Arquivo de 26 de Abril de 2008

Carlos Drummond de Andrade por Leandro Konder

Leandro Konder

Há sessenta anos, aparecia o livro de estréia do poeta Carlos Drummond de Andrade, intitulado, ambiguamente, Alguma poesia. O que significava o título? Era a expressão da modéstia do poeta, sua necessidade de dizer ao leitor que naquele volume ele não encontraria “muita” (apenas “alguma”) poesia? Ou era o testemunho da confiança com que o autor anunciava que, num tempo de pouca (quase nenhuma) poesia, os aficcionados do verso podiam estar seguros de que o livro, magrinho, impresso nas oficinas do jornal Minas Gerais (órgão oficial do estado), continha – mesmo – “alguma poesia”?

O próprio título do livro de estréia já indicava um das características do poeta: sua capacidade de perceber e expressar a riqueza dos matizes e a ambivalência da condição humana. Drummond pertence à família espiritual dos escritores que não se empenham em edificar, não têm a veleidade de dissipar todas as sombras da matéria prima da literatura. Ele mesmo dizia: “Sou mineiro, e mineiro é, em geral, reticente, oblíquo. Considero Machado de Assis o maior escritor brasileiro e dele extraio a lição de não fazer o discurso direto, iluminado por todos os lados.”

A maior força da poesia de Drummond está em identificar (não em resolver) os problemas humanos. A poesia dispõe de poderes limitados, não devemos nos iludir a esse respeito. E o poeta, para se consolar, cultiva o senso de humor, que relativiza suas próprias convicções, que o impede de se levar muito a sério. Ele se sente desajeitado, “gauche na vida”.

Leva a sério as brincadeiras e, em seguida, brinca com coisas sérias. Desfaz as fronteiras demasiadamente nítidas. “Eu também já fui poeta”, declara o estranho estreante; e se diverte acrescentando: “Bastava olhar para mulher, / pensava logo nas estrelas / e outros substantivos celestes. / Mas eram tantas, o céu tamanho, / minha poesia perturbou-se.”

Alguma poesia está dedicado a Mário de Andrade. Em 1924, numa “caravana” integrada por um grupo de pessoas ligadas ao movimento modernista de São Paulo tinha chegado a Belo Horizonte e se instalara no Grande Hotel de Belo Horizonte. Do grupo faziam parte Oswald Andrade, Tarsila do Amaral, Gofredo Teles, Olívia Guedes Penteado, Mário de Andrade e o poeta francês Blaise Cendrars. Os jovens intelectuais mineiros que simpatizavam com o modernismo foram ao encontro deles. Ficaram encantados ao ver o piadista Oswald, porém acabaram se interessando mais por Mário. Drummond ficou profundamente marcado pela personalidade de Mário: “O que Mário esperava de nós não era que o seguíssemos, mas que nos descobríssemos a nós mesmos, ao que pudesse haver de bom em nós, no sentido de inquietação, desejo de investigação e reflexão.”

A influência de Mário se fez sentir em duas preocupações centrais do autor de Alguma poesia: a de buscar a consciência social da arte e a de servir dessa consciência para a “descoberta ou redescoberta gradativa do Brasil em nós” (leia-se a entrevista radiofônica concedida a Lya Cavalcanti e reproduzida no volume Tempo vida poesia, lançado em 1986 pela Editora Record).

O Drummond do livro de estréia repelia com firmeza a imitação da Europa: “Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa”, dizia ele. E em outro poema, num tom brincalhão: “Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa. / A Europa é uma cidade muito velha onde só se fazem caso de dinheiro / e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.” Essa visão crítica, irônica, do “modelo” europeu não era acompanhada de nenhum “ufanismo”, de nenhuma idealização dos brasileiros. Depois de ter se divertido às custas da diversidade de línguas dos povos da Europa, o poeta conclui, debochado: “Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só.”

Nós, brasileiros, não somos melhores nem piores do que os outros; somos, contudo, diferentes. Nosso modo de viver e de sentir a condição humana se distingue da maneira de viver e de sentir que observamos em outras comunidades (que partilham conosco da mesma condição humana, que temos em comum). Drummond, em 1930, inquieto com os aspectos mais crassamente inumanos da sociedade brasileira, olhava com simpatia para a generosa experiência revolucionária da União Soviética e escrevia: “A Rússia tem as cores da vida. / A Rússia é vermelha e branca. / Sujeitos com um brilho esquisito nos olhos criam o filme bolchevista e no túmulo de Lênin em Moscou parece que um coração enorme está batendo, batendo.” Porém logo o movimento da simpatia se controlava, recorrendo à constatação: “mas não bate igual ao da gente.”

A poesia de Drummond enfrenta o desafio de se inserir energeticamente na realidade brasileira. Essa inserção, entretanto, nunca poderia ser acrítica, nunca poderia resvalar para a auto-indulgência. Se estamos dispostos a assumir nossa brasilidade, devemos ser implacáveis em relação a nós mesmos e às nossas deficiências mais gritantes.

Em seu segundo livro (Brejo das almas), o poeta fustiga sarcasticamente o cinismo do programa modernizador proposto pelos privilegiados para o Brasil: “Precisamos educar o Brasil. / Compraremos professores e livros, / assimilaremos finas culturas, / abriremos dancings e subvencionaremos as elites” (esses versos se encontram num poema ironicamente intitulado “Hino nacional”).

O terceiro livro – Sentimento do mundo – mostra Carlos Drummond de Andrade, no poema “Operário no mar”, procurando discernir o futuro que poderia estar embutido no movimento de um trabalhador simbólico, “Na rua passa um operário”, escreve o poeta. E acrescenta: “Esse é um homem comum, apenas mais escuro que os outros, e com uma significação estranha no corpo que carrega desígnios e segredos.” Da janela do seu apartamento, o poeta se pergunta: “Para onde vai o operário?” E responde: “Não sei.” “Teria vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca.” Alguns versos adiante, o poema caminha para o encerramento. O operário vai até o mar, a noite começa a cair e o operário sorri para o poeta: “Único e precário agente de ligação entre nós, seu sorriso cada vez mais frio atravessa as grandes massas líquidas, choca-se contra as formações salinas, as fortalezas da costa, as medusas, atravessa tudo e vem beijar-me o rosto, trazer-me uma esperança de compreensão.” As últimas palavras do poema são: “Sim, quem sabe se um dia o compreenderei?”

Outro poema de Sentimento do mundo sintetiza a perspectiva de Drummond: “Não serei o poeta de um mundo caduco. / Também não cantarei o mundo futuro.” E no final se lê: “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, / a vida presente.”

O presente, contudo, encarado de um ângulo crítico, cobra de quem o vive opções relativas às possibilidades futuras. E Carlos Drummond de Andrade, já radicado no Rio de Janeiro, funcionário do Ministério da Educação, aproxima-se dos comunistas e tende, cada vez mais, a se identificar com a causa que eles defendem. Revolta-se contra o capitalismo, mas reconhece que não pode, “sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan” (a vitrina da prosperidade – e da insalubridade espiritual – exibida pelo mundo burguês).

O solitário sente-se mal na sua solidão. O individualista desconfiado se sente convocado, com insistência, para embarcar no navio da confiança imprescindível à ação política coletiva. No livro José, surge o ímpeto que manda o poeta cortar sua mão suja, doente, atingida por “mortal desgosto / na pele enfarada”; e surge a idéia compensadora de que, “com o tempo, a esperança, / em seus maquinismos, / outra mão virá / pura – transparente – / colar-se a meu braço”.

Ao comunismo cabe, então, a função de forjar essa nova mão, pura, transparente, que substituirá a mão doente amputada na alma do poeta. Drummond observa sua época e admite: “Esse é tempo de partido, / tempo de homens partidos.” Enquanto a nova mão não vem, o jeito é usar os meios disponíveis, acomodar-se à lógica da ação rude da política partidária. Num dos poemas de A rosa do povo, ele diz: “Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa, / olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso. / Come, braço mecânico, alimenta-te da mão de papel, é tempo de comida, / mais tarde será o de amor.”

As tropas da União Soviética, apesar das graves perdas sofridas, enfrentavam na Europa a poderosa máquina militar nazista e obtinham emocionantes vitórias, que ajudavam a salvar a humanidade do pesadelo de um Terceiro Reich implantado em escala mundial. Drummond encontrou um tom épico na “Carta a Stalingrado”, no “Telegrama de Moscou”, na “Visão 1944” e no poema “Com russo em Berlim” (todos constantes de A rosa do povo). O papel desempenhado pelos russos animava-o a declarar enfaticamente sua disposição: “O poeta / declina de toda responsabilidade / na marcha do mundo capitalista / e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas / promete ajudar / a destruí-lo / como uma pedreira, uma floresta, / um verme.”

Em 1945, com a decomposição do Estado Novo getuliano, o Partido Comunista emergiu fortalecido das catacumbas, tornou-s legal, criou um jornal: a Tribuna Popular. Luís Carlos Prestes, saindo da cadeia, convidou Drummond para integrar o grupo que dirigia o jornal, ao lado de Pedro Mota Lima, Álvaro Moreyra, Dalcídio Jurandir e Aydano do Couto Ferraz. O poeta aceitou.

Faria parte da direção da tribuna Popular, no entanto não era militante da agremiação. Em seu diário (reproduzido no volume O observador no escritório, da Editora Record), Drummond já tinha anotado, em 14-3-1945: “sinto aversão temperamental pelo que, nas esquerdas, é desorganização, agitação e ausência de certas delicadezas e sentimento”. E em 12 de abril do mesmo ano, referindo-se especificamente ao PC: “minha suspeita é que o partido, como forma obrigatória de engajamento, anula a liberdade de movimentos, a faculdade que tem o espírito de guiar-se por si mesmo e estabelecer ressalvas à orientação partidária. Nunca pertencerei a um partido, isto eu já decidi.”

Nas condições em que se dispunha a atuar, preservando sua independência, o poeta logo se deu conta de que ficava isolado, não tinha nenhum poder real. Comentando a edição de uma coletânea de textos de Marx e Engels sobre literatura e arte lançada na França por Jean Fréville e vertida para o português por uma escritora de esquerda que não estava na época nas boas graças da direção do PC, Drummond informou, na última frase de seu artigo: “Eneida traduziu.” Pois bem: cortaram a informação. O nome de Eneida não podia aparecer.

Sem estrépito, o poeta resolveu se afastar, porque percebia que sua co-direção era mais nominal do que real. Deixou a Tribuna Popular em novembro de 1945 e no mês seguinte, nas eleições, votou em Prestes e Abel Chermont para senadores, mas não votou em Yedo Fiúza, candidato do PC à presidência da república: preferiu o candidato liberal, Eduardo Gomes.

A partir desse momento, o caminho do poeta e o caminho dos comunistas se bifurcam, os movimentos se afastam, os malentendidos proliferam. Começam a soprar os ventos sinistros da “guerra fria”, o PC endurece suas posições políticas: preparando-se para a dureza dos novos tempos, os comunistas tratam de ocupar espaços e articulam a conquista da Associação Brasileira de Escritores, numa linha resolutamente sectária. A eleição para a direção da ABDE, em 1949, se transformou numa verdadeira batalha campal, com lances até de violência física. Drummond, aos olhos do PC, estava do “outro lado” e foi atacado como “inimigo”. O episódio aprofundou a decepção do poeta.

Os poemas do período subseqüente refletem a desilusão. No “Desaparecimento de Luísa Porto”, solidário com o sofrimento pessoal de uma mãe cuja filha sumiu na cidade grande, ele pede que todos auxiliem na busca e conclama: “Esqueçam a luta política.” Em “Contemplação no banco”, ele diz que não sabe cantar “os ódios organizados” e pensa no homem que virá, no futuro: “Nalgum lugar faz-se esse homem […] / Contra a vontade dos pais ele nasce, / contra a astúcia da medicina ele cresce, / e ama, contra a amargura da política” (no livro Claro enigma).

Desaparecera, definitivamente, para Drummond, de fazer poesia épica. Ele se retraiu, com a dignidade que lhe era peculiar. Seus versos continuam, eventualmente, a tematizar preocupações políticas e questões sociais, e sempre expressando valores humanistas e democráticos: um compromisso permanentemente reiterado com a liberdade (que o levaria, nos anos sessenta e setenta, a uma clara oposição à ditadura militar). Cada vez mais claramente, entretanto, o poeta se debruça, fascinado, sobre a riqueza da experiência humana – inesgotável – do amor.

Um soneto do livro As impurezas do branco nos explica: “Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. Amor começa tarde.”

***

Há uma observação, entretanto, que eu gostaria de fazer a respeito de um certo vínculo subterrâneo que subsistiu na relação dos comunistas com o poeta. Apesar de todas as divergências políticas, numerosos militantes relativamente intelectualizados do PCB continuaram a ler, com fascínio, os poemas que Drummond ia escrevendo e publicando pela vida afora. Liam-no com admiração quando ele escrevia sobre o amor, sobre a “vitória do pequeno sobre o muito”, ou sobre as encruzilhadas da vida, “onde o diabo joga com o destino.” Liam-no quanto ele cantava o Hotel Avenida sendo demolido, com o Bar Nacional, onde “pura afetividade / súbito ressuscita Mário de Andrade.” Riam, com simpatia, quando o viam dizer – em Discurso de primavera – que “os ateus brasileiros levam sempre um santinho no bolso, / nossos comunas quando morrem, a família reza missa / de sétimo dia e de trigésimo”. Agiam como se, de algum modo, percebessem que tinham coisas essenciais a aprender com o poeta que se afastara deles e seguira seu próprio caminho, saltando por cima de todos os mal-entendidos. Talvez intuíssem que Drummond podia lhes enriquecer o movimento de ampliação da própria reflexão sobre a política, desafiando o projeto revolucionário no sentido de incorporar ao seu quadro de referências toda a complexidade da temática existencial.

Para transformar significativamente a sociedade, é preciso conhecê-la, é preciso conhecer a fundo os homens que a integram. O sujeito precisa se familiarizar com os problemas para poder encaminhar propostas voltadas para resolvê-los. Precisa, inclusive, se conhecer a si mesmo, de acordo com a famosa frase socrática. E Drummond ajudava os “nossos comunas” a se compreenderem melhor em suas contradições. Ajudava-os a conhecer o Brasil em que viviam e que vivia neles.

Pude me dar conta disso, muito claramente, quando publiquei no seminário Voz da Unidade, do PCB, em 8-5-1980, um artigo sobre Drummond e os comunistas, reconhecendo publicamente que o PCB tinha errado no encaminhamento das divergências que se haviam manifestado em suas relações com o poeta. Recebi, após a publicação do artigo, palavras gentis do próprio Drummond; mas recebi, sobretudo, centenas de expressões de apoio, provenientes de várias partes do Brasil, de “comunas” que se regozijavam com a posição autocrítica assumida pelo “partidão” ao publicar a minha matéria no seu jornal.

Revista Espaço Acadêmico
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O hidronegócio e a privatização das águas

Henrique Cortez

A recente notícia de que o governo Lula irá licitar as águas da União reacende o debate sobre uma atividade silenciosa, mas, certamente, uma das mais poderosas no mercado mundial - o hidronegócio.

Depois da concessão de rodovias e florestas, o governo Lula “pegou gosto” pela privatização. Agora, em atenção ao hidronegócio, privatizará, por concessão, as chamadas “áreas aqüícolas” em lagos, rios, açudes, reservatórios ou em pontos do litoral. Já espalhadas pelas plantações de cana-de-açúcar e de soja do país, empresas estrangeiras poderão agora explorar águas da União. De acordo com o governo, já existem escoceses, noruegueses, franceses e espanhóis interessados na abertura dos editais de licitação, tanto para reservatórios em água doce como em pontos do litoral.

Na verdade, devemos compreender o hidronegócio a partir da definição do que seja água virtual, que é o conceito utilizado para calcular a quantidade de água necessária para produzir um determinado bem, produto ou serviço.

À primeira vista associa-se o hidronegócio ao tratamento e distribuição de água, às engarrafadoras e outras atividades deste tipo, mas ele é muito mais abrangente e complexo do que isto.

A água virtual está presente em tudo que usamos e consumimos, porque é parte de todos os processos de produção, direta ou indiretamente.

Na prática, a água virtual é o produto do hidronegócio e o agronegócio é o seu principal consumidor. O aparente sucesso do agronegócio nacional também significa que somos, crescentemente, grandes exportadores de água. E isto interessa a diversos países que consideram ‘’sustentável’’ subsidiar seus agricultores, poupando escassos recursos hídricos ao importar carne e grãos de países do terceiro mundo.

Isto pode ser demonstrado em interessante artigo da engenheira Vânia Rodrigues, disponível em http://www.aesabesp.com.br/artigos_agua_virtual.htm.

A agropecuária consome 70% de toda a disponibilidade hídrica do Brasil e não paga pela água bruta que consome. Se pagasse não desperdiçaria mais de metade da água captada.

O volume de água exportado pelo agronegócio é mais do que significativo, mas a água virtual também tem peso em outros setores. No Brasil, nossa geração de energia elétrica é essencialmente hidrelétrica, o que faz a água ser componente de tudo que demanda energia elétrica. Isto é muito claro na indústria eletrointensiva (alumínio, siderurgia, ferroligas, celulose e petroquímica).

Dados do Ministério de Minas e Energia demonstram que 408 indústrias eletrointensivas consomem 28,8% de toda a energia elétrica produzida no país, o que as faz, ao mesmo tempo, massivas exportadoras de energia elétrica e água.

Vejamos um exemplo prático - metade da energia elétrica produzida pela hidrelétrica de Tucuruí é contratualmente destinada à industria de alumínio. Cerca de 41% do custo final do processamento do alumínio corresponde à energia elétrica e, no caso de Tucuruí, isto é significativo porque sua tarifa é pesadamente subsidiada.

A indústria eletrointensiva é ‘’competitiva’’ porque, como todas as exportações de bens primários de baixo valor agregado, soma mão-de-obra barata, benefícios fiscais, energia elétrica subsidiada e gigantescas quantidades de água virtual.

Enquanto isto, o hidronegócio discreta e silenciosamente trabalha pelo controle do acesso à água. O açude controlado pelo coronelismo é algo da pré-história do hidronegócio, porque era muito mais uma questão de política paroquial do que de negócio.

O semi-árido brasileiro já possui uma impressionante rede de reservatórios, açudes e adutoras, mas a maior parte da população continua sem acesso à água, majoritariamente destinada à agricultura de exportação. Este é um processo que se repete em boa parte dos países do terceiro mundo e não é uma mera coincidência.

Esta é a lógica do hidronegócio, que será cada vez mais concentrador do acesso à água, na medida em que a disponibilidade hídrica for mais escassa. Quanto menor for a disponibilidade hídrica em um país ou região, maior o valor agregado aos bens e produtos em razão do ‘’preço’’ da água virtual.

As mudanças climáticas agregam ainda mais valor e poder ao hidronegócio. Imaginem mais de 250 milhões de pessoas na África sem acesso à água, ou mais de 500 milhões na China. Possíveis guerras acontecerão, não porque a água seja um direito humano fundamental, mas pelo seu valor econômico.

A partir do controle dos reservatórios e açudes cresce a tendência de buscar, como negócio, ter o controle de toda a água disponível. Logo, quem controlar uma nascente, um manancial, também controla toda a bacia e, por conseqüência, impõe seu poder de negociação em toda a água virtual incorporada à produção da região.

Nos novos projetos de hidrelétricas já existe a concepção de que a água estocada no reservatório é um negócio em paralelo à própria geração de energia elétrica. Quanto mais degradadas estiverem as bacias hidrográficas, maior será o “valor” da água estocada nos reservatórios.

No caso do aqüífero Guarani não é diferente porque, independente de sua vasta área, ele possui poucas áreas de recarga e afloramento. E, neste sentido, ter a ‘’propriedade’’ das áreas de afloramento também equivale a ter a ‘’propriedade’’ do aqüífero.

Ao privatizar, por concessão, as chamadas “áreas aqüícolas” em lagos, rios, açudes, reservatórios ou em pontos do litoral, o governo faz uma clara opção pela água como valor econômico e não como direito humano fundamental. Ao invés de investir em dezenas de milhares de ribeirinhos e pescadores artesanais, o governo opta pela produção em escala industrial, realizada por grandes empresas.

Se não compreendermos a importância de implementar as políticas públicas de proteção aos mananciais e de democratização do acesso à água, estaremos subsidiando o poder econômico e político de quem controlar os ‘’estoques’’ de água.

Em escala global, basta destacar que, em 2030, nosso planeta estará com 8 bilhões de habitantes, o que equivale a um consumo de água 55% maior do que em 2000.

Reafirmo que a água é um bem público com valor econômico, mas, acima de tudo, é um direito humano fundamental e não uma mercadoria.

