Arquivo de 21 de Abril de 2008

Rádio elege Marx filósofo mais importante da história (notícia de setembro de 2007)

30 de Setembro de 2007
EFE, em Londres

Karl Marx (1818-1883) foi eleito pelos ouvintes da Radio 4, da emissora britânica BBC, “o filósofo mais importante da história” .

O autor de “O Capital” pode ter perdido espaço no leste europeu e seu nome pode ter desaparecido de praças e ruas, mas seu prestígio parece ter sobrevivido à queda do muro de Berlim, pelo menos no Reino Unido, anunicou a rádio.

Marx recebeu 28% dos 30.000 votos dos ouvintes, ficando muito à frente do segundo lugar, o escocês David Hume.

Os jornalistas da revista “The Economist” tentaram, em vão, fazer uma campanha entre seus leitores para angariar votos a favor de Hume, grande representante do empirismo e defensor de um ceticismo moderado.

Hume, pensador anti-dogmático que influenciou na filosofia moral e nos trabalhos econômicos do amigo Adam Smith, o maior dos economistas clássicos, obteve apenas 12,7% dos votos.

Outros meios britânicos apoiaram diferentes filósofos. O jornal “The Guardian”, de centro-esquerda, apadrinhou outro alemão, Immanuel Kant, que ficou em sexto.

Com certo esnobismo, um jornal mais a esquerda, “The Independent”, inclinou-se pelo austríaco Ludwig Wittgenstein, iniciador da chamada Filosofia Analítica do século 20, e que ficou em terceiro da lista.

Vários famosos pediram voto para filósofos como o imperador romano Marco Aurelio, Friedrich Nietzsche e o dinamarquês Soren Kierkegaard. Platão, considerado por muitos o maior pensador de todos os tempos, ficou em quinto lugar com 5,65%, imediatamente atrás de Nietzsche (6,49%).

Nietzsche recebeu mais votos do que Kant, que obteve 5,61% e ficou em sexto; que São Tomás de Aquino (4,82%); e que os gregos Sócrates (4,82%) e Aristóteles (4,52%). Karl Popper foi o menos votado dos dez filósofos (4,20%), muito abaixo de seu compatriota e antigo rival de Oxford, Wittgenstein.

Marx

O filósofo votado pelos ouvintes como o maior de todos os tempos esteve por certo muito vinculado ao Reino Unido, onde foi jornalista, pesquisou o fenômeno da era industrial e foi durante anos assíduo visitante do Museu Britânico.

Seu túmulo, enfeitado com seu busto e que recebe homenagem dos partidos comunistas de todos os países, está no cemitério de Highgate, no norte da capital.

A popularidade de Marx é explicada pelo historiador marxista Eric Hobsbawm pelo fato de que, com o fim do comunismo, o autor de “O Manifesto Comunista” tenha sido libertado da deformação de seu pensamento nos antigos países do chamado socialismo real.

A feminista americana Camille Paglia se queixa de que na lista da BBC apareçam só filósofos homens, e propõe uma formada exclusivamente por pensadoras, que inclui Simone de Beauvoir, Hannah Arendt, Mary Wollstonecraft e a neo-platônica Hipátia, de Alexandria, que viveu entre os anos 370 e 415 de nossa era e foi matemática e astrônoma.

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Os problemas e os desastres históricos do Haiti

28 de Setembro de 2007

Direto de Porto Príncipe, Emir Sader relata as dificuldades vividas pelo povo haitiano. “Qualquer que seja o diagnóstico que se faça da história recente do Haiti, o certo é que, depois da catástrofe da ditadura do clã Duvalier, o desastre mais recente foi o fracasso do governo de Aristide”.

Emir Sader

Não é fácil chegar ao Haiti. Em primeiro lugar pelos vôos. Não apenas para nós, que temos que ir ao Panamá e trocar de avião, depois de uma espera de quatro horas. Mas mesmo paises do Caribe – como Cuba ou Porto Rico – ou próximos, como o México, devem ir até o Panamá ou tirar o visto e os sapatos no aeroporto de Miami. Um vôo que seria de uma hora e quarenta, desde o Porto Rico ou Cuba, termina levando sete horas. O trecho entre o Panamá e o Haiti é curto, de cerca de duas horas, para que se veja que não fica tão longe, mas também a este nivel o Haiti é vitima de discriminação.

A outra dificuldade também é resultado da discriminação. Quando se diz a alguém que se vai ao Haiti, produz preocupação, muitas vezes seguido da recomendação. “O Haiti! Cuidado!”, como se fôssemos ao Iraque ou ao Afeganistão.

A primeira vista, ainda do avião, é de uma ilha tipicamente caribenha, poderia se estar chegando a Cuba, não fosse uma vegetação mais rala e terrenos bastante menos explorados pela agricultura. No aeroporto – chamado Toussaint L`Ouverture – encontra-se de imediato essa característica de alguns países do continente: população nativa negra, entre pobres, classe média e elite.

Porto Príncipe não apresenta uma paisagem social pior que, por exemplo, Tegucigalpa ou El Alto – cidade da periferia de La Paz. A capital tem um milhão de habitantes, outros oito milhões vivem no campo e um milhão mais no exílio – nos EUA ,na Republica Dominicana. Tanto estes dados, como os índices sociais – 40% de analfabetos ou de mortalidade infantil, por exemplo – são aproximados, ninguém sabe quantos haitianos foram, legal ou ilegamente aos EUA ou à vizinha Republica Dominicana, onde mesmo filhos de terceira geração de haitianos não são reconhecidos legalmente e não existem diante da lei e das estatísticas.

No centro da cidade, uma grande quantidade de gente ociosa, certamente desempregada, enquanto os que têm atividade estão, na sua grande maioria, no serviço de rua, vendendo coisas ou prestando serviços, com grande quantidade de engraxates. Isolado por cercas, o monumental Palácio Presidencial, aparentemente alheio ao entorno. Como em quase todos os países do continente, mesmo os países pobres, como o Haiti ou o Paraguai, o poder se exige na sua monumentalidade mediante palácios que poderiam ser transferidos para qualquer outro país, nada diz deles que são sede do governo daquele país, eleito por aquela massa de gente que circula, alheia ao Palácio, a pé ou em ônibus pequenos de transporte, repletos de gente a qualquer hora do dia, todos muito coloridos e com frases pintadas, a maioria delas religiosas.

O Haiti goza, pelo menos, do privilégio do atraso. A capital é pouco globalizada, porque não representa mercado de interesse da grande maioria das transnacionais. (Até aqui, não vi nenhum McDonalds.) Poucos outdoors, em geral pequenos, a publicidade está mais presente em faixas de pano, escritas em francês, quando se trata da oferta de algum produto voltado para o consumo das altas esferas do consumo, em creole – o idioma local, uma versão popular do frances, que escreve as palavras francesas conforme soam, se se trata de produtos de consumo popular.

Não soubéssemos a situação política do país, pareceria um país pobre a mais no continente. O sintoma dessa situação política estava presente no aeroporto, quando os soldados traziam o emblema da ONU em um braço e a bandeira chilena no outro – membros da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, conhecida como Minustah, cujo término do mandato atual termina dia 15 de outubro próximo.

Consenso geral é que a presença dessas tropas foi a responsável pelos avanços na situação de segurança pública, pelo menos nos espaços centrais de Porto Príncipe, até há pouco intransitáveis, pelos riscos de segurança. A eleição de um presidente com grande votação - René Preval, que havia sido presidente do Haiti anteriormente e que recebeu inclusive o apoio tácito do ex-presidente Aristide -, somado à ação das tropas estrangeiras, gerou uma certa estabilidade institucional.

Os problemas do Haiti se dão em um plano muito mais profundo. As décadas de governo do clã Duvalier, somados ao fracasso do governo de Aristide, tiveram como efeito, entre outros, uma inexistência real do Estado. Há ministérios, mas muito poucos serviços publicos, estruturas muito debilitadas. Além de que Aristide decidiu a extinção do Exército, sem colocar nenhuma outra estrutura no seu lugar, mantendo-se apenas a Polícia Federal como força armada.

Qualquer que seja o diagnóstico que se faça da história recente do Haiti, o certo é que, depois da catástrofe que significou para o Haiti a ditadura do clã Duvalier, o desastre mais recente, que ajuda a entender a grave situação em que se encontra o país, foi o fracasso do governo de Aristide. Ele tinha as melhores condições para dar inicio à reconstrução democrática do país, pela liderança popular que tinha como padre da teologia da libertação, da oposição democrática, contando também com apoio internacional.

O regime duvalierista foi derrubado em 1986, Aristide foi eleito em 1990. Nem bem tinha começado seu governo, aos 7 meses, foi derrubado por militares remanescentes do duvalierismo. Se exilou nos EUA e retornou, reconduzido pelo governo de Bill Clinton, em 1994, para o que se chama de “segundo Aristide”. Depois de um mandato de Preval, ele passou a implementar uma política econömica neoliberal, se chocou e se distanciou do partido – Lavalas – que o havia eleito e passou a ser acusado de vínculos com o narcotráfico, de corrupção e de organização de bandas armadas que passaram a atacar grupos de oposição, movimentos sociais, intelectuais e lideres da oposiçáo.

Aristide foi perdendo o controle do país, mobilizações populares contra ele foram crescendo. Ao longo do segundo semestre de 2003, ele continuava a dispor de grupos populares armados por ele. A falta de recursos externos foi levando o país a um processo de desintegração acelerada, sem serviços públicos, sem forças de segurança, com grupos de-ex-militares armados cruzando a fronteira para atacar o governo.

