pouco a pouco estão sendo introduzidas máquinas colheitadeiras que realizam o trabalho de cem pessoas. Por esse motivo, os fazendeiros aumentaram as exigências de produtividade. Passam a exigir dos cortadores que cortem a cana mais rente ao chão, como fazem as máquinas. O resultado é que agora escolhem trabalhadores cada vez mais jovens que recebem um dólar por tonelada.

O jornal econômico Valor explica como caem na servidão: “Há um intermediário da mão-de-obra que percorre os Estados mais pobres, em especial o Norte e o Nordeste. Escolhe os mais jovens. Ao entrar no ônibus para ir até a cidade onde são contratados, o cortador contrai sua primeira dívida com o transporte. O intermediário ganha R$ 60,00 por cada trabalhador que leva. Não é raro que seja também o responsável pela venda das primeiras mercadorias de que os trabalhadores têm necessidade. Converte-se em ‘dono’ dessa mão-de-obra à medida que as dívidas se acumulam” (Valor Econômico, 17-05-2007).

A expansão da cultura da cana destrói a convivência social. Na região onde está a pequena cidade de Delta, Minas Gerais, foram plantados 300 mil hectares nos últimos quatro anos. A cidade tem cinco mil habitantes que se convertem em 10 mil durante a colheita. Segundo um relatório do Correio Braziliense, a pequena cidade começou a registrar taxas de homicídio inimagináveis antes da multiplicação das plantações de cana. Muitas meninas e adolescentes são seqüestradas para engordar a prostituição na região, à qual confluem cerca de 20 mil cortadores todos os anos. Os cortadores engrossam as periferias das pequenas cidades onde se multiplica o alcoolismo e o consumo de crack.

A expansão e a modernização da indústria da cana ultrapassa os povoados e municípios. José Eustáquio da Silva, prefeito de Delta, reconheceu que “o município está em colapso. Os postos de saúde, hospitais e escolas estão abarrotados, e o pior é que junto com os trabalhadores vêm toda classe de gente e bandidos”. Em Delta não há sequer um hotel, mas existem 27 bordéis. Os jornalistas descobriram que várias personalidades do município estão envolvidas no tráfico de menores e em casos de pedofilia com filhos dos cortadores de cana. Os intermediários (os “gatos”) estão armados e impõem sua lei.

Stédile costuma dar sempre o mesmo exemplo para ilustrar os problemas sociais gerados pela monocultura. “O município de Ribeirão Preto, no centro do Estado de São Paulo, é considerado a ‘Califórnia brasileira’ por seu elevado desenvolvimento tecnológico na cana. Há 30 anos, essa cidade produzia todos os alimentos, tinha campesinato no interior e, de fato, era uma região rica e com distribuição eqüitativa de renda. Agora é um imenso canavial, com 30 usinas que controlam toda a terra. Na cidade há 100 mil pessoas que vivem em favelas (dos 540 mil habitantes do município). A população carcerária é de 3.813 pessoas (só adultos) ao passo que a população que vive da agricultura e tem trabalho ali é de somente 2.412 pessoas contando as crianças. É o modelo de sociedade da monocultura da cana. Há mais gente na prisão do que trabalhando na agricultura” (Cartilha Agronegócio…).

Na safra de 2007 deve se produzir outro “avanço” tecnológico: pela primeira vez se colherá cana geneticamente modificada. É mais leve e elimina mais água, razão pela qual dará grandes lucros aos empresários. Mas os trabalhadores terão que cortar três vezes mais para chegar às 10 toneladas.

Nesta região os empresários despedem em pequenos intervalos de tempo grande quantidade de cortadores para ficar apenas com os melhores. São os chamados “campeões de produtividade”, que chegam a cortar até 20 toneladas diárias, com uma média mensal de 12 a 17 toneladas por dia (José Roberto Pereira Novaes, Cartilha Agronegócio…). Como os trabalhadores sofrem convulsões, câimbras, dores de coluna e tendinites, além dos freqüentes cortes, os empresários encontraram uma “solução técnica”. As usinas distribuem de forma gratuita um repositor hidroeletrolítico e vitamínico indicado para desportistas ou trabalhadores com intensa atividade física. Em muitas usinas os cortadores ingerem esse produto antes de começar o trabalho. “As dores do corpo desaparecem, as câimbras diminuem e a produtividade aumenta”, disse Pereira Novaes. O problema é que todos os meses têm que aumentar a dose.

“Com soros e medicamentos se mantém a elevada produtividade exigida pela cana. Como num processo de ‘seleção natural’, sobrevivem os mais fortes. Mas a pergunta é: como e até quando sobrevivem? Soros e medicamentos podem ser vistos como expressão do paradoxo de um tipo de modernização e expansão dos cultivos de cana que dilapida a mão-de-obra que os faz florescer”, insiste Pereira Novaes. Não há dados oficiais, mas o certo é que são muitos os trabalhadores jovens que se aposentam por invalidez e são dezenas de mortes por fadiga na “Califórnia brasileira”.

Os grandes ganhadores

No Brasil, a produção de cana começou em 1550, mas sua grande expansão se deu a partir de 1970 impulsionada pelo aumento dos preços do petróleo. A vegetação da costa atlântica foi reduzida à metade sendo a mais afetada pela expansão, mas agora as lavouras de cana avançam para o centro-oeste, onde se prevê que o rico bioma do Cerrado desaparecerá até 2030 por conta das monoculturas. Nos próximos sete anos o Brasil duplicará sua produção de etanol e deverá produzir quase 50% a mais de cana, o que supõe construir outras cem usinas até 2010.

Mas o Brasil quer expandir os agrocombustíveis para toda a região. Os planos imediatos consistem em levar a produção a países da América Central e ao Caribe que já contam com tratados de livre comércio com os Estados Unidos (como o CAFTA), para contornar as tarifas de importação mantidas por Washington. “O objetivo é levar até esses países o produto quase terminado”, disse o semanário Peripecias, “completar o processo nesses países e a partir daí entrar no mercado dos Estados Unidos”. O banco brasileiro [BNDES] financia os investimentos nesses países, mas, além disso, está negociando uma participação acionária de até 30% nos projetos centro-americanos.

Na opinião de Stédile, no projeto etanol confluem três grandes setores: “As petroleiras (que querem diminuir a dependência do petróleo), as empresas do agronegócio (como Bunge, Cargill, Monsanto) que querem continuar monopolizando o mercado mundial de produtos agrícolas”, e agora os capitais transnacionais que fazem “uma aliança com os proprietários de terra no sul, e em especial no Brasil, para utilizar grandes extensões de terra para a produção de agrocombustíveis” (Carlos Vicente, Cartilha Agronegócio…).

O panorama que se avizinha não é alentador. Em vez de pressionar para modificar o padrão de consumo e a matriz energética, em particular no transporte, os grandes investidores, como George Soros, e as grandes empresas, como Cargill, estão se posicionando na produção brasileira de etanol para aumentar seus lucros. O aquecimento global, assim como as condições de trabalho dos cortadores de cana, não entram no raio de suas preocupações.

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Oaxaca: un año después

Luis Hernández Navarro
24/06/07

Este 14 de junio se cumplió un año del intento de desalojo del plantón magisterial en Oaxaca. La acción policial ordenada por el gobernador Ulises Ruiz dio un vuelco a la lucha de los integrantes de la sección 22 del sindicato magisterial. A partir de ese momento, una movilización de carácter gremial por la rezonificación salarial se transformó en lucha política de amplios sectores de la sociedad oaxaqueña para destituir al mandatario estatal.
La protesta oaxaqueña ha sido una de las expresiones de descontento social más radicales y profundas que se han vivido en México en años recientes. Entre el 14 junio y el 29 de noviembre de 2006 se vivió en la entidad una severa crisis del modelo de mando, en la que se generaron formas de autoorganización popular inéditas y se vivieron protestas novedosas.
Tan sólo en junio se efectuaron en la capital cuatro megamarchas masivas. En un estado con poco más de 3 millones de habitantes, el 2 de junio -según los organizadores- tomaron las calles 150 mil personas. El día 7 lo hicieron 250 mil, exigiendo, por primera vez, la renuncia de Ulises Ruiz. El día 16 marcharon 500 mil. El 28 de ese mes protestaron 800 mil almas.
La golpiza a los maestros el 14 de junio fue repelida. Los policías tuvieron que replegarse y ceder la plaza ante una multitud enardecida. Sin embargo, las fuerzas del orden destruyeron Radio Plantón, que había funcionado como la voz del movimiento. En respuesta, grupos de universitarios tomaron Radio Universidad y comenzaron a transmitir desde sus instalaciones.