O governo Lula, ao que tudo indica, não pensa assim.

Correio da Cidadania
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O revolucionário amor pelos livros

José Castello

Há uma fotografia clássica de Ernesto Che Guevara, tomada em meio à desolação da paisagem boliviana, que o mostra montado em uma árvore, sereno como se estivesse em sua poltrona, lendo um livro. Em vez disso, Guevara está em plena guerrilha, em plena batalha, e a leitura lhe serve como um refúgio, como fuga. “Minhas duas fraquezas fundamentais: o tabaco e a leitura”, ele anotou em seus famosos Diários. Ao ser preso em Ñancahuazu, Che levava consigo só uma bolsa de couro, atada ao surrado cinturão. Nela estavam um caderno de notas pessoais e alguns livros. E era tudo.

A relação apaixonada que Che Guevara tinha com os livros serve ao escritor argentino Ricardo Piglia como emblema da paixão pela literatura. Paixão que exige certa submissão e, até, certa fraqueza. Visto hoje como um líder audacioso e até imprudente, Che Guevara se concedia desabafos que contradizem esta imagem. Na primeira carta que escreveu para a mãe logo depois de chegar a Sierra Maestra, por exemplo, ele que - como Marcel Proust -, sofria com a asma, admite: “O inalador é mais importante para mim que o fuzil”.

Um inalador e um livro, nada mais que isso. E estar sozinho, acima das turbulências do real, mais nada. As relações afetivas, e íntimas, de Guevara com a leitura motivam o mais surpreendente dos seis capítulos de O último leitor (Companhia das Letras), o estupendo livro de ensaios literários que Ricardo Piglia lança na Flip, em Paraty. O último leitor a que o título se refere é exatamente o Che. “Guevara é o último leitor porque já estamos diante do homem prático em estado puro, diante do homem de ação”, Piglia explica.

Ao contrário dos escritores profissionais, que escrevem para viver, Guevara vivia - mesmo as mais temerárias experiências guerrilheiras - para escrever. O amor pelos livros, que perdura até sua morte trágica, expõe ainda, no entender de Piglia, o abismo que o separa do outro ícone da esquerda revolucionária: seu companheiro Fidel Castro. Enquanto Castro, o grande retórico dos discursos empolados e intermináveis, sempre teve facilidade para se aproximar das pessoas, Guevara, o tímido, preferia “isolar-se, separar-se, construindo para si um espaço à parte”. Essa redoma era a literatura.

Guevara, o idealista, tinha a leitura na conta de uma “prática iniciática fundamental”, sem a qual a audácia era impossível. Quando jovem, queria ser escritor mas, enfim, formou-se médico. Viajou pelas Américas, seguindo um roteiro imprevisível e caótico que teve seus primeiros trechos, de juventude, reconstruídos pelo cineasta Walter Salles no premiado Diários de motocicleta. “O político triunfa onde fracassa o escritor”, Piglia sintetiza. Dizendo de outra maneira: o político surge entre as ruínas do escritor. Ainda assim, sem o escritor, o autor obsessivo dos Diários, o guerrilheiro cheio de idéias não teria existido.

O jovem Guevara “on the road”, que Salles fotografa tão bem, sintetiza a teoria segundo a qual escrever “é” viajar. Ele viajava, se punha em movimento, fugia dos centros e das convenções, para escrever. Nesse deslocar-se errático, o jovem médico descobre o outro, pacientes que passa a ver como vítimas; e, desse modo, se torna revolucionário. No caso de Guevara, observa Piglia, “a marginalidade é uma condição da linguagem, de um uso particular da linguagem”. Condição, portanto, da literatura. Piglia nos mostra ainda que, com seus Diários, escritos sobre árvores e em cadernos lamacentos, Ernesto Che Guevara se tornou um escritor “fora do circuito da literatura”. Só os livros e a vida, só a leitura e depois a experiência. Nada mais. Por isso, os Diários de Che Guevara, ele sugere, devem ser lidos, mais que como peças políticas, como cadernos literários.

Ernesto Che Guevara, tema de um dos ensaios, para quem a leitura servia de refúgio para a batalha
Ainda que prefiram não se aventurar no exercício da crítica literária, grandes escritores têm, quase sempre, coisas importantes a dizer a respeito de seu ofício e do trabalho de seus pares. Não passa de uma superstição intelectual acreditar que as ficções e os poemas bastam, que tudo o que estes homens e mulheres têm a dizer está ali. Grandes livros falam por si; não precisam da ajuda do autor, ou de bulas explicativas para existir. Mas, para além das tramas e versos, e ainda que em silêncio e em reserva, grandes escritores ruminam idéias preciosas, sem as quais não conseguiriam escrever, nem chegariam a ser os grandes escritores que são.

O argentino Ricardo Piglia é um desses grandes escritores que não temem encarar a paisagem árida da reflexão. Alguns de seus livros mais interessantes, como este O último leitor, não são ficções, mas ensaios. Nem por isso são livros secundários, ou simples “intervalos” na grande obra. Nos ensaios de Piglia, nada se perde da ousadia intelectual, da inventividade e da rapidez de pensamento que caracterizam suas narrativas. Os textos reunidos em O último leitor tratam, além da relação de Guevara com a literatura, de temas dispersos como a correspondência de Franz Kafka com Felice Bauer; da Anna Kariênina, de Liév Tolstói, vista não como personagem célebre, mas como leitora exemplar; e dos paralelos entre o Ulisses, de James Joyce, e a Odisséia, de Homero. Mas, entre todos os temas discutidos em seus ensaios, o mais insistente, o mais apaixonante, é sempre o próprio leitor. Você, leitor, que lerá esse livro.

Que outro personagem pode interessar mais a um escritor que seu leitor? De quem mais o escritor, como um vampiro que ronda as poltronas, vem sugar o sangue precioso, senão do persistente e silencioso sujeito que lê? É na mente do leitor que a literatura, depois de tanto esforço, enfim “toma corpo”. É em seu interior, enfim, que um livro, simples aglomerado de letras mortas, se transforma em pensamento. “Claro que o leitor da literatura não é um filósofo”, Piglia se apressa em distinguir. “Sua lentidão é de outro caráter, os signos o levam em outra direção”. Mas em que direção? Livros, nos mostra Piglia, são não apenas mundos paralelos, com regras e procedimentos próprios; mas mundos duplicados que, às vezes, penetram mortalmente a realidade. E que grandes estragos eles vêm fazer! A leitura não é outra coisa senão uma percepção solitária do real; daí o estado vulnerável, indefeso em que todo leitor sempre se coloca.

Por este motivo, mesmo a leitura dos livros mais simples causa, sempre, alguma perturbação. Que leitor voraz não se lembra de Anna Kariênina, acomodada em um vagão de trem pouco depois de conhecer Vronski, que será seu amante e a levará à desgraça, recolhida (refugiada) na leitura de um romance inglês? “A novela de Tolstói constrói a imagem da leitora de novelas que decifra sua própria vida através das ficções”, Piglia resume. Também Madame Bovary fez dos livros, como Guevara, uma porta de acesso à experiência. Mas a decifração do mundo através da leitura é sempre perigosa. Piglia relembra, a propósito, uma carta a Felice Bauer, na qual Kafka fala de seu primeiro livro. “Realmente existe nele uma incurável desordem, e é preciso aproximar-se muito para chegar a ver algo”, ele a adverte.

A prova mais extrema da leitura nos é dada, provavelmente, pelo Finnegans wake, de James Joyce, romance em que, Piglia diz, “lemos restos, pedaços soltos, fragmentos, a unidade de sentido é ilusória”. Diante da ficção, o leitor se vê transformado em um herói trágico - o mais trágico personagem da literatura.

Grandes escritores sofrem, ademais, da obsessão pela leitura do outro. A mais clássica inquietação de um escritor - “o que vão achar de meu livro?” - é tão antiga quanto a própria literatura. Envolvido com Felice Bauer, um cético Kafka se pergunta: “Será verdade que alguém pode prender uma mulher com a escrita?” Foi o que tentou com suas cartas, e não é por outro motivo que Elias Canetti as considerou “um dos grandes acontecimentos da história da literatura”. Felice é, a rigor, uma personagem inventada pelas cartas que Kafka lhe escreve, diz Piglia. Em sua figura, a fronteira que separao leitor do personagem se rompe. Até porque ela e Kafka raramente se vêem, só se escrevem.

Kafka não escrevia suas cartas a Felice para dela se aproximar mas, ao contrário, para mantê-la afastada. Ele acreditava que, mais que de amor, um escritor precisa de solidão. Via a literatura como uma guerra, metáfora da experiência pura - e, nesse aspecto, e de modo surpreendente, se aproxima de Ernesto Guevara. Dizia que o escritor deve levar uma “vida de campanha”, longe das mulheres, da família, da rotina. Kafka conhecia o perigo inerente à literatura. Por isso acreditava que ela exige disciplina estrita, ações noturnas e obscuras, isolamento total e organização rigorosa. Como uma forma, abstrata, de guerrilha.

Em Kafka, o escritor é alguém sob pressão. Seus grandes temas são a interrupção, a interferência, a suspensão e o adiamento - em resumo, o fracasso. Tudo aquilo que coloca a própria literatura em risco. “Ser um escritor, para Kafka, quer dizer escrever sob essas condições”, Piglia resume. Daí sua literatura partir sempre, não de um projeto, mas de um enigma. Usando uma idéia que, bem mais tarde, seria adotada por João Cabral de Melo Neto, Kafka dizia que não escrevia para recordar, mas para “fazer ver”. É o “dar a ver” de que nos falaria Cabral. Em vez de descrever a vida, a literatura antecipa a vida.

Mas o que queria Kafka mostrar? Ele desejava tornar visível a “lógica impossível do real”, Piglia resume. Em suas narrativas, ele não interpreta; limita-se a registrar os fatos e a neles procurar nexos. Em Kafka, resume Piglia, “tudo é nítido e sinistro”. Que lugar sobra, então, para o leitor? Tudo o que lhe resta, imitando Felice, é permanecer “em posição de espera”. Não foi por outro motivo, sugere Piglia, que no primeiro dia em que viu Felice, Kafka a confundiu com uma criada. Em seus relatos, as mulheres, ou são criadas, ou são prostitutas - estão ali para servir e acolher. Kafka se envolve com Felice porque nela vê uma leitora obediente e também uma copista aplicada. Foi um escritor caótico: das 3.500 páginas de sua obra completa, apenas cerca de 350 foram passadas a limpo e enviadas a um editor. A aplicada Felice surge para ajudá-lo a se transformar “de escritor em autor”.

A figura de Felice (cujo vínculo com Kafka se estabelece não pelo sexo, mas pela leitura) repete a de outros copistas célebres, como Vera Nabokov, a copista do marido, Vladimir; Sofia, a contrariada copista do esposo, Liev Tolstói; e o escritor Samuel Beckett, secretário (e copista) de James Joyce. No caso de Joyce, enfatiza Piglia, é curioso que um homem, e não sua mulher, Nora - que na verdade desprezava os textos do marido - tenha se metamorfoseado em copista. Justo ela, Nora Joyce, que antes de casar foi servente em um hotel de Dublin, é quem se recusa a servir e copiar.

Copistas são leitores passivos e acovardados; o oposto do sujeito que lê por prazer e por opção, cujo melhor modelo, nos diz Piglia, é o “detetive privado”, essa figura chave do gênero policial. A cena inicial do gênero, aliás, acontece em uma livraria da rua Montmartre, em Paris, onde o narrador de Os crimes da rua Morgue, de Edgar Allan Poe, conhece, por acaso, o detetive Auguste Dupin, que ali está em busca de um livro. O gênero policial, argumenta Piglia, é o gênero “do triunfo da razão”. São histórias de reflexão, de investigação, que buscam lançar luz sobre eventos obscuros. Dupin, o célebre detetive de Poe, é, antes de tudo, um grande leitor. Personagens clássicos, como Hamlet, ou o Quixote, experimentaram, antes dele, a leitura “como uma doença”. Sofriam “da enfermidade da leitura, do excesso de mundos irreais”. Com a chegada de Dupin, em 1840, esta posição se inverte e a leitura se torna instrumento da razão. Dupin, “o que sabe ler”, oferece ao leitor um modelo de interpretação. Ricardo Piglia nos autoriza a pensar, assim, que Auguste Dupin foi, quem sabe, o grande pioneiro da crítica literária. Seu patrono involuntário, mas ainda assim maior.

RICARDO PIGLIA

Nasceu em Adrogué, província de Buenos Aires, em 1941. Em 1967 saiu seu primeiro livro, Invasão, premiado pela Casa de las Américas. Em 1975 publicou Nome falso; em 1980, Respiração artificial e, em 1986, a ópera Cidade ausente (todos editados no Brasil pela Iluminuras) Piglia recebeu, em 1997, o mais importante prêmio literário da Argentina, Planeta, pelo livro Dinheiro queimado (Companhia das Letras). Escreveu o roteiro original de Coração iluminado, em colaboração com o diretor Hector Babenco. Crítico literário e ficcionista, é professor da Universidade de Buenos Aires e leciona habitualmente na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.

“Entre nós, o primeiro que pensou esses problemas foi, como sabemos, Macedonio Fernández. Macedonio tinha a pretensão de que seu Museo de la novela de la Eterna fosse “a obra em que o leitor será finalmente lido”. E se propôs a estabelecer uma classificação: séries, tipologias, categorias e casos de leitores. Uma espécie de zoologia ou botânica irreal que identifica gêneros e espécies de leitores na selva da literatura. Para poder definir o leitor, diria Macedonio, primeiro é preciso saber encontrá-lo. Ou seja, nomeá-lo, individualizá-lo, contar sua história. A literatura faz isso: dá ao leitor um nome e uma história, retira-o da prática múltipla e anônima, torna-o visível num contexto preciso, faz com que passe a ser parte integrante de uma narração particular. A pergunta “o que é um leitor?” é, sem sombra de dúvida, a pergunta da literatura. Essa pergunta a constitui, não é externa a si mesma, é sua condição de existência. E a resposta a essa pergunta - para benefício de todos nós, leitores imperfeitos porém reais - é um texto: inquietante, singular e sempre diferente.”

Revista Entre Livros
http://www2.uol.com.br/entrelivros/

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“No século 19, Marx já previa a globalização”, diz Hobsbawm

O incansável pensador marxista visita Barcelona para falar da Europa e reflete sobre alguns episódios essenciais do século 20, critica os fundamentalismos de todo tipo e mostra a complexidade do fenômeno terrorista

José Andrés Rojo

Eric Hobsbawm tem 90 anos e é uma referência indiscutível no mundo dos historiadores. Autor de “A Era dos Extremos - o Breve Século XX: 1914 - 1991″, de “Guerra e Paz no Século 21″ e da autobiografia “Anos Interessantes”, entre muitos outros títulos, defende a força das idéias de Marx para analisar o que acontece no mundo atual. Ontem, junto com Donald Sassoon e Josep Fontana, participou de um seminário sobre a Europa organizado pelo Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona. Por isso pediu para não falar do Velho Continente, mas tratou de várias outras questões.

Weimar e Hitler. “Era inevitável politizar-se naquele tempo. Eu vivia na Alemanha e não podia ser social-democrata (eram muito moderados), nem nacionalista (era inglês e judeu), nem me interessava o sionismo. Por isso me alistei em uma associação juvenil que embora se chamasse socialista estava marcada pelos comunistas. Assisti ao colapso da República de Weimar e participei ativamente (o que representava muitos riscos) das eleições de 1933 que foram ganhas por Hitler. Então fui para a Inglaterra e comecei a estudar em Cambridge.”

Trinta anos de guerra. “Com a guerra de 1914 terminou o mundo da grande cultura burguesa. Depois vieram mais de 30 anos de guerras, revoluções, instabilidade e crises, uma época catastrófica. Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, entramos em uma aceleração da economia, da sociedade e da cultura que não cessou mais. Não foi um salto, foi um crescimento contínuo. A Internet transformou tudo e tem só 15 anos.”

O poder do marxismo. “Os marxistas acreditavam que a classe operária fosse crescer, quando o que aconteceu é que decresceu, e países como os EUA ou a Inglaterra inclusive estão se desindustrializando. A luta política baseada na luta de classes não é mais muito eficaz. Mas Marx sobrevive em sua concepção materialista da história e em sua análise do capitalismo. No século 19, já previa a globalização, e quando se comemorava o 150º aniversário do Manifesto Comunista, as crises econômicas do Sudeste Asiático e da Rússia em 1997 e 1998 confirmaram suas previsões. O poder do marxismo continua intacto, ao contrário de muitas idéias políticas de Marx que obedeciam, mais que à análise, aos sonhos de igualdade.”

A Revolução Russa. “O socialismo triunfou em países atrasados e sua obsessão foi modernizá-los. Na União Soviética a idéia era desencadear uma rápida industrialização, e se para fazê-lo fosse necessário recorrer a procedimentos autoritários, que fosse. Não quero justificar os campos de trabalhos forçados, que são injustificáveis, mas as conquistas foram extraordinárias. Durante a Segunda Guerra Mundial a URSS não sucumbiu, mas derrotou o inimigo mais poderoso: o exército alemão. Não o fez mobilizando as massas. Conseguiu porque era um país industrializado com notáveis avanços tecnológicos e com gente preparada. O modelo para alcançar uma industrialização tão rápida foi o da economia de guerra. O preço foi não conseguir que a economia tivesse uma dinâmica própria.”

Putin e os gângsteres. “Não se pode compreender sem a crise de 1991. E então se viu claramente que o afã de fazer da Rússia um Estado capitalista a toda velocidade era inclusive mais difícil do que industrializar um país atrasado. Foi tal o cataclismo que Putin pelo menos conseguiu que o Estado funcione. Se a economia caiu nas mãos dos gângsteres, o que conseguiu é que estes obedeçam ao Estado.”

Os fundamentalismos. “Afetam todas as religiões. No caso islâmico, a revolução que triunfou no Irã tinha uma forte vontade de consolidar um Estado, centralizá-lo e modernizá-lo. Os fundamentalistas judeus são desde 1967 os mais vigorosos defensores de Israel e reivindicam suas ambições imperialistas. E não se deve esquecer a virada fundamentalista dos católicos com os últimos papas e das comunidades protestantes nos EUA.”

O terrorismo islâmico. “Seu poder militar é mínimo. O atentado em Nova York não chegou a desestabilizar a cidade, exceto durante algumas horas. É preciso salientar que há lugares (Afeganistão, Paquistão, Oriente Médio) onde os grupos terroristas jogam politicamente um papel importante e não podem ser desprezados. Outra coisa é o terrorismo islâmico em nossos países. Corresponde a uma reação antiimperialista, e não querem que em seus países se imponha o capitalismo ocidental. Na Inglaterra, os terroristas também reagem contra a religião herdada de seus pais, mais moderada. Costumam pertencer às elites e sua educação é superior à média de seus países.”

El País

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Para fazer a globalização funcionar

O historiador Eric Hobsbawm e o economista Joseph Stiglitz sugerem mudanças de rumo na política

Antonio Gonçalves Filho

Saudada com euforia há duas décadas, a globalização passou a ser vista como invenção diabólica no fim da década de 1990 com um protesto em Seattle, quando operários americanos se viram ameaçados pela concorrência dos chineses. As duas faces da globalização - a de promotora de um modelo de economia de mercado e a de disseminadora da pobreza - são analisadas nas entrevistas do historiador Eric Hobsbawm e do economista Joseph E. Stiglitz concedidas ao Estado, ambas respondendo às mesmas questões propostas pela reportagem.

Dizem que a dinâmica do capitalismo globalizado está fora do controle dos governos e que os impérios acabaram. Qual o seu prognóstico para o futuro da globalização?

ERIC HOBSBAWM: Nações-estado, mesmo as maiores, são incapazes de controlar por mais tempo o que está acontecendo com a economia mundial, mas podem, contudo, determinar a forma e a natureza da globalização. Ela vai ter de conviver com as nações-estado, cenários das decisões políticas, porque a política tem resistido à globalização, continuando a confrontá-la. As pressões políticas, creio, irão refrear o processo de globalização na próxima década, embora seja pouco provável um revival do protecionismo verificado no período entre-guerras. A globalização vai continuar. Espero que os governos que hoje exercem liderança mundial sejam forçados a abandonar sua aposta no descontrole do mercado livre. Os EUA falharam em seus planos de impor uma política hegemônica sobre o globo após o 11 de Setembro e a guerra contra o Iraque mostrou os limites dessa que foi a mais extraordinária máquina de guerra de nossa época, o que nos dá segurança para dizer que a era dos impérios está definitivamente morta.

