Arquivo de 27 de Abril de 2008

Túnel do tempo - Filme do enterro de Edson Luis é achado 40 anos depois

Publicada em 26/04/2008 às 18h17m

RIO - Ele não lembra como surgiu a idéia, mas, em 29 de março de 1968, o cineasta Eduardo Escorel saiu de casa com uma câmera e dois rolos de filme na mão para registrar o que intuiu ser um momento histórico. Ele soube do assassinato do estudante Edson Luis e foi à Assembléia Legislativa do Rio, então na Cinelândia, para o velório. O lugar (onde hoje funciona a Câmara de Vereadores) estava lotado e ele não entrou. Das escadarias da Biblioteca Nacional, ligou sua Éclair 16 mm e registrou o primeiro grande protesto contra a ditadura militar, no ano que culminou com o AI-5.

O filme, de 12 minutos, mostra a indignação que acompanhou o funeral do secundarista morto pela PM durante um protesto no restaurante estudantil Calabouço. Mudo, é como se gritasse: ‘Mataram um estudante, podia ser seu filho’. Na multidão, estimada em 100 mil pessoas, personagens como o cineasta Joaquim Pedro de Andrade, o artista plástico Rubens Gerchman, o crítico Mario Pedrosa, as atrizes Norma Bengell e Joana Fomm, e líderes estudantis. Escorel filmou o que pôde, pulando de uma sacada a outra, até o momento em que o caixão baixou à sepultura, no cemitério São João Batista.
Meses depois, temendo a repressão, entregou o filme à Cinemateca do Museu de Arte Moderna e não mais o viu.

Os negativos do funeral de Edson Luis foram telecinados no Rio e enviados à Cinemateca Brasileira para restauração. Uma cópia em DVD será exibida esta semana no curso de cinema-documentário do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. Para Celso Castro, diretor do CPDOC, encontrar o filme é motivo de comemoração.

- Visto 40 anos depois, parece mais dramático, porque a gente sabe o futuro. A repressão ainda não tinha começado.

Globo Online

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Uso terapêutico da maconha amplia-se aos poucos

Javier Lafuente

Havia passado poucas horas desde sua primeira sessão de quimioterapia. As dores de Tatiana Enriquez, médica cubana de 39 anos, eram insuportáveis. Seu hematologista, um homem mais velho, sugeriu: “Fume um cigarro de maria”.

Ela levou na brincadeira, como uma forma de suavizar a situação. Não que entre eles houvesse uma confiança reforçada pelos anos;se coneheceram quando ela foi diagnosticada com câncer linfático, alguns meses antes. Depois da segunda sessão de químio, os vômitos e as náuseas não cessavam. O médico insistiu em sua idéia. Não podia fazer mais nada. “Ele viu claramente, acontece que não podia me receitar”, diz Tatiana.

Nas dez sessões seguintes, antes e depois de cada uma, Tatiana decidiu consumir maconha. “Era um momento da minha vida que eu tinha de superar ou morreria, por isso o fiz da forma que eu sofresse menos”, conta hoje, quatro anos depois, com o câncer praticamente superado. Tatiana também se sente uma agraciada.

A equipe médica que a tratava em um hospital público de Madri, cujo nome prefere omitir devido a possíveis conseqüências, permitia que ela fumasse maconha nas instalações. “Pode trazer aqui, e se alguém disser alguma coisa diga para falar comigo que eu autorizei”, lembra as palavras de seu hematologista. Desde então, o consultório da psicóloga, que também estava inteirada, foi o lugar onde tentava superar a quimioterapia.

Embora seu caso seja peculiar, não é o único. O uso terapêutico da Cannabis evoluiu notavelmente na Espanha desde o final da década de 1990 e sobretudo no início do século 21. As campanhas de sensibilização de diversas associações, e uma mudança importante quanto à percepção da substância dentro da classe médica, fizeram que o interesse pelo uso medicinal da maconha, para atenuar algumas doenças concretas, seja cada vez maior.

Será possível que algum dia a Cannabis seja receitada como um medicamento convencional? Quanto falta para que chegue esse momento? A Cannabis deve ser analisada dentro do contexto sociológico. Cerca de 162 milhões de pessoas a consomem em todo o mundo. É a droga ilegal com mais adeptos. Existe um núcleo da população, sobretudo de pessoas jovens, que não vê efeitos nocivos no consumo de maconha.

Segundo a última Pesquisa sobre Drogas e Álcool do Ministério da Saúde da Espanha, cerca de 28,6% da população consumiram Cannabis alguma vez e 8,7% o fazem todos os meses. Nos últimos dez anos, além disso, se multiplicou por três o número de pessoas que a consomem diariamente.

O Código Penal proíbe a venda de maconha, assim como sua posse e consumo em lugares públicos. Mas não em lugares privados, onde pode ser consumida. A venda de sementes é permitida há alguns anos. Mas a lei não diferencia entre o uso terapêutico e o lúdico. “É preciso romper essa barreira, desvincular a utilização da maconha como remédio de seu uso recreativo; há muitos doentes que poderiam se beneficiar dos princípios dos canabinóides se as duas discussões forem separadas”, afirma Joseba Pineda, professor de farmacologia da Universidade do País Basco.

Embora haja indícios de que era empregada para tratar reumatismo e gripe cerca de 2.700 anos antes de Cristo, foi somente no século 19 que a Cannabis se transformou em uma das substâncias a que a medicina recorre como anticonvulsivo, analgésico ou antiemético. O aparecimento de fármacos sintéticos e a pressão social e política, sempre por seu caráter recreativo, conseguiram isolá-la desde o início do século passado. Nada que não tenha ocorrido em outros casos. Qualquer substância que hoje é ilegal— heroína, êxtase, etc— foi pensada em um primeiro momento como medicamento.

O caso dos opiáceos —a morfina é o mais conhecido— é o que mais se adapta, segundo o professor Pineda, ao que o mundo médico vive hoje em dia. Como ocorre há anos, “a classe médica está evoluindo para a elaboração de testes clínicos, vendo quais produtos derivados da Cannabis podem ser prescritos com total segurança; o problema é que hoje há mais exigências, mais restrição para determinar o que é um medicamento ou não”, explica Pineda, que não duvida de que “todos, em ritmos diferentes”, acabarão aceitando o uso medicinal dos canabinóides.

Que algo acontece na Espanha ficou demonstrado no início deste século. Em 2001, Agata, associação catalã de ajuda a doentes de câncer de mama, iniciou uma campanha de sensibilização e pressionou as autoridades para que permitissem o uso terapêutico da Cannabis.

Nesse mesmo ano, o Parlamento catalão aprovou de forma unânime uma resolução dirigida ao governo central na qual o instava a “tomar todas as medidas administrativas necessárias para autorizar o uso medicinal da Cannabis”. Quatro anos depois começaram os primeiros testes clínicos, coordenados pelo Instituto Catalão de Farmacologia.

