Arquivo de 20 de Abril de 2008

Desemprego e precarização:Um grande desafio para a esquerda

István Mészáros

Introdução

Escolhi este assunto para a nossa discussão por duas razões principais. Primeiro, porque a questão afecta todas as cambiantes da esquerda. Pois no nosso tempo nenhuma secção da força de trabalho pode considerar-se imune à desumanizante dureza do desemprego e da precarização. De facto “eventualização” (”casualisation”) é mais apropriadamente chamada em algumas línguas de “precarização” (”precarisation”) , embora em geral seja tendenciosamente mal representada como “emprego flexível” desejável. Uns poucos meses atrás uns 25 mil empregados do Wesminster Bank tiveram de enfrentar a perspectiva do desemprego (redundancy) ; hoje os trabalhadores da empresa automobilística Rover - uma parte da bancarrota da orgulhosa corporação transnacional BMW - são lançados aos lobos da insegurança total. A questão não é se o desemprego ou a “precarização flexível” vai ameaçar as pessoas ainda empregadas mas sim quando elas irão partilhar as agruras da precarização forçada. A segunda razão principal para nos preocuparmos com esta questão é porque ela representa um inultrapassável problema estrutural para o capital. Assim, é impensável que a esquerda possa desenvolver uma estratégia viável para o futuro sem dar um lugar central à questão vital do desemprego e da precarização.Tenciono hoje considerar três aspectos principais daquilo que está em jogo.

1- A “globalização” do desemprego e da precarização, afectando mesmo as partes do mundo capitalisticamente mais desenvolvidas.

2- O mito da “flexibilidade” com o qual a pílula amarga é coberta de açúcar. Pois do que estamos a falar é de facto a grave tendência socioeconómica da equalização descendente (downward equalisation) da taxa de exploração diferencial.

3- A única solução factível para os problemas que enfrentamos é abandonar as trocas socioeconómicas reguladas pela submissão à tirania do “tempo de trabalho necessário” (também chamado “trabalho necessário”) para a emancipação através do “tempo disponível” como a alternativa positiva ao modo de reprodução social metabólica do capital.
Como ponto de partida, podemos considerar a questão da redução da semana de trabalho para 35 horas a qual, não por acaso, veio a apresentar-se nos últimos tempos.

Parte I
A “globalização” do desemprego
Socialistas em vários países europeus - assim como na América do Norte e do Sul - estão a combater pelo objectivo de reduzir o tempo de trabalho para 35 horas por semana sem perda de pagamento. Esta importante reivindicação estratégica não está de forma alguma livre de dificuldades. Pois ela destaca tanto os prementes problemas do desemprego por todo o mundo como as contradições do sistema socioeconómico que, por sua própria perversa necessidade, impõe a incontáveis milhões as dificuldades e os sofrimentos que decorrem do desemprego. Assim, o combate pelas “35 horas de trabalho” não pode ser uma reivindicação sindicalista tradicional, confinada aos mecanismos há muito estabelecidos das negociações salariais. Ao contrário, tem de estar plenamente consciente não só da magnitude da tarefa e das implicações a longo prazo das questões em causa e também da inevitável resistência tenaz da ordem socio-económica, a qual deve seguir os seus próprios imperativos a fim de anular qualquer concessão que possa ser feita na esfera legal/política sob condições temporariamente favoráveis aos sindicatos e aos seus representantes políticos à esquerda. Compreensivelmente, portanto, na Itália por exemplo, o partido da Rifondazione no seu modo de levantar o problema simultaneamente sublinha a preocupação com o aumento do emprego e da melhoria das condições de vida (”per l’occupazione & per migliorare la vita”) e a necessidade de mudar a sociedade (”per cambiare la società”) a fim de assegurar o objectivo desejado de abreviar o tempo de trabalho numa base viável. Pois o êxito final neste assunto só é factível através de uma troca sustentada - uma reciprocidade dialéctica - entre o combate pelo objectivo imediato do tempo de trabalho reduzido significativamente e a progressiva transformação da ordem social estabelecida, a qual não pode contribuir para resistir e anular tais reivindicações. Aqueles que negam a legitimidade destas reivindicações, exaltando em alternativa as virtudes do seu querido sistema, continuam a idealizar o modelo americano para resolver o problema do desemprego bem como todos os males sociais inseparáveis do mesmo. Ainda assim, um exame rápido do estado real dos negócios revela que as confortáveis idealizações dos EUA pertencem ao reino da fantasia. Pois, como enfatizou um editorial de The Nation :
“A taxa de pobreza no último ano, 13,7 por cento, era mais elevada do que em 1989, apesar de sete anos de crescimento quase ininterrupto. Aproximadamente 50 milhões de americanos - 19 por cento da população - vive abaixo da linha nacional de pobreza. Aqueles na pobreza incluem uma em cada quatro crianças abaixo dos 18 anos, um em cada cinco cidadãos adultos e três em cada cinco famílias monoparentais. Em dólares constantes, os rendimentos médios semanais dos trabalhadores caíram de US$ 315 em 1973 para US$ 210, enquanto os 5 por cento mais ricos ganhavam uma média de US$ 6440 (não contando seus ganhos de capitais). … O número de americanos sem seguro de saúde mantinha-se em 40,6 milhões em 1995, um aumento de 41 por cento desde meados da década de setenta. Em 1995, quase 80 por cento dos não assegurados estavam em famílias onde o chefe da família tinha um emprego.” [1]
É assim que aparece o róseo modelo americano desde que se esteja disposto a abrir os olhos. Podemos também acrescentar aqui um número mais significativo fornecido recentemente pelo Gabinete do Orçamento do Congresso dos EUA, não objectável nem mesmo para os piores apologistas do capital. Ele informa-nos que o rendimento dos um por cento mais ricos da população é equivalente àquele dos 40 por cento da base. E ainda mais importante: também se verifica que este número aterrador realmente duplicou nas últimas duas décadas, em consequência da crise estrutural do capital. Assim, nenhuma camuflagem cínica da deterioração das condições de trabalho, não importa quão ilusoriamente adulterada com a benção da “flexibilidade”, pode esconder as sérias implicações desta tendência para o futuro da expansão e acumulação do capital. As estatísticas do desemprego podem, naturalmente, ser trapaceadas ou definidas e redefinidas de forma totalmente arbitrária não só nos EUA como em todos os países do assim chamado “capitalismo avançado”. Na Grã-Bretanha, por exemplo, mesmo os apologistas profissionais do sistema do capital - os editores do London Economist - tiveram de admitir que os números do desemprego foram “revistos” 33 vezes pelo governo a fim de faze-los parecer mais apresentáveis. Sem mencionar o facto de que qualquer um que trabalhe 16 horas por semana na Grã-Bretanha é contado como se desfrutasse de um emprego a tempo inteiro. E, ainda mais surpreendentemente, no Japão - um país que até recentemente era saudado como um caso paradigmático de “capitalismo dinâmico avançado” - “qualquer um que efectue trabalho assalariado por mais de uma hora na última semana do mês deixa de ser incluído nas estatísticas de desemprego”. [2] Mas quem pode ser enganado por tais artifícios de manipulação económica e política? Pois não importa quão arranjada e tortuosa seja a adulteração do estado de coisas existente, o desafio potencialmente muito grave do desemprego não pode ser evitado em qualquer dos países capitalisticamente mais avançados. Dessa forma, seja o que for que os números das estatísticas apologéticas possam sugerir, já não é mais possível ocultar o alarme acerca dos registos de desemprego em ascensão constante no Japão e o aprofundamento da recessão económica que isto implica. Na realidade, a dramática ascensão do desemprego nos países capitalistas avançados não é um fenómeno recente. Ela surgiu no horizonte - depois de 25 anos de uma expansão do capital no pós-guerra relativamente sem perturbações - com o princípio da crise estrutural do sistema do capital como um todo. Surgiu como a característica necessária e sempre em agravação desta crise estrutural. Consequentemente, argumentei em 1971 que sob as condições em desdobramentos do desemprego
“O problema não é mais apenas a condição difícil dos trabalhadores não qualificados mas também a de vastas quantidades de trabalhadores altamente qualificados que estão agora a perseguir, em acréscimo ao primitivo mar de desempregados, os escassos empregos disponíveis. Além disso, a tendência da amputação “racionalizante” já não está mais confinada aos “ramos periféricos da indústria envelhecida” mas abrange alguns dos mais desenvolvidos e mais modernizados sectores da produção - desde estaleiros navais e aviação à electrónica, e do engineering à tecnologia do espaço. Assim, já não estamos preocupados com os “normais”, e bem aceites, subprodutos do “crescimento e desenvolvimento” mas sim com sua tendência para uma travagem, nem na verdade com os problemas periféricos dos “bolsões de subdesenvolvimento” e sim com uma contradição fundamental do modo de produção capitalista como um todo que converte até as últimas conquistas do “desenvolvimento”, da “racionalização” e da “modernização” em fardos paralisantes de subdesenvolvimento crónico. E, acima de tudo, a agência humana que se considera como a receptadora final já não são as pessoas “desfavorecidas” socialmente e sem poder, multidão apática e fragmentada, mas todas as categorias de trabalho qualificado e não qualificado: i.e., objectivamente a força de trabalho total da sociedade”. [3]
Desde o tempo em que estas linhas foram escritas testemunhámos um decuplicar do desemprego na Grã-Bretanha e alhures. Tal como estão as coisas hoje, mesmo de acordo com os números oficiais - grosseiramente subestimados -, há mais de 40 milhões de desempregados nos países industrialmente mais desenvolvidos. Deste número, a Europa conta com mais de 20 milhões, e a Alemanha - outrora elogiada por produzir o “milagre alemão” - ultrapassou a marca dos 5 milhões. Um país como a Índia - altamente louvado nos órgãos tradicionais de sabedoria económica pelos seus feitos como um país em saudável desenvolvimento - tem não menos de 336 milhões de pessoas nos seus registos de desemprego, [4] e muitos milhões mais sem trabalho adequado que deveriam ser contados mas não são registados. Além disso, a intervenção do FMI nos países “em desenvolvimento”, verdadeira organização dos EUA para ditar comandos, piora a condição difícil dos desempregados ao pretender melhorar as condições económicas dos países afectados. Tal como afirma outro editorial de The Nation:

“A economia do México pode parecer estar bem, mas o seu povo está em estado lastimável. Desde a salvação (bailout) do FMI, as camadas médias foram esmagadas; 25 mil pequenos negócios foram à falência; 2 milhões de trabalhadores perderam os seus empregos no mesmo período. Em termos de dólar, os salários afundaram 40 por cento. O FMI tinha de destruir a economia interna a fim de salvá-la”. [5]
Ao mesmo tempo, os antigos países pós-socialistas pertencentes ao sistema de tipo soviético, desde a Rússia à Hungria - os quais no passado não sofriam de desemprego, apesar de terem de administrar suas economias com altos níveis de subemprego, tiveram de acomodar-se, muitas vezes sob a pressão directa do FMI, às condições desumanizantes do desemprego maciço. A Hungria, por exemplo, foi felicitada pelo FMI [6] por “estabilizar” o desemprego em cerca de 500 mil. Na realidade o número é consideravelmente superior, e ainda aumenta. Mas mesmo 500 mil, em termos da relativamente pequena população húngara, é o equivalente a ter 6,5 milhões de desempregados na Grã-Bretanha ou na Itália, e algo em torno dos 8 milhões na Alemanha. Na Federação Russa a situação é igualmente má, e em vias de tornar-se pior, incluindo ultrajes como não pagar os salários de mineiros e outros trabalhadores por muitos meses. O Vietname apresenta um exemplo particularmente trágico. Após a heróica vitória do seu povo sobre a longa e devastadora guerra intervencionista do imperialismo americano, a paz está a ser perdida sob a pressão da restauração capitalista. [7] E mesmo a China não é excepção à regra geral de desemprego em ascensão, apesar do modo muito especial como a sua economia é controlada politicamente. Um relatório confidencial mas que veio à luz, preparado pelo seu Ministério do Trabalho, adverte o governo chinês de que dentro de uns poucos anos o desemprego no país está destinado a atingir o número estarrecedor de 268 milhões - apontando também para o perigo de grandes explosões sociais a decorrerem disso - a menos que medidas apropriadas (mas não especificadas) sejam adoptadas para conter a presente tendência. [8]
É assim que alcançamos um ponto no desenvolvimento histórico no qual o desemprego é uma característica dominante do sistema do capital como um todo. Na sua nova modalidade, constitui uma rede fechada de inter-relações e inter-determinações pelas quais agora é impossível encontrar remédios e soluções parciais para o problema do desemprego em áreas limitadas, em agudo contraste com as décadas de desenvolvimento do pós-guerra nuns poucos países privilegiados em que políticos liberais podiam falar acerca de “Pleno emprego numa sociedade livre” (Full Employment in a Free Society) . [9]
Nos últimos anos tem havido muita conversa propagandeando as virtudes universalmente benéficas da “globalização”, deturpando a tendência da expansão global e integração do capital como um fenómeno radicalmente novo destinado a resolver todos os nossos problemas. A grande ironia da tendência real de desenvolvimento - inerente à lógica do capital desde os primórdios da constituição do seu sistema há séculos atrás, que alcançou a sua maturidade no nosso tempo de uma forma inextricavelmente ligada à crise estrutural do sistema - é que o avanço produtivo deste modo antagónico de controlar o metabolismo social lança uma porção cada vez maior da humanidade na categoria de mão-de-obra supérflua. Já em 1848, no Manifesto Comunista, Marx insistia em que
“A fim de oprimir uma classe devem ser-lhe asseguradas certas condições sob as quais esta possa, pelo menos, continuar a sua existência servil. … [Mas] a burguesia é incapaz de continuar a ser por muito mais tempo a classe dominante da sociedade e a impor à sociedade como lei reguladora as condições de vida da sua classe. Ela é incapaz de dominar porque é incapaz de assegurar ao seu escravo a própria existência no seio da escravidão, porque é obrigada a deixá-lo mergulhar num tal estado em que tem de ser ela a alimentá-lo ao invés de ser alimentada por ele”. 10
Dessa forma, ironicamente, o desenvolvimento daquele que é de longe o mais dinâmico sistema produtivo da história culmina por proporcionar (rendering) um número cada vez maior de seres humanos supérfluos para a sua maquinaria de produção , embora - de acordo com o carácter incorrigivelmente contraditório do sistema - longe de supérfluos como consumidores . A novidade histórica do tipo de desemprego no sistema globalmente realizado é que as contradições de qualquer parte específica complicam e agravam o problema em outras partes e, consequentemente, no todo. Pois a necessidade de produzir desemprego, “downsizing”, etc, necessariamente levanta-se dos imperativos antagónicos do capital de perseguir o lucro e acumulação ao qual não pode concebivelmente renunciar, nem tão pouco conter-se de acordo com princípios de satisfação racional e humana. O capital ou mantém o seu inexorável impulso em direcção aos objectivos de auto-expansão, não importa quão devastadoras sejam as consequências, ou deixa de ser capaz de controlar o metabolismo social da reprodução. Aqui não pode haver qualquer meio-termo ou mesmo a mais ligeira atenção a considerações humanas. Eis porque pela primeira vez desde sempre na história ascende um sistema dinâmico - e em suas implicações finais dinamicamente destrutivo - de controle social metabólico auto-expansivo, o qual expele brutalmente, se necessário, a esmagadora maioria da espécie humana do processo de trabalho. Este é o significado profundamente perturbante de “globalização”. Quando o capital alcança este estágio de desenvolvimento não há maneira de corrigir as causas da sua crise estrutural; ele pode apenas trapacear com efeitos e manifestações de superfície. Consequentemente, desde que o capital “já não pode alimentar o seu escravo”, as “personificações” do seu sistema (para utilizar a expressão de Marx) tentar resolver o problema pela reversão mesmo do limitados benefícios concedidos ao trabalho na forma do “Estado providência” (”Welfare State”) - durante o período do pós-guerra de despreocupada expansão do capital - através do ataque e abolição do dito “Estado providência”. Assim, nos EUA, os desempregados são obrigados a submeterem-se aos ditames dos “programas de trabalho do governo” (work-fare”) se quiserem receber quaisquer benefícios sociais. E, exactamente do mesmo modo, na Grã-Bretanha está a ser tentada a mesma transferência do “Welfare” para o “work-fare” pelo governo de um partido que outrora considerou-se socialista. Em consequência, quando uma manchete a oito colunas de um jornal liberal britânico (que acontece ser muito amigo do governo do “New Labour”) anuncia: “Dizem aos desempregados: alistem-se no Exército ou percam os benefícios” [11] , tal manchete dá uma antevisão das medidas que aguardam a juventude desempregada. Isto, mais uma vez, sublinha o facto, tal como os outros aspectos do nosso problema mencionados até aqui, que a agora plenamente cumprida globalização do desemprego e da precarização não pode ser reparada sem a substituição radical do próprio sistema do capital. Não muitos anos atrás era confiantemente previsto que todos os males sociais conhecidos, mesmo nas mais “subdesenvolvidas” partes do mundo, seriam ultrapassados pela “modernização” universal, em conformidade com o modelo americano. Caracteristicamente, contudo, somos agora confrontados por algo diametralmente oposto àquele quadro róseo. Pois as condições outrora confinadas, nos contos da “teoria do desenvolvimento” e da sabedoria governamental, às supostamente temporárias dificuldades do “subdesenvolvimento” estão agora a tornar-se claramente visíveis mesmo nos mais desenvolvidos países capitalistas.

Parte II
O mito da “flexibilidade”: equalização declinante da taxa de exploração diferencial
Em 19 de Maio de 1998 o Parlamento francês aprovou uma lei que reduz a semana de trabalho para 35 horas. Legislação semelhante também é aguardada na Itália em futuro não demasiado distante. Seria ingénuo, entretanto, pensar que isto é o fim da história. Pois em Paris o movimento foi imediatamente “descrito por muitos economistas e líderes de negócios como suicídio económico” [12] , e na Itália antes até de qualquer iniciativa legislativa o líder da Confederação da Indústria Italiana (Confindustria), Giorgio Fossa, tornou absolutamente clara a intenção da sua organização de anular qualquer legislação desse género. [13] Além disso, o presidente Fossa da Confindustria (cujo nome em italiano significa, mais apropriadamente, “túmulo”) também declarou sem vergonha (como se isto não fosse óbvio para todos os que conhecem a sua organização) que pretende enterrar a lei, se aprovada no Parlamento, com a ajuda de uma “grande coligação” que incluiria os apoiantes mesmo dos partidos da extrema direita. [14] E conforme o seu cinismo habitual, o London Economist assim pontificou acerca da proposta de lei:
“Assim, quem realmente quer a semana laboral de 35 horas de Lionel Jospin? Certamente não o patronato da França, o qual reclama que isto aumentará os custos do trabalho e reduzirá a sua competitividade. Nem tão pouco o contribuinte, o qual suspeita que terá de pagar impostos mais elevados para financiar o esquema. Nem, cada vez mais, os sindicatos, os quais temem que isto leve a salários mais baixos e menos direitos para os trabalhadores. Nem mesmo os trabalhadores, a maior parte dos quais espera continuar a trabalhar tanto quanto antes, mas com mais mudanças comprometedoras e horas não sociais. Mesmo os desempregados, os supostos beneficiários do esquema, estão a perguntar-se a si próprios quantos empregos, se algum, isto realmente criará. … O sr. Jospin encontra-se encravado num esquema que nem mesmo ele - murmura-se - acredita”. [15]
Assim, aparentemente a lei em questão representou um mistério total. Disto fomos assegurados por The Economist com base na autoridade dos misteriosos murmuradores bem informados. Naturalmente, há sérias dificuldades que devem ser enfrentadas pelo movimento trabalhista na sua luta pela redução real da semana de trabalho sem perda de pagamento. Mas elas são de uma ordem muito diferente em comparação com os contos aterrorizantes inventados por The Economist e pelos outros porta-vozes da ordem vigente. Os obstáculos reais que confrontam o trabalho no presente e no futuro próximo podem ser resumidos em duas palavras: “flexibilidade” e “desregulamentação” : dois dos mais queridos slogans das personificações do capital nos negócios de hoje e também na política. Eles pretendem soar muito atraentes e progressistas. Na verdade, contudo, eles condensam as mais agressivas aspirações anti-trabalho e políticas neoliberais, apregoadas como recomendáveis para todo o ser racional tal como a maternidade e a torta de maçã. Pois a “flexibilidade” em relação às práticas de trabalho - a ser facilitada e forçada através de várias espécies de “desregulamentação” - aumenta na realidade a brutalidade da eventualização (casualisation) da força de trabalho. Ela é frequentemente emparelhada com legislação anti-trabalho autoritária - desde a supressão de Reagan dos controladores aéreos dos EUA até as longas séries de viciosas leis anti-trabalho de Margaret Thatcher: caracteristicamente mantidas pelo governo “New Labour” de Tony Blair. E as mesmas pessoas que clamam ser a difusão das condições de trabalho mais precárias “flexibilidade” universalmente benéfica também se atrevem a chamar a prática da legislação autoritária anti-trabalho de “democracia”.
Espera-se que a “flexibilidade” tome conta da concessão das 35 horas, se por razões de contingência política se tornar inevitável, como parece ser o caso em França e na Itália. Assim, em França “alguns ministros falam em tornar o mercado de trabalho mais flexível , notavelmente pela permissão aos empregadores de variarem a semana de trabalho de acordo com a procura sazonal, de modo que o número de horas trabalhadas semanalmente seria calculado como uma média ao longo do ano”. [16] Espera-se que a mesma trama faça chegar ao mesmo resultado na Itália. No momento da sua introdução o primeiro-ministro da Itália, Prodi - posteriormente premiado com a Presidência da Comissão Europeia - reassegurou aos seus críticos que a “flexibilidade” apropriada deveria ser capaz de conter os efeitos negativos da lei. A preocupação real das personificações do capital é promover a “flexibilidade laboral” e combater de todas as formas possíveis “mercados de trabalho rígidos”. Assim, um artigo importante no Financial Times insiste em que “tanto no Japão como na Europa as companhias estão intensificando a eliminação de empregos mais rapidamente do que rígidos mercados de trabalho podem criá-los”, indicando aprovadoramente que a ” desregulamentação pode forçar o ritmo” e acrescentando para efeitos de consolo propagandístico que “Optimistas acreditam que a desregulamentação finalmente conduzirá à criação de suficientes empregos em novos mercados para absorver muito do excesso de trabalho. Mas para isto acontecer o Japão precisará da espécie de mobilidade do trabalho que se verifica nos EUA”. [17] (A história do takeover da Nissan pela Renault, provocando com isto o despedimento de 30 mil trabalhadores da Nissan, deve agradar os advogados de tais remédios, pois isto mostra que o Japão está a mover-se na “direcção certa”). De modo análogo, um documento do staff do FMI - entusiasticamente revisto por The Economist - assevera que “estudos sugerem que na Europa salários reais são flexíveis apenas pela metade em relação àqueles nos EUA, que os trabalhadores da Europa são muito menos propensos a moverem-se à procura de trabalho do que aqueles dos EUA”. Eles dizem isto enquanto beatificamente esquecem a queixa de John Kenneth Galbraith há muitos anos atrás de que os trabalhadores nos EUA podem culpar-se apenas a si próprios pelo seu desemprego porque se recusam a “mover-se” devido ao seu “instinto para ficar em casa”, o qual liga-os ao lugar da sua formação. Nada parece mudar ao longo de décadas tanto no diagnóstico como na visão terapêutica. E para completar o inapreciável raciocínio pronto a comer, os autores do documento do staff do FMI apresentam o seu longe de reflexivo mas, ao contrário, a solução reflex automática e pavloviana na forma de projecções do que “deveriam ser” as soluções desejáveis para o capital neoliberal:
“Suponha, por exemplo, que um governo corte benefícios de desemprego. Os trabalhadores então têm um incentivo mais forte para procurar trabalho e assim o desemprego cairia. Um aumento no número de pessoas à procura de emprego também provocaria pressão descendente nos salários. Custos salariais mais baixos deveriam, por seu turno, promover o emprego”. [18]
Naturalmente, em resultado desta maravilhosa contracção do custo salarial, viveremos felizes para sempre. E por outro lado, se - apesar dos sacrifícios muito reais dos trabalhadores (descritos na nossa citação) - as expectativas fictícias do “deveriam” não se materializassem, isso não poderia de modo algum invalidar a teoria partilhada pelo FMI e por The Economist . Isto revelaria apenas que os porcos proverbiais do bem conhecido provérbio inglês recusam-se teimosamente a que lhes cresçam asas, para parecerem abelhas gigantes, a fim de fugir rumo ao ilusoriamente projectado futuro “optimista” do capital. Nesse ínterim, a selvajaria real do sistema continua ininterruptamente não só a expulsar cada vez mais pessoas do processo de trabalho como, numa contradição característica, também a estender o tempo de trabalho, sempre que o capital possa conseguir isso. Para mencionar um exemplo muito importante, no Japão o governo introduziu recentemente um projecto de lei “para elevar os limites superiores do dia de trabalho de 9 para 10 horas, e a semana de trabalho de 48 para 52 horas. Tal disposição legal permitirá a uma empresa forçar os empregados a trabalharem mais horas quando estiver ocupada enquanto o total de horas trabalhadas em um ano não exceder o limite fixado”, [19] tal como os “mercadores da flexibilidade” propõem em França, na Itália e por toda a parte. Além disso, o mesmo projecto de lei pretende também estender os chamados “cronogramas de trabalho arbitrários” (”discretionary work schedules”) a fim de “permitir a uma empresa que pague aos seus trabalhadores de colarinho branco apenas 8 horas de trabalho mesmo que eles possam ter trabalhado mais”. [20] Alguns assustadores exemplos dos efeitos destrutivos desumanos do tal “trabalho arbitrário” são relatados nos campos onde já estão em prática, agora a serem estendidos. Exemplo: um jovem programador de computador morreu devido ao enorme excesso de trabalho, segundo julgamento do Tribunal Distrital de Tóquio. Lemos que “o seu tempo médio anual de trabalho era superior a 3000 horas. Nos três meses anteriores à sua morte ele trabalhou 300 horas por mês. Naquele momento ele estava empenhado em desenvolver um sistema de software para bancos”. [21] Outro jovem que morreu de ataque de coração devido a um excesso de trabalho brutal, “nas duas semanas anteriores à sua morte trabalhou em média 16 horas e 10 minutos por dia”. [22] Segundo outro jornal japonês mesmo hoje
“os empregadores impõem quotas estritas aos trabalhadores, o que significa longas horas de trabalho e trabalho não pago colocado nas costas dos trabalhadores. … Um condutor de comboio, por exemplo, a trabalhar para a East Japan Railways Co., o maior caminho de ferro do Japão, realmente cumpriu os seus deveres durante 14 horas e 5 minutos e manteve-se no lugar de trabalho durante 24 horas e 13 minutos, e a companhia não lhe pagou pelas restantes 10 horas e 8 minutos, dizendo que estas horas “não são nem horas de trabalho nem períodos de descanso”. [23]
Significativamente, na era da crise estrutural do capital mesmo este nível de exploração não é suficiente. Ele deve ser estendido tanto quanto o movimento dos trabalhadores possa suportar. No Japão, o actual projecto de lei apresentado ao parlamento “é o maior ataque no período do pós-guerra aos direitos dos trabalhadores” . [24] Não é de admirar, portanto, que alguns sindicatos estejam a encarar a adopção de um papel político muito mais directo no futuro, em relação à sua linha tradicional do passado. Para citar Kanemichi Kumagai, secretário-geral da Confederação Nacional Japonesa de Sindicatos: “A luta da Primavera deste ano não seguirá o que foi feito no passado mas terá como objectivo mudar as tendências da política e do movimento dos trabalhadores, incluindo como as políticas e a economia do Japão deveriam ser. Por isso concedemos a maior importância ao objectivo de conseguir que os trabalhadores e os sindicatos adoptem acções que tenham influência sobre a sociedade”. [25]
O Japão é um exemplo particularmente importante pois não estamos a falar de um país do chamado “Terceiro mundo” em relação aos quais mesmo as mais coriáceas e brutais práticas de exploração do trabalho sempre foram consideradas como uma prática normal. Ao contrário, o Japão representa a segunda mais poderosa economia do mundo: um paradigma dos avanços capitalistas. E agora mesmo num tal país o desemprego está a crescer perigosamente as condições de trabalho devem ser tornadas piores do que nunca no longo período do desenvolvimento do pós-guerra e de expansão do capital, incluindo não só a grande intensificação de cronogramas de trabalho exploradores em nome da “flexibilidade” como também o - para muitas pessoas bastante incompreensível - imperativo de uma semana laboral mais longa.
Nas raízes desta embaraçosa e de certa forma auto-contraditória advocacia da “flexibilidade”, emparelhada com rígida e autoritária legislação trabalhista, encontramos a vitalmente importante lei tendencial da equalização descendente da taxa de exploração diferencial , a qual torna-se agudamente evidente através da cada vez mas destrutiva globalização do capital neste período da crise estrutural do sistema. Foi por isto que escrevi em 1971:
“as classes trabalhadoras de algumas das mais desenvolvidas sociedades “pós-industriais” estão a adquirir uma antevisão da crueldade real do capital “liberal”. … Assim, a natureza real das relações de produção capitalistas: a impiedosa dominação do trabalho pelo capital está a tornar-se cada vez mais evidente como um fenómeno global. … A compreensão do desenvolvimento e da auto-reprodução do modo de produção do capital é absolutamente impossível sem o conceito de capital social total … Analogamente, é absolutamente impossível entender os múltiplos e espinhosos problemas das variações nacionais e do trabalho socialmente estratificado se não se mantiver sempre em mente a estrutura necessária para uma avaliação adequada, nomeadamente o antagonismo irreconciliável entre capital social total e a totalidade do trabalho”.
Este antagonismo fundamental é inevitavelmente modificado conforme (1) as circunstâncias sócio-económicas locais; (2) as respectivas posições de países particulares na estrutura global de produção de capital; e (3) a maturidade relativa do desenvolvimento sócio-histórico global. Consequentemente, em diferentes períodos de tempo o sistema como um todo revela a actuação de um complexo conjunto de diferenças de interesses objectivos de ambos os lados do antagonismo social. A realidade objectiva das diferentes taxas de exploração - tanto dentro de um dado país como no sistema mundial do capital - é tão inquestionável quanto as diferenças objectivas nas taxas de lucro em qualquer momento particular … Da mesma maneira, a realidade das diferentes taxas de exploração e lucro não altera a própria lei fundamental, i.e., a crescente equalização das taxas de exploração diferenciais como a tendência global de desenvolvimento do capital mundial.
Sem dúvida esta lei da equalização é uma tendência a longo prazo na medida em que o sistema global do capital é afectado. … Deixe agora enfatizar que o “capital social total” não deveria ser confundido com o “capital nacional total”. Quando este último está a ser afectado por um enfraquecimento relativo da sua posição dentro do sistema global, este inevitavelmente tentará compensar-se das suas perdas através do aumento da sua taxa específica de exploração em relação à força de trabalho sob o seu controle directo - ou de algum outro modo se a sua posição competitiva for novamente enfraquecida dentro da estrutura global do “capital social total”. … Aqui não pode haver nenhum outro caminho de saída, além da intensificação das taxas específicas de exploração, as quais somente podem conduzir, tanto localmente como em termos globais, a uma intensificação explosiva do antagonismo social fundamental a longo prazo. Aqueles que têm estado a falar acerca da “integração” da classe trabalhadora - descrevendo o “capitalismo organizado” como um sistema que teve êxito em dominar radicalmente suas contradições sociais - erraram irremediavelmente na identificação do êxito manipulativo das taxas de exploração diferenciais (as quais prevaleceram durante a fase histórica relativamente “livre de perturbações” da reconstrução do pós-guerra e da expansão) como um remédio estrutural básico. [26]
Como acompanhamento necessário da globalização das relações produtivas e distributivas, a equalização descendente (downward equalisation) das taxas de exploração diferenciais afecta cada um dos países capitalistas avançados, mesmo os mais ricos. Aqui já não há mais espaço para relações de trabalho manipuladas paternalistamente, por mais “tradicionais” e “profundamente enraizadas” se suponha que possam estar, nem na verdade para evitar permanentemente o severo impacto negativo da omnipresente crise estrutural através de vantagens comerciais e tecnológicas relativas. Na realidade, tal como enfatizou um Apelo assinado por alguns distintos intelectuais num jornal italiano, o que torna a situação grave é que a precarização e a insegurança (”la precarietà e l’insicurezza”) avançam por toda a parte no mundo do trabalho: “o trabalho desprotegido e sub-pago está a alastrar-se como mancha de óleo, ao passo que mesmo o trabalho mais estável experimenta uma pressão em direcção à intensificação sem precedentes, e em direcção à plena disponibilidade para a submissão aos mais diversificados horários de trabalho”. [27]
Dizendo isto de um outro modo, temos aqui de enfrentar uma tendência extremamente significativa e de longo alcance: o retorno da mais-valia absoluta , numa extensão crescente, nas sociedades do “capitalismo avançado” nas últimas poucas décadas. O Professor Augusto Graziani falou eloquentemente em Fevereiro de 1998, na Convenção da Rifondazione em Milão dedicada à questão das 35 horas semanais, acerca das condições de trabalho do “Mezzogiorno” em geral e acerca da terrível exploração do trabalho feminino na Calábria em particular. Sua intervenção é mais relevante para a questão da “mais-valia absoluta” num país capitalista avançado, como a Itália, em que algumas das práticas de trabalho altamente exploradoras podem ser identificadas também no Norte do país mais industrialmente desenvolvido. Na Inglaterra, ao mesmo tempo, um documentário recente da TV ilustrou a difusão generalizada do trabalho infantil, embora seja claramente contra a lei. Naturalmente, a lei não é de modo algum aplicada. Ao contrário, são promovidas todas as espécies de argumentos falsificados para justificar indirectamente tais práticas ilegais. Assim, os interesses empresariais conduzem uma vociferante campanha contra o salário mínimo em geral, com a desculpa de que a sua introdução tornaria o emprego dos jovens muito pior. Outro modo de manipular a mesma questão, adoptado pela Confederation of British Industry, pelo Institute of Directores e por várias organizações “Think Tank” de negócios, é pressionar pela “isenção dos jovens” da legislação do salário mínimo, ou a concessão de salário mínimo muito mais baixo. Além disso, a pioria das condições de trabalho de pessoas de todas as idades em incontáveis lugares de trabalhos escravizantes (”sweatshops”) - imigrantes legais ou ilegais bem como uma porção longe de negligenciável da força de trabalho inglesa, escocesa, galesa e irlandesa - falam bastante alto acerca do reaparecimento do impulso para a mais-valia absoluta, como uma das mais retrógradas tendências do desenvolvimento do capital no século XX, num dos mais privilegiados países do “capitalismo avançado”. É desnecessário dizer, que tanto a procura implacável da mais-valia absoluta em geral como a sua manifestação particularmente obnóxia na forma de trabalho infantil foram sempre proeminentes nos países do ‘Terceiro mundo’ (e, naturalmente, assim continuam ainda hoje).
Paradoxalmente, a crise global da acumulação de capital na era da globalização avançada cria algumas grandes dificuldades novas, ao invés de resolver aquelas há muito contestadas iniquidades do sistema, como os “optimistas” porta-vozes da “globalização” não problemática querem fazer-nos acreditar. Pois as margens viabilidade produtiva do capital estão a diminuir (daí o impulso para a mais-valia absoluta), apesar de todos os esforços dos Estados capitalistas - individualmente ou em conjunto, como nos encontros do G7/G8 - para expandir, ou pelo menos manter firmes, as margens produtivas do sistema. Na realidade só pode haver um caminho para tentar alargar as margens contraídas da acumulação de capital: a expensas do trabalho. Isto é uma estratégia promovida activamente pelo Estado - na verdade, devido a esta necessidade, o papel intervencionista do Estado nunca foi tão grande [28] como neste nosso tempo, apesar de toda a mitologia neoliberal em contrário - e a estratégia é objectivamente apoiada no nosso tempo pela tendência para a equalização declinante da taxa de exploração diferencial. No fim, contudo, a estratégia agora perseguida está votada ao fracasso, desde que o movimento dos trabalhadores tenha êxito em rearticular radicalmente suas próprias estratégias e formas de organização, orientando-as rumo à criação de um movimento de massas genuíno, a fim de fazer face ao desafio histórico. Pois nem mesmo os teóricos mais “optimistas” do FMI e dos outros generosamente financiados órgãos de apologia do capital conseguiram até agora inventar, nem é provável que o consigam no futuro, um dispositivo pelo qual seria possível espremer para fora o exigido poder de compra sempre crescente e a correspondente acumulação de capital das cada vez piores condições económicas e dos “pacotes de salários precarizados” da força de trabalho.