JOSEPH E. STIGLITZ: De fato, a turbulência que atingiu os mercados financeiros em 2007 parece mesmo mostrar que os problemas que tínhamos em meados do ano continuam a se avolumar e não há motivo algum para ser otimista, porque podemos enfrentar uma possível crise global. Contudo, não há motivos para suspeitar que a globalização não eleve os padrões de vida ou dificulte aos países pobres o acesso aos mercados externos. A globalização vai continuar e pode trazer uma grande contribuição para esses países. Não vai ser fácil fazê-la funcionar. Também é verdade que os Estados Unidos não conseguem viver de maneira autônoma e uma prova disso são os empréstimos cada vez maiores que o país toma e suas atitudes protecionistas.

A instabilidade da nova economia global parece evidente e as nações-estado são aparentemente incapazes de governar a si mesmas, correndo mesmo o risco de se desintegrar. Isso pode representar uma porta aberta para a desordem global? Elas serão obrigadas a se submeter à intervenção estrangeira?

HOBSBAWM: Muitas regiões do globo - a África, o Oriente Médio, parte do sudeste europeu e a ex-União Soviética - já estão vivendo a era da desordem global. A tendência à desintegração dos estados, principalmente após o colapso dos impérios do século 20, é reforçada por uma nova tendência: a da fragmentação das mais antigas unidades políticas estáveis do mundo rico, como Grã-Bretanha, Espanha, Bélgica, Itália e Canadá. Essa tendência à ‘balcanização’ e ao enfraquecimento do poder estatal certamente favorece a desordem global, mas sua causa principal tem sido a crença de Washington de que os EUA podem impor uma ordem mundial de mão única. O estabelecimento de um padrão mais razoável de política internacional, que reconheça os limites desse poder e a existência de um sistema pluralista, seria menos perigoso. Movimentos separatistas, de modo geral, recorrem à ajuda política de forças externas para conquistar autonomia ou independência, mas os estados que são incapazes de governar a si mesmos não se tornam necessariamente mais governáveis quando ocupados por exércitos estrangeiros.

STIGLITZ: Acho que os países industrializados têm condições de resolver os próprios problemas, mesmo que, aparentemente, mostrem-se incapazes de se governar. Naturalmente, os mais ricos têm como se proteger de modo mais adequado, enquanto os países em desenvolvimento não dispõem de recursos para se defender do fluxo do capital especulativo descontrolado, correndo, portanto, maiores riscos. A globalização expõe conflitos sociais e coloca em questão o papel do governo e dos mercados. É irônico que o secretário do Tesouro dos EUA exerça pressão sobre a Índia para que se abra para esse capital especulativo.

A miséria permanece um problema em economias emergentes. Particularmente no Brasil, os programas sociais destinados a aliviar a pobreza parecem inoperantes para atender às metas da globalização. Como a globalização pode ajudar países como Brasil e Índia?

HOBSBAWM: A globalização trouxe um rápido crescimento econômico e com ele uma diminuição significativa da pobreza mundial. Ao mesmo tempo, fez crescer a distância entre ricos e pobres. Isso parece evidente em países como a China, onde a globalização se torna visível pela rápida industrialização e geração de empregos. E, vale lembrar, o nome do crescimento econômico, para a maioria das pessoas , é emprego. A Índia, por exemplo, tem mais pobreza que a China porque seu crescimento econômico não se baseia na evolução da indústria de manufaturados. Ao mesmo tempo, a fase atual da globalização, que abre mercado e garante altos preços para produtos agrícolas, favorece países como o Brasil, mas, infelizmente, tem pouco efeito na promoção social dos pobres ou de pequenos agricultores. Os programas para minimizar os efeitos da pobreza têm pouco a ver com a globalização e mais com a correção de certas deficiências de cada país. Não estou capacitado para julgar o que está sendo feito no Brasil, mas o país continua como exemplo extremo de inadequação social e econômica.

STIGLITZ: Tudo depende de como a globalização é gerenciada - e ela ainda não é administrada de forma coerente com os princípios democráticos. Ela pode ajudar a dividir a riqueza e diminuir a pobreza, como na China, onde o rápido crescimento econômico, baseado nas exportações, conseguiu tirar mais de 300 milhões de chineses da pobreza. Há exemplos contrários de países no Leste Asiático e na América Latina que não evitaram o processo de expansão e contração, como a China, e só viram a pobreza e as crises se repetirem. Quando a globalização é mal orientada, o que se vê são pobres fazendeiros confrontando não outros fazendeiros, mas competindo com Washington - competição, aliás, difícil de vencer. Nos países em desenvolvimento, os governos tendem à corrupção e os pobres ficam mais vulneráveis quando a economia mundial freia.

O rápido crescimento da China provocou um tremendo impacto em quase todos os países, pequenos ou grandes, contribuindo para elevar o preço das mercadorias e, ao mesmo tempo, tornar economias dos pequenos mais vulneráveis. Qual a solução para essa dependência? Como essas pequenas economias vão encarar esse desafio?

HOBSBAWM: Considerando que o tamanho e a velocidade do crescimento da China salvaram a economia mundial dos efeitos de uma economia fraca e instável como a americana, ela deveria ser vista como benéfica para a economia de outros países, e não como um perigo. A dependência num único mercado exportador de produtos primários não é uma desvantagem, a menos que tal mercado entre em colapso. Aí, de fato, não haveria alternativa. Argentina e Uruguai, no começo do século 20, saíram-se muito bem ao se livrar da dependência do mercado britânico. Pequenas economias não são necessariamente mais vulneráveis que grandes economias - veja o caso da Islândia, Dinamarca, Noruega e Finlândia. Na verdade, pequenas economias podem até se adaptar mais facilmente à globalização que as grandes, concentrando-se em nichos particulares da economia mundial.

STIGLITZ: A China, com sua economia em expansão, é um exemplo positivo. A alta nos preços das mercadorias chinesas pode ter bons reflexos em países exportadores da América Latina, incluindo o Brasil. Por outro lado, traz desafios para países importadores. A China tem uma alta taxa de poupança, ao contrário dos EUA. É preciso entender a dinâmica da globalização. A liberalização do comércio pode ter sido favorável para a China, mas causou grande dificuldade para outros países que desejam competir com a economia chinesa. Os subsídios têm um papel relativo nessa história, como mostram os chineses. Países como os EUA têm de rever sua posição, porque a globalização econômica foi mais rápida que a política.

Países desenvolvidos manipulam as leis internacionais de comércio para se proteger, impondo altos custos a outros países e ameaçando-os ainda com a poluição e outras conseqüências negativas de suas atividades. Como fazer a globalização funcionar se os países desenvolvidos têm menos consciência ecológica que os não-desenvolvidos?

HOBSBAWM: Quais países são mais conscientes e quais os menos conscientes? E mesmo que eles sejam conscientes, isso determina um comportamento ecológico? O governo chinês, por exemplo, é mais consciente que o americano, embora os dois sejam igualmente grandes poluidores. O problema não reside em decisões de cunho nacional, mas na ausência de uma autoridade global capaz de impor medidas de controle para lidar com um problema que é global. Se ela existisse, haveria pontos a discutir sobre como suas decisões afetam países em desenvolvimento.

STIGLITZ: De fato, o crescimento da atividade econômica de países desenvolvidos, bem como de países em desenvolvimento, está provocando grande impacto ambiental. Considerando que a maior parte dos recursos ambientais não é global por natureza, não creio que seja possível lidar de forma imperativa com a poluição que transcende fronteiras. O aquecimento global é uma realidade, assim como é limitada nossa capacidade de gerir recursos naturais, mas sou otimista com relação à educação, à conscientização ambiental. Os países em desenvolvimento não têm como criar barreiras para os desenvolvidos, que são, naturalmente, os maiores poluidores por possuírem as maiores economias. Fazer a globalização econômica funcionar depende de como vamos gerir nossos recursos naturais.

A possibilidade de uma recessão mundial não está longe, considerando a mudança do sistema de reservas global motivada por uma economia instável. Há meios de eliminar a dependência de uma moeda única? Quais são as suas sugestões?

HOBSBAWM: Está além da minha competência fazer propostas sobre o sistema financeiro internacional, mas parece claro que o dólar não pode manter por mais tempo sua posição como padrão monetário internacional, considerando as quedas sucessivas da moeda americana. Não sabemos ainda quanto tempo demorará para ele ser substituído por outro parâmetro monetário internacionalmente aceito, tal como imaginou Keynes. É evidente que a maioria das pessoas e estados gostaria de se livrar de seus dólares, mas temem as conseqüências de um súbito colapso da moeda na economia mundial.

STIGLITZ: É como digo no nono capítulo de meu livro: o sistema financeiro mundial não funciona bem, em particular para os países em desenvolvimento. O custo do atual sistema global para eles é alto: torna a economia mais vulnerável, mais instável. As sucessivas quedas do dólar chocam o mundo financeiro e o sistema atual já se desgastou o suficiente. Muitos diretores de bancos centrais já estão saindo do dólar, seguindo o exemplo dos chineses. Isso enfraquece a moeda e nos faz concluir que ele não é o melhor meio de acumular reservas. Portanto, é preciso criar um novo sistema global de reservas e a solução está na velha proposta de Keynes, de criar numa nova forma de papel-moeda sem lastro que pode funcionar como reserva.

O terrorismo é uma ameaça real ao mundo. Como conciliar a idéia de globalização com antigas crenças?

HOBSBAWM: O terrorismo de pequenos grupos, que certamente deve ser combatido, não representa uma ameaça real ao mundo moderno. Os terroristas demonstraram sua habilidade em cometer massacres indiscriminados e chocantes, mas o terrorismo não é um fator político ou militar relevante e, mesmo em países onde é proeminente, representa apenas uma pequena célula de resistência à ocupação estrangeira. É ameaçador, sem dúvida, mas porque não o entendemos, não por representar perigo. Os efeitos do furacão Katrina nos EUA foram incomparavelmente maiores que o 11 de Setembro, em que morreram dramaticamente muitos inocentes. É essencial ter em mente os limites do terrorismo para que não fiquemos histéricos. Sobre antigas crenças e culturas ancestrais, há pouco de antigo no braço extremista islâmico que inspira uma organização como a Al-Qaeda. A fatwa que permite a matança indiscriminada de inocentes, incluindo aí muçulmanos, não havia sido aprovada pelo clero egípcio até o começo dos anos 1970. O barbarismo dos quais os terroristas modernos são representantes não está baseado na antiguidade ou na tradição, mas nas sociedades dos séculos 20 e 21.

STIGLITZ: Creio que, à medida que o mundo se torna mais globalizado, ele se torna também mais integrado. E, para fazer a globalização funcionar, reduzir o déficit democrático é essencial. Não vejo como antigas crenças possam impedir a convivência de uma cultura ancestral com outras civilizações. Na Europa, por exemplo, as diferenças culturais entre escandinavos e ingleses são enormes e nem por isso deixam de se integrar economicamente. Ficamos interdependentes na área econômica. O fundamentalismo econômico é, hoje, tão perigoso como o religioso.

Jornal Estado de S. Paulo
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Crítica da Violência: crítica do poder

WALTER BENJAMIN

A tarefa de uma crítica da violência pode ser definida como a apresentação de suas relações com o direito e a justiça. Pois qualquer que seja o efeito de uma determinada causa, ela só se transforma em violência, no sentido forte da palavra, quando interfere em relações éticas. Esfera de tais relações é designada pelos conceitos de direito e justiça. Quanto ao primeiro, é evidente que a relação elementar de toda ordem jurídica é a de meios e fins. A violência, inicialmente, só pode ser procurada na esfera dos meios, não na dos fins. Posto isso, temos mais dados para a crítica da violência* do que talvez pareça. Pois se a violência é um meio, pode parecer que já existe um critério para sua crítica. Tal critério se impõe com a pergunta, se a violência é, em determinados casos, um meio para fins justos ou injustos. Sua crítica, portanto, estará implícita num sistema de fins justos. Mas, não é bem assim. Pois esse tipo de sistema – supostamente acima de quaisquer dúvidas – não incluiria um critério da própria violência como princípio, mas apenas um critério para os casos em que ela fosse usada. Ficaria em aberto a pergunta, se a violência em si, como princípio, é moral, mesmo como meio para fins justos. Para decidir a questão, é preciso Ter um critério mais exato, uma distinção na esfera dos próprios meios, sem levar em consideração os fins a que servem. A eliminação deste tipo de pergunta crítica e mais exata caracteriza uma das grandes correntes da filosofia o direito – o direito natural – e talvez seja sua característica mais marcante. O direito natural não vê problema nenhum no uso de meios violentos para fins justos; esse uso é tão natural como o “direito” do ser humano de locomover seu corpo até um determinado ponto desejado. Segundo essa concepção (que serviu de base ideológica ao terrorismo na Revolução Francesa), a violência é um produto da natureza, por assim dizer, uma matéria-prima utilizada sem problemas, a não ser que haja abuso da violência* para fins injustos. Se, de acordo coma teoria política do direito natural, todas as pessoas abrem mão do seu poder* em prol do estado, isso se faz, por que se pressupõe (como mostra explicitamente Spinoza no Tratado teológico- político) que, no fundo, o indivíduo – antes de firmar esse contrato ditado pela razão – exerce também de jure qualquer tipo de poder que, na realidade, exerce de fato. (…)

À tese, defendida pelo direito natural, do poder* como dado da natureza, se opõe diametralmente a concepção do direito positivo, que considera o poder* como algo que se criou historicamente. Se o direito natural pode avaliar qualquer direito existente apenas pela crítica de seus fins, o direito positivo pode avaliar qualquer direito que surja apenas pela crítica de seus meios. Se a justiça é o critério dos fins, a legitimidade é o critério dos meios. No entanto, não obstante essa contradição, ambas as escolas estão de acordo num dogma básico comum: fins justos podem ser obtidos por meios justos, meios justos podem ser empregados para fins justos. O direito natural visa, pela justiça dos fins, “legitimar” os meios, o direito positivo visa “garantir” a justiça dos fins pela legitimidade dos meios.

A antinomia se revelaria insolúvel, se o pressuposto dogmático comum fosse falso, se meios legítimos de um lado e fins justos do outro lado estivessem numa contradição inconciliável. Sua compreensão não seria possível sem sair do círculo, estabelecendo critérios independentes para fins justos e para fins legítimos.

Para tal investigação, se exclui por enquanto a esfera dos fins e com isso também a busca de um critério da justiça. A questão central passa a ser a da legitimidade de determinados meios que constituem o poder*. Ela não pode ser decidida por princípios de direito natural, que apenas levariam a uma casuística sem fim. Pois, se o direito positivo é cego para o caráter incondicional dos fins, o direito natural é cego para o condicionamento dos meios. No entanto, a teoria do direito positivo é aceitável como base hipotética no ponto de partida da investigação, uma vez que estabelece uma distinção básica quanto aos tipos de poder, independentemente dos casos de seu uso. Distingue entre o poder* historicamente reconhecido, o chamado poder sancionado e o não- sancionado. (…)

Uma máxima geral da legislação européia atual pode ser formulada nestes termos: todos os fins naturais das pessoas individuais entram em colisão com fins jurídicos, quando perseguidos com maior ou menor violência. (A contradição do direito à legítima defesa com esta máxima deve se explicar por si mesma no decorrer das considerações seguintes.) O corolário desta máxima é que o direito considera o poder na mão do indivíduo um perigo de subversão da ordem judiciária. Um perigo no sentido de impedir os fins jurídicos e a executiva judiciária? Não; pois nesse caso condenar-se-ia não simplesmente o poder, mas apenas o poder voltado para fins contrários à lei. Poder-se-ia dizer que um sistema de fins jurídicos é insustentável quando, em algum lugar, fins naturais ainda podem ser perseguidos por meio da violência. Mas isso, por enquanto, é um simples dogma. Por outro lado, talvez deva se levar em consideração a surpreendente possibilidade de que o interesse do direito em monopolizar o poder diante do indivíduo não se explica pela intenção de garantir os fins jurídicos, mas de garantir o próprio direito. Possibilidade de que o poder, quando não está nas mãos do respectivo direito, o ameaça, não pelos fins que possa almejar, mas pela sua própria existência fora da alçada do direito. De modo mais drástico, a mesma suposição pode ser sugerida pela reflexão, quantas vezes a figura do “grande” bandido não suscita a secreta admiração do povo, por mais repugnantes que tenham sido seus fins. Isso é possível não por causa de seus efeitos, mas apenas por causa do poder* que se manifesta nesses feitos. Nesse caso, portanto, o poder – que o direito atual procura retirar do indivíduo em todas as áreas de atuação – se manifesta realmente como ameaça e, mesmo sendo subjugado, ainda assim suscita a antipatia da multidão contra o direito. (…)

Pois o direito positivo, quando está consciente de suas raízes, reivindicará o fato de reconhecer em cada indivíduo o interesse da humanidade e de fomentá-lo. Tal interesse consistiria na apresentação e conservação de uma ordem de destino. Se, por um lado, não se deve poupar críticas a essa ordem, que o direito pretende conservar com razão, por outro lado, qualquer interpelação dessa ordem é impotente, quando se apresenta apenas em nome de uma “liberdade” sem rosto e incapaz de apontar uma ordem de liberdade superior. Sua impotência é total, quando não questiona o próprio corpo da ordem jurídica, mas apenas leis ou costumes jurídicos isolados, que então serão protegidos pelo direito com o seu poder, que consiste na alegação de que só existe um único destino e que justamente o status quo e o elemento ameaçador pertencem à sua ordem de maneira irrevogável. Pois o poder* mantenedor do direito é um poder ameaçador. Só que sua ameaça não tem o sentido de uma intimidação, como costumam interpretá-lo teóricos liberais desinformados. A intimidação no sentido exato exigiria uma definição contrária à essência da ameaça e não atingida por lei nenhuma, uma vez que existe a esperança de escapar a seu braço. A lei se mostra ameaçadora como o destino, do qual depende se o criminoso lhe sucumbe. O sentido mais profundo da indefinição da ameaça do direito se revelará somente pela consideração posterior da esfera do destino, de onde ela se origina. Um indício precioso se encontra na área das punições. Dentre elas, mais do que qualquer outra, a pena de morte suscitou críticas, desde o momento em que se questionou a validade do direito positivo. Embora, na maioria dos casos, os argumentos da crítica tenham sido mal fundamentados, seus motivos têm sido questões de princípio. Sentiam os críticos, talvez sem poder explicá-lo e sem querer senti-lo, que uma contestação da pena de morte não ataca uma medida punitiva, nem as leis, mas o próprio direito na sua origem. Pois se a sua origem for a violência*, a violência coroada pelo destino, não está longe a suspeita de que na instituição do poder* supremo – o poder sobre vida e morte, o qual se apresenta na forma da ordem jurídica – , as origens do poder - violência interferem de maneira representativa na ordem existente e ali se manifestam de forma terrível. Coerentemente, em contextos jurídicos primitivos, a pena de morte é decretada também no caso de delitos contra a propriedade, em relação aos quais parece totalmente “desproporcional”. Seu sentido não é punir a infração da lei, mas afirmar o novo direito. Pois o exercício do poder sobre vida e morte, o próprio direito se fortalece, mais do que em qualquer outra forma de fazer cumprir a lei. Mas ali se manifesta também um elemento de podridão dentro do direito, detectável por uma percepção mais sensível, que se distancia de relações nas quais o destino em pessoa apareceria majestosamente para fazer cumprir a lei. A razão e a inteligência, porém, devem aproximar-se dessas relações da maneira mais decidida, se quiserem levar a termo a crítica do poder* instituinte e do poder* mantenedor do direito.

