Arquivo de 22 de Abril de 2008

A tropa da violência extrema

14 de Outubro de 2007
O filme “Tropa de Elite” tem o mérito de mostrar a corrupção policial e o demérito de celebrar a violência extrema. Navega no fio de uma navalha, respingando sangue para todos os lados. Seus expectadores parecem gostar, porém, não é ainda possível avaliar a real repercussão.

Luís Carlos Lopes

Nas normas do fascismo líquido, a acusação de fascista cabe para muita gente e, ao mesmo tempo, para ninguém. Este líquido que corre nas vias de transmissão comunicacional da sociedade brasileira permite que muitos sejam fascistas, sem saber que o são, no compasso de outros que verdadeiramente o são, sabendo o que são e achando que estão cobertos de razão. A tragédia deste novo tipo de politização, que esquece o passado e acha que o presente é o que importa, mantém o mito que as atitudes que vemos no filme Tropa de Elite em nada se assemelham a tão velha SS nazista.

Na verdade, são na origem fascistas todos os que comungaram com a nossa brasileiríssima ditadura militar (1964-1985). Alguns poucos deles fazem parte, infelizmente, da base de apoio do governo Lula. Outros estão no Congresso Nacional e ainda outros estão em inúmeros órgãos públicos civis e militares. Ainda outros, estão fora do Estado, mas pertencem a uma sociedade que tentaram dobrar, torcer e impedir que florescesse. Estão impunes frente a uma Justiça ainda sem equidade e contando com a tolerância de um povo acostumado a perdoar e submisso aos seus desígnios, jamais decididos a partir de suas opções.

Como por aqui não houve a cobrança das responsabilidades pelas mortes, torturas e outros crimes da época, há até quem se diga hoje democrata e busque apagar o seu passado de adesão ao terror de Estado. Infelizmente, existem, outrossim, os convertidos, isto é, os que foram vítimas da ditadura e agora a celebram, como se o passado nada importasse para suas vidas. Esta situação é, por vezes, difícil de compreender e ainda mais de aceitar. Faz parte da geléia geral do Brasil, país com imensas contradições, que não são facilmente assimiláveis por quem pratica o hábito de pensar para além de seu nariz.

Por isto, o Tropa de Elite que pôde ser visto por milhões – graças à pirataria –, e poderá depois ser exibido como troféu pela mídia convencional, vem passando quase incólume por um possível julgamento público de nossa história recente. A miséria, na mesma obra, é vendida como natural, em imagens de impacto radical, sobre as condições de vida dos pobres brasileiros. As pessoas são miseráveis e carentes de tudo e algumas delas transformam-se - não se sabe hipocritamente porquê - em criminosos violentos. Segundo o filme, a solução é matá-las, como exemplo, com o maior requinte de perversidade possível.

A questão dos direitos humanos, de acordo com a mesma argumentação desenvolvida na película, consiste em uma alegação de brancos drogados das classes médias. Nada mais insultante, inverídico e portador de uma imensa intriga, com o claro objetivo de desacreditar os militantes brasileiros e estrangeiros da causa dos direitos humanos.

Combater a corrupção policial seria, segundo o mesmo trabalho, optar pelo Capitão Nascimento, alguém que seria contra a corrupção, mas que volta o seu ódio contra os pobres, sobretudo contra aos jovens ligados ao tráfico de drogas nas miseráveis favelas cariocas. Nenhuma palavra contra o desemprego e a concentração de renda. A solução é apagar a mancha dos poucos que ousam desafiar o poder de Estado, mesmo que de forma alienada e conservadora. A tropa surge como solução ao caos da repressão oficial. Ninguém sabe como ela foi montada e nem por quê. Surgiu, de onde pode se depreender, da ‘banda boa’ da polícia, em contraposição a falada ‘banda podre’.

O filme tem o mérito de mostrar a corrupção policial e o demérito de celebrar a violência extrema. Navega no fio de uma navalha, respingando sangue para todos os lados. Seus expectadores parecem gostar, porém, não é ainda possível avaliar a real repercussão. Calcula-se que pelo menos três milhões que já teriam visto as cópias piratas, amplamente distribuídas pela Internet e que já geraram algumas prisões dos que permitiram a distribuição. E bem possível, que o filme responda aos anseios populares de crítica à corrupção de Estado e ao conservadorismo das classes médias que são bastante seduzidas pelo modelo de violência apregoada na mesma obra. Desde a época da escravidão brasileira, acredita-se na violência extrema como forma de reduzir os mais pobres à condição de mais absoluta submissão. A escravidão acabou em 1888, mas a ordem social brasileira continua se inspirando neste passado dantesco, que durou quatrocentos anos.

Os capitães do mato do passado foram substituídos pelas forças oficiais dos aparatos repressivos do mundo de hoje. O resultado é similar. Será que algum dia, a lógica do escravismo colonial brasileiro será superada? Ou este pesadelo atravessará ainda várias gerações? Confesso ao leitor a minha perplexidade. Não sei responder às questões que coloco para reflexão dos que querem pensar um Brasil mais humano e mais respeitoso dos direitos de sua gente.

Luís Carlos Lopes é professor.

Carta Maior

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A integração das organizações sindicais ao poder do Estado

Leon Trotsky

Há uma característica comum no desenvolvimento ou, para sermos mais exatos, na degeneração das modernas organizações sindicais de todo o mundo: sua a aproximação e sua vinculação cada vez mais estreitas com o poder estatal. Esse processo é igualmente característico dos sindicatos neutros, social-democratas, comunistas e anarquistas Somente este fato demonstra que a tendência a “estreitar vínculos” não é própria desta ou daquela doutrina, mas provém de condições sociais comuns a todos os sindicatos.

O capitalismo monopolista não se baseia na concorrência e na livre iniciativa privada, mas numa direção centralizada. As camarilhas capitalistas, que encabeçam os poderosos trustes, monopólios, bancos etc., encaram a vida econômica da mesma perspectiva como o faz o poder estatal, e a cada passo exigem sua colaboração. Os sindicatos dos ramos mais importantes da indústria, nessas condições vêem-se privados da possibilidade de aproveitar a concorrência entre as diversas empresas. Devem enfrentar um adversário capitalista centralizado, infimamente ligado ao poder estatal Daí a necessidade que os sindicatos têm - enquanto se mantenham numa posição reformista, ou seja, de adaptação à propriedade privada - de adaptar-se ao estado capitalista e de lutar pela sua cooperação. Aos olhos da burocracia sindical, a tarefa principal é “liberar” o estado de suas amarras capitalistas, de debilitar sua dependência dos monopólios e voltá-los a seu favor. Esta posição harmoniza-se perfeitamente com a posição social da aristocracia e da burocracia operárias, que lutam por obter algumas migalhas do sobrelucro do imperialismo capitalista. Os burocratas fazem todo o possível, em palavras e nos fatos, para demonstrar ao estado “democrático” até que ponto são indispensáveis e dignos de confiança em tempos de paz e, especialmente, em tempos de guerra. O fascismo, ao transformar os sindicatos em organismos do estado, não inventou nada de novo: simplesmente levou até às últimas conseqüências as tendências inerentes ao imperialismo.

Os países coloniais e semicoloniais não estão sob o domínio de um capitalismo nativo, mas do imperialismo estrangeiro. Mas este fato fortalece, em vez de debilitar, a necessidade de laços diretos, diários e práticos entre os magnatas do capitalismo e os governos que deles dependem, nos países coloniais e semicoloniais. À medida que o capitalismo imperialista cria nas colônias e semicolônias um estrato de aristocratas e burocratas operários, estes necessitam o apoio dos governos coloniais e semicoloniais, que desempenhem o papel de protetores, de patrocinadores e às vezes de árbitros. Esta é a base social mais importante do caráter bonapartista e semibonapartista (1) dos governos das colônias e dos países atrasados em geral. Essa é também a base da dependência dos sindicatos reformistas em relação ao estado.

No México, os sindicatos transformaram-se por lei em instituições semi-estatais e assumiram, por isso, um caráter semitotalitário. Segundo os legisladores, a estatização dos sindicatos fez-se em benefício dos interesses dos operários, para lhes assegurar certa influência na vida econômica e governamental. Mas enquanto o imperialismo estrangeiro dominar o estado nacional e puder, com a ajuda de forças reacionárias internas, derrubar a instável democracia e substituí-Ia por uma ditadura fascista declarada, a legislação sindical pode transformar-se facilmente numa ferramenta da ditadura imperialista.

PALAVRAS DE ORDEM PELA INDEPENDÊNCIA DOS SINDICATOS

À primeira vista, poder-se-ia deduzir do que foi dito que os sindicatos deixam de existir enquanto tal na época imperialista. Quase não dão espaço à democracia operária que, nos bons tempos em que reinava o livre comércio, constituía a essência da vida interna das organizações operárias.

Não existindo a democracia operária não há qualquer possibilidade de lutar livremente para influir sobre os membros do sindicato. Com isso desaparece, para os revolucionários, o campo principal de trabalho nos sindicatos. No entanto, essa posição seria falsa até à medula. Não podemos escolher por nosso gosto e prazer o campo de trabalho nem as condições em que desenvolveremos nossa atividade. Lutar para conseguir influência sobre as massas operárias dentro de um estado totalitário ou semitotalitário é infinitamente mais difícil que numa democracia. Isto também se aplica aos sindicatos cujo destino reflete a mudança produzida no destino dos estados capitalistas. Não podemos renunciar à luta para conseguir influência sobre os operários alemães simplesmente porque ali o regime totalitário torna essa tarefa muito difícil. Do mesmo modo, não podemos renunciar à luta dentro das organizações trabalhistas compulsórias, criadas pelo fascismo. Menos ainda podemos renunciar ao trabalho sistemático no interior dos sindicatos de tipo totalitário ou semitotalitário somente porque dependam, direta ou indiretamente, do estado operário ou porque a burocracia não dá aos revolucionários a possibilidade de trabalhar livremente neles. Deve-se lutar sob todas essas condições criadas pela evolução anterior, onde é necessário incluir os erros da classe operária e os crimes de seus dirigentes. Nos países fascistas e semifascistas é impossível concretizar um trabalho revolucionário que pão seja clandestino, ilegal, conspirativo. Nos sindicatos totalitários ou semitotalitários é impossível ou quase impossível realizar um trabalho que não seja conspirativo. Temos de nos adaptar às condições existentes nos sindicatos de cada país para mobilizar as massas não apenas contra a burguesia, mas também contra o regime totalitário dos próprios sindicatos e contra os dirigentes que sustentam esse regime. A primeira palavra de ordem desta luta é: independência total e incondicional dos sindicatos em relação ao Estado capitalista. Isso significa lutar para transformar os sindicatos em organismos das grandes massas exploradas e não da aristocracia operária.

A segunda é: democracia sindical. Esta palavra de ordem deduz-se diretamente da primeira e pressupõe para sua realização à independência total dos sindicatos em relação ao estado imperialista ou colonial.

Em outras palavras, os sindicatos atualmente não podem ser simplesmente os órgãos da democracia como na época do capitalismo concorrencial e já não podem ser politicamente neutros, ou seja, limitar-se às necessidades cotidianas da classe operária. Já não podem ser anarquistas, quer dizer, já não podem ignorar a influência decisiva do estado na vida dos povos e das classes. Já não podem ser reformistas, porque as condições objetivas não dão espaço a nenhuma reforma séria e duradoura. Os sindicatos de nosso tempo podem ou servir como ferramentas secundárias do capitalismo imperialista para subordinar e disciplinar os operários e para impedir a revolução ou, ao contrário, transformar-se nas ferramentas do movimento revolucionário do proletariado.

A neutralidade dos sindicatos é total e irreversivelmente coisa do passado. Desapareceu junto com a livre democracia burguesa.

NECESSIDADE DO TRABALHO DENTRO DOS SINDICATOS

De tudo que foi dito, depreende-se claramente que, apesar da degeneração progressiva dos sindicatos e de seus vínculos cada vez mais estreitos com o Estado imperialista, o trabalho da degeneração progressiva dos sindicatos e de seus vínculos com o Estado imperialista, o trabalho neles não só não perdeu sua importância, como é ainda maior para todo partido revolucionário. Trata-se essencialmente de lutar para ganhar influência sobre a classe operária. Toda organização, todo partido, toda fração que se permita ter uma posição ultimatista (2) com respeito aos sindicatos, o que implica voltar às costas a classe operária, somente por não estar de acordo com sua organização, está destinada a acabar. E é bom frisar que merece acabar.

NOS PAÍSES ATRASADOS

Como nos países atrasados quem joga o papel principal é o capitalismo estrangeiro e não o nacional, a burguesia nacional ocupa, quanto à sua situação social, uma posição muito inferior à que deveria ocupar em relação ao desenvolvimento da indústria. Como o capital estrangeiro não importa operários, mas proletariza a população nativa, o proletariado nacional começa muito rapidamente a desempenhar o papel mais importante na vida nacional. Sob tais condições, na medida em que o governo nacional tenta oferecer alguma resistência ao capital estrangeiro, vê-se obrigado, em maior ou menor grau, a se apoiar no proletariado. Por outro lado, os governos dos países atrasados, que consideram inevitável ou mais proveitoso marchar lado a lado com o capital estrangeiro, destroem as organizações operárias e implantam um regime mais ou menos totalitário. De modo que a debilidade da burguesia nacional, a ausência de uma tradição de governo próprio, a pressão do capital estrangeiro e o crescimento relativamente rápido do proletariado cortam pela raiz toda possibilidade de um regime democrático estável. O governo dos países atrasados, ou seja, coloniais ou semicoloniais, assume, no seu conjunto, um caráter bonapartista ou semibonapartista. Diferem entre si porque enquanto alguns tratam de se orientar para a democracia, buscando o apoio de operários e. camponeses, outros implantam uma rígida ditadura policial-militar. Isso determina também a sorte dos sindicatos: ou estão sob tutela do estado ou estão sujeitos a uma cruel perseguição. Essa tutela corresponde a duas tarefas antagônicas às quais o estado deve encarar: em primeiro lugar atrair a classe operária para assim ganhar um ponto de apoio para a resistência às pretensões excessivas por parte do imperialismo, e ao mesmo tempo, disciplinar os mesmos operários colocando-os sob o controle de uma burocracia.

CAPITALISMO MONOPOLISTA E OS SINDICATOS

O capitalismo monopolista é cada vez menos capaz de conviver com a independência dos sindicatos. Exige que a burocracia reformista e a aristocracia operária, que juntam as migalhas que caem de sua mesa, transformem-se em sua polícia política aos olhos da classe operária. Quando não consegue isso, suprime a burocracia operária, substituindo-a pelos fascistas. E, diga-se de passagem, todos os esforços que a aristocracia operária faça a serviço do imperialismo não poderão salvá-la por muito tempo da destruição.

A um certo grau de intensificação das contradições de classe dentro e cada país, dos antagonismos entre um país e outro, o capitalismo imperialista não pode tolerar (ao menos por certo tempo) uma burocracia reformista, a não ser que esta lhe sirva diretamente como um pequeno, mas ativo acionista de suas empresas imperialistas, de seus planos e programas, tanto dentro do país como no plano mundial. O social-reformismo deve transformar-se em social-imperialismo para poder prolongar sua existência, mas para prolongá-la e nada mais. Esse caminho em geral não tem saída.

Isso significa que na era do imperialismo a existência de sindicatos independentes é, em geral, impossível? Seria basicamente incorreto colocar assim esta questão. O que e impossível é á existência de sindicatos reformistas independentes ou semi-independentes. É perfeitamente possível a existência de sindicatos revolucionários, que não somente não sejam agentes da política imperialista mas que também se coloquem como tarefa a destruição do capitalismo dominante. Na era da decadência imperialista, os sindicatos somente podem ser independentes na medida em que sejam conscientes de ser, na prática, os organismos da revolução proletária. Nesse sentido, o programa de transição adotado pelo último congresso da IV Internacional não é apenas um programa para a atividade do partido, mas, em traços gerais, é o programa para a atividade dos sindicatos.

O desenvolvimento dos países atrasados define-se por seu caráter combinado. Em outras palavras: a última palavra em tecnologia, economia e política imperialistas combina-se, nesses países, com o primitivismo e o atraso tradicionais. O cumprimento dessa lei pode ser observado nas esferas mais diversas do desenvolvimento dos países coloniais e semicoloniais, inclusive na do movimento sindical. O capitalismo imperialista opera aqui de maneira mais cínica e explícita. Transporta para um terreno virgem os métodos mais aperfeiçoados de sua tirânica dominação.

No último período pode-se notar no movimento sindical mundial uma virada à direita e a supressão da democracia interna. Na Inglaterra foi esmagado o Movimento da Minoria dos sindicatos (não sem a intervenção de Moscou); os dirigentes sindicais são hoje, especialmente no terreno da política exterior, fiéis agentes do Partido Conservador. Na França não havia condições para a existência independente de sindicatos stalinistas; uniram-se aos chamados anarco-sindicalistas sob a direção de Jouhaux, e o resultado dessa unificação não foi uma virada geral à esquerda, mas sim à direita. A direção da CGT é o agente mais direto è aberto do capitalismo imperialista francês.

Nos Estados Unidos, o movimento sindical passou nos últimos anos, por seu período mais tempestuoso. O crescimento do CIO (Congresso de Organizações Industriais) é uma evidência irrebatível da existência de tendências revolucionárias nas massas operárias. No entanto é significativo e muito importante assinalar o fato de que a nova organização sindical “de esquerda”, nem bem se fundou, caiu no férreo abraço do estado imperialista. A luta nas altas esferas entre a velha e a nova federação (3) reduz-se, em grande medida, à luta pela simpatia e o apoio de Roosevelt e seu gabinete.

Não menos significativo, se bem que num sentido diferente, é o desenvolvimento ou degeneração dos sindicatos na Espanha. Nos sindicatos socialistas todos os dirigentes, que em alguma medida representavam a independência do movimento sindical, foram afastados. Quanto aos sindicatos anarco-sindicalistas, transformaram-se em instrumentos da burguesia republicana. Seus dirigentes converteram-se em ministros burgueses conservadores. Que essa metamorfose tivesse acontecido em condições de guerra civil não atenua sua significação. A guerra não é mais que uma continuação da política. Acelera processos, deixa à mostra seus traços essenciais, destrói o corrompido, o falso, co equívoco e deixa o explícito, o essencial. A virada à esquerda dos sindicatos deve-se à agudização das contradições de classe e internacionais. Os dirigentes do movimento sindical sentiram, entenderam (ou os fizeram entender), que não é momento de brincar com a oposição. Todo movimento de oposição dentro do movimento sindical, especialmente nas altas esferas, ameaça provocar uma tempestuosa mobilização das massas e criar dificuldades ao imperialismo nacional. Daí a virada à direita e a supressão da democracia operária nos sindicatos, a evolução para um regime totalitário, característica fundamental do período.

Deveríamos também considerar a Holanda, onde não apenas o movimento sindical reformista era o mais seguro suporte do capitalismo imperialista, como também a chamada organização anarco-sindicalista estava na realidade sob o controle do governo imperialista. O secretário dessa organização, Sneevliet, apesar de sua simpatia platônica pela IV Internacional, estava muito preocupado, como deputado do parlamento holandês, em que a cólera do governo não caísse sobre sua organização sindical.

Nos Estados Unidos, o Departamento do Trabalho, com sua burocracia esquerdista, tinha como tarefa a subordinação do movimento sindical ao estado democrático, e é preciso dizer que até agora a realizou com êxito.

A nacionalização das estradas de ferro e dos campos petrolíferos no México não tem, certamente, nada a ver com o socialismo. É uma medida de capitalismo de estado, num país atrasado, que busca desse modo defender-se, por um lado do imperialismo estrangeiro e por outro de seu próprio proletariado. A administração das estradas de ferro, campos petrolíferos etc., sob controle das organizações operárias, não tem nada a ver com o controle operário da indústria, porque em última instância a administração se faz por meio da burocracia trabalhista, que é independente dos operários, mas que depende totalmente do estado burguês. Essa medida tem, por parte da classe dominante, o objetivo de disciplinar a classe operária fazendo-a trabalhar mais a serviço dos “interesses comuns” do Estado, que superficialmente parecem coincidir com os da própria classe operaria. Na realidade, a tarefa da burguesia consiste em liquidar os sindicatos como organismos da luta de classes e substituí-los pela burocracia, como organismos de dominação dos operários pelo estado burguês. Em tais condições, a tarefa da vanguarda revolucionária consiste em empreender a luta pela total independência dos sindicatos e pela criação de um verdadeiro controle operário sobre a atual burocracia sindical, que foi transformada em administração das estradas de ferro, das empresas petrolíferas e outras.