Parte III
Da tirania do “tempo de trabalho necessário” à emancipação através do “tempo disponível”
Como pode o trabalho - o antagonista estrutural do capital - reagir à tendência de deterioração inseparável do estreitamento da margem de viabilidade do capital produtivo?

Esta pergunta conduz-nos de volta ao terceiro elemento do pedido da Rifondazione para assegurar a semana de trabalho de 35 horas citada no princípio desta palestra: “mudar a sociedade” (”per cambiare la società”) . Pois hoje - em resultado da necessidade do capital de arrancar sem cerimonias [29] mesmo as suas concessões passadas, ao invés de aceder a novas - é totalmente impossível realizar mesmo os objectivos mais imediatos e limitados do sindicalismo tradicional sem tomar a rota que conduz a uma transformação social fundamental. A reconstituição radical do movimento socialista é uma parte vitalmente importante deste processo. [30]
Alguns dos mais inteligentes representantes do capital, como Dean Witter - o economista chefe e director de economia global do Morgan Stanley - estão prontos a confessar que a tendências em andamento são mais problemáticas do que habitualmente pintadas nos órgãos de propaganda do neoliberalismo. Num artigo publicado no Sunday New York Times , intitulado “The Worker Backlash”, ele rejeita a explicação de que os êxitos recentes resultaram da “desregulamentação e do aumento de produtividade”. A sua própria explicação, de longe mais consciente do conflito e menos reconfortante, é que foi
‘um realinhamento dramático do bolo económico do país, com uma fatia muito maior indo para o capital e uma mais pequena indo para o trabalho. Chamo a isto uma recuperação do trabalho triturado, que floresceu só porque a América empresarial aplicou uma pressão implacável sobre a sua força de trabalho”. [31]
Na verdade, não só a América empresarial aplica pressão implacável sobre a sua força de trabalho como também as personificações do capital fazem-no por toda a parte. Pois as conquistas reformistas do passado foram precedidas pelo crescimento contínuo do bolo - as quais surgiram sob condições económicas favoráveis como concessões do capital, ainda que nunca pudessem ser uma questão de “realinhamento do bolo em favor do trabalho” uma vez que o capital deve sempre apropriar-se da fatia do leão. Agora, devido à crise estrutural do capital e do estreitamento da margem de viabilidade do sistema produtivo, torna-se absolutamente necessário “realinhar o bolo económico do país”, mais do que nunca, em favor do capital, de modo a assegurar uma “recuperação do trabalho triturado”, graças à passividade e resignação da força de trabalho. Mas o que acontece quando o trabalho recusa-se a acompanhar tal brutal realinhamento do bolo económico, porque não pode mais permitir-se isso devido à crescente dureza imposta pelas tradicionais e recém-inventadas formas de “economia do trabalho triturado”? As possibilidades de “realinhar” um bolo estacionário, para não falar num em processo de encolhimento, tem os seus limites bem definíveis. Não esquecer o facto de que a inactividade contemplativa (”resignatory”) do movimento dos trabalhadores não pode ser tomada simplesmente como garantida para sempre em qualquer país, como uma matéria de necessidade natural. Nem mesmo nos países capitalistas mais avançados. Não é de admirar, portanto, que hoje mesmo o economista chefe do Morgan Stanley tenha de falar acerca da “Revanche dos trabalhadores” (”The Worker Backlash”) nos EUA, dando voz às suas preocupações acerca de uma possível “luta pelo poder primário entre o capital e o trabalho” e acrescentando que “longe estão os dias de uma força de trabalho dócil que outrora concordou com as reestruturações empresariais de retalhamento e queima (slash-and-burn) “. [32]
Naturalmente, do ponto de vista do capital não pode haver respostas para a pergunta: que espécie de alternativa à “economia do trabalho triturado” deveria ser perseguida a fim de evitar “a luta pelo poder primário entre o capital e o trabalho”. Quaisquer que sejam os seus temores e preocupações, o economista chefe do Morgan Stanley deve continuar a aconselhar a sua firma acerca dos melhores meios de explorar as oportunidades da especulação financeira “globalizada”, ou ele será rapidamente despachado para pastagens mais tranquilas com um poderoso aperto de mão dourado. Do ponto de vista do capital realmente “não há alternativa” ao “trabalho triturado” tanto quanto possível - e mais ainda em situações de emergência -, mesmo que alguém perceba os perigos implícitos de perseverar nesse caminho socio-económico. Pois no fim há sempre a sedução de soluções autoritárias, não só no país do General Suharto, cliente dos EUA, como também nas “democracia capitalistas avançadas” do Ocidente que ajudaram a colocar Suharto no poder, apoiando-o de todas as formas possíveis durante 32 anos, incluindo sua selvagem repressão militar do povo, e tentando salvar o seu miserável regime com fundos maciços do FMI até no último minuto antes da sua morte.
A promessa geral de resolver as gritantes iniquidades e contradições do sistema foi durante muito tempo - e ainda hoje continua - que através dos benefícios do sempre crescente e globalmente integrado “livre comércio” as condições dos trabalhadores melhorariam muito em todo o mundo, graças ao retorno da economia a uma situação de expansão não perturbada do capital, livre dos defeitos das décadas do pós-guerra que acabaram em inflação e estagnação. Os sinais reais e os indicadores económicos, contudo, apontam na direcção oposta, um facto por vezes reconhecido mesmo por economistas da “corrente predominante” (mainstream) que mantêm a sua crença nas virtudes insuperáveis do sistema do capital. Assim, para citar um artigo que resenha um livro recente de um tal economista:
“Rodrick argumenta que o comércio em geral, não apenas as importações de baixos salários, piora a distribuição do rendimento. A competição internacional acrescida, escreve ele, traduz-se numa maior “elasticidade” da procura interna por trabalho. Em termos simples, isto significa que um trabalhador está agora a competir com uma oferta de trabalho muito mais vasta. Em resultado disso, uma pequena mudança nos salários de trabalhadores estrangeiros ou na procura global por um produto ou serviço pode causar grandes mudanças na procura interna de trabalhadores. A maior vulnerabilidade do trabalho a flutuações do mercado enfraquece a sua posição negocial em relação ao capital. Portanto, conclui Rodrick, “O efeito de primeira ordem do comércio parece ter sido uma redistribuição do excedente da empresa em benefício do patronato e não a ampliação do excedente”. A evidência, portanto, diz-nos que os críticos do livre comércio estavam certos; o comércio não está a ampliar a riqueza e sim a redistribuí-la para um nível mais alto”. [33]
Mas, ainda assim, quando chega à questão das alternativas, obtemos de Rodrick apenas piedosas pregações. Assim, para continuar nossa citação:
“As políticas de Rodrick são na melhor das hipóteses ingénuas. Ele aconselha o trabalho e o governo a serem mais responsáveis, mas nada tem a dizer às corporações de negócios multinacionais. … “O trabalho deveria advogar uma economia global que tivesse uma face mais humana”, escreve Rodrick, mas silencia acerca dos ferozes esforços organizados pelos negócios multinacionais e pelas finanças para impedir que políticas humanas sejam sequer consideradas pelo Fundo Monetário Internacional, pelo Banco Mundial, pela Organização Mundial de Comércio, e por outros que estabelecem as regras para o mercado global. Isto sugere um ponto de vista que está, para dizer a coisa suavemente, desligado das realidades da economia política global”. [34]
Na verdade, adoptar o ponto de vista do capital - não só na sua forma neoliberal cegamente acrítica e mais agressiva, mas também nas suas ilusórias variedades liberal-reformistas - significa desde há muito “desligar-se das realidades da economia política global”.
A novidade radical do nosso tempo é que o sistema do capital já não está em posição de conceder ao trabalho seja o que for, em contraste com as aquisições reformistas do passado. A acomodação deprimente, e mesmo a capitulação total, de alguns dos antigos partidos da classe trabalhadora às exigências dos interesses dos grandes negócios - como na Grã-Bretanha e em vários países europeus, mas de modo nenhum apenas na Europa -, uma capitulação que chega não só a manter a autoritária legislação anti-trabalhista das últimas poucas décadas como também a dar postos ministeriais chave nos governos do “New Labour”, da “Esquerda Democrática” italiana e alhures a proeminentes representantes do capital corporativo, fala inequivocamente acerca desta postura. (Lord Simon, Lord Sainsbury, Geoffrey Robinson, etc na Grã-Bretanha e figuras semelhantes na Alemanha, França e Itália). Eis porque no actual período histórico mesmo os objectivos limitados e modestos do trabalho - como a semana de 35 horas - só podem ser realizados através da “mudança de sociedade”, uma vez que objectivamente contestam a ordem socio-económica e política estabelecidas (por outras palavras: todo o sistema de tomada de decisão) sob a qual “o bolo económico do país” é produzido e distribuído. Nas condições da crise estrutural do capital esta é a natureza objectivamente inevitável da contestação socio-económica, mesmo que no momento muitos representantes do trabalho não conceptualizem ou articulem isto nestes termos. E esta é também a razão porque o reformismo liberal e social-democrata, o qual em outros tempos tinha um poderoso aliado no dinamismo expansionário do capital, está agora condenado à futilidade das pregações piedosas - desde os sermões do professor John Kenneth Galbraith acerca da “Cultura do contentamento” (rapidamente reflectidos, sem os mais ligeiros efeitos curativos, por Bispos e Arcebispos na Igreja da Inglaterra) à noção do “trabalho e governo inspirados pela economia global com uma face humana” citada atrás. Uma pregação que as personificações do capital provavelmente não podem ouvir.
A exigência de uma redução significativa da semana de trabalho tem uma importância estratégica fundamental. Não só porque a questão subjacente afecta profundamente e portanto preocupa directamente cada trabalhador, manual e intelectual afim, qualquer que seja a cor dos seus colarinhos. Igualmente porque a questão do enfrentamento deste desafio não está a desvanecer-se. Ao contrário, cresce em importância a cada dia que passa, e o imperativo de fazer algo significativo em relação a isto não pode ser decretado como inexistente pelas personificações parlamentares do capital nos países capitalistas avançados, nem na verdade reprimidos pelas forças nuas na “periferia” da ordem global do capital. Por outras palavras, trata-se de uma exigência estratégica vital para o trabalho porque ela é “não negociável”: isto é, não pode ser integrada nas pseudo-concessões manipuladas da ordem existente. Pois refere-se directamente à questão do controle - um sistema alternativo de controle social metabólico - ao qual o capital opõe-se frontalmente.
Naturalmente, as 35 horas de trabalho semanal - mesmo que pudessem ser genuinamente concedidas e não anuladas tortuosamente de muitas maneiras, como é cinicamente planeado ou já praticado - não poderiam resolver o monumental e sempre crescente, bem como socio-economicamente grave, problema do desemprego. Assim, a questão que legitimamente se levanta é: porque 35 e não 25 ou 20 horas por semana, que faria uma maior diferença em relação a isso? Esta é a questão que nos transporta ao coração do assunto.
As incompatibilidades radicais entre a ordem social existente e uma na qual seres humanos estejam no controle da sua actividade vital, incluindo o seu “tempo livre”, a ser posto livre por uma redução significativa da semana de trabalho, foi gráfica e penosamente ilustrado na Grã-Bretanha através da destruição da indústria mineira. Em 1984 os mineiros de carvão travaram uma luta heróica, não por dinheiro mas em defesa do seus empregos: uma longa greve de um ano que foi derrotada através dos esforços combinados do governo da sra. Thatcher - a qual chamou os mineiros de “o inimigo interno” - e o Partido Trabalhista de Neal Kinnock o qual apunhalou-os pelas costas. Como resultado, a força de trabalho dos mineiros, que na época era de mais de 150 mil, foi dizimada, caindo para o número actual de menos de 10 mil, e as cidades e aldeias de muitas comunidades mineiras foram transformadas num deserto de desemprego desumanisado. No tempo da greve dos mineiros as minas de carvão estavam ainda “nacionalizadas”, o que significa que eram administradas com os mais brutais critérios capitalistas de “eficiência” de controle autoritário pelo National Coal Board, tornando-se em seguida “privatizadas” numa fracção da sua dimensão original. O que foi altamente característico do modo como o Coal Board tratava do problema da “maior eficiência”, enquanto falava acerca da absoluta necessidade de “racionalizar” as exigências do trabalho na indústria do carvão, foi o facto de que Board dirigido pelo Estado impôs aos mineiros uma quase insano cronograma de sete dias de trabalho ao mesmo tempo em que cortava de forma selvagem a força de trabalho sob o seu controle. Pois o capital é absolutamente incapaz de considerações humanas. Ele conhece só uma maneira de administrar o tempo de trabalho: pela maximização da exploração do “tempo de trabalho necessário” da força de trabalho empregada, ignorando totalmente o “tempo descartável” disponível na sociedade de forma geral, pois não pode extrair lucro do mesmo.
Isto é o que impõe limites inultrapassáveis ao capital no seu modo de tratar o problema do desemprego. Há algo paradoxal, na verdade profundamente contraditório em relação a isto. Pois o sistema produtivo do capital de facto cria “tempo supérfluo” na sociedade como um todo, numa escala cada vez maior. Ainda assim ele não pode concebivelmente reconhecer a existência de juro (i.e., a legitimidade) deste tempo excedente socialmente produzido como o potencialmente mais criativo tempo descartável que todos nós temos, o qual poderia ser utilizado na nossa sociedade para a satisfação de muitas das necessidades humanas que agora são cruelmente negadas, desde exigências de educação e serviços de saúde até à eliminação da fome e desnutrição em todo o mundo. Ao contrário, o capital deve assumir uma atitude negativa/destrutiva/desumanisante em relação a isto. Na verdade, o capital deve ser rigidamente indiferente ao facto de que o conceito de “trabalho supérfluo”, com o seu “tempo supérfluo”, refere-se na realidade a seres humanos vivos e possuidores de capacidades produtivas socialmente utilizáveis - ainda que capitalisticamente redundantes ou inaplicáveis.
O conceito de tempo disponível, tomado no seu sentido positivo e libertador, como uma aspiração de socialistas, surgiu bem antes de Marx, num panfleto anónimo intitulado “A fonte e o remédio das dificuldades nacionais” (”The Source and Remedy of the National Difficulties”) , publicado em Londres quase 50 anos antes de O Capital de Marx, em 1821. Em algumas passagens citadas por Marx este panfleto oferecia uma notável compressão dialéctica tanto da natureza capitalística do processo produtivo e - ao focar a sua atenção sobre as categorias vitalmente importante do “tempo disponível”, “trabalho excedente”, “dia de trabalho abreviado” - como das possibilidades de escapar às suas contradições. Cito:
“Riqueza é tempo disponível e nada mais. … Se todo o trabalho de um país fosse suficiente somente para obter o sustento de toda a população, não haveria trabalho excedente, consequentemente nada que pudesse ser permitido acumular como capital. … Uma nação será verdadeiramente rica se não houver qualquer interesse ou se o dia de trabalho for de 6 horas ao invés de 12″. [35]
Estamos vagarosamente a alcançar a exigência, tal como nossos ancestrais o fizeram em 1821, das 6 horas de trabalho diárias, mas ainda estamos muito longe de organizar a sociedade com base no imensamente maior potencial de produção de produção de riqueza do tempo disponível. Sem este último, não pode colocar-se a questão da emancipar os indivíduos trabalhadores da tirania de determinações fetichísticas e de iniquidades gritantes. A realização de mesmo alguns dos nossos limitados objectivos exigirá mobilização em massa [36] das pessoas empregadas e desempregadas , guiadas pela solidariedade para com os problemas que todos nós somos obrigados a partilhar, hoje ou amanhã. A perspectiva estratégica num prazo mais longo, que torna factível também a realização das exigências imediatas, é inseparável da nossa consciência da viabilidade e na verdade da necessidade fundamental de adoptar o modo de controlar a nossa reprodução social metabólica com base no tempo descartável. Este é o objectivo a que precisamos dedicar recursos se nos importamos com o problema do desemprego. Só um movimento de massa socialista radical pode adoptar a alternativa estratégica de regular a reprodução social metabólica - um dever absoluto no futuro - com base no tempo descartável . Pois devido aos constrangimentos inultrapassáveis e às contradições do sistema do capital, qualquer tentativa de introduzir o tempo descartável como o regulador dos intercâmbios sociais e económicos - o que teria de significar colocar à disposição das pessoas individuais grandes quantidades de tempo livre , libertados através da redução do tempo de trabalho bem além dos limites de mesmo umas 20 horas de trabalho por semana - actuaria como dinamite social , explodindo o alto firmamento da ordem reprodutiva estabelecida. Pois o capital é totalmente incompatível com o tempo livre utilizado autonomamente e de forma significativa por indivíduos sociais livremente associados.