Esse plano piloto não foi um estudo de eficácia, mas de observação, enfocado em um grupo de 200 pacientes com esclerose múltipla, anorexia produzida pelo HIV ou náuseas e vômitos em conseqüência da quimioterapia, entre outros sintomas. “São pessoas com um estado de saúde bastante precário, que haviam recorrido a quase todos os tratamentos possíveis e nenhum deles havia surtido efeito”, explica a doutora Marta Durán, chefe de farmacologia do Hospital Vall d’Hebron, um do centros que participaram desse projeto inovador.

À falta de dados definitivos, que serão conhecidos brevemente, e que nenhum de seus promotores —Departamento de Saúde do governo catalão, Instituto de Farmacologia ou os próprios hospitais— quis adiantar, só se conhece o relatório preliminar publicado no ano passado. Sessenta e cinco por cento dos doentes reconhecem ter experimentado algum benefício, 10% não sentiram melhora alguma e 25% tiveram de abandonar o tratamento. As partes envolvidas só confirmam que se mantém essa tendência e que os dados finais são “bastante esperançosos”.

“Abriu-se a porta para pacientes que não tinham nenhum tipo de esperança. Portanto, estamos no bom caminho”, explica Durán, sempre cautelosa em seu raciocínio: “Os resultados não são espetaculares, é preciso ser muito prudente, mas não há dúvida de que podem ajudar. É preciso ver o perfil, a doença, o tipo de paciente, mas sempre que se possa ajudar vale a pena”.

Nesse plano piloto, o medicamento utilizado foi o Sativex, o único extrato de Cannabis comercializado como fármaco. Desenvolvido pela GW Pharmaceutical, foi importado do Canadá, onde seu uso está aprovado para o alívio da dor neuropática com esclerose múltipla. Na Espanha só se pode recorrer a ele se o paciente estiver incluído em um programa de medicação estrangeira ou de uso compassivo.

O Sativex é utilizado como spray. O nebulizador é aplicado quatro vezes por dia embaixo da língua. Cada jato do spray administra uma dose fixa de 2,7 mg de tetrahidrocannabinol (THC) e 2,5 mg de cannabidiol (CBD), os principais canabinóides exógenos ativos.

Para os médicos, conhecer previamente a composição do medicamento é primordial, pois não representa a mesma coisa que consumir a planta, que tem muita variabilidade de proporções e em muitos casos pode representar um risco para o paciente.

Por isso também recusam muitas vezes a via fumada e recomendam mais a oral ou sublingual, como é o caso do Sativex. “Fumar pode danificar muito mais o corpo, e além disso as concentrações de THC e CBD podem variar muito. No primeiro caso, tanto se consome 0,5% quanto 20%”, adverte Raphael Mechoulan, diretor da Faculdade de Ciências Naturais da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Em Israel, comenta o pesquisador, o uso de Cannabis está autorizado para pacientes com doença de Crohn, em algumas enfermidades neurológicas e para abrir o apetite de certos pacientes.

Poucos duvidam de que o Sativex marcou um antes e um depois, mas tanto os médicos como associações aprovam canábicas reivindicam que se continue pesquisando e testando com outra porcentagem de doses além de 50% THC e 50% CBD. Se os canabinóides são bons, é preciso aproveitá-los. Essa parece ser a máxima a partir da qual muitos médicos e pesquisadores querem trabalhar.

Têm a mesma eficácia que um fármaco convencional? Rafael Borrás, porta-voz do Colégio de Farmacêuticos de Barcelona, é bastante claro a respeito: “Até agora os fármacos de Cannabis que têm sido investigados são de segunda e terceira linhas; melhoram a sintomatologia do paciente, mas não são uma cura. Por isso há duas opções: fechar os olhos e argumentar que, como se trata de uma substância ilegal, não é possível fazer nada, ou continuar trabalhando para ajudar alguns doentes”.

Essa última premissa, e o conhecimento de que cada vez mais pessoas consomem maconha com fins medicinais, fez que Borrás e seus colegas farmacêuticos elaborassem o prospecto da Cannabis, um documento informativo de ajuda que qualquer pessoa pode obter na Internet.

Mas no mundo da medicina muitos continuam fechando os olhos e não conseguem acreditar, apesar do paradoxo, nas evidências científicas. “Em geral, para qualquer tratamento é melhor empregar substâncias do que extratos; qualquer iniciativa deve estar dentro de um âmbito claro, o que fizermos deve contribuir com algo”, argumenta Ramón Colomer, presidente da Sociedade Espanhola de Oncologia. “Não existe informação científica suficiente, o uso terapêutico tem mais riscos e incertezas que benefícios e certezas”, acrescenta.

Com a comercialização do Sativex, que os especialistas estimam para daqui a pelo menos alguns anos, a maconha como planta pode ficar relegada a um segundo plano no uso medicinal. Enquanto isso, milhares de doentes continuam a consumi-la para aliviar suas dores.

Nenhum estudo indica quantas pessoas podem estar consumindo a substância ilegal com fins medicinais, mas estimativas de alguns médicos apontam para cerca de 50 mil pessoas. Fabian Quintela, 43 anos, está há cinco em uma cadeira de rodas, em conseqüência da esclerose múltipla que sofre. Como muitos outros, seu médico lhe receitou um tratamento à base de relaxantes musculares. O único objetivo era diminuir a intensidade das dores, mas só conseguiu deixar seu estômago destruído e abrir seu esfíncter. “Eu tinha de me controlar para não fazer as necessidades”, comenta resignado.

Um amigo lhe sugeriu que provasse a maconha, já que um conhecido que sofria da mesma doença havia aprovado. O boca-a-boca nesse caso parece ser o melhor teste clínico. O problema de Fabian não foi tanto decidir-se a consumir Cannabis, mas consegui-la, já que nunca havia consumido. A opção mais simples foi perguntar a seu sobrinho de 19 anos, que certa vez lhe confessara que fumava “baseados”.

No dia seguinte tinha uma sacola cheia de folhas verdes em cima de sua mesa. Pouco tempo depois começou a plantar diversos tipos de maconha para ver qual era a mais conveniente. Fabian está orgulhoso de sua decisão. “Agora pelo menos posso ter uma vida normal”, afirma.

Recorrer ao mercado ilegal é a única solução que resta a muitos doentes, com os inconvenientes que isso representa: preço elevado, não saber realmente a substância que estão recebendo… No caso da esclerose múltipla, a Cannabis pode melhorar a espasticidade e aliviar a dor, mas no mercado ilegal a substância que se encontra em doses muito baixas de CBD, o princípio que age sobre a espasticidade muscular.

“Também ocorre uma situação absurda: os que devem ser protegidos do acesso à maconha, que são os jovens, são os que a conseguem mais facilmente. Os doentes, porém, são os que encontram mais obstáculos”, critica Martín Barriuso, presidente da Federação de Associações Canábicas (FAC). Barriuso também é um dos responsáveis pela Pannagh (”maconha” em sânscrito), uma associação basca de usuários dessa substância, um clube de consumidores composto por 230 pessoas, das quais 60% -quase todos maiores de 50 anos- a empregam com fins medicinais. Na Espanha há cerca de 30 associações canábicas, e uma dezena de clubes como o Pannagh.