Os acontecimentos dos últimos tempos (antes da guerra) demonstraram muito claramente que o anarquismo, que em teoria não é mais que um liberalismo levado às últimas conseqüências, não era na prática mais que propaganda pacífica dentro da república democrática, cuja proteção necessitava. Se deixarmos de lado os atos de terrorismo individual etc., o anarquismo, como movimento de massa e de ação política, não exerceu mais que uma atividade propagandística sob a proteção da legalidade. Em situações de crise os anarquistas sempre fazem o contrário do que pregam em tempos de paz. Isso o próprio Marx já havia assinalado, referindo-se à Comuna de Paris. E se repetiu em muito maior escala na experiência da Revolução Espanhola.

Os sindicatos democráticos, no velho sentido do termo - de organismos no quadro dos quais lutavam no seio da mesma organização de massas, mais ou menos livremente, diferentes tendências -, já não podem mais existir. Do mesmo modo que não se pode voltar ao estado democrático burguês, tampouco é possível voltar à velha democracia operária. O destino de uma reflete o da outra. Na realidade, a independência de classe dos sindicatos quanto às suas relações com o Estado burguês somente pode garanti-Ia, nas condições atuais, uma direção revolucionária, isto é, a da IV Internacional. Naturalmente, essa direção deve e pode ser racional e assegurar aos sindicatos o máximo de democracia concebível sob as condições concretas atuais. Mas sem a direção política da IV Internacional a independência dos sindicatos é impossível.

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(1) Bonapartismo. Forma de dominação assumida pelo Estado burguês, definida pela primeira vez por Marx em O 18 Brumário de Luiz Bonaparte. As condições sociais para o surgimento do Estado bonapartista são: a) equilíbrio entre as várias forças sociais, em especial entre as diversas frações da burguesia, incapazes de exercer uma dominação hegemônica (crise de hegemonia); b) ascenso do movimento de massas, em contraste com a relativa desorganização política do proletariado; c) surgimento de uma classe-apoio, formada por algum estrato da pequena burguesia, que serve de base social para o poder de Estado, embora este continue atendendo aos interesses históricos da classe dominante; d) formação de um aparelho de Estado centralizado, burocrático e repressivo, sendo que o poder assume a forma de liderança carismática e personalizada na figura de um “Bonaparte”, que surge, na aparência, como árbitro eqüidistante entre as várias classes. Apesar de o modelo estar baseado na situação política francesa de meados do século XIX, o bonapartismo reaparecerá, segundo Trotsky, com muita freqüência, após a I Guerra Mundial - já na fase imperialista - em vários países atrasados e semicoloniais, incluindo-se os da América Latina, onde assumirá formas nacionais específicas, com a presença de traços concretos do nacionalismo burguês.

(2) Ultimatista. O vício político de lançar bandeiras, programas e posições para as massas como se fossem ultimatum, ou seja, de forma peremptória, de “pegar ou largar”, sem considerar o nível de compreensão dos operários ou suas expectativas sobre o assunto.

(3) A Velha Federação e a Nova. A velha Federação Operária Americana (AFL, American Federation of Labor) e o recém-fundado Congresso de Organizações Industriais (CIO, Congress of Industrial Organizations).

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

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O que provoca a obesidade

A capacidade do corpo humano de armazenar energia na forma de gordura parece deslocada num mundo cheio de alimentos. Entender como os sistemas regulatórios podem levar à obesidade revela novas maneiras de combater o excesso de peso.

Jeffrey S. Flier e Eleftheria Maratos-Flier

No alvorecer da humanidade, e durante muito tempo da nossa história, as refeições foram literalmente um vale-tudo. Pelo fato de os seres humanos terem evoluído num mundo onde a disponibilidade de alimentos era apenas intermitente, a sobrevivência exigiu que tivéssemos a capacidade de armazenar energia para épocas de escasssez. O tecido adiposo, familiarmente conhecido como gordura, é o órgão especializado para essa tarefa.

Nossa capacidade de armazenar gordura continua essencial à vida e pode permitir que uma pessoa sobreviva à fome por meses. Na história humana recente, contudo, a quantidade de energia acumulada como gordura está aumentando em muitas populações. Obesidade é o nome que damos quando o armazenamento de gordura se aproxima de um nível que compromete a saúde de uma pessoa.

Em parte essa tendência é resultado do progresso tecnológico da humanidade – diante de alimento abundante e de menor necessidade de atividade física, é muito fácil ingerir mais energia que o necessário. Contudo, algumas pessoas parecem mais suscetíveis que outras a se tornar obesas quando expostas a esse ambiente de fartura, o que sugere que variações na fisiologia individual também podem estar influenciando o quanto de energia uma pessoa consome, gasta e armazena na forma de gordura.

Muitas variáveis críticas do corpo, como pressão arterial, temperatura corporal, açúcar sangüíneo e balanço hídrico, são bem controladas por mecanismos automáticos, mas se o peso corporal também é regulado continua motivo de discussões acaloradas há muito tempo. Apenas recentemente os cientistas obtiveram avanços significativos na identificação das vias celulares de sinalização e atividade que poderiam participar do sistema regulador da gordura.

Essas novas concepções de como o corpo percebe e reage às necessidades e aos estoques de energia estão ajudando a entender como as variações genéticas herdadas podem afetar sutil ou poderosamente aqueles mecanismos e também como podem ser alteradas por influências ambientais, além da própria gordura excedente. Com novas descobertas os cientistas obtêm um quadro mais claro dos sistemas fisiológicos envolvidos no controle da acumulação gordurosa e dos novos alvos para intervenções que poderiam ajudar as pessoas a alcançar um controle maior das suas próprias batalhas contra o peso.

Existe um Gordurastato?

Qualquer sistema de regulação fisiológica exige um modo de o corpo detectar a quantidade de uma substância específica presente e traduzir a informação em ações que mantenham essa variável numa faixa desejada. As necessidades energéticas das células humanas são satisfeitas pela glicose, derivada do alimento, que circula no sangue. Normalmente o corpo mantém os níveis de glicose dentro de limites bem rígidos. Quando a glicose sangüínea aumenta, células especializadas do pâncreas detectam a mudança e secretam insulina extra, o que desencadeia respostas no músculo e nas células adiposas que levam esses tecidos a assimilar e utilizar mais glicose, enquanto o fígado reage reduzindo a produção desta substância.

As células adiposas convertem a energia excedente que captaram em triglicéride, um ácido graxo. Quando não há alimento disponível e os níveis de insulina caem, as células adiposas liberam triglicérides de volta à corrente sangüínea, de onde são transportados ao fígado e decompostos em cetonas, que podem servir de combustível para o músculo e o cérebro.

Estudos em animais e seres humanos há muito sugerem que o corpo mamífero possui mecanismos para monitorar a quantidade de energia armazenada como gordura e para regular que esse recurso permaneça próximo a um dado nível. Se um animal estiver com peso estável, por exemplo, uma alteração significativa na ingestão de energia produzirá mudanças físicas e comportamentais que parecem estar dirigidas para a restauração do peso ao nível anterior. Um animal cujo alimento é repentinamente restringido tende a reduzir seus gastos energéticos, ficando menos ativo e reduzindo o uso de energia nas células, limitando dessa forma a perda de peso. Ele também sente mais fome para que, assim que terminar a restrição, coma mais que a sua norma anterior até que seja atingido o peso anterior. Da mesma forma, depois de uma superalimentação intencional, um animal começará a gastar mais energia e a exibir apetite reduzido, com ambos os estados persistindo até que o peso caia ao nível anterior.

As conseqüências da inexistência de um sistema regulatório para o controle do peso corporal seriam cruciais. Um excedente de apenas 1% no consumo de energia em relação ao gasto, por exemplo, poderia fazer com que um homem de tamanho médio ganhasse 27,2 kg em 30 anos. Mas os seres humanos têm um sistema ativo capaz de manter o balanço da energia armazenada análogo aos mecanismos que controlam os níveis circulantes de glicose? A resposta é sim. E, embora imperfeito, esse sistema realmente existe, e os cientistas, incluindo nossos grupos de pesquisa, estão obtendo um progresso animador na identificação de seus componentes.

À medida que as peças desse quebra-cabeça se juntam, pode-se fazer uma observação geral talvez decepcionante, mas que provavelmente não surpreenderá ninguém que tenha lutado para perder peso: os mecanismos de regulação do corpo humano parecem ligeiramente enviesados em favor da preservação de gordura. À luz do valor da gordura para a sobrevivência essa tendência faz sentido em termos evolutivos. Com o correr do tempo, a evolução poderia ter até favorecido ligeiras variações em genes relevantes que produziram o gerenciamento “mais parcimonioso” dos preciosos depósitos de energia.

Diferenças na suscetibilidade à obesidade entre subgrupos também podem estar ligadas a versões discordantes de determinados genes. Há bem pouco tempo, varreduras de todo o genoma realizadas em quase 40 mil pessoas em todo o mundo identificaram um gene chamado FTO, cuja variação foi vinculada à obesidade. Em todos os países estudados os portadores de uma das versões desse gene eram, em média, 3 kg mais pesados que os demais e tinham quase o dobro do risco de se tornar obesos. A esta altura, a função do gene FTO e como ele poderia promover a obesidade são desconhecidos, mas sua associação com maior peso corporal sugere que poderia ter um papel na regulação do peso.

Mas os genes não funcionam num vácuo, e os genes da população humana em geral não se alteraram nas últimas décadas. A explicação da epidemia de obesidade exigirá, portanto, um conhecimento maior de como os genes variantes interagem com o ambiente de uma pessoa para influenciar também o peso corporal. Alguns fatores ambientais importantes são óbvios, como a menor necessidade de esforço físico para sobreviver e a maior quantidade e qualidade de alimento disponível. Muitas das outras variáveis ambientais são menos evidentes e ainda pouco com-preendidas, como o efeito da nutrição sobre o peso corporal durante o desenvolvimento fetal. Stress, privação de sono e até infecções virais, além da composição de comunidades microbianas benignas no organismo são fatores adicionais que podem afetar a regulação de gordura de um indivíduo.

A identificação de genes que estão normalmente envolvidos no gerenciamento de gordura do corpo está, ainda assim, permitindo que os pesquisadores elucidem alguns dos mecanismos fundamentais em operação. Não admira que seguir a trilha de sinais protéicos codificados por aqueles genes freqüentemente leve ao centro de comando-mestre de muitos processos fisiológicos, o cérebro.

Integração das Informações:

Pouca coisa ocorre no organismo sem que o cérebro tenha participação, monitorando a situação e exercendo sua influência. Pode-se esperar, portanto, que o cérebro tenha um papel crucial na regulagem do peso através de sua instrução de apetite, motivação e atividade física, além do gerenciamento de como a energia é alocada no corpo.

De fato, sabe-se há anos que uma pequena região na base do cérebro chamada hipotálamo é central para essas atividades de regulação da energia. Nos estudos com animais, provocar lesões minúsculas nessa área pode causar obesidade ou magreza, dependendo da localização. Essas observações levaram à rotulação de certas partes do hipotálamo como centros de “saciedade” ou “alimentação”.

Pela estimulação do apetite ou pela sensação de saciedade o cérebro pode gerenciar o balanço energético do corpo a cada dia. Em períodos mais longos a sinalização do cérebro também pode suprimir sistemas não-essenciais, como crescimento e reprodução, quando os depósitos de energias estão baixos demais e é necessário economizar energia para a sobrevivência. Mas, para comandar qualquer um desses mecanismos em resposta às necessidades do corpo, o cérebro deve receber informações atualizadas sobre a quantidade disponível de energia armazenada.

Qual seria esse sinal e como ele funcionaria? Foi demonstrado que muitas moléculas diferentes influenciam o apetite à medida que aumentam e diminuem seus níveis no sangue, inclusive vários produtos de degradação de alimento, como glicose e hormônios derivados do intestino, como a insulina e a colecistocinina (CCK). Mas um regulador da quantidade de energia em estoque se revelou evasivo até que Jeffrey Friedman, da Rockefeller University, e seus colegas descobriram a leptina em 1994.

Antes disso uma síndrome de obesidade grave havia se manifestado com aumento de apetite e redução de gasto de energia em camundongos criados no Laboratório Jackson, no Maine, EUA. Como era necessário que um camundongo herdasse o traço de ambos os pais, a síndrome em si foi denominada ob/ob. Apesar de centenas de estudos tentando entender a obesidade nesses camundongos, o grupo de Friedman foi o primeiro a identificar a mutação gênica hereditária responsável. Os pesquisadores também determinaram que o gene recém-identificado era predominantemente ativo nos adipócitos e dava origem a uma proteína que não era transformada na forma funcional nos camundongos que tinham a mutação ob. Aparentemente, a síndrome da obesidade era causada pela ausência dessa substância.

Os pesquisadores deram à proteína o nome de leptina, do radical grego leptos, “magro”, e rapidamente demonstraram que a reposição da leptina ausente com injeções diárias diminuía o peso dos camundongos afetados por meio da redução do apetite e do aumento do gasto energético. Em pouco tempo outros apliaram esta notável descoberta com a constatação de uma mutação similar de perda de função no gene da leptina humana entre as pessoas com casos extremamente raros de obesidade grave de início precoce. A administração de leptina nessas pessoas ajudou-as a perder peso exatamente como havia ocorrido com os camundongos.

Esses experimentos demonstraram pela primeira vez um sistema fisiológico pelo qual as células adiposas produzem um sinal hormonal que reflete o estado de armazenamento de energia – quanto mais triglicérides um adipócito tiver, mais leptina irá gerar – a que o cérebro responde com a alteração do apetite e do gasto energético. Quando o sinal da situação energética está ausente, seja porque a mutação genética impede a fabricação de proteínas de leptina funcional, ou porque o corpo realmente dispõe de estoques baixos de gordura, o cérebro acredita que o corpo está com fome e se comporta como tal, promovendo a fome e a economia de energia.

A descoberta da leptina abriu a porta para a exploração de toda uma nova via biológica de sinalização e respostas celulares. O cérebro era um alvo importante da leptina secretada pelas células adiposas na corrente sangüínea, e pesquisadores, inclusive nós, começaram a conhecer muitos dos detalhados circuitos neurais e tipos celulares através dos quais a leptina age. Como seria de esperar, muitos deles situam-se no hipotálamo.

Numa estrutura chamada núcleo arqueado do hipotálamo, na área anteriormente identificada como centro da saciedade, a leptina afeta simultanea-mente duas populações vizinhas de neurônios que controlam o apetite de maneiras opostas. Um conjunto de células neurais produz um peptídio cha-mado alfa-MSH, que reduz o apetite e, conseqüen-temente, o peso corporal. O outro conjunto de neurônios produz dois neuropeptídios, o NPY e o AgRP, e ambos estimulam a alimentação e promovem a obesidade. As interações da leptina com esses dois grupos celulares são bem elegantes. Os neurônios que produzem MSH conectam-se aos neurônios de outros lugares do hipotálamo que têm uma proteína de superfície conhecida como receptor da melanocortina 4 (MC4R), cuja ativação reduz o apetite e leva à perda de peso. AgRP, o peptídio que promove a alimentação, é um antagonista desse receptor, impedindo a ativação do receptor. Portanto, a leptina age para ativar os receptores MC4, estimulando-os diretamente via neurônios produtores de MSH e inibindo seu antagonista.

Ao mesmo tempo a leptina também afeta a área do cérebro antes considerada o centro da alimentação, o hipotálamo lateral. Um grupo de células daquela região produz uma pequena proteína chamada hormônio concentrador de melanina (MCH). Em 1996 nosso grupo de pesquisa descobriu que níveis deste peptídio estão elevados no tipo de camundongo ob/ob, sugerindo que a leptina normalmente inibe a produção do peptídio. Estabelecemos também que MCH elevado promove ingestão de alimento e obesidade e constatamos que mesmo os camundongos ob/ob, se não tiverem a habilidade de produzir MCH, são menos obesos. Tínhamos encontrado, portanto, outro exemplo do sistema fisiológico por meio do qual a leptina age como sinal regulador dos neuropeptídios hipotalâmicos que exercem controle sobre o apetite e o balanço energético.

Além do mais, as mesmas células e circuitos afetados pela leptina também agiam por meio de vários outros fatores circulantes. O hipotálamo e as áreas cerebrais relacionadas integram todas essas informações provenientes de diversas fontes para produzir um quadro em tempo real da situação energética do corpo e orquestrar respostas para gerir os recursos energéticos. Para entender melhor quais são as instruções que esses sinais, inclusive a leptina, dão ao cérebro, os pesquisadores também estão estudando como e de onde eles se originam.

Respostas Viscerais:

Barriga cheia é um sinal simples, mas seguro, de que o corpo assimilou energia como alimento, e há muito se sabe que a distensão estomacal reduz o apetite. Uma das maneiras de esse estado físico ser comunicado ao cérebro é através das fibras nervosas sensíveis à distensão, que transportam sinais vindos do estômago e intestino que chegam até os centros de controle do apetite. Os sinais neurais do estado de processamento energético do fígado também podem ser transmitidos ao cérebro via nervo vago.

Acredita-se que a insulina também atue diretamente sobre os neurônios do hipotálamo para suprimir o apetite, e sabe-se que vários outros hormônios produzidos no intestino e liberados no sangue depois das refeições se deslocam até o cérebro e produzem o mesmo efeito. Entre estes, a colecistocinina é um fator importante para comunicar a saciedade de curto prazo, mas suas ações se limitam a sinalizar o término das refeições individuais. Outro peptídio chamado PYY, liberado do intestino delgado, faz o mesmo. Até agora foi identificado apenas um peptídio gerado pelo intestino cuja ação é estimular o apetite: a grelina, que é produzida e liberada no estômago antes da alimentação e pode sinalizar a previsão de uma refeição.

Nas pessoas obesas é possível que a geração disfuncional de sinais de curto prazo que indicam se houve consumo recente de alimento, ou se está prestes a acontecer, poderia distorcer os mecanismos cerebrais de regulação de energia. Uma perda de apenas 4,5 kg, por exemplo, pode causar um aumento da produção de grelina, provocando aumento da fome.

A longo prazo os sinais que emanam da gordura corporal poderiam também contribuir para a gestão anormal de energia. Por muitos anos a gordura foi considerada principal ou exclusivamente um local passivo de armazenamento e liberação de energia na forma de ácidos graxos, mas, com a descoberta da leptina, o tecido adiposo foi reconhecido como uma glândula endócrina com efeitos generalizados sobre a saúde.

A leptina ainda é o único hormônio derivado de gordura cuja participação direta na regulação dos estoques de gordura foi demonstrada de maneira conclusiva. Mas um grupo de outros hormônios, coletivamente conhecidos como adipocinas, também se encontra em investigação. A adiponectina, por exemplo, é uma molécula produzida e secretada apenas por células adiposas que normalmente circulam na corrente sangüínea em altas concentrações. Os níveis de adiponectina nas pessoas obesas são menores que a média por motivos desconhecidos. Camundongos de laboratório sem adiponectina são muito pesados, embora também seja misterioso o mecanismo por trás desse efeito. Uma pesquisa intrigante sugere que, em determinadas circunstâncias, a adiponectina poderia ter efeito direto de estimulação do apetite no cérebro. Embora preliminares, esses achados apontam para a possibilidade de que a adiponectina possa, também, servir como sinal direto das células adiposas para o cérebro, indicando uma necessidade de assimilar energia. Como tal, ela poderia contrabalançar o papel supressor de apetite da leptina na regulação da energia.

Origens da Obesidade:

Ainda há muito a descobrir sobre o circuito extremamente complexo que regula o uso e o armazenamento da energia do corpo, além de como e de que maneira perturbações internas poderiam perpetuar a obesidade ou predispor uma pessoa a se tornar obesa. A descoberta da leptina em camundongos levou à identificação de pessoas cuja obesidade grave poderia ser explicada por um único defeito genético. Essas obesidades “monogênicas” são bem raras, mas muito informativas. Por exemplo, foi identificado um grupo de pacientes com obesidade grave atribuível a mutações nos genes da leptina, receptor da leptina ou POMC, um precursor do peptídio hipotalâmico MSH depressor do apetite.

As mutações que provocam perda de receptores MC4 funcionais – os alvos do MSH – respondem por 3% a 5% dos pacientes com obesidade grave. Na maioria dessas pessoas, somente uma das duas cópias do gene está afetada, deixando-as com cerca de 50% da função do receptor MC4 normal.

A maioria absoluta das pessoas com obesidade, porém, não tem nenhuma mutação genética capaz de explicar a doença. Além disso, os níveis de leptina são, na verdade, maiores que aqueles das pessoas magras, o que soa contra-intuitivo se a leptina supostamente causa supressão de apetite. Realmente, essa descoberta levou à idéia de que a maioria dos pacientes obesos pode ter resistência à leptina – por algum motivo, o sinal da leptina de que os estoques de gordura são abundantes não está sendo detectado por alguma parte da via de regulação energética. Compatível com essa teoria é o fato de tentativas de administrar leptina terapeuticamente produzirem respostas baixas nos pacientes obesos típicos que não apresentam mutações gênicas específicas associadas à leptina.