El primero de agosto una comisión de mujeres que buscaban un espacio para difundir la realidad del movimiento en el canal de la televisión pública del estado se hizo del control de la estación. Durante 22 días transmitieron una programación alternativa. Sin embargo, las emisiones se suspendieron cuando un grupo de pistoleros al servicio del gobernador destruyó a balazos antenas y consolas de transmisión.
La sociedad oaxaqueña respondió tomando las 14 radiodifusoras de la entidad para divulgar su verdad. La radio se convirtió en el instrumento que enlazó a los barrios organizados, convocó y movilizó a la población.
El 20 de junio de 2006 se fundó la Asamblea Popular de los Pueblos de Oaxaca (APPO). La naciente agrupación retomó y desarrolló las formas organizativas presentes en las comunidades del estado: las asambleas como espacios de encuentro, comunicación, información, análisis, reflexión y toma de acuerdos. Los consejos (de ancianos, caracterizados o principales) como fuente de autoridad y orientación política. Y las comisiones como mecanismo asociativo para cumplir tareas específicas.
Durante cinco meses la población insubordinada hizo imposible que el gobierno local funcionara. Bloqueó el Congreso y el palacio de gobierno, las secretarías de Finanzas y Economía y el Poder Judicial. La APPO se encargó de mantener el orden de la ciudad. En varios municipios los pueblos tomaron las alcaldías.
Ante la represión de policías vestidos de civil, de paramilitares y de pistoleros contra los ciudadanos en lucha, y las caravanas de la muerte, formadas por convoyes motorizados desde los que se disparaban armas de fuego contra civiles, los barrios respondieron levantando barricadas nocturnas. Su objetivo inicial era garantizar la seguridad de los vecinos, pero con el paso de los días se convirtieron en espacios de encuentro, educación y discusión política.

Esta primavera de la autoorganización popular en pleno verano se explica, en parte, como producto de la conjunción de varios factores: el enorme descontento ante el fraude electoral que hizo gobernador a Ulises Ruiz. La ruptura en el bloque dominante y los pleitos entre el mandatario estatal entrante y el saliente. La intolerancia en el trato del gobierno local hacia los alcaldes nombrados por usos y costumbres no afines al PRI. La destrucción del patrimonio histórico de la ciudad de Oaxaca para realizar obras públicas innecesarias que justificaran el desvío de recursos públicos hacia la candidatura presidencial de Roberto Madrazo. La cerrazón gubernamental para atender demandas sociales. La emergencia de los barrios organizados de la capital y zonas conurbadas con graves problemas de urbanización, y una cultura asociativa de origen indígena. La cancelación de espacios democráticos y la intensificación de la represión.
A finales de octubre y durante noviembre, ante la cercanía del cambio de poderes en el país, se puso en marcha un operativo para desmantelar la insumisión popular de manera violenta. El 26 de octubre Enrique Rueda Pacheco, secretario general de la sección 22 del magisterio, anunció el regreso a clases de los maestros en huelga. El 27 se desató un ataque contra las barricadas en el cual fue asesinado por pistoleros, entre otros, el camarógrafo estadunidense Brad Will.
El 27 de octubre se trasladó a la ciudad de Oaxaca a la Policía Federal Preventiva (PFP). El 2 de noviembre la población rechazó el intento policiaco por remover las barricadas que resguardaban la universidad. Sin embargo, el 25 de ese mes la represión se cebó sobre los ciudadanos en lucha, mientras se prendía fuego a edificios públicos en los se encontraba documentación comprometedora para Ulises Ruiz. Felipe Calderón tomó posesión como presidente de la República con un movimiento a la defensiva por la violencia en su contra: muertos, desaparecidos, encarcelados, golpeados y más de 500 órdenes de aprehensión.
Sin embargo, a pesar de la política de terror y la persecución contra dirigentes, el movimiento mantiene una vitalidad sorprendente. El pasado primero de mayo miles de ciudadanos volvieron a tomar las calles y, desde el 15 de ese mismo mes, los maestros han vuelto a realizar paros. La represión en Oaxaca ha sido conocida y documentada en todo el mundo de los derechos humanos. Se ha convertido en un elemento de desprestigio hacia el gobierno de Felipe Calderón. La APPO sigue viva y actuando.

Luis Hernández Navarro es un analista político mexicano que escribe regularmente en el diario La Jornada

La Jornada, 19 junio 2007

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ALCA, MERCOSUL, ALBA - ESTES SÃO OS VERDADEIROS TERMOS DO PROBLEMA

Emir Sader

Imaginem se uma Comissão do Parlamento da Venezuela se pronunciasse contra a renovação das concessões da TV Globo. Poderia alegar que a emissora surgiu sob a ditadura militar, apoiada na empresa norte-americana Time Life, se valeu do regime ditatorial, quando floresceu, valendo-se de privilégios absolutos. Poderia alegar que a emissora tentou impedir a vitória de Leonel Brizola na eleição para governador do Rio de Janeiro, em 1982, tentando promover uma fraude.

Poderia alegar que a emissora da família Marinho tentou desconhecer a campanha pelas eleições diretas. Que editou de forma totalmente parcial e falseado o ultimo debate nas eleições presidenciais. Poderia alegar que o principal noticiário dessa TV deixou de noticiar o mais grave acidente da aviação brasileira – já noticiado por outros órgãos da imprensa – para levar a cabo uma manobra eleitoral.

Poderia alegar uma lista interminável de argumentos para pronunciar-se contra a concessão da renovação da TV Globo.

Se tivesse havido um pronunciamento desse tipo, quais seriam os efeitos no Brasil? Entre tantas outras coisas, se exigiria do presidente brasileiro um pronunciamento duro contra o Parlamento venezuelano, se formaria um coro de gritos pedindo medidas contra essa intervenção nos assuntos internos do nosso pais, que afetaria nossa soberania. Um rosário de medidas seria propagado pela imprensa oligárquica, pelos partidos da direita e por seus ventrílocos.

Porém, aconteceu o oposto. Uma Comissão do Senado brasileiro, como se não tivesse que se preocupar com a ditadura da mídia oligárquica no nosso país, se pronunciou contra uma medida que se choca com essa mesma ditadura na Venezuela e promove a democratização no processo de formação da opinião pública.

Quem trata de se aproveitar disso é a mesma direita que promoveu a posição da comissão do Senado brasileiro, buscando colocar obstáculos ao ingresso pleno da Venezuela ao Mercosul. Quem ganharia e quem perderia, caso essa insensata posição fosse tomada pelo Parlamento brasileiro?

O Mercosul voltaria â situação que tinha até um ano atrás, antes da reunião de Córdoba, em julho, quando a Venezuela e a Bolívia ingressaram ao Mercosul e Cuba se aproximou. O Mercosul começava a se livrar do circulo vicioso a que havia sido condenado pelas grandes corporações brasileiras e argentinas, disputando mercados entre si e relegando o Paraguai e o Uruguai a um papel totalmente marginal. Trabalham no fundo para o fracasso do Mercosul, para o isolamento do Mercosul em relação â Alba e para sua aproximação com a Alca e os tratados de livre comércio na região.

Enquanto a Alba avança na construção de um espaço exemplar de “comércio justo”, do qual deveriam participar o Brasil, a Argentina, o Uruguai e todos os países que aspiram a construção de “um outro mundo possível”. Um comércio em que as trocas não se dão a preço de mercado – um mercado controlado pelas potências do norte do mundo -, mas pelas necessidades e possibilidades de cada país.

Que o Senado trate de se depurar dos seus membros notoriamente envolvidos em casos de corrupção, que trate de promover uma legislação que fortaleça a democratização da mídia pública no Brasil e debilite a ditadura das oligarquias privadas, que apóie a política externa independente e não se preste a favorecer os interesses dos grandes monopólios privados, inimigos da integração regional e adeptos da Alca e dos tratados de livre comércio. Que se ocupe dos candentes problemas brasileiros e da integração latino-americana, deixando os problemas internos dos outros países para que seus governos – eleito e reeleito democraticamente pelo povo venezuelano, no caso em questão – decidam.