Os dois tipos de poder estão presentes em outra instituição do Estado moderno: a polícia, numa relação muito mais contrária à natureza que a pena de morte, numa mistura por assim dizer espectral. É verdade que a polícia é um poder para fins jurídicos (com direito de executar medidas), mas ao mesmo tempo com a autorização de ela própria, dentro de amplos limites, instituir tais fins jurídicos (através do direito de baixar decretos). A infâmia dessa instituição – sentida por poucos, por que raramente a competência da polícia é suficiente para praticar intervenções mais grosseiras, podendo, no entanto, investir cegamente nas áreas mais vulneráveis e contra cidadãos sensatos, sob a alegação de que contra eles o Estado não é protegido pelas leis – consiste em que ali se encontra suspensa a separação entre poder* instituinte e poder* mantenedor do direito. Do primeiro se exige a legitimação pela vitória, do segundo, a restrição de não se proporem novos fins. O poder* da polícia se emancipou dessas duas condições. É um poder* instituinte do direito – cuja função característica não é promulgar leis, mas baixar decretos com expectativa de direito – e um poder* mantenedor do direito, uma vez que se põe à disposição de tais fins. A afirmação de que os fins do poder* policial seriam sempre idênticos aos do direito restante ou pelo menos ligados a eles, é falsa. Na verdade o “direito” da polícia é o ponto em que o estado – ou por impotência ou devido às inter- relações imanentes a qualquer ordem judiciária – não pode mais garantir, através da ordem jurídica, seus fins empíricos, que deseja atingir a qualquer preço. Por isso, “por questões de segurança”, a polícia intervém em inúmeros casos, em que não existe situação jurídica definida, sem falar dos casos em que a polícia acompanha ou simplesmente controla o cidadão, sem qualquer referência a fins jurídicos, como um aborrecimento brutal ao longo de uma vida regulamentada por decretos. Ao contrário do direito que, na “decisão” fixada no espaço e no tempo, reconhece uma categoria metafísica, graças à qual ele faz jus à crítica, a observação da instituição da polícia não encontra nenhuma essência. Seu poder* é amorfo, como é amorfa sua aparição espectral, inatacável e onipresente na vida dos países civilizados. E, apesar de a polícia amiúde ter o mesmo aspecto em toda a parte, não se pode negar que seu espírito é menos arrasador na monarquia absoluta – onde ela representa o poder* do soberano, que reúne plenos poderes legislativos e executivos – do que nos regimes democráticos, onde sua existência, não sublimada por nenhuma relação desse tipo, testemunha a maior degenerescência imaginável do poder*. Todo poder* enquanto meio é, ou instituinte ou mantenedor de direito. Não reivindicando nenhum desses dois atributos, renuncia a qualquer validade. Portanto, qualquer poder* enquanto meio, mesmo no caso mais favorável, tem a ver com a problemática geral do direito.

(…) Quando a consciência da presença latente da violência dentro de uma instituição jurídica se apaga, esta entra em decadência. Um exemplo disso, no momento atual, são os parlamentos. Eles oferecem esse espetáculo notório e lamentável porque perderam a consciência das forças revolucionárias às quais devem sua existência. Assim, sobretudo na Alemanha, a última manifestação de tais poderes* transcorreu sem conseqüências para os parlamentos. Falta-lhes o sentido para o poder instituinte de direito, representado por eles; assim, não é de estranhar que não consigam tomar decisões que sejam dignas desse poder,* mas cultivem, com a prática dos compromissos, uma maneira supostamente não violenta de tratar de assuntos políticos. Ora, o compromisso permanece “um produto que, apesar de repelir qualquer violência* aberta, se situa dentro da mentalidade da violência,* porque o impulso que leva a fazer um compromisso não parte dele mesmo, mas vem de fora, justamente do impulso contrário, porque em qualquer compromisso, mesmo quando aceito de bom grado, não se pode fazer abstração do caráter compulsório. ‘Uma solução diferente seria melhor’ – eis o sentimento que está na base de qualquer compromisso” [3] – É significativo que talvez o mesmo número de pessoas que, por causa da guerra, optaram pelo ideal de uma solução não - violenta de conflitos políticos, tenha-se afastado desse ideal por causa da decadência dos parlamentos. (…)

Será que a solução não - violenta de conflitos é em princípio possível? Sem dúvida. As relações entre pessoas particulares fornecem muitos exemplos. Um acordo não- violento encontra-se em toda parte, onde a cultura do coração deu aos homens meios puros para se entenderem. Aos meios legítimos e ilegítimos de toda espécie – que são, todos, expressão da violência* – podem ser confrontados como meios puros os não- violentos. A atenção do coração, a simpatia, o amor pela paz, a confiança e outras qualidades a mais são seu pressuposto subjetivo. Sua manifestação objetiva é determinada pela lei (cujo enorme alcance não pode ser discutido aqui) de que meios puros não sirvam jamais a soluções imediatas, mas sempre a soluções mediatas. Por isso, nunca se referem à solução de conflitos entre duas pessoas de maneira imediata, mas pelo intermédio das coisas. Quando os conflitos humanos se referem, da maneira mais objetiva, a bens, abre-se o campo dos meios puros. Por isso, a técnica, no sentido mais amplo da palavra, é sua área mais própria. Seu exemplo mais profundo talvez seja a conversa, considerada como uma técnica de mútuo entendimento civil. Ali, um acordo não- violento não apenas é possível, mas a eliminação por princípio da violência* pode ser explicitamente comprovada com um tipo de relação importante: a impunidade da mentira. Talvez não exista no mundo nenhuma legislação que originalmente puna a mentira. Quer dizer que existe uma esfera de entendimento humano, não- violenta a tal ponto que seja totalmente inacessível à violência: a esfera propriamente dita do “entendimento”, a linguagem.(…)

Em toda a esfera dos poderes,* que se orientam ou pelo direito natural ou pelo direito positivo, não se encontra nenhum que esteja a salvo dos graves problemas acima mencionados, que afetam todo e qualquer poder* judiciário. Mas como qualquer idéia, qualquer solução imaginável das tarefas humanas – sem falar de uma salvação do círculo compulsório de todas as situações existenciais já ocorridas na história mundial – é irrealizável, quando se exclui por princípio todo e qualquer poder,* impõe-se a pergunta se existem outros tipos de poder,* além daqueles focalizados pela teoria do direito. Ao mesmo tempo impõe-se a pergunta se é verdadeiro o dogma básico, comum àquelas teorias: fins justos podem ser obtidos por meios legítimos, meios legítimos podem ser usados para fins justos. O que aconteceria, se esse tipo de poder,* dependente do destino e usando meios legítimos, se encontrasse num conflito inconciliável com os fins justos em si, e se, ao mesmo tempo, aparecesse um poder* de outro tipo, o qual então, evidentemente, não pudesse ser nem o meio legítimo nem ilegítimo para aqueles fins, mas se relacionaria com os fins não como um meio mas como algo diferente? Assim se lançaria luz sobre a experiência singular e em princípio desanimadora de que, em última instância, É impossível “decidir” qualquer problema jurídico – apoiaria que talvez só possa ser comparada com a impossibilidade de uma decisão taxativa sobre o que é “certo” ou “errado” em linguagens que têm uma evolução histórica. Afinal, quem decide sobre a legitimidade dos meios e a justiça dos fins não é jamais a razão, mas o poder* do destino, e quem decide sobre este é Deus. É uma maneira de ver incomum, mas apenas porque existe o hábito arraigado de pensar os fins justos como fins de um direito possível, ou seja, não apenas universalmente válidos (o que seria uma conseqüência analítica do elemento justiça), mas passíveis de universalização – o que está em contradição com esse elemento, como se poderia demonstrar. Pois, fins que são justos, universalmente reconhecíveis, universalmente válidos para uma determinada situação, não o são para nenhuma outra, por parecida que seja sob outros aspectos. Uma função não mediata da violência, tal como está sendo discutida aqui, aparece na experiência de vida cotidiana. Quanto ao ser humano, a ira, por exemplo, o leva às mais patentes explosões de violência, uma violência que não se refere como meio a um fim proposto. Ela não é meio, e sim manifestação. É verdade que esse tipo de violência tem suas manifestações objetivas, onde ela é sujeita à crítica. Elas se encontram, antes de mais nada e de maneira altamente significativa, no mito.

O poder* mítico em sua forma arquetípica é mera manifestação dos deuses. Não meio para seus fins, quase não manifestação de sua vontade, antes manifestação de sua existência. Disso, a lenda de Níobe oferece um excelente exemplo. É verdade que ação de Apolo e Ártemis pode parecer uma mera punição da transgressão de um direito existente. A hybris de Níobe conjura a fatalidade, não por transgredir a lei, mas por desafiar o destino – para uma luta na qual o destino terá de ser o vencedor, podendo engendrar, na vitória, um direito. Até que ponto o poder divino, no sentido da Antigüidade, não era o poder mantenedor da punição, fica patente nas lendas, onde o herói, por exemplo Prometeu, desafia o destino com digna coragem, luta contra ele, com ou sem sorte, e acaba tendo a esperança de um dia levar aos homens um novo direito. É, no fundo, esse herói e o poder jurídico do mito incorporado por ele que o povo tenta tornar presente, ainda nos dias de hoje, quando admira o grande bandido. A violência* portanto desaba sobre Níobe a partir da esfera incerta e ambígua do destino. Ela não é propriamente destruidora. Embora traga a morte sangrenta aos filhos de Níobe, ela se detém diante da vida da mãe, deixando-a – apenas mais culpada do que antes, por causa da morte dos filhos – como suporte mudo eterno da culpa, e também como marco do limite entre homens e deuses. Se esse poder* imediato quer mostrar, em manifestações míticas, que é parente próximo do poder* instituinte do direito ou lhe é idêntico, ele focaliza um problema deste poder, na medida em que este tinha sido caracterizado – na apresentação anterior da violência* da guerra – como um poder* apenas dos meios. Ao mesmo tempo, esta relação promete esclarecer melhor o destino que em todos os casos está subjacente ao poder* jurídico, e, num grande esboço, levar sua crítica a termo. A função do poder- violência, na institucionalização do direito, é dupla no sentido de que, por um lado, a institucionalização almeja aquilo que é instituído como direito, como o seu fim, usando a violência* como meio; e, por outro lado, no momento da instituição do fim como um direito, não dispensa a violência,* mas só agora a transforma, no sentido rigoroso e imediato, num poder* instituinte do direito, estabelecendo como direito não um fim livre e independente de violência (Gewalt), mas um fim necessário e intimamente vinculado a ela, sob o nome do poder (Macht). A institucionalização do direito é institucionalização do poder e, nesse sentido, um ato de manifestação imediata da violência. A justiça é o princípio de toda instituição divina de fins, o poder (Macht) é o princípio de toda institucionalização mítica do direito.(…)

A crítica da violência, ou seja, a crítica do poder, é a filosofia de sua história. É a “filosofia” dessa história, porque somente a idéia do seu final permite um enfoque crítico, diferenciador e decisivo de suas datas temporais. Um olhar dirigido apenas para as coisas mais próximas perceberá, quando muito, um movimento dialético de altos e baixos nas configurações do poder* enquanto instituinte e mantenedor do direito. A lei dessas oscilações consiste em que todo poder mantenedor do direito, no decorrer do tempo, acaba enfraquecendo indiretamente o poder instituinte do direito representado por ele, através da opressão dos antipoderes* inimigos. (Alguns sintomas disso foram apontados ao longo desta análise.) Isso dura até que novos poderes* ou os anteriormente oprimidos vençam o poder* até então instituinte do direito, estabelecendo assim um novo direito sujeito a uma nova decadência. A ruptura dessa trajetória, que obedece a formas míticas de direito, a destituição do direito e dos poderes* dos quais depende ( como eles dependem dele), em última instância, a destituição do poder do Estado, fundamenta ma nova era histórica. Se a dominação do mito em alguns pontos já foi rompida, na atualidade, o Novo não se situa num ponto de fuga tão inconcebivelmente longínquo, que uma palavra contra o direito seja supérflua. Se a existência do pode, enquanto poder puro e imediato, é garantida, também além do direito, fica provada a possibilidade do poder revolucionário, termo pelo qual deve ser designada a mais alta manifestação do poder puro, por parte do homem. A decisão, porém, se o poder puro, num determinado caso, era real, não é possível da mesma maneira, nem igualmente urgente para o homem. Pois com certeza, apenas o poder mítico será identificado com a violência, não o poder divino, a não ser através de efeitos incomensuráveis, já que o poder que absolve da culpa é inacessível ao homem. De nono, o puro poder divino dispõe de todas as formas eternas que o mito transformou em bastardos do direito. O poder divino pode aparecer tanto na guerra verdadeira quanto no juízo divino da multidão sobre o criminoso. Deve ser rejeitado, porém, todo poder* mítico, o poder* instituinte do direito, que pode ser chamado de um poder que o homem põe (schaltende Gewalt). Igualmente vil é também o poder* mantenedor do direito, o poder* administrado (verwaltete Gewalt) que lhe serve. O poder divino, que é insígnia e chancela, jamais um meio de execução sagrada, pode ser chamado de um poder de que Deus dispõe (waltende Gewalt).

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Alguns pontos preliminares de referência

Antonio Gramsci

Deve-se discutir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia seja algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos. Deve-se, portanto, demonstrar preliminarmente, que todos os homens são “filósofos”, definindo os limites e as características desta “filosofia espontânea” peculiar a “todo o mundo”, isto é, da filosofia que está contida:

1) na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticamente vazias de conteúdo;

2) no senso comum e no bom-senso;

3) na religião popular e, conseqüentemente, em todo o sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ver e de agir que se manifestam naquilo que se conhece geralmente por “folclore”.

Após demonstrar que todos são filósofos, ainda que a seu modo, inconscientemente (porque, inclusive, na mais simples manifestação de uma atividade intelectual qualquer, na “linguagem”, está contida uma determinada concepção de mundo), passemos ao segundo momento, ao momento da crítica e da consciência, ou seja, ao seguinte problema: – é preferível “pensar” sem disto ter consciência crítica, isto é, “participar” de uma concepção de mundo “imposta” mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos grupos sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos desde sua entrada no mundo consciente (e que pode ser a própria aldeia ou a província, pode se originar na paróquia e na “atividade intelectual” do vigário ou do velho patriarca, cuja “sabedoria” dita leis, na mulher que herdou a sabedoria das bruxas ou no pequeno intelectual avinagrado pela própria estupidez e pela impotência para a ação) ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira crítica e consciente e, portanto, em ligação com este trabalho do próprio cérebro, escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade?

NOTA I. Pela própria concepção de mundo, pertencemos sempre a um determinado grupo, precisamente o de todos os elementos sociais que partilham de um mesmo modo de pensar e agir. Somos conformistas de algum conformismo, somos sempre homens-massa ou homens-coletivos. O problema é o seguinte: qual é o tipo histórico do conformismo e do homem-massa do qual fazemos parte? Quando a concepção do mundo não é crítica e coerente, mas ocasional e desagregada, pertencemos simultaneamente a uma multiplicidade de homens-massa, nossa própria personalidade é composta de uma maneira bizarra: nela se encontram elementos dos homens das cavernas e princípios da ciência mais moderna e progressista; preconceitos de todas as fases históricas passadas, grosseiramente localistas, e intuições de uma futura filosofia que será própria do gênero humano mundialmente unificado. Criticar a própria concepção de mundo, portanto, significa torná-la unitária e coerente e elevá-la até o ponto atingido pelo pensamento mundial mais elevado. Significa, portanto, criticar também a própria filosofia até hoje existente, na medida em que ela deixou estratificações consolidadas na filosofia popular. O início da elaboração crítica é a consciência daquilo que somos realmente, isto é, um “conhece-te a ti mesmo” como produto do processo histórico até hoje desenvolvido, que deixou em ti uma infinidade de traços recebidos sem benefício no inventário. Deve-se fazer, inicialmente, este inventário.

NOTA II. Não se pode separar a filosofia da História da Filosofia, nem a cultura da História da Cultura. No sentido mais imediato e determinado, não podemos ser filósofos – isto é, ter uma concepção do mundo criticamente coerente – sem a consciência da nossa historicidade, da fase de desenvolvimento por ela representada e do fato de que ela está em contradição com outras concepções ou com elementos de outras concepções. A própria concepção do mundo responde a determinados problemas colocados pela realidade, que são bem determinados e “originais” em sua atualidade. Como é possível pensar o presente, e o presente bem determinado, com um pensamento elaborado por problemas de um passado bastante remoto e superado? Se isto ocorre, nós somos “anacrônicos” em face da época em que vivemos, nós somos fosseis e não seres modernos. Ou, pelo menos, somos “compostos” bizarramente. E ocorre, de fato, que grupos sociais que, em determinados aspectos, exprimem a mais desenvolvida modernidade, em outros manifestam-se atrasados com relação à sua própria posição social, sendo, portanto, incapazes de completa autonomia histórica.

NOTA III. Se é verdade que toda linguagem contém os elementos de uma concepção do mundo e de uma cultura, será igualmente verdade que, a partir da linguagem de cada um, é possível julgar da maior ou menor complexidade da sua concepção do mundo. Quem fala somente o dialeto e compreende a língua nacional em graus diversos, participa necessariamente de uma intuição do mundo mais ou menos restrita e provinciana, fossilizada, anacrônica em relação às grandes correntes de pensamento que dominam a história mundial. Seus interesses serão restritos, mais ou menos corporativos ou economicistas, não universais. Se nem sempre é possível aprender outras línguas estrangeiras a fim de colocar-se em contato com vidas culturais diversas, deve-se pelo menos conhecer bem a língua nacional. Uma grande cultura pode traduzir-se na língua de outra grande cultura, isto é, uma grande língua nacional historicamente rica e complexa pode traduzir qualquer outra grande cultura, ou seja, ser uma expressão mundial. Mas, com um dialeto, não é possível fazer a mesma coisa.

NOTA IV. Criar uma nova cultura não significa apenas fazer individualmente descobertas “originais”; significa também, e sobretudo, difundir criticamente verdades já descobertas, “socializá-las, por assim dizer; transformá-las, portanto, em base de ações vitais, em elemento de coordenação e de ordem intelectual e moral.

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Um novo estado do mundo

Fracassos da máquina militar dos EUA, reviravoltas no Oriente Médio, avanço da Ásia, migrações intensas e risco de catástrofe climática. Cinco anos após os atentados de 11 de setembro, multiplicam-se os sinais de que a globalização pode estar sofrendo uma mudança de rumos

Ignacio Ramonet

Trágicas labaredas de verão no incêndio permanente do mais antigo conflito planetário, as recentes hostilidades em Gaza e no Líbano testemunham, cada uma à sua maneira, características da nova situação mundial, cinco anos após os atentados do 11 de setembro. Deduzidos a partir deste contexto e a título de esboço cartográfico para ajudar a caminhada nos labirintos da atualidade, eis aqui, em
quatro observações gerais e dez breves considerações, alguns modestos elementos de orientação.

Primeira observação geral

O fenômeno central de nossa época, a globalização econômica, não parece influenciar diretamente os confrontos no Oriente Médio. Nem atiçá-los e tampouco apaziguá-los, o que confirmaria dois postulados: o caráter arcaico desta guerra em que se mesclam, como no século 19, disputas territoriais, tensões oriundas de nacionalismos e fervor religioso; e o equívoco da ideologia liberal de acreditar que o simples aumento do livre comércio gera a paz.

Segunda observação geral

O fato de o Oriente Médio encontrar-se mais uma vez sob o foco da mídia não deve permitir que se esqueça a importância estratégica da Ásia. É lá que se está desenrolando em grande parte o destino do século 21, devido ao crescimento dos dois gigantes, Índia e China. E tendo em vista que os perigos de conflitos entre a China e Taiwan, Coréia do Norte e Japão, Índia e Paquistão, não são de se menosprezar…

Tampouco se deve subestimar a África sub-saariana, onde se acumulam problemas de todos os gêneros (como os da miséria extrema e migração clandestina) que terminarão por explodir diante dos países ricos.

Terceira observação geral

A guerra nuclear torna-se novamente uma das duas maiores ameaças que pesam sobre o mundo (a outra é a catástrofe ecológica). Israel que, durante os recentes combates, penou para impor-se claramente através de meios militares convencionais, possui armamento nuclear. No entanto,não aderiu ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear, do mesmo modo que dois outros Estados rivais: o Paquistão e a Índia. Não longe deste teatro, três potências nucleares investiram militarmente e fracassaram: os Estados Unidos, o Reino Unido e a Rússia. As duas primeiras no Iraque e no Afeganistão e a terceira na Tchechênia. Além disso, a mais importante aliança militar, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), da qual a França (ela própria uma potência nuclear) faz parte, também combate no Afeganistão.

Ainda que os perigos de conflito nuclear existam em outros lugares – península coreana e estreito de Taiwan [1] - na zona que se estende das fronteiras ocidentais da Índia até o Canal de Suez, concentra-se o arsenal mais devastador de todos os tempos. Excetuando a China, todas as grandes potências são militarmente ativas ali. Uma simples faísca pode levar a uma deflagração…

Esta é a razão por que a gestão das crises, que se sucederam na região, requer um saber diplomático cuja chave apenas as Nações Unidas possuem. Mas como isso acaba de ser mostrado no Líbano, a ONU, em sua configuração atual, permanece indispensável e ao mesmo tempo terrivelmente impotente diante dos grandes contenciosos (das grandes incertezas) contemporâneos. Quanto à União Européia, escolada pela sua longa história de guerras desastrosas, constituiria o melhor dos mediadores… caso não continuasse a ser um anão político.