A descoberta de uma base molecular para a resistência à leptina é, portanto, uma questão de interesse científico substancial. Duas proteínas estão fortemente implicadas como contribuintes à resistência à leptina, por sua ação no cérebro e talvez nos tecidos periféricos. Uma delas é a SOCS3, produzida pelos neurônios hipotalâmicos que normalmente respondem à leptina. SOCS3 pode bloquear a capacidade da leptina de enviar sinais às células. A outra proteína, a PTP1B, suprime a sinalização da leptina dentro das células. Em experimentos com camundongos, a redução dos níveis de SOCS3 ou PTP1B em todos os tecidos, ou mesmo apenas nos neurônios, torna os camundongos mais sensíveis à leptina e resistentes à obesidade. O papel exato dessas proteínas na resistência humana à leptina ainda é desconhecido, mas, com base nessas observações em animais, é tentador especular que essas moléculas produzidas pelos neurônios sensíveis à leptina servem ao propósito de modular a sinalização da leptina para que as células não sejam esmagadas por ela. Nas pessoas obesas, níveis cronicamente elevados de leptina poderiam, portanto, fazer com que essas proteínas começassem a supercompensar para proteger as células, iniciando um ciclo de resistência crescente à sinalização da leptina.

Esses mecanismos de feedback fisiológico poderiam ajudar a perpetuar e agravar a obesidade. Além disso, variações em genes envolvidos nas vias de regulação da gordura podem ter papel semelhante no desequilíbrio do sistema. De fato, acreditamos que variações em genes que influenciam o peso corporal por mecanismos ainda não descobertos sejam uma fonte provável de pelo menos parte da suscetibilidade à obesidade. Ainda não se sabe se existem muitos desses genes cuja variação afeta o peso ou poucos genes dominantes cuja variação afeta o peso na maioria das pessoas. Com a maior disponibilidade de técnicas poderosas de varredura de genes humanos em grandes populações, certamente haverá uma aceleração da descoberta de novas vias de regulação do peso e novas idéias sobre os mecanismos conhecidos. No presente, contudo, a prevalência da obesidade e suas complicações continuam a crescer, deixando evidente que ainda não existem terapias altamente eficientes.

Intervenção na Obesidade:

Recomendações simples como redução da ingestão alimentar, mudança na composição da dieta e aumento dos exercícios físicos são sempre adequadas para uma pessoa obesa. Por si sós essas mudanças de comportamento podem ajudar as pessoas a perder até 10% de peso, embora a manutenção dessa perda seja freqüentemente difícil.

A cirurgia bariátrica é atualmente realizada em centenas de milhares de pacientes todos os anos. Em geral, essas operações excluem parte do estômago com uma banda para limitar o tamanho ou realmente mudam a rota do intestino tanto para reduzir a bolsa estomacal quanto para se desviar de parte do intestino. Os dois procedimentos têm sucesso substancialmente maior que quaisquer outras farmacoterapias atuais na promoção e manutenção da perda de peso. Pesquisa recente também sugere que o desvio gástrico pode causar redução do apetite, em parte por alterar os níveis dos hormônios intestinais como a grelina e o PYY, o que indica que fármacos para atingir o mesmo fim poderão algum dia substituir essas operações em muitos pacientes.

Qualquer nova droga para tratar a obesidade estará sujeita a padrões bem elevados de eficácia, tolerabilidade e segurança. Já que as vias que regulam o armazenamento de energia são tão cruciais para outros processos do corpo e do cérebro, o desenvolvimento de intervenções medicamentosas que satisfaçam todos esses critérios é um grande desafio. Experiências infelizes no passado com candidatos a fármacos que foram eficazes, mas acabaram se mostrando viciantes ou inseguros, poderiam de fato pressionar as agências regulatórias a serem ainda mais exigentes que possa parecer razoável. Além de tratar a obesidade pela redução do conteúdo corporal de gordura, um medicamento terá de melhorar as complicações associadas à obesidade, como diabetes e hipertensão ou, no mínimo, não agravá-las. Qualquer terapia também terá de ser segura para uso prolongado porque é provável que a interrupção do tratamento permita que o peso retorne aos níveis anteriores. Também existe alto risco de medicamentos para obesidade serem incorretamente empregados por pessoas que buscam pesos corporais baixos demais por motivos não-médicos.

Bem recentemente, uma nova medicação que foi colocada à venda na Europa por algum tempo, o Rimonabant, não obteve aprovação dos consultores da Administração de Alimentos e Fármacos (FDA) dos Estados Unidos devido à preocupação com a maior incidência de depressão e ansiedade nas pessoas que o tomam. O fármaco atua bloqueando a ativação de um receptor de superfície celular no cérebro e tecidos periféricos conhecido como CB1. Este receptor medeia a “enorme vontade de comer” que, por exemplo, o fato de fumar maconha provoca, bem como as ações das moléculas lipídicas produzidas nos vários tecidos. A troca entre segurança e eficácia no uso dessa classe de compostos durante um período extenso ainda não estão muito claros.

Atualmente, somente dois medicamentos vendidos por prescrição encontram-se aprovados nos Estados Unidos, para uso de longo prazo no tratamento da obesidade. A Sibutramina, à venda desde 1997, age para prolongar a exposição dos neurônios do cérebro aos neurotransmissores noradrenalina e serotonina, resultando em apetite reduzido e modesta perda de peso. O uso deste fármaco é limitado porque a pressão arterial e o pulso tendem a aumentar durante a terapia. O Orlistat, disponível desde 1999 e agora oferecido na forma de medicamentos isentos de prescrição sob o nome comercial Alli, diminui a ingestão calórica total de uma pessoa através da ação no intestino para reduzir a absorção de gordura, com efeitos modestos sobre o peso e as complicações da obesidade.

Há muitas outras abordagens para o desenvolvimento de drogas para obesidade baseadas nas várias vias de regulação do apetite e do peso que foram descobertas nos últimos anos. As terapias potenciais incluem inibidores das moléculas estimuladoras do apetite MCH, NPY e grelina, supressores do apetite que mimetizam o PYY e ativadores da melacortina 4 e de subtipos do receptor da serotonina. Qualquer uma dessas opções teria como alvo a redução da ingestão de energia, como ocorre com os medicamentos existentes. Mas já que o corpo passa para o modo de economia de energia para tentar compensar a perda de gordura, também poderão ser necessários fármacos complementares que estimulem o ritmo em que a energia é gasta.

Vários grupos de pesquisa estão estudando modos de aumentar a velocidade com que as células adiposas liberam energia armazenada ou de impedir que ocorra seu armazenamento. Uma das abordagens tem como foco a estimulação de uma classe de receptores de superfície celular – conhecidos como receptores beta3-adrenérgicos e receptores nucleares PPAR – que desencadeiam a liberação tissular de uma substância chamada proteína 1 desacopladora. Esse sinal é um pedido de energia, que é ouvido por determinadas células adiposas e aumenta a velocidade com que elas enviam os triglicérides de volta à corrente sangüínea. Contudo, essa técnica pode funcionar apenas num tipo especial de tecido adiposo, conhecido como adiposo marrom, que é abundante em roedores e em recém-nascidos humanos, mas, na idade adulta, bem poucas células adiposas marrons permanecem na gordura humana.

Outra abordagem promissora envolve o bloqueio de atividades enzimáticas que promovem o armazenamento de gordura. Um dos exemplos, a enzima 11 beta HSD-1 (11bHSD1), provoca a conversão do esteróide cortisol de uma forma dormente para outra biologicamente ativa dentro das células adiposas e hepáticas. Este cortisol localmente ativo, por sua vez, incita aquelas células a fabricar mais triglicérides. Nosso grupo laboratorial mostrou que camundongos com superprodução de 11bHSD1 nas células adiposas também geraram excesso de corticosterona (a versão do cortisol nos camundongos) naquelas células e se tornaram significativamente obesos. O curioso é que os camundongos desenvolveram a obesidade abdominal em particular, bem como diabetes, pressão arterial elevada e níveis sangüíneos elevados de lipídios, um conjunto de sintomas que lembra o quadro clínico humano conhecido como síndrome metabólica.

Embora estudos de pessoas obesas ainda não tenham produzido uma associação tão nítida entre a atividade da 11bHSD1 e o armazenamento excessivo de gordura, já existem inibidores dessa enzima que se encontram em desenvolvimento para uso no tratamento da síndrome metabólica. Talvez eles também possam se revelar intervenções úteis para a obesidade.

Muitos especialistas acreditam que uma farmacoterapia bem-sucedida para a obesidade envolverá várias drogas atuando em vias independentes, em associações criadas sob medida para pacientes individuais, como é agora o caso para o tratamento de hipertensão e diabetes. Obviamente, assim como com outras doenças comuns, entre elas a hipertensão, seria preferível tratar as pessoas apenas com mudanças na dieta e no estilo de vida. Mas se essa abordagem fracassar e o resultado forem conseqüências mórbidas, farmacoterapias seguras não serão menos adequadas para a obesidade que para outras doenças.

CONCEITOS-CHAVE:

- A capacidade do nosso corpo de estocar energia para uso futuro foi crucial para a sobrevivência quando havia escassez de alimento. Agora, num mundo de abundância, a obesidade é o problema que ameaça a vida de um número crescente de pessoas.

- Os cientistas trabalham para entender os mecanismos que o corpo humano emprega para regular o estoque de energia na forma de gordura e como esses sistemas podem perder o equilíbrio e levar à obesidade.

- À medida que são identificados os componentes desse sistema regulatório, estes se transformam nos novos alvos potenciais para tratamentos medicamentosos que poderiam restaurar o balanço de energia e ajudar a reverter a obesidade.

[O CÉREBRO] CENTRO DE COMANDO:

O cérebro regula o peso integrando as informações sobre as necessidades energéticas do corpo e a situação de seus estoques e, em resposta, inicia as mudanças de comportamento e de processamento de energia. Áreas especializadas estimulam sensações de apetite ou saciedade para que mais energia, na forma de alimento, seja assimilada ou que uma refeição seja encerrada. Com o tempo, o cérebro também pode aumentar ou reduzir o uso global de energia pelo corpo e realocar a energia de sistemas, como o reprodutivo, que não são essenciais para sobrevivência a curto prazo.

INFORMAÇÕES:

ENERGIA ARMAZENADA
- A leptina circulante, um hormônio gerado pelas células adiposas, indica
o quanto de energia elas contêm

SITUAÇÃO METABÓLICA
- A glicose circulante representa a energia imediatamente disponível às células
- Vários indicadores de atividade hepática sinalizam que a energia ingerida está sendo processada

SITUAÇÃO ALIMENTAR
- Sinais neurais e químicos do intestino indicam se os órgãos digestivos estão cheios de comida

RESPOSTAS:

ALTERAR INGESTÃO DE ENERGIA
- Orientar o momento e o tamanho da refeição com sinais de apetite e saciedade

ALTERAR USO DE ENERGIA
- Reduzir ou aumentar a atividade física
- Reduzir ou aumentar a velocidade de uso de energia pela célula
- Suprimir ou restaurar o crescimento, a reprodução e a função imune

CONTROLE DO APETITE:

No núcleo arqueado (ARC) do hipotálamo, indicadores de energia e situação alimentar na forma de peptídios intestinais, como a grelina e o PYY, e de hormônios que incluem a leptina e a insulina agem sobre grupos de neurônios associados ao apetite ou saciedade. Cada substância estimula ou deprime as respostas dos neurônios. Quando estimuladas, as células ARC liberam peptídios como NPY, AgRP e alfa-MSH, que agem sobre um segundo conjunto de neurônios hipotalâmicos, que induzem o apetite ou a saciedade. A leptina e a insulina agem através dos dois tipos de células simultaneamente para promover a saciedade e, ao mesmo tempo, suprimir o apetite. Sinais nervosos e o peptídio intestinal colecistocinina (CCK) também comunicam a situação alimentar diretamente ao núcleo do trato solitário (NTS), um centro de saciedade do tronco cerebral.

[O INTESTINO] MENSAGENS CONFUSAS:

Sinais importantes que estimulam as respostas reguladoras de energia pelo cérebro e tecidos do corpo emanam dos órgãos digestivos e da própria gordura. São indicadores de curto prazo da situação alimentar do corpo – como os impulsos nervosos e os peptídios secretados e gerados logo antes e depois das refeições – e também informações de longo prazo sobre a situação da energia armazenada do corpo. Além da leptina, que informa ao cérebro sobre os níveis de gordura do corpo, as células adiposas secretam quase uma dúzia de outros hormônios – coletivamente conhecidos como adipocinas. Pelo menos duas delas alteram diretamente as respostas tissulares à insulina, que regula o quanto de glicose as células assimilam e usam como combustível.

ESTÔMAGO VAZIO:

- A grelina é produzida por glândulas do estômago 20 a 30 minutos antes da refeição. Não se conhece o gatilho para sua liberação, mas ela pode enviar para o cérebro um sinal de prontidão do estômago.

CHEIO DE COMIDA:

- A distensão estomacal e intestinal é transmitida
ao cérebro via nervos espinais e vago.

- Receptores de nutrientes no fígado também enviam sinais neurais que indicam que o alimento ingerido está sendo degradado.

- Níveis circulantes de insulina, secretada do pâncreas, e glicose, derivada do alimento ingerido, refletem a situação alimentar e a energia imediatamente disponível.

- Colecistocinina (CCK) e PYY são peptídios fabricados pelos intestinos e secretados na corrente sangüínea após a refeição.

ENERGIA ARMAZENADA
- A leptina é produzida pelo tecido adiposo em quantidades proporcionais à gordura nele contido.

- A proteína 4 transportadora de retinol (RBP4) também aumenta com os níveis de gordura e reduz a resposta de outros tecidos à insulina.

- A adiponectina acentua as respostas celulares à glicose e à insulina, mas os níveis de adipocina caem na obesidade.

AJUDANTES FAMINTOS:

O “ambiente” interno de uma pessoa pode influenciar quanto de uma refeição é transformado em gordura corporal. Trilhões de microorganismos benignos se alojam no intestino, ajudando a decompor o alimento, mas a mistura de espécies residentes pode variar. Pesquisadores da Washington University demonstraram que nas pessoas obesas predominam as bactérias conhecidas como firmicutes, enquanto os bacteriodetes são mais comuns nas pessoas magras. Além disso, o conjunto de microorganismos “gordos” tem a capacidade de extrair mais nutrientes, portanto mais calorias, do alimento que o conjunto dos magros. Ainda não se determinou se a diferença na microbiota seria um contribuinte à obesidade, uma conseqüência da obesidade ou as duas coisas.

CÉLULAS AUTO-REGULADORAS?

Na obesidade, células adiposas excretam mais leptina, sinal de estoques abundantes de energia, a que o cérebro responde com o corte do apetite. Mas as células adiposas também emitem pedidos de mais energia quando os estoques estão acabando? Uma pesquisa indica que outro hormônio gerado pelas células adiposas, a adiponectina, poderia fazer isso. Takashi Kadowaki e colegas da Universidade de Tóquio demonstraram que, em camundongos, o jejum eleva os níveis de adiponectina no fluido espinal, e a presença do hormônio no sistema nervoso central dispara a liberação cerebral do peptídio estimulador do apetite NPY. Se for confirmado que a adiponectina é um sinal de fome, ao qual o cérebro responde com aumento de ingestão alimentar, então ela representaria a segunda molécula gerada por gordura envolvida na regulação dos estoques de gordura.

Papel confuso da gordura na doença:

Foi estabelecida uma nítida associação entre obesidade e várias enfermidades sérias, entre elas diabetes, hipertensão, doença cardiovascular e até câncer, embora muitos aspectos dessa relação não tenham sido explicados. Ainda assim, a definição médica mais comum de obesidade se baseia em evidências de efeitos adversos sobre a saúde em pessoas acima do peso. O índice de massa corporal (IMC) é calculado como o peso em quilogramas de uma pessoa dividido pelo quadrado da altura em metros. Uma vez que uma maior mortalidade é encontrada em IMCs maiores que 30, esse número tornou-se o corte aceito para obesidade. Um IMC entre 25 e 30 é chamado sobrepeso, refletindo alguma conexão com efeitos adversos à saúde.

Essas relações epidemiológicas entre IMC e enfermidade, contudo, podem variar em diferentes subpopulações. E nenhum número preciso permite que os médicos determinem qual quantidade de gordura excedente causará doença. Algumas pessoas têm problemas de saúde com o IMC relativamente baixo de 25, enquanto outras permanecem sadias com IMCs maiores que 30.

Nem toda gordura parece ter efeitos iguais. O tecido adiposo se acumula sob a pele na maioria das áreas corporais, bem como dentro e ao redor dos órgãos internos, especialmente no abdômen. Muitos estudos sugerem que diabetes e doenças cardiovasculares em particular estão ligadas a essa gordura intra-abdominal, ou visceral. Em alguns casos, é relativamente improvável que mesmo um excesso significativo de gordura nos quadris e coxas – que produz a forma de “pêra” – cause essas doenças quando não estiver presente também a gordura abdominal em excesso. Esta gordura está associada a diabetes e outros desequilíbrios metabólicos, mesmo na ausência de gordura abundante na parte inferior do corpo, como no corpo em forma de “maçã”.

O fundamento para a influência da localização sobre os efeitos da gordura sobre a saúde não é inteiramente claro. Uma das teorias concentra-se no fato de que a gordura abdominal está bem posicionada para liberar ácidos graxos e outras substâncias e sinais para a veia portal que banha diretamente o fígado e, dessa forma, afetando o funcionamento desse órgão. Uma segunda teoria se baseia no fato de depósitos de gordura em diferentes partes do corpo gerarem diferentes quantidades de sinais químicos, e os volumes relativos maiores que emanam da gordura visceral poderiam explicar seus efeitos mais adversos.

Vários sinais específicos gerados pela gordura também estão implicados nos problemas de saúde relacionados à obesidade. O tecido adiposo produz gatilhos de inflamação, por exemplo, que poderiam contribuir para o risco de câncer, doença cardiovascular, diabetes e outros transtornos imunológicos. O hormônio adiponectina, em contraste, tem ações desejáveis em vários tecidos por melhorar o processamento celular de glicose e lipídeos. Contudo, já que os níveis circulantes de adiponectina caem na obesidade, a perda de seus efeitos benéficos está associada ao desenvolvimento de resistência à insulina, que contribui para o diabetes e a doença vascular. Um papel mais direto na resistência à insulina é atribuída à adipocina conhecida como proteína 4 transportadora de retinol (RBP4), que as células adiposas produzem em maiores quantidades na obesidade. Estudos em animais mostram que a RBP4 tornam as células hepáticas e outras células menos sensíveis à insulina. Um relato bem recente também confirmou que a gordura visceral gera maiores quantidades de RBP4 que o tecido adiposo subcutâneo de qualquer outro lugar do corpo.

Como ilustram esses poucos exemplos, muitas das mesmas moléculas e mecanismos em investigação por seu papel na regulação de energia do corpo também estão envolvidos em outros processos vitais para a saúde. Avanços no conhecimento da obesidade provavelmente levarão a novas idéias sobre as doenças relacionadas à obesidade e também a seu tratamento.

[ESTRATÉGIAS TERAPÊUTICAS] NEUTRALIZANDO A OBESIDADE:

À medida que os mecanismos que dão origem à obesidade se tornam mais claros também ficam mais evidentes os motivos pelos quais a perda da gordura corporal e a manutenção dessa perda somente por mudanças comportamentais podem ser difíceis para muitas pessoas. As terapias são apenas modestamente efetivas, e o desenvolvimento de novos medicamentos seguros para uso prolongado tem sido difícil porque os sistemas de regulação energética estão entrelaçados com outros processos vitais no corpo e no cérebro, criando risco de efeitos colaterais sérios. As abordagens terapêuticas atualmente em desenvolvimento tentam escolher como alvos mais precisos as moléculas e os mecanismos que controlam a quantidade de energia que o corpo assimila na forma de alimento ou a quantidade que ele armazena e queima.

TERAPIAS EXISTENTES
SIBUTRAMINA:
- Eleva a disponibilidade de serotonina e noradrenalina, substâncias cerebrais que afetam o apetite, bem como o humor e outras funções

RIMONABANT
- Suprime a atividade dos receptores CB1, que estimulam o apetite e estão envolvidos no processamento celular da gordura. (Não aprovado nos EUA)

CIRURGIA BARIÁTRICA:
- Reduz e/ou faz um desvio da bolsa gástrica e parte do intestino para reduzir a quantidade de alimento assimilado e digerido. Reduz o apetite por alterar as respostas hormonais do intestino ao alimento

ORLISTAT:
- Bloqueia a absorção de gordura no intestino e diminui a ingestão de calorias

NOVAS ABORDAGENS
APETITE
- Bloquear a atividade dos neuropeptídios estimuladores do apetite mch ou npy, ou da grelina.