Carta Maior

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A MUNDIALIZAÇÃO DO CAPITAL

Vito Letizia
Professor no Departamento de Economia/PUCSP

O livro de François Chesnais, A Mundialização do Capital, tem sido mal compreendido. É visto, em geral, como obra de crítica ao neoliberalismo. E, como tal, é jogado na vala comum da esquerda neokeynesiana que domina amplamente o antineoliberalismo.
François Chesnay não é neokeynesiano. Não está preocupado com sugestões para que o capitalismo retome um “desenvolvimento sustentado”. Limita-se a dissecar o capitalismo da atualidade, usando uma metodologia marxista sem concessões, para demonstrar o caráter destrutivo das forças econômicas desencadeadas com a virada thatcherista, a partir dos anos oitenta. Não é, portanto, uma crítica às políticas neoliberais. É uma crítica ao capitalismo de hoje. Ao próprio sistema.
No início do livro, François Chesnais explica o caráter ideológico da terminologia usada pelos economistas da modernidade, partindo do termo globalização, de origem anglo-saxônica, que deslocou na língua francesa o termo mundialização, mais próximo da realidade.
Mais usado pela mídia sob influência anglo-saxônica, o termo globalização quer indicar uma internacionalização econômica livre, supostamente não submetida a intervenções institucionais ou nacionais, usando por isso a raiz de conotação geográfica globo, entendendo este como uma esfera com habitantes indiferenciados, espalhados por sua superfície. O sentido dessa neutralidade é impingir a evolução econômica recente como uma superação da velha compartimentação nacional por uma atuação mais livre dos indivíduos no mercado.
Essa ideologia tenta esconder que o globo terrestre continua sendo um mundo humano de nações desiguais, onde a livre atuação das mais fortes submete as restantes a uma hierarquia inexorável, na qual os Estados Unidos se encontram em posição absolutamente privilegiada, com sua moeda nacional funcionando como dinheiro mundial e com mais direito de endividamento do que as demais nações. Existem outras seis nações que, articuladas com os Estados Unidos, formam o G7, dominando amplamente o resto do mundo. Existem as grandes multinacionais com direitos exorbitantes garantidos por essas potências dominantes, que controlam a produção industrial de ponta e são proprietárias das patentes de tecnologia avançada. E existem, por cima disso tudo, as instituições mundiais controladas pelo G7, que decidem o que deve ser globalizado e o que não deve. Por exemplo, as finanças não devem ter fronteiras, porém as relações de trabalho devem permanecer compartimentadas, para que as multinacionais possam deslocalizar-se, explorando as diferenças.
E existe um FMI, ao qual os grandes investidores atribuem o direito de dar notas de bom ou mau aluno às nações subalternas, e de punir, desse modo, com restrições de crédito internacional às que desobedecem ás suas recomendações.
É evidente, portanto, que não há globo comandado livremente pelo mercado. Há um mundo organizado de modo bastante rígido, impondo uma verdadeira camisa-de-força às nações mais fracas. Como diz François Chesnais, os grandes globalizam, e os pequenos adaptam-se. Em seguida, Chesnais desenvolve um longo detalhamento do processo de mundialização, referindo-se aos três tipos fundamentais de capital – segundo Marx –, o produtivo, o comercial e o financeiro. Chesnais concorda com C. Oman – economista da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico, em Paris – quanto ao entendimento da nova forma de organização do trabalho, desregulamentada ou flexibilizada como a mola essencial da mundialização. Quer dizer: na esfera produtiva a mundialização tem seu centro dinâmico, que consiste numa ofensiva contra as conquistas trabalhistas do segundo pós-guerra.
As novas formas de organização empresarial e as práticas de terceirização da mão-de-obra têm como eixo a criação de uma solidariedade empregado-patrão dominada por este e o rebaixamento da situação social da mão-de-obra terceirizada. Isto significa a apropriação da mente dos trabalhadores mais qualificados e estáveis pelas empresas, a precarização do emprego para a maioria, e a desregulamentação dos contratos de trabalho para todos. Em suma, no âmago da mundialização está uma nova norma de direitos flexíveis para o trabalho e poderes inflexíveis para o capital.
Mas as novas formas de organização empresarial dizem respeito também à organização entre as empresas. Desenvolveram-se novos tipos de empresas – como as empresas-rede – centralizadas de modo que o capital dominante pode se apossar de parte da mais-valia extraída por empresas subordinadas, espalhadas pelo mundo inteiro. Trata-se de um novo tipo de capital produtivo que não só extrai mais-valia diretamente mas que também vende direito de extrair mais-valia em seu nome, sem arriscar capital.
E há ainda outro aspecto da mundialização do capital produtivo, que diz respeito à concentração das patentes de invenção importantes em mãos de pequeno número de grandes empresas, que concentram também a maior parte dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Aqui, de novo, há relações de subordinação por cima das leis do mercado e participação na extração de mais-valia por empresas subordinadas.
É justamente pelo fato de as novas formas de organização do trabalho constituírem a mola essencial da mundialização, que esta pode ser datada a partir das derrotas dos trabalhadores no Reino Unido e nos Estados Unidos, sob os governos Thatcher e Reagan, combinadas com o fim das ilusões do movimento operário do mundo inteiro no socialismo real.
A mundialização do capital comercial se dá principalmente através da modificação da estrutura do comércio mundial, que provoca inclusive o desaparecimento de muitas exportações especializadas regionais. O comércio passa a concentrar-se entre os países ricos, o que diminui o poder de barganha da periferia capitalista. Principalmente, surge o comércio internacional intra-empresas, que assume hoje proporções gigantescas, e que se furta à lógica do comércio entre as nações.
Os governos perdem o poder de escolha da especialização de seus respectivos países na divisão internacional do trabalho. Aliás, todas as especializações nacionais são substituídas por uma mistura pouco transparente de exportações tangíveis e intangíveis, na qual a competitividade – outro fetiche da mundialização – decorre mais das relações de força do que de verdadeira eficiência.
Por último, a mundialização do capital financeiro coroa todas as transformações, dando-lhes a nota mais marcante e os efeitos mais perigosos para o próprio sistema. O fato desencadeador da mundialização financeira é a circulação de um capital em alqueive – O Capital, livro III – ao redor do planeta, quase instantaneamente, a partir de um processo de desregulamentação iniciado já nos anos setenta. Evidentemente, a forma em que se deu essa desregulamentação foi ditada pelas grandes nações, as pequenas sendo colocadas diante dos fatos consumados.
Em função desse processo, surgiram dois fenômenos de importância crucial. Por um lado, a autonomização do capital financeiro, no sentido de que a distensão dos laços com o capital produtivo atingiu um grau sem precedentes. Chesnais vê aqui um acontecimento histórico inteiramente novo, uma vez que a circulação de dinheiro desligada da circulação de mercadorias tornou-se absolutamente desproporcional.
A norma da mundialização é tratar a atividade financeira como uma indústria igual a qualquer outra. Com dois resultados altamente nocivos para o sistema: desvio de parte da mais-valia para fora do ciclo produtivo, em condições impositivas, que quebram a hegemonia do capital produtivo, a qual faz parte dos fundamentos do sistema; auto reprodução de capital sem passar pela produção de bens, que hoje só pode ser sustentado por um tributo disfarçado, cobrado sobre a população trabalhadora do mundo inteiro.
Marx já mencionava a ilusão mercantilista dos capitalistas – O Capital, livro II –, que consiste em tentar saltar de D a D’ sem passar por …P… (processo produtivo). Agora isso é, segundo Chesnais, a realidade dominante. O capital financeiro tem hoje o poder de apossar-se de uma massa enorme de mais-valia, sem prestar qualquer serviço, simplesmente movendo-se pelo planeta.
A base principal desse parasitismo extremado está na dívida externa e interna de todos os países capitalistas. No caso dos países periféricos, há ainda um sistema de subvenção ao grande capital financeiro privado, através do interminável serviço de suas dívidas externas.
Por outro lado, o velho imperialismo mudou de forma. A exploração da mão-de-obra periférica pelo capital do Centro tornou-se secundária. Hoje, a maior parte dessa extração se dá sem investimento, o que permite o sucateamento da indústria periférica, sem dor para o capital.
Chesnais conclui de modo sombrio seu livro porque vê uma necessidade nas contradições internas do capitalismo atual. Necessidade que o impele para uma deterioração inexorável de sua força expansiva. O que implica uma advertência para a possibilidade de uma decadência econômica e social irreversível, caso as forças vivas da sociedade não reagirem eficazmente.
Mas como? A resposta é deixada a cargo dos movimentos de trabalhadores que lutam em defesa das conquistas sociais ainda vigentes. F. Chesnais adianta um palpite sobre o conteúdo dessa luta: depois de rejeitar qualquer tentativa de retorno ao socialismo real, “destruidor de homens, destruidor de esperanças e de razões de lutar” (p. 321), apenas sugere que “é difícil ver como a humanidade poderia prescindir de medidas de expropriação do capital” (ibidem).
É o que se precisa ouvir hoje.