Quarta observação geral

Para compreender as estratégias em prática atualmente, convém distinguir bem os três tabuleiros de xadrez sobre os quais se joga o nosso futuro:

- o militar, onde dominam os Estados-Nações, condicionados pelo fator territorial e pelos ciclos eleitorais curtos (o que os torna pouco aptos a abordar os problemas planetários e de longo prazo). Aqui a supremacia dos Estados Unidos é total, assim como sua vontade de impor um mundo unipolar;

- o econômico e comercial, onde funcionam em regime integral as lógicas da globalização definidas pelo Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI) e pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Onde reinam as empresas privadas e os interesses financeiros em uma multiplicidade de trocas que deixa entrever a perspectiva de um mundo multipolar;

- o ecológico e social, onde se acumulam problemas em três níveis relativos ao meio ambiente (alteração climática, efeito-estufa, poluição, desmatamento, água potável, biodiversidade); à necessidade de novas regras internacionais (para lutar contra a injustiça da ordem mundial que alimenta as tensões internacionais, para gerenciar as migrações, a utilização de transgênicos, a propriedade intelectual, pesquisas genéticas, evasão fiscal e delinqüências modernas). E também o destino das populações da Terra (África, pandemias, miséria, desigualdades quanto ao acesso à Internet, grandes aglomerações, fome, educação, trabalho, catástrofes naturais), onde predominam pobreza, desordens, perigos e caos.

Entre estes três tabuleiros de xadrez as articulações são aleatórias. Freqüentemente evidentes, às vezes inexistentes, e em certos casos, enigmáticas.

Além dessas observações gerais, algumas considerações prudentes podem ser tiradas do recente conflito no Oriente Médio.

Primeira consideração

A nova recrudescência do conflito no Oriente Médio leva a uma confirmação de caráter geopolítico. Esta região de conflito constitui, desde a guerra do Golfo em 1991, o epicentro do atual “pólo de perturbações mundiais”. Desde 1914 e até o fim da Guerra Fria, este foco situava-se na Europa. Agora, engloba uma área geográfica onde o Islã é a religião predominante, e onde se encontra, do Paquistão ao Egito, a maioria dos grandes embates contemporâneos: Caxemira, Afeganistão, Tchechênia, Cáucaso, Curdistão, Iraque, Líbano, Palestina, Somália, Darfur…

Esta zona também acumula fortes tensões internacionais: conflito entre o Paquistão e a Índia a propósito de Caxemira; ameaças do Irã, suspeito de produzir armas nucleares; pressões da Rússia na região transcaucasiana; temores sobre a relação entre a Turquia e o Curdistão iraquiano; numerosos litígios pelo controle da água doce; ganâncias suscitadas pela existência das principais reservas de petróleo no centro de um vasto triângulo formado pelo Golfo, Irã e Mar Negro.

Segunda consideração

Se, por um lado é indiscutível que Israel tem o direito de se defender, por outro, a desproporcionalidade dos castigos infligidos aos civis palestinos e libaneses traduz, paradoxalmente, um tipo de impotência maluca. Por uma simples razão que os próprios norte-americanos começam a compreender e que o ex-presidente William Clinton exprime de seguinte maneira: “Não podemos matar todos os nossos inimigos.” [2] Os de Israel na região são muitos.

Em uma guerra assimétrica, uma superioridade esmagadora não garante nenhuma vitória. Os Estados Unidos estão vivendo esta amarga experiência. “Temo bastante que o Iraque se torne nosso pior desastre desde a guerra do Vietnã”, declara a ex-ministra das Relações Exteriores dos Estados Unidos Madeleine Albright. [3]

Recorrer a um militarismo excessivo e ultrapassado não leva a uma solução política, enquanto a paz – única garantia para a segurança de Israel - não for alcançada. E a paz passa sempre pelas negociações com o inimigo.

Terceira consideração

A frente midiática parece mais decisiva do que nunca. Mas o contexto de informação se metamorforseou. O intenso bombardeio israelense nas usinas elétricas, centrais telefônicas e estações de televisão (Al-Manar TV particularmente) [4], para tornar o sistema de comunicação do adversário cego, surdo e mudo, revelou-se ineficaz.

Os celulares, as câmeras em miniatura e os blogs de combatentes ou de testemunhas oculares permitem uma difusão global quase instantânea de imagens denunciadoras. Por mais intensos que sejam os bombardeios, eles não podem destruir as redes de Internet, concebidas para resistir ao fogo nuclear. Também neste caso os israelenses parecem não ter aprendido a lição das desventuras norte-americanas no Iraque, após a difusão de cenas da prisão Abu Ghraib e de outros testemunhos consternadores; tampouco do declínio da imagem dos Estados Unidos aos olhos da opinião pública mundial. [5]

Quarta consideração

Nesta região, a democracia que Washington garante querer instaurar em toda parte [6], não constitui absolutamente um escudo contra os ataques de Israel, ele próprio um Estado democrático… Tomado ao pé da letra pelos palestinos, únicos cidadãos árabes do Oriente Médio - juntamente com os libaneses - a terem votado democraticamente, em janeiro de 2006, elegendo o Hamas, o governo Bush fechou os olhos e deixou massacrar os (maus) democratas e prender seus eleitos em Gaza.

Adotada para “combater o terrorismo”, a punição infligida à Gaza e ao Líbano produzirá sem dúvida o efeito contrário. “Uma operação que mata cinco insurgentes é contra-produtiva, se os efeitos colaterais levam ao recrutamento de cinqüenta novos rebeldes”, lembra William Paff [7]. Os excessos que acabam por criar o que Mao Tse-tung chamava de “mar onde nadam os combatentes da guerrilha”.

Como na Palestina e no Líbano, o islamismo radical está em expansão no “pólo de perturbrações”. Com seus diversos elementos, e apesar de todas as reservas que pode inspirar, ele constitui a principal força política a opor-se às armas e à dominação imperialista dos Estados Unidos. Enquanto ideologia messiânica para o sucesso futuro, pela qual os militantes estão dispostos a sacrificar a própria vida, em parte o islamismo radical toma o lugar do que foram, por exemplo, o anarquismo ou o comunismo no século 19 e 20. Ainda que esta comparação possa chocar…

Enquanto a violência política recua em outras regiões [8], no Afeganistão (ler o artigo de Syed Saleem Shahzad, nesta edição), onde os talibãs estão de volta e as forças da OTAN na defensiva, na Somália (ler artigo de Gerard Prunier), no Iraque, na Palestina e no Líbano, a corrente salafista vai de vento em popa.

Quinta consideração

O poder das organizações não-estatais não pára de crescer, particularmente as ONGs de caráter humanitário, ecológico, social ou jurídico, às vezes instrumentalizadas, nem sempre desinteressadas. Porém, no seio do pólo de perturbações, pululam especialmente as organizações não-estatais armadas que desempenham um papel determinante nos múltiplos antagonismos. Confirmam este fato a audaciosa ação da facção armada do Hamas em Gaza, em 25 de junho, e a das milícias do Hezbollah no Líbano, que levaram Israel a reagir.

Deve-se observar que em alguma parte desta zona se situa o quartel general do “inimigo público número 1″ dos Estados Unidos. É a organização islamista armada Al-Quaeda, liderada por Osama Bin Laden, que assumiu a responsabilidade dos atentados de 11 de setembro de 2001. Fato que levou Washington a declarar a atual “guerra infinita contra o terrorismo internacional”.

Sexta consideração

Os acontecimentos do 11 de setembro nos fizeram, de fato, entrar em uma nova era. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e seus colaboradores pensaram que o choque coletivo causado pela tragédia lhes daria, enfim, carta branca para colocarem em prática velhos delírios geopolíticos.

Lembremo-nos de três delas: reivindicação do papel “de império” dos Estados Unidos na condução de questões internacionais; classificação de toda luta de resistência nacional (como as do Hamas e do Hezbollah) com o terrorismo e prioridade dada à vigilância generalizada dos cidadãos às custas de suas liberdades (ler o artigo de Philip S. Golub, nesta edição).

Em nome desse corpo doutrinário, a CIA e outros serviços de inteligência autorizaram a “liqüidar” suspeitos ou a seqüestrá-los em qualquer lugar, a fim de levá-los para prisões secretas. Desconsiderando as Convenções de Genebra e fora de qualquer quadro jurídico, a prisão norte-americana de Guantánamo foi criada para encarcerar e maltratar pessoas suspeitas de terem conexões com o Al-Qaeda…

Com base em mentiras (na realidade, para colocarem a mão no petróleo), o Iraque, que não estava absolutamente envolvido com os atentados do 11 de setembro e não possuía nenhuma “arma de destruição em massa”, foi invadido. Em um ímpeto wilsoniano, Washington declarou-se pronto para redesenhar o “Grande Oriente Médio” e nada menos.

Sabemos o que adveio destas ambições absurdas. Hoje o mundo está mais perigoso. E um novo mega atentado não é pouco provável.

A duvidosa máquina militar encontra-se atolada no Iraque, na arapuca de uma guerra assimétrica perdida, reduzida a praticar ou a encobrir, ela também as atrocidades (prisão em massa, massacres, torturas sistemáticas [9]) que dizia ter banido desde o fiasco na guerra do Vietnã [10].

O fracasso político é ainda mais assombroso. Graças às intervenções norte-americanas, o Irã, principal inimigo regional dos Estados Unidos, desvencilhou-se de seus adversários limítrofes: o regime dos talibãs no Afeganistão e o de Saddam Hussein no Iraque [11]. E Teerã se arma a partir de agora para se defender. Por outro lado, enquanto Washington fixava sua atenção nesta região, na América Latina, seu próprio quintal, velhos adversários aproveitavam para tomar o poder democraticamente na Venezuela, no Brasil, na Argentina, no Uruguai, no Chile, no Panamá, na República Dominicana, na Bolívia… Uma maré rosa ou vermelha inédita que, além do mais, veio confortar Cuba e Fidel Castro.

Durante estes anos, Bush acreditou poder atribuir os problemas do mundo somente ao terrorismo e tratá-lo exclusivamente com repressão militar. Esmagando princípios, violou direitos de tal maneira que Noam Chomsky chega a falar do “governo mais perigoso da História norte-americana”, e não hesita em qualificar seu país de principal “Estado terrorista” [12] do planeta.

Sétima consideração

A guerra do Iraque é muito cara. Em 2005, as despesas militares dos Estados Unidos atingiram a soma astronômica de 500 bilhões de dólares [13], o equivalente às despesas militares do resto do mundo. Em conseqüência da globalização, o sistema econômico dos Estados Unidos não repousa mais apenas sobre sua capacidade manufatureira, porém sobre o consumo. Os Estados Unidos funcionam como uma máquina à base de aplicação financeira, importando capital a um ritmo de 700 a 800 bilhões de dólares ao ano. Capital que financia o consumo de bens importados. Este sistema de injeção financeira com capital internacional cria uma situação insustentável. O déficit comercial estadunidense pesa nas finanças internacionais, arriscando provocar uma desvalorização do dólar, um aumento das taxas de juros, uma queda nas bolsas [14] de valores, e uma recessão mundial, sendo um dos principais problemas (invisíveis) atuais.

Oitava consideração

Estimado em cerca de 700 bilhões de dólares, o déficit norte-americano traz vantagens aos países com mão-de-obra barata. Dentre eles, situa-se em primeiro lugara China [15], mas também outros países emergentes (Índia, Coréia do Sul, Taiwan, Brasil, México) cuja expansão econômica começa a preocupar as grandes potências. Tanto que a cotação das matérias-primas (dentre elas o petróleo) está em alta, para grande benefício da Rússia, Cazaquistão,Venezuela, Chile, Argélia…

A concorrência das empresas destes países torna-se mais ameaçadora. Já existem cerca de 25 multinacionais globais nos países do hemisfério Sul e, em breve, haverá uma centena. As ofertas espetaculares de aquisição vão se multiplicar, como a do grupo chinês National Offshore Oil, que foi impedido de comprar a petroleira estadunidense Unocal, ou a fusão da siderúrgica indiana Mittal Steel com a Arcelor européia [16].

Conseqüentemente, pode-se apostar que a globalização está se aproximando do final de um ciclo. Com seu dinamismo atual, ela poderia ameaçar o domínio das velhas potências de sempre. Portanto, uma nova onda de protecionismo não deve ser excluída.

Nona consideração

Os combates entre Israel e o Líbano suscitaram um deslocamento forçado de aproximadamente 1,2 milhão de pessoas (900 mil libaneses e 300 mil israelenses). Estes deslocamentos decorrentes de guerra permanecem pontuais, enquanto as migrações internacionais de mão-de-obra são estruturais e atingem 175 milhões de pessoas. Por conta dos lucros de produção, o crescimento econômico, quando existe, pode criar riquezas, mas não empregos suficientes. Mesmo a China, que se beneficia de taxas de crescimento de mais de 9%, cria cerca de 10 milhões de empregos por ano, ou seja, duas vezes menos que o número de pessoas entrando em seu mercado de trabalho [17].

Os outros devem resignar-se à pobreza, ou então emigrar. Só que clandestinamente. Pois, como constata o historiador Eric Hobsbawm, “a economia de mercado favorece a livre circulação de todos os meios de produção, com exceção da mão-de-obra, que continua amplamente sob o controle do Estado” [18]. Grupos de pessoas, freqüentemene jovens e em bom estado de saúde, tentam penetrar nas raras ilhas de prosperidade do planeta, arriscando a própria vida (como vimos em Melilla e estamos vendo nas Ilhas Canárias). Mais de 20 milhões deles conseguiram migrar para os Estados Unidos [19],onde a partir de agora a questão de pessoas em situação ilegal é tratada, como na Europa, em termos de segurança nacional. No entanto, a bomba da imigração ilegal não explodiu ainda. Este grande drama humano vai submeter todas as sociedades desenvolvidas a uma dura prova.

Décima consideração

Em 14 de julho de 2006, a aviação israelense bombardeou as reservas de óleos de combustão da central elétrica de Jiyê, no sul de Beirute. Cerca de 15 mil toneladas de combustível foram derramadas no mar. No início de agosto, a maré negra atingiu um terço das praias libanesas e o litoral da Síria, ameaçando alcançar o Chipre, a Turquia, Grécia… e Israel [20].

Esta catástrofe ecológica, “efeito colateral” das hostilidades, faz lembrar que os problemas ligados ao meio ambiente vão se tornar altamente estratégicos. Na cúpula do G-8 em Gleneagles, em julho de 2005, a luta contra o aquecimento do planeta já era um dos temas centrais. Com alguns graus a mais em média, a Terra não será mais o mesmo planeta. A elevação do nível do mar levará a catástrofes inéditas. Correções drásticas serão necessárias, enquanto se aproxima o momento em que não se poderá mais extrair petróleo (cujo consumo agrava o efeito estufa) suficiente para atender a demanda.

Neste sucinto panorama da nova situação mundial, este fatos – alerta quanto às alterações climáticas e o fim da era do petróleo - anunciam-se para a humanidade como dois dos maiores desafios a serem enfrentados.

Tradução: Simone Pereira Gonçalves simonepg@hotmail.com
[1] Em 15 de julho de 2005, o general chinês Zhu Chenghu, responsável pela Universidade da Defesa Nacional, não excluiu a possibilidade de que a China possa ter um conflito nuclear com os Estados Unidos, se seus interesses relativos a Taiwan forem ameaçados. Cf. Martine Bulard, “A China sacode a ordem mundial”, Le Monde Diplomatique-Brasil, agosto de 2005.
[2] Le Monde, 10 de agosto de 2005.
[3] Newsweek, 24 de julho de 2006.
[4] Canal do Hezbollah xiita libanês.
[5] International Herald Tribune, Paris, 14 de junho de 2006.
[6] Em nome do princípio caro aos neoconservadores, de que as democracias não fazem guerra entre si. Isto supõe que Israel coexistiria pacificamente com uma Palestina democrática. No entanto, Jerusalém acaba de demonstrar o contrário. E os fatos comprovam que Washington aceita as piores “ditaduras amigas” (Egito, Arábia Saudita, Jordânia, Azerbaijão, Paquistão, jamais qualificadas de “bastiões avançados da tirania”, mas que jogam sua população empobrecida, reprimida e cansada da corrupção nos braços de organizações islamistas radicais.
[7] Le Monde, 19 de julho de 2006.
[8] A relação Guerra e Paz no século 19, publicada pelo Human Security Center da Universidade de British Columbia de Vancouver (Canada) observa uma redução do número de conflitos desde o fim da guerra fria. No seio da União Européia, as duas organizações armadas mais violentas, a Força Armada Republicana da Irlanda (IRA) e o Euskadi ta Askatasuna (ETA) basco decidiram abandonar a luta armada. O IRA ordenou a seus militantes, em 28 de julho de 2005, a “deposição das armas” e o ETA anunciou, em 22 de março de 2006, um cessar-fogo permanente.
[9] Um relatório do Human Right Watch estima que “a tortura dos prisioneiros no Iraque era autorizada pelo exército americano”. Le Monde, 25 de julho de 2006.
[10] Los Angeles Times revelou, em 6 de agosto de 2006, que as atrocidades cometidas pelos norte-americanos no Vietnã foram maiores do que se pensava.
[11] Ler Joe Klein, “The Iran factor”, Time, 24 de julho de 2006.
[12] Le Point, Paris, 20 de julho de 2006.
[13] Dedicaram apenas 18 bilhões de dólares ao desenvolvimento, ou seja, 0,16% do PIB!
[14] O simples temor de ver os bancos centrais aumentarem as taxas de juros provocou, em 21 de maio de 2006, uma queda espetacular nas principais bolsas mundiais.
[15] Em 2005, os Estados Unidos venderam produtos por 47,8 bilhões de dólares à China, enquanto importavam deste país por 201,6 bilhões, ou seja, uma vantagem de 153,8 bilhões para Pequim que detém, além disso, 320 bilhões de títulos do Tesouro norte-americano.
[16] Ler Capital, agosto de 2006.
[17] Le Figaro, 20 de junho de 2006.
[18] L’Express, 8 de junho de 2006.
[19] International Herald Tribune, 29 de junho de 2006.
[20] Ler Caroline Pailhe, “Israël, Palestine, Liban: Le chemin le plus long vers la paix”, GRIP, Bruxelas, 8 de agosto de 2006.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Governo faz perfil das vítimas da Ditadura (2007)

Ayla Zanini

A Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH) lançou, no fim de agosto, o livro Direito à Memória e À Verdade, que relata as atrocidades cometidas pela ditadura militar (1964-1985) contra seus opositores.

A publicação, organizada pela SEDH, em parceria com a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, é o primeiro documento oficial do Estado brasileiro a registrar para a história a situação de 479 militantes que sofreram com os anos da ditadura.

Resultado de 11 anos de trabalho da Comissão Especial, o livro incorpora a versão das vítimas e expõe a questão da localização de alguns corpos.

Em entrevista à Radioagência NP, o ministro da SEDH, Paulo Vannuchi fala sobre a importância do livro para sociedade democrática brasileira, e expõe seu ponto de vista quanto aos arquivos sigilosos da Ditadura.

Radioagência NP: Como foi feito o levantamento de informações para o livro?

Paulo Vanucchi: Houve muitos trabalhos, de jornalistas, especialistas, e de comissões, de familiares, o Dossiê dos Mortos e Desaparecidos, sites do Tortura Nunca Mais, e etc. E é um documento que não se preocupa em acusar ninguém, ele registra para a história toda essa informação que não estava sistematizada com centro no trabalho da Comissão.

Radioagência NP: Como funciona e quais são os objetivos da Comissão Especial sobre mortos e Desaparecidos Políticos?

PV: A Comissão nasceu por lei de 1995 e começou a funcionar no início de 1996. Ela é uma comissão de Estado, ela não é do Governo Lula, ela já atravessa quatro mandatos presidenciais e foi criada com três objetivos: o primeiro era de formalizar o reconhecimento de que o Estado era o responsável pelas mortes de opositores políticos; o segundo era promover a reparação indenizatória e o terceiro é envidar esforços para localizar os restos mortais de aproximadamente 140 brasileiros e brasileiras cujos corpos não foram entregues aos seus familiares.

Radioagência NP: Qual a importância do livro no processo de localização dos corpos dos desaparecidos políticos?

PV: O livro resgata pra história, documenta e expressa a situação ainda por se realizar, envolvendo o problema da localização dos corpos. E para a localização é preciso que haja um procedimento interno nas forças armadas. E isso evidentemente, envolve uma manifestação expressa sob necessidade de abrir arquivos, de fazer uma narrativa e etc. E passa a existir uma narrativa, a partir de agora, um livro oficial, que basicamente incorpora a versão das vítimas.

Radioagência NP: O que ainda falta para que se possa avançar no processo de abertura dos arquivos da ditadura militar?

PV: Precisa abrir todas as informações pertinentes. Os arquivos sobre a repressão política, em termos técnicos, eles já têm mais de 25 anos, rigorosamente eles estão abertos. Onde aparecer esses documentos, eles não mais estão protegidos por sigilo. Estão em mãos particulares, documentos sobre a repressão política. Então se trata de fazer a localização e uma espécie de reconstituição desses autos, porque essa memória não pertence ao sargento, general, delegado, ela pertence à República Brasileira.