- Estimular a atividade supressora do apetite dos receptores MC4 ou subtipos de receptor da serotonina.

- Inibir as proteínas neurais SOCS3 e PTP1B para neutralizar a resistência
à leptina.

ARMAZENAMENTO DE ENERGIA
- Reduzir a ingestão de energia por células adiposas e a fabricação de triglicérides pela inibição da enzima 11bHSD1.

USO DE ENERGIA ARMAZENADA
- Aumentar a velocidade de liberação de triglicérides no sangue como combustível , estimulando os receptores PPAR e beta3-adrenérgicos nos tecidos.

- Aumentar a proteína FGF21, que faz as células hepáticas queimarem gordura.

Jeffrey S. Flier e Eleftheria Maratos-Flier São casados e cada um chefia um laboratório da divisão de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo do Centro Médico Beth Israel Deaconess, de Boston. Ambos são professores de medicina da Escola de Medicina de Harvard.

Scientific American Brasil

Comentários

Ontologia e política

Vladimir Safatle

Alain Badiou é um nome que, aos poucos, firmou-se como referência importante nos debates sobre a renovação do pensamento de esquerda. Juntamente com Jacques Rancière e Etienne Balibar, Badiou representa atualmente o desdobramento intelectual mais visível das experiências de maio de 1968. Mas, no seu caso, tal desdobramento não levou à constituição das políticas multiculturais da diferença ou da crítica pós-moderna dos universais. Marcado profundamente por uma certa articulação entre psicanálise e marxismo, ou seja, por um certo althussero-lacanismo conjugado a partir de longa militância maoísta, Badiou foi capaz de conservar temáticas clássicas do pensamento de esquerda em um tempo que parecia negar-lhes o direito de cidadania. Afinal, quem hoje estaria disposto a insistir no papel dos universais, na relação intrincada e necessária entre violência e política, na crítica à democracia parlamentar, no formalismo da concepção liberal de liberdade, na política como campo de realização da verdade de uma situação, na função central da igualdade como ordenador das lutas políticas e na armadilha que consiste em suspender a política através da ética?

De fato, Badiou não teme em defender tais posições através de produção extensa que ultrapassa o quadro do que entendemos por filosofia política, já que se trata, no fundo, de reflexão sobre os impactos, no interior do campo do político, de uma ontologia renovada.

Desde o inicio dos anos 1970, Badiou tenta articular dois projetos. Por um lado, trata-se de recuperar a ontologia e, com isso, desenvolver uma teoria complexa capaz de dar atualidade a conceitos como acontecimento, ser, sujeito e verdade. Por outro, trata-se de impedir que a ação política perca seu solo de orientação e o fundamento de uma crítica radical da contemporaneidade. Livros como O ser e o evento (Jorge Zahar/UFRJ, 1996), Ética; um ensaio sobre a consciência do mal (Relume Dumará, 1995), Compêndio de metapolítica (Instituto Piaget, 1998), O século (Idéias e Letras, 2007) e os não traduzidos Saint Paul: la fondation de l’universalisme (PUF) e Logique des mondes (Seuil: 2006) devem ser lidos como momentos convergentes desse duplo projeto.

ONTOLOGIA E POLÍTICA
Grosso modo, podemos dizer que Badiou compreende muito bem que a política não pode ser guiada por exigência de realização de ideais normativos de justiça e consenso que já estariam presentes em alguma dimensão da vida social. Pois isso nos impede de desenvolver uma crítica mais profunda que nos permita questionar a gênese de nossos próprios ideais de justiça e consenso. Ou seja, a crítica não pode ser apenas a comparação entre situações concretas determinadas e normas socialmente partilhadas. Essa é, no fundo, uma crítica de juizado de pequenas causas que se contenta em comparar normas e caso. Antes, a verdade crítica tem a força de se voltar contra nossos próprios critérios de justiça e consenso democrático, já que ela se pergunta se nossa forma de vida não é mutilada a ponto de se orientar por valores resultantes de distorções patológicas.

Daí porque Badiou não teme sequer fazer a crítica da democracia parlamentar como forma mutilada de vida social que tenta esvaziar a possibilidade de todo acontecimento radical, assim como não teme fazer a crítica da colonização da política pela ética. Pois se trata de mostrar como a experiência contemporânea da ética é assombrada pela temática da finitude do indivíduo, desse indivíduo exposto ao sofrimento, à morte, às catástrofes históricas das múltiplas formas de campos de concentração. Em suma, indivíduo que deve ser primeiramente reconhecido na sua condição de vítima em potencial. Como se a “humanidade” do homem só aparecesse quando o interrogamos na sua condição de vítima.

Mas essa redução do sujeito à condição privilegiada de vítima é uma maneira astuta de reduzir o campo do político, pois se trata de levá-lo a transformar suas demandas políticas em exigências de reparação subjetiva, transformar expectativas de reconfiguração do campo social em demanda de cuidado e reconhecimento. Assim, Badiou pode lembrar que algo une refugiados vítimas do “mal radical”, pacientes com depressão, vítimas de seus próprios corpos, neuróticos vítimas de constelações familiares, trabalhadores vítimas do desmantelamento do estado de proteção social (e que não procuram superá-lo de maneira revolucionária, mas simplesmente continuar protegidos). A lista é heteróclita e extensa. No entanto, ela demonstra como uma lógica convergente atua em campos autônomos da vida social. Trata-se de uma lógica que, ao mesmo tempo em que reconhece a correção das demandas sociais, desloca-as para um campo fora do político com sua dinâmica de modificações estruturais, ou seja, para um campo de demandas de reparação direcionadas a um poder que deve ser reconhecido como tal para poder satisfazer tais demandas.

Essa maneira de criticar a política é uma temática presente no pensamento francês dos últimos 30 anos vista, muitas vezes, como fruto de uma certa crítica totalizante que, ao se voltar contra a extensão dos nossos valores, acaba por perder o solo que poderia fundamentá-la. Pois em nome de qual valor criticamos os valores socialmente partilhados? Em nome do que estaríamos dispostos a colocar em risco nossas estruturas jurídico-institucionais? Por outro lado, essa crítica, ao se transformar em crítica da ética, parece ser animada por um certo anti-humanismo militante. E em nome de que podemos dizer que nossa “humanidade” é uma construção que visa a nos rebaixar à condição política de vítimas?

É nesse ponto que Badiou propõe uma operação filosófica de grande envergadura que consiste em fundamentar a crítica social em uma ontologia capaz de refletir sobre os modos de manifestação do ser e de constituição de sujeitos. Mas, com isso, parece que encontramos mais problemas que soluções. Pois uma forma de vida fundamentada em uma ontologia do ser não seria uma verdadeira porta aberta para um certo totalitarismo que procura medir nossas potencialidades a partir de um discurso que visa a falar em nome do próprio ser? E por que afinal a esquerda precisaria dessa “tentação ontológica” para fundamentar sua crítica social? Não bastaria simplesmente apelar à existência do sofrimento social resultante da opressão de classe, da pauperização persistente e das práticas disciplinares presente em múltiplas instituições sociais?

Não para Badiou. Pois como a crítica quer ser totalizante, como ela quer invalidar valores e não apenas casos, o sofrimento social não pode ser compreendido como advindo da impossibilidade de realizar expectativas de justiça devido à realidade da opressão e da miséria, expectativas de realização de si devido à realidade das práticas disciplinares. Esse sofrimento social deve ter uma raiz ontológica, pois está vinculado à impossibilidade de manifestação de algo de fundamental para a determinação dos sujeitos. Pois sujeitos não são apenas individualidades resultantes de processos de socialização e de formação do Eu que se desenrolam na família, nas instituições, nas comunidades, no Estado. Sujeitos são operações que colocam indivíduos para além do que família, instituições, comunidades, Estado podem produzir e legitimar. Sujeitos são operações que resultam em algum tipo de ancoragem em um ser que se manifesta como ruptura. O que o permite afirmar: “Como ele o é de uma verdade, um sujeito se substrai a toda comunidade e destrói toda individuação.”

Podemos compreender o caráter radical dessa ontologia através de uma querela que procurou arrastar Badiou para a arena do anti-semitismo (ver artigo publicado na Folha de S. Paulo de 01/07/2007). Há alguns anos, o autor tem publicado pequenos livros de intervenção intitulados Circunstâncias. Guerra do Iraque, revolta nas periferias francesas, o problema da imigração: esses são alguns temas de tais intervenções. O último desses livros tem como título “Alcances da palavra ‘judeu’”. Nele, Badiou coloca em circulação uma idéia fundamental para a esquerda: não é aceitável estabelecer relações entre nação, Estado e povo. Nem a nação enquanto construção do imaginário, nem o Estado enquanto aparato jurídico-institucional podem estar relacionados ao povo como identidade. Pois isso significa colonizar a política com uma lógica que bloqueia o que há de determinação universal em todo e qualquer sujeito. Nação e Estado devem ser assim absolutamente indiferentes às diferenças, isso no sentido de aceitá-las todas e esvaziar a afirmação da diferença de qualquer conteúdo político. Pois o espaço do político não deve ser marcado pela afirmação da diferença, mas pela indiferença absoluta em relação a qualquer exigência identitária. No limite, isso nos leva a criticar a existência de uma nação e um Estado judeu, da mesma forma que devemos criticar a existência de uma nação e um Estado francês (com seu Ministério da imigração e da Identidade nacional), de uma nação e de um Estado brasileiro etc. Badiou aproveitava tal raciocínio para insistir na necessidade da criação de um Estado binacional entre Israel e Palestina (como já fizeram Edward Saïd e vários outros).

Essa sempre foi uma perspectiva defendida por uma esquerda marcada pelo internacionalismo e pelo universalismo. Que hoje em dia, tal perspectiva seja vista como crime (já que acusar alguém de antisemitismo é vê-lo como um criminoso racista da pior espécie), isso só demonstra como se tenta restringir a todo custo o espectro do debate político através da criminalização da esquerda. Mas há uma linha reta que vai da criminalização da esquerda ao mais desenfreado totalitarismo.

PAIXÃO PELO REAL
Se voltarmos à articulação entre ontologia e política em Badiou, devemos admitir que essa “tentação ontológica” corre o risco de ser uma mera construção peculiar de engenharia intelectual francesa se não fizer prova de alto potencial explicativo. É nesse ponto que vale a pena voltarmos os olhos para um pequeno livro no qual Badiou articula ontologia e uma versão muito própria de filosofia da história. Recém lançado no Brasil, O século se apresenta como uma reflexão filosófica sobre os sentidos das experiências históricas do século 20. Podemos dizer, seguindo Badiou, que o sentido do curto século 20 com suas rupturas, catástrofes e inventividade foi a realização de uma “paixão pelo real” e da procura pelo “homem novo”.

O termo “paixão pelo real” é uma construção que visa a dar uma resposta determinada a questões como: qual é a origem do sofrimento social que sustentou, no século 20, a crítica às nossas formas de vida naquilo que elas têm de mais fundamentais? A resposta de Badiou é: nosso sofrimento vem de uma paixão, um afeto produzido pelas exigências de manifestação de um real “horrível e entusiasmante, mortífero e criador” que deve, no limite, livrar-nos de uma subjetividade esgotada a fim de instaurar um homem novo. Afeto que fornece a inteligibilidade do movimento do século em sua dinâmica fundamental.

Esse real do qual fala Badiou vem de Jacques Lacan. O psicanalista francês havia desenvolvido a teoria de que o comportamento humano era orientado a partir de três instâncias distintas: o Imaginário (dimensão de imagens ideais que guiam a conduta), o Simbólico (dimensão das estruturas sociais) e o Real. Aqui, o Real não deve ser entendido como um horizonte de experiências concretas acessíveis à consciência imediata. O Real não está ligado a um problema de descrição objetiva de estados de coisas. Ele diz respeito a um campo de experiências subjetivas que não podem ser adequadamente simbolizadas ou colonizadas por imagens. Isso nos explica porque o Real é sempre descrito de maneira negativa, como se fosse questão de mostrar que há experiências que só se oferecem ao sujeito sob a forma de processos disruptivos.

Nesse sentido, Lacan insiste que a lógica do comportamento humano não pode ser totalmente explicada a partir do cálculo utilitarista de maximização do prazer e de afastamento do desprazer. Há atos cuja inteligibilidade exige a introdução de um outro campo conceitual com sua lógica própria, um campo que desarticula distinções estritas entre prazer e desprazer por colocar o Eu sempre diante de uma certa dissolução de si que produz, ao mesmo tempo, satisfação pulsional e terror. Indistinção entre satisfação e terror que Lacan chama de “gozo”.

A sagacidade de Badiou consistiu em mostrar como essa experiência disruptiva inscrita na essência da conduta do sujeito foi o motor da nossa história recente. História revolucionária na qual se imbricam violência, criação, destruição e procura. Recalcar essa história, como se fosse questão de uma sucessão de catástrofes (o comunismo, o nazismo, o horror, as ilusões do modernismo etc.), como se o tempo devesse ser avaliado a partir da contagem de mortos ou, para falar com Habermas, como se esse impulso não passasse de uma estetização da violência e do excesso com conseqüências políticas é, no fundo, uma maneira de pregar o evangelho de uma vida mutilada, que prefere se atrelar à finitude, à colonização pulsional, a assumir uma temporalidade que se manifesta como ruptura e negação. Ou seja, a filosofia da história que Badiou propõe não é cumulativa ou teleológica, mas ela visa a fornecer as condições nas quais uma verdade aparece como “interrupção”, como “exceção radical”. Ela visa a fornecer condições para pensar uma história, atrelada á exigências de reconhecimento do que se manifesta na estrutura pulsional dos sujeitos, na qual acontecimentos sejam possíveis.

É claro que há várias questões no interior da experiência intelectual de Alain Badiou que são passíveis de problematização. De qualquer forma, a importância de uma experiência intelectual nunca foi mensurada pelas respostas que ela é capaz de dar, mas pelos problemas que ela é capaz de produzir, condição para a impulsão do pensamento. E, nessa perspectiva, o pensamento de Badiou é de grande importância para a contemporaneidade.

Sobre algumas problematizações possíveis, fiquemos ao menos com uma. Badiou partilha com várias outras correntes de esquerda, a defesa de que “a decisão política não é constrangida pela economia”. Maneira de defender o espaço do político contra a lógica administrativa que visa a impor modos de gestão da vida. Isso o leva a retomar esta frase famosa de Robespierre pronunciada por à ocasião da condenação de Lavoisier: “A república não necessita de cientistas.” Badiou chega a afirmar que ela apresenta a essência do político na medida em que: “A república não tem necessidades”, ou seja, “A política, quando existe, funda seu próprio princípio quanto ao real e não tem necessidade de nada a não ser dela própria.”

No entanto, podemos dizer que afirmações dessa natureza só são possíveis porque a política é compreendida a partir de uma teoria do poder que visa a definir em que condições a política aparece como campo investido de um poder instaurador e instituinte. No entanto, ela deve ser também compreendida a partir de uma teoria do governo que visa a definir os modos de governar e de administrar o que foi instituído enquanto campo. Ter uma teoria do poder não nos fornece uma teoria do governo. Talvez um dos maiores problemas da esquerda esteja em não ter uma teoria das técnicas de governo. Pensar uma teoria do governo implica, por exemplo, em ter de submeter a decisão política a certos constrangimentos vindos da economia (o que implica resgatar a economia política) e das necessidades. Até porque, por mais crasso que isso possa parecer, o homem é este que, ao mesmo tempo, é sujeito de uma paixão pelo real e precisa de geladeiras. Anular as geladeiras, ou seja, instaurar a política no solo de uma cruzada contra o “serviço dos bens”, dizer que a república não tem necessidades, só vai nos fazer perder as condições de realizar nossa paixão pelo real. Talvez esse seja o verdadeiro sentido de uma afirmação capital de Lênin: “Comunismo é o poder soviético mais a eletrificação de todo o país.” Realizar as duas coisas ao mesmo tempo é o maior desafio. Um desafio que a experiência intelectual de Alain Badiou certamente nos ajuda a transpor.

Revista Cult
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A guerra de São Paulo

Maior conflito armado do país no século 20, a Revolução de 1932 durou dois meses. Sem o apoio esperado - e com armamento em frangalhos -, o estado não teve chance contra o governo federal.

Mauro Tracco

O moral dos cerca de 20 mil homens que compunham o exército rebelde paulista estava alto. A vitória estava garantida “sem um único tiro de fuzil” - era o que se bradava. O maior conflito armado do século 20 no país, entre 9 de julho e 2 de outubro de 1932, colocou de um lado o chamado Exército Constitucionalista e, de outro, as forças federais.

Formada por militares rebelados, membros da Força Pública Paulista (FPP) e voluntários, a tropa rebelde brigava contra a ditadura de Getúlio Vargas que, em 1930, acabara com o Congresso e anulara a Constituição. Apesar de todo o otimismo inicial, apenas um dia após a declaração de guerra o alto comando das tropas constitucionalistas já sabia que não tinha chance de vitória.

Para que o plano desse certo, era fundamental a adesão militar do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais à causa. Horas após a eclosão do conflito, porém, Flores da Cunha, interventor no Rio Grande do Sul, e Olegário Maciel, governador de Minas Gerais, colocaram suas forças à disposição de Vargas.

O general Bertoldo Klinger, comandante dos constitucionalistas, que havia ido a Mato Grosso em busca de armamentos, voltou de mãos vazias. O plano de guerra formulado pelos chefes militares antes do 9 de julho era simples. São Paulo bloquearia o Vale do Paraíba para impedir uma manobra federal contra o território paulista. E Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Mato Grosso adeririam à causa.

Mas, diante da falta de aliados, Klinger sabia que apenas um acontecimento externo poderia evitar São Paulo de ser esmagado. As opções eram o surgimento no exterior de um fornecedor de material bélico, os sonhados levantes por outros estados, a sublevação da Marinha de Guerra ou até mesmo uma paz negociada com o governo. Para dar tempo para que esse acontecimento externo realmente ocorresse, a ordem era resistir.

Fragilidade militar
O entusiasmo pela causa atingia diferentes grupos e classes sociais de São Paulo. Entre os soldados rebeldes estavam médicos, advogados, industriais e fazendeiros. “A idéia de paulistanidade, que existia desde o fim do século 19, sustenta um discurso hegemônico e dissolve as diferenças sociais”, diz Ilka Stern Cohen, doutora em História Social pela Universidade de São Paulo. “A imprensa e os discursos retratavam São Paulo como um território invadido, cuja humilhação era preciso apagar. A produção desse clima explica o envolvimento de pessoas que acreditavam na guerra como um meio de lavar a honra do estado.”

Mas, se sobrava entusiasmo, faltava experiência. A carência de instrução militar causava problemas de comando e disciplina. Além disso, muitos voluntários sequer sabiam manejar um fuzil. E, mesmo que soubessem, não havia armas para todos. Por se acreditar que seria uma guerra curta - e com aliados -, o alto comando tinha convicção de que o material bélico disponível seria suficiente.

Só depois da eclosão da rebelião é que o coronel Júlio Marcondes Salgado, chefe da FPP, descobriu que os 3 milhões de cartuchos que possuíam estavam quase que inteiramente imprestáveis, enquanto 60% dos 8 mil fuzis se escangalhavam após os primeiros tiros. Os modelos mais novos, 40% do total, eram de 1908. O resto datava até de 1893. “A situação material era crítica desde o início e as reclamações dos comandantes constitucionalistas nos vários teatros de guerra começaram imediatamente”, escreveu o cientista político Stanley Hilton em 1932 - A Guerra Civil Brasileira.

A maioria das correspondências enviadas para Klinger era pedido de munição. Devido ao cerco federal, a única forma de aumentar o estoque de munições era fabricando-as. A fábrica de pólvora em Piquete, na região do Vale do Paraíba, estava nas mãos dos rebeldes e o estado de São Paulo possuía a mais avançada base industrial da América Latina.

A iniciativa privada fez o que pôde para suprir as tropas com o necessário. A grande contribuição da indústria foi na produção de munição de fuzil e granadas de mão. A Fábrica Nacional de Cartuchos e Munições, em São Bernardo do Campo, pertencente ao grupo Matarazzo, desempenhava papel principal.

Os engenheiros e estudantes da Escola Politécnica da USP desenvolveram morteiros, granadas de mão e carros blindados. Como tudo foi feito às pressas, os resultados, claro, não foram dos melhores. Já na demonstração dos primeiros morteiros aos comandos gerais do exército rebelde, o armamento falhou, explodiu e seus estilhaços mataram um coronel e um capitão. Foram as primeiras vítimas da improvisação do material bélico. Muitas outras viriam.