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CHESNAIS, François: A Mundialização do Capital. Tradução de Silvana Finzi Foá. São Paulo: Xamã Editora, 1996. 335 p.

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O Bolsa Família atende aos interesses do Banco Mundial, afirma Frei Betto

Frei Betto, por dois anos trabalhou no Programa Fome Zero no governo Lula. Hoje considera que o Programa foi desfigurado e faz duras críticas ao caráter neoliberal do governo Lula. Em entrevista a Rede Eco Alternativo, 19-06-2007, Betto fala ainda da sua relação com Cuba e o que pensa de Fidel Castro.

Trechos de sua entrevista. A tradução é do Cepat.

Mais do que o livro [Fidel e a Religião], você tem mantido um diálogo com Fidel durante todos estes anos. Que impressão tem sobre Fidel, sobre a sua personalidade e o seu papel na história?

Muitas pessoas com a enfermidade de Fidel perguntam como será Cuba pós-Fidel. Minha reflexão é justamente ao contrário. Pergunto-me por Cuba pré-Fidel. Fidel é um exemplo de homem novo, de revolucionário, de uma pessoa que dedicou a sua vida à libertação de um povo e de outros povos também, por toda a sua solidariedade com os países pobres do mundo. Então quando falo de Cuba pré-Fidel, é porque meu sonho é que todos os cubanos e todos nós, revolucionários, militantes de esquerda, consigamos um dia ser como Fidel. No sentido de que Cuba realiza uma transição, porque 48 anos é muito pouco na história para o socialismo, num mundo globocolonizado com o paradigma neoliberal e toda uma cultura excessivamente capitalista, que vem ao encontro de nossas tendências mais negativas que são típicas do capitalismo, como é o caso do egoísmo.

Falar de Cuba, falar de Fidel é falar de como vamos ajudar este país a reinventar o socialismo, depois da queda do Muro de Berlim, da União Soviética, depois dos caminhos muitos singulares que a China tem abraçado. O que se coloca para todos nós, é como reinventar o socialismo. No sentido de que o socialismo, antes de ser um projeto de desenvolvimento, tem que ser um projeto de humanidade, de civilização, de virtudes humanas. Creio que Fidel adiantou-se à história. Vai ser sempre uma pessoa que irá deixar o exemplo, como o Che, que deu a sua vida pelos mais pobres. Ele estava no poder, poderia ter ficado tranqüilo, mas abriu mão de todas as suas funções e privilégios, para de novo começar desde o zero como um homem clandestino, primeiro no Congo e depois na selva da Bolívia para servir à libertação da Bolívia e da América Latina.

Eu penso que Fidel criou uma sociedade socialista que se mantém, porque soube cultivar aqui valores muito originais. Por exemplo, a primeira vez que vim à Cuba, eu esperava encontrar em cada esquina um busto de Marx ou Lênin. E encontrei um senhor que tinha a cabeça raspada, com um bigode que eu não conhecia. Efetivamente, não o conhecia, porque vivo no Brasil e o Brasil nesse momento estava de costas para a América Latina e de frente para a Europa, EUA… O processo de latinoamericanizaçao do Brasil estava recém começando. Então me dei conta que esta revoluçado era muito mais martiana que marxiana. Utilizou a teoria de Marx na construção de seu projeto socialista, mas o pensamento de José Martí tem muita mais raiz, é muito mais forte neste país que todas as teorias marxistas e leninistas. Isto para mim explica como Cuba pode resistir às pressões da globocolonizaçao e do imperialismo. Porque não se criou aqui um modelo mimético do modelo patriarcal burguês.

Explico-me melhor. Eu acredito que um dos erros da revolução soviética foi mudar o sistema, sem mudar o modelo. O modelo soviético era um modelo czarista. As carruagens do czar foram substituídas pelos carros luxuosos do Kremlin. E a nomenclatura era como a corte. Então, lamentavelmente esta é uma tendência que existe na história, que quando um grupo chega ao poder, como o que aconteceu na Revolução Francesa e em outros lugares, reproduz o seu antecessor. Em Cuba não aconteceu isto. Cuba criou uma revolução original, que manteve inclusive a religiosidade do seu povo.

Aqui não houve repressão à religião. Há um respeito ao sincretismo religioso cubano que é muito semelhante com o que existe no Brasil, sobretudo na Bahia. Toda a veia poética, musical, humorística da cubanidade, tudo isso tem sido valorizado pela revolução. Isso explica porque apesar de todas as pressões e dificuldades, Cuba é um exemplo. Apesar de que hoje Cuba é uma ilha quádrupla: uma ilha geográfica, uma ilha por ser o único país socialista do Ocidente, uma ilhar por estar bloqueada pelos EUA e uma ilha por ter um modelo de sociedade que ao mesmo tempo é único e é solidário com todos os pobres do mundo. Cuba tem professores e médicos em mais de 40 países do mundo. Creio que isto cria um exemplo e uma esperança para todos nós que queremos contruir um novo projeto civilizatório.

Qual a avaliação que você faz hoje de sua participação no governo, frente ao programa Fome Zero?

Para mim foi importante o trabalho no Fome Zero nos dois primeiros anos do governo Lula. Eu sou grato ao Lula pela honra desse convite. Mas o governo tem tomado rumos com os quais não estou de acordo, sobretudo na política econômica. O governo tem fundamentado a política econômica em um projeto neoliberal, de rigoroso ajuste fiscal e em contradição com os projetos sociais. O próprio Fome Zero começou a ser desfigurado, reduzido a um de seus programas, o programa Bolsa Família que hoje ajuda na sobrevivência de onze milhões de famílias miseráveis.

7 milhões saíram da miséria, mas este programa não tem uma porta de saída. No momento em que o governo deixar de dar o dinheiro às famílias, eles não vão produzir o sustento da própria vida. Por quê? Porque até agora o governo não teve a ousadia de cumprir uma das demandas históricas mais importantes do Brasil que é fazer a Reforma Agrária. Com um detalhe, somos o único país das três Américas que tem uma área cultivável de dimensões continentais.

Porque apesar de que o território do Canadá e dos Estados Unidos serem como o do Brasil, esses países não têm áreas cultiváveis como o Brasil. Inclusive uma área que não é cultivável, como é uma boa parte do Amazonas, é uma área de muita produção de riquezas. Pescado, frutas, vegetais, matérias primas da medicina. É um país privilegiado pela natureza. Eu constumo dizer qu Deus quis inventar o Éden, o paraíso perdido no Brasil, por isso não nos deu nenhuma catástrofe natural. Nossa única catástrofe é a política, a classe política que temos. O programa “bolsa família”, no ano de 2006 deu 15 bilhões de reais para 11 milhões de pessoas e o “bolsa especulador” deu para 20 mil famílias o credores da dívida pública, 150 bilhões de reais. Então para mim não há futuro num país que beneficia dessa maneira a sua camada mais rica.

Às vezes esse tipo de programa reforça o clientelismo

Sim, claro. Reforça o clientelismo e é um programa que responde aos projetos do Banco Mundial que diz que os pobres precisam ser tratados com políticas focalizadas, assistencialistas, mas nunca com políticas de mudança estrutural e de erradicação da miséria e da pobreza.

Instituto Humanitas Unisinos

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Transposição do Rio São Francisco. Ouvidos moucos à beira do rio

Washington Novaes

“Soldados do 2º Batalhão de Engenharia e Construção do Exército iniciaram as obras de transposição de águas do Rio São Francisco para o eixo Norte do semi-árido - começando a concretizar projeto altamente polêmico. Agora, mesmo o bispo dom Luiz Flávio Cappio - que chegou a fazer uma greve de fome, só interrompida com um apelo do presidente da República e com um acordo entre os dois - está dizendo que ‘o acordo não foi cumprido’; que o presidente ‘mentiu para o Brasil e demonstrou a falta de seriedade desse governo com o povo, empurrando um projeto goela abaixo, numa total falta de respeito’. Para ele, ‘a presença do Exército em Cabrobó remonta ao período militar da ditadura’ e é uma ‘agressão ao meio ambiente, à economia e ao povo’ (O Tempo, 10/6).