NOTAS
1 “Underground Economy”, The Nation , January 12/19, 1998, p. 3.
2 Japan Press Weekly , 16 May 1998.
3 István Mészáros, The Necessity of Social Control, Isaac Deutscher Memorial Lecture, delivered at the London School of Economics and Political Science on 26 January 1971. Merlin Press, London, 1971, pp. 54-55; reprinted in Mészáros, Beyond Capital, Merlin Press, London 1995 and Monthly Review Press, New York 1996. Quotation is from pp.889-890.
4 “Enquanto o número total de pessoas desempregadas registadas em agências de empregos manteve-se em 336 milhões em 1993, o número de pessoas empregadas no mesmo ano segundo a Planning Commission era apenas de 307,6 milhões, o que significa que o número de pessoas desempregadas registadas é mais elevado do que o número de pessoas empregadas. E a taxa da porcentagem de aumento de emprego é quase desprezível”. Sukomal Sen, Working Class of India: History of the Emergence and Movement 1830-1990. With an Overview up to 1995, K.P. Bagchi & Co., Calcutta 1997, p. 554.
5 “Waterloo in Asia?”, The Nation , January 12/19, 1998, p. 4.
Os interesses americanos são cinicamente perseguidos e impostos sempre que a oportunidade dá ocasião. Assim, “responsáveis americanos, que efectivamente vetaram a criação de um Fundo Regional Asiático independente do FMI, e portanto de Washington, também fizeram saber - mais recentemente no caso da Coreia - que nenhuma ajuda americana directa virá até que os países aflitos concordem com as exigências do FMI. Dessa forma, as autoridades tailandesas concordaram em remover todos os limites sobre a propriedade estrangeira de empresas financeiras e estão a promover legislação que permita aos estrangeiros possuírem terra, o que era um tabu. Mesmo antes do pedido de ajuda ao FMI, Djacarta aboliu suas restrições à propriedade estrangeira de acções comercializadas publicamente, um movimento replicado por Seul quando concedeu aos investidores estrangeiros acesso aos US$64 mil milhões a longo prazo, garantidos por títulos de empresas no mercado, cujo acesso eles procuraram durante anos”. Walden Bello, “The End of the Asian Miracle”, The Nation , January 12/19, 1998, p. 19.
6 Cumprimentos do FMI, certamente, significam muito pouco, se é que alguma coisa, mesmo nos seus próprios termos de referência. Caracteristicamente, “quando a economia tailandesa estava direccionada para perturbações, o FMI ainda estava louvando o ‘registo consistente de saudáveis políticas de administração macro-económica’ do governo”. Walden Bello, “The End of the Asian Miracle”, loc. cit., p. 16. Analogamente, nos poucos meses decorridos desde que o FMI “salvou” a economia sul coreana, o desemprego realmente duplicou no país.
Ver também um artigo criterioso de János Jemnitz, “A review of Hungarian politics 1994-1997″, Contemporary Politics, Vol. 3, No. 4, 1997, pp. 401-406.
7 Ver o primoroso livro de Gabriel Kolko, Vietnam: Anatomy of a Peace, Routledge, London and New York, 1997. Ver também Nhu T. Le’s passionate rejoinder in his review of Kolko’s book in The Nation , “Screaming Souls”, 3 November 1997.
8 Anthony Kuhn, “268 million Chinese will be out of jobs in a decade”, The Sunday Times , 21 August 1994.
9 Ver o livro de Lord Beveridge com o mesmo título e o seu importante papel no estabelecimento do “Welfare State” britânico.
10 Marx and Engels, Manifesto of the Communist Party, Progress Publishers, Moscow 1971, p. 44. Ver o artigo profundamente compreensivo de Marshall Berman sobre o 150º aniversário do Manifesto, “Unchained Melody”, The Nation , 11 May 1998, pp. 11-16.
11 “Jobless told: join Army or lose benefit” de Stephen Castle (Political Editor), Independent on Sunday , 10 May 1998. Outra manchete na mesma página relata reacções ao nível miserável com que o salário mínimo foi introduzido pelo governo britânico do “New Labour” com o título: “Union fury as Labour sets minimum wage at £3.60.”
12 Susan Bell, “Paris pass law on 35-hour week”, The Times , 20 May 1998.
13 “Nem resignado nem amaciado sobre a questão das 35 horas, o Presidente dos industriais está mais determinado do que nunca a repelir o referendo”. (”Né rassegnato, né ammorbidito sul tema delle 35 ore, il presidente degli industriali è più deciso che mai a promuovere un referendum abrogativo.”) Vittorio Sivo, “Referendum sulle 35 ore”, La Repubblica , 22 April 1998.
14 Ibid.
15 “The working week: Fewer hours, more jobs?”, The Economist , 4 April 1998, p. 50.
16 Ibid., p.51.
17 Michiyo Nakamoto, “Revolution coming, ready or not”, Financial Times, 24 October 1997. Ver no mesmo número do Financial Times um artigo de John Plender, “When capital collides with labour”, escrito no mesmo espírito.
18 “Policy Complementation: The Case for Fundamental Labour Market Reform”, por David Coe e Dennis Snower. IMF Staff Paper Volume 44, No. 1, 1997. Revisto em The Economist , 15 November 1997, p. 118. Contundentemente, o título do artigo de revisão é “All or nothing: Piecemeal labour-market reforms will not cure Europe’s unemployment problem. Governments need to go the whole way.”
19 Japan Press Weekly , 14 February 1998, p. 25. Em outro número do Japan Press Weekly lemos: “Os principais objectivos do projecto de lei são aumentar a aplicação de cronogramas de trabalho arbitrário para facilitar as restrições ao sistema existente de variação de horas de trabalho (sistema flexível) e tornar legais contratos de emprego a curto prazo”. 18 April 1998.
20 Japan Press Weekly , 14 February 1998.
21 Japan Press Weekly , 28 March 1998.
22 Japan Press Weekly , 4 April 1998.
23 Akira Inukai, “Attack against workers’ rights”, Dateline Tokyo , No. 58, April 1998, p.3.
24 Ibid.
25 Ibid., p. 4.
26 The Necessity of Social Control, pp. 56-59, and Beyond Capital, 890-892.
27 “il lavoro sottotutelato e sottopagato si allarga a macchia d’olio, mentre anche il lavoro più stabile subisce la pressione verso una intensificazione senza precedenti della sua prestazione lavorativa e verso una piena disponibilità alla sottomissione ai più diversificati tempi di lavoro.” In: “Trentacinque ore della nostra vita”, um Apelo de intelectuais assinado por Mario Agostinelli, Pierpaolo Baretta, Heinz Birnbaum, Carla Casalini, Marcello Cini, Giorgio Cremaschi, Pietro Ingrao, Oskar Negt, Paolo Nerozzi, Valentino Parlato, Marco Revelli, Rossana Rossanda, Claudio Sabattini and Arno Teutsch; Il Manifesto, 13 February 1998, p. 5.
28 O papel intervencionista do Estado fica em evidência tanto no plano económico como no político. No domínio económico os fundos generosamente esbanjados com grandes empresas capitalistas são medidos em centenas de milhões de libras. A British Aerospace, por exemplo, vai receber aproximadamente £600 milhões para um dos seus empreendimentos, além dos incontáveis milhões obtidos semi-fraudulentamente do Estado num passado não tão distante, inclusive numa ocasião em que a companhia pretendia por numa base económica saudável a empresa Rover, agora novamente em bancarrota. E posteriormente os fundos maciços necessários hoje para salvar a Rover são esperados mais uma vez que sejam fornecidos pelo Estado - e ninguém parece saudar agora as miraculosas virtudes da empresa privada - enquanto deixam os lucros, naturalmente, para a parte capitalista do chamado “Partenariato Privado-Público” (”Private Public Partnerships”) tão favorecido pelo New Labour. Igualmente importante, se não mesmo mais, é o papel da intervenção do Estado como procurador (on behalf) do capital no plano político. Pois o sistema do capital necessita extremamente da legislação autoritária anti-trabalhista - gentilmente introduzida pelos Conservadores e governos social democratas afins (na verdade, a maioria deles efectivamente reconhece a gravidade a gravidade da crise estrutural do sistema, mesmo alguns governos presididos por antigos partidos comunistas, como na Itália) - a fim de manter o seu domínio
29 Tal como Marshall Berman afirmou no seu artigo citado na nota 10, “a crueldade estúpida autodenomina-se liberalismo (estamos a massacrá-lo e aos seus filhos ao eliminar o bem estar social para o seu próprio bem)” e vocês são “afastados ou despedidos - ou desqualificados, terciarizados (outsourced) , reduzidos (downsized) . (É fascinante verificar como muitas destas palavras trituradoras são absolutamente novas).” The Nation , 11 May 1998, p. 16.
30 Ver um poderoso capítulo acerca dos desafios enfrentados pelo movimento dos trabalhadores; “Beyond Labour and Leisure”, in Daniel Singer’s book, Whose Millennium?, publicado pela Monthly Review Press, New York, Spring 1999.
31 Dean Witter, “The Worker Backlash”, Sunday New York Times, citado numa carta enviada aos leitores e apoiantes da Monthly Review pelos seus Editores em Outubro de 1997.
32 Ibid.
33 Jeff Faux, “Hedging the neoliberal bet”, (a review of Dani Rodrick’s book, Has Globalization Gone Too Far?, Institute for International Economics, Washington D.C., 1997), in Dissent , Fall 1997, p. 120.
34 Ibid.
35 Citado no Grundrisse de Marx, Penguin Books, Harmondsworth, 1973, p. 397.
36 O Apelo citado na Nota 27 refere-se certamente à necessidade de “promover uma mobilização de massa em favor das 35 horas semanais, para afectar tanto o mundo do trabalho como da política e da cultura assim como o mundo das associações”. (”promuovere una mobilitazione di massa a favore delle 35 ore che tocchi il mondo del lavoro cosi come quello della politica, quello della cultura come quello delle associazioni.”)

[*] Professor Emérito de Filosofia e Teoria Política, Universidade de Sussex (Reino Unido) e autor de vários livros incluindo Beyond Capital; Marxist Theory of Alienation; Works of Sartre; Search for Freedom; Philosophy, Ideology and Social Science; The Power of Ideology . Tradução de Jorge Figueiredo.

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Há 70 anos o poeta espanhol foi executado junto com um professor e dois auxiliares de toureiro

Luis García Montero

Na noite de 13 de julho de 1936 Federico García Lorca tomou o trem para Granada. Os poeta ainda avaliava a possibilidade de viajar para o México, convidado pela atriz Margarita Xirgu, para desfrutar do sucesso que estavam alcançando suas obras teatrais. Vivia um momento de plena maturidade e reconhecimento público, haviam-se perfilado todos os matizes de sua voz lírica nos poemas do “Divã de Tamarit” e acabava de escrever “A Casa de Bernarda Alba”, uma obra plena, de grande significado na evolução teatral do autor, porque nela suas indagações estéticas superavam ao mesmo tempo o experimentalismo elitista da vanguarda e as facilidades populistas da arte comercial.

Poucos dias depois de ler diante de um grupo seleto de amigos o manuscrito de “A Casa de Bernarda Alba”, tomou o trem para Granada. Além de passar o 18 de julho, dia de seu santo, com seus pais e sua irmã Concha, parece que queria afastar-se dos ares conflituosos de Madri por uma rápida temporada.

Mas Granada estava longe de respirar tranqüilidade. O poeta devia conhecer as tensões que se haviam condensado na cidade. Sua relação estreita com Fernando de los Ríos, deputado socialista por Granada, fazem pensar assim. A Frente Popular havia impugnado o resultado das eleições de fevereiro de 1936, denunciando a manipulação dos caciques na província. A repetição das eleições em 31 de março não serviu para acalmar as feridas abertas durante meses de grandes comícios, greves, tiroteios falangistas, incêndios, provocações e reações violentas.

Tratava-se de um mal-estar parecido com o que havia se apoderado de Madri, a mesma agitação promovida pela radicalização social e pelos conspiradores contra a República, interessados em alimentar a desordem.

Mas em Granada, uma pequena cidade de província, quase todo mundo se conhecia e as intrigas, os rancores, os ânimos de vingança, adquiriam uma proximidade caseira, muito propícia para encarniçar os ódios desatados em uma guerra civil.

García Lorca estava na casa de verão de sua família, a Huerta de San Vicente, quando os militares golpistas se apoderaram da cidade em 20 de julho. Granada era então um Comando Militar sob as ordens da Capitania Geral de Sevilha, assumida desde o dia 19 pelo general Queipo de Llano, um dos comandantes do exército que recorreu de forma mais decidida ao terror como conduta oficial dos golpistas.

A resistência da cidade foi mínima e heróica: grupos de operários com escopetas se entrincheiraram no Albaicín e mal puderam resistir ao ataque da aviação e da artilharia rebeldes. A repressão foi sem dúvida muito dura, e cruel, pois desnecessária. Nem Queipo de Llano nem o comandante Valdés Guzmán, as autoridades militares máximas, vacilaram na hora de aplicar o extermínio como o melhor método para a regeneração espanhola.

Sempre me surpreenderam as suposições sobre as razões últimas da morte de García Lorca (homossexualidade, disputas familiares, notícias de rádio, apolitismo). O poeta foi um dos mais de 5 mil granadinos executados em virtude dos conselhos de guerra ou dos passeios da Esquadra Negra. Entre outros, foram fuzilados o general Miguel Campins, chefe do Comando Militar e leal à República, o prefeito, o presidente da Câmara de Vereadores, o reitor da universidade, o diretor do jornal mais importante da cidade, “El Defensor de Granada”, e diversos deputados, vereadores, professores, sindicalistas…

Como não iriam fuzilar um poeta republicano, partidário da Frente Popular e exemplo de liberdade viva nos ambientes mais sórdidos de um provincianismo que ele mesmo havia caracterizado como “a pior burguesia da Espanha”?

Federico García Lorca não se sentiu realmente ameaçado até 9 de agosto, quando uma patrulha irrompeu na Huerta de San Vicente em busca dos irmãos do caseiro, Gabriel Perea Ruiz. Insultado, golpeado, humilhado, temeu por sua vida e pediu auxílio a Luis Rosales, um poeta amigo, bem situado no novo regime pelo papel que seus irmãos falangistas e ele mesmo haviam exercido na rebelião. Rosales foi à Huerta e reuniu-se com a família para avaliar as diversas possibilidades. Federico García Lorca não quis se arriscar a cruzar as linhas inimigas para passar à zona republicana e preferiu se abrigar na casa familiar dos Rosales, no número 1 da rua Angulo.

Ali recebeu a notícia, em 16 de agosto, da execução de seu cunhado José Fernández-Montesinos, prefeito socialista da cidade. Nesse mesmo dia, por volta da 1 da tarde, Ramón Ruiz Alonso apresentou-se na casa dos Rosales com uma ordem de detenção. Ruiz Alonso, antigo deputado da CEDA e muito ativo nas lides repressivas dos primeiros dias da sublevação, cumpriu seu encargo de forma espetacular, com tumulto de tropas e cerco da casa.