Foi nesse contexto de véspera de guerra civil, que os governos dos EUA e da França se reivindicaram o direito de intevir, derrubando o governo de Aristide. Alegando que os governos da região preferiam a presença de tropas latino-americanas, o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Chile, substituíram esse contingente com suas tropas.

Aí começa o período contemporâneo do Haiti, com um presidente eleito, René Preval, grandes dificuldades econômicas e sociais, instabilidade institucional, presença de tropas estrangeiras. O seminário que organizamos, Clacso, junto com a Fundação Gerard-Pierre Chareles – o intelectual mais importante do Haiti, grande amigo de Florestan Fernandes, morto há três anos – permite ter visões diversas do quadro atual do Haiti. No próximo texto tratarei de resumir-lhes essas visões.

Porto Principe, 28 de setembro de 2007

Carta Maior

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Num mercado do disco acidentado, a edição musical está com boa saúde

29 de Setembro de 2007

Véronique Mortaigne

Ao atirarem para todos os lados para impedir a ampliação da hemorragia das vendas de discos, e ao tentarem inventar novos modelos na Internet, os industriais da música, ao menos, estão fazendo a felicidade de um setor deste ramo, o da edição musical, uma profissão pouco conhecida, porém chamada a exercer o papel de pedra angular nos dez próximos anos. O editor é aquele que detém o direito de explorar comercialmente uma obra musical (e não a própria carreira dos artistas), qualquer que seja o suporte deste fonograma, inclusive o disco.

A edição musical apresenta um nível de faturamento estável há vários anos (161,6 milhões de euros - R$ 420,62 milhões - em 2005 na França), ao passo que aquele do disco desmoronou de 50% em quatro anos. Os editores apresentam um bom desempenho, uma vez que eles compensam os lucros que eles deixam de faturar com as vendas de álbuns, recebendo direitos pagos pelos outros canais de difusão que, por sua vez, proliferam: canais de televisão, Internet, eletrônica, chaves USB, concertos, rádios, streaming e downloads, ringtones para celulares, músicas de filmes, spots publicitários, cartões com chip de memória, secretárias eletrônicas, etc.

Com isso, a onipresença da música alimenta os interesses proteiformes da edição. Uma prova disso são as intenções atribuídas ao fundo de investimento Terra Firma, que acaba de comprar a “major” do disco britânica EMI. Em outubro, o Terra Firma deverá confirmar ou não a sua intenção de se livrar da atividade relativa aos discos da EMI, para ficar apenas com a edição ou o publishing. O cálculo é simples, resume Fabrice Nataf, o CEO da filial francesa da EMI Publishing (1,5 milhão de títulos no seu catálogo, faturamento de 40 milhões de euros - R$ 104 milhões - na França). “A EMI Publishing representa 25% do faturamento do grupo EMI, mas 75% dos seus lucros”.

A profissão de editor de música foi criada no século 19, com o advento das leis sobre a propriedade intelectual e das sociedades de gestão coletiva, tais como a Sacem, que arrecadam as posses dos autores e dos compositores. Uma vez escrita, uma obra pode ser entregue para um editor, que fará com que ela tenha vida útil, mediante o pagamento da metade ou de um terço dos direitos arrecadados pela Sacem. Na França, o primeiro exemplo desta prática se deu quando o compositor Hector Berlioz (1803-1869) cedeu os direitos do seu “Hino à França” para o editor Maurice Schlesinger, em agosto de 1844.

Inicialmente, o editor foi encarregado de editar partituras impressas, um setor que até hoje continua sendo importante para a música clássica, e que permanece ativo para as coletâneas de músicas, os Song Books, muito procurados. Mais tarde, o editor tornou-se um intermediário. Este foi o caso de Raoul Breton e sua mulher (a quem o cantor Charles Trenet deu o apelido de “A Marquesa”), que participaram da construção do patrimônio da “chanson” francesa, combinando as criações dos autores e compositores com as dos intérpretes.

Comprada em 1992 por Charles Aznavour, a editora Breton é detentora dos direitos sobre músicas de Edith Piaf, Trenet, Aznavour, Félix Leclerc, assim como daquelas da quebequense Linda Lemay ou do “slameur” (combinação de poeta, contador, rapper e repentista) Grand Corps Malade, cujos álbuns são produzidos respectivamente pela Warner e a Universal. Com isso, os interesses das companhias do disco e da edição nem sempre coincidem. Por exemplo, os Beatles, produzidos pela EMI, têm as suas obras editadas pela Sony ATV Publishing - sendo a ATV uma estrutura que pertence a Michael Jackson, o qual detém os direitos sobre as músicas dos Beatles.

O editor exerce uma profissão muito discreta, diz Nicolas Galibert, que dirige a filial francesa da Sony ATV Publishing (300.000 referências, faturamento de 16 milhões de euros - R$ 41,65 milhões - por ano). A sua tarefa é de “colocar” ou “inserir” músicas onde quer que elas sejam remuneradas. “O destino de uma obra não é de permanecer dentro de uma gaveta”, dizia o letrista Etienne Roda-Gil, que faleceu em 2004 e cujas letras são administradas pela Sony ATV Publishing.

Fabrice Nataf apresenta como exemplo o sucesso do rapper francês Faf Larage, que foi dispensado pela sua gravadora, mas cujo título, “J’ai pas le temps” (”Estou Sem Tempo”), que é editado pela EMI Publishing, serviu de música-tema na França para a série americana “Prison Break”. “Aquela foi uma idéia de editor”, diz Nataf.

Marie-Anne Dudouit, a diretora da editora Blonde Music, dedica-se a combinar os interesses da cantora Camille com aqueles das artes plásticas (a artista Sophie Calle). Desde a sua criação, há treze anos, esta sociedade independente participa da renovação de uma profissão que, no tempo em que o disco era rei, chegou a ser considerada como uma mera caixa-registradora. Para reverter esta tendência, muitos autores compositores e intérpretes franceses (Jean-Jacques Goldman, Yves Simon, Francis Cabrel ou ainda Jean-Louis Murat) haviam fundado as suas próprias sociedades de edição.

Marie-Anne Dudouit se diz satisfeitíssima com a profusão dos suportes, “embora seja mais fácil ‘colocar’ um título de Amel Bent (de “La Nouvelle Star”) para um ringtone de celular do que uma música do jazzman Eric Truffaz”. Além disso, o mundo da edição não escapa da lógica das concentrações. Em 2006, o Universal Music Group comprou por 1,63 bilhão de euros (R$ 4,24 bilhões) a BMG Publishing, tornando-se com isso o número um mundial da edição (com 26% do mercado, na frente da EMI Publishing (20%) e da Warner Chappell (16%).

Na primavera passada, a Comissão Européia exigiu que a Universal abrisse mão de vários catálogos americanos. Isso porque, “num certo número de países”, escreveu a entidade, “a Universal chegaria até mesmo a ponto de controlar mais da metade dos sucessos das paradas, e se tornaria desta forma detentora de uma espécie de monopólio para todos os serviços de música on-line e de celulares”.

Tradução: Jean-Yves de Neufville.

Jornal Le Monde

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Pelo direito à verdade e à justiça

26 de Setembro de 2007
DITADURA Entidades de direitos humanos, historiadores e juristas pedem abertura de arquivos militares e questionamento da Lei de Anistia

Tatiana Merlino
da Redação

O LANÇAMENTO do livro Direito à Memória e à Verdade trouxe à tona, mais uma vez, o debate a respeito da necessidade de abertura dos arquivos militares e sobre controvérsias na interpretação da Lei de Anistia, de agosto de 1979. A publicação, organizada pelo ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, e pelo presidente da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, Marco Antônio Barbosa, é o primeiro documento oficial do Estado brasileiro que relata as atrocidades cometidas pela ditadura civil-militar (1964-1985) contra seus opositores.
A interpretação dos interessados no acobertamento dos crimes cometidos por militares e civis é de que a Lei de Anistia teria caráter “recíproco”, ou seja, se estenderia para além dos perseguidos políticos do período da ditadura. Esse entendimento, dominante até hoje, é contestado por entidades e movimentos de defesa dos Direitos Humanos, juristas e historiadores. De acordo com Maria Aparecida de Aquino, professora de História Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP), uma parte significativa dos arquivos dos Doi-Codis e dos centros de informação continuam preservados e precisam ser revelados. “A sociedade brasileira tem o direito de ter acesso a esses documentos e de saber o que os órgãos de repressão foram capazes de fazer naquele período”. Para ela, a questão é de justiça, e não de “revanchismo”, acrescentando que o acesso aos arquivos seria importante inclusive para a instituição militar, que poderia tirar “seus monstros do armário”.

“Única verdade”
Na ocasião do lançamento do livro – resultado do trabalho de 11 anos da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos –, dia 29 de agosto, data em que se completavam 28 anos da Lei de Anistia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva garantiu que o governo seguirá empenhado para contar a história do Brasil do jeito que ela realmente aconteceu. Sobre os arquivos da ditadura que ainda não foram abertos, Lula disse que Dilma Rousseff (Casa Civil) “é responsável por isso” e que grande parte desses arquivos militares já foi para o Arquivo Nacional. No entanto, familiares de mortos e desaparecidos e entidades de direitos humanos reclamam que o governo não cumpriu a promessa de abrir os arquivos. Segundo eles, essa seria a única forma de buscar os restos mortais de todos os desaparecidos.