Radioagência NP
http://www.radioagencianp.com.br/index.php?option=com_frontpage&Itemid=1

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O Teatro Brasileiro de Comédia

Fernando Navarro

Nos anos 50, o TBC - Teatro Brasileiro de Comédia é o grande modernizador do teatro no país.
No comando do TBC está Franco Zampari, italiano radicado no Brasil desde 1922.

Em 1945, Franco Zampari escreve uma peça de teatro chamada “A Mulher de Braços Alçados”. Napolitano, engenheiro das Indústrias Matarazzo e amante das artes, Zampari apresenta sua peça numa festa da alta sociedade de São Paulo. Essa brincadeira entre amigos é a semente que brota e acaba motivando Zampari para uma dedicação mais profunda ao teatro.

Nas décadas de 30 e 40 predominavam, no teatro brasileiro, espetáculos humorísticos centrados em um ator principal, valorizado por sua capacidade de comunicação direta com o público e suas habilidades de improvisador. O ator era, em geral, o dono da companhia e sua principal atração. Procópio Ferreira, Jaime Costa e Dulcina de Morais são exemplos.

Nos anos 40, uma vontade geral de transformar esse modo de fazer teatro se propaga por grupos amadores, formados por universitários, intelectuais e profissionais liberais. Décio de Almeida Prado funda o Grupo Universitário de Teatro. Alfredo Mesquita dirige o Grupo de Teatro Experimental e funda a primeira escola de atores do Brasil, a EAD - Escola de Arte Dramática, em São Paulo.

Esta febre de mudanças tem dois alvos prioritários: o repertório dos textos encenados e a técnica. Movidos pela força da paixão, os amadores brasileiros viabilizam parte desse projeto.

Em 1948, Franco Zampari, associado a um grupo de empresários de São Paulo, cria o TBC - Teatro Brasileiro de Comédia. Transforma um velho casarão em teatro aparelhado com 18 camarins, duas salas de ensaio, uma sala de leitura, oficina de carpintaria e marcenaria, almoxarifados para cenografia e figurinos, além de modernos equipamentos de luz e som. Um luxo para a época.

Na noite de 11 de outubro , o TBC estréia com espetáculo duplo. “A Voz Humana”, monólogo de Jean Cocteau, interpretado em francês pela atriz Henriette Morineau. Completa a apresentação a peça “A Mulher do Próximo”, escrita e dirigida por Abílio Pereira de Almeida. No elenco está a jovem atriz Cacilda Becker, que mais tarde se torna um dos maiores mitos do teatro brasileiro. A estréia é um sucesso.

O TBC renova a sistemática do trabalho teatral. Monta uma equipe fixa, com encenadores estrangeiros como Adolfo Celi, Ziembinski, Ruggero Jacobi, Luciano Salce e Flamínio Bollini Cerri. Além de cenógrafos, iluminadores e cenotécnicos, contrata um corpo de atores que inclui Cacilda Becker, Sérgio Cardoso, Nydia Lícia, Cleyde Yáconis, Paulo Autran, Tônia Carrero e muitos outros nomes importantes para o teatro brasileiro.

A partir de 1949, Zampari expande suas atividades nas artes e inicia a Companhia Cinematográfica Vera Cruz. As histórias da Vera Cruz e do TBC se misturam. Diversos artistas e técnicos trabalham para as duas companhias. Ao longo de sua existência, o TBC alterna grandes sucessos com fracassos de público.
As constantes crises econômicas da companhia levam-na ao fechamento em 1964.

O TBC é um marco na história do teatro brasileiro. Formou toda uma geração de atores, diretores e dramaturgos. Suas encenações estão documentadas nestas fotos de Fredi Kleemann, ator do TBC e fotógrafo de teatro. Diversas companhias teatrais têm origem no TBC, como as de Nydia Lícia e Sérgio Cardoso; de Tônia Carrero, Adolfo Celi e Paulo Autran; e de Cacilda Becker. Também o Teatro de Arena e o Teatro Oficina, que apesar de terem propostas diferentes, partem do TBC como referência.

O TBC fez uma das mais importantes revoluções no teatro brasileiro ao estabelecer um novo conceito de profissionalismo. Encenou textos de qualidade, com montagens bem cuidadas e renovou o ambiente cultural brasileiro.

Alô Escola Tv Cultura
http://www.tvcultura.com.br/aloescola/index.asp

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A educação conveniente

Empenhado em colar sua imagem à idéia de modernidade, Getúlio Vargas rascunhou em seus governos um modelo de ensino para o Brasil. Mas, apesar do legado institucional que deixou e do espaço que deu a intelectuais de diversos matizes, sua herança não esconde suas contradições

Rosane Pavam

Em janeiro de 1930, a Aliança Liberal lança à presidência do Brasil a candidatura de Getúlio Vargas. Da plataforma política da Aliança salta a expressão “valorização do homem”. Getúlio nos tornará caros, estimados, dizem os liberais, mas, para que isso ocorra, uma ducha de civilidade terá de ser jogada sobre o que somos. A educação é o caminho, diz Getúlio, mas não só ela. Sua irmã inseparável é a saúde, que por sua vez obedece às ordens do rude membro familiar conhecido por saneamento.

O governante terá muito trabalho pela frente se quiser construir uma nação com homens, esgotos e livros. E não hesitará em utilizar instrumentos pouco identificados com a idéia de civilidade quando o jogo político requerer a mão de ferro a que recorre na decretação do Estado Novo, em 10 de novembro de 1937. Com o golpe, fecha o Congresso e, simbolicamente, anuncia pelo rádio - seu veículo de comunicação com as massas - “o nascer de uma nova era”. Que veio acompanhada de uma nova Constituição, tirada da gaveta e inspirada no fascismo italiano.

Analfabetismo em pauta

Dados obtidos em 1906 e publicados dez anos depois no livro Estatística da Instrução, elaborado pela Diretoria Geral de Estatística, informavam que, a despeito de qualquer imprecisão, 74,6% da população em idade escolar era de analfabetos no início do século 20. As desigualdades se acentuavam porque a descentralização dos Estados consagrada pela Constituição de 1891 não contribuía para a criação de um sistema educacional. A Carta também estabelecia o voto somente para alfabetizados, e isso colocava em discussão uma sociedade em que apenas 20% de seus habitantes estavam aptos a exercer a plena cidadania durante as eleições.

No final do século 19, garantir o acesso de toda a população em idade adequada à escola, com o objetivo de cursar o ensino primário, já era tido como o único caminho possível para extinguir o analfabetismo no Brasil. “Desenvolver a estatística oficial e difundir o ensino primário são elementos constitutivos de um mesmo ideário que advoga para o país o alinhamento às idéias iluministas e a adequação às instituições características da modernidade”, afirma Natália de Lacerda Gil em “A dimensão da educação nacional: um estudo sócio-histórico sobre as estatísticas oficiais da escola brasileira”, tese de doutorado defendida em abril deste ano na Faculdade de Educação da USP, que cobre o período de 1871 até a década de 40. “Isso permite compreender por que muito antes de haver escolas suficientes para todas as crianças - muito antes de estarmos sequer perto disso - passa a ser considerado necessário contar as casas de ensino e os alunos”, argumenta. “Descrever em números uma instituição que mal existe é, nessas circunstâncias, dar-lhes alguma existência.”

Teixeira de Freitas, o primeiro secretário-geral do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, entre 1936 e 1948, achava que não se tratava tanto de um problema de falta de escolas naquele período brasileiro, mas de má qualidade do ensino ministrado. Era uma crítica severa ao momento educacional vivido, mas também uma constatação que sugeria um caminho educacional elitista, concentrado em poucas e boas escolas. “De tudo quanto os números já nos revelaram, ressaltam duas conclusões fundamentais. A primeira convence-nos de que a escola brasileira é insuficiente, e a segunda afirma-nos que essa escola é deficiente”, afirmava o estatístico.

Busca de identidade

Mas Getúlio Vargas sugeria não temer os contratempos para reverter um quadro educacional de indigência. Imaginava o Brasil começando exatamente por sua enérgica figura, central na política até 1954, com um breve período de ausência entre 1946 e 1950. O político que deu nome a uma era significativa da história brasileira assume o governo provisório em 3 de novembro de 1930. Onze dias depois cria o Ministério da Educação e Saúde Pública, em consonância com seu ideal de instruir e higienizar. Mas Getúlio precisa admitir, três anos depois disso, em uma mensagem à nação que ele começava a construir, antes de tomar o poder como eleito, em 1934: “O problema da educação do povo continua a ser, ainda e sempre, o nosso magno problema”.

Getúlio Vargas, que endureceu o estilo ao estabelecer o Estado Novo, entre 1937 e 1945, solidificou uma identidade nacional para o país. Este, contudo, era um reclame antigo, do século 19. Procurava-se uma cara para o Brasil. Que o presidente tenha usado a educação como espécie de britadeira para essa escultura é o que intriga. Teríamos de admiti-lo, por isso, como um homem de visão? E o que dizer de seu notório autoritarismo? Seria um componente necessário para eliminar o atraso de um país que mal despertara das mazelas da cultura escravocrata tardiamente desfeita? Getúlio era um homem de seu tempo. Liberal por inteligente conveniência. E os preceitos educacionais que ficaram associados a sua imagem não começaram por ele.

Discute-se sobre o legado que a Era Vargas teria deixado ao país no campo educacional. Pesquisadores como Diana Gonçalves Vidal, professora de História da Educação da Faculdade de Educação da USP, vêem um, e não necessariamente positivo. Depois de Getúlio Vargas, cujas idas e vindas ao poder terminaram com seu suicídio em 1954, uma disputa entre o ensino privado e o público se estabeleceu. O ensino privado se viu vencedor, diz Diana, e subsidiado pelo governo.

Helena Bomeny, professora titular do Departamento de Ciências Sociais da UFRJ, autora de Os Intelectuais da Educação, descreve, contudo, alguns passos importantes dados no período. Desde 1930, com a criação do ministério, houve, a seu ver, um início de reorientação educacional do Brasil. Nessa época, a pasta foi ocupada pelo ministro Francisco Campos, jurista que permaneceu no posto por dois anos e se viu responsável pela redação da autoritária Constituição de 1937. “O movimento renovador começava a ver contemplada sua demanda político-pedagógica de criação de um sistema nacional de educação”, escreve a socióloga. A reforma de 31 sinalizava para a quebra da fragmentação do ensino pelos diversos Estados brasileiros. Indicava, mas não firmava a possibilidade de unificá-lo.

Construção de um olhar

Naquele período, por exemplo, a discussão sobre o que seria um curso primário se apoiava em estatísticas. Em 1937, analisando números obtidos cinco anos antes, esse ensino poderia se dar no tempo em que as instituições e os Estados julgassem necessário para concluí-lo. O secretário-geral do IBGE, depois de estudar o caso nacionalmente, defendia três anos de curso, baseado em um índice: era de 5,528 anos letivos a média de tempo necessária para concluir três anos de primário em todo o Brasil. Algumas escolas do território nacional tinham cursos que variavam sua duração entre dois e cinco anos. No entanto, para cursar cinco anos de escola pública, seriam gastos, em média, 8,308 anos letivos, já que o índice de evasão era altíssimo no período. E quem poderia esperar esse tempo para educar um brasileiro e modernizar seu país?

Em 1932, segundo os dados analisados por Teixeira de Freitas, houve 1.397.638 matriculados no 1º ano primário, e apenas 1.005.749 promovidos - números assustadores para a época em que vivemos, mas tidos por “normais” então. De cada mil crianças da população em idade escolar em 1932, 808 matricularam-se no primeiro ano e 183 começavam seus estudos no lar, fora da escola. No final de 1932, 116 de cada mil alunos interromperam seus estudos no correr do ano, apenas 531 foram freqüentes e somente 158 aprovados. Eram 27.839 unidades escolares do primário em 1932; em 1933, segundo o IBGE, esse número havia subido para 29.553.

Conforme sublinha a pesquisadora Natália de Lacerda Gil, apoiada em conclusões de estudiosos como Jean-Louis Besson, é preciso assumir que a descrição estatística é apenas um olhar, entre outros possíveis, que a sociedade lança sobre si mesma. Menos do que revelar a realidade como numa fotografia numérica, diz, “as estatísticas constroem os fatos e criam os modos de ver”. Nas estatísticas publicadas em 1945 pelo Ministério da Educação e Saúde Pública, por exemplo, define-se o ensino primário como aquele que confere uma preparação inicial que permite o acesso à educação de grau mais elevado, e que assegura às massas da população o conhecimento das primeiras letras e o mínimo de instrução necessária para a vida prática. Contudo, conforme prossegue a pesquisadora, a designação “instrução primária”, utilizada na estatística de 1907, compreendia mais do que apenas o ensino primário. A Diretoria Geral de Estatística, em 1916, informava que os “meios de instrução resumem-se, essencialmente, em escolas e professores e, subsidiariamente, em bibliotecas, museus, imprensa e instituições científicas, artísticas e literárias”. Qualquer análise a partir de números no período vai se submeter ao que o governo de então entendia como um padrão estatístico, já que as aferições apenas começavam a ser constantes.

A gestão de Gustavo Capanema à frente do ministério, entre 1934 e 1945, foi a mais emblemática do período Vargas, analisa Helena Bomeny. Naquele ministério se institucionalizaram políticas pedidas em décadas anteriores, em prol de um sistema orgânico de educação nacional. A Reforma do Ensino Secundário, em 1942; a Reforma Universitária, estabelecendo um padrão nacional de organização do ensino superior; a Nacionalização do Ensino; e a criação do Sistema de Ensino Profissional (complexo de serviços de treinamento para atividades econômicas institucionalizado em Senai, Sesi, Senac, Sesc - o Sistema S, hoje acrescido do Sebrae) ganharam amplitude sob os auspícios do governante. Ficaram pendentes para a reabertura política de 1946 as legislações sobre o ensino primário e o ensino normal, ou seja: foi deixada para depois a formação de alunos iniciantes e professores.

O historiador Célio da Cunha, autor de Educação e Autoritarismo no Estado Novo, considera que era tal a perplexidade em que se achava a educação antes de Getúlio que as reformas efetuadas em sua administração desempenharam o papel de ordenar o setor, definindo competências, estabelecendo articulações entre os diversos ramos do ensino e destacando o ensino profissionalizante, cuja situação era de acentuado desprestígio. Nessa época, também, foram criados o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, o Inep, o Instituto Nacional do Livro e o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Escola Nova

O destaque da administração de Vargas no campo educacional talvez não tenha sido produzido nem mesmo por suas políticas ordenatórias, mas pelo conjunto de idéias novas que educadores como Fernando de Azevedo, Lourenço Filho e Anísio Teixeira fizeram ecoar a partir dos anos 20. Em 1932, esses intelectuais haviam lançado o “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”, redigido por Azevedo e assinado por 26 educadores brasileiros integrantes do movimento de “renovação educacional”. Tais pensadores fizeram acender uma luz em Getúlio. Tanto quanto a nacionalista Semana de Arte Moderna na década anterior.

Em um mecanismo inteligente de cooptação, não exercido somente na área educacional, mas também na esfera das culturas erudita e popular, Getúlio Vargas procurou colar os talentos da modernidade à própria imagem. Por exemplo, encontrou no samba, uma manifestação negra do morro, a perfeita tradução para o Brasil, que carecia de um símbolo catalisador, conforme observa Hermano Vianna em O Mistério do Samba. A nação que Getúlio concebia, forjada pela educação e pela cultura, já se pretendia moderna e, de maneira a mimetizar os modernistas, orgulhosa de seus personagens simbólicos. Mas o nacionalismo de Getúlio era diferente daquele de um Oswald de Andrade. A ação do presidente, contrariamente à do poeta, assemelhava-se àquela adotada pelas ditaduras nacional-socialistas da Itália e da Alemanha, nas quais o autoritarismo político era visto como a maneira certa de estabelecer conquistas.

Em nome da corrente escolanovista, os educadores Fernando Azevedo, Lourenço Filho e Anísio Teixeira, ora europeizantes, ora adeptos do pragmatismo americano, pregavam a educação laica, obrigatória, gratuita, única e nacional. Para que ela se desse assim, o Estado precisaria abraçá-la, sem concessões de ordem alguma. Mas o Estado, ele próprio, ainda padecia de precariedade.

Por meio de seus ministros Francisco Campos e Gustavo Capanema, Getúlio utilizou a corrente inovadora para que a educação construísse o Estado. O Brasil foi, por isso, o único país do mundo onde esse experimentalismo se viu constituído em política oficial. Educadores e políticos trabalharam de forma estreita, alternando momentos de estranhamento e outros de convívio em prol da manutenção da primazia de seus intuitos.

O Brasil, que perdera o bonde da educação universal, tomado por franceses e argentinos, por exemplo, quase um século antes, precisava substituir o lema “ordem e progresso” dos tempos cientificistas pelo muito intenso e urgente “nação e progresso” dos modernos, conforme observa a professora Diana Vidal. Nesse momento da história brasileira, a disputa se tornou acirrada e intensa.

Educar ou morrer

Lourenço Filho foi aquele entre os pioneiros que aceitou ficar sob a esfera getulista até o fim. E Getúlio fez o que achava melhor para seu projeto. Manteve a educação nacional e centralizada - porque nacional e centralizada era sua forma de governar - e abandonou pouco a pouco os outros preceitos escolanovistas, em sintonia com as doutrinas militar e religiosa.

A Escola Nova era inspirada nos avanços dos movimentos educacionais norte-americano e europeu. Seus ideais inspiravam-se no aprendizado do aluno por si mesmo e em sua capacidade de observar e experimentar, tudo isso orientado e estimulado por profissionais da educação que deveriam ser treinados especialmente para esse fim. Como escreve a pesquisadora Helena Bomeny, era por duvidar dos métodos convencionais que essa tendência questionava o agir pedagógico. No Brasil, o movimento condenou a dispersão dos acontecimentos, a fragmentação das informações, a forma como se conduziu a educação no Brasil do início da República, segundo a qual ouvir o professor e repetir suas palavras era a primeira qualidade desejada de um aluno. Na Escola Nova, substituiu-se a idéia de ensino por aquela de aprendizado: o “ouvir” importava menos que o “ver” e o “experimentar”.

O escolanovismo, segundo afirma o historiador Marcus Vinicius da Cunha no ensaio “A Escola Contra a Família”, respeitava cada educando em suas peculiaridades para efetivar de modo racional e seguro a inserção da criança na ordem social, sem acirrar a incompatibilidade existente entre os ditames sociais e a individualidade. O pensamento educacional renovador, contudo, procurava equilibrar-se dentro de duas tendências “potencialmente destrutivas”. De um lado, se supervalorizasse o indivíduo, transformaria a escola em um “laboratório de exaltação das peculiaridades de cada educando”. De outro, se privilegiasse as exigências da ordem social, submeteria o indivíduo às ordenações da sociedade, colocando a norma em primeiro plano. “Nem sempre o escolanovismo foi capaz de manter em equilíbrio sua dupla inclinação”, afirma Vinicius da Cunha. Especialmente no contexto repressor do Estado Novo, era uma tendência educacional sem chance de desenvolvimento, já que não se esperava do cidadão brasileiro outra atitude senão aquela de aquiescer.

Revista Educação
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A Guerra da Informação ou a Informação da Guerra

Para o jornalista português Carlos Fino, a informação é cada vez mais um elemento midiático, parte da guerra e capaz de mudar os rumos de um conflito.

Fabíola Ortiz

Conhecido por ter dado em primeira mão o início dos bombardeios americanos no Iraque em 2001 transmitido pela RTP – Rádio e Televisão Portuguesa –, o jornalista português Carlos Fino tem relutância em se considerar um repórter de guerra. “Sou apenas um repórter, não estava no meu horizonte estar presente em todas essas situações.Tornei-me um repórter de guerra sem querer, por acidente”, disse Fino ao falar sobre sua experiência a estudantes de jornalismo de diversas universidades em São Paulo. Ele participou no último sábado (13/10) do curso Jornalismo em situações de conflito armado, organizado pela Cruz Vermelha Internacional em parceria com a fundação OBORÉ e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

Carlos Fino acredita que, como jornalista, há certas coisas que só a prática pode ensinar, mas em situações de guerra, é preciso estar preparado e alertado sobre os riscos. “É uma imprudência mandar jornalistas, principalmente os mais jovens, sem preparo para cobrir conflitos armados”, destacou Fino apontando as necessidades básicas que um correspondente deve ter, como: noções de sobrevivência, auto-socorro, saber dos acordos e convenções humanitárias e direitos internacionais, no que se refere à proteção do jornalista.

“Eu fiz exatamente o contrário, me lancei despreparado nesse mar de problemas. A guerra abre as portas do inferno, nela tudo pode acontecer. A guerra é a desumanidade”, relatou Fino a futuros jornalistas, a partir de sua experiência de ter visto grupos armados atacarem populações civis indefesas e aldeias inteiras serem alvejadas.