Todo doente que quiser se associar deverá passar primeiro por uma entrevista pessoal e apresentar um certificado médico demonstrando que sofre de uma doença que pode estar sujeita a um tratamento com Cannabis. Além de uma cota de sócio, cada pessoa paga a maconha que consome -são cultivadas até 12 variedades diferentes-, sempre a preço de fábrica, isto é, muito mais barato que no mercado ilegal. Por exemplo, para um ciclo de quimioterapia normal, Barriuso calcula que sejam necessários 5 g, o que representaria 22,50 euros para o doente.

Embora seja aparentemente simples, eles tiveram vários problemas. Em outubro de 2005 a polícia deteve três membros da entidade e apreendeu 150 kg brutos de maconha, que depois do processo de secagem e análises ficaram em 18. O Ministério Público de Vizcaya, alguns meses depois, absolveu a associação por entender que a plantação cumpria os requisitos para ser considerada de “uso compartilhado”. Naquela época a Pannagh tinha 70 membros.

A principal crítica que se faz a esse tipo de associação é que por mais que se saiba que a maconha é cultivada não tem as mesmas garantias que uma dose fixa como no caso do Sativex. “É um fármaco interessante, mas não nos enganemos, não passa de uma tintura alcoólica, algo que estamos tentando fazer na associação mas que nenhum laboratório quer analisar. É a história de sempre, tratamos com doentes que é uma atividade legal, mas quando queremos analisar a maconha nos impedem de conseguir essa segurança.”

A separação do uso medicinal do lúdico chega a tais extremos que muitos que são contra a autorização da maconha para atenuar enfermidades argumentam que, depois de terminado o tratamento, os doentes correm um risco muito sério de continuar consumindo maconha com fins recreativos. Tatiana, a médica cubana, dá uma gargalhada: “Olhe, se alguém entrar agora neste bar e começar a fumar ‘maria’ ao meu lado eu tenho de ir para o outro extremo. É um cheiro que na época relacionei ao alívio, mas passado o tempo eu associo a um dos piores momentos da minha vida”.

Fonte: El País

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Preço em ascensão do arroz provoca temor de distúrbios na Ásia

Keith Bradsher

O aumento dos preços e um crescente temor de escassez levaram alguns dos maiores produtores de arroz do mundo a anunciarem drásticas limitações, e até proibições, à quantidade de arroz que exportam.

O preço do arroz, a base da dieta de quase metade da população do mundo, quase dobrou nos mercados internacionais nos últimos três meses. Isto apertou o orçamento de milhões de pobres asiáticos e aumentou o temor de inquietação civil.

Escassez e altos preços de todos os tipos de alimentos causaram tensões e até mesmo violência ao redor do mundo nos últimos meses. Desde janeiro, milhares de soldados foram posicionados no Paquistão para proteger os caminhões que transportam trigo e farinha. Ocorreram protestos na Indonésia por causa da escassez de soja, e a China implantou controles de preços ao óleo de cozinha, cereais, carne, leite e ovos.

Tumultos por causa de alimentos ocorreram nos últimos meses em Guiné, Mauritânia, México, Marrocos, Senegal, Uzbequistão e Iêmen. Mas as medidas adotadas pelos países exportadores de arroz nos últimos dois dias -visando assegurar que a oferta escassa atenderá a demanda doméstica- elevaram ainda mais os preços no mercado internacional nesta semana.

Isto alimentou a insegurança dos países importadores de arroz, já cada vez mais desesperados em assegurar o fornecimento. Na terça-feira, a presidente das Filipinas, Gloria Macapagal Arroyo, com medo de uma maior escassez de arroz, ordenou que investigadores do governo rastreassem estoques ilegais.

O aumento nos preços internacionais do arroz promete colocar mais pressão sobre os preços nos Estados Unidos, que importam mais de 30% do arroz que os americanos consomem, segundo a Associação dos Produtores de Arroz dos Estados Unidos. O preço que os consumidores pagam pelo arroz já subiu mais de 8% em relação ao ano passado.

Mas os Estados Unidos são felizardos por também exportarem arroz; países pobres que variam do Senegal, no Oeste da África, às Ilhas Salomão, no Sul do Pacífico, são altamente dependentes das importações e agora enfrentam contas mais altas.

O governo do Vietnã anunciou aqui, na sexta-feira, que reduziria a exportação de arroz em quase um quarto neste ano. O governo espera que ao manter mais arroz dentro do país, ele consiga segurar os preços e conter o descontentamento da população. No mesmo dia, a Índia basicamente proibiu a exportação de todos os tipos de arroz, exceto os mais caros. O Egito anunciou na quinta-feira que imporia uma proibição de seis meses na importação de arroz, a partir de 1º de abril, e na quarta-feira, o Camboja proibiu toda a exportação de arroz exceto pelas agências do governo.

Governos por toda a Ásia e em muitos países consumidores de arroz na África há muito se preocupam com a possibilidade de que os fortes aumentos dos preços possam provocar uma reação furiosa entre os cidadãos urbanos de baixa renda.

“Há definitivamente um potencial de inquietação, particularmente à medida que as pessoas mais afetadas são os pobres urbanos que estão concentrados, e portanto com mais facilidade de se organizarem do que os pobres rurais, por exemplo, para protestar contra os preços”, disse Nicholas W. Minot, um pesquisador do Instituto Internacional de Pesquisa de Política Alimentar, em Washington.

Vários fatores estão contribuindo para a alta nos preços do arroz. O maior poder aquisitivo na Índia e na China provocou um aumento do consumo. Ao mesmo tempo, seca e outros problemas meteorológicos reduziram a produção na Austrália e outras partes. Muitos produtores de arroz estão se voltando para produtos mais lucrativos, reduzindo a terra dedicada ao seu plantio. E a urbanização e a industrialização reduziram a terra dedicada ao cultivo do arroz.

No Vietnã, um vírus obscuro fez com que a produção anual começasse a estabilizar; ela vinha crescendo significativamente a cada ano nos últimos três anos.

Até poucos anos atrás, o potencial de grandes oscilações de preço era reduzido pela tendência de muitos governos de manter grandes estoques de arroz para assegurar a segurança do produto, disse Sushil Pandey, um economista agrícola do Instituto Internacional de Pesquisa do Arroz, em Manila.

Mas a manutenção dos estoques era cara. Então os governos começaram a fazer uso deles à medida que o consumo mundial de arroz passou a superar a produção em grande parte da última década.

As quantidades relativamente pequenas exportadas de fato, combinadas com os baixos estoques, agora significam que os preços podem subir rapidamente em resposta aos problemas na oferta.

Ao mesmo tempo, os preços estabelecidos no comércio internacional de arroz atualmente têm um peso cada vez mais importante sobre os preços dentro dos países. Isto é particularmente verdadeiro em uma era de comunicações por celular e Internet, quando até mesmo os produtores rurais em áreas remotas podem tomar conhecimento dos preços distantes e decidir se seus compradores estão lhes pagando um preço justo.