Setenta e seis empreiteiras apresentaram propostas para os lotes da obra em licitação, no valor de R$ 3,2 bilhões - o custo final está estimado em R$ 6,7 bilhões (A Tarde, 10/6). E desde março está concedida pelo Ibama a licença de instalação que a permite, mas com 51 condicionantes. Já havia outras 31 exigências na licença prévia concedida em maio de 2005, até aqui, aparentemente, também não atendidas. Por essas e outras razões, em fevereiro a Procuradoria-Geral da República (PGR) havia pedido ao Supremo Tribunal Federal (STF) que suspendesse a licença prévia. Quase ao mesmo tempo, a mesma PGR no Distrito Federal recomendara ao Ibama que não expedisse a licença de instalação. Como, entretanto, a própria ministra do Meio Ambiente considerou o projeto ‘ambientalmente seguro’ (Agência Estado, 16/3), seguiu-se em frente - ainda que estejam em tramitação no STF 11 ações, por iniciativa do Ministério Público Federal e estaduais, da OAB e outras. Mas algumas liminares que impediam o início das obras foram suspensas em dezembro de 2006 pelo ministro Sepúlveda Pertence.

Também não tiveram êxito os protestos do Fórum Nacional pela Reforma Agrária e pela Justiça no Campo (31/5), para o qual o governo federal desprezou a oferta de 140 tecnologias alternativas à transposição, ‘diversificadas e adaptadas às diversidades do bioma caatinga e ao clima semi-árido’. A transposição - diz o fórum - reforçará ‘a estrutura agrária, econômica, política e social que é a grande responsável pelo quadro de sofrimentos que há séculos atormenta o Nordeste’. A seu ver, vai agravar o problema da seca, aumentar o custo da água e exigir subsídios cruzados que serão pagos pela população, para beneficiar principalmente grandes projetos de exportação de camarões, grãos e flores, entre outros. Outros protestos vieram de etnias indígenas, da Comissão Pastoral da Terra e da CUT. Ambientalistas disseram que nos últimos 40 anos o rio já perdeu 40% de seu volume de água (Ecodebate, 11/6). E que a própria Agência Nacional de Águas já mostrou ser possível atender a todos os núcleos urbanos do semi-árido com mais de 5 mil habitantes a um custo 50% inferior ao da transposição. Houve quem lembrasse que com 1 milhão de cisternas de placa se atenderia a milhões de pessoas de todas as comunidades isoladas, as maiores vítimas da seca, a um custo muito menor que o da transposição.

De nada adiantaram críticas e protestos. Para o ministro Geddel Vieira Lima (que era contra o projeto, antes de ganhar o cargo), as pessoas que criticam a transposição ‘na maioria das vezes desconhecem o projeto ou são agentes políticos que querem ‘compensação’’ (Correio Braziliense, 17/4). Para o ex-ministro Ciro Gomes, há dois grupos de opositores: um, ‘de má-fé’, seria composto de pessoas que querem manter reserva de valor, áreas ou projetos de irrigação à beira-rio; o outro seria composto de ‘pessoas bem-intencionadas, mas desinformadas’.

Há dez anos o autor destas linhas escreve sobre o tema neste espaço, levantando dúvidas e questões até aqui sem resposta. Para ficar apenas nos artigos de 2005 para cá, foram mencionados estudos dos professores Aldo Rebouças (USP), João Abner (UFRN) e João Suassuna (Fundação Joaquim Nabuco), lembrando que o problema do semi-árido não é de escassez de recursos hídricos, é de ‘má gestão’; os consumos urbanos não chegam a 10% da disponibilidade e podem ser atendidos por ela. Na verdade, 70% da água transposta servirá a projetos de irrigação e 26%, ao consumo urbano, sem atender às comunidades isoladas. Podem estar embutidos no preço da água subsídios aos irrigantes (quem os pagará, os demais consumidores?). Tudo isso foi perguntado num artigo neste espaço em 28/1/2005.

Em 20 de maio desse ano, comentou-se a análise do Ibama sobre o estudo de impacto ambiental, mostrando que a água irá em sua maior parte para açudes onde o nível de perda por evaporação chega a 75% (alega-se que diminuirá). Que o número de beneficiados no estudo varia entre 12,4 milhões e 7,21 milhões. Que os hectares irrigáveis também oscilam de 186 mil a 161 mil. E, mais grave, ‘20% dos solos irrigáveis pelo projeto têm limitação para uso agrícola; somados aos solos litólicos, notadamente impróprios’, chega-se a mais de 50% do total; e ‘62% precisam de controle, por causa da forte tendência à erosão’. Com tudo isso, licenciou-se o projeto…

Em artigos posteriores (30/9/2005, 6/1/2006 e 22/3/2007), novos questionamentos foram levantados. Os do Tribunal de Contas da União (custos superestimados), do biólogo Ivan Bergier Tavares de Lima (sobre o desprezo, no projeto, aos cenários do clima no semi-árido e suas repercussões sobre os recursos hídricos), da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (sobre o custo da água, o volume a ser transposto - que poderia chegar a 47% da disponibilidade). Nada disso foi respondido pelos ouvidos moucos.

Só ficando, então, com a frase de Ariano Suassuna: ‘Fazer obras contra a seca no Nordeste é como criar um departamento para combater a neve na Sibéria.’ Pelo menos alivia o estado de espírito.”

Jornal Estado de S. Paulo

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Com o dedo na ferida

Antonio Candido fala sobre livro “Com palmos medida”

Avesso às entrevistas, o mais importante crítico literário do País, Antônio Cândido de Mello e Souza, abre uma exceção e aceita receber ISTOÉ em seu apartamento em São Paulo para conversar sobre o livro de Flávio Aguiar. Falante, chama a atenção para a questão da terra e para a força do MST, segundo ele, único instrumento capaz de mudar a política agrária do Brasil.

ISTOÉ – Qual a importância do livro de Flávio Aguiar e onde a obra se encaixa na questão agrária atual?

Antônio Cândido – Estamos vivendo no Brasil um momento cruciante na questão da terra, da qual estão pendentes os mais graves problemas para o País, nunca resolvidos satisfatoriamente em termos modernos. O livro põe o dedo no problema crucial de nosso tempo: o problema da terra, o direito do homem sobre a terra, a maneira pela qual o homem tem ou não acesso a ela. O ponto de vista de Flávio é muito interessante porque faz isso através da literatura. Não é um livro de sociologia ou de economia. São textos literários. Isso é importante porque as críticas literárias do nosso tempo chamam a atenção sobretudo para o texto enquanto texto. O livro lembra que a literatura comunica alguma coisa. É a presença da realidade através da palavra. Flávio lembra que a literatura tem um compromisso com a realidade.

ISTOÉ – E sob o ponto de vista político?

Antônio Cândido – É uma antologia de textos literários com significado político relevante, mas não é sectário. Ele apresenta a visão da terra tanto do lado do oprimido como do lado do opressor, além de oferecer uma perspectiva histórica. Apresenta as diferentes modalidades de descrever a relação do homem com a terra desde o descobrimento. Portanto, é mostrada a mentalidade do séculos XVI, XVII, do tempo da escravidão, do tempo do trabalho livre e assim por diante. Não há ponto de vista preferencial, o que lhe dá amplitude política. Foram usados textos de autores de formação ideológica diversa. Inclusive, há um do líder fascista brasileiro, Plínio Salgado. É o que se chama de tour d’horizon, quer dizer, algo que é visto de vários ângulos.

ISTOÉ – O que está faltando para que se mude o cenário agrário, no momento que temos um político que se diz social-democrata na Presidência da República?

Antônio Cândido – Faltava o que está acontecendo agora. Não podemos esperar das classes dominantes que elas resolvam os problemas sociais, porque estão visceralmente empenhadas em que a situação permaneça de acordo com os seus interesses. No momento, estamos vendo um movimento – que Celso Furtado considera fundamental para o nosso século no Brasil – que é o MST. Pela primeira vez a sociedade brasileira está sendo obrigada a enfrentar o problema dos que têm direito à terra e não o vêem respeitado. E as transformações só ocorrem quando os interessados reivindicam. Por isso, devemos ter esperanças. Não porque as classes dominantes sejam clarividentes, mas porque as classes dominadas estão se levantando.

ISTOÉ – O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra está sendo bombardeado de todos os lados…

Antônio Cândido – Mas é claro. O movimento contraria frontalmente a nossa tradição de origem oligárquica. Em todos os países do mundo, a terra é o último setor a ser atingido pela transformação porque é o que há de mais conservador. A terra não tem tempo. Como dizia o grande historiador Fernand Braudel, o tempo histórico em função da terra se confunde com o tempo geográfico porque o ritmo das estações é sempre o mesmo: primavera, verão, outono, inverno…
Quem vem da terra é sempre conservador e quem possui a terra é mais conservador ainda. O que estamos vendo é a abertura dos oprimidos, o que dá esperança para que a sociedade tome consciência da gravidade do problema agrário no País e se liberalize.