De militante a jornalista

De estudante de Direito a agitador revolucionário e militante comunista, Carlos Fino iniciou sua carreira de jornalista no final da década de 70 como correspondente em Moscou. Presenciou o fim de regimes socialistas em países do leste europeu, além de ter sido correspondente em Bruxelas e em Washington. Em 2000, testemunhou pela RTP os conflitos entre Israel e Palestina e a invasão no Afeganistão.

Sua mais recente experiência de guerra foi cobrir a queda do governo de Saddam Hussein e a ocupação norte-americana no Iraque. “É essencial estar no local dos acontecimentos. Nada substitui o papel do jornalista, sem ele não há cobertura”, afirmou, ao defender a necessidade do jornalista estar presente e noticiar os fatos de onde eles acontecem.

Ele se pergunta até que ponto os jornalistas pagam o preço para participar dos eventos e conseguir informações. O jornalista português considera que a informação é, atualmente, objeto da própria guerra – a guerra na busca desenfreada pela informação e a informação oficial transmitida pelos Estados para limitar, controlar ou até desinformar.

Neutralidade em tempos de guerra
Fino discutiu o papel submisso a que muitas vezes os jornalistas se sujeitam, o que acaba por limitar o exercício da profissão. Ele cita os chamados jornalistas embedded, que acompanharam as tropas americanas no Iraque e se submeteram a noticiar apenas um lado do conflito.

E comentou também os que estiveram em Bagdá para reportar a guerra do outro lado que ia ser atacado: “Nós tínhamos perfeita noção que o regime de Saddam era uma ditadura. Éramos vigiados o tempo todo pelo motorista e pelo intérprete que nos acompanhava a serviço do governo iraquiano”. Para ele, em um cenário de guerra nunca é possível ser neutro, é preciso estar em um dos lados, pois a tendência é ser atacado. Fino explicou que, no Iraque, aqueles jornalistas que optaram não serem “creditados” pelo governo americano nem pelo iraquiano foram eliminados rapidamente.

Apesar disso, Fino confessa que às vezes vale a pena pagar algum preço para estar presente nos acontecimentos. “Nós pagávamos milhares de dólares por semana para o Ministério da Informação iraquiano para garantirmos nosso visto e a permanência no país”.

Para ele, o jornalismo pode fazer a diferença se não se deixar manipular: “Há sempre uma guerra de informação. Corremos o perigo de sermos mercenários em busca da informação”. Carlos ressaltou que a contradição é própria do jornalismo, ainda mais em situações de guerra – o jornalista atua para a sociedade em um meio dominado pelas regras do mercado.

Fazer a diferença

“No Iraque, nós éramos os nossos próprios editores, noticiávamos o que estava à vista, a própria realidade”. Fino explicou que havia uma dicotomia naquele momento – a posição oficial do governo do Iraque era contrária aos movimentos civis que clamavam pelo fim da guerra. Para ele, fazer a diferença na cobertura é dar a palavra às diferentes partes envolvidas, fazer matérias sobre histórias humanas, situação dos hospitais, escolas, bombardeios afetavam a vidas na cidade, além de estar sempre informado sobre a situação política. “É preciso contextualizar, dar um enquadramento e não estar preso apenas ao factual ou ser um mero relator”.

Quando questionado se em algum momento teve medo, Fino respondeu: “Eu não seria humano se não tivesse medo, refleti com muita hesitação antes de ir a uma guerra”. Ele considera que há um “medo jovem” que é mais intenso que o “medo velho”. A partir de uma certa idade já se está mais preparado para aceitar a morte. Após ter noticiado muitos conflitos e ter se deparado diversas vezes com situações de risco, ele acredita que, ao longo do tempo, “a gente vai perdendo o medo e ganhando mais calma”.

Sobre os riscos que esse tipo de cobertura envolve, o jornalista português ressaltou que a profissão está sempre na fronteira, “quase esquizofrênica”, entre a propaganda e a informação. Na verdade, o jornalismo não é neutro: “Devemos tentar ser objetivos, ser fiéis aos fatos” – apesar de considerar que o objetivo é sempre influenciado pela subjetividade de cada jornalista.

Proteção ao jornalista

Quanto ao perigo de ser um correspondente de guerra, Fino alega que, em caso de ataques a jornalistas, não há direito internacional que atue contra isso. “A nossa única defesa é ter um colete à prova de bala e um distintivo de imprensa. Nós pensávamos que éramos imunes até o dia que o nosso hotel foi atingido por um tanque norte-americano sem nenhuma explicação aparente”.

O jornalista lembrou o episódio em que o Hotel Palestina, onde estavam hospedados todos os correspondentes em Bagdá, foi alvo de ataque. Nesse dia morreram 3 jornalistas. Fino entrou ao vivo através do videofone e teve que esperar 4 minutos para dar a notícia por causa da programação dos comerciais. “O nosso repórter está sendo atacado, mas primeiro os comerciais”.

A informação é cada vez mais um elemento midiático, parte da guerra e capaz de mudar os rumos de um conflito. “A mentira não foi só parte do Ministério da Informação do Iraque, que se utilizava como fonte de propaganda do regime, mas também partiu do lado americano”.

Ele se pergunta como garantir uma imunidade ideal ao jornalista - um estatuto que protegesse o exercício do jornalismo como um papel humanitário. Fino constata: é difícil. Carlos defende um estuto semelhante ao da Cruz Vermelha Internacional, uma espécie de Cruz Azul ou Cruz Branca.

Sobre o furo de reportagem, ao ser o primeiro a noticiar o início da guerra, Fino lembrou que a primeira bomba caiu em Bagdá às cinco e meia da manhã – em Portugal ainda era de madrugada. “Foi difícil convencer Lisboa em dar o fato ao vivo, pois se perguntava como é que a guerra começou se a CNN não está dando nada?”

Fazendo Média
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A Globalização e o Liberalismo

Voltaire Schilling

Se a queda do Muro de Berlim ocorrida em 1989 - acontecimento que encerrou quase meio século de Guerra Fria - favoreceu a aceleração da globalização, estreitando ainda mais as relações econômicas e financeiras das nações, cabe assinalar que no campo das idéias a maior vitória foi a da doutrina liberal, a qual mostrou-se superior ao coletivismo comunista e à social-democracia na função de promover a prosperidade material das sociedades com os direitos humanos e outras conquistas políticas. Esta pelo menos é a convicção do pensador e escritor francês Guy Sorman.

A herança de Sorman

O liberalismo francês tem suas sólidas raízes encravadas no século XVIII, o Século das Luzes. No seu acervo constam nomes como os dos economistas fisiocratas Turgot, Quesnay e Vincent de Gournay, que se posicionaram pelo fim do intervencionismo estatal ou pelo menos em atenuá-lo, assim como pensadores como Monstesquieu, Diderot, Condillac, Benjamin Constant, Aléxis de Tocqueville, e, bem mais recentemente, o de Raymon Aron, que, ao contrário de Jean-Paul Sartre sempre se opôs firmemente às tentações da esquerda.

Num primeiro momento o liberalismo enfrentou o Absolutismo, num outro confrontou o Socialismo, sempre defendendo a excelência de algum tipo de governo parlamentar representativo e a mínima ingerência do estado no andar da sociedade como um todo.

Guy Sorman pertence pois a essa tradição que já data bem mais de dois séculos e meio, sem todavia ter ainda apresentado uma obra verdadeiramente original, como Benjamin Constant ou Aléxis de Tocqueville fizeram no passado.

Num meio intelectual um tanto quanto chauvinista como o parisiense, seduzido pelo marxismo e pelo existencialismo esquerdista, exacerbado ainda mais pelas tensões da Guerra Fria, que entendia ser o liberalismo uma aberta capitulação à influência norte-americana nas coisas da França, ele despontou no jornalismo e no pensamento quase que como uma exceção. Nunca se importou em ser apontado como um aberto simpatizante das virtudes da sociedade ianque.

Ao contrário. De algum modo ele pode ser associado ao Marquês de La Fayette, o nobre francês que atravessou o Atlântico, em 1777, para ir ajudar os colonos americanos a lutarem pela liberdade, independência, e “pelos direitos humanos”.

Assume assim a posição de um apóstolo, de um divulgador do ideário liberal, confessando-se um integrante do que denominou de Liberalismo Clássico, distante do atual Neoliberalismo da Escola Austríaca e que hoje faz sucesso nos Estados Unidos e também na América Latina, pelo menos até tempos bem recentes.

Os pilares da Nova Era

Ainda que as verdades defendidas pelas ciências humanas não sejam exatas, não são verdades cientificas, ainda assim elas tendem a se aproximar da realidade.O que nos obriga, diz Sorman, a assumir posições um tanto que flutuantes ou imprecisas, inclusive quando definimos a nossa época como uma Nova Era.

Etapa histórica essa cujos pilares são formados pelo Liberalismo e pela mundialização - Sorman nega-se a recorrer ao termo mais conhecido de “globalização”, de uso anglo-saxão, preferindo o de “mundialização”, mais ao gosto francês - o que nos conduzirá ou não à formação de uma Nova Civilização. Sempre atentos a possibilidade disto tudo ser a expressão do domínio econômico, político e intelectual dos Estados Unidos sobre o restante do mundo, estando aberta a questão da mundialização poder ser uma nova forma do imperialismo norte-americano.

Uma Nova Era cuja data de fundação foi assinalada pela queda do Muro de Berlim, prenúncio do fim do sistema soviético e, igualmente, das doutrinas que lhe davam sustentação (como o marxismo), dando oportunidade a que se afirmasse em definitivo a vitória das idéias liberais. Até aquele momento a humanidade podia escolher entre dois modelos, o socialista ou o liberal-capitalista. Depois de 1989, não há mais escolha.

Não que não se possa opor-se ao modelo liberal, mas ele sempre será a referência. Cabe esclarecer - alerta Sorman - o enorme abismo que existe entre o pensamento liberal e o que se entende por isso na vida política do Brasil. Há um gigantesco mal-entendido entre o autentico liberalismo e como ele é percebido por aqui. Assim sendo resta-lhe afirmar antes de tudo quais são as verdadeiras dimensões do Liberalismo Clássico.

Do Liberalismo Clássico

A primeira das suas características é que ele é um Pensamento democrático. Sorman considera que não há melhor sistema, o mais bem adaptado a qualquer sociedade humana do que o das sociedades democráticas.E sua principal virtude é que elas tendem no futuro a serem organizações pacíficas, visto que um dos seus grandes méritos é eliminar a guerra civil. Ao reduzir a violência, permitem um modo de organizar o debate em sociedade por um meio civilizado e não agressivo.

Não há dentro da tradição francesa do liberalismo algo que não seja democrático. Isso é preciso salientar em face de que na América Latina houve uma estreita aliança entre os Regimes Militares e a Economia de Mercado. Foi o caso do Chile durante a ditadura do general Augusto Pinochet, entre 1973 a 1989, regime que recebeu orientação econômica dos discípulos de Milton Friedman da Escola de Chicago.

Tal tipo de experiência jamais ocorreu na Europa Ocidental nem na França.

Todo o esforço de Sorman, nas suas inúmeras visitas à América Latina, tem sido explicar que não pode haver separação entre a democracia política e a Economia Livre, pois o segundo grande pilar do liberalismo autêntico é a liberdade econômica.Situação que não condiz com apoio às ditaduras.

Ele não simpatiza com o termo “capitalismo” visto que é polêmico, fazendo com que prefira usar “economia livre” ou “aberta”. E o que vem a ser isto? É a possibilidade do individuo tornar-se um empreendedor, a possibilidade dele realizar trocas com outro. Portanto, a abertura social é uma abertura internacional.

Um dos seus outros pilares do liberalismo é o Estado de Direito, o que quer dizer que numa sociedade liberal existe um Estado. É um posicionamento totalmente oposto ao dos liberais norte-americanos como é o caso de Milton Friedman, da Escola de Chicago, que acreditam no funcionamento da sociedade regida apenas pelo mercado.

Para o Liberalismo Clássico, o estado, ainda que Estado Mínimo, está sempre presente. E isso em razão dele entender que se existem bens privados (empresas, bancos e propriedades particulares), há outros que são públicos e que só podem ser administrados pelo Estado (caso do ensino publico e da saúde).

Por conseguinte o debate que se trava na França entre os liberais e os estatizantes não se dá em função de haver ou não a necessidade de um estado, mas sim quais são os limites dele.

O Estado de Direito surge pois como oposição à Autocracia, ao Caudilhismo (típica tradição latino-americana), e ao Fascismo (que predominou na Europa Ocidental), que é um estado mas que não se perfila como um Estado de Direito. A maior função dele é garantir as liberdades individuais dos cidadãos.

Os elementos da mundialização

Além de ser um fenômeno econômico, a mundialização significa um sistema de trocas generalizado obediente a uma divisão internacional do trabalho, fazendo com que não haja no mundo de hoje um só consumidor que não tenha de algum modo se integrado ao mercado internacionalizado. O índio amazonense veste uma camisa feita na China. Ninguém está ao desabrigo. E tudo se deve, entre outras coisas, às técnicas de comunicação que fazem com que o isolamento se torne impossível.

O segundo fenômeno da mundialização é a Mundialização Cultural. Graças à Internet todo mundo está em contanto com todo o mundo, promovendo o inglês como uma língua universal. Fazendo com que a ligação da Internet com o idioma inglês gere uma nova cultura - ou uma subcultura para alguns - formando um campo de modificações instantâneas que funciona 24 horas por dia sem haver interrupção e que provoca uma situação absolutamente revolucionária.

O mesmo ocorrendo com a televisão que projeta o tempo inteiro um número considerável de programas que podem ser assistidos de diversos locais, nos mais variados momentos. O que nos conduz a outra das características da mundialização: a Mundialização do Lazer e Estética: cada vez mais os programas se parecem, enquanto as pessoas vestem-se da mesma maneira, fazendo com que a moda se consagre como um fenômeno universal.

Interessa observar que os dois movimentos a favor do liberalismo e da mundialização não foram desejados por nenhuma pessoal em particular, ninguém os planejou. Ocorreram espontaneamente. Sorman então enfatiza que os principais beneficiados da mundialização são as populações mais pobres não as privilegiadas, visto que tanto na China como na Índia milhões de pessoas saíram da miséria e ascenderam à classe média. O mesmo se aplica ao Brasil.

A origem da liberdade

Para Sorman, o fato de o liberalismo ser um fenômeno originalmente europeu deve-se a que o Império e o Papado, tendo se enfrentado ao longo da Idade Média, abriram sem o desejar um espaço de liberdade que permitiu que os burgueses o ocupassem.

O fato da mitra e da coroa terem se enfraquecido em razão da rivalidade - é uma tese defendida pelo historiador Fernand Braudel - impediu que ocorresse uma concentração de poder como se constituiu em outras sociedades (como foi o caso do Despotismo Oriental, vigente outrora na China e na Índia).

O choque entre o Poder Político e o Poder Religioso, que no Ocidente se arrastou por muitos séculos, abriu caminho para o surgimento de um Poder Individual, permitindo que o capitalismo moderno aflorasse “nos poros da sociedade medieval”, como disse Karl Marx.

Nos Estados Unidos da América, por sua vez, a prosperidade deu grandes saltos depois da abolição da escravidão. A carência de mão-de-obra forçou os norte-americanos a serem cada vez mais inventivos no seu processo produtivo.

Sendo que a democratização daquela sociedade é outro fator que ajuda a explicar o seu sucesso, visto que a igualdade gera a necessidade de uma crescente produção estandardizada visando atender a todos com parcimônia e com mínima discriminação.

Na França e na Grã-Bretanha deu-se o contrário. Além de haver mão-de-obra abundante, o consumo concentrou-se na aristocracia, na nobreza, gerando o desejo de um consumo mais individualizado, adverso à produção em massa. Entre eles é o modelo norte-americano que perdurará, entre outros motivos porque é o mais eficaz.

Obras de Guy Sorman

O Ano do Galo, 2006

Feito nos EUA, 2005

O Progresso e seus inimigos, 2001

Os Verdadeiros Pensadores do Nosso Tempo, 1989

A Nova Riqueza das Nações, 1987

Estado Mínimo, 1985

A Solução Liberal, 1984

A Revolução Conservadora Americana, 1983

Site Terra

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Lula: governo amigo do capital financeiro

08/10/2007

O crescimento econômico do Brasil, embora pequeno, é conseqüência do crescimento mundial, e não mérito do governo. A opinião é da economista Leda Paulani. Ao analisar a política econômica atual, a pesquisadora afirma que o PAC nada mais é do que marketing político, que não garantirá um crescimento sustentável. Sobre o modelo de crescimento econômico, que não demonstra preocupações com o meio ambiente tampouco com os trabalhadores, ela diz que ele é contraditório e trará dificuldades para os próximos governos.

Leda Paulani é doutora em Teoria Econômica pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, ela é docente da mesma universidade e presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política.

O Brasil tem conseguido recuperar a trajetória de crescimento que teve entre 1930 e 1980? O Lula tem conseguido melhorar a economia do país?

Leda Paulani – Com relação à trajetória de crescimento, isso depende muito do que está acontecendo com a economia mundial. A economia brasileira não é uma das maiores do mundo, mas, de qualquer maneira, não é tão pequena que não seja influenciada pelas questões que estão acontecendo no contexto mundial. Então, esse tipo de análise fica mais correto quando a gente compara a performance de uma determinada economia com o que está acontecendo no resto do mundo. O professor Reinaldo Gonçalves, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem trabalhado nessa direção.

Eu diria que a tendência dada ao crescimento explosivo da economia mundial é de que cresçamos mais do que já crescemos até agora. Mas isso não quer dizer que nós tenhamos retomado o processo de crescimento.

Por que não?

Leda Paulani – Em primeiro lugar, estamos crescendo porque o mundo inteiro está crescendo: é uma conseqüência do que está acontecendo na economia mundial. Assim, não se trata de algo que foi deliberadamente pensado e planejado pela nação brasileira. No nosso caso, particularmente, temos uma economia beneficiada, porque nós exportamos os bens que hoje estão com os preços em alta. E isso nos beneficiou do ponto de vista do equilíbrio externo.

A economia comandada por Lula

É muito complicado dizer até que ponto o governo Lula está efetivamente melhorando a economia do País, em termos absolutos. O que é necessário considerar, é que o Governo Lula foi muito sortudo se comparado com o governo Fernando Henrique Cardoso.

Não estou defendendo o Fernando Henrique, mas a questão é que esse período de 1995 até 2002 foi bastante conturbado na economia mundial. Na época, ocorreram cinco ou seis crises financeiras cavalares, e a economia norte-americana também passou por várias crises na bolsa de valores. O Brasil sofreu todos os reveses desse cenário conturbado da economia mundial, que começou a serenar e ficar mais tranqüila, retomando um crescimento forte que não tinha há 30 anos, justamente a partir de 2002. Quer dizer, o Fernando Henrique governou num período bastante crítico. E o Lula, ao contrário, passou a governar não só num período de “céu de brigadeiro”, em que não havia nenhuma nuvem no horizonte, mas num período de cinco anos, em que a economia mundial estava muito serena e crescente, impulsionada pela China e pela própria economia norte-americana. Então, isso criou um cenário favorável a uma economia como a brasileira. As complicações só começaram nos últimos meses com a ameaça do setor imobiliário dos Estados Unidos. Assim, quando se pensa em tudo que o Lula fez ou deixou de fazer, é necessário levar em consideração esse contexto no qual a economia brasileira está se movendo.

A proposta do PAC é suficiente para o crescimento econômico? Em que medida o programa ajudará no desenvolvimento do país?

Leda Paulani – O PAC é muito mais um marketing político do governo do que um programa para auxiliar no crescimento. Afirmo isso porque, em primeiro lugar, todas essas ações que estão dentro do PAC já existiam antes, só não estavam reunidas sob o mesmo nome. Em segundo lugar, nas áreas de infra-estrutura, os recursos são muito pequenos comparativamente ao que deveria existir. Então, não dá para comparar o PAC com o Plano de Metas, de Juscelino , por exemplo, pois o programa está muito longe de ter uma dimensão como esta.

Eu até escrevi um artigo sobre essa discussão, avaliando a declaração da Ministra Dilma Rousseff, que disse que o programa injetava dinheiro público direto na veia. Ela quis dizer que era uma injeção de demanda agregada na economia e que isso iria puxar o crescimento. Só que isso está errado, porque não importa se o dinheiro é público ou privado. Ele sempre terá o mesmo efeito. O que faz a diferença, nesse caso, é que é uma demanda direta na veia. O fato do governo se dispor a gastar vários bilhões em infra-estrutura significa um aumento direto de demanda no sistema econômico como um todo. Mas não dá para dizer que o PAC vai garantir as condições para o crescimento sustentável posterior.