Mesmo antes dos governos imporem restrições nesta semana, as empresas de comércio nos países exportadores estavam cada vez mais relutantes em assinar contratos para futura entrega, já que aguardavam para ver quão alto os preços subiriam.

“O mercado praticamente parou nas últimas duas semanas”, disse Ben Savage, diretor administrativo para arroz da Jackson Son & Co., uma empresa de comércio de commodities em Londres. A alta dos preços já está causando dificuldades por todo o mundo em desenvolvimento.

Em um velho mercado coberto em um antigo bairro de Hanói, Cao Minh Huong, uma vendedora de cerâmica, disse que a alta dos preços dos alimentos, especialmente do arroz, a forçou a mudar sua dieta. “Eu estou gastando o mesmo em alimentos, mas estou levando menos para casa”, ela disse.

Juntamente com o aumento dos preços de outros alimentos, como trigo, soja, carne de porco e óleo de cozinha, os preços mais altos do arroz também estão contribuindo para a inflação em muitos países em desenvolvimento. Os preços de varejo do arroz já subiram até 60% nos últimos meses no Vietnã, ainda atrás dos aumentos no atacado mas provocando uma maior aceleração da inflação. O primeiro-ministro do Vietnã, Nguyen Tan Dung, anunciou na quarta-feira que a prioridade do governo agora é combater a inflação. Os preços ao consumidor estão 19% mais altos do que em março do ano passado. A taxa de inflação quase triplicou nos últimos 12 meses.

O arroz é incomum entre os grandes commodities agrícolas já que a maioria dos países consumidores de arroz é auto-suficiente ou quase. Apenas 7% da produção mundial de arroz é exportada a cada ano, segundo números da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, em Roma.

Nguyen Van Bo, o presidente da Academia das Ciências Agrícolas do Vietnã, que supervisiona os institutos de pesquisa agrícola do governo, disse em uma entrevista que o governo espera que a produção de arroz aumentará até 2010, apesar da rápida expansão de fábricas e imóveis residenciais em terras antes dedicadas ao plantio de arroz. Mas o governo precisa treinar os agricultores para alternar milho e arroz, para que possam derrotar pragas no arroz como o vírus, ele disse.

Vietnã, Egito e Índia já limitaram as exportações de arroz no ano passado, mas os limites eram muito menos drásticos e foram impostos mais à frente no ano, após muito mais arroz já ter sido exportado.

O governo da Tailândia, a maior exportadora de arroz do mundo depois do Vietnã, ainda não limitou as exportações. Mas um debate nacional teve início na Tailândia sobre se deve fazê-lo e os exportadores tailandeses praticamente já pararam de assinar contratos de entrega, disse Savage.

Os lances para os tipos de arroz normalmente comercializados como o de grão médio tailandês ou vietnamita quase dobraram, para US$ 700 a tonelada, com grande parte do aumento tendo ocorrido nas últimas quatro semanas e com os lances aumentando quase US$ 50 por tonelada na sexta-feira.

Os governos relutam em dizer aos produtores rurais para venderem seu arroz a preços baixos, fixados, por temerem que os produtores esconderão o arroz ou deixarão de cultivar o máximo que podem. Na sexta-feira, a China, que é virtualmente auto-suficiente em arroz, aumentou os preços mínimos para o arroz e trigo que garante aos agricultores.

Fonte: The New York Times

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Receita com commodities deve chegar a US$ 100 bi

Em 2007, exportações foram de US$ 75 bi; preço em alta sustenta balança comercial

Cotação da soja sobe 82% em 12 meses e minério de ferro obtém valorização de, pelo menos, 65%; altas compensam queda do dólar

MAURO ZAFALON
GITÂNIO FORTES

O Brasil deve ter receita recorde de US$ 100 bilhões com a exportação de commodities neste ano, contra cerca de US$ 75 bilhões em 2007, crescimento de 33,3%.
Preços altos dos principais produtos exportados pelo país, crescente demanda global, safras recordes, explosão dos biocombustíveis e baixos estoques levam a esse resultado, que sustenta a balança comercial do país, apesar do real valorizado e da explosão dos importados.
No setor agropecuário, a soja é o melhor exemplo dessa expansão. As cotações atuais superam em 82% as de igual período de 2007. Nos metais, o minério de ferro está com alta de 65% no período.
As commodities estão em seu sétimo ano consecutivo de alta, puxadas pelo crescimento vigoroso da economia global e de gigantes emergentes como China e Índia.
No momento em que os mercados financeiros atravessam crise aguda nos EUA, as commodities servem ainda como forma de diversificar investimentos de maneira segura.
Apenas com as commodities agrícolas, devem entrar US$ 74 bilhões neste ano, com soja e carnes como destaques, contra US$ 58 bilhões em 2007.
Nos metais, a previsão para este ano é de entrada de US$ 24,5 bilhões, 70% extraídos do minério de ferro.
O saldo do setor agropecuário deve ser de US$ 62,2 bilhões neste ano, enquanto o dos minerais deve chegar a US$ 11,7 bilhões, totalizando um saldo combinado de aproximadamente US$ 74 bilhões.
O mercado projeta saldo total da balança comercial de cerca de US$ 30 bilhões neste ano, o que evidencia a dependência das exportações brasileiras das commodities.
Se o saldo comercial é bastante positivo ao Brasil, ele também gera novos gastos, como o caso do trigo que o país importa, também num momento de cotação recorde.
O país depende do mercado externo para o abastecimento e gastará US$ 2,1 bilhões para importar o produto em 2008.
Já o preço do carvão importado deve ter alta de até 100% e gerar gasto de US$ 3 bilhões em 2008, contra US$ 1,8 bilhão em 2007. Também insumos para processamento de fertilizantes estão mais caros.

Fonte: Folha de S. Paulo dinheiro

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Sistema alimentar na era pós-petroleira

A FALÊNCIA DE UM MODELO

Há 33 países hoje à beira da instabilidade social devido à falta e ao preço dos alimentos. Essa crise que ameaça a segurança alimentar de milhões de pessoas é o resultado direto do atual modelo industrial de agricultura dependente do petróleo.

Miguel A. Altieri - Alai Amlatina

A agricultura mundial está numa encruzilhada. A economia global impõe demandas conflitantes sobre os 1,5 bilhão de hectares cultivados. Não só se pede à terra agrícola que produza alimento suficiente para uma população crescente, mas também que produza biocombustíveis, e que faça isso de um modo que seja saudável para o meio ambiente, preservando a biodiversidade e diminuindo a emissão de gases de efeito estufa, e que, ainda, seja uma atividade economicamente viável para os agricultores.