Uma “arma” desenvolvida pelos constitucionalistas ilustrava bem a situação bélica paulista. Tratava-se de um instrumento movido a manivela que simulava o som de uma metralhadora para assustar o inimigo. O coronel da FPP Herculano Carvalho e Silva descreve em A Revolução Constitucionalista a indignação de seus homens ao verem a matraca. “Um crime permitir-se que aqueles moços se expusessem às balas adversárias, ao metralhar dos aviões e tivessem como arma de defesa instrumentos que não o eram, na persuasão de iludir o adversário, quando na verdade procuravam iludir-se a si mesmos.”

Fuga espavorida
Levou pouco tempo para que os reveses nos campos de batalha transformassem o entusiasmo paulista em pânico. A primeira vitória federal de grande efeito moral ocorreu em Itararé, na fronteira com o Paraná. O combate começou em 17 de julho com lutas de trincheira e, na maior parte do tempo, de armas brancas como baionetas e facas.

No dia seguinte, os constitucionalistas começaram a retirada. Na manhã do dia 19, as forças governistas ocuparam a cidade. “Tomamos Itararé a baioneta. Inimigo fugiu espavorido”, telegrafou o general Valdomiro Lima para o interventor federal do Paraná, Manoel Ribas.

A história se repetiu em praticamente todas as batalhas. Federais atacavam e paulistas recuavam. A falta de armas e de experiência, a fome e o desrespeito ao comando eram as principais causas da debandada. No caminho da fuga, armas, cavalos e veículos eram deixados de presente para as forças federais.

Pior para os moradores das cidades localizadas nas zonas de combate. Um dos efeitos mais devastadores e comuns sobre os habitantes das zonas de batalha eram os saques, que se tornaram rotineiros. Os rebeldes arrombavam e incendiavam casas, matavam animais, roubavam dinheiro, comida e roupas.

Além de saquear, os retirantes incentivavam a população, alarmando a respeito das tropas federais, a abandonar os locais. A presença militar das tropas governistas não acabava com os problemas dos civis interioranos. As tropas governistas também saqueavam, embora menos. Isso sem falar que o Exército podia tomar os bens da população sem infringir a lei.

Como a situação das forças ditatoriais também não era das melhores, o governo não tinha recursos materiais para dotar o Exército do necessário. Vargas procurou acelerar a produção de artigos bélicos e recorreu a mercados externos, mas também baixou um decreto obrigando todos os habitantes dos estados do Sul e do Sudeste a cumprir com qualquer requisição feita por membros das Forças Armadas.

O principal item confiscado eram veículos, mas a prática abrangia todo tipo de bens. Teoricamente, a vítima da requisição deveria obter um recibo que lhe garantiria uma indenização. Mas era comum a tomada de bens sem o fornecimento do recibo. E a demora para sair a indenização era grande. O incessante recuo paulista fez com que o inimigo chegasse às portas da capital. Hora de reconhecer a derrota.

A guerra acabou em 2 de outubro, para alívio dos dois lados. Um oficial rebelde escreveu em relatório: “Congratulo-me com a Força Pública pela cessação da tremenda luta, a qual salvou a capital do estado e a maior parte de seu território da invasão inevitável, com todas as suas conseqüências”. São Paulo até hoje comemora o 9 de julho e faz o possível para ignorar o 2 de outubro, mas o impacto da derrota foi profundo - embora a terceira Constituição brasileira tenha sido publicada em 1934. “O discurso do ‘perdemos, mas vencemos’ foi um consolo”, diz Ilka Cohen. “Foram quase 800 mortos por nada.”

Revista Aventuras na História

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Por trás dos links, as pessoas

11 de Outubro de 2007
Há dois séculos, a ciência descobriu e passou a analisar as redes. Há vinte anos, elas estão revolucionando o jeito de a sociedade se relacionar consigo mesma.

Dalton Martins, Hernani Dimantas

O matemático suíço Leonhard Euler foi, em 1780, o precursor do pensamento analítico sobre redes. Suas primeiras idéias diziam que eram compostas por nós e links — elos que ligam os nós. Os links são aleatoriamente espalhados entre os nós, formando redes de distribuição aleatória. A teoria de Euler aponta para o caos, ao sustentar que não existem nós centrais e que toda a rede é desprovida de hierarquia.

A palavra rede tem assumido novas conotações, e novas estruturas de comunicação surgiram, potencializando as possibilidades de conversação e circulação da informação. As estruturas matemáticas criadas por Euler para análise das redes passaram a ganhar maior relevância, mas muitas de suas previsões se mostraram sem sentido quando começamos a olhar para as redes sociais, a forma como os seres humanos se organizam — e para como se articulam nossas ações em rede.

Se Euler estivesse correto, os quase 6 bilhões de seres humanos (nós) no planeta deveriam ter aproximadamente o mesmo número de amigos (links). No entanto, nos anos 60, Stanley Milgram, um pesquisador da Universidade de Harvard, realizou um experimento que ficou conhecido como o “os 6 graus de separação”.

A compreensão popular do experimento de Milgram aponta que estamos a apenas 6 graus de qualquer pessoa no mundo. Exemplo: será que conheço alguém, que conhece outro alguém, que conhece alguém que te conhece? Estar no máximo a 6 níveis de separação de qualquer outra pessoa significa que o mundo é pequeno pra caramba.

O foco nas experiências sociais

Entretanto, os resultados que Milgram obteve de seus experimentos foram mais radicais. Bem diferentes. Ele descobriu situações como as seguintes:

> Três níveis de separação: algumas pessoas possuem links privilegiados, logo conseguem conectar-se com outras por três níveis de separação;

> Cem níveis de separação: outras pessoas precisam de em torno de cem links para chegarem a outras pessoas. É sinal de que são grupos de pessoas bem mal conectados, mal posicionados na estrutura das redes sociais;

> Sem links: muitas pessoas possuem poucos ou nenhum link, restando como verdadeiras ilhas isoladas dentro da sociedade.

Surge, do experimento de Milgram, uma nova forma de enxergar as redes. O foco está nas experiências sociais. Os nós não seriam conectados aleatoriamente uns aos outros. Alguns deles aglutinam posições estratégicas, como elos. Ou seja, pessoas assumem papéis de protagonismo social a partir de suas possibilidades de conexão com outras pessoas.

Para validar tal premissa, um sociológo norte-americano, Mark Granovetter, realizou um outro experimento no final dos anos 60. Tinha por objetivo pesquisar a forma como as pessoas procuravam emprego. Granovetter identificou que a sociedade era formada por grupos de pessoas, ou clusters. Ele percebeu que as pessoas que possuíam conexões ou relações distantes com outras fora círculo familiar tinham duas vezes mais chances de conseguir uma vaga do que pessoas que tinham mais conexões próximas apenas no âmbito da família e dos amigos próximos. A análise de Granovetter era de que grupos próximos mais fortemente conectados possuíam interesses similares, logo com menos possibilidades de inserção.

Um novo padrão de relações entre as pessoas

Essas descobertas geraram uma revolução no pensamento da sociologia da época. Novas propostas de como potencializar as conexões entre as redes sociais começaram a surgir. Pensando estrategicamente, o número de conexões era fundamental para ampliar a circulação da informação, seja de idéias, de vagas de emprego ou de experiências compartilhadas.

Coincidentemente ou não, estamos falando da mesma época do surgimento da Internet, as primeiras conexões entre computadores, permitindo que mensagens bastante simples fossem trocadas e que pessoas pudessem estabelecer novos links de conexão entre si.

A tecnologia que vinha sendo desenvolvida parecia permitir uma ampliação nesse potencial de conexão entre as pessoas, criando novas possibilidades de ampliação da capilaridade das redes sociais. Novas formas de conexão, de estabelecimento de links, novas formas de desenharmos nossas próprias redes e os grupos de pessoas organizados em torno da tecnologia. Surgia a dinâmica do virtual, do email, das listas de discussões e das possibilidades de nos linkarmos usando as tecnologias da rede.

De lá para cá, muitas idéias foram implementadas, muitas tecnologias foram desenvolvidas. Surgiram Yahoo, Google, Orkut, MySpace, Facebook, Ning, Blogger, Youtube e tantas outras possibilidades de conversação em rede. Das muitas promessas de ampliação da conexão e do “todos conversando com todos”, que as tecnologias da informação trouxeram, ainda observamos os mesmos padrões de comportamento das redes: clusters extremamente influentes nas articulações em rede e grupos isolados, com pouca ou nenhuma conectividade.

Novas tecnologias e novos desafios pela frente. O cenário está montado. Emerge um espaço para construção de um diálogo contínuo por várias lentes e percepções das dinâmicas de conversação, de desenvolvimento e ação que as novas tecnologias permitem a partir da construção de novas formas de redes sociais.

Le Monde

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Metade dos brasileiros vive sem rede de esgoto

11 de Outubro de 2007

Coleta e tratamento de esgoto cresce apenas 0,4% ao ano; na região Norte quase 95% estão sem atendimento
10/10/2007

Eduardo Sales de Lima
da Redação

O Brasil tem um déficit de 53% no atendimento da coleta e tratamento de esgoto. Mais da metade dos brasileiros vivem em condições precárias. E o pior, desde 1992, o acesso à coleta e tratamento de esgoto cresce apenas 0,4% por ano. Esses números constam no estudo realizado pelo economista Marcelo Neri, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Neri destaca que, nas áreas metropolitanas, 37% dos domicílios não são cobertos pela rede geral de tratamento de água e esgoto. Seu estudo surpreende ao revelar que, em Porto Alegre (RS), em particular, e na região Sul, em geral, as taxas de acesso ao saneamento básico estão em níveis inferiores aos do Nordeste. O Sul tinha 13,5% da população atendida pela rede de tratamento de água e esgoto, em 1992, e hoje o índice é de 25,8%. De 2003 a 2006, a média per capita anual de investimento em saneamento nessa região com recursos federais foi de R$ 7,07. Outra surpresa. No Rio de Janeiro, em terceiro e quarto piores lugares estavam Rio das Ostras e Búzios, destinos turísticos e áreas ricas por conta dos royalties de petróleo.

O estudo aponta que o Sudeste é a única região onde a maioria da população é atendida pela rede de água e esgoto, 75,6%. O Nordeste tem 26,3% e foi a região que mais recebeu investimentos federais entre 2003 a 2006, cerca de R$ 10,83 por pessoa/ano. A segunda região com melhor índice é a Centro-Oeste, 30,47%. A região Norte apresenta um cenário bem abaixo da média nacional, com míseros 5,24% de atendimento.

25 anos em 4

O orçamento do saneamento básico no Brasil tem, basicamente, três fontes: o Orçamento Geral da União, o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES), por meio de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Os dois últimos se enquadram na lista de recursos onerosos (empréstimos). Ainda há recursos dos próprios Estados e municípios. De 2003 a 2006, foram desembolsados pelo governo federal R$ 6,3 bilhões para a área de saneamento.

Porém, a tímida ação governamental no setor da infra-estrutura social não tem sido privilégio do governo atual. “O Brasil ficou 25 anos sem investir em saneamento ou habitação. O início do ajuste fiscal coincidiu (não por acaso) com o recuo nos investimentos no ano de 1980”, explica a urbanista e ex-secretária-executiva do Ministério das Cidades, Ermínia Maricato.

Para ela, o investimento de R$ 40 bilhões alardeado pelo governo federal pode se tornar um sério risco para as contas públicas, apesar de sua necessidade. “O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com a previsão de investimento de R$ 40 bilhões em 4 anos, é menos do que é necessário para resolver o problema, mas é muito mais do que o Estado brasileiro tem capacidade de gastar hoje”, atesta.

Ermínia reitera que a capacidade operacional do Estado foi destruída durante 25 anos de ausência de políticas sociais e entende que, mesmo que a política de saneamento não tenha sido a adequada na segunda metade dos anos de 1970, a falta dela trouxe de volta as epidemias nas cidades.

PAC

Segundo Márcio Galvão Fonseca, diretor de Água e Esgoto do Ministério das Cidades, o órgão possui um orçamento do FGTS que não tem sido possível de ser aplicado. “Não é porque não tenha o orçamento. Ele estava disponível. O problema é que Estados e municípios e as companhias de saneamento, na maioria, não conseguiam pegar esses recursos. Agora, o PAC vem ajudar a obtê-los”, explica.

Márcio afirma que o Conselho Monetário Nacional (CMN), em decorrência do PAC, vai aumentar o limite fiscal (endividamento) do setor público durante o período de implementação do programa e os recursos colocados pelo FGTS poderão, assim, ser retirados. “A gente inicia uma nova realidade nunca vista antes de investimentos. Estimamos R$ 178 bilhões para universalizar o acesso de água e esgoto aos brasileiros” afirma Márcio. Ou seja, de acordo com o Ministério das Cidades, se fossem investidos R$ 10 bilhões por ano durante 20 anos na área de saneamento básico, seria possível atender toda população.

Essa universalização do saneamento básico, porém, dificilmente pode ser alcançada dentro dos moldes do PAC, que terá recursos do Orçamento, do FAT, do FGTS e do setor privado. Para Edson Aparecido da Silva, assessor técnico de saneamento da Federação Nacional dos Urbanitários (FNU), as regiões não-rentáveis economicamente ainda podem sofrer muito com a falta de saneamento.

“Isso acontece porque os investimentos necessários para resolver o problema de coleta e tratamento de esgoto são muito altos e sempre tiveram dificuldade no financiamento. “Acre, Rondônia e Pará têm entre 50% e 61% da população com rede de abastecimento de água. É um número muito baixo. Santa Catarina, Amazonas e Tocantins têm entre 30% e 50% da população que tem abastecimento de água”, aponta Edson.

Jornal Brasil de Fato

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Homens proibidos

10 de Outubro de 2007
Da prisão com membros da Resistência italiana ao embarque para a Alemanha em vagões de gado e o trabalho forçado em Auschwitz, o autor de “É Isto um Homem?” descreve com sangue frio a vida de um judeu durante a Segunda Guerra

PRIMO LEVI

Em 9 de setembro de 1943, me refugiei com alguns amigos no Vale d’Aosta, mais precisamente em Brusson, sobre Saint-Vincent, a 54 km da capital da região.
Fazíamos parte de um grupo de “partigiani” [que se opunham ao fascismo] constituído de muitos judeus, entre os quais recordo Guido Bachi, atualmente representante da Olivetti em Paris, Cesare Vita, Luciana Nissim, depois casada com Momigliano e atualmente domiciliada em Milão, autora do livro “Donne contro il Mostro” [Mulheres contra o Monstro], e Wanda Maestro, deportada e morta num campo de extermínio.
Juntou-se a nós um sujeito que se apresentava como Meoli e que, sendo um espião, não demorou a nos denunciar. Com a exceção de Cesare Vita, que conseguiu escapar, fomos detidos em 13 de setembro de 1943 e transferidos para o quartel da Milícia Fascista de Aosta.
Ali encontramos o comandante Ferro, que, ao tomar conhecimento de que todos éramos diplomados, tratou-nos com benevolência; mais tarde, ele foi morto por “partigiani” em 1945. Devo confessar que, como “partigiani”, nós éramos bastante inexperientes; mas não menos inexperientes nos pareceram os milicianos fascistas que iniciaram uma espécie de processo contra nós.
Havia entre eles um italiano do Alto Adige que falava perfeitamente alemão, um tal de Cagni, que já havia denunciado um outro grupo de “partigiani”; e havia também o “nosso” Meoli.
Eles queriam obter de nós os nomes de outros “partigiani”, sobretudo os dos chefes. Embora estivéssemos com documentos falsos, declaramo-nos imediatamente judeus, o que nos foi vantajoso, já que a busca feita em nossos alojamentos foi tão superficial que, no meu, não encontraram nem sequer os papéis clandestinos e o revólver que eu escondera ali.
Ao saber que nós éramos judeus, e não “verdadeiros partigiani”, o comandante nos disse: “Não acontecerá nenhum mal a vocês; todos serão transferidos ao campo de Fossoli, perto de Modena”.
Recebíamos regularmente o passadio destinado aos soldados e, no final de janeiro de 1944, nos levaram a Fossoli num trem de passageiros.
Naquele campo ainda estávamos bastante bem. Não se falava de massacres, e a atmosfera era suficientemente serena. Permitiram que mantivéssemos o dinheiro que havíamos trazido conosco e que recebêssemos adicionais de fora. Trabalhamos na cozinha, em turnos, e assumimos outros serviços no campo; organizou-se até um refeitório, na verdade muito escasso!

Câmaras de gás
Em Fossoli encontrei Arturo Foà, de Turim, que olhávamos com certa desconfiança, pois conhecíamos suas simpatias pelo fascismo; e também todos os mendicantes do gueto de Veneza e os velhos daquele asilo.
Lembro-me de uma tal Scaramella e de uma Usigli. Havia ainda de 200 a 300 iugoslavos e alguns súditos da coroa inglesa.
Quando soubemos que, em 18 de fevereiro, a SS alemã tinha entrado no país, ficamos todos alarmados; de fato, no dia seguinte, avisaram-nos de que seríamos deportados em 24 horas. Ninguém tentou fugir.
Carregaram-nos em vagões de gado nos quais se lia: “Auschwitz” -nome que, naquele momento, não nos dizia absolutamente nada… A viagem durou três dias e meio; tínhamos preparado uma provisão coletiva de alimentos que fomos autorizados a levar conosco. Éramos 650 judeus…
Durante a viagem, a escolta da SS se mostrou dura e desumana; muitos foram espancados até correr sangue. Quando chegamos a Auschwitz, nos perguntaram quem era capaz de trabalhar.
De nós 96 respondemos afirmativamente, e em seguida nos conduziram a 7 km do campo até Buna Monowitz. Vinte e seis mulheres capazes de trabalhar foram transferidas ao campo de trabalho de Birkenau; todos os outros foram levados para as câmaras de gás!
Em nosso campo de trabalho havia alguns médicos judeus.
Lembro-me do dr. Coenka, de Atenas, do dr. Weiss, de Estrasburgo, do dr. Orensztejn, polonês, que se comportaram muito bem; não posso dizer o mesmo do dr. Samuelidis, de Salônica, que não escutava os pacientes que se dirigiam a ele em busca de tratamento e denunciava os enfermos à SS alemã!
Vários médicos franceses de nome Levy, ao contrário, se mostraram bastante humanos!
O nosso chefe de seção era o judeu holandês Josef Lessing, músico de orquestra profissional. Teve sob suas ordens de 20 a 60 homens e, na condição de responsável pela 98ª seção, demonstrou-se não apenas severo mas também cruel.

Retorno à pátria
Entre os trabalhadores daquele campo, me lembro de um tal Di Porto, romano, de um certo Pavoncello, ou melhor, Lello Perugia, também de Roma, de Eugenio Ravenna, comerciante, e de Giorgio Cohen, de Ferrara, além de um tal Venezia, um meio grego de Trieste. Dos trabalhadores daquele campo, 95% eram judeus!
A direção da fábrica na qual prestei os meus serviços não quis reconhecer os emolumentos devidos a nós por lei, e assim se deu que, ao voltar para o meu país, depois de vários anos, em seguida a uma ação legal comum movida pelos sobreviventes contra aquela fábrica, reconheceram e me pagaram 800 mil liras italianas como ressarcimento que me era devido nos termos da lei!
Após a chegada das tropas soviéticas, fomos novamente transferidos ao campo de Auschwitz, à espera de podermos ser repatriados.
A odisséia da volta foi bastante longa; os russos nos disseram que só poderiam fazer nossa repatriação por mar, embarcando-nos nada menos que em Odessa! Primeiramente nos transferiram para Katowice, depois para Minsk, depois para Sluck e, quando Deus quis, retornamos finalmente à Itália.

Este texto saiu no “La Repubblica”. Tradução de Maurício Santana Dias .