Crimes de Estado
Já o Exército reagiu à divulgação do documento manifestando que se opõe à revisão da lei que impede militares de serem responsabilizados por crimes cometidos durante a ditadura. “A Lei da Anistia, por ser parâmetro de conciliação, produziu a indispensável concórdia de toda a sociedade, até porque fatos históricos têm diferentes interpretações, dependendo da ótica de seus protagonistas. Colocá-la em questão importa em retrocesso à paz e à harmonia nacionais, já alcançadas”, registrou nota do Alto Comando do Exército.
Para a professora Maria Aparecida de Aquino, a reação não poderia ser diferente numa sociedade que, “por tradição, tem dificuldade para lidar com seus crimes de Estado que, em tese, estariam todos justificados. Há a idéia de que, como foram praticados pelo Estado, são lícitos e pode-se passar uma borracha em cima deles”. Apesar disso, acredita ela, a iniciativa da Comissão significa que o país está “se debruçando contra sua própria tradição”.

Erro de interpretação
O livro, editado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, também discute a tese, levantada por juristas, de que mesmo se a Lei de Anistia tivesse absolvido os crimes cometidos pelos agentes do Estado, eles continuaram cometendo um crime ao não revelar onde estão os corpos das vítimas, configurandose no que se chama de “crime continuado”. “É um dever moral iniciar uma ação penal contra os culpados por essa ocultação de cadáver”, afirma o jurista Fábio Konder Comparato.
Para Hélio Bicudo, advogado e presidente da Fundação Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos, a Lei de Anistia foi mal interpretada porque “não é uma lei de duas mãos”. “Ela não é para aqueles que mataram e torturaram em nome do Estado, mas para proteger os que foram torturados e eliminados injustamente pela ditadura militar”, explica.
Para Bicudo, o Brasil deveria seguir os passos de outros países da América Latina, que levaram seus torturadores ao banco dos réus. “Ainda estamos muito atrás de países que já realizaram um ajuste de contas com o seu passado ditatorial. A exemplo do Chile e da Argentina, devemos exigir que crimes cometidos em nome do Estado sejam investigados e seus responsáveis punidos”.

Jornal Brasil de Fato
ttp://www.brasildefato.com.br/

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A vingança do mamute

26 de Setembro de 2007
Derretimento dos solos da Sibéria expõe matéria orgânica depositada por animais há milhares de anos e pode agravar o efeito estufa

DIMITRY SOLOVYOV
DA REUTERS, EM TCHERSKY (RÚSSIA)

Sergei Zimov se abaixa, apanha uma porção de lama viscosa e a aproxima do nariz. O cheiro é de esterco de vaca, mas ele sabe do que realmente se trata. “Tem cheiro de cocô de mamute”, diz.
Este é mais do que apenas outro sintoma qualquer do aquecimento global.
Durante milênios, várias camadas de dejetos animais e outros tipos de matéria orgânica deixados pelas criaturas que habitavam a tundra do Ártico permaneceram seladas no permafrost, nome dado aos solos permanentemente congelados daquela região. Agora, a mudança climática está derretendo o permafrost e tirando essa meleca pré-histórica de seu estado de animação suspensa.
Mas Zimov, um cientista que estudou as mudanças climáticas no Ártico russo durante quase 30 anos, diz acreditar que, à medida que essa matéria orgânica seja exposta ao ar, ela acabará acelerando o aquecimento global mais do que o previsto até por alguns dos modelos mais pessimistas.
“Isso levará a um tipo de aquecimento que será impossível de frear”, afirmou.
Quando a matéria orgânica deixada pelos mamutes e outros animais é exposta ao ar devido ao derretimento do permafrost, bactérias que estiveram dormentes por milhares de anos voltam à ação. Como subproduto dessa atividade, elas emitem dióxido de carbono (CO2), o principal gás responsável por “engrossar” o cobertor de gases que aprisiona o calor irradiado pelo planeta na atmosfera. Pior ainda, elas também emitem metano (CH4), que é ainda mais potente que o CO2 para reter calor.
Na Iakútia, região no nordeste da Sibéria, a faixa de permafrost que contém solo do tempo dos mamutes cobre uma área mais ou menos equivalente às da França e da Alemanha somadas. Há ainda mais permafrost em outras regiões siberianas.
“Os depósitos de matéria orgânica nesses solos são tão gigantescos que eles apequenam as reservas mundiais de petróleo”, afirmou Zimov.
Estatísticas do IPCC, o painel do clima das Nações Unidas, dão conta de que a humanidade emite 7 bilhões de toneladas de carbono por ano. “As áreas de permafrost contêm 500 bilhões de toneladas de carbono, que podem rapidamente se converter em gases-estufa”, disse Zimov.
“Se você não interromper as emissões de gases-estufa para a atmosfera… o Protocolo de Kyoto vai parecer brincadeira de criança”, continuou.

Bomba de metano
Pode ser fácil ignorar o cientista de 52 anos e chamá-lo de maluco alarmista. Mas sua teoria tem ganho atenção da comunidade científica.
Um relatório das Nações Unidas publicado em junho afirmou que ainda não há sinais evidentes de derretimento disseminado do permafrost que possa fazer muita diferença no aquecimento global, mas apontou para a ameaça potencial que ele representa.
“A camada superior do permafrost contém mais carbono orgânico do que a atmosfera”, afirma o documento.
Zimov é cientista-chefe da estação científica do nordeste da Academia Russa de Ciências, a três pernas de vôo e oito fusos horários de Moscou. Em Duvánni Iar,às margens do rio Kolima, o fenômeno que Zimov descreve em suas conferências pode ser apreciado em primeira mão.
A barranca do rio, até agora mantida pelo permafrost, está desmoronando à medida que o gelo derrete. De tempos em tempos, ouve-se o estrondo dos blocos de solo e permafrost rolando barranco abaixo.
Perto dali, Zimov aponta para uma área que até agora não foi afetada pelo derretimento -uma floresta coberta por um tapete macio de musgos e líquen. Mais para baixo, no entanto, a paisagem é coberta de árvores que tombaram devido à desintegração do solo.
Em outros lugares, áreas que cinco ou dez anos atrás eram pura tundra agora estão salpicadas de lagos -resultantes do derretimento do permafrost. Esses lagos de “termocarste”, como são chamados pelos geólogos, borbulham com metano, um gás-estufa 21 vezes mais potente que o dióxido de carbono, embora ocorra na atmosfera em níveis muito mais baixos.
O derretimento do permafrost afeta os raros assentamentos humanos da Sibéria. Em Tchersky, uma cidade de 3.000 pessoas, prédios de apartamentos têm rachaduras nas paredes devido ao afundamento do terreno onde estão construídos. Muitos foram demolidos por falta de segurança.
O número de pessoas que vive nesta vastidão é tão pequeno que as mudanças na sua paisagem dificilmente preocupariam quem mora do outro lado do mundo. Mas Zimov avisa que as pessoas em toda parte deveriam se preocupar, porque, em alguns anos, o efeito-dominó do degelo do permafrost siberiano poderá ter um impacto direto sobre elas. “No fim, os problemas locais do norte serão os problemas do sul da Rússia, da Amazônia ou da Holanda”, pontifica.

Jornal Folha de S. Paulo

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O blablablá socialista do PT

24 de Setembro de 2007
José Arbex Jr.

“O PT é um partido interessante. Mesmo após a crise do mensalão, a campanha eleitoral e o segundo governo Lula, ainda demonstra sinais de que o socialismo sobrevive nos ‘corações e mentes’, como afirma um chavão antigo, de parte da sua militância (…) Várias teses aludem ao socialismo e se referenciam na tradição marxista. O ‘socialismo petista’ é um dos temas pautados para o III Congresso. Retórica ou reafirmação da utopia? Ainda é possível acreditar que o PT, enquanto instituição partidária, tem algum vínculo concreto com o ideário socialista?” A indagação posta pelo cientista político Antônio Ozaí da Silva é muito pertinente (www.espacoacademico.com.br/075/75ozai.htm).

Uma rápida consulta ao portal do partido (www.pt.org.br/sitept/index_files/ congresso/conteudo.php?tipo=5) mostra que, das doze teses encaminhadas ao 3º Congresso do PT, convocado para o final de agosto, quatro faziam menção explícita ao socialismo; outras, ainda que não o fizessem diretamente, falavam em revolução ou, no mínimo, invocam a cor vermelha. Dá a impressão de que o partido, ou pelo menos boa parte dele, não esqueceu suas origens. Será mesmo?
O próprio Ozaí lembra, no seu texto, que “papel aceita tudo”. Pois é. Qualquer militante sincero e minimamente informado do PT terá que admitir que a principal discussão preparatória ao congresso não tem nada a ver com socialismo, nem muito menos com revolução. Tem a ver com 2010.

As articulações giram em torno de “forçar a barra” para que o partido lance um candidato próprio à presidência da República, como disse o próprio Lula, que, é mais do que óbvio, articula um “acordão” com seus novos aliados. E, claro, há pelo menos um nome em torno do qual se alinham tendências (contra e a favor): o indefectível, o brilhante estrategista José Dirceu. O partido, em síntese, mantém a sua trajetória de total adaptação ao calendário eleitoral e às instituições do Estado burguês, reacionário, autoritário, paternalista e conservador brasileiro.

O resto é blablablá, talvez até bem-intencionado, por parte de militantes da base que ainda fazem profissão de fé, mas é puro blablablá (atenção: não atribuo esta afirmação ao Ozaí; é minha mesmo). Não há, simplesmente não há como conciliar a “luta pelo socialismo” com o apoio e a total, vergonhosa e humilhante subordinação a um governo que tem o fervoroso revolucionário Walfrido dos Mares Guia como articulador das relações entre o Executivo e o Congresso, o conhecido esquerdista Romero Jucá como líder no Senado, o leninista Henrique Meirelles como gestor do Banco Central e o ínclito Nelson Jobim que, entre outras coisas, admitiu ter fraudado a Constituição brasileira como ministro da Defesa. Isso, para não falar da corrupção y otras cositas más. Só pode ser uma brincadeira, ou a dialética virou casa da sogra.