Essas pressões estão desencadeando uma crise sem precedentes no sistema alimentar global, que já começa a se manifestar em protestos por escassez de alimentos em muitos países da Ásia e da África. De fato, há 33 países à beira da instabilidade social devido à falta e ao preço dos alimentos. Essa crise que ameaça a segurança alimentar de milhões de pessoas é o resultado direto do modelo industrial de agricultura, que não só é perigosamente dependente de hidrocarburos, mas tem, ainda, se tornado a maior força antrópica modificadora da biosfera. As crescentes pressões sobre a área agrícola —que está se reduzindo— estão minando a capacidade da natureza de suprir as demandas da humanidade quanto a alimentos, fibras e energia. A tragédia é que a população humana depende dos serviços ecológicos (ciclos de água, polinizadores, solos férteis, clima local benevolente, etc.) que a agricultura intensiva continuamente empurra para além de seus limites.

Antes do fim da primeira década do século XXI, a humanidade está tomando consciência rapidamente de que o modelo industrial capitalista de agricultura dependente de petróleo não mais funciona para suprir os alimentos necessários. Os preços inflacionários do petróleo inevitavelmente aumentam os custos de produção e os preços dos alimentos subiram a tal ponto que hoje um dólar compra 30% menos alimento do que há um ano. Uma pessoa na Nigéria gasta 73% da sua renda em alimento, no Vietnã 65% e na Indonésia 50%. Essa situação está piorando rapidamente, na medida em que a terra agrícola vai sendo destinada para biocombustíveis e na medida em que a mudança climática afeta o rendimento da terra pelas estiagens ou inundações.

Expandir terras agrícolas destinadas a biocombustíveis ou cultivos transgênicos, que já tomam 120 milhões de hectares, vai exacerbar os impactos ecológicos de monocultivos que continuamente degradam os serviços da natureza. Além disso, a agricultura industrial hoje contribui com mais de 1/3 das emissões globais de gases de efeito estufa, especialmente metano e óxidos nitrosos. Continuar com esse sistema degradante, como promove um sistema econômico neoliberal, ecologicamente desonesto por não refletir as externalidades ambientais não é uma opção viável.

O desafio imediato de nossa geração é transformar a agricultura industrial e iniciar uma transição dos sistemas alimentares para que não dependam de petróleo.

Precisamos de um paradigma alternativo de desenvolvimento agrícola, que propicie formas de agricultura ecológica, sustentável e socialmente justa. Redesenhar o sistema alimentar para formas mais eqüitativas e viáveis para agricultores e consumidores vai requerer mudanças radicais nas forças políticas e econômicas que determinam o que vai ser produzido, como, onde e para quem. O livre comércio sem controle social é o principal mecanismo que está expulsando os agricultores de suas terras e é o principal obstáculo para alcançar desenvolvimento e uma segurança alimentar local. Só desafiando o controle que as empresas multinacionais exercem sobre o sistema alimentar e o modelo agroexportador patrocinado pelos governos neoliberais será possível deter a espiral de pobreza, fome, migração rural e degradação ambiental.

O conceito de soberania alimentar, tal como é promovido pelo movimento mundial de pequenos agricultores, a Via Campesina, constitui a única alternativa viável para o sistema alimentar em colapso, que simplesmente falhou em seu cálculo de que o livre comércio internacional seria a chave para solucionar o problema alimentar mundial. Pelo contrário, a soberania alimentar enfatiza circuitos locais de produção-consumo e ações organizadas para obter acesso à terra, água, agrobiodiversidade, etc., recursos fundamentais que as comunidades rurais devem controlar para conseguir produzir alimentos com métodos agroecológicos.

Não há duvida que uma aliança entre agricultores e consumidores é de importância estratégica. Ao mesmo tempo que os consumidores devem descer na cadeia alimentar ao consumir menos proteína animal, precisam tomar consciência de que sua qualidade de vida está intimamente associada ao tipo de agricultura que é praticada nos cordões verdes que circundam povoados e cidades, não só pelo tipo e qualidade de cultivos que aí são produzidos, mas pelos serviços ambientais, como qualidade da água, microclima e conservação da biodiversidade, etc., que esta agricultura multifuncional proporciona.

Mas a multifuncionalidade só emerge quando as paisagens estão dominadas por centenas de sítios pequenos e biodiversos, que, como os estudiosos demonstram, podem produzir entre duas e dez vezes mais por unidade de área do que as fazendas de grande escala. Nos Estados Unidos os agricultores sustentáveis, em sua maioria pequenos e médios agricultores, geram uma produção total maior que os monocultivos extensivos, e fazem isso reduzindo a erosão e conservando melhor a biodiversidade. As comunidades rodeadas por pequenos sítios apresentam menos problemas sociais (alcoolismo, drogadição, violência familiar, etc.) e economias mais saudáveis que comunidades rodeadas por fazendas grandes e mecanizadas.

No estado de São Paulo, no Brasil, cidades rodeadas por grandes extensões de cana-de-açúcar são mais quentes do que cidades rodeadas por propriedades médias e diversificadas. Deveria ser óbvio, então, para os consumidores urbanos, que comer constitui ao mesmo tempo um ato ecológico e político, pois ao comprar alimentos em mercados locais ou feiras de agricultores, há um retorno a um modelo de agricultura adequada para a era pós-petroleira, enquanto ao comprar nas grandes redes de supermercados, perpetua-se o modelo agrícola não sustentável.

A escala e urgência do desafio que a humanidade enfrenta é sem precedentes e o que é preciso fazer é ambiental, social e politicamente possível. Erradicar a pobreza e a fome mundial requer um investimento anual de aproximadamente 50 bilhões de dólares, uma fração se comparado com o orçamento militar mundial, que chega a mais de um trilhão de dólares por ano. A velocidade com que essa mudança deve ser implementada é muito rápida, mas o que está em questão é se existe realmente vontade política de transformar radical e velozmente o sistema alimentar, antes que a fome e a insegurança alimentar alcancem proporções planetárias irreversíveis.

Miguel A. Altieri é professor na Universidade da Califórnia (Berkeley) e membro da Sociedade Científica Latino-americana de Agroecologia (SOCLA)

Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores

Carta Maior

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EDUARDO GALEANO - A natureza não é muda

O Equador está discutindo uma nova Constituição. Entre as propostas, abre-se a possibilidade de reconhecer, pela primeira vez na história, os direitos da natureza. Parece loucura querer que a natureza tenha direitos. Em compensação, parece normal que as grandes empresas dos EUA desfrutem de direitos humanos, conforme foi aprovado pela Suprema Corte, em 1886.

Eduardo Galeano - Brecha

O mundo pinta naturezas mortas, sucumbem os bosques naturais, derretem os pólos, o ar torna-se irrespirável e a água imprestável, plastificam-se as flores e a comida, e o céu e a terra ficam completamente loucos.

E, enquanto tudo isto acontece, um país latino-americano, o Equador, está discutindo uma nova Constituição. E nessa Constituição abre-se a possibilidade de reconhecer, pela primeira vez na história universal, os direitos da natureza.