Jornal Folha de S. Paulo

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PL 578/07 ou “a vida como ela é”

PLINIO DE ARRUDA SAMPAIO

É NOTÓRIO que o Pontal do Paranapanema foi, há décadas, objeto da maior apropriação ilegal de terras (grilagem) já ocorrida no Estado de São Paulo -processo descrito em inúmeras teses acadêmicas, reportagens e sentenças judiciais.
Contudo, até hoje a Justiça de São Paulo não concluiu as ações para a retomada dessas terras. A demora do Judiciário é a justificativa do projeto 578/07, que o governador enviou à Assembléia Legislativa, solicitando autorização para fazer acordos com os atuais posseiros de grandes fazendas -algumas realmente gigantescas (com mais de 5.000 hectares).
O projeto é escandaloso dos pontos de vista jurídico, social e ético.
Juridicamente, como demonstrou o professor Dalmo Dallari, o projeto, ao admitir a venda de terras públicas sem licitação, fere o artigo 37, inciso XXI, da Constituição Federal. Além disso, infringe a regra que proíbe ao agente público desistir de ação judicial proposta para defender direito do Estado, salvo em caso de relevante interesse público.
Se juridicamente o projeto não se sustenta, socialmente é um descalabro. Como pode ser de interesse público entregar, de mão beijada, meio milhão de hectares de terras a pessoas que as adquiriram sabendo perfeitamente bem tratar-se de terras griladas?
Com apenas 300 mil hectares das terras atualmente na posse de ocupantes ilegítimos, o governo assentaria, na região, 15 mil das 150 mil famílias que vivem, há anos, acampadas na beira das estradas pelo Brasil afora à espera de terra para trabalhar.
Que relevante interesse público pode haver na utilização de terras do Estado para manter grandes fazendas pecuárias ou substituí-las por imensos agronegócios se ambas as atividades não empregam sequer a mão-de-obra ociosa local? Mas é do ponto de vista ético que o projeto mais escandaliza.
Sem entrar em juízo de valor a respeito da intenção dos seus autores, a verdade é que a proposta, objetivamente, representa a capitulação do governo do Estado de São Paulo diante de um dos traços mais perversos da cultura brasileira: neste país, as pessoas poderosas podem infringir as leis impunemente, desde que tenham recursos para sustentar a ilegalidade durante algum tempo -o que se consegue com bons advogados, subornos, barganhas políticas e coações.
No caso específico da questão fundiária, o latifúndio impôs à sociedade brasileira o fato consumado -um padrão de institucionalização arbitrária e instável, que deixa a terra à mercê dos grandes negócios. A necessidade de adequar a estrutura agrária às exigências de uma agricultura itinerante, baseada na exploração predatória dos recursos naturais, na superexploração dos trabalhadores e na monocultura em grande escala bloqueia o acesso do homem pobre à terra e deixa o pequeno produtor sujeito aos atropelos do “progresso”.
Desde os tempos do império, as classes dominantes não permitem ao país institucionalizar-se, pois, desse modo, têm condições ideais para usar sua força econômica e política na criação de fatos consumados -fatos que, com a passagem do tempo, tornam-se justificativas “sociais” para casuísmos que legitimam a falcatrua.
Quem quiser se informar sobre esse processo pode ler o excelente trabalho da professora Ligia Osorio Silva: “Terras Devolutas e Latifúndio”.
O que está sendo sancionado pelo PL 578 é o secular mecanismo de reprodução do latifúndio ali descrito. Não passa de um “casuísmo” que recompensa toda a cadeia de beneficiários dos conhecidos grilos Pirapó-Santo Anastácio e Boa Esperança do Aguapeí, perpetrados no final do século 19.
Enquanto a Justiça levar décadas para julgar ações contra grileiros e menos de 48 horas para decretar um despejo quando trabalhadores sem-terra ocupam área improdutiva e, sobretudo, enquanto os homens públicos se renderem resignadamente à cultura da “vida como ela é”, não haverá desenvolvimento nem paz social -seja no Pontal do Paranapanema, seja em qualquer recanto do país.

PLINIO DE ARRUDA SAMPAIO, 77, advogado, é presidente da Abra (Associação Brasileira de Reforma Agrária). Foi deputado federal pelo PT-SP (1985-91) e consultor da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação).

Jornal Folha de S. Paulo

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O “poder global”

Do ponto de vista do “poder global”, desordem, crise e guerra não são, por si mesmos, um anuncio do “fim”, são uma parte necessária do movimento de expansão do sistema mundial. Deste mesmo ponto de vista, falar de uma “crise terminal”, com data marcada, de um poder hegemônico é um absurdo teórico e histórico.

José Luís Fiori

“A esperança e a previsão, embora inseparáveis, não são a mesma coisa, e toda previsão sobre o mundo real tem que repousar em algum tipo de inferência sobre o futuro, a partir daquilo que aconteceu no passado, ou seja, a partir da história.”

Eric Hobsbawm, Sobre a História, Companhia das Letras, p:67

Na década de 70, do século XX, discutiu-se muito sobre a “crise da hegemonia americana”. Foi no tempo da derrota dos EUA, no Vietnã, da crise do “padrão dólar”, da subida do preço do petróleo e do fim do crescimento econômico acelerado do pós-guerra. E foi também, no tempo da Revolução Sandinista, da Nicarágua, da revolução islâmica, do Irã, e da invasão soviética, do Afeganistão, consideradas, na época, grandes derrotas da política externa norte-americana. Hoje, quase quarenta anos depois, volta-se a falar com insistência, do declínio do poder mundial dos Estados Unidos.

O historiador inglês, Eric Hobsbawm, afirmou numa entrevista recente, que o “projeto americano está falindo”, e que a “superioridade dos Estados Unidos é um fenômeno temporário” . Quase na mesma linha do economista italiano, Giovanni Arrighi, que defende a tese que a “hegemonia americana” está vivendo uma “crise terminal”, depois do “fracasso do projeto neo-conservador no Iraque”, e depois que “os Estados Unidos deixaram de ser um estado hegemônico que criava ordem, para se tornarem uma força do caos e da desordem” . No caso do sociólogo norte-americano, Immanuel Wallerstein, a previsão é ainda mais radical: o que está em crise e deve acabar até a metade do Século XXI, não é apenas a hegemonia americana, é o próprio “sistema mundial moderno” que se formou a partir da Europa, depois do século XVI . Mas nenhum destes autores consegue definir com precisão o que seja uma “crise terminal”, do poder e da superioridade americana, ou do próprio “sistema mundial moderno”, de que fala Wallerstein.

Por que se trataria de uma “crise terminal”, e não apenas de uma crise cíclica ou passageira? e além disto, mesmo que fosse “terminal”, qual seria a sua duração e o seu desfecho? e o que é mais importante, o que passaria no mundo, durante este período de transição e de espera do “juízo final”?

Na verdade, o ponto fraco de todas estas previsões não está na sua análise da conjuntura internacional, está na teoria em que se apóiam suas projeções de longo prazo: a hipótese de que o “sistema mundial moderno” requer a existencia de “potencias hegemônicas” sucessivas, para manter a sua ordem política e o bom funcionamento da sua economia internacional. Dentro desta teoria das “sucessões hegemônicas”, o “líder” ou “hegemon” aparece na história como uma espécie de “resposta funcional” ao problema da “ingovernabilidade” de um sistema que é anárquico, porque é formado por estados nacionais soberanos. Por isto, em geral, esta teoria destaca as contribuições positivas do hegemon, para o bom funcionamento e para “governaça global” do sistema, sem dar maior atenção à dinâmica contraditória das relações existentes entre o “hegemon” e os demais estados que participam do sistema mundial.

Por isto também, esta teoria funcional e evolucionista da “hegemonia”, não consegue dar conta do movimento contínuo de competição, luta e expansão dos estados e economias nacionais que já conquistaram a condição de “grandes potências”, e fazem parte do “núcleo central” de todo o sistema, mas seguem competindo entre si, mesmo nos períodos que aparentam uma alta “tranqüilidade hegemônica”. Daí sua dificuldade para compreender situações de conflito e de ruptura, e a pressa com que estas análises e previsões, anunciam “crises terminais”, a cada nova turbulência econômica, guerra, ou derrota do “hegemon”, sem considerar a possibilidade que estas crises e guerras possam fazer parte do processo de reprodução e expansão do poder e riqueza do próprio “hegemon”, que não foi eleito para ser representante, nem para cuidar dos interesses gerais da humanidade.

A crítica desta teoria da “hegemonia mundial”, e destas previsões baseadas na hipótese dos “ciclos hegemônicos”, está na origem do conceito e da pesquisa sobre o “poder global” : um modo de olhar e analisar o sistema político mundial e suas relações com a internacionalização capitalista, que privilegia o conflito e as contradições do sistema mais do que suas relações funcionais. Da perspectiva do “poder global”, o sistema mundial é uma “máquina de acumulação de poder e riqueza”, e seu motor é a competição e a guerra, entre seus estados e economias nacionais. Dentro deste “sistema mundial”, não existem países satisfeitos, todos estão sempre se propondo aumentar seu poder e sua riqueza, e neste sentido, todos são expansivos, em particular, as “grandes potências” que já ocupam o topo da hierarquia do poder e da riqueza mundiais.

Por isto, este sistema pode ser comparado com um “universo” em expansão contínua, onde todas as potências que lutam pelo poder global, estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra. E como conseqüência, se pode afirmar com toda certeza que dentro deste universo, ou seja, dentro do “sistema mundial moderno”, nunca houve nem haverá “paz perpétua”, nem hegemonia estável . Pelo contrário, do nosso ponto de vista, o que ordena e “estabiliza” as relações hierárquicas internas do sistema mundial, paradoxalmente, é a existência de “eixos conflitivos crônicos”, junto com a permanente possibilidade de uma nova guerra, entre as grandes potências.

Por isto, do ponto de vista do “poder global”, desordem, crise e guerra não são, por si mesmos, um anuncio do “fim”, são uma parte necessária do movimento de expansão do sistema mundial. E deste mesmo ponto de vista, falar de uma “crise terminal”, com data marcada, de um poder hegemônico, ou do próprio “sistema mundial moderno” é um absurdo teórico e histórico. Até porque, no tempo de espera da “hora final”, o mais provável é que o sistema siga enfrentando e superando crises econômicas, como em toda a história da internacionalização capitalista, e situações de guerra, como em toda a história geopolítica das nações, inaugurada pela Paz de Westfália, em 1648. E, portanto, com relação a este tempo de espera, todas estas previsões “terminais”, são absolutamente inúteis.

Carta Maior

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Para compreender a Ontologia de Lukács

SERGIO LESSA

O texto que agora vem a público, graças ao estímulo de Paulo Denisar Fraga, com o título Para compreender a Ontologia de Lukács, é uma reedição, revista e ampliada, de A Ontologia de Lukács. Este texto conheceu duas edições anteriores, ambas pela Editora da Universidade Federal de Alagoas em 1995 e 1997. Escrito em 1991, se propõe como uma introdução à Ontologia[1] de Lukács. Inicia-se pela fábula de um indivíduo covarde que se torna herói e dá origem a uma dinastia hereditária depois de um ato de extrema coragem por mero acaso e, a partir de vários momentos dessa fábula, analisa as categorias trabalho, reprodução, ideologia e alienação, as categorias principais da ontologia lukácsiana. Além de algumas atualizações e a adoção da tradução de Entfremdung e Entäusserung como alienação e exteriorização, respectivamente, foram acrescentados um novo capítulo sobre a relação entre o trabalho e as classes sociais no capitalismo atual e dois artigos que poderão auxiliar na introdução ao pensamento lukácsiano.

Não deixa de ser curioso que um livro alcance sua terceira edição antes da publicação do texto do qual pretende ser uma introdução. Essa, aliás, foi a resistência de alguns editores. A curiosa trajetória da Ontologia de Lukács entre nós sem dúvida é responsável por esse fato: das obras marxistas ainda não publicadas em nosso país, provavelmente é a que conseguiu maior divulgação e a que gerou um maior corpo de pesquisadores. Esse fato é significativo, também, se considerarmos ser ela um manuscrito de difícil leitura e que dela há apenas uma edição em italiano (a mais utilizada entre nós) e outra alemã (uma raridade, da qual tenho conhecimento de apenas 3 exemplares em nosso país). Não nos ocorre outro texto que tenha gerado tal interesse e – em muitos casos – uma tal paixão, antes de ser traduzido.

Como explicar esse fato?

Agora, já de uma perspectiva de três décadas, evidencia-se que a onda pós-moderna nada mais é que a explicitação dos pressupostos ideológicos últimos da assim chamada reestruturação produtiva do capital. Seu individualismo, sua concepção de mundo centrada na singularidade, sua negação da história e das tendências históricas universais, sua valorização abstrata dos procedimentos formais da democracia, sua adoração ao mercado, etc., serviram e servem apenas para tentar tornar aceitável no plano ideológico o inaceitável para a humanidade: o aprofundamento e a intensificação das alienações típicas do capital. As teses de Jameson (1997) e de Harvey (1992), para os quais estaria de fato havendo uma alteração objetiva no tempo que, ao menos em parte, justificaria o pós-modernismo, soam hoje como indevidas concessões ao conservadorismo pós-moderno. Ao contrário, as análises, ainda que mais rápidas e de menor fôlego de Calinicos (1989) e de Perry Anderson (1998) se revelaram certeiras: muito mais que a contrapartida teórica de mudanças objetivas, o pós-modernismo é a radicalização até o limite do individualismo burguês em um período de crise geral do capital e, portanto, de crise geral de sua sociabilidade. Nenhum dos dois autores, é verdade, na análise de crise chegam à precisão e riqueza que encontramos em Mészáros (2002), todavia a crítica que realizaram ao pós-modernismo mantém muito de sua atualidade e vigor, mesmo tantos anos depois.

Apesar de haver falecido muito antes da expansão da modalidade pós-moderna do irracionalismo e ainda que tivesse como seus adversários teóricos imediatos o estruturalismo e o stalinismo, ao se propor a gigantesca tarefa de resgatar os fundamentos últimos do pensamento de Marx, Lukács terminou trazendo uma contribuição fundamental ao combate de idéias contemporâneo – ainda que, repetimos, esse tenha sido um “efeito colateral” de modo algum antecipado pelo autor húngaro. Não seria uma falsidade afirmar-se que a Ontologia está entre as obras da segunda metade do século XX que mais frontalmente se opõem a todos os pressupostos e a todos os desdobramentos importantes dos pós-modernos. Em primeiro lugar, porque demonstra a insuperável conexão entre singular e universal, tanto do ponto de vista da existência da singularidade como da existência da totalidade. Demonstra, muito mais do que argumenta, que não há singular que não seja partícipe de uma totalidade e que, por isso, não há totalidade que não seja síntese de singularidades. E, portanto, que a totalidade contém uma qualidade distinta de cada singularidade, na medida em que a síntese das singularidades em totalidade dá origem a um processo que é mais amplo, rico e articulado que as singularidades tomadas isoladamente. Em segundo lugar, porque demonstra a insuperável historicidade de todo o existente, desde o inorgânico, orgânico até o social. A historicidade comparece, ao final da Ontologia, como uma determinação ontológica universal por excelência.

Em terceiro lugar, e decorrente dos dois pontos anteriores, o confronto de Lukács com o pós-modernismo é radical porque demonstra que a essência é uma determinação da história, da qual é parte movida e movente, na feliz expressão do autor húngaro. A humanidade (ou, como prefere o “gênero humano”) é um processo histórico no qual os atos singulares dos indivíduos se sintetizam em tendências históricas universais as quais, por sua vez, retroagem sobre a situação histórica em que vivem os indivíduos, articulando desse modo, em uma rica, contraditória e sempre dinâmica inter-relação os atos individuais com as tendências mais gerais do desenvolvimento humano. E, por fim, como a reação dos indivíduos à situação histórica concreta é sempre mediada pelas suas consciências, a subjetividade comparece como uma mediação insuperável de todos os processos históricos, sejam eles mais universais ou mais singulares. A subjetividade, a personalidade de cada um de nós, é, portanto, uma mediação objetiva – isto é, que exerce efeitos objetivos, materiais — da reprodução social. Apenas por ser subjetividade é que a idéia (e, por extensão, os complexos ideológicos) pode exercer uma ação efetiva, real, sobre o desenvolvimento dos processos sociais, sejam eles os mais singulares (a reprodução das personalidades dos indivíduos) ou as tendências históricas mais universais.

Cada um desses tópicos é uma questão fascinante e que tem merecido estudos aprofundados, na maior parte das vezes em pesquisas de pós-graduação. O que procuraremos argumentar, nesse artigo, é outro aspecto desse complexo de questões: toda essa articulação categorial apenas é possível porque tem o trabalho como a categoria fundante do mundo dos homens e, portanto, todos os outros complexos sociais são fundados pelo trabalho. De fato, sem a totalidade social ter seu momento fundante no trabalho, nenhuma das demonstrações que Lukács alega (até agora, pelo menos, com toda razão) haver retirado de Marx permaneceria de pé.

A razão de o trabalho ser a categoria fundante do mundo dos homens brota diretamente da história; ou seja, nem é uma dedução filosófica de qualquer tipo, nem sequer é um axioma. Ao menos não no pensamento de Lukács. Para o autor húngaro, como o ser social é precedido pelo desenvolvimento da vida, em particular pelo desenvolvimento dos hominídeos, herdamos a condição de que sem a transformação da natureza não há qualquer reprodução social possível na exata medida que não há qualquer reprodução biológica dos indivíduos. Portanto, converter a natureza nos meios de produção e de subsistência é a razão primeira da vida gregária dos humanos: vivemos em sociedade porque apenas assim podemos produzir o indispensável à nossa reprodução biológica e, portanto, para que o atendimento da condição primeira da reprodução social. Em sendo assim, será nesse intercâmbio orgânico com a natureza que serão produzidas as necessidades e as possibilidades que tenderão a predominar ao longo da história (daqui o desenvolvimento das forças produtivas[2] ser o momento predominante do desenvolvimento das formações sociais). E é também aqui que tem seu fundamento o fato de ser o trabalho a categoria fundante do mundo dos homens. Será na transformação da natureza que serão produzidas as necessidades e possibilidades que tenderão a ser predominantes ao longo do tempo e que expressam o modo peculiar dos humanos converterem a natureza no que necessitam: apenas os humanos constroem na consciência antes de construírem objetivamente.

O fato de todo ato humano (e, portanto, não apenas o trabalho) ser a conversão em um ente objetivo de algo previamente idealizado (isto é, construído na consciência antes que na objetividade), faz com que a transformação do real favoreça o confronto entre o que pensamos acerca do mundo e o que de fato o mundo é. Ou seja, nossa concepção de mundo é colocada em xeque toda vez que agimos e, desse modo, é possível a produção de conhecimentos e habilidades que não se possuía antes. Analogamente, ao produzir um novo ente (seja ele natureza transformada, como no caso do trabalho, ou uma nova relação social) a sociedade passa a contar com possibilidades e necessidades que não possuía antes. Portanto, ao produzir sua finalidade imediata, tanto o trabalho como os outros atos humanos geram necessidades e possibilidades, subjetivas e objetivas, que remetem para muito além das suas finalidades mais imediatas. É por isso que, em se tratando do trabalho, Lukács vai argumentar que ele remete sempre para além de si próprio, gera muito mais do que sua finalidade imediata, sendo por isso a origem de um processo de reprodução social que tende a ser muito mais amplo, rico e mediado que o próprio ato de trabalho.

Trabalho e reprodução social, desse modo, articulam-se de tal modo que um não pode existir fora da relação com o outro: todo trabalho é um momento da reprodução de uma dada formação social a qual, por sua vez, tem no padrão do intercâmbio orgânico que desdobra com a natureza (o trabalho), seu momento fundante. O trabalho escravo funda o escravismo mas, todavia, apenas pode existir no interior do modo de produção escravista; o mesmo para o trabalho servil e o feudalismo e o trabalho proletário e o capitalismo maduro, etc. Indivíduo e totalidade social, pessoa e história, estão, desse modo, ricamente articulados: não há ato individual (ou não há indivíduo) fora da reprodução social (ou, fora de uma formação social) pela mesma razão que sem indivíduos que agem cotidianamente não pode haver qualquer história.

Confrontada à densa e rica articulação categorial da Ontologia de Lukács, frente à sua demonstração do processo pelo qual os homens se fizeram humanos (ainda que alienadamente humanos), a debilidade das teses pós-modernas é tão palmar que apenas o fato de serem expressões ideológicas das misérias do presente confere a elas alguma aparência de verdade. Não é, por tudo isso, descabido dizer que encontramos na Ontologia de Lukács uma das obras que mais frontalmente se opõem à concepção de mundo pós-moderna.

Se a contribuição da obra póstuma de Lukács se limitasse a esse seu confronto com o pós-moderno, já seria de enorme monta. Todavia, há ainda outro aspecto no qual a Ontologia tem uma contribuição fundamental para o debate contemporâneo, agora mais especificamente no campo da esquerda. Ainda que seja uma questão bastante complexa, com vários aspectos muitas vezes indevidamente confundidos, é possível se resumir a questão nesses termos: o trabalho categoria fundante do mundo dos homens é sempre trabalho manual. Pois, no dizer de Marx, “[…] como o homem precisa de um pulmão para respirar, ele precisa de uma ‘criação da mão humana’ para consumir produtivamente forças da natureza” (Marx, 1985: 17). Não há qualquer sociabilidade que não tenha seu fundamento nessa relação com a natureza e, correlativamente, não há riqueza social que não seja produzida pelo trabalho manual. Os escravos produzem toda a riqueza do escravismo, os servos do feudalismo e os operários do capitalismo maduro. Essa é uma determinação ontológica decorrente de ser o trabalho fundante do mundo dos homens: é pelo trabalho das mãos (por mais complexo que ele se torne, por mais que tenha entre os dedos e a natureza toneladas de ferramentas, etc.) que a riqueza social é produzida. E daqui, também, que todo trabalho intelectual, momento de preparação, organização, coordenação, avaliação – de controle, enfim, do trabalho manual, não se confunde com a produção da riqueza das sociedades.