A única resposta plausível, portanto, para a indagação colocada por Ozaí é a seguinte: o PT, como instituição partidária, não preserva qualquer vínculo com o ideário socialista. Isso não elimina a possibilidade de que dentro do PT haja militantes ou mesmo pequenos grupos honestos, sinceros e socialistas. Mas não são eles que formam a maioria, nem têm o poder de produzir uma reversão nos rumos do PT.

Certo está o sociólogo Ricardo Antunes, que detecta, dentro da PT, a formação de uma camada de “notáveis” e burocratas que controla as máquinas partidária e sindical, e que defende a sustentação do governo Lula, movida por interesses bastante concretos e materiais.

“Essa nova camada do governo Lula está a serviço da elite, mas com uma nuance diferente: não sairá como os banqueiros de Fernando Henrique, mas como, por exemplo, conselheiros de estatais, de fundos de pensão, com salários de 20.000, 30.000 reais. Carros blindados, roupas e hábitos caros. (…) Lula e o PT sabem que o grande capital está feliz com seu governo e que não há mais no país sequer pressão social, com as centrais sindicais cheias de dinheiro e satisfeitas”, afirma Antunes. E o sociólogo Chico de Oliveira completa o quadro: “Lula está metido até o pescoço nessa nova classe social dos sindicalistas. Fora a origem operária, ele se tornou igual à velha elite” (jornal O Globo, 12 de agosto).

Socialismo, no PT, virou saudação retórica a um passado cada vez mais longínquo. Eis tudo.

José Arbex Jr. é jornalista e autor de O Jornalismo Canalha e Showrnalismo - A Notícia como Espetáculo, ambos pela Editora Casa Amarela.

Caros Amigos

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Os dez lugares mais poluídos do mundo

17 de Setembro de 2007

Rússia, China e Índia contêm a maioria das áreas onde a poluição tóxica e as pessoas convivem, com efeitos devastadores

David Biello

O sofrimento de Sumqayit: durante o tempos soviéticos, a cidade no Azerbaijão serviu como centro de fabricação de químicos e, como resultado de um legado de lixo tóxico, eleva o número de casos de câncer em até 51%
Esta semana, Sumqayit, no Azerbaijão, ganhou o prêmio duvidoso de entrar na lista dos dez locais mais poluídos do mundo, publicada pela organização ambientalista americana Blacksmith Institute. Mais uma herdeira do legado tóxico da indústria soviética, a cidade de 275 mil habitantes convive com uma forte contaminação de metais, petróleo e produtos químicos, conseqüência de seus dias como centro de produção química. Como resultado, a população tem um número de 22% a 51% maior de casos de câncer que os habitantes do resto do país, e seus filhos sofrem de uma gama de complicações genéticas, de retardo mental a doenças nos ossos.

“Cerca de 12 mil toneladas de emissões nocivas eram despejadas por ano, incluindo mercúrio”, afirma Richard Fuller, fundador da Blacksmith. “Há enormes lixões de resíduos industriais sem tratamento.”

Fuller diz que a lista inclui “locais altamente poluídos nos países em desenvolvimento, onde as crianças morrem aos montes ou vivem com alguma doença crônica… áreas de desolação e repugnância daquilo que o homem causou”. Veja as outras cidades mais poluídas:

Chernobyl, Ucrânia – As partículas radioativas liberadas no maior acidente nuclear da história continuam a se acumular, afetando até 5,5 milhões de pessoas e levando a um grande aumento dos casos de câncer da tireóide. O acidente também arruinou a perspectiva econômica de áreas e nações adjacentes. “A Bielorússia é um país agrícola mas, por causa de Chernobyl, perdeu acesso aos mercados mundiais para vender sua produção”, explica Stephan Robinson, diretor da Cruz Verde da Suíça, grupo ambiental que colaborou com o relatório.

Dzerzinsk, Rússia – Em um dos centros de fabricação de químicos durante a Guerra Fria, os 300 mil habitantes da cidade têm uma das menores expectativas de vida no mundo, graças ao refugo injetado diretamente no solo. “A longevidade média mal chega aos 45 anos,” afirma Robinson, “São quinze a 20 anos a menos que a média russa, e cerca da metade da longevidade de um ocidental”.

Kabwe, Zâmbia – A segunda maior cidade do sul da África era o lar de uma das maiores fundições de chumbo do mundo até 1987. Como resultado, a cidade inteira está contaminada com esse metal pesado, que pode causar danos ao cérebro e ao sistema nervoso em crianças e fetos. “O nível de chumbo no sangue das crianças geralmente é superior a 50 microgramas por decilitro, e em alguns casos, maior que 100 mcg/dl,” afirma Fuller. “A cada 10 pontos acima dos 10 mcg/dl no sangue – padrão do centro de controle de doenças dos Estados Unidos para o tratamento –, há uma queda no Q.I.”.

La Oroya, Peru – Apesar de ser uma das menores comunidades na lista (a população é de 35 mil habitantes), também apresenta um dos maiores índices de poluição devido à mineração de chumbo, zinco e cobre da Doe Run, uma empresa de mineração americana.

Linfen, China – Uma cidade no coração da região de carvão da China, na província de Shanxi, seus três milhões de habitantes sufocam com a poeira e bebem o arsênico provenientes do combustível fóssil. Além disso, “a poluição do ar é tanta que mal dá para enxergar alguma coisa”, diz Robinson.

Norilsk, Rússia – Essa cidade acima do Círculo Ártico contém o maior complexo de fundição de metais e, portanto, parte da pior neblina poluída do mundo. “É tanta poluição no ar que não há uma planta viva numa área de 30 km da cidade. A contaminação (por metais pesados) já chegou a 60 km de distância,” explica Fuller.

Sukinda, Índia – Lar de uma das maiores minas de cromita do mundo – metal usado para fazer aço inoxidável, entre outras coisas – e de 2,6 milhões de pessoas, as águas desse vale contêm compostos carcinogênicos de cromo hexavalente, cortesia das 30 milhões de toneladas de resíduo de rocha ao longo do rio Brahmani. “O cromo hexavalente é muito tóxico e altamente móvel”, ressalta David Hanrahan, diretor dos programas globais da Blacksmith, em Londres.

Tianying, China – Centro da produção chinesa de chumbo, esta cidade de 160 mil habitantes está entre as oito áreas mais poluídas do país, de acordo com o governo da China. As concentrações de chumbo no ar e no solo estão entre 8,5 a 10 vezes acima dos padrões de saúde nacionais e o nível de pó de chumbo é 24 vezes mais alto que o recomendado pelos mesmos padrões.

Vapi, Índia – Essa cidade no final do cinturão industrial do país, no estado de Gujarat, abriga o resíduo industrial de mais de mil fábricas, incluindo petroquímicas e indústrias de pesticidas e farmacêuticos, entre outros químicos. “As empresas tratam a água que utilizam e conseguem tirar a maior parte da sujeira, mas não há onde colocar essa sujeira, que continua sendo jogada fora sem tratamento,” diz Hanrahan.

O Blacksmith Institute compilou a lista, que também inclui mais 20 locais no “Top 30” das cidades poluídas, comparando a toxicidade da contaminação, a probabilidade de contaminação de humanos e o número de pessoas afetadas. Os locais onde crianças sofrem impacto subiram no ranking. Nenhuma localidade dos Estados Unidos ou Europa entrou na lista graças a uma limpeza geral dos agentes nocivos à saúde nas últimas décadas, mas isso não significa que os países desenvolvidos não contribuam para o quadro. “O níquel que usamos em nossos carros ou em qualquer outro produto provavelmente veio de Norilsk”, aponta Fuller, “E parte do chumbo da bateria dos nossos carros veio de algum desses lugares.”

Apesar da poluição maciça, seria relativamente fácil e barato retirar as substâncias nocivas dos locais contaminados, argumenta Fuller. Segundo ele, o desenvolvimento econômico já permite a construção de fábricas mais limpas e pequenos esforços e investimentos podem render grandes ganhos, ele diz.

Por exemplo, custa apenas US$15 mil para salvar cerca de 350 vidas simplesmente desenterrando o solo radioativo da usina de plutônio de Mayak, que foi depositado às margens do rio Techa, na cidade russa de Muslyomova. Iniciativas com boa relação custo-benefício estão sendo planejadas no mundo todo. “Com cerca de US$200, o preço de uma geladeira, podemos salvar a vida de alguém,” diz Fuller, citando uma análise do Blacksmith conduzida com a ajuda da Mount Sinai School of Medicine e do Hunter College na cidade de Nova York, assim como da Johns Hopkins University em Baltimore. “Pequenas somas de dinheiro vão longe quando a questão é limpar esses resíduos”.

No entanto, há também muitos locais ignorados pela lista; Fuller estima que, na pior das hipóteses, eles incluíram apenas um terço das áreas mais poluídas do mundo por causa da cobertura desigual da Ásia central e da América Central e do Sul. Afinal, Sumqayit entrou na lista este ano pela primeira vez. “Ficamos muito surpresos,” ele admite, “ao incluir na lista cidades de que nunca tínhamos ouvido falar.”