O poeta foi conduzido ao Governo Civil. Luis Rosales tentou libertar seu amigo, mas no regime militar que ele e seus irmãos estavam ajudando a impor não havia lugar para cidadãos como Federico García Lorca.
Angelina Cordobilla, uma mulher que trabalhava para a família Lorca, levou comida para o prisioneiro na manhã dos dias 17 e 18 de agosto. Quando se apresentou na manhã do 19, disseram-lhe que o poeta não estava ali. Com efeito, durante a noite de 18 para 19 fora conduzido para La Colonia, uma prisão improvisada em uma vila de recreio nas proximidades de Víznar.

Ao amanhecer, como escreveu Antonio Machado, foi visto caminhando entre fuzis em Granada, a sua Granada. Foi executado junto com o professor Dióscoro Galindo e os banderilheiros Francisco Galadí e Joaquín Arcollas.

Um coveiro de La Colonia acompanhou há anos o escritor Ian Gibson à fossa onde foram sepultados os corpos. Durante muitos anos o Barranco de Víznar foi o território sagrado dos democratas granadinos, o lugar no qual prestamos culto a nossos mortos. A democracia urbanizou aquele espaço simbólico que havia formado a história bárbara da Espanha, construindo ali um parque em memória das vítimas da Guerra Civil.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Publicado em El Pais

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Balzac e o amor

Leandro Konder - Junho 2007

Papai Balzac já dizia, / Paris inteira repetia, / Balzac tirou na pinta: / Mulher só depois dos trinta. (Nássara e Wilson Batista)

Honoré de Balzac nasceu em Tours, em 1799. Seu pai, Bernard-François, ao casar com sua mãe, tinha 51 anos. Ela se chamava Laure e tinha 18. Sua tarefa consistia em educar os filhos, impondo-lhes punições. Honoré era o filho mais velho, indisciplinado, mau aluno, ficou marcado pela frieza da mãe. O sentimento de rejeição por parte da mãe e a necessidade de se sentir amado e protegido levaram-no a se apaixonar por madame de Berny, que era 25 anos mais velha do que ele.

Ela foi a primeira de uma lista cujos nomes principais são Zulma Carraud, a marquesa de Castries, a condessa Visconti, a duquesa de Abrantes. Nos últimos anos de vida, Balzac se apaixonou por uma mulher polonesa, a condessa Eveline Hanska, que, durante anos, nem conhecia pessoalmente (só através de cartas). E permaneceu fiel a ela, até se casarem.

Honoré de Balzac não era bonito nem elegante. Nos ambientes mais sofisticados, seus modos eram considerados vulgares. Sua conversa, segundo George Sand, era “agradável, mas um pouco cansativa”. Não era considerado um modelo de virtudes. Seus escritos contêm indícios de frivolidades. Curiosamente, algumas dessas frivolidades agradavam aos leitores. No artigo “Teoria do andar”, por exemplo, o escritor explicava que as moças sérias, ao caminhar, movimentam as pernas e os pés formando linhas retas, ao passo que aquelas que já conhecem os prazeres interditos fazem, ao andar, deliciosos movimentos arredondados.

Sabia-se, além disso, que o jovem autor plantava nos jornais artigos nos quais, com pseudônimo, elogiava os escritos publicados em seu nome. E também se sabia que ele fazia trapalhadas com o dinheiro que conseguia obter. Os leitores, contudo, não se escandalizavam; aceitavam-no tal como era, porque tinha um talento que reconheciam como o de um narrador genial.

A curiosidade de Balzac era inesgotável. Ele se interessava ecleticamente por pseudociências, como a “ fisiognomonia” (revelação do caráter pela fisionomia), a “frenologia” (revelação da personalidade pelo formato dos ossos do crânio) e o “mesmerismo” (efeitos curativos da energia transmitida pela ponta dos dedos). Também se interessava pela utopia socialista de Fourier, relembrada em outro capítulo deste livro.

Num dado momento, em 1938, Balzac escreveu: “só tenho certeza da minha coragem de leão e do meu trabalho invencível”. De fato, o projeto de trabalho que ele se propunha a realizar exigia uma coragem de leão. O conjunto dos seus escritos de ficção — que só em 1842 veio a ser intitulado A Comédia Humana — previa 137 romances, contos e novelas. Ao longo dos volumes da Comédia Humana, Balzac concluiu a redação de 86. Para chegar às 86, foi necessária uma enorme paixão. E, como dizia o próprio Balzac, “as grandes paixões são raras como as obras-primas”.

Balzac disse uma vez que fazia concorrência ao Registro Civil. Povoou a Comédia Humana com cerca de 2.500 a 3.000 personagens. E mais de 500 deles reapareciam. O público leitor adorou. A identificação do autor com os personagens era tão grande que nunca precisou recorrer a algum catálogo para evitar confusões. Não era necessário: o romancista, por assim dizer, conhecia pessoalmente todo mundo.

Balzac era, notoriamente um conservador. É famosa a sua frase: “Escrevo à luz de duas verdades sagradas e eternas, a Religião e a Monarquia”. Marx e Engels não se deixaram impressionar pela declaração e disseram que aprendiam mais com ele do que com os cientistas sociais, com os filósofos e os economistas do seu tempo. O conservador Balzac mostrava com imensa clareza a invasão dos sentimentos íntimos das pessoas pelo dinheiro. E apontava as consequências da dissolução das famílias pelo individualismo.

Em Ursula Mirouet, há um momento em que o jovem visconde Savinien de Portenduere, noivo de Ursula, é preso em Paris por dívidas, e, para desespero de sua mãe, não é ajudado por ninguém da família. Explica o significado da omissão: “Não há mais família hoje em dia, minha mãe. Há somente indivíduos”.

No Pai Goriot, o personagem que dá título ao volume vive numa pensão ordinária, depois de ter gasto toda a sua fortuna no dote de suas duas filhas, assegurando a ascensão social de ambas. E morre na solidão, porque as duas moças não podiam perder uma festa que lhes dava oportunidade de aparecer em sociedade.

A família vai sendo minada pelo descrédito, tanto vertical como horizontalmente: pais e filhos se estranham, irmãos ignoram irmãos. Em Ilusões Perdidas, o velho Sechard é um avarento inesquecível, que explora todo mundo, alegando sempre que precisava arrancar o dinheiro dos outros para ajudar seu filho, o poeta David. Quando David lhe comunica que vai se casar, o velho avarento, que nunca ajudou ninguém, que não sabe renunciar ao lucro, explora o próprio filho, fazendo-o assinar promissórias que o comprometem pelo resto da vida.

Com o descrédito da família, o casamento também passa a sofrer de um crescente desprestígio. O personagem Henri de Marsay, sabendo que seu amigo Paul de Manerville ia se casar, tentou argumentar contra a decisão: “Quem se casa, atualmente? Comerciantes, no interesse do seu capital. Camponeses, para serem dois a empurrar o arado. Agentes de câmbio ou tabeliões, que são obrigados a pagar pelo cargo. E reis infelizes, para continuar dinastias desgraçadas”. E, quando Paul de Manerville fala em amor, o outro o adverte: “O amor é apenas uma crença, como a da imaculada Concepção da Santa Virgem”.

Julie d’Aiglemont, protagonista de A Mulher de 30 Anos, desabafa para um padre: “Nós, as mulheres, somos mais maltratadas pela civilização do que pela natureza”. “Tal como hoje existe, na prática, o casamento me parece ser uma prostituição legal”. E Rastignac, em A Casa Nucingen, explica a Malvina, filha do Barão Aldrigge, que “o casamento é uma associação comercial para salvar a vida”.

É interessante notar que a defesa das mulheres e a crítica ao casamento revelam alguns pontos importantes de afinidades entre o socialista Fourier, já relembrado neste livro, e o conservador Balzac. De fato, Balzac achava graça nos “fourieristas”, divertia-se às custas deles (como se pode ver em Os comediantes sem o saber), porém aproveitava idéias de Fourier contra a burguesia, classe que ele considerava destituída de grandeza.

A burguesia provocou uma comercialização generalizada da vida. Os pequenos-burgueses podem ser artesãos da malandragem, como o moleque Gaudissart, vendedor mentiroso, que impingiu um véu a uma compradora inglesa, informando que ele tinha pertencido à imperatriz Josefina, mulher de Napoleão (O Ilustre Gaudissart e Gaudissart II). Mas a transformação, mesmo, se consuma por obra dos “pesos pesados” da burguesia: os proprietários dos grandes meios de produção, os grandes industriais e os banqueiros.

Em Melmoth Apaziguado, há uma referência aos “corsários que enfeitamos com o nome de banqueiros”. E Balzac deixa clara sua convicção de que, “desde 1815, o princípio da honra foi substituído pelo princípio do dinheiro”. O ano é sintomático: em 1815, viu-se o fim da era napoleônica e o início da restauração monárquica. Mas Balzac viu mais: viu a burguesia desencadeando a ofensiva que viria a produzir efeitos profundos na sociedade.

Balzac criou, então, seus personagens banqueiros, como Nucingen, o barão Aldrigge e Gobseck. Segundo Paulo Ronai, Gobseck vai além da avareza instintiva e tem toda uma filosofia da usura, baseada na onipotência do dinheiro. “Gobseck é o avarento desenvolvido pela sociedade capitalista”.

Gobseck ensina ao jovem advogado Derville: “Em toda parte está estabelecido o combate entre o pobre e o rico; em toda parte ele é inevitável. Então, vale mais a pena ser explorador do que explorado”.

Entre os exploradores, a competição é brutal, porém há pontos de consenso: não se deve remexer muito no passado. Em A Estalagem Vermelha, o noivo de Victorine Taillefer consulta amigos durante um almoço: seu possível futuro sogro teria roubado cem mil francos em ouro e diamantes, teria assassinado a vítima e escapado, deixando que um amigo fosse preso, condendo e executado pelo crime. Pergunta se deve apurar o que efetivamente aconteceu. E um amigo advogado protesta: “Onde estaríamos todos se fosse preciso pesquisar a origem das fortunas?”.

Balzac queria enriquecer, ganhou muito dinheiro, mas gastava demais e fazia maus negócios. Em determinada ocasião, escreveu numa carta para a condessa Hanska (com quem, afinal, se casou, em 1850) : “estou chegando ao extremo da minha resignação. Acho que vou deixar a França e levar minha carcaça para o Brasil, em algum empreendimento maluco” (3-7-1840). Sua resignação, contudo, era maior do que ele pensava. Continuou vivendo na França, viajando, trabalhando, escrevendo. Compondo personagens.

Muitos críticos já observaram que ele era um mestre na composição de personagens femininos. As mulheres que povoam os livros de Balzac são, muitas vezes, criaturas fascinantes. O romancista enxerga nelas a valente reação contra a subordinação da vida amorosa a motivações utilitárias, a critérios mercenários. O amor — o sentimento nobre por excelência — só consegue espaço, na sociedade burguesa, assumindo formas mais ou menos degradadas. As figuras de mulheres frágeis mas corajosas criadas por Balzac não se conformam com isso.

Honorine prefere morrer a continuar casada com Octave de Bauvan, que, no entanto, é considerado um marido razoável. Veronique se casa com o velho banqueiro Graslin, que só estava de fato interessado no seu dote; ela, então, se apaixona pelo operário Tascheron. Os dois querem ir para a América, porém não têm dinheiro. Tascheron tenta fazer um assalto, mas, por acidente, mata uma pessoa. É preso, condenado e executado. Veronique, arrependida, resolve se peniternciar, ajudando quem precisava. Sua generosidade a embeleza e ela se torna linda, “digna do pincel de Rafael”, nas palavras de Balzac (Honorine).

A mais fascinante de todas é, provavelmente, a personagem Valerie Marneffe, de A Prima Bette. Valerie é casada com um funcionário doente e devasso, que a usa para conseguir promoções no seu emprego. Mas ela, decididamente não é uma marionete nas mãos do marido. Com seu notável talento como sedutora, ela tem quatro amantes secretos e lhes comunica que está grávida, Assegura a cada um dos quatro que é ele o pai da criança. Todos acreditam.

Valerie tem numerosos e poderosos inimigos. A polpuda mesada que recebe do banqueiro Crevel, seu amante, não lhe garante uma proteção perfeita (nem ela queria ser controlada). Os contatos que o Barão Hulot (outro amante) tem com pessoas influentes nesse caso não servem para nada. Mas Valerie tem um terceiro amante, suficientemente tolo para que os inimigos dela pensem em se aproveitar dele: o fazendeiro brasileiro Montes de Montejanos (sic), moreno, muito bonito, proprietário de uma fazenda com mais de cem escravos, no interior de São Paulo.

Sabendo que Valerie estava com seu quarto amante (o escultor polonês Wencslas Steinbock) num hotel, os inimigos da moça convenceram o brasileiro a acompanhá-los, subornaram os serventes do hotel, abriram a porta, invadiram o ninho de amor e puseram na mão do “selvagem” uma pistola, para que ele cometesse um crime passional. Era uma armadilha perfeita, não podia falhar. Mas falhou.

Valerie interpelou o brasileiro antes que ele falasse e lhe fez várias acusações. Acusou-o de não amá-la, de não confiar nela, de lhe pregar mentiras, etc. Depois, fez um gesto para o polonês e ele lhe trouxe o manteau, que ela vestiu e saiu, com seu porte de rainha, deixando todos perplexos.

A maior visibilidade da influência de Balzac, entretanto, não lhe veio de Valerie (de A Prima Bette), mas de Julie d’Aiglemont, a protagonista de A Mulher de 30 Anos. Julie é casada com o coronel Victor e é amante de Charles Vandenesse, com quem tem vários filhos. Quando uma filha resolve se casar com um integrante da família Vandenesse, Julie se opõe tão veementemente que engasga e morre. Essa morte grotesca reabre a questão da liberdade feminina: o que uma mulher tem o direito de fazer, em qualquer idade?