Como a senhora avalia a obsessão pelo crescimento econômico, que ultrapassa as questões ecológicas e sociais?

Leda Paulani – Esse é um dos grandes nós do problema, mas não é apenas no Brasil que isso ocorre. Essa é uma discussão mundial. De fato, um dos entraves maiores do crescimento é a questão dos recursos naturais. Por isso, o termo do desenvolvimento sustentável, hoje, tem tanto sentido. Mas o que existe é um modelo contraditório, porque, de um lado, é necessário fazer a economia crescer, porque sem o crescimento não tem como recuperar empregos. Mas, de outro lado, há uma limitação dada pela questão ecológica. Então, todo esse crescimento tem que ser feito com muito cuidado. Por isso, essa não é uma questão fácil para nenhum governo. Eu tenho a impressão que esse tipo de discussão vai ganhar uma importância cada vez maior. Assim, os próximos governos vão enfrentar esse dilema de um modo ainda mais marcado, do que o governo Lula.

No que diz respeito ao consumo e à energia brasileira, eu diria que o País ainda é privilegiado, pois nós temos o combustível mais barato para produzir energia, que é a água. Agora, para que esse diferencial que nós temos em relação a outros países se transforme numa possibilidade de crescimento mais saudável, sem problemas ecológicos, precisaria recuperar algumas funções do Estado. O discurso neoliberal acabou esterilizando um papel fundamental que o Estado tem, e que nessas circunstâncias se tornam ainda mais importantes.

Hoje em dia, sabemos que boa parte das empresas se livram dos direitos trabalhistas contratando os próprios empregados como pessoas jurídicas. Então, todo mundo vira empregado de si mesmo. De modo que a própria importância de uma atividade como a de fiscalização do Ministério do Trabalho, vai se reduzindo e aí se abre espaço para todos os tipos de exploração selvagem do trabalho. Como exemplos, temos os porões de bolivianos em São Paulo, nas oficinas de jeans, e no interior, as carvoarias, por exemplo. Criou-se um contexto em que, ao invés de se valorizar o papel do Estado e a importância dos direitos do trabalho, se desvalorizou isso tudo.

O que a senhora pensa da proposta de desenvolvimento do ministro Roberto Mangabeira Unger , que afirma que o país precisa incentivar os empreendimentos da classe média e pesquisas universitárias ao invés de continuar investindo na política industrial?

Leda Paulani – Uma coisa não exclui a outra. Para mim, essa idéia é simpática. É possível tirar o foco do grande capital, porque ele tem todas as condições de se manter, transferindo, então, o foco para os negócios de médio e pequeno porte. Mas com isso não estará se deixando de fazer política industrial, porque é possível, mesmo com o foco nesse capital médio e pequeno, privilegiar alguns setores em detrimento de outros e fazer política industrial, também com esse capital.

Com o avanço da plantação de eucaliptos, a monocultura de alguns commodities poderá se tornar um problema para o País, gerando aumento no preço dos alimentos, por exemplo? Como a senhora percebe esse processo?

Leda Paulani – Se analisarmos a história da economia brasileira, perceberemos que essa situação pode ser classificada como “um andar para trás”, pois nós já vivemos de monocultura por 400 anos. Foram mudando as culturas, mas nessa era da monocultura, começamos com o açúcar e acabamos com o café. É sempre muito arriscado apostar todas as fichas numa única coisa. Uma economia do tamanho da nossa, com um território enorme e com os recursos naturais que tem, ao optar por esse caminho, direciona o País para ser vulnerável a qualquer crise.

Até os anos 1930 do século XX, a economia brasileira viveu ao sabor do que acontecia externamente, justamente, porque era uma economia baseada na monocultura, com uma indústria muito frágil. Depois, entre 1930 a 1980, diversificou-se o setor agrícola e construiu-se o setor industrial. O Brasil é um dos poucos países da América Latina que construiu toda a matriz industrial (do carro, do aço, da energia elétrica, do petroquímico, da borracha, da telefonia). E, com isso, o País ganhou autonomia e espaço de execução de políticas. No entanto, hoje temos elementos que caracterizam a volta do País para a agricultura, pois a taxa de câmbio está super valorizada, inviabilizando alguns setores de crescer. Então, o Brasil foi caminhando no sentido contrário, no sentido da não diversificação, tanto no que diz respeito ao mercado interno quanto ao externo. Isso é muito perigoso do ponto de vista do equilíbrio externo, e pode gerar conseqüências, não só como a elevação dos preços dos alimentos, como o avanço da doença holandesa , que vai atingir o País em cheio.

Antônio Ermírio de Moraes, do grupo Votorantim, declarou na última semana que “não há o que reclamar”. Com essa frase, é possível constatar que nunca um governo ajudou e apoiou tantos os empresários como o atual?

Leda Paulani – Não sei se essa afirmação cabe a todos os empresários. Mas eu diria que o governo Lula não comprou nenhuma briga com o grande capital. Em todas as discussões, ele acabou ficando do lado deles, e fez uma política econômica que claramente beneficiou os interesses do sistema financeiro. Então, realmente, a despeito do Bolsa Família, foi um governo muito amigo do capital produtivo e financeiro.

Na década de 1960, Guy Debord dizia que vivíamos numa sociedade do espetáculo. Assim, percebe-se que a mercadoria ocupou o centro da vida social. Será possível mudar esse ciclo?

Leda Paulani – Eu diria que a mercadoria nunca foi tanto o centro da vida social como é hoje. Guy Debord teve uma premonição, pois ninguém deslumbrava, desde longe, que os rumos de capitalismo, até então controlado e interferido pelo Estado, tomaria as direções atuais.

Se analisarmos a história do capitalismo em diferentes espaços do planeta, isso é uma coisa que oscila. Em alguns momentos o Estado está muito mais presente, planejando ou interferindo, e em outros momentos ele está mais ausente. Agora, o capitalismo é uma economia de mercado. Assim, o mercado é a grande estância reguladora da produção material. Com mais ou menos intervenção do Estado, o mercado é a instância mais importante.

Guy Debord é muito pessimista. Até onde eu consigo entender, ele não vislumbra muito espaço para uma reversão. Então, trabalhos como o dele nos servem mais como um alerta do que como uma agenda de soluções.

Qual seria o projeto de desenvolvimento ideal para o crescimento econômico do país, mas que ao mesmo tempo garantisse uma distribuição de renda equilibrada entre os trabalhadores?

Leda Paulani – Dada a situação tal como ela está agora, com essa desigualdade de renda e de riqueza, já que a desigualdade de riqueza é maior que a de renda, qualquer modelo que se faça não será ideal, ou estará muito longe do ideal, porque esse não é um quadro que se reverte rapidamente. O que podemos fazer é, havendo espaço e vontade política, tomar providências para que o desenvolvimento não só aconteça, mas aconteça de um modo a reduzir essas desigualdades ao invés de aprofundá-las. Na época do governo militar, por exemplo, em que se teve um crescimento enorme, o chamado ‘milagre brasileiro’, não houve nenhuma preocupação com a questão distributiva. Então, acabou se criando uma concentração de crescimento, mas isso não significou uma redução da desigualdade, pelo contrário.

Não existem receitas prontas. Mas não é com uma política como a que fez o governo Lula que vamos conseguir mudanças. É só comparar o que se gasta com o Bolsa Família e com o pagamento de juros. Um número é dez maior que o outro. Quer dizer, com um número se beneficiam 11 milhões de famílias, 45 milhões de pessoas, e com um outro número, se beneficia um conjunto da população que está muito longe de 44 milhões. Um estudo do Marcio Pochmann, presidente do Ipea, mostra que 80% da dívida pública brasileira está na mão de 20 mil pessoas. Eu tenho certeza que esse tipo de política que o governo Lula faz é uma política que concentra cavalarmente a renda, além de contribuir para que a riqueza continue concentrada. Se ainda não se sabe o que fazer, se sabe o que não fazer, mas o governo ignorou qualquer mudança. Há algumas coisas básicas que qualquer estudante de economia do segundo ano sabe, e que poderiam ter sido evitadas no governo, e não foram.

MST
http://www.mst.org.br/mst/home.php

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A renovação do marxismo

Christian Ingo Lenz Dunker

A queda do muro de Berlim não representou a derrocada do comunismo nem o fim da história, muito menos a abolição da esquerda. Para a maior parte dos movimentos sociais e pensadores ligados à tradição crítica ou marxista, esse fato simbólico foi o pretexto que faltava para a formação e radicalização de um novo discurso. A revista britânica New Left Review foi um ponto de encontro para essa esquerda alternativa, que havia passado por sucessivas decepções: o humanismo marxista, a reação estruturalista de Louis Althusser, o ativismo maoísta, as inúmeras formas de troskismo, sem falar no socialismo real. A Nova Esquerda tem em comum a desconfiança do fetichismo do Partido, a crítica do economicismo marxista clássico e a recusa da concepção ingênua da ideologia considerada como uma espécie de erro cognitivo da consciência. No lugar soberano e onipotente do Partido, a Nova Esquerda se preocupa em mostrar a precariedade da noção de política em Karl Marx bem como sua ligação instável com políticas claras e definidas que deveriam ser seguidas em obediência silenciosa. No lugar do reducionismo econômico, a Nova Esquerda pretende redescrever a noção de classe, levando em conta o gênero, a cultura e o consumo, e não apenas o paradigma da produção. Finalmente, no lugar da ideologia, entram em cena complexas estratégias de desconstrução, crítica e resistência discursiva ao lado do reconhecimento de que faltaria ao marxismo clássico uma boa teoria sobre a subjetividade.

É nesse contexto que surge a figura de Slavoj Zizek. Ele foi rapidamente percebido como alguém capaz de dar voz a essa renovação do marxismo com sua surpreendente releitura de Georg Hegel aliada a uma potente junção com conceitos do psicanalista Jacques Lacan. Zizek não é um pensador sistemático que nos convida para a arqueologia e a reconstrução de teses, ao gosto da prática universitária corrente; mas também não é um intelectual edificante, ensaístico ou opinativo, interessado apenas em questões pontuais e intervenções localizadas. Seu estilo é o de um intelectual engajado, um pensador que, sobretudo, toma posições. Em geral, tais posições nos fazem rever o próprio mapa, ou as coordenadas simbólicas de que dispomos para localizar a questão tratada. Daí a importância da noção de ato que atravessa seus escritos.

Zizek nasceu em 1949, em Liubliana, capital da Eslovênia, a mais próspera das províncias da antiga República da Iugoslávia, e a primeira a se tornar independente em 1991. Em 1971, ele completou sua graduação em filosofia e ciências sociais e, em 1975, apresentou sua tese sobre A relevância prática e teórica do estruturalismo francês. Filho de comunistas linha-dura, ele vê fracassar sua aspiração ao rápido ingresso no sistema burocrático-universitário. É reprovado no concurso para professor de filosofia e amarga a dura e contemporânea experiência de desemprego. Dois anos depois encontra uma curiosa ocupação no Comitê Central da Liga Comunista da Eslovênia. Sua função é redigir discursos para a burocracia stalinista. Nessa condição, Zizek acompanha a formação do discurso nacionalista sérvio e, particularmente, a construção ideológica da importância da região de Kosovo. Esse minúsculo enclave territorial precisava ser elevado à condição de um lugar glorioso na história do país. Uma espécie de mito das origens necessário para manter a unidade iugoslava. Tudo se passa como se Kosovo, lugar onde os sérvios detiveram o avanço das tropas otomanas em 1349, representasse uma espécie de núcleo traumático, reativado 600 anos depois, adquirindo nessa reativação um valor simbólico estratégico para justificar a ideologia nacionalista nos Bálcãs. Zizek se encontra, portanto, no interior desse projeto de engenharia discursiva às voltas com a produção de uma mitologia histórica. Além disso, fica cada vez mais claro que o marxismo edulcorado dos herdeiros de Josip Tito (o socialismo de empreendimento ou o socialismo de mercado) se legitimava teoricamente como socialismo apenas na tese da burocracia como classe universal. Porém, essa tese é mais hegeliana que marxista. Isso nos dá uma primeira indicação do caminho teórico de Zizek, que vai de Marx a Hegel e não o contrário.

É nessa posição crítica - entre a impostura do socialismo iugoslavo e o crescente interesse do capital ocidental na emancipação da Eslovênia - que Zizek procura uma alternativa, engajando-se na resistência cultural e política em torno da NSK (Nova Cultura Eslovena). Tal grupo é constituido por uma ampla frente de resistência à burocracia, que inclui o teatro, as artes plásticas, a música e a Escola Lacaniana da Eslovênia. Uma figura emblemática dessa frente é a banda de punk rock chamada Laibach. O manifesto cultural dessa frente adota uma curiosa estratégia: recusa-se a ser reconhecida como uma dissidência e ocupar assim o lugar de oposição. Tal lugar está prescrito e calculado pelo próprio sistema burocrático, de tal forma que toda dissidência se torna inócua e, no fundo, uma paródia. O dissidente, o “alternativo” ou aquele que se acredita “fora do sistema” joga apenas o papel estabelecido pelo sistema que, para se legitimar como democrático, precisa tolerar e estimular a diferença. Os exemplos vão dos expurgos periódicos à pseudo-oposição necessária para manter a burocracia como discurso hegemônico e produzir um efeito ilusório de liberdade de pensamento. Contra isso, a estratégia de resistência adotada pelo NSK está baseada no que Zizek chamou de -superidentificação -( overidentification). Um exemplo: o Partido Socialista Iugoslavo propõe um concurso nacional para selecionar o cartaz em homenagem ao Dia da Juventude (data de nascimento do general Tito). Os dissidentes decidem que não vão participar, afinal, eles repudiam o personalismo contido na idéia de Dia da Juventude. O NSK, ao contrário, envia para o concurso um garboso ensaio fotográfico com musculosos corpos atléticos segurando tochas no mais autêntico estilo social-realista. De fato, vencem o concurso, mas no dia da entrega do prêmio, eles decidem “explicar” sua obra. Tratava-se de um “remake” de um cartaz feito em homenagem a Hitler por ocasião dos jogos Olímpicos de Munique. Ou seja, o prêmio não podia ser entregue, pois se tratava de plágio, e mais, o Dia Nacional da Juventude, junto com seus críticos, fãs e dissidentes mostrou abertamente sua face totalitária ao lado de seu anacronismo estético. Resultado: jamais houve outro concurso de cartazes para o Dia Nacional da Juventude Iugoslava.

Na tática da superidentificação, trata-se de recusar a distância cínica entre a cultura “oficial” e a cultura “alternativa”, distância que produz uma separação artificial e enganosa, alienando o sujeito em uma falsa posição “externa” ao sistema. Pela superidentificação, ao contrário, trata-se de tomar as formas simbólicas dominantes pelo seu valor de face e a partir de sua repetição reflexiva produzir desestabilizações internas ao sistema. Renúncia da consciência pessoal, de gostos, juízos e convicções, aceitação voluntária e deliberada do papel da ideologia. Um exagero da falsa aparência cujo objetivo é mostrar seu caráter insensato. A superidentificação tenta reverter, através de intervenções pontuais, a oposição tradicional entre Estado e Sociedade Civil, tematizada por Antonio Gramsci e amplamente explorada pela Liga Comunista Eslovena. Tal estratégia será empregada, com inúmeras variações, nos textos, entrevistas e declarações públicas de Zizek. São intervenções que, tomando ao pé da letra o enunciado ideológico, mostram, em ato, a falsidade de sua enunciação. Em parte, essa nova estratégia de oposição está ligada à experiência intelectual de Zizek, que cresceu em um ambiente no qual a teoria crítica da Escola de Frankfurt ou a fenomenologia de Martin Heidegger formavam um amálgama ideológico utilizado amplamente pelo Partido Socialista Iugoslavo. Ou seja, nenhuma teoria é crítica ou ideológica em si, mas apenas sua articulação.

A teorização dessa estratégia se alimentará da experiência em Paris, durante a década de 1980, quando Zizek estuda psicanálise. Sua tese de doutorado, acerca das relações entre Hegel e Lacan, bem como a análise pessoal empreendida nesse período, começam a sedimentar uma combinação entre crítica da cultura, prática política e estudos acadêmicos, baseada em autores clássicos, que raramente se encontra.

É nesse contexto que, em 1990, Zizek se lança como candidato à presidência da Eslovênia em uma curiosa aliança com o partido Liberal Democrata. O partido Liberal Esloveno reunia, nesse momento, uma diversidade de minorias organizadas que iam do feminismo aos ecologistas, da contracultura artística aos radicais independentes. Vê-se, por isso, como o contato com a diversidade político-cultural emergente não se reduz em Zizek apenas a uma experiência teórica.

A dificuldade e as contradições para articular um projeto político nesse contexto levam Zizek a participar de uma posição política que resulta em apoiar o “choque de capitalismo” em 1995. Finalmente, diante da alternativa de bombardear a Sérvia - desacreditando completamente o papel da ONU - ou não bombardear a Sérvia - e condescender com o morticínio da purificação étnica - Zizek afirmará: “como alguém de esquerda, minha resposta ao dilema ‘bombardear ou não’ é: as bombas não são suficientes, e elas vêm muito tarde”. Em outras palavras, o bombardeio não é um meio legítimo e eficaz, como quer a chantagem ocidental, e para Milosevic as bombas deveriam ter vindo antes. Dois enunciados verdadeiros mostrando a falsidade da enunciação, ou seja, do próprio lugar impossível de onde o dilema é colocado, inclusive desde sua lógica temporal (muito cedo e muito tarde). Estratégia semelhante será assumida diante do ataque de 11 de setembro a Nova York, bem como no caso da invasão do Iraque.

O engajamento de Zizek deve ser encarado de modo diferente da participação ritual em movimentos sociais. Ele está sempre desconstruindo sua própria posição, produzindo aberturas e se relocalizando em novos debates. Como ele afirma em uma entrevista: “Não se esqueça de que comigo as coisas sempre são o contrário do que parecem.” O chiste, o humor, a capacidade de reunir erudito e popular, trafegando pela vasta gama de problemas e autores das ciências humanas, do passado e do presente, em linguagem clara e provocativa, colocaram Zizek definitivamente em evidência no final da década de 1990. Zizek conseguiu assim absorver aspectos da retórica do pós-modernismo sem endossar suas teses.

Boa parte dessa recepção pode ser atribuída ao que se supunha estar presente no programa de Zizek. Um autor que parecia representar uma verdadeira e fiel reflexão acerca da desintegração dos Estados socialistas do Leste europeu. Um novo alento para os teóricos da democracia radical e do pós-marxismo. Mas também um autor que parecia colocar finalmente o pensamento lacaniano para fora de sua clausura institucional, pondo-o em contato com as grandes questões do pós-estruturalismo francês, com a filosofia da linguagem anglo-saxônica e com a tradição dialético-fenomenológica germânica. Um autor que trazia, a partir de sua forma original de tratar a cultura, uma franca interlocução com o universo popular do cinema, com a teoria feminista e com o ativismo multiculturalista, sem contar a vasta presença de seus textos na internet. Três públicos que tornaram Zizek convincente no ambiente acadêmico norte-americano. Além disso, suas reflexões sobre a religião e sobre a fragmentação política do capitalismo pós-moderno o tornaram um autor palatável para um público amplo.

Após essa entrada fulgurante, verificou-se uma espécie de decepção. O Marx, que se pressentia reinventado em suas primeiras publicações na New Left Review, trazia consigo a perigosa sombra de Hegel e a ausência de uma teoria sobre os movimentos sociais. Hegel, rejuvenescido pelo contato com as questões da cultura contemporânea, acabava encoberto por sua sombra lacaniana e sua problemática herança recebida de Alexandre Kojève. Finalmente, o Lacan, arejado e funcional, que se intuía de sua colaboração com Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, ressentia-se de reflexões mais verticalmente clínicas. Como o próprio Zizek já avisara: nada é o que parece ser. Pois não seria o caso de reaplicar esse dito à própria decepção? Não seria Zizek mais crítico agora que ele parecia dizer o oposto do que gostaríamos de ouvir?

OBRAS DE ZIZEK PUBLICADAS NO BRASIL:
- O sublime objeto da ideologia . Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1989.
- O mais sublime dos histéricos: Hegel com Lacan. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1996.
- “Como Marx inventou o sintoma”, in Um mapa da ideologia. Contraponto,
Rio de Janeiro, 1999.
- Bem vindo ao deserto do real. Boitempo, São Paulo, 2004.
- Às portas da revolução - escritos de Lênin de 1917. Boitempo, São Paulo, 2005.

SOBRE ZIZEK:
Dunker, C.I.L. & Aidar Prado, J.L. - Zizek crítico - política e psicanálise na era do multiculturalismo. Hacker, São Paulo, 2005.

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor e livre-docente pelo Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP

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