Scientific American Brasil

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As raízes da Europa

15 de Setembro de 2007
Umberto Eco

Além das cristãs, que têm um lobby poderoso, existem as raízes judaicas e as greco-romanas. E o que dizer quanto à herança pagã e às influências do Oriente?

Sobre esse tema eu já tinha escrito em 2003, mas não sou eu quem se repete, e sim a vida. Ocorre-me a história daquele meu amigo que certo dia volta para casa, encontra no escritório o jornal de que é assinante, lê com interesse da primeira à última página e depois percebe que se tratava de um exemplar de cinco anos antes, que por acaso reaparecera em sua escrivaninha. Daquele dia em diante cancelou a assinatura, mas não era culpa do jornal, era e é a monótona repetitividade de certos debates, crises, homicídios, escândalos, polêmicas, promessas e dívidas. Basta ler hoje os artigos sobre o delito de Cogne – um crime famoso ocorrido na Itália, em que a mãe é suspeita de ter matado o filho –, iguais aos de cinco anos atrás.

Mas voltemos ao ponto. Torno a encontrar nos jornais a urgência de inserir um chamado às raízes cristãs da Europa. Com relação a 2003, no entanto, deu-se um passo à frente, e precisamente na linha das observações que nós, então numerosos, havíamos feito: isto é, que as raízes da Europa são não apenas cristãs, mas sim judaico-cristãs. Não podemos esquecer o papel que a Bíblia teve no desenvolvimento da civilização européia (a propósito, recentemente aderi a um abaixo-assinado para que a Bíblia seja estudada nas escolas; não se trata de um fato religioso, é que não vejo por que os jovens tenham de conhecer Catulo e não Jeremias, Príamo e não Salomão).

Todavia, precisamente o fato de que na escola se estudam Príamo e Catulo nos recorda que a Europa surge sobre raízes que não são apenas judaico-cristãs, mas também greco-romanas. À parte a história da arte ou a função do imaginário mitológico em toda a poesia européia, sem Platão e Aristóteles nem sequer a teologia cristã teria existido; não é preciso recordar a presença do direito romano nas instituições européias, e o latim que se gostaria de introduzir novamente na missa foi inventado pelos pagãos e só se tornou cristão por direito hereditário. Mas talvez essas coisas sejam esquecidas porque as raízes cristãs têm um lobby poderosíssimo a apoiá-las, ao passo que as greco-romanas interessam apenas a alguns professores do ensino médio.

Naturalmente alguém poderia observar que seria necessário mencionar também a influência dos povos germânicos e a mitologia nórdica, mas a coisa se tornou patrimônio de neonazistas de cabeça raspada e, portanto, embora com pesar, deixemos para lá.

Enfim, haveria que perguntar por que as raízes judaico-cristãs caracterizariam precisamente a Europa. Não caracterizam também as duas Américas, a Austrália, a Etiópia, a Armênia, as Filipinas? E quanto às raízes greco-romanas, os modelos de Atenas e de Roma estavam bem presentes na mente dos pais da Revolução Americana – e pensemos em quanto a tradição clássica triunfa nas arquiteturas de Washington.

Seriam então precisamente estas raízes a tornarem a Europa única como tal e não, por exemplo, a co-presença de uma pluralidade de línguas e culturas – característica que falta a outras civilizações cristãs como as extra-européias? É com respeito a essa pluralidade que a Europa outrora se dividiu com enorme derramamento de sangue e agora torna a encontrar critérios de convívio e respeito recíproco. Poderíamos acrescentar o sentido do justo equilíbrio entre desenvolvimento rumo ao futuro e culto do passado, que torna a Europa tão ciosa de suas tradições e de seus vestígios. É bem verdade que essa coabitação entre novidade e tradição também é comum, por exemplo, na cultura japonesa, mas o Japão moderno só preserva o Japão antigo, ao passo que a Europa conserva não só as ruínas gregas e romanas e suas catedrais cristãs, mas também a Alhambra muçulmana, sinagogas e restos pré-europeus, de Altamira a Stonehenge.

E, enfim, há mais um aspecto típico da cultura européia: a curiosidade pelas outras culturas e pelos outros países, que esteve na origem tanto das viagens de Marco Polo quanto na de modas discutíveis como o orientalismo – para não mencionar o gosto colonialista de meter o nariz na casa alheia. É verdade que a curiosidade (digo curiosidade científica, e não turística) por países distantes caracterizou também a civilização islâmica medieval, mas não os povos cristãos de outros continentes. Certa noite um consultor do Pentágono, em um jantar durante um congresso, enquanto o informavam sobre o peixe que estava comendo, perguntou se o Mediterrâneo seria um lago salgado. Nenhum europeu culto jamais perguntaria a um americano se o Grande Lago Salgado seria um mar. Enfim, ou colocamos em evidência todas as raízes e todas as características que tornam esta Europa única, ou então não conseguiremos compreender o que é.

EntreLivros

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30 anos de uma prisão

Há 30 anos escritor era preso por publicar o primeiro romance/depoimento sobre a guerrilha no Brasil. Isso depois de ficar preso durante 5 anos condenado por sua militância. No processo, houve pronunciamentos até sobre teoria literária.

Eloísa Aragão Maués

Em 27 de julho de 1977, um funcionário da editora Abril, em São Paulo, era preso à saída da empresa, ao término de seu expediente, sem nem mesmo saber a razão. Seu nome: Renato Tapajós, jornalista, escritor e cineasta. O motivo alegado veio a público apenas horas depois, durante o interrogatório no DOPS: o lançamento do romance “Em câmara lenta”, publicado pela editora Alfa-Omega, naquele mesmo ano.

Essa obra de ficção, em que o autor fazia um balanço crítico público sobre a experiência da guerrilha - da qual participara como membro da Ala Vermelha e por isso teve de cumprir pena de prisão de 1969 a 1974 -, bem como uma espécie de denúncia dos desmandos que o regime militar promovia nos anos 1970, em especial em torno do emprego brutal da tortura, tornou-se um caso exemplar da censura aos livros na época.

Em primeiro lugar, porque ainda que se vivesse o período da “abertura” política sob o governo Geisel, Tapajós foi realmente encarcerado em virtude da publicação, tendo permanecido dez dias incomunicável. Outro caso conhecido de censura - entre vários outros - aconteceu em 1976 como livro “Feliz Ano Novo”, de Rubem Fonseca; porém Fonseca não foi preso. Posteriormente, ele moveu um processo judicial contra a União por conta do veto à circulação de seu livro e da apreensão dos exemplares da obra.

Em segundo lugar, porque a proibição de circulação do livro, considerado “instrumento de guerra revolucionária” pelas forças repressivas, foi declarada somente em 13 de agosto, ou seja, após a prisão do autor. Nesse momento Tapajós ainda se encontrava preso e Fernando Mangarielo, editor e proprietário da Alfa-Omega, e Claudete Mangarielo, sua esposa, já tinham respondido a interrogatórios no DOPS.

O intervalo entre a prisão do autor e a proibição do romance promoveu uma grande divulgação e vendagem do livro, logo tendo sido esgotada a primeira edição de 3 mil exemplares.

Se “Em câmara lenta” correu na contramão do trajeto fácil para chegar às livrarias, isso também se refere a toda a história que o precedeu. Renato Tapajós produziu o original na prisão do Carandiru, em 1973. Ele escrevia em folhas de papel de seda, com letras miúdas, todas as partes do texto, depois as embrulhava até o papel ficar minúsculo e o enrolava em celofane de cigarro, fechando com fita durex para ficar impermeável. Quando os pais visitavam Tapajós no cárcere, levavam a pequena cápsula sob a língua e, dessa forma, com o material escondido saíam de lá, sem provocar na vigilância nenhuma suspeita.

Tão logo chegavam em casa, eles abriam a cápsula com o pequeno texto, usando uma lupa para compreender a escritura. O passo seguinte era datilografar a narrativa que, a cada nova visita dos pais ao filho, ia sendo completada - o título original dado ao romance por Tapajós era “Os mortos não são todos iguais”. Dessa forma, quando Tapajós foi liberado da prisão, em 1974, encontrou todo seu original datilografado.

Pronto o original, o autor levou quase dois anos buscando editoras que pudessem se interessar pela publicação. Entre as muitas negativas recebidas, destaca-se a da editora Civilização Brasileira que, por meio de uma longa resposta de Ênio Silveira, transmitida por Octavio Ianni, veio com um tom de advertência, infelizmente confirmada quando tempos depois a censura mostrou seus dentes: ainda não era o momento oportuno de publicar um livro com aquela carga vulcânica e simbólica.

O périplo se concluiu quando a editora Alfa-Omega, uma casa que ganhara notoriedade à época por ter lançado “A ilha”, de Fernando Morais, abraçou o projeto. A noite de lançamento de “Em câmara lenta”, em 10 de maio de 1977 no bairro de Pinheiros em São Paulo, reuniu um público considerável, mobilizando, de certa forma, a esquerda.

E hoje, quando 30 anos nos separam desse episódio da censura - a saída da prisão de Renato Tapajós ocorreu em 23 de agosto de 1977 -, é importante relembrar a resistência de muitos intelectuais, artistas ou anônimos, não somente no Brasil mas também de vários outros países, que por intermédio de notas, cartas ou abaixo-assinados repudiaram a arbitrariedade do Estado no caso. Entre eles, duas personagens têm lugar reservado no compromisso em prol da liberdade de expressão: o advogado Aldo Lins e Silva, defensor de Renato Tapajós, Fernando Mangarielo e Claudete Mangarielo; e o professor Antonio Candido de Mello e Souza, que escreveu um parecer crítico sobre o livro de Tapajós, empregado na peça de defesa, frisando não ser ele subversivo nem mesmo induzir a práticas desse gênero, conforme afirmavam os órgãos da repressão judicial.