A natureza tem muito a dizer, e já vai sendo hora de que nós, seus filhos, paremos de nos fingir de surdos. E talvez até Deus escute o chamado que soa saindo deste país andino, e acrescente o décimo primeiro mandamento, que ele esqueceu nas instruções que nos deu lá do monte Sinai: “Amarás a natureza, da qual fazes parte”.

Um objeto que quer ser sujeito
Durante milhares de anos, quase todo o mundo teve direito de não ter direitos.

Nos fatos, não são poucos os que continuam sem direitos, mas pelo menos se reconhece, agora, o direito a tê-los; e isso é bastante mais do que um gesto de caridade dos senhores do mundo para consolo dos seus servos.

E a natureza? De certo modo, pode-se dizer que os direitos humanos abrangem a natureza, porque ela não é um cartão postal para ser olhado desde fora; mas bem sabe a natureza que até as melhores leis humanas tratam-na como objeto de propriedade, e nunca como sujeito de direito.

Reduzida a uma mera fonte de recursos naturais e bons negócios, ela pode ser legalmente maltratada, e até exterminada, sem que suas queixas sejam escutadas e sem que as normas jurídicas impeçam a impunidade dos criminosos. No máximo, no melhor dos casos, são as vítimas humanas que podem exigir uma indenização mais ou menos simbólica, e isso sempre depois que o mal já foi feito, mas as leis não evitam nem detêm os atentados contra a terra, a água ou o ar.

Parece estranho, não é? Isto de que a natureza tenha direitos… Uma loucura. Como se a natureza fosse pessoa! Em compensação, parece muito normal que as grandes empresas dos Estados Unidos desfrutem de direitos humanos. Em 1886, a Suprema Corte dos Estados Unidos, modelo da justiça universal, estendeu os direitos humanos às corporações privadas. A lei reconheceu para elas os mesmos direitos das pessoas: direito à vida, à livre expressão, à privacidade e a todo o resto, como se as empresas respirassem. Mais de 120 anos já se passaram e assim continua sendo. Ninguém fica estranhado com isso.

Gritos e sussurros
Nada há de estranho, nem de anormal, o projeto que quer incorporar os direitos da natureza à nova Constituição do Equador.

Este país sofreu numerosas devastações ao longo da sua história. Para citar apenas um exemplo, durante mais de um quarto de século, até 1992, a empresa petroleira Texaco vomitou impunemente 18 bilhões de galões de veneno sobre terras, rios e pessoas. Uma vez cumprida esta obra de beneficência na Amazônia equatoriana, a empresa nascida no Texas celebrou seu casamento com a Standard Oil. Nessa época, a Standard Oil, de Rockefeller, havia passado a se chamar Chevron e era dirigida por Condoleezza Rice. Depois, um oleoduto transportou Condoleezza até a Casa Branca, enquanto a família Chevron-Texaco continuava contaminando o mundo.

Mas as feridas abertas no corpo do Equador pela Texaco e outras empresas não são a única fonte de inspiração desta grande novidade jurídica que se tenta levar adiante. Além disso, e não é o menos importante, a reivindicação da natureza faz parte de um processo de recuperação das mais antigas tradições do Equador e de toda a América. Visa a que o Estado reconheça e garanta o direito de manter e regenerar os ciclos vitais naturais, e não é por acaso que a Assembléia Constituinte começou por identificar seus objetivos de renascimento nacional com o ideal de vida do sumak kausai. Isso significa, em língua quechua, vida harmoniosa: harmonia entre nós e harmonia com a natureza, que nos gera, nos alimenta e nos abriga e que tem vida própria, e valores próprios, para além de nós.

Essas tradições continuam miraculosamente vivas, apesar da pesada herança do racismo, que no Equador, como em toda a América, continua mutilando a realidade e a memória. E não são patrimônio apenas da sua numerosa população indígena, que soube perpetuá-las ao longo de cinco séculos de proibição e desprezo. Pertencem a todo o país, e ao mundo inteiro, estas vozes do passado que ajudam a adivinhar outro futuro possível.

Desde que a espada e a cruz desembarcaram em terras americanas, a conquista européia castigou a adoração da natureza, que era pecado de idolatria, com penas de açoite, forca ou fogo. A comunhão entre a natureza e o povo, costume pagão, foi abolida em nome de Deus e depois em nome da civilização. Em toda a América, e no mundo, continuamos pagando as conseqüências desse divorcio obrigatório.

Publicado originalmente no semanário Brecha, do Uruguai.

Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores

Carta Maior

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Violência doméstica lidera ranking de agressões contra crianças e adolescentes

Morillo Carvalho
Repórter da Agência Brasil

Brasília - Os pais são os principais agressores contra crianças e adolescentes. A constatação pode ser vista na página da internet que mantém atualizadas as denúncias dos Conselhos Tutelares de todo o país, enviadas ao Sistema de Informação para a Infância e Adolescência (Sipia). São 186.415 registros, de 1999 até hoje.

Também constata-se que os números de agressões contra crianças e adolescentes são altos pelo Disque 100, sistema que permite que qualquer um faça denúncias, inclusive anônimas. Em números absolutos, os casos de agressão por negligência ou agressão física e psicológica são 54.889 dos 111.807 registros. Isso representa 67,40% do total. Entre os registros, 242 são denúncias de violência com morte da criança ou do adolescente.

Diante do índice, especialistas em questões da infância, consideram que episódios como o da menina Isabella Nardoni, que morreu aos 5 anos, causando comoção por ter causas ainda desconhecidas, são mostras de um país ainda tolerante com a agressão contra crianças e adolescentes.

Para o integrante do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), Ariel de Castro Alves, os dados revelam que a violência contra a infância é generalizada no Brasil e que há muita tolerância para com ela – o que faz com que as pessoas se sintam menos à vontade para denunciar.

“Devemos tratar do caso da menina Isabella e, a partir dele, refletir com toda a sociedade brasileira. Os números mostram que a violência contra a infância e a juventude é generalizada e, muitas vezes, a violência ocorre exatamente nos locais em que elas deveriam receber proteção, que são os lares, escolas e creches”, disse.

A coordenadora do Programa de Enfrentamento à Violência Sexual contra a Criança e o Adolescente da Secretaria de Direitos Humanos, Leila Paiva, concorda com o conselheiro do Conanda. Para ela, o que contribui para a manutenção deste quadro é a falta de iniciativa de quem observa a violência, mas não denuncia.

“Existe um pensamento no imaginário popular de que não devemos interceder em problemas que ocorrem no âmbito familiar, o que é um equívoco. Mas, ao mesmo tempo, eu penso que o aumento dos registros no Disque 100 é pelo fato dele garantir o anonimato e a distância das pessoas”, analisou a coordenadora.

Ariel Alves, do Conanda, retoma a questão do papel da sociedade: “Não é só a família a responsável por garantir os direitos da infância e juventude, o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) diz que é um dever de todos: da família, do Estado e de toda a sociedade brasileira.”