Essa tese causa, quase sempre, espanto: não seria hoje, com o desenvolvimento das novas tecnologias, a ciência (por exemplo) uma força produtiva? Para Habermas, certamente o seria. Para Lukács e para Marx, absolutamente não. Pois, tal como há uma enorme diferença ontológica entre o controle e organização do trabalho escravo pelo senhor de escravo (com o auxílio de seu empregado assalariado, o feitor ou o soldado) e a produção realizada pelo escravo, também há uma fundamental divisão de classe entre os indivíduos que realizam tais atividades. Os que realizam o controle do trabalho, o assim denominado trabalho intelectual, fazem parte da classe dominante ou de seus auxiliares assalariados. Eles compõem a porção parasitária da sociedade que vive da riqueza produzida pelos escravos. Algo análogo (não semelhante porque há mediações inteiramente novas) ocorre no capitalismo contemporâneo: de um lado a burguesia e o que Marx denominou de “classes de transição”, de outro lado os trabalhadores manuais que produzem o “conteúdo material da riqueza social” (Marx, 1983:46). Tanto na sociedade escravista, quanto na mais contemporânea, o caráter fundante do trabalho impõe, com rigor histórico, o peculiar caráter de classe de quem o realiza: escravos, servos e proletários.

Como se postulam marxistas uma boa parte das teses que afirmam o fim do proletariado, quer pela sua dissolução entre os assalariados, quer pela conversão da classe média em proletária, elas terminam enredas em um ecletismo sem remissão. Pois pretendem afirmar a tese marxiana do trabalho como categoria fundante do mundo dos homens e, ao mesmo tempo, postulam que há riqueza produzida fora do intercâmbio orgânico com a natureza, de tal modo que os assalariados em geral (e não apenas os proletários) seriam a gênese da riqueza capitalista. Se Lukács estiver correto, há uma contradição entre as teses da dissolução de classe (e, portanto, a dissolução da sua função na reprodução social) do proletariado e a tese do trabalho enquanto categoria fundante do mundo dos homens. Postular pertencerem à mesma classe social os assalariados e os proletários apenas é possível, se Lukács estiver correto, pelo abandono do trabalho (do intercâmbio orgânico com a natureza) como a categoria fundante do mundo dos homens (por exemplo, Habermas), ou que adotemos uma definição de trabalho de modo a incluir nele outras atividades que não apenas o intercâmbio com a natureza (como ocorre com enorme freqüência nos dias de hoje).

Em outras palavras, as transformações técnicas e gerenciais contemporâneas, a crise estrutural do capital que é seu fundamento, por mais que alterem e modulem a relação entre as classes, não pode abolir o proletariado fabril e agrícola pela sua dissolução entre os assalariados. Sua existência decorre do caráter fundante do trabalho manual[3] que o proletariado realiza para a sociabilidade burguesa. E, conseqüentemente, por ser a única classe que vive da riqueza que ela própria produz, é a classe revolucionária por excelência, pois a única classe que nada tem a perder com a superação da propriedade privada, das classes sociais, do Estado e do casamento monogâmico senão seus grilhões.

É isso, a nosso ver, que torna a obra de Lukács tão importante a ponto de se difundir entre nós — e propiciar o surgimento de um corpo de pesquisadores não desprezível — mesmo antes de ter sido traduzida. E é ao redor dessas questões que nos parecem centrais que organizamos o texto de introdução que agora vem a público.

__________

[1] A Ontologia de Lukács são os manuscritos deixados incompletos pelo autor húngaro quando de seu falecimento em 1971. Depois da edição italiana e alemã dos mesmos, ficaram organizados em dois textos. Um maior, corriqueiramente chamado de Ontologia ou Ontologia do Ser Social, contém o manuscrito intitulado Para uma ontologia do ser social. Este se divide em duas grandes partes, a primeira, histórica, que faz um balanço da situação da ontologia no século XX e, a segunda, dita sistemática, que contém os quatro capítulos intitulados Trabalho, Reprodução, Ideologia e Alienação. O segundo manuscrito, bem menor, contém os Prolegômenos, cujo nome completo é Prolegômenos a uma ontologia hoje tornada possível. Os direitos autorais desses manuscritos já foram diversas vezes adquiridos por editoras brasileiras. A última delas é a Boitempo, que detém os direitos de publicação em nosso país e que anunciou a intenção de publicar os Prolegômenos seguidos pelo texto da Ontologia. Para uma introdução acerca da relação entre os dois manuscritos de Lukács, o texto mais interessante é a introdução de Nicolas Tertulian à edição italiana dos Prolegômenos, publicado no Brasil, na revista Crítica Marxista n. 3, com o título de “Uma apresentação à Ontologia do ser social, de Lukács” (Tertulian, 1996).
[2] E não da técnica, é bom se assinalar dado o fetichismo da técnica tão comum em época de reestruturação produtiva.
[3] Desnecessário acrescentar que nem toda atividade manual é trabalho, como por exemplo a do escultor, do médico, etc.

Revista Espaço Acadêmico

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Ascensão e declínio de Superpotências

O declínio dos Estados Unidos

Henrique Rattner

A história da modernidade é rica em ensinamentos sobre a ascensão e o declínio de impérios baseados na acumulação irrefreada de riquezas materiais e alavancados por conquistas militares que levaram à subjugação e posterior exploração de outros povos. Às conquistas dos portugueses e espanhóis no século XVI, seguiu a expansão comercial holandesa no século XVII, substituída no século XVIII pelos franceses e britânicos. O império britânico atingiu seu apogeu no século XIX, entrando em decadência a partir da 1a guerra mundial que inaugurou o século da supremacia dos Estados Unidos da América do Norte.

Na corrida armamentista durante a Guerra Fria, a ex-União Soviética tentou contestar a hegemonia americana; sem sucesso, entrou em colapso em 1989.

No último quartel do século XX, após uma reconstrução inédita de sua indústria e infra-estrutura, o Japão despontou como potência industrial e financeira, o que levou vários estudiosos da geopolítica a indagar: “será o Japão o número um?”

Contudo, apesar de avanços espetaculares de sua indústria e tecnologia, o Japão, com base territorial reduzida e insular, sem recursos naturais e energéticos próprios, ficou restrito ao segundo lugar entre os países desenvolvidos, membros da OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico –, alcançando seu PIB – Produto Interno Bruto – o valor respeitável de 4,5 trilhões de dólares.

A hegemonia econômico-financeira e militar, desde o fim da 2a guerra mundial, ficou com os Estados Unidos, apesar da contestação no âmbito militar pela ex-União Soviética. Durante a “Guerra Fria”, as duas superpotências construíram um arsenal de bombas atômicas – aproximadamente 10.000 cada uma, posteriormente reduzido a 5.000 em cada país, com capacidade de destruição inimaginável de todo o planeta. Após o desmoronamento da ex-União Soviética, em 1989, os estrategistas dos dois lados do Atlântico apressaram-se em proclamar o “fim da história”, com a vitória e hegemonia incontestável do capitalismo norte-americano.

Efetivamente, os Estados Unidos têm a maior economia do mundo, com um PIB de 11,5 trilhões de dólares, embora sofram de um déficit crescente em sua balança comercial, sobretudo com os países do Oriente. China, Japão, Taiwan, Coréia do Sul juntos têm reservas cambiais de mais de 2 trilhões de dólares, o que revela a vulnerabilidade financeira da potência hegemônica, cujas finanças seguem desequilibradas, em ritmo crescente.

Os Estados Unidos têm o maior orçamento de defesa, praticamente igual ao de todos os outros países juntos e suas forças armadas – exército, armada naval e força aérea estão equipados com a mais avançada aparelhagem tecnológica. Sua frota de navios de guerra, capitaneada por 12 porta-aviões, está em todos os mares e a força aérea conta com o maior número de aviões de caça voando com velocidade supersônica e de bombardeiros capazes de carregar e despejar artefatos nucleares em qualquer parte do mundo. O número de soldados efetivos é de 1.500.000, o que permitiu o envolvimento em duas guerras simultaneamente. Após a invasão do Afeganistão, em 2001, para aniquilar os combatentes da Al Qaeda e do Talibã, as tropas norte-americanas invadiram, em 2003, o Iraque, contrariando a opinião mundial, as Nações Unidas e seu Conselho de Segurança. O motivo alegado por George W. Bush e Tony Blair da existência de depósitos de armas de destruição em massa – químicas, biológicas e nucleares – nunca foi comprovado.

Quatro anos depois da invasão, e o aprisionamento, julgamento e execução de Saddam Hussein, o desastre militar no Iraque fica cada vez mais evidente e inextrincável. Com 4.000 soldados aliados mortos e dezenas de milhares feridos e mutilados, o Iraque está submergido numa guerra civil entre xiitas e sunitas, enquanto mais de 2 milhões de civis fugiram do país. O número de vítimas civis entre a população iraquiana é estimado em centenas de milhares, tornando trágica a pretensão de Bush de implantar um regime democrático no Oriente Médio.

Enquanto as perdas em homens e equipamentos alcançam cifras astronômicas, cresce a pressão interna, nos Estados Unidos, para uma retirada de seus militares. Mas, como abandonar o Iraque, sem evocar de novo o desastre da retirada de mais de meio milhão de soldados do Vietnã, derrotados pelos exércitos “descalços”, há 32 anos?

Acrescenta-se o ressurgimento de combates no Afeganistão, onde as tropas americanas e da NATO enfrentam os guerrilheiros do Talibã, da Al Qaeda e dos “insurgentes” tribais, evidenciando a impotência do governo central “eleito” de Hamid Karzai de impor um mínimo de lei e segurança pública.

O engajamento das forças armadas dos Estados Unidos nos dois países estendeu sua capacidade de operar além dos limites e configura a derrota fragorosa da superpotência. O Congresso norte-americano, dominado por escassa maioria democrata, após as últimas eleições de 2006, votou uma proposta fixando a data de retirada das tropas norte-americanas do Iraque, prontamente vetada pelo presidente Bush. Mas, também os democratas não querem assumir a responsabilidade pública do decreto e não sabem o que fazer diante da carnificina diária por carros-bomba e ataques por homens-suicidas contra alvos civis e militares que já causaram inúmeras vítimas entre os iraquianos e outros que procuram abandonar o país destruído.

Apesar de todo o poderio de suas armas, o prestígio militar dos Estados Unidos tem sofrido um abalo do qual nenhuma nova aventura militar (Irã, Coréia do Norte, Síria) poderia resgatá-lo. Os recursos bélicos estão no limite de sua utilização eficaz, dado que para cada brigada em combate, há necessidade de duas em atividades de apoio e treinamento. O recrutamento de novos voluntários está ficando cada vez mais difícil o que levou o comando a baixar as exigências de qualificação de novos recrutas. O tempo de exposição das tropas ao combate foi aumentado para seis meses seguidos de igual período de recuperação e treinamento. As tropas inglesas concentradas na região de Basra mantêm quatro meses de combate seguidos de oito meses de recuperação. O número de soldados mortos aumenta constantemente e, mais ainda aqueles que necessitam de longos períodos de tratamento psicológico para superar o trauma e o “stress” permanentes. Cresce também, em proporções alarmantes, o número de soldados mutilados – mais de 20.000 – cujo tratamento e readaptação à vida constituem um imenso problema social e financeiro.

Embora continue incontestável a supremacia militar dos Estados Unidos, seu prestígio político e moral têm sofrido sérios abalos, pelo mundo afora e entre a própria população norte-americana.

Durante décadas, as forças armadas norte-americanas foram treinadas para enfrentar os poderosos exércitos da ex-União Soviética, dando-se pouca importância a pequenos conflitos regionais, embora não faltassem advertências de militares sobre a inadequação do treinamento e do equipamento para um conflito com guerrilheiros urbanos. Poucas unidades dos 1,5 milhão de soldados estão preparadas para lutar contra os “insurgentes” no Iraque e no Afeganistão, entrincheirados sob edifícios civis, onde o emprego maciço da aviação e de veículos blindados pesados se tem revelado ineficaz para expulsar os combatentes inimigos, enquanto tem causado inúmeras vítimas entre civis e destruído cidades inteiras.

A doutrina militar herdada da 2a guerra mundial (“Blitzkrieg”) não funciona em condições de combate com guerrilheiros urbanos, como bem aprenderam as tropas norte-americanas e seus mercenários no Iraque, e os israelenses no curto conflito com o Hezbolah, no Líbano, em julho de 2006.

Às perdas enormes em vidas humanas e ao custo financeiro deve ser acrescentada a decadência do prestígio político e moral entre os americanos e seus aliados.

O envolvimento em conflitos sangrentos, reprovado por praticamente todos os governos e povos, com exceção de Tony Blair, companheiro de Bush nas mentiras sobre depósitos de armas de destruição em massa no Iraque, foi seguido pelo horror causado no mundo após os relatos sobre as atrocidades cometidas por soldados norte-americanos em Abu Ghraib, a manutenção em prisão e tortura de prisioneiros “suspeitos” de atividades terroristas em Guantánamo, Cuba e a divulgação de operações ilegais da CIA em vários países europeus.

A confiança e auto-estima dos norte-americanos foram profundamente atingidas, moral e legalmente, por medidas propostas por Bush e aprovadas pelo Congresso, então com maioria republicana, tais como o Military Commissions Act, a autorização de torturas em “certas circunstâncias” e restrição ao habeas corpus que constituem uma grave ameaça à democracia e aos direitos humanos. Ainda antes da aprovação dessas leis pelo Congresso, o Governo Bush lançou mão de seqüestros, encarceramento e tortura de pessoas que jamais haviam sido formalmente acusadas de qualquer crime específico.

Efetivamente, com exceção de Blair que não mais representa o povo britânico, os Estados Unidos não contam com o apoio ou a solidariedade de nenhuma região do planeta. Analistas e estrategistas militares levantam conjecturas sobre os impactos causados pela guerra do Iraque no “declínio do império” e que possam resultar em redesenho do mapa e do equilíbrio geopolítico no mundo.

Tanto na Europa ocidental, na África e, sobretudo, na América Latina, alastram-se profundos sentimentos de rejeição e crítica às políticas norte-americanas. O mundo islâmico, com mais de um bilhão de pessoas, desde Indonésia e Malásia até o norte da África condena os Estados Unidos e sua política no Oriente Médio. Mesmo no Extremo Oriente, cujos países estão sob o guarda-chuva de proteção nuclear norte-americana contra possíveis, mas improváveis ataques da Coréia do Norte, os japoneses, coreanos, taiwaneses adotam freqüentemente atitudes abertamente hostis contra os americanos.

As relações com a Rússia continuam tensas, apesar dos encontros entre Bush e Putin que, além das 5.000 armas atômicas armazenadas, controla crescentemente o abastecimento dos países europeus com o gás combustível. Embora não haja perspectivas de um conflito armado com a Rússia, seu regime autoritário, a repressão interna de qualquer oposição e a venda de armas sofisticadas, inclusive aviões de caça supersônicos constituem fator de preocupação permanente do governo norte-americano.

Ademais, o Governo Putin acaba de anunciar a retirada da Rússia do tratado sobre a limitação de armas convencionais na Europa que foi considerado como o primeiro passo em direção ao desarmamento. A decisão da Rússia é claramente uma reação à suposta ameaça que representaria a construção, pelos Estados Unidos de um escudo antimísseis na República Tcheca e na Polônia, alegando o perigo de mísseis carregados de bombas nucleares do Irã.

A contraproposta de Putin de ampliar e administrar em conjunto a base já existente no Azerbaijão, próxima à fronteira com o Irão, foi descartada por Bush.

Mas, a maior fonte de preocupação para a política norte-americana e concebida como ameaça mais séria a sua hegemonia é a ascensão da China, com mais de 1,3 bilhões de população e cuja influência e presença econômica, comercial e tecnológica permeia o atual cenário internacional.

Há um quarto de século a China investe, anualmente, pesadamente (até 50% de seu PIB) no seu crescimento econômico, na educação, no desenvolvimento tecnológico e na modernização de suas forças armadas, e tem construído e mandado para o espaço naves e satélites, além, também, de dispor de centenas de armas nucleares.

A ascensão da China

A China, junto com a Mesopotâmia, o Egito e a Índia são considerados os berços da civilização humana, amplamente documentados e estudados pela Arqueologia, a Antropologia Cultural e a História oral e escrita transmitidas através de gerações.

Com extensão territorial de quase 10 milhões de km2, o dobro da Europa, excluindo a Rússia, e uma população que ultrapassa 1,3 bilhões de pessoas, a China possui enormes recursos naturais e minerais, além de um imenso potencial hídrico representado pelos rios Yang Tse e Hoang-Hu cujas águas irrigam as planícies férteis desde tempos pré-históricos, e permitem o cultivo de milho, trigo e arroz, alimentos básicos para uma população em expansão constante.

As riquezas produzidas pela agricultura irrigada atraíram os “bárbaros” hunos, mongóis, turcmenos e outros que invadiram inúmeras vezes as prósperas terras do império. Para se proteger contra as invasões, os chineses construíram a “grande muralha” de mais de 2.400 km de extensão, uma verdadeira maravilha do engenho e da capacidade construtiva dos chineses.

Durante a história milenar da China, nota-se a forte presença do Estado centralizador na organização e administração das atividades econômicas e de defesa.

Entre as várias dinastias que dominaram esse país, de dimensões continentais, destaca-se a dos Souéi (581-619) que impôs uma série de reformas políticas, sociais e econômicas, conseguindo pacificar a sociedade. Além da reforma do código penal, os impostos foram reduzidos por um terço e os dízimos, pela metade. As terras foram distribuídas entre os camponeses – 1,5 hectares por adulto – conseguidas pela expropriação dos senhores feudais. O fortalecimento da monarquia coincidiu com uma expansão do comércio por via marítima.

Diferentemente dos outros países da época, o regime chinês foi mais democrático e mais igualitário, baseado no direito natural da posse da terra em comum. A organização social da população foi configurada por aldeias, cantões e províncias, cujo funcionamento e segurança foram assegurados pelas forças militares sob comando do imperador.

O Estado organizou, também, a instrução e formou um quadro de administradores admitidos por concurso, além de estimular os estudos acadêmicos e científicos. Os cargos político-administrativos não foram hereditários e o novo código civil pregou os princípios de humanização e solidariedade.

Quanto ao culto religioso, diferentemente dos hindus e islâmicos, os chineses não demonstram atitudes de intolerância ou de fanatismo. Em vez de se ocupar com o além, os sábios dirigem suas atenções para a gestão de assuntos terrenos, do dia-a-dia, para assegurar o bem estar de todos. Diferentemente das culturas ocidentais, onde a Arte e a Música foram profundamente influenciadas pela idéia do divino, a China desenvolveu sua cultura na veneração da natureza. A liderança na sociedade chinesa não foi exercida por sacerdotes de personalidade carismática, mas pelos instruídos nos ensinamentos hedonistas e pragmáticos de Confúcio.

A história da China não oferece exemplos de intolerância ou de perseguição religiosas, embora sua estrutura social tenha sido sempre marcada pela religião. As massas de camponeses seguiram as crenças e superstições do animismo primitivo, herança da cultura primeval. As elites instruídas se definem pela adesão à ética confuciana. Ao longo dos séculos, a estruturação religiosa configura-se em três grandes correntes: o confucionismo, o taoísmo e o budismo.

Pela antiga concepção chinesa, o céu, a terra e os homens constituem uma completa unidade, donde se deriva a busca de harmonia entre as ações humanas e a natureza. A observação da natureza, em seus movimentos cíclicos – as estações do clima, o crescimento da flora e as correntezas dos grandes rios, por um lado e a violência das inundações, tempestades e secas, por outro, deu origem a uma cosmologia que permeia todo o pensamento e a ação dos chineses. O princípio do Tao – a unidade e amplitude do universo – é o fundamento pelo qual a vida em sociedade deve se reger livre de agressividade e de ganância, em harmonia com a natureza.

Desde os primórdios da civilização chinesa e antes de Confúcio e Buda, os costumes, valores e o folclore tradicionais procuravam aplacar a ira os demônios e maus espíritos por sacrifícios os quais ao longo dos séculos se tornaram simbólicos. Já no 2o milênio antes da era cristã, instalou-se o culto aos ancestrais, mediante altares e ritos de luto específicos. A idéia central que permeia esses ritos é a continuidade da vida, atravessando passado, presente e futuro representados pelas diversas gerações da família.