ISTOÉ – Por que levou tanto tempo para que surgisse um movimento como o MST?

Antônio Cândido – Porque o Brasil é um país de estrutura oligárquica muito arraigada.

ISTOÉ – O sr. continua socialista?

Antônio Cândido – Mas claro.

ISTOÉ – O socialismo não acabou?

Antônio Cândido – Não. Que é isso!

Editora Fundação Perseu Abramo

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A RIQUEZA DAS NAÇÕES

JOSÉ LUÍS FIORI

“Se o capital se distribuísse em partes iguais entre todos os indivíduos da sociedade, ninguém teria interesse em acumular mais capital do que pudesse empregar por si mesmo.”
E.G. Wakefield, England and America, Londres 1833, (cit K.Marx, O Capital, FCE, ed.1958, p: 652 )

As teorias econômicas clássica e neo-clássica erraram redondamente, ao prever que a universalização dos mercados, e a internacionalização do capitalismo produziriam uma convergência da riqueza das nações. O que aconteceu, nos últimos 200 anos, foi exatamente o contrário: no início do século XIX, a diferença de renda entre os países ricos e pobres, era de apenas 1 para 2; um século depois, na véspera da 1º Guerra Mundial, era de 1 para 4; e no final do século XX, já era de 1 para 7. Mas também erraram as teorias da dependência e do subdesenvolvimento, que no século XX, apostaram na impossibilidade do desenvolvimento capitalista, nas ex-colônias européias, ou nos países que foram ou são objeto da dominação imperialista das grandes potências. Neste período, houve industrialização e desenvolvimento sustentado em vários territórios que foram verdadeiras “pérolas” do colonialismo e do imperialismo europeu e norte-americano. Primeiro, nos anos 70 e 80, foram os “tigres” e os “gansos” do sudeste asiático, e depois, a partir dos anos 90, foi o crescimento exponencial da China e da Índia que virou de cabeça para baixo todas as teorias ortodoxas e heterodoxas do desenvolvimento econômico. O que não deixa de ser estranho, porque são estes mesmos casos de sucesso econômico que estão explicitando, de forma cada vez mais nítida, as grandes regularidades e tendências de longo prazo do desenvolvimento mundial, que não entram, entretanto, na cabeça da maioria dos economistas. Assim, por exemplo, de forma sintética, e por tópicos:
i. Apesar da globalização dos mercados e da internacionalização dos capitais, que se aprofundou na segunda metade do século XX, o sistema econômico mundial segue funcionando com base em “organismos econômicos nacionais”, com graus muito diferentes de desenvolvimento e riqueza.
ii. Dentro deste sistema mundial, a liderança do desenvolvimento econômico sempre esteve nas mãos de um numero limitado de economias nacionais que se articulam de forma dinâmica e expansiva, com o movimento imperialista dos seus estados nacionais.
iii. Estas “organizações econômicas nacionais” que lideram o desenvolvimento econômico mundial mantém entre si fortes laços de complementaridade, ao lado de uma competição intensa e permanente pela primazia econômico-financeira, e pela supremacia política regional e mundial.
iv. Por isso mesmo, nestas “economias líderes”, a guerra, ou melhor, a permanente preparação para a guerra, ocupam um lugar central, pelo lado da demanda efetiva, da inovação tecnológica e da acumulação financeira, mas também, como fator mobilizador, e como principio organizador de suas principais políticas nacionais.
O comportamento destes “estados-economias líderes”, entretanto, não explica a riqueza de países que nunca foram grandes potências expansivas e militarizadas. Mas mesmo nestes casos, o sucesso econômico tem a ver com o “efeito em cadeia” da competição e do crescimento dos “estados-economias” que lideram o desenvolvimento mundial, e depende da estratégia de resposta adotada por seus governos. As “economias líderes” são transnacionais e imperiais, por definição, e sua expansão gera uma espécie de “rastro”, que se alarga a partir da sua própria economia nacional. Cada “estado-economia imperial” produz seu próprio “rastro”, e dentro dele, as demais economias nacionais se hierarquizam em três grandes grupos, segundo suas estratégias político-econômicas. Num primeiro grupo, estão as economias nacionais que se desenvolvem sob o efeito protetor imediato do líder. Vários autores já falaram de “desenvolvimento a convite” ou “associado” para referir-se ao crescimento econômico de países que tem acesso privilegiado aos mercados e aos capitais da potencia dominante. Como aconteceu com os antigos domínios ingleses do Canadá, Austrália e Nova Zelândia, depois de 1931, e também, com a Alemanha, o Japão e a Coréia, depois da II Guerra Mundial, quando foram transformados em protetorados militares com ligações preferenciais com a economia norte-americana. Num segundo grupo, se situam os países que adotam estratégias de catch up para alcançar as economias líderes. Por razões ofensivas ou defensivas, aproveitam os períodos de bonança internacional para mudar sua posição hierárquica e aumentar sua participação na riqueza mundial, através de políticas agressivas de crescimento econômico. Nestes casos, em geral, o fortalecimento econômico antecede o fortalecimento militar e o aumento do poder internacional do país. São projetos que podem ser bloqueados, como já aconteceu muitas vezes, mas também podem ter sucesso e dar nascimento a um novo “estado-economia líder”. Como aconteceu exatamente com os Estados Unidos, a Alemanha e o Japão, na segunda metade do XIX e começo do XX, e está em vias de acontecer com a China, a Índia e a Rússia, neste início do século XXI. Por fim, num terceiro grupo muito mais amplo, se localizam quase todas as demais economias nacionais do sistema mundial, que atuam como “periferia econômica” do sistema”, fornecendo insumos primários e industriais especializados, para as economias dos “andares superiores”. São economias nacionais que podem ter fortes ciclos de crescimento, e alcançar altos níveis de renda per capita, como no caso dos países nórdicos e da Argentina. E podem se industrializar, como no caso do Brasil e do México, e seguir sendo até hoje, economias tão periféricas quanto as da Venezuela ou do Chile, para manter-nos dentro do “rastro” imediato dos Estados Unidos.
Concluindo precipitadamente: a desigualdade de desenvolvimento e riqueza entre as nações é um elemento essencial do crescimento da economia de mercado, e do sistema capitalista mundial. Mas existe a possibilidade seletiva de mobilidade nacional dentro deste sistema, dependendo da estratégia econômica e de poder de cada país.

Carta Maior

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O Socialismo do Século XXI

No segundo artigo da série sobre os desafios presentes e futuros da esquerda, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos analisa o que poderia ser o “socialismo do século XXI”. Para ele, não haverá socialismo e sim socialismos do século XXI.

Boaventura de Sousa Santos

O que de mais relevante está a acontecer a nível mundial, acontece à margem das teorias dominantes e, até, em contradição com elas. Há vinte anos, o pensamento político conservador declarou o fim da história, a chegada da paz perpétua dominada pelo desenvolvimento “normal” do capitalismo – em liberdade e para benefício de todos – finalmente liberto da concorrência do socialismo, lançado este irremediavelmente no lixo da história.

À revelia de todas estas previsões, houve, neste período, mais guerra que paz, as desigualdades sociais agravaram-se, a fome, as pandemias e a violência intensificaram-se, a China “desenvolveu-se” sem liberdade e mediante violações massivas dos direitos humanos e, finalmente, o socialismo voltou à agenda política de alguns países. Concentro-me neste último porque ele constitui um desafio tanto ao pensamento político conservador, como ao pensamento político progressista.

A ausência de alternativa ao capitalismo foi tão interiorizada por um como por outro. Daí que, no campo progressista, tenham dominado “terceiras vias”, buscando encontrar no capitalismo a solução dos problemas que o socialismo não soubera resolver.

Em 2005, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, colocou na agenda política o objectivo de construir o “socialismo do século XXI”. Desde então, dois outros governantes – tal como Chávez, democraticamente eleitos –, Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador), tomaram a mesma opção. Qual o significado deste aparente desmentido do fim da história? Qual o perfil da alternativa proposta ao capitalismo? Que potencialidades e riscos ela contém?