* Eloísa Aragão Maués é editora de livros e mestranda em História Social pela Universidade de São Paulo.

Carta Maior

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O maior roubo do mundo

12 de Setembro de 2007

Mário Maestri
10-Set-2007

Em 6 de maio de 1997, a batida seca do martelo concluía um dos maiores roubos do século 20. Extremamente rentável, com patrimônio na época de mais de cem bilhões de dólares, a Companhia Vale do Rio Doce era vendida por pouco mais de três bilhões, o equivalente ao atual lucro trimestral da empresa. Boa parte dos recursos para o assalto foi fornecida pelo BNDES, ou seja, pelo próprio Estado! Apenas em 2006, a Companhia Vale do Rio Doce teve um lucro de doze bilhões de dólares.

Em começos do século 20, capitais mundiais se interessaram pelas riquíssimas reservas minerais brasileiras, que permaneceram inexploradas devido aos enormes investimentos que a extração, transporte, beneficiamento, exportação dos produtos exigiam. Em 1942, durante a II Guerra, o presidente Getúlio Vargas fundou a Companhia Vale do Rio Doce, como desdobramento da criação, no ano anterior, da Companhia Siderúrgica Nacional.

A construção de Companhia Siderúrgica Nacional, a fundação da Vale do Rio Doce, a nacionalização das reservas minerais objetivavam apoiar o processo de industrialização, por capitais privados nacionais, sobretudo do Centro-Sul, voltada ao abastecimento do mercado interno. Com fortes investimentos públicos e o avanço da industrialização, antes mesmo da reorientação geral da produção nacional para o exterior, quando da Ditadura Militar, a Vale do Rio Doce tornou-se a maior empresa no setor da América Latina e a segunda do mundo.

Quando da privatização, já pertenciam ao passado as dificultadas que haviam impedido a apropriação mundial dos minérios brasileiros. A Vale do Rio Doce possuía enormes centros extrativistas através do país, mais de nove mil quilômetros de ferrovias, dez terminais portuários, subsidiárias em outras regiões do planeta, mercados consolidados através de todo o mundo. Os enormes investimentos públicos haviam criado negócio milionário que irrigava regiamente os cofres nacionais.

A vitória da contra-revolução neoliberal nos anos 1980-90 determinou derrota histórica, ainda não superada, do mundo do trabalho. Sob o aplauso da grande mídia e a participação ou o silêncio cúmplice de políticos, intelectuais, formadores de opinião etc., empreenderam-se através do mundo a destruição de conquistas sociais históricas e o abocanhamento dos bens públicos pelo grande capital privado.

Não foi um azar da sorte que, no Brasil, o saque neoliberal tenha sido orquestrado por Fernando Henrique Cardoso. Ao contrário de seus colegas criadores da “Teoria da Dependência”, o sociólogo paulista propunha, já nos anos 1970, a felicidade do Brasil através de sua submissão ao capital mundial. Ao contrário do que dizem por aí, o homem fez tim-tim por tim-tim o que sempre escreveu!

De 1º a 9 de setembro deste ano, realizou-se, através do país, plebiscito promovido por organizações sociais e políticas populares, sobre a necessidade da anulação da venda fajuta da Companhia Vale do Rio Doce e restabelecimento da sua propriedade pública. O plebiscito consulta também a população sobre a anulação da “reforma da Previdência”; a interrupção do pagamento da “Dívida Externa e Interna”; o fim do aumento das tarifas públicas, por concessionárias privadas de serviços públicos etc.

Foi quase total o silêncio da grande imprensa sobre o plebiscito popular. O PT apoiou a iniciativa apenas na ponta do seu bico comprido, não mexendo um dedinho sequer para a maior massificação da iniciativa, que assusta muita gente, além dos controladores da Vale do Rio Doce. A pequena multidão que votou no plebiscito registra mal-estar crescente entra a população nacional. São cidadãos e cidadãs comuns que, após viverem duas décadas sob os resultados amargos das políticas privatistas, gritam sem medo por “mais público, menos privado”, para que esse país conheça condições mais humanas de existência.

Mário Maestri, historiador, é professor da UPF.

Correio da Cidadania

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O elo perdido

RICARDO MUSSE
ESPECIAL PARA A FOLHA

As Américas e a Civilização” foi o segundo de uma série de estudos sobre a “antropologia das civilizações” realizados por Darcy Ribeiro durante o exílio.
Trata-se, conforme o próprio autor, do livro mais importante da série, pois aborda diretamente o tema que a motivou: as causas do desenvolvimento desigual dos povos americanos.
Escrito em 1967 e atualizado dez anos depois, “As Américas e a Civilização” destoa completamente do que se pratica hoje em antropologia.
O descompasso fica patente tanto na pauta dos conteúdos -a formação e o processo evolutivo das civilizações- como na pretensão de tornar essa disciplina uma ciência abrangente, dotada da capacidade de unificar a totalidade das ciências humanas.

Revisão crítica
O livro certamente se inspira no modelo, em voga na época, dos amplos panoramas históricos-culturais da antropologia neo-evolucionista americana.
Propõe-se, no entanto, a submeter essas teorias a uma “revisão crítica”, contestando a naturalidade com que apresentam o processo de desenvolvimento humano bem como o viés eurocêntrico que as orienta.
Tarefa executada com o auxílio do marxismo, incorporado em uma perspectiva heterodoxa, e da primeira “teoria da dependência”, a de Andre Gunder Frank.
“As Américas e a Civilização” pode ser descrito como uma espécie de elo perdido entre os estudos pioneiros de Gunder Frank e os trabalhos atuais sobre a geopolítica do sistema mundial.
Giovanni Arrighi e Immanuel Wallerstein privilegiam o acompanhamento do processo de acumulação, na chave braudeliana da “longa duração”. José Luís Fiori, seguindo os passos de Maria da Conceição Tavares, destaca o par “poder e dinheiro”.

Teoria global
Darcy Ribeiro, antes deles, procurou entender a desigualdade das nações como um resultado da defasagem dos processos civilizatórios.
O livro não se exime de apresentar uma teoria global do desenvolvimento histórico, desdobrada num esquema que classifica as sociedades conforme seu estágio na evolução sociocultural. A tipologia adota como eixo o “sistema adaptativo”, isto é, o modo como cada sociedade “atua sobre a natureza no esforço de prover sua subsistência e reproduzir o conjunto de bens e equipamentos de que dispõe”.
A isso se conecta um “sistema associativo” (o conjunto de normas e instituições da vida social) e um “sistema ideológico” (composto de saberes, crenças e valores). As etapas da comparação correspondem, assim, ao desencadeamento de sucessivas revoluções tecnológicas: agrícola, urbana, do regadio, metalúrgica, pastoril, mercantil, industrial e termonuclear.
A precariedade e a vulnerabilidade desse esquema evolutivo são, no entanto, contrabalançadas pela riqueza do material utilizado na composição do livro.
Darcy mobilizou as mais diversas fontes: etnográficas, arqueológicas, históricas, econômicas, políticas, sociológicas etc.
O conceito que congrega a ordenação dos conteúdos é o de “povos”. Estes são compreendidos não tanto como uma determinação (ou como cruzamentos) étnica ou cultural, mas como resultantes da interpenetração de sociedades com diferentes estágios civilizatórios.
A interpenetração das culturas decorrente da expansão européia teria conformado três tipos de povos na América. “Povos-testemunho” são os descendentes modernos das civilizações autônomas astecas, maias e incas: os mexicanos, guatemaltecos, bolivianos, peruanos etc.
Os “povos novos” derivam da junção, no empreendimento colonial, de brancos, negros e índios, situação predominante no Brasil, na Colômbia, na Venezuela, nas Antilhas etc.
Já os “povos-transplantados” correspondem às nações modernas criadas pela migração de populações européias: Canadá, EUA, Uruguai e Argentina.

Sentido da colonização
Essa tipologia procura mapear os diferentes graus de incorporação aos modos de vida da revolução mercantil e da civilização industrial.
Ela fornece pistas importantes, embora nem sempre decisivas, para a compreensão de questões cruciais da história da América, como o sentido da colonização, a desagregação do império espanhol em uma diversidade de nações e as causas da desigualdade nos padrões de desenvolvimento.
Se algumas partes do livro, como a exposição de sua ossatura conceitual, envelheceram, o ideal que o anima, uma ciência empenhada na superação das defasagens históricas, continua mais que nunca atual.
As Américas e a Civilização

Autor: Darcy Ribeiro
Editora: Companhia das Letras
(tel. 0/xx/11/3707-3500)
Quanto: R$ 64 (528 págs.).

RICARDO MUSSE é professor no departamento de sociologia da USP.

Jornal Folha de S. Paulo

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As alternativas energéticas ameaçam o futuro

11 de Setembro de 2007
Leonardo Boff
Teólogo

Pertence aos que se dedicam ao pensamento, refletir sobre os destinos da sociedade em que vivem e, ousadamente, também os destinos do planeta e da humanidade. Digo isso a propósito do novo estado da Terra produzido pelo aquecimento global, à esta altura irrefreável. A grande maioria não se dá conta das consequências que advirão de tal verificação empiricamente comprovada.