Devemos lembrar que, na época, as mulheres casavam cedo, uma moça com mais de 25 anos era considerada “encalhada”. Foi Balzac que, na literatura, consagrou a mulher de trinta anos, a “balzaquiana”. Numa cena de sedução, ele chega a chamar a atenção dos leitores para os encantos de Diana de Uxelles, duquesa de Montfrigneuse, princesa de Cadignan, uma quarentona que lia muito durante o dia para à noite puxar assunto com o escritor D’Arthez, um intelectual tímido por quem ela estava apaixonada. E a quem ela indaga, com toda a candura: “Encaminho-me para os quarenta anos. É possível amar uma mulher tão velha?”.

Leandro Konder é filósofo e autor de numerosa obra. Este texto é um capítulo do seu mais recente livro, Sobre o amor (Boitempo, 2007). Também publicado em La Insignia.

Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO

Vinicius de Moraes

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo.
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia…
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era.ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão.
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim

Começou a dizer: não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja Preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do Patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do Patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
- “Convençam-no do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via

Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu? .
. - Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Como o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

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Empreiteiros, protegidos pela burocracia

OPERAÇÃO NAVALHA: A facilidade da “troca de favores” é explicada, em parte, pela blindagem que tanto os burocratas quanto os lobistas possuem dentro do emaranhado de órgãos do sistema orçamentário brasileiro

Eduardo Sales de Lima
da Redação

AS EMPREITEIRAS, principalmente nas últimas duas décadas, viram seu capital crescer aceleradamente. Quase que institucionalizada, sua participação dentro do Estado brasileiro - nas instâncias municipal, estadual ou federal - se consolidou no mesmo período em que se tornaram potências transnacionais. No mesmo ritmo, surgiram novas artimanhas para corromper a burocracia estatal. Em outras palavras: a corrupção cresceu.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre os recursos destinados pelas construtoras aos parlamentares, revelam que 54,7% dos parlamentares do Congresso receberam alguma verba de empresas do setor. Para completar o quadro, de acordo com a reportagem do jornal Folha de S. Paulo, publicada no dia 3, 40% dos parlamentares financiados pelas empreiteiras são membros da Comissão de Transportes da Câmara e 37% da de Infra-Estrutura do Senado.
Como ponto central do debate, as emendas parlamentares se configuram na melhor maneira de o parlamentar manter a fidelidade eleitoral e ‘recompensar’ seu parceiro empreiteiro. Mas não é somente a falcatrua que faz o dinheiro desaparecer. “O processo de emendas parlamentares, mesmo não envolvendo corrupção constitui um gigantesco “ralo” para o dinheiro público, decorrente da irracionalidade com que é definido (não obedece a qualquer plano ou prioridade). O número de obras inacabadas é enorme, devido aos desencontros desse processo de pulverização de recursos”, explica Ermínia Maricato, exsecretária- executiva do Ministério das Cidades, ex-secretária de habitação e desenvolvimento urbano da Prefeitura de São Paulo e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP).

Caminhos tortuosos
O processo orçamentário no nível federal pode ser resumido do seguinte modo. Elaborado o projeto de orçamento pelo Executivo, o mesmo deve ser apresentado ao Congresso Nacional, nas suas duas Casas, e se submeter ao parecer da Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização (CMO) e também ao plenário da Câmara e do Senado. Chegando à CMO, o projeto de orçamento se depara com as emendas dos parlamentares. Tendo o parecer favorável, o projeto retorna para a sanção ou veto do presidente da República, para então, ser eventualmente executado. Com o orçamento aprovado, os recursos podem ser liberados e são fiscalizados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e pela CMO. Fechando o ciclo orçamentário brasileiro, as contas são fiscalizadas pelo TCU. A eleitora e o eleitor não têm acesso aos relatórios produzidos pelo Poder Executivo, sobrando- lhes serem representados pelo TCU.
A falta de transparência do TCU pode prejudicar as conseqüentes punições. Como no caso da construção do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, no qual o juiz Nicolau dos Santos Neto, junto com o senador Luiz Estevão, desviaram cerca de R$ 200 milhões de recursos orçamentários. O TCU já sabia dos fatos desde 1992, como revela a cientista política Argelina Figueiredo, em seu artigo “Instituições e Política no Controle do Executivo”, mas foi somente em 1999 que o processo foi divulgado e tramitou na forma de CPI.
Em outro artigo, do cientista político Fernando Filgueiras, “Política Orçamentária, Formação de Interesse e Corrupção no Brasil”, o autor revela que, tradicionalmente, as empreiteiras e as construtoras têm acesso a informações privilegiadas por meio do uso do pagamento de propinas e pedágios aos burocratas.
Ele diz que o pagamento de propinas cresce na proporção em que os servidores públicos de órgãos fi scalizadores têm controle monopolizado sobre o fluxo de informações e decisões. “Além disso, as empreiteiras são responsáveis por apresentar os projetos e listas de materiais, e muitas vezes, os próprios políticos encomendam os projetos a elas para apresentarem ao governo e à sociedade”, diz o artigo.
Os empreiteiros, por formarem um grupo relativamente pequeno, segundo Filgueiras, seguem a estratégia de montagem de cartéis, pois “os ganhos seletivos com a ação coletiva são maiores que os custos da deserção”. Já, os burocratas, isolados de qualquer tipo de pressão social, não encontram coerção que os impeça de colher ‘incentivos’. “Os políticos, interessados na reeleição, se subordinam aos burocratas e aos empreiteiros, pois necessitam apresentar ‘obras’ ao eleitorado”, explica o cientista político.
Nos meandros da burocracia estatal, os agentes da corrupção sentem-se protegidos. “Em que pese termos no Brasil uma vasta burocracia fiscalizadora da realização orçamentária [Tribunais de Contas, Controladoria Geral da União - no plano do governo Federal; auditorias, sindicâncias, Comissão Parlamentar de Inquérito (CPIs) e Comissão Especial de Inquérito (CEIs) - em nível municipal; Ministério Público - em todas as instâncias] a corrupção é muito disseminada, abrangendo todos os níveis de governo e, por vezes, envolve os próprios órgãos fiscalizadores” admite Ermínia. A exsecretária-executiva do Ministério das Cidades assegura que a política do favor e da coerção predomina sobre todas as relações, embora haja muitas exceções.
“O processo é bem mais complexo do que aparenta ser pela observação da mídia, que sai atrás de qualquer acusação e a transforma em escândalo, e esses escândalos se sucedem sem que as resoluções fiquem claras. Trabalha-se, acima de tudo, para desacreditar a esfera da política, seja ela institucional ou oriunda dos movimentos sociais. Mas a chamada iniciativa privada não está fora desse quadro genérico de corrupção. Sem corruptor, não há corrupção,” diz Ermínia.
Ermínia pondera, no entanto, que a origem das denúncias pode obedecer a uma lógica de disputa política por fatias do poder institucional. Freqüentemente, diz a professora, essas denúncias atingem também pessoas inocentes que ficam sob suspeita até o final dos processos de investigação ou processos judiciais. Instala-se uma confusão e dissemina-se a idéia de que todos são iguais. “A ex- prefeita da capital paulista (Luiza Erundina) e os integrantes de sua equipe ficaram soterrados sob acusações de diversas naturezas durante muitos anos. Parte das denúncias que atingiram aquele governo vieram de pessoas de moral duvidosa ou de adversários políticos das forças de esquerda”, lembra.

Financiamento Público
A apropriação pessoal indevida dos recursos públicos também é incentivada pelo atual sistema de financiamento de campanha.“Se a operação ‘Navalha’ não ficar circunscrita à Gautama, e se estender a outras empreiteiras, acredito que restará somente essa alternativa (financiamento público para campanhas eleitorais). Já que é cada vez mais difícil a eleição para qualquer cargo público sem a existência de recursos financeiros vultuosos para a campanha”, afirma a professora.
Mesmo com o financiamento público, porém, sempre haverá a possibilidade de alguém cobrar um favor pela intermediação de liberação de pagamento devido pelo Poder Público a uma empresa que lhe prestou serviço sob contrato. “Mas isso é mais fácil de regular. O Poder Público deve pagar em dia seus prestadores de serviços ou fornecedores. Fica muito mais barato”, conclui Ermínia.

Jornal Brasil de Fato

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MANIFESTO PELO FIM DO GENOCÍDIO EM GAZA

Comitê de Solidariedade aos Povos Árabes

É consenso entre as organizações internacionais de defesa dos direitos humanos: estamos presenciando o genocídio da população palestina da Faixa de Gaza. Gaza está cercada, Israel controla seu espaço aéreo, marítimo, e mantém fechadas as suas fronteiras. Desde 2007, cortou 80% do abastecimento de energia, combustíveis e água. Não há mais víveres, nem medicamentos básicos, pano para mortalhas, ou cimento para as sepulturas.

Os ataques israelenses estão deixando um saldo de mais de cem mortos toda semana. O alvo é a população civil, e quase metade dos atingidos, mortos, e mutilados que carregarão traumas psicológico incuráveis para o resto de suas vidas, são meras crianças. Desde 2000, em torno de 4000 palestinos foram assassinados pelas forças israelenses (metade eram crianças) e mais de 20.000 foram feridos. Em 2006, as forças israelenses assassinaram 660 cidadãos palestinos, triplicando o número em relação ao ano precedente. Na realidade, os ataques israelenses não cessaram desde que Israel invadiu o Líbano e a Faixa de Gaza, em julho de 2006, assassinando mais de 1000 libaneses em menos de um mês. Assim mesmo, teme-se que a invasão de julho de 2006 não tenha passado de um ensaio geral do que está por vir, como informa o jornal israelense de grande circulação, Haaretz, de 2 de março de 2008.

Quando vemos o próprio vice-ministro da Defesa israelense, Matan Vilnaï, ameaçar os palestinos com uma shoah, usando o termo israelense para um massacre absoluto, sem distinção entre combatente e criança, mulher ou idoso, comparável ao que recaiu sobre os judeus da Europa durante a II Guerra Mundial, então não podemos mais dizer que “não sabíamos o que estava acontecendo”. Esse crime não é só do Estado de Israel. Ele pesará sobre a consciência do mundo, porque sabemos o que está acontecendo e não fazemos nada.

Pior do que isso, o Mercosul acaba de assinar um Tratado de Livre Comércio com Israel, no momento em que Israel destrói o comércio, a infra-estrutura e as vidas humanas em Gaza e Cisjordânia. Tratado este que configura inclusive uma violação da lei internacional e da resolução, de julho de 2004, da Corte Internacional de Justiça, recomendando que todos os países signatários das Convenções de Genebra retirem o seu apoio ao regime ilegal de ocupação israelense dos Territórios Palestinos.

A população de Gaza não está passiva, ela luta pela sobrevivência. Os poucos e, em grande medida, inofensivos ataques dos foguetes Qassam de fabricação caseira, devem ser vistos pelo que de fato são: uma conseqüência inevitável da ocupação. A resistência palestina pode ser comparada à luta contra o nazismo ou contra o apartheid na África do Sul. Em 23 de janeiro, cerca de meio milhão de palestinos derrubaram a muralha do posto de fronteira de Rafah e entraram no Egito, em busca de mantimentos e bens de necessidade básica.

Tampouco a população israelense é toda ela conivente com o genocídio palestino. Em fevereiro, israelenses e palestinos mobilizaram-se dos dois lados da passagem de Erez (entre Israel e a Faixa da Gaza), exigindo, não um “cessar-fogo” -como se se tratasse de uma exigência “aos dois lados de um conflito”- mas o fim imediato do bloqueio israelense, demonstrando assim sua defesa incondicional do direito à resistência palestina contra a ocupação e o genocídio perpetrado pelo Estado de Israel.

Fonte: I.B.E.I.

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A privatização da Vale dez anos depois

IHU On-Line

Há dez anos, em maio de 1997, a Companhia Vale do Rio Doce (CRVD), uma das jóias da coroa do patrimônio público brasileiro, foi privatizada sob o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Um confronto entre 600 policiais militares e cerca de cinco mil manifestantes transformou as proximidades da praça XV, onde fica a sede da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro (BVRJ) e local da privatização, num autêntico campo de guerra. O confronto terminou com 33 pessoas feridas e a privatização da Vale.
Para lembrar do episódio da privatização da Vale e do seu significado, a IHU On-Line em parceria com o Cepat, entrevistou advogada Clair da Flora Martins, autora de uma das ações populares que questiona o leilão da Companhia Vale do Rio Doce. Clair da Flora Martins, ex-presa política do Regime Militar, ex-vereadora em Curitiba e ex-deputada Federal pelo Paraná, afirma que “usando de uma metáfora, podemos dizer que sem a posse da Companhia Vale do Rio Doce podemos tirar a cor amarela de nossa bandeira”.
Por outro lado, dez anos após leilão, a sociedade civil organizada realizará um plebiscito em nível nacional para saber a opinião dos brasileiros sobre a anulação da venda da segunda mais importante mineradora do Mundo e a maior da América do Sul. Clair da Flora Martins comenta a importância do plebiscito popular e as possibilidades de se reverter o leilão.

IHU On-Line - Onde a Sra. estava no dia 07 de maio de 1997, há dez anos atrás quando a Vale foi privatizada a Vale e qual foi o seu sentimento?
Clair da Flora Martins - Eu estava participando de manifestações em Curitiba contra a privatização da Vale do Rio Doce juntamente com inúmeras entidades do movimento social organizado. Foi um terrível sentimento de perda…mas também de revolta por tudo aquilo estar acontecendo, por nosso país estar sendo vendido.