O socialismo reemerge porque o capitalismo neoliberal, não só não cumpriu as suas promessas, como tentou disfarçar esse facto com arrogância militar e cultural; porque a sua voracidade de recursos naturais o envolveu em guerras injustas e acabou por dar poder a alguns países que os detêm; porque Cuba – qualquer que seja a opinião a respeito do seu regime – continua a ser um exemplo de solidariedade internacional e de dignidade na resistência contra a superpotência; porque, desde 2001, o Fórum Social Mundial tem vindo a apontar para futuros pós-capitalistas, ainda que sem os definir; porque nesse processo ganharam força e visibilidade movimentos sociais, cujas lutas pela terra, pela água, pela soberania alimentar, pelo fim da dívida externa e das discriminações raciais e sexuais, pela identidade cultural e por uma sociedade justa e ecologicamente equilibrada parecem estar votadas ao fracasso no marco do capitalismo neoliberal.

O socialismo do séc. XXI, como o próprio nome indica, define-se, por enquanto, melhor pelo que não é do que pelo que é: não quer ser igual ao socialismo do séc. XX, cujos erros e fracassos não quer repetir. Não basta, porém, afirmar tal intenção. É preciso realizar um debate profundo sobre os erros e fracassos para que seja credível a vontade de evitá-los. Quando, em dezembro passado, o presidente Chávez anunciou o propósito de criar um partido socialista unificado a partir de diferentes partidos que apoiam o governo, o temor que tal gerou de, com isso, estar a propor um regime de partido único de tipo soviético, é bem demonstrativo de como estão vivas as memórias do passado recente.

Se tal desidentificação em relação ao socialismo do séc. XX for levada a cabo de maneira consequente, alguns dos seguintes traços da alternativa deverão emergir: um regime pacífico e democrático assente na complementaridade entre a democracia representativa e a democracia participativa; legitimidade da diversidade de opiniões, não havendo lugar para a figura sinistra do “inimigo do povo”; modo de produção menos assente na propriedade estatal dos meios de produção do que na associação de produtores; regime misto de propriedade onde coexistem a propriedade privada, estatal e colectiva (cooperativa); concorrência por um período prolongado entre a economia do egoísmo e a economia do altruísmo, digamos, entre Windows Microsoft e Linux; sistema que saiba competir com o capitalismo na geração de riqueza e lhe seja superior no respeito pela natureza e na justiça distributiva; nova forma de Estado experimental, mais descentralizada e transparente, de modo a facilitar o controle público do Estado e a criação de espaços públicos não estatais; reconhecimento da interculturalidade e da plurinacionalidade (onde for caso disso); luta permanente contra a corrupção e os privilégios decorrentes da burocracia ou da lealdade partidária; promoção da educação, dos conhecimentos (científicos e outros) e do fim das discriminações sexuais, raciais e religiosas como prioridades governativas.

Será tal alternativa possível? A questão está em aberto. Nas condições do tempo presente, parece mais difícil que nunca implantar o socialismo num só país, mas, por outro lado, não se imagina que o mesmo modelo se aplique em diferentes países. Não haverá, pois, socialismo e sim socialismos do séc. XXI. Terão em comum reconhecerem-se na definição de socialismo como democracia sem fim.

Carta Maior

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IDÉIAS NA BUSCA DA VERDADE

Palavra de origem grega que significa “amor à sabedoria”, a filosofa é considerada a atividade que sua a razão e a argumentação para alcançar a verdade. Vários foram os pensadores que desde o século 6 a.C., com suas reflexões, construíram o que chamamos de filosofia ocidental (as datas que marcam a linha são as de nascimento deles).

469 a.C.
SÓCRATES
Embora desde o século 6 a.C. nomes como Heráclito e Pitágoras já tentassem buscar o princípio material das coisas (physis), Sócrates é considerado o marco da filosofia - mesmo sem ter deixado obra escrita. Segundo ele, todo comportamento ilegal ou imoral é um erro, o conhecimento é a virtude e ninguém faz o mal por querer.
Sócrates deixa o mundo físico de lado e se volta para a metafísica e a moral.

427 a.C.
PLATÃO
É ele quem apresenta ao mundo as reflexões de Sócrates. Apontado como um dos pilares da filosofia ocidental, ele divide seu pensamento entre o mundo sensível (onde vivemos) e o das idéias (acessível somente para a alma), além de fundar sua própria escola, a Academia, onde transmitiria suas idéias para futuros filósofos.

384 a.C.
ARISTÓTELES
Embora tenha sido seguidor e aluno de Platão na Academia, Aristóteles nunca foi seu discípulo incontestável - não concordava com a idéia defendida sobre o mundo superior e se concentrou nas ciências da natureza. Fundou o sistema-base dos estudos de lógica até o século 19, que utiliza o silogismo, como em: “Todos os homens são mortais; Sócrates é homem; logo, Sócrtaes é mortal”.

354
SANTO AGOSTINHO
As reflexões do pensador são um marco na transição entre a filosofia praticada anteriormente e o período medieval (época em que a atividade esteve muito relacionada à teologia, suplementar à religião). Moldando as idéias platônicas de acordo com sua abordagem, combina a fé (fundamental para a filosofia cristã) e a razão (sem a qual a fé não se consolida).

1596
RENÉ DESCARTES
É considerado o pilar da filosofia moderna e um dos responsáveis por libertá-la do pensamento teológico. Autor da frase “penso, logo existo”, elbora uma teoria racionalista e defende o dualismo em que mente e corpo têm naturezas distintas: a essência do “eu” seria o pensamento, e a do corpo, a extensão.

1632
JOHN LOCKE
Contrário ao pensamento de que o homem possui idéias natas, Locke funda o empirismo, sucedendo o racionalismo de Descartes - é autor de Ensaio Sobre o Intelecto Humano, uma das obras que mais colaboraram para essa escola. Sua atenção se volta para questões como as capacidades da mente e a natureza do conhecimento, influenciando o pensamento britânico da época.

1724
IMMANUEL KANT
Suas reflexões surgem no momento em que a filosofia estava dividida entre as duas idéias anteriores: o empirismo de Locke (adotado na Grã-Bretanha) e o pensamento racional da Europa. O filósofo faz uma síntese das correntes: reconhece a idéia empírica de que a experiência é a origem das crenças e rejeita a afirmação de que verdades são determinadas apenas pela razão.

1770
FRIEDRICH HEGEL
Filósofo idealista alemão influenciado pelo pensamento de Kant, Hegel acreditava que a mente ou o espírito constituíam o que chamava de realidade última. Suas idéias influenciam o pensamento europeu com a dialética do absoluto, sistema em que tudo estava inter-relacionado - filosofia, religião e arte formam meios de compreensão absolutos.

1844
FRIEDRICH NIETZCHE
Coloca em questão a história da filosofia, criticando os valores morais defendidos por Sócrates. Ataca a crença da realidade imutável e estimula a confiança no senso comum como uma forma eficaz de entender o mundo.

1905
JEAN-PAUL SARTRE
Símbolo da influência existencialista de Nietzche, com Sartre a existência humana não necessita mais de justificativa exterior e o aqui e agora é a questão da vez. Sua pergunta primordial é: “O que é existir como ser humano?”. Publica uma das obras de referência do existencialismo, O Ser e o Nada, e descreve o que denomina a realidade dos homes de modo geral.

Aventuras na História

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ERA UMA VEZ, UM IMPERADOR CHINÊS