A primeira constatação que importa fazer é: o aquecimento precisa ser qualificado. Não basta dizer que é andrópico, vale dizer, produzido pelo ser humano. Que ser humano? Pelos índios, pelos esquimós? Precisamos dizer com todas as letras: o aquecimento foi produzido por aquela porção de homens que introduziram a produção industrial já há três séculos, aceleraram o consumo energético, inventaram a tecno-ciência que agride ecossistemas (ecologia ambiental), indutora de uma perversa desigualdade social (ecologia social) e devastadora do planeta como um todo (ecologia integral) e projetaram a cultura do consumo ilimitado (ecologia mental). Hoje são corporações industriais globalizadas, gigantes da bioquímica e do agro-negócio e instituições afins. São eles que mais poluem (só os USA 25%) e que mais resistem às mudanças paradigmáticas. Se eles não se alfabetizarem ecologicamente e não mudarem o rumo do mundo poderão levar a biosfera para um impasse desastroso.

A segunda constatação, por mais desafiadora que seja, é singelamente esta: como está não dá mais para continuar. Somos obrigados, se queremos salvar o planeta e a humanidade, a imaginar e a inventar um outro modo de conviver, de produzir para toda a comunidade de vida, de distribuir os bens necessários, de consumir responsável e solidariamente e de tratar os dejetos. Precisamos, como enfatiza a Carta da Terra, de “um modo sustentável de viver” porque o vigente, como foi comprovado matematicamente, não é mais sustentável para 2/3 da humanidade. Isto quer dizer: todas as alternativas energéticas que se estão tomando na construção de uma Arca de Noé salvadora do sistema imperante, escamoteiam o cerne da questão. Elas, tomadas em si, não nos salvarão do dilúvio. Dentro de dezenas de anos vão mostrar sua ineficácia o que vai provocar a maldição da humanidade sobre a nossa geração. Dir-se-á: “vocês foram alertados e sabiam mas preferiram a cegueira voluntária e a nossa perdição para garantir o curso que lhes dava vantagens”.

O memorando Bush-Lula prevê uma produção massiva de etanol seja de cana (Brasil) seja de milho (USA). Atualmente o Brasil produz 17,5 bilhões de litros de álcool. Com a utilização de 90 milhões de hectares agricultáveis poderá chegar a produzir 110 bilhões, podendo controlar 50% do mercado mundial. É incompleta a afirmação que é uma energia limpa. É limpa apenas no uso em carros. Mas em seu processo de produção é poluente porque inclui os fertilizantes, o transporte, a estocagem, as máquinas e a liberação de nitrogênio que contamina poderosamente as águas e, transformado em ácido nítrico, produz chuvas ácidas, danosas para as florestas. Oxalá não ocorra no Brasil o que ocorreu na Malásia: 87% de desflorestamento, expulsões de camponeses e terras roubadas à produção de alimentos.

Para nos salvar importa redesenhar todo o processo produtivo, adequado a cada ecosistema, valorizando tudo o que a humanidade inventou para sobreviver, dos sistemas agropastoris e agroecológicos até à moderna nanotecnologia com sua imensa possibilidade de resfriar o planeta.

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Um comuna nos EUA

10 de Setembro de 2007
Em “Minha Descoberta da América”, o poeta russo Maiakóvski faz uma crônica cultural da viagem que realizou à América Central e do Norte em 1925

PAULO BEZERRA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Em 1925, Maiakóvski empreende uma viagem aos EUA, passando por seis países, mas detendo seu registro em Cuba, México e nos próprios EUA, o que resultará em “Minha Descoberta da América”, que a editora Martins Fontes traz ao público brasileiro em tradução direta do russo.
No início do livro o poeta define sua missão: registrar “coisas em si mesmas interessantes” em vez de “interesses fictícios por coisas, imagens e metáforas enfadonhas”, isto é, sair do campo das abstrações poéticas para o campo da observação prática e imediata da vida.
Disso resulta uma prosa quase fotográfica, que mescla o ritmo da própria poesia maiakovskiana com o realismo cru do registro. Com essa poética do flash, ele descreve o navio povoado por uma mescla dos tipos humanos mais diversos, párias de toda espécie.
Russos vagando pelo mundo à procura de emprego, turcos que só falam inglês, representantes de empresas francesas com passaportes paraguaios e argentinos, esses “colonizadores contemporâneos” que dividem o navio em classes, com a primeira vomitando na segunda, a segunda na terceira e esta em si mesma: cruza tudo isso com a história da exploração dos índios e negros norte-americanos por toda espécie de aventureiros.
Em Havana, o olho clínico do “poeta da revolução” capta no ar os contrastes e desigualdades como símbolo do domínio dos EUA sobre as “três Américas”, a presença de engraxates, vendedores de bilhetes de loteria, índios descalços, em suma, extratos sociais característicos de país atrasado, mas, por trás disso, a bandeira vermelha com a foice e o martelo, ecos da Revolução Russa.

Técnica e dólar
No México, sua crônica mostra que tudo é instável: a moeda é tão desacreditada que todos carregam dinheiro em sacos.
Em 30 anos, 37 presidentes, e destes, 30 generais, em cada nova posse o Colt fala antes do empossado. Domina o primitivismo no uso do revólver: atira-se em toda parte, no trânsito, nos salões, nas tavernas, mata-se gente como se matam moscas, usa-se o Colt até como saca-rolhas.
As touradas chocam o poeta com a violência nefasta contra os animais e o gosto primitivo do público, e ele lamenta não poder pôr metralhadoras nos chifres do touro e ensiná-lo a atirar contra aquela multidão, que mereceria estar no lugar do touro. Mas o México não é só violência, politicagem e corrupção: também tem arte, tem Diego Rivera, que o põe em contato com a riquíssima cultura do país, com seus museus e história, compensando a má impressão inicial.
O relato da passagem pelos EUA é uma crônica político-cultural à altura da pena de um grande prosador. Maiakóvski vê, com um misto de fascínio, temor e ironia, o febril e caótico progresso americano.
A indústria da aviação começa a decolar, o fordismo está em plena efervescência com sua filosofia social de aliciamento da classe trabalhadora.
Dois novos deuses são alvos de culto amplo e irrestrito e se impõem como padrão de um novo tipo de civilização: o deus-técnica e o deus-dólar. Há um uso exagerado da eletricidade, Nova York é um oceano de luzes e brilho, a energia alimenta a imensa roda da indústria, das ferrovias, o metrô é o centro nevrálgico de um vaivém alucinante, o frenesi da construção civil põe tudo abaixo: prédios de dez andares dão lugar a outros de 20, estes a outros de 30, estes a outros de 40, tudo parece provisório.
Em meio a isso, três tipos de psicose coletiva: do automóvel, do dólar e do beisebol. Há mais carros que gente.

Guetos e exaustão
Mas, em meio a todo esse progresso, o olho clínico registra os contrastes socioculturais: os guetos de negros, russos, judeus e outros emigrantes, a luta de classes, o racismo, os crimes impunes da Ku Klux Klan, acidentes de trabalho e mortes de operários por exaustão que a imprensa não registra, a corrupção da imprensa e da Justiça etc.
O poeta esboça um quadro social e psicológico de Chicago. A cidade é o segundo centro do dinheiro e do poder, é a sede de grandes trustes da indústria alimentícia como Armor, Swift, Wilson, que precisa de carne, o que faz dela um imenso matadouro. Morando ali, o indivíduo vira vegetariano ou sai matando gente com a mesma tranqüilidade com que se mata gado. E Maiakóvski associa a esse clima de matadouro o alto índice de criminalidade que Chicago ostenta.
O clima cultural também envolve o poeta. A Broadway o fascina, mas isso não o impede de ver as artes como mero adorno, desprovido de critério ou função estética, e registrar a breguice do novo-rico, uma estética do mau gosto e do grosseiro e um moralismo meio idiota.
Ao término da leitura, ficamos impressionados com a extraordinária crônica daquilo que seriam os Estados Unidos de hoje. E tudo registrado com o pulsar vibrante da escrita de Maiakóvski.

PAULO BEZERRA é professor aposentado da Universidade Federal Fluminense.

MINHA DESCOBERTA DA AMÉRICA
Autor: Vladímir Maiakóvski
Tradução: Graziela Schneider
Editora: Martins Fontes (tel. 0/xx/ 11/ 3116-0000)
Quanto: R$ 27 (120 págs.)

Jornal Folha de S. Paulo

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Língua solta

9 de Setembro de 2007
Polonês que escrevia em inglês, Joseph Conrad percebeu na linguagem a fraqueza das palavras da realidade que exprimem

PETER BURKE
COLUNISTA DA FOLHA

O ano de 2007 é um bom momento para lembrar o romancista Joseph Conrad. Ele nasceu há 150 anos, em 3/12/1857, e foi batizado Józef Teodor Nalecz Korzenióvski.
Um de seus melhores romances, “O Agente Secreto” [ed. Revan], foi publicado pela primeira vez há cem anos -mas poderia ter sido escrito ontem, pela atualidade de seu relato de um complô para explodir o observatório de Greenwich e pela descrição de um terrorista que caminha pelas ruas de Londres com uma bomba atada ao peito.
Mas há um motivo muito diferente para lembrar Conrad em nossa era de globalização, quando os romancistas às vezes escrevem em uma segunda língua, em vez da nativa. Hoje, por exemplo, o tcheco Milan Kundera e o espanhol Jorge Semprún escrevem em francês. O exilado russo Vladimir Nabokov escrevia em inglês -assim como o polonês Conrad.