IHU On-Line - O que a Companhia Vale do Rio Doce representa para os brasileiros?
Clair da Flora Martins - Usando de uma metáfora, podemos dizer que sem a posse da Companhia Vale do Rio Doce podemos tirar a cor amarela de nossa bandeira. O seu valor é incalculável, não só pelas imensas riquezas minerais como ferro, bauxita, nióbio, alumínio, cobre, carvão, manganês, ouro, urânio e outros, bem como pela estrutura logística que opera em 14 estados do país, englobando 9 mil quilômetros de malha ferroviária, portos, usinas e terminais marítimos. A história da Companhia Vale do Rio Doce está ligada a nossa identidade como nação, ao orgulho nacional.
Já em 1910, no XI Congresso Geológico e Mineralógico, realizado em Estocolmo, na Suécia as reservas da Vale foram estimadas em 2 bilhões de toneladas métricas. O lucro da empresa é astronômico. Em 2007, teve ganhos de R$ 13,4 bilhões, mais de 4 vezes o valor pelo qual foi vendida. O processo pelo qual a Vale foi constituída é um símbolo da resistência nacional à dominação estrangeira. Uma resistência que começou com o presidente Arthur Bernardes e continuou com Getúlio Vargas, que encampou as reservas de ferro de Percival Farquhar, num acordo com os EUA e a Inglaterra, que só foi conseguido através da participação do Brasil na Segunda Guerra.
Com a venda da Vale, o governo Fernando Henrique fez o Brasil voltar ao período colonial, destruindo nosso projeto de nação e nos colocando simplesmente como fornecedores de matéria-prima para os chamados países de primeiro mundo. Não poderemos jamais aceitar isso passivamente.

IHU On-Line - Os defensores da privatização alegam que a anulação do leilão pode afastar os investidores e causar prejuízo à Nação…
Clair da Flora Martins - Prejuízo nós teremos se não anularmos este leilão. Um prejuízo irreparável de 400 anos, que é o tempo estimado para a lavra de nossas reservas. Este “discurso do prejuízo” é feito por quem não tem interesse em ver nas mãos dos brasileiros a riqueza que é gerada pelo nosso próprio país. Falta vontade política.
Na Bolívia, o governo de Evo Morales está “nacionalizando” o gás; na Venezuela, o Chávez está nacionalizando o petróleo. Os países latinos estão tomando consciência da importância de suas matérias-primas. E por que no Brasil isto não acontece? Aqui, o governo Lula recebeu doações da Companhia para sua reeleição, enquanto falava no prejuizo das privatizações no horário eleitoral. A Vale patrocina evento de magistrados e até campanha da fraternidade. Mas a população precisa estar consciente que o dinheiro não pode comprar o nosso futuro e nossa responsabilidade com o país.
O dinheiro não pode comprar a consciência de milhares de cidadãos, de patriotas, de brasileiros, comprometidos com as necessidades de nosso povo. Um país que não tem recursos para investir em educação, em infra-estrutura, em saúde, em segurança…não pode se dar ao luxo de remeter o lucro da venda de suas riquezas para investidores estrangeiros e particulares.

IHU On-Line - E quais são as reais possibilidades de reverter este processo? Como está o andamento das ações?
Clair da Flora Martins - As chances de reverter o processo têm dois componentes. O primeiro é jurídico. As mais de 100 ações propostas na época do leilão de privatizações (1997) foram todas elas remetidas para a Justiça Federal de Belém do Pará. Em 2002, o juiz de Belém julgou improcedentes 7 ações e extinguiu sem julgamento do mérito as outras 69. Houve, portanto, julgamentos diferentes. Em dezembro de 2005, a 5ª Turma do TRF anulou a decisão do Juiz de Belém (que extinguiu as ações sem analisar o mérito), determinando que os 69 processos retornassem a Belém para que os fundamentos constantes nas ações fossem analisados e rejeitou o recurso interposto pelos autores das 7 ações que haviam sido julgadas improcedentes, ou seja, que não tiveram ganho de causa.
A nossa ação, junto a outras ações, segue suspensa para avaliação do ministro Luiz Fux (STJ). A decisão do STJ publicada no Diário da Justiça, de 22/09/06, suspende momentaneamente o retorno das ações populares ao Juízo Federal de Belém do Pará. Assim, as ações populares que objetivam a anulação da privatização da Companhia Vale do Rio Doce tiveram seu andamento suspenso, tendo em vista que a empresa entrou com um recurso. A Companhia Vale do Rio Doce alega que há uma orientação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de que não pode haver julgamentos diferentes para o mesmo caso.
A 5ª Turma do TRF da 1ª Região (Brasília), de um lado, reconheceu a legalidade do processo de privatização em 9 processos e em outras 69 ações adotou procedimento diverso. Há, portanto, sentenças diferentes, descumprindo a orientação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de que a mesma matéria deve ser decidida de forma igual. Assim, a Companhia Vale do Rio Doce requereu a anulação das decisões proferidas pela 5ª Turma do TRF da 1ª Região e a reunião dos processos. A 5ª Turma do TRF da 1ª Região, por sua vez, entregou a resposta ao pedido de informação do STJ no dia 31/10/06, sendo que agora será encaminhado ao Ministro Luiz Fux, da 1ª Seção do STJ para análise e decisão final. O outro componente é político. Ou seja, a União é ré no processo e o governo Lula, que agora representa a União, pode reconhecer a qualquer momento as nulidades do Leilão. O Poder Judiciário pode ser “esclarecido” pela opinião pública de que houve irregularidades no processo…

IHU On-Line - O que se questionou nas ações?
Clair da Flora Martins - Nós questionamos, em nossa ação, o Decreto 1510, que incluiu a CVRD no Programa Nacional de Desestatização, os vícios do edital, os critérios e o valor da avaliação da empresa. Demonstramos em nossa ação que o critério utilizado para a avaliação na época foi somente o valor das ações multiplicado pelo percentual de ações preferenciais colocadas à venda, sem examinar o valor das reservas minerais e das 54 empresas coligadas e controladas. A juíza desembargadora Selene Maria de Almeida, do Tribunal de Brasília, levou em conta estes argumentos para dar andamento ao processo.

IHU On-Line - Como a senhora vê a realização do plebiscito sobre a Companhia Vale do Rio Doce?
Clair da Flora Martins - Este plebiscito é uma prova viva de que a sociedade civil nunca vai aceitar passivamente este escândalo que é a transferência de nossas riquezas para as mãos de alguns poucos acionistas, em sua maioria de estrangeiros. O plebiscito é uma reação de quinhentos anos a exploração da Nação brasileira. Esta consulta popular vai ser o divisor de águas do governo Lula. Ou ele assume uma postura de defesa dos interesses brasileiros, ou se alia aos exploradores, aos vendilhões. Não existe meio-termo.
Nós estamos nos empenhando e vamos levar o plebiscito a cada escola, a cada Igreja, a cada sindicato, a cada entidade da sociedade civil, a cada cidadão. Depois do resultado, veremos como o governo Lula ficará conhecido no futuro. Como um governo que impediu o saque de nossas riquezas, ou como um governo que se aliou aos traidores da pátria

Fonte: Sasp

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Sebos da minha vida

Gabriel Perissé

Ida ao sebo. Cheiro de sebo. A primeira entrada num sebo a gente não esquece. Sensação de penúria e esbanjamento. Sebos cariocas dos anos 80, na Sete de Setembro, na Praça Tiradentes… Livros jogados sobre um balcão. Era preciso ter faro. Ter sorte. Ter tempo.

Dentro do sebo, homens sérios procuravam raridades. Ou então eram aqueles estudantes universitários sem dinheiro, mas ricos em curiosidade. Reverência diante de alguns livros, desprezo por outros.

Os sebos de hoje às vezes me dão nojo. Sebos melhores, sem dúvida. Sebos mais organizados do que antes, ou do que nunca. Até informatizados, agora. Sebos praticando preços que não são mais aqueles, de outrora. Sebos atualizados. Que saudades que eu tenho dos sebos da juventude!

Não se fazem mais sebos como antigamente. Hoje os sebos, sobretudo em São Paulo, estão limpos demais, iluminados, desempoeirados! Sebos dessebados… “dessabor”.

Sebos… ou quase livrarias vendendo livros lançados no ano passado! Onde está a velharia, o gosto pelo vetusto? Sebos menos sábios, menos misteriosos, mais funcionais, mais pragmáticos. Como esquecer aquele dia, num sebo qualquer, em que encontrei um livro sem capa… Mas com dedicatória de Murilo Mendes a alguém cujo nome já se perdeu. E estava ali, jogado, maltrapilho, esperando por mim…

Os livros no sebo do século XXI estão mais bem tratados, estão catalogados, fichados, identificados, cadastrados, plastificados. O gosto da aventura é menor. Os atendentes de sebo que conheci antes eram cúmplices, leitores velhos de velhas páginas, recomendavam títulos, tinham opinião literária, discutiam filosofia.

Os de hoje me tratam como cliente. Com aquele respeito frio, com aquela simpatia contida que eu posso encontrar nos atendentes de uma farmácia, de uma livraria de aeroporto, de uma loja qualquer. Alguns desses atendentes estão no sebo, mas não amam o conceito de livro usado. O livro, em sua vida útil, chega a ter 5 leitores. Como tartaruga, sobrevive às gerações.

As melhores livrarias de hoje vendem espaço para as editoras colocarem à vista os seus produtos mais recentes. Diz-se que são lançados no mercado diariamente, no Brasil, cerca de 50 títulos novos ou reeditados.

As migalhas que caem da mesa dos ricos alimentam a mesa dos pobres. No sebo, ainda há um pequeno espaço para o inusitado, o gratuito, o casual. Ainda há lugar (quero defendê-lo) para a alegria de não depender da lista dos mais vendidos.

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor - Web Site: http://www.perisse.com.br/

Fonte: Correio da Cidadania

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Biocombustíveis, remédio pior que a doença

Vandana Shiva*

Os compromissos adotados para mitigar a mudança climática são insuficientes e, nesse contexto, uma falsa solução são os biocombustíveis, alimentos dos pobres transformados em energia.

Nova Délhi, 18 de fevereiro (Terramérica) - Em 2008, já ninguém pode negar a mudança climática causada por atividades humanas. Entretanto, os compromissos adotados para mitigá-la e ajudar os mais vulneráveis a enfrentar seus efeitos são insuficientes e não incluem o reconhecimento do desastre. A mitigação requer mudanças materiais nas pautas de produção e consumo. A globalização deu impulso em todo o mundo tanto à produção quanto ao consumo e, portanto, a maiores emissões de dióxido de carbono. As normas da Organização Mundial do Comércio sobre liberalização comercial forçam os países a seguirem um caminho que implica aumentar as emissões. O mesmo faz o Banco Mundial ao conceder empréstimos para super-rodovias, usinas termoelétricas, agricultura industrial e vendas no varejo por parte das grandes corporações.

Também são responsáveis empresas gigantes como Cargill e Wal-Mart. Cargill é um ator importante na difusão do cultivo de soja no Brasil e das plantações de palmas nas selvas da Indonésia, em cuja queima tem responsabilidade. E o modelo do Wal-Mart, de comércio centralizado a longa distância, é uma receita segura para o aumento da carga do dióxido de carbono na atmosfera. O primeiro passo para a mitigação requer um enfoque sobre as ações reais dos atores reais.

Ações reais são, por exemplo, uma atividade contrária à agricultura ecológica e aos sistemas locais de produção de alimentos, bem como as que implicam perda de economias rurais, com baixas emissões, diante da disseminação da urbanização a cargo de empresas construtoras. Incluem também a destruição de sistemas sustentáveis de transporte baseados em energia renovável e a promoção de automóveis particulares. Os atores reais são o grande agronegócio global, a OMC e o Banco Mundial. Também são as companhias petrolíferas e as companhias automobilísticas, que impulsionam esta transição para o não-sustentável em matéria de mobilidade.

O Protocolo de Kyoto evitou por completo responder à necessidade de deter as atividades que levam a maiores emissões e ao desafio político de impor normas aos poluidores e de fazê-los pagar de acordo com os princípios acordados em 1992 na Cúpula da Terra. Em lugar disso, Kyoto pôs em marcha o mecanismo de troca de direitos de emissões de gases causadores do efeito estufa, que de fato recompensa os contaminadores ao dar-lhes direitos sobre a atmosfera e de comercializá-los para contaminar. Hoje em dia, o mercado de troca de emissões chegou a US$ 30 bilhões e estima-se que crescerá muito mais.

Outra falsa solução para a mudança climática é a promoção de biocombustíveis elaborados com milho, soja, óleo de palma e pinhão. Os combustíveis produzidos com biomassa continuam sendo a mais importante fonte de energia dos pobres no mundo: a energia utilizada para cozinhar provém de biomassas não comestíveis, como esterco de vaca, espiga de milho, talos de legumes e espécies agroflorestais. Os biocombustíveis industriais são os alimentos dos pobres transformados em calor, eletricidade e transporte.

O presidente George W. Bush programou a produção de 132,5 bilhões de litros de biocombustíveis para 2017. Inevitavelmente, o aumento maciço da demanda por grãos ocorrerá à custa da satisfação de necessidades elementares dos seres humanos, como a gente pobre, marginalizada do mercado de alimentos devido ao aumento de seus preços. Em primeiro lugar, o desmatamento causado pela expansão das plantações de soja e de palma está levando ao aumento de emissões de dióxido de carbono. A FAO estima que 1,6 bilhão de toneladas, ou seja, de 25% a 30% dos gases causadores do efeito estufa lançados na atmosfera a cada ano, provêm do desmatamento.

Para 2022, as plantações destinadas à produção de biocombustíveis podem levar à destruição de 98% das florestas da Indonésia. Os Estados Unidos utilizarão 20% de seu milho para produzir 19 bilhões de litros de etanol, substituindo apenas 1% do uso de petróleo. Se fossem usados 100% do milho para produzir etanol, substituiria apenas 5% do petróleo utilizado atualmente. Claramente isso não constitui uma solução nem para pôr um teto ao uso do petróleo nem para mitigar a mudança climática. Estas falsas soluções não farão mais do que aumentar a crise climática e, ao mesmo tempo, agravarão e aprofundarão a desigualdade, a fome e a pobreza.

* Vandana Shiva é bióloga, ambientalista e escritora.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Fonte: CIMM

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