JOSÉ LUÍS FIORI

A velocidade e a ousadia da expansão mundial da China seguem surpreendendo os analistas e os governantes de todo mundo, como no caso recente do “desembarque chinês” na África, noticiado pela imprensa internacional. Em meados de 2005, o presidente chinês, Hi Jintao, anunciou uma nova política de estreitamento de relações com o continente africano. Apenas um ano depois, o balanço é impressionante: o comércio entre a China e a África triplicou em 2005, e hoje a China já é o terceiro maior parceiro comercial da África. Mas além disto, já existem no continente africano, 800 companhias, com 900 projetos de investimento e 80.000 trabalhadores chineses. Um verdadeiro “ataque econômico”, liderado por empresas estatais que seguem uma estratégia de governo, com “incentivos financeiros e empréstimos baratos, para investir no continente africano” (Financial Times, 20/6/2006). Faz seis séculos atrás, no início do século XV, a China já havia chegado à costa oriental da África, no curso de um outro movimento expansivo, igualmente veloz e massivo. Mas houve um momento em que a China decidiu interromper aquela sua primeira expansão e recuou para dentro de si mesma isolando-se do mundo, por muitos séculos. Uma mudança de rumo que permanece até hoje como uma incógnita da história mundial.
Este primeiro “desembarque africano” dos chineses aconteceu em 1417, durante o reinado de Yung-Lo (1403-1424), o terceiro imperador da Dinastia Ming, que foi criada em 1368, e que durou até 1662, sendo considerada, em geral, como uma “época de ouro” da história chinesa. Mas na verdade, a história da Dinastia Ming não foi tão homogênea, nem tão brilhante, teve altos e baixos, e grandes períodos de estagnação e retrocesso. De qualquer maneira, não há duvida que foi no reinado de Yung-Lo, entre 1403 e 1424, que a Dinastia Ming alcançou seu maior brilho, projetando o poder e a influencia da China através do mundo. Yung-Lo centralizou fortemente o poder imperial chinês, junto sua capacidade fiscal e militar, e criou um sistema de governo ministerial com uma burocracia profissional e universalista. Mas o que é mais importante, foi um governante com uma visão estratégica e expansionista, que começou e terminou as obras de reabertura do Grande Canal – que havia sido construído em 1289 - comunicando o Mar da China e a antiga capital Nanquim, com a região mais pobre ao norte do império, onde decidiu construir uma nova capital, que foi Pequim. Num gigantesco projeto – talvez, o maior de toda a Dinastia Ming - que mobilizou durante muitos anos, um verdadeiro exército de trabalhadores, artesãos, soldados e arquitetos. Além disto, o imperador Yung-Lo se propôs estender a hegemonia chinesa - política, econômica e cultural – em todas as direções, e através de todas as fronteiras territoriais da China, mas também, na direção dos Mares do Sul, do Oceano Indico, do Golfo Pérsico e da Costa Africana. Yun-Lo encomendou este último projeto de expansão marítima ao Almirante Cheng Ho, que liderou seis grandes expedições navais, entre 1404 e 1421, alcançando sucessivamente, Java, Sumatra, Índia, Arábia e finalmente, a África, onde desembarcou em 1417, cerca de 30.000 homens levados por cerca de 300 navios, numa missão diplomática sem nenhum objetivo bélico ou de conquista territorial. Sete anos depois, exatamente em 1424, o Imperador Yung-Lo ordenou uma sétima expedição ao seu almirante Cheng Ho, com o objetivo de instalar “comissariados” chineses, nos vários territórios que já haviam sido contatados. Mas Yung-Lo morreu naquele mesmo ano de 1424, e a nova expedição foi imediatamente cancelada. E foi logo depois do seu reinado que o Império Ming perdeu seu fôlego expansivo e fechou-se sobre si mesmo, seguindo uma política externa passiva e convencional, de quase total isolamento internacional.
Nesta história, existe um filão menos conhecido, mas muito interessante. O fato é que as políticas “desenvolvimentistas” e expansionistas do Imperador Yung-Lo enfrentaram durante todo o tempo do seu governo, uma resistência surda de uma parte do mandarinato, das elites e do seu próprio ministério. A oposição mais dura foi sempre a do Ministro da Fazenda, Hsia Yüan-Chi, preocupado com o excesso de gastos do império, e com o que hoje se chamaria de seu “equilíbrio fiscal”. Hsia Yüan-Chi se opôs à construção de Pequim; se opôs às obras de remodelação do Grande Canal; se opôs às expedições militares do imperador na Mongólia; e se opôs também às expedições marítimas do almirante Cheng Ho. Por fim, em 1421, Yung-Lo demitiu e prendeu o seu próprio ministro da fazenda, para poder seguir em frente com sua estratégica de governo.
Pois bem, o que aconteceu em 1424, foi que logo depois da morte do imperador Yung-Lo, e no dia seguinte da posse do seu filho como novo imperador, Chu Kao-Chih, o próprio filho libertou o antigo ministro da fazenda do seu pai, Hsia Yuan-Chi. E no mesmo dia, seguindo o conselho do “renomeado” ministro da fazenda do novo reino, o novo imperador mandou cancelar a sétima expedição marítima do almirante Cheng Ho, em nome da contenção dos gastos imperiais, proibindo qualquer nova expedição para fora da China. Depois, a própria esquadra chinesa foi incendiada, para eliminar a lembrança do passado. Este episódio parece bizarro, mas foi exatamente assim que terminou a expansão territorial e marítima, diplomática e militar, que levou a China ao zênite do seu poder mundial, na primeira metade do século XV. Naquele momento, “para levar a frente a estratégia expansionista de Yung-Lo, teria sido necessária uma sucessão de líderes com a sua mesma visão vigorosa e estratégica, a visão de um construtor de impérios que não teve seguidores.” ( The Cambridge History of China, 1988, vol 7, pp:275). Se isto tivesse acontecido, a própria expansão continuada da China teria gerado os recursos necessários à compensação das suas dívidas, e ao equilíbrio dos seus orçamentos. Mas não foi isto o que aconteceu, e tomou muito tempo para que os chineses aprendessem a lição do expansionismo europeu. Hoje, entretanto, 600 anos depois do Reino de Yung-Lo, a China está se transformando na primeira sociedade não branca e não européia que será uma superpotência global. E não há no ar nenhum sinal de recuo.

Carta Maior

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Dez movimentos que marcaram a arte moderna

No fim do século 19, o ideal de retratar a natureza do modo mais perfeito possível foi repentinamente deixado de lado. Contra modelos e conceitos valorizados desde o Renascimento, os artistas passaram a criar retratos subjetivos e multifacetados da realidade. Essa busca por novas formas de expressão mudou para sempre o significado e a função da arte na história.

1874
IMPRESSIONISMO
O ciclo da arte moderna começa em abril desse ano, quando jovens de Paris usam um estúdio fotográfico para mostrar sua arte. Monet, Renoir e Cézanne pintam a fugacidade da realidade pela luz, como Impressão: Nascer do Sol, de Monet

1880
ART NOVEAU
A arquitetura, a pintura e a escultura sofrem o efeito da industrialização e das descobertas científicas do século 19. Obras excessivamente sinuosas e rebuscadas passam a ser reproduzidas industrialmente, através da fundição ou da impressão em roupas e de pôsteres, difundindo-se como decoração entre a incipiente classe média

1907
CUBISMO
Surgiu na Alemanha como oposição ao impressionismo. Artistas como Vincent van Gogh e Edvard Munch, em vez de registrar sua impressão do mundo, valiam-se de suas emoções para dar formas à visão que tinham das coisas. Por isso, as cores eram modificadas e as figuras, deformadas, como O Grito, de Munchs

1909
EXPRESSIONISMO
O belga Joseph Merlin, o homem que primeiro imaginou os patins, não conseguia manter-se em pé nas demonstrações do seu invento. Por isso, os patins só foram levados a sério em 1863, com a criação de um protótipo americano, e popularizaram-se no século 20, quando o plástico como matéria-prima foi usado largamente
1916
DADAÍSMO
O dadaísmo surgiu em diversos lugares ao mesmo tempo: Zurique, Paris, Nova York, Berlim e Barcelona, ente outros. A proposta era expressar a indignação pela Primeira Guerra Mundial – incluindo aí as instituições políticas, sociais e artísticas. Para os dadaístas, mais que registrar impressões ou sentimentos, era preciso destruir modelos lógicos e racionais e criar novos, baseados na anarquia e no irracional

1918
ART DÉCO
A guerra havia acabado e era tempo de esquecer-se dos horrores, divertir-se com o jazz e pensar no futuro. Em oposição à art noveau, os artistas procuravam as formas geométricas e simplificadas, cores fortes, novos materiais e tecnologias. O movimento teve em estilistas, designers e arquitetos seus mais famosos e aplicados representantes
1924
SURREALISMO
Obras como A Persistência da Memória, de Dalí, foram criadas segundo “o pensamento que é expresso na ausência de qualquer controle exercido pela razão e alheio a todas as considerações morais e estéticas”, como propunha André Breton

1950
ARTE POP
Apesar de o termo “pop” ter surgido num artigo escrito em 1958, o interesse por criar arte a partir da cultura de massa era mais antigo. Temas do cinema, da propaganda e do consumo em geral apareceram em colagens e serigrafias como as de Marilyn Monroe, feitas por Andy Warhol, e quadrinhos a óleo de Roy Lichtensteinh

1963
MINIMALISMO
Apesar de não ter sido, a princípio, um movimento, o minimalismo foi um dos rótulos dados pelos historiadores de arte às estruturas geométricas de aparência simples que artistas como Donald Judd, Dan Flavin e Carl André fizeram. Eles foram muito criticados por não fazer arte, principalmente porque costumavam usar materiais industriais pré-fabricados, de madeira ou plástico

1975
PÓSMODERNISMO
Formas racionais e minimalistas são substituídas por obras ambíguas e contraditórias – como a vida no fim do século 20. Algumas obras foram inspiradas na cultura popular, como os grafites de Basquiat, que misturavam máscaras africanas com cenas cotidianas de Nova York

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