Dança das letras
Quando Gilberto Freyre [1900-87] era estudante nos EUA, um de seus professores lhe aconselhou que escrever em inglês ajudaria sua carreira literária, porque ele poderia se tornar um “novo Conrad”. Freyre rejeitou o conselho, dizendo que não sabia “dançar” em inglês, enquanto podia fazê-lo em português.
Conrad também não sabia dançar em inglês, apesar de certa vez ter afirmado que fora “adotado pelo gênio da língua”.
Ele só aprendeu inglês aos 20 anos, muito depois do francês e do polonês, e no final da vida falava com forte sotaque estrangeiro. Até hoje um falante nativo pode “escutar” esse sotaque quando lê seus romances. Estudiosos muitas vezes notaram os problemas de Conrad com a ordem das palavras em inglês.
O próprio autor se queixou da falta de domínio de sua nova língua, declarando que às vezes levava um dia inteiro para encontrar a palavra certa para expressar o que queria dizer. Em suma, é fácil ver no caso dele o que “se perdeu na tradução”.
Uma questão difícil, mas ao mesmo tempo mais interessante, é se ele ganhou algo em troca ou, de modo mais geral, se escrever em uma segunda ou terceira línguas pode na verdade ser um benefício assim como uma desvantagem.

Contribuições
Diversas frases nos romances de Conrad que soam diferentes ou estranhas para o leitor de língua inglesa vêm a ser traduções literais de expressões francesas ou polonesas.
Pelo menos algumas dessas frases emprestadas enriqueceram a língua inglesa com novas expressões.
A busca de Conrad por um equivalente inglês do que os lingüistas chamam de “aspecto” dos verbos poloneses (que exprime a perspectiva do narrador sobre uma ação) ou por equivalentes das construções reflexivas polonesas o levou a fazer inovações lingüísticas, aumentando, assim, o repertório da gramática inglesa.
Conrad também recorreu habilmente a diversas línguas para produzir o efeito de cor local, para fazer os leitores sentirem que haviam sido transportados para a África central, a Malásia ou a América do Sul.
Em “Nostromo” [Cia. das Letras], por exemplo, ambientado no imaginário país sul-americano de Costaguana, aparecem no texto cerca de cem palavras espanholas, além de frases inteiras tiradas do francês ou do italiano (a língua materna do próprio Nostromo assim como da família Viola).
No entanto, na minha opinião, a verdadeira importância do “estrangeirismo” de Conrad para suas novelas é outra. Um tema importante nessas novelas é a relação -ou, mais exatamente, a falta de relação- entre a língua e o que ela descreve (”realidade”, “experiência” ou “vida”).
Perto do fim de “O Agente Secreto”, por exemplo, a conversa entre o camarada Ossipon e Winnie Verloc produz uma série de mal-entendidos. Como disse alguém sobre os ingleses e os americanos, Ossipon e Winnie são “divididos por uma língua comum”.
Do mesmo modo, os discursos de revolucionários como Michaelis e Yundt, no capítulo três de “Agente Secreto”, são apresentados pelo narrador como palavras ocas. Yundt também é descrito como um grande ator -”ator em plataformas, em assembléias secretas, em entrevistas privadas”- que “nunca em sua vida levantara pessoalmente nem sequer o dedo mínimo contra o edifício social”.
De modo semelhante, em “Nostromo”, a eloqüência de políticos como dom José Avellanos é gradualmente revelada como mero teatro (uma “ópera bouffe”, segundo um observador francês).
Em outras palavras, uma fachada atrás da qual se dão os verdadeiros eventos políticos, que por sua vez revelam que “plus ça change, plus c’est la même chose” [quanto mais muda, mais é a mesma coisa]. Para complicar, como Conrad adora fazer, o próprio cinismo do observador é minado pelo narrador, sem que se ofereça uma alternativa clara.

Distanciamento
Em pequenos incidentes sucessivos, um personagem após o outro se preocupa com a má compreensão de uma mensagem ou considera uma discussão “conversa fiada” ou faz um discurso “em que a boca do orador ficava abrindo e fechando”, mas o público só consegue ouvir algumas frases isoladas, como “a felicidade do povo”.
Não é preciso escrever em língua estrangeira para ter consciência das discrepâncias entre o mundo e as palavras que empregamos para descrevê-lo. Do mesmo modo, parece plausível dizer que os poliglotas provavelmente são mais agudamente conscientes do problema do que os monoglotas.
Os estrangeiros se sentem e de fato estão mais distantes do que os nativos da língua e da cultura que os cerca. Às vezes essa distância é uma fraqueza.
Por outro lado, quando ela assume a forma de distanciamento deliberado, o que os russos chamam de “ostranenie”, essa situação pode ser transformada em força.
Certamente tornou-se uma força no caso de Conrad.
Ele tinha plena consciência das limitações da língua, limitações essas que discute com sua própria voz em cartas, assim como por meio de diversos personagens de seus romances.
Certa vez ele escreveu para seu amigo Cunninghame Graham que “metade das palavras que usamos não tem nenhum significado, e da outra metade cada homem entende cada palavra segundo os moldes de seu próprio capricho e imaginação”.
Uma das grandes conquistas de Conrad foi usar as palavras de modo a revelar as fraquezas que elas próprias encerram.
Ainda mais notável, aprendeu a fazê-lo numa língua que não era a sua. Ele morreu em 1924.

PETER BURKE é historiador inglês, autor de “O Que É História Cultural?” (ed. Zahar). Ele escreve regularmente na seção “Autores”, do Mais! . Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

Jornal Folha de S. Paulo

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Assistir à televisão faz mal

9 de Setembro de 2007
Rogério Tuma

Em excesso durante a infância, pode afetar o cérebro e provocar dificuldades de aprendizado e atenção
Sem telinha Sem telinha

Um estudo do pesquisador Erik Landhuis, da Universidade de Otago, em Dunedin (Nova Zelândia), publicado na revista americana Pediatrics avaliou mil jovens de 15 anos e comparou o tempo que ficavam na frente da tevê com a capacidade de se concentrarem.

Espantosamente, descobriu que quando esses adolescentes tinham entre 5 e 11 anos gastavam em média duas horas por dia assistindo à tevê. Entre os 13 e os 15 anos essa média subiu para três horas diárias, e foi o suficiente para aumentar em 40% os problemas de atenção.

O autor sugere que a tevê hiperestimula o cérebro e faz com que se perca o costume de prestar atenção em atividades que exigem uma concentração maior, tais como ler, jogar xadrez ou assistir às aulas. Assistir à tevê, prossegue, faz com que a criança se sinta atraída pelo aparelho a ponto de criar um grau de dependência.

As conclusões de Landhuis independem de fatores socioeconômicos, dificuldades de atenção no início da vida ou nível de inteligência dos adolescentes. O que acontece, segundo o autor, é que o cérebro aparentemente fica entediado com atividades mais simples e procura cada vez mais atividades que o estimulem nos mesmos níveis que a televisão. E tais efeitos são irreversíveis.

Mesmo que forçosamente o jovem tenha seu tempo de tevê controlado, as deficiências de atenção continuam a acontecer, provavelmente porque o cérebro sofre mudanças anatômicas e permanentes que o preparam para uma quantidade maior de estímulos, neurologicamente considerados uma premiação.

É preciso entender o cérebro como um organismo altamente adaptável e plástico, que responde rapidamente a estímulos externos e que aprende a captá-los cada vez mais facilmente, o que exige mudanças nas ligações celulares entre neurônios e, provavelmente, envolve o sistema de prazer e recompensa. O mesmo ligado ao vício em drogas, e que pode estar ligado também à adição por atividades como assistir à televisão, navegar na internet e nos jogos no computador.

A questão deve ser encarada como um problema de saúde pública. Em abril do ano passado, pediatras americanos chamaram a atenção para achados assustadores que corroboram isso em um artigo na revista Archives of Pediatric and Adolescent Medicine. Crianças americanas com mais de 8 anos ficavam mais tempo assistindo à tevê ou jogando no computador do que em qualquer outra atividade, exceto dormir.

Há mais estudos que mostram como o excesso de horas na frente da tevê é maléfico. Por 20 anos, 700 famílias do estado de Nova York foram acompanhadas por Jeffrey Johnson, do Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York. Os adolescentes dessas famílias foram avaliados em relação à capacidade de se concentrarem. Os que assistiam mais tevê tinham duas vezes mais risco de apresentar dificuldades de aprendizado e alterações de comportamento. O risco era de 15%, para quem assistia menos de uma hora por dia, e ia para 30% em quem ficava mais de três horas na frente da telinha.

Quase um terço dos “viciados” em tevê ficou com notas baixas, enquanto apenas 10% dos que assistiam menos de uma hora por dia tiveram o problema.

O pesquisador acompanhou esses jovens até os 33 anos e mostrou que os problemas de atenção continuavam a existir apesar da passagem do tempo. Para os adultos não parece haver solução para o vício, mas com nossos filhos pode ser diferente. Recomenda-se que, somado, o tempo na tevê e nos jogos eletrônicos não se ultrapasse uma hora por dia. E mais: o tempo “livre” deve ser dividido entre atividades esportivas, leitura e diálogo familiar.

Quanto a nós, os adultos viciados, um artigo do Journal Evolutionary Psychology, de pesquisadores da Victoria’s Deakin University, traz uma dica. Para conquistar o coração de alguém, escolha assistir juntos a um filme na tevê que tenha início trágico e final feliz. Segundo Mark Stokes, isso faz com que o casal se alinhe emocionalmente e que, ao fim do filme, exista uma percepção melhor do interesse do parceiro em sexo e compromisso. Os homens, porém, devem ter cuidado, pois o estudo também mostra que eles tendem a hiperestimar o interesse das mulheres por sexo, ignorando o compromisso.

Carta Capital

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