O imperador, filho do céu, foi venerado como pai benevolente da nação, visão refletida na relação à propriedade das terras, lares e outros bens que pertenciam a todos, inclusive aos entes falecidos. Assim, o culto de reverência aos parentes mortos constitui ainda parte fundamental da cultura chinesa.

Os ensinamentos de Confúcio que impregnam e continuam a pesar na cultura chinesa atual, podem ser encontrados numa coletânea de provérbios e injunções éticas do mestre. Segundo esses preceitos, facilitar a governabilidade e o convívio em sociedade exige distanciar-se da crença em demônios e divindades sobrenaturais. Assim, Confúcio rejeitou a sua própria divinização e preferiu ser considerado como exemplo do saber e da virtude.

A ascensão do regime comunista a partir de 1949 e a conseqüente transformação da ideologia dominante levaram ao enfraquecimento e até a eliminação, tanto dos ritos tradicionais, quanto dos cultos de Confúcio. Em 1912, com a queda do último imperador e a criação da República, a veneração a Confúcio ficou abalada, embora o governo de Chiang Kai Chek tenha declarado seu aniversário como feriado nacional, até hoje celebrado – em Taiwan.

Como explicar a decadência do poderoso império chinês que desde a antigüidade mantinha relações comerciais com o ocidente, construindo e zelando pela segurança da famosa “estrada de seda”, pela qual transitavam as caravanas de mercadores, alimentando um fluxo intenso de bens e inovações tecnológicas da China para o resto do mundo, como a bússola, a pólvora, a impressão em papel que foram trazidas para a Europa e contribuíram para o processo de modernização na época do Renascimento.

Mas, o fortalecimento dos senhores feudais e o isolamento do resto do mundo causaram atraso econômico e militar, sobretudo no século XIX. As constantes lutas dos generais – senhores feudais entre si, enfraqueceram o poder central e atiçaram a cobiça pela conquista de territórios chineses por parte dos países ocidentais.

Em 1857, a Grã-Bretanha derrotou os exércitos chineses dotados de armamentos antiquados, na famigerada “guerra de ópio”, cuja livre importação foi imposta pelos vencedores. Sucessivamente, os Estados Unidos, Portugal, França, Alemanha e Inglaterra ocuparam enclaves territoriais chineses, a partir dos quais importavam suas mercadorias e exportavam bens demandados em seus países.

Em 1894/5, os exércitos chineses sofreram uma fragorosa derrota numa guerra contra os japoneses, que se apoderaram de vastas extensões territoriais da China. Em 1899/1900 ocorreu um levante popular contra a opressão e exploração pelos países imperialistas, conhecido na História como o levante dos “Boxers”. Os países ocidentais mandaram uma força expedicionária que reprimiu o levante de forma sangrenta e, em seguida, exigiram o pagamento das reparações pesadas que enfraqueceram ainda mais a autoridade imperial e abriram o caminho para sua derrubada e a conseqüente proclamação da República.

As derrotas militares humilhantes e a ocupação de seus territórios pelas potências imperialistas, despertaram o nacionalismo chinês e levaram à criação de um partido nacionalista, o Kuo Ming-Tang, sob a liderança de Sun Yat Sen, considerado o pai da China moderna.

Em 1927, sob a inspiração da Internacional Comunista, comandada por Stalin, o partido comunista chinês esboçou um levante revolucionário em Cantão, violentamente reprimido pelos militares.

Nos anos trinta do século passado, os japoneses se lançaram novamente à guerra contra a China, enfraquecida internamente pelas lutas entre seus generais. As tropas japonesas ocuparam um vasto território no nordeste da China, a Manchúria, rica em matérias-primas, que foi declarada um reino “independente” sob proteção do Japão.

Durante a 2a guerra mundial, pressionada pelos aliados ocidentais, a China, liderada pelo General Chiang Kai Chek, declarou a guerra ao Japão e aos seus aliados do “eixo” Alemanha e Itália.

As tropas chinesas, mal armadas e treinadas, não conseguiram resistir aos japoneses e sofreram também constantes ataques pelos soldados camponeses liderados por Mao Tse Tung. Em 1949, as tropas de Chiang Kai Chek se renderam e uma parte dos soldados e suas famílias fugiram para a ilha de Formosa – hoje Taiwan – onde proclamaram um Estado independente, em oposição ao regime comunista.

Apesar das ameaças das antigas potências coloniais e a pressão nada amigável da ex-União Soviética, o novo regime conseguiu unir, integrar e pacificar um povo de 600 milhões de habitantes, dando início a um processo de construção de um Estado moderno, dinâmico e militarmente eficaz, como provou a intervenção das tropas chinesas ao lado da Coréia do Norte, quase expulsando as tropas americanas da península Coreana, em 1951.

Nos anos sessenta, a China passou pelo movimento de “Revolução Cultural” que mobilizou e despertou, politicamente, dezenas de milhões de camponeses, trabalhadores e estudantes. Ao mesmo tempo, foram varridas do cenário social e político as “elites” tradicionais que tinham arrastado a sociedade chinesa durante séculos, na mais abjeta miséria e exploração.

Por outro lado, apesar das crueldades e eventuais injustiças cometidas durante a Revolução Cultural, a China emergiu dela como uma sociedade mais coesa e solidária e seus membros mais conscientes de seu legado histórico e de sua identidade nacional e cultural.

Na fase de transição para uma sociedade industrial moderna, como comprovam os exemplos da Alemanha e do Japão no século XIX, a presença do Estado com sua capacidade de planejar, orientar e regulamentar os investimentos produtivos tem sido o fator fundamental para a emergência da China como potência hegemônica no cenário internacional. A ação do poder público, apoiado em amplo consenso da população, cria oportunidades para planejar e fiscalizar a aplicação de recursos materiais, financeiros e humanos, que asseguraram o êxito na condução do processo de desenvolvimento.

Indubitavelmente, a China desponta neste começo de século XXI como a nova superpotência em ascensão. Há mais de duas décadas a economia chinesa cresce a um ritmo alucinante, com uma taxa anual superior a 10% medida pelo PIB , causando assombro e inveja aos economistas e políticos ocidentais. Junto com o processo de crescimento econômico ocorreu um acelerado processo de urbanização que transferiu centenas de milhões de camponeses para as cidades, a um ritmo e intensidade superiores a qualquer outro país na história recente, incorporando-os como produtores e consumidores. Com a pressão demográfica – são 1,3 bilhão de habitantes – expandiu-se o desenvolvimento em direção ao interior, ao longo de milhares de quilômetros beirando os rios Yang-Tse e Huang-Ho.

Investindo quase 50% do PIB anualmente, a acumulação de capital e a incorporação de mão-de-obra prosseguem a um ritmo acelerado, atraindo, também, mais da metade dos FDI – Foreign Direct Investment (investimentos estrangeiros) do mercado mundial. Com uma oferta praticamente ilimitada de mão-de-obra relativamente qualificada e o acesso e incorporação de tecnologia de ponta, a China consegue abarrotar o mercado mundial com seus produtos, exportando bens e serviços no total de US$ 600 bilhões anuais e acumulando saldos comerciais superavitários que elevaram suas reservas cambiais a mais de um trilhão de dólares.

Sem dúvida, a China enfrenta enormes problemas sociais e ambientais, cujo equacionamento e solução exigirão investimentos e esforços adicionais de planejamento da expansão econômica. No período de 25 anos, a China conseguiu incorporar à sociedade mais de trezentos milhões de pessoas como membros produtivos, mais do que todos os países “emergentes” e em desenvolvimento em conjunto.

A qualidade de vida da população melhorou nesse período, revelando uma crescente e próspera classe média. O coeficiente de GINI – parâmetro de distribuição desigual da renda é igual ao dos Estados Unidos. Apesar de previsões pessimistas afirmando a insustentabilidade do presente crescimento econômico e das exportações, os avanços nas transformações e na expansão do mercado interno reforçam a tendência ao crescimento da economia chinesa, em vias de ultrapassar a Alemanha e alcançar o Japão.

O orçamento militar chinês superou o do Japão, seguindo de perto os da França e da Grã-Bretanha, alimentado por um crescimento econômico (PIB) que ultrapassou os dois países, igualou-se ao da Alemanha e persegue o segundo lugar na economia mundial, atrás dos Estados Unidos.

Durante o século XX, os Estados Unidos alcançaram sua posição hegemônica, não somente pela pujança de sua indústria, comércio e finanças, mas, sobretudo pela irradiação da democracia liberal e sua cultura – o “American Way of Life”.

Hoje, após o descalabro e próxima retirada do Iraque, suas alianças e prestígio desmoronaram, junto com a sua imagem política e moral. Procurando um “bode expiatório”, os grupos conservadores norte-americanos clamam por um sistema protecionista comercial contra a rival – China; à semelhança dos anos oitenta quando medidas idênticas foram advogadas, sem sucesso, contra o Japão. As indústrias de ponta chinesas e japonesas instalaram-se nos Estados Unidos e seus produtos eliminam competidores americanos do mercado.

Finalmente, os problemas do aquecimento global por efeito estufa e a questão de combustíveis alternativos e mais limpos afetam a todos os países industrializados, sendo os Estados Unidos e a China os maiores emissores de CO2. Ambos dispõem de imensas reservas de carvão mineral, sendo a fonte energética mais barata, sobretudo face ao aumento dos preços do petróleo. Queimar carvão é o processo mais barato de gerar energia elétrica, mas produz, aproximadamente, 40% de emissão de CO2.

O Governo Bush tem resistido sistematicamente a estabelecer metas de redução das emissões e a China, na sua corrida desenfreada pelo crescimento econômico, coloca em operação uma usina movida a carvão de 500 MW por semana.

Enquanto os Estados Unidos discutem subsídios para a produção de etanol à base de milho (alto custo e ambientalmente desaconselhado) a China investe, pesadamente, em energia eólica e solar.

Qual dos dois países atenderá mais rápido e eficazmente o clamor das populações por um mundo mais justo, limpo e seguro para todos?

HENRIQUE RATTNER

Revista Espaço Acadêmico

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Cuba ajudou carrasco de Che a voltar a enxergar

8 de Outubro de 2007
Sargento boliviano que há 40 anos executou guerrilheiro foi operado de catarata por cubanos

Rory Carroll, The Guardian

Londres - Médicos cubanos restauraram a visão do soldado boliviano que executou, há 40 anos, o guerrilheiro cubano-argentino Ernesto Che Guevara, o que transformou o militar num improvável garoto-propaganda dos ideais revolucionários.

Mario Terán entrou para a história como o jovem sargento do Exército escolhido para executar o líder guerrilheiro capturado em 9 de outubro de 1967, o que o transformou num vilão para aqueles que veneravam Che.

Quase quatro décadas depois, o algoz, já idoso e aposentado, foi operado de catarata graças a um programa médico comandado pelos cubanos. A massificação desse tipo de cirurgia é considerada um exemplo dos benefícios da revolução socialista de Cuba.

O desfecho irônico do papel de Terán num dos grandes dramas do século 20 foi revelado no ano passado, quando o seu filho escreveu uma carta para o jornal de Santa Cruz de La Sierra El Deber agradecendo aos médicos cubanos.

Poucas pessoas tinham prestado atenção para o fato até o fim de semana passado, quando as autoridades comunistas de Cuba alardearam a cirurgia de Terán como um grande golpe de propaganda às vésperas do aniversário da morte de Che.

“Quatro décadas depois da tentativa de Mario Terán de destruir um sonho e um ideal, Che retorna para ganhar mais uma batalha”, disse o Granma, o jornal que é o porta-voz oficial do Partido Comunista.

“Agora um homem idoso, ele (Terán) poderá de novo observar as cores do céu e da floresta, apreciar o sorriso de seus netos e assistir aos jogos de futebol”, acrescentou o jornal cubano.

Não foi possível ter acesso imediato a Terán ou a seu filho, mas um dos editores de El Deber, Leopoldo Vega, confirmou que a carta foi publicada no ano passado.

Terán foi beneficiado pela chamada Operação Milagre. Trata-se de um programa financiado por petrodólares venezuelanos, no qual uma equipe de médicos cubanos oferece tratamento oftalmológico gratuito para pobres de toda a América Latina.

Jornal Estado de S. Paulo

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Foto icônica de Che é usada para vender sorvete e cigarro

8 de Outubro de 2007

De Stephanie Holmes

Ela talvez seja a imagem mais reproduzida, reciclada e copiada do século 20. Che Guevara, os olhos emoldurados por grossas sobrancelhas, a boina com uma única estrela sobre o cabelo despenteado, o olhar desviado da foto com uma intensidade austera.

Já faz 40 anos que o rebelde argentino foi morto a tiros, logo qualquer jovem radical que tenha torcido por suas lutas revolucionárias em Cuba e na Bolívia já entrou na meia idade há tempos.

Mas a imagem foi repetida infinitas vezes - estampada em camisetas e pichada nas paredes, transformada em arte pop e usada para embrulhar sorvetes e vender cigarros - e seu apelo não desbotou.

“Não há outra imagem igual. Que outra imagem se sustentou dessa maneira?”, pergunta Trisha Ziff, curadora de uma exibição itinerante sobre a iconografia de Che.

“Che Guevara virou uma marca. E o logotipo da marca é essa imagem, que representa mudança. Ela se tornou o ícone do pensamento independente, seja no nível que for - anti-guerra, pró-verde ou anti-globalização”, diz ela.

Sua presença - que vai dos muros dos territórios palestinos às butiques parisienses - faz dela uma imagem que está “fora de controle”, diz Ziff.

“Ela se transformou numa corporação, um império, a essa altura.”
A proliferação da imagem - baseada em uma fotografia tirada por Alberto Korda em 1960 - aconteceu, em parte, devido a uma escolha política de Korda e outros de não cobrar pelo uso não-comercial da imagem.

Nascimento de um ícone
Jim Fitzpatrick, que produziu o onipresente desenho em contraste no fim dos anos 60, quando era um jovem artista gráfico, disse à BBC que ele queria que sua arte fosse disseminada.

“Eu deliberadamente o criei (o desenho) para que se reproduzisse como os coelhos”, diz ele. “A forma como o mataram, não haveria nenhum memorial, nenhum local de peregrinação, nada. Eu estava determinado que aquela imagem receberia a maior circulação possível”, explica Fitzpatrick. “A imagem dele nunca morrerá, seu nome nunca morrerá.”

Para Ziff, o assassinato de Che Guevara também marca o início da imagem mítica. “O nascimento da imagem acontece na morte de Che, em outubro de 1967″, diz ela.

“Ele era bonito, ele era jovem, mas mais do que isso, ele morreu por seus ideais, então ele automaticamente se transforma num ícone.”

História
Alberto Korda captou a famosa imagem no dia 5 de março de 1960, durante um funeral em massa em Havana.

Um dia antes, um navio de carga francês cheio de munição explodiu no porto da cidade matando cerca de 80 cubanos, num ato que Fidel Castro atribuiu aos americanos.

Korda, o fotógrafo oficial de Castro, descreve a expressão de Che na foto, que ele intitulou “Guerrilheiro Heróico”, como “encabronado y dolente”, ou zangado e triste.

Duas fotos foram tiradas naquele momento. A primeira incluía a folhagem de palmeiras e um homem virado para Che, ambos cortados na seqüência.

Sem ser publicada por um ano, a foto só era vista por aqueles que passavam pelo estúdio de Korda, onde ela ficava pendurada na parede.

Cartazes
O homem que levou a imagem de Che para a Europa foi o intelectual italiano Giangiacomo Feltrinelli, que distribuiu cartazes com a foto pela Itália em 1967.

Depois disso, a fotografia de Korda apareceu em diversas revistas. Foi numa publicação alemã que Fitzpatrick viu a imagem pela primeira vez.

Depois da morte de Che, o artista imprimiu cópias e cópias do desenho que havia criado e as enviou para grupo de ativistas políticos por toda Europa.

Com a passagem do tempo, o significado e o homem representados na imagem se perderam de seu contexto, diz Ziff. O rosto de Che começou a ser usado como decoração de produtos, de lenços a lingerie. A Unilever até criou uma versão “Che” do picolé Magnum na Austrália, com sabor de cereja e goiaba.

“Há uma teoria de que a imagem só pode existir por um certo tempo até que o capitalismo se aproprie dela. Mas o capitalismo só quer se apropriar de imagens que guardem um certo senso de perigo”, diz a curadora de arte.

Na América Latina, no entanto, o rosto de Che continua sendo símbolo da revolução armada, segundo Ziff. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, usa com freqüência uma camiseta com a imagem estampada e há relatos de que Evo Morales, da Bolívia, presenteia visitantes com uma versão da foto feita com folhas de coca.

Combinando capitalismo e comércio, religião e revolução, para Ziff, o ícone segue absoluto.

“Não há outra imagem que chegue perto de nos levar a lugares tão diferentes.”

Fonte: BBC

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O SENADOR IMEXÍVEL

8 de Outubro de 2007

Frei Betto

“Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?”, indaga Marco Túlio Cícero, referindo-se ao senador Lúcio Sérgio Catilina, a 8 de novembro de 63 a.C., em Roma. Flagrado em atitudes criminosas, Catilina se recusa a renunciar ao mandato, urdindo um golpe contra o Senado.

Cícero, orador emérito, respeitado por sua conduta ética na política e na vida pessoal, põe em sua boca a indignação popular: “Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?”

“Ó tempos, ó costumes!”, exclama Cícero movido por sua atormentada perplexidade diante da insensibilidade do acusado. “Que há, pois, ó Catilina, que ainda agora possas esperar, se nem a noite, com suas trevas, pode manter ocultos os teus criminosos conluios; nem uma casa particular pode conter, com suas paredes, os segredos da tua conspiração; se tudo vem à luz do dia, se tudo irrompe em público?”

Jurista, Cícero se esforça para que Catilina admita os seus graves erros: “É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia.”

Se Catilina permanece no Senado, não é apenas a vontade própria que o sustenta, mas sobretudo a cumplicidade dos que teriam a perder, com a renúncia dele, proveitos políticos. Daí a exclamação de Cícero: “Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?”

Cícero não teme ameaças e expressa o que lhe dita o decoro: “Já não podes conviver por mais tempo conosco; não o suporto, não o tolero, não o consinto. (…) Que nódoa de escândalos familiares não foi gravada a fogo na tua vida? Que ignomínia de vida particular não anda ligada à tua reputação? (…) Refiro-me a fatos que dizem respeito, não à infâmia pessoal dos teus vícios, não à tua penúria doméstica e à tua má fama, mas sim aos superiores interesses do Estado e à vida e segurança de todos nós.”

Os crimes de Catilina escancaram-se à nação. Seus próprios pares o evitam, como assinala Cícero: “E agora, que vida é esta que levas? Desejo neste momento falar-te de modo que se veja que não sou movido pelo rancor, que eu te deveria ter, mas por uma compaixão que tu em nada mereces. Entraste há pouco neste Senado. Quem, dentre esta tão vasta assembléia, dentre todos os teus amigos e parentes, te saudou? Se isto, desde que há memória dos homens, a ninguém aconteceu, ainda esperas que te insultem com palavras, quando te encontras esmagado pela pesadíssima condenação do silêncio?”

Catilina finge não se dar conta da gravidade da situação. Faz ouvidos moucos, jura inocência, agarra-se doentiamente a seu mandato. “Se os meus escravos me temessem da maneira que todos os teus concidadãos te receiam” – brada Cícero -, “eu, por Hércules, sentir-me-ia compelido a deixar a minha casa; e tu, a esta cidade, não pensas que é teu dever abandoná-la? E se eu me visse, ainda que injustamente, tão gravemente suspeito e detestado pelos meus concidadãos, preferiria ficar privado da sua vista a ser alvo do olhar hostil de toda a gente; e tu, apesar de reconheceres, pela consciência que tens dos teus crimes, que é justo e de há muito merecido o ódio que todos nutrem por ti, estás a hesitar em fugir da vista e da presença de todos aqueles a quem tu atinges na alma e no coração?”

Cícero não demonstra esperança de que seu libelo seja ouvido: “Mas de que servem as minhas palavras? A ti, como pode alguma coisa fazer-te dobrar? Tu, como poderás algum dia corrigir-te?” E não poupa os políticos que, apesar de tudo, apóiam Catilina: “Há, todavia, nesta Ordem de senadores, alguns que, ou não vêem aquilo que nos ameaça, ou fingem ignorar aquilo que vêem.”

Catilina acaba se refugiando na Etrúria e morre em 62 a.C.. Cícero, afastado do Senado por Júlio César, é assassinado em 43 a.C.

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Mario Sergio Cortella, de “Sobre a esperança” (Papirus), entre outros livros.

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