A média de utilização do Disque 100, desde que foi implantado em 2003 até hoje, é crescente. Começou com 12 relatos por dia, passou para 38 em 2006 e chegou a 69 em 2007. Até março deste ano, foram contabilizados em torno de 93 casos diariamente.

Os dois especialistas atribuem o crescimento do número de denúncias à sensibilização de todos da importância em não se calar diante dos casos de agressão a crianças e a adolescentes. Para ambos, não se trata de aumento dos casos de agressão.

Alves citou estudo da Universidade de São Paulo sobre o tema: “Uma pesquisa do Laboratório de Estudos da Criança da USP, feito entre 1996 e 2007, diagnosticou a existência de 159.754 casos de violência doméstica. E também concluiu que aproximadamente 10% dos casos de abusos e violência contra crianças e adolescentes são denunciados.”

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Educação é escolhida como tema prioritário de conferência nacional

Amanda Cieglinski
Repórter da Agência Brasil

Brasília - Os jovens que participaram das etapas que antecederam a Conferência Nacional da Juventude elegeram a educação como prioridade em suas reivindicações. O evento começa amanhã (27) e se estende até o dia 30.

O tema educação foi o que recebeu o maior número de propostas: 1.087 de um total de 4.492. Em seguida, aparecem temas relacionados ao trabalho, com 506 propostas; à cultura, com 449; à sexualidade e à saúde, com 344; e à participação política, com 302.

A educação foi o tema prioritário em quase todos os estados e o Distrito Federal. Tocantins, por exemplo, elegeu como prioridade a criação da universidade estadual pública. O estado participa da etapa nacional com 123 delegados. Na Conferência Nacional, a área da educação conta com 133 propostas divididas em 19 categorias, tais como financiamento público, transporte estudantil, educação profissional e formação de professores.

“A questão do financiamento e a garantia de aplicação de 10% do PIB na educação apareceu em várias conferências. A necessidade de ampliar os cursos de formação nas escolas técnicas federais também aparece com força”, destacou a vice-presidente do Conselho Nacional da Juventude (Conjuve), Maria Virgínia Freitas. Há ainda, entre outras propostas, a defesa da merenda escolar no ensino médio e do fim da progressão continuada no ensino fundamental.

Na área do trabalho, os conferencistas analisarão 20 propostas, com destaque para a capacitação profissional e a ampliação do Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Projovem). “Além das políticas de inserção no mercado, eles [os jovens] querem mais fiscalização sobre as condições de trabalho. Os jovens costumam trabalhar mais e ganhar menos”, apontou a vice-presidente do Conjuve.

A chefe do departamento de Parceria e Articulação com os Municípios, do governo do Maranhão, Ísis Lucas Braga, aponta que o estado não elegeu prioridades, mas a erradicação do trabalho escravo, especialmente o juvenil, foi um dos problemas levantados. “Nossas bandeiras são várias: a questão do meio ambiente, da saúde, da comunidade GLBT [gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros]”, enumerou. Ela destacou ainda que 36 maranhenses participarão da etapa nacional.

O grande número de propostas apresentadas na área de participação política quebra o estigma de que a geração de hoje é politicamente alienada, na avaliação do coordenador do encontro, Danilo Moreira. “A conferência derruba um mito de que o jovem está desinteressado porque foram mais de 4 mil participantes em todas as etapas, está longe de ser uma juventude apática”, disse.

Entre os desafios apontados pelos participantes, está a ampliação da participação da juventude em espaços de discussões com a sociedade e o poder público por meio de fóruns, conselhos e canais de interlocução nas câmaras e assembléias legislativas. Há ainda propostas de campanhas para incentivar a criação de grêmios estudantis, além de um sistema de cotas para a juventude nas eleições.

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Trabalhadoras domésticas negras são maioria sem carteira assinada, aponta OIT

Sabrina Craide
Repórter da Agência Brasil

Brasília - Entre as mulheres negras que são trabalhadoras domésticas, 75,6% não têm carteira assinada. Entre as mulheres não negras, o percentual é de 69,6%. No caso dos homens, 61,9% dos negros e 54,9% dos brancos trabalham na informalidade.

Os dados são de uma nota técnica que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou em relação ao Dia Nacional do Trabalhador Doméstico, comemorado hoje (27). A nota é baseada nas informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para Solange Sanches, coordenadora da área de gênero e raça da OIT, os dados mostram que, apesar de alguns avanços, as diferenças entre homens e mulheres persistem nessa profissão.

“Mesmo em uma categoria que já é tão vulnerável e tem condições de trabalho tão precárias, ainda assim a desigualdade de gênero e raça se mantém e aparece claramente”, disse.
O relatório da OIT diz também que a formalização do trabalho doméstico cresceu 10,2% entre 2004 a 2006. Para as trabalhadoras domésticas negras, o percentual chegou a 17,2%. Segundo Sanches, esse tipo de trabalho acompanha um crescimento geral da formalização que está ocorrendo no país.

“Para que tenhamos uma situação mínima de igualdade no mercado de trabalho, é preciso corrigir com mais rapidez a situação das mulheres negras, que é a pior de todas”, diz.

Houve também uma diminuição da diferença de rendimentos entre 1995 e 2006. Em 1995, as mulheres negras recebiam o equivalente a 55,4% dos rendimentos dos homens brancos. Em 2006, as mulheres negras passam a receber 66,4%. Para Sanches, essa diminuição é insuficiente: “É muito bom verificar que os rendimentos vêm crescendo, mas ainda assim persiste a desigualdade.”

A pesquisa mostrou também que, em 2006, 27,8% do total de trabalhadores domésticos tinham carteira assinada. Entre os 72,2% que não possuíam vínculo formal de trabalho, as trabalhadoras negras correspondem a 57,5%; as mulheres não-negras são 37,0%; os homens não-negros, 2,0%; e os homens negros somam 3,4%.

Para a coordenadora, o esclarecimento e a valorização dos profissionais são o caminho para melhorar a situação dos trabalhadores domésticos no Brasil. “Com informações, as pessoas compreendem a importância de ter a carteira assinada, de recolher para a Previdência Social, porque isso é uma garantia hoje e para o futuro. E é preciso valorizar para que esse registro como trabalhadora doméstica seja um motivo de orgulho”, disse

O secretário de Políticas Públicas de Emprego do Ministério do Trabalho, Ezequiel Nascimento, destacou como fundamental o esclarecimento tanto de patrões como de empregados. Ele lembrou que a fiscalização das condições de trabalho é mais difícil no caso dos trabalhadores domésticos, porque para isso é preciso entrar na casa das pessoas.

“Para o Estado é muito fácil fiscalizar e autuar uma empresa, uma usina, uma indústria, mas entrar no lar é diferente”, disse, ao informar que o governo federal está organizando uma campanha nacional de esclarecimento dos direitos e deveres de empregadores e trabalhadores.

O Ministério do Trabalho também está firmando convênios em diversos estados para qualificar os trabalhadores domésticos. Segundo Nascimento, no ano passado foram oferecidas para esse tipo de trabalho 33 mil vagas, das quais 13 mil não foram preenchidas por falta de qualificação dos candidatos.

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Constituição é discriminatória com empregadas domésticas, diz diretora

Mariana Jungmann
Repórter da Agência Brasil

Brasília - O trabalho doméstico precisa ser regulamentado como profissão. Quem defende é a diretora de programas da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Elisabete Pereira, ao informar que o primeiro passo para isso é acabar com a discriminação existente já na Constituição Federal.

“Nós temos que eliminar um artigo restritivo e discriminatório que diz que todos os trabalhadores têm direito ao que está previsto na Consolidação das Leis do Trabalho, exceto as empregadas domésticas”, afirmou. Atualmente, com a carteira de trabalho assinada, a categoria só pode reivindicar nove dos 34 direitos previstos na CLT.

A diretora explicou que é preciso, em seguida, criar uma legislação que regulamente o trabalho doméstico, respeitando as especificidades da profissão.

“Toda profissão é disciplinada por um conjunto de regras, com essa não pode ser diferente. Temos que legislar pensando que há empregadas que trabalham oito horas por dia; há as que dormem no emprego e, por isso, trabalham mais; há as que são diaristas e trabalham em várias casas diferentes, são muitos os modelos”, afirmou.

Essas mudanças, no entanto, só podem ser implementadas quando não só as empregadas mas também os patrões mudarem a forma de encarar o serviço prestado por essas trabalhadoras, acrescentou Elisabete Pereira.

“No espaço privado, a cultura que existe ainda é a de um Brasil colonial. As sinhazinhas e os barões libertaram os escravos, mas mantiveram dentro de casa as mulheres, numa profissão que eles não querem dizer que é profissão – é, na verdade, o trabalho que sobrou, o que a sinhazinha não quer fazer”, concluiu.

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São Paulo tem 24 horas de programação cultural gratuita

Marli Moreira
Repórter da Agência Brasil

São Paulo - A região central de São Paulo e alguns bairros da cidade recebem, desde ontem, eventos culturais de todas as artes. É a 4ª Virada Cultural, iniciativa que mudou a rotina de domingo do centro da capital paulista e que tem acesso franqueado ao público, sem cobrança de ingresso.

Além de shows musicais em praças abertas, a Virada Cultural tem peças teatrais, exposições, mostras em museus, espetáculos de dança, mostras de artes plásticas. Para que a população pudesse prestigiar os eventos, os itinerários de algumas linhas de ônibus foram alterados. Algumas vias foram bloqueadas para as apresentações de rua.

Os três do metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos funcionaram ininterruptamente, desde ontem, às 18h, quando começou a seqüência de eventos. bem como alguns trechos de vias tiveram bloqueios de trânsito e os trens do Metrô e da CPTM funcionaram, ininterruptamente.

Neste ano, a Virada Cultural tem mais de 800 atrações, o dobro do ano passado. Segundo a Polícia Militar, apesar do centro da cidade estar mais movimentado que o normal para um domingo, não houve até agora nenhuma ocorrência grave.

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Direito à água é tema de debates hoje no Fórum Social do Mercosul

Lúcia Nórcio
Repórter da Agência Brasil

Curitiba - A água como um bem público e um direito de todos é um dos principais temas tratados hoje (27) no Fórum Social do Mercosul, que se realiza até amanhã (28) na Universidade Federal do Paraná.

A uruguaia Carmem Sosa, conhecida por coordenar em seu país o plebiscito contra a privatização da água, integra uma das comissões dos 12 países presentes ao encontro. Segundo ela, os números oficiais, apresentados pela Organização das Nações Unidas (ONU), deixam clara a necessidade da integração entre os povos, do intercâmbio do conhecimento para vencer o que ela chamou de “guerra”.

“São 2,6 bilhões de pessoas – mais de 40% da população mundial – sem saneamento básico, um bilhão de pessoas usando fontes de água impróprias para o consumo e 5 milhões de pessoas, na sua maioria crianças, morrendo todos os anos de doenças relacionadas à qualidade da água”, alertou.

Sosa disse ainda ter ouvido do governador do Paraná, Roberto Requião, que o estado pretende seguir o exemplo do Uruguai, onde o plebiscito decidiu que a água é pública.

O aquecimento global e as mudanças climáticas, e como se deve lidar com essas novas questões, serão mostrados em vários vídeos durante o Fórum e depois será aberto o debate entre os convidados. Entre os documentários destacam-se Sede - Invasão Gota a Gota, da argentina Mausi Martinez, que retrata a preocupação quanto ao uso sustentável e estratégico do Aqüífero Guarani, e Além do Jejum - A luta de dom Luiz Flávio Cappio contra a transposição do Rio São Francisco, do também argentino Carlos Pronzato.

Dom Ladislau Biernaski, bispo de São José dos Pinhais (PR) e representante da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) no Fórum, convocou os participantes a “exigirem” que governos de seus países se comprometam a garantir o direito de todos à água e que a declarem como bem público.

“Precisamos de uma legislação adequada, com força jurídica pela ONU, por meio de uma Convenção Internacional da Água”, defendeu, ao lembrar que no último dia 22 o Conselho Ecumênico das Igrejas Cristãs e a Conferência dos Bispos da Suíça confirmaram, junto com a CNBB, a declaração de igrejas do mundo inteiro em favor da água como direito humano e bem público.

Segundo ele, este documento foi assumido em 2005 e será renovado todos os anos, em sintonia com a Década Internacional da Água (2005-2015).

O painel da água abordará ainda a importância da preservação do Aqüífero Guarani, denominação dada à reserva de água do subsolo da região sul do continente, com um estoque estimado em 50 quatrilhões de litros de água pura. A área de abrangência é de 1,2 milhão de quilômetros quadrados, dos quais 71% estão localizados no Brasil, 19% na Argentina, 6% no Paraguai e 4% no Uruguai.

No estado, a abrangência é de 131,3 mil quilômetros quadrados e cerca de 2,9 milhões de paranaenses são abastecidos com águas provenientes do aqüífero.

O painel Boas Práticas, sobre o uso correto da água, será coordenado por Maria Arlete Rosa, diretora de Meio Ambiente e Ação Social da empresa estadual de saneamento. Segundo ela, serão debatidas práticas corretas de gestão, adotadas por órgãos públicos estaduais, prefeituras, organizações não-governamentais e outras instituições. Ela destacou a apresentação de projetos na Região Metropolitana de Curitiba, como o da Vila Zumbi dos Palmares (Colombo), e as ações realizadas no Jardim Guaraituba, em Piraquara, com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Estão previstos R$ 98 milhões para obras de urbanização e regularização fundiária na área, onde vivem cerca de 40 mil pessoas. O projeto preserva os mananciais, já que a planície do Guarituba é cortada por três rios (Piraquara, Irai e Itaqui), reponsáveis por 70% da água que abastece a capital..

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Decreto prevê 12 integrantes em comissão que analisa pensões a pessoas com hanseníase

Da Agência Brasil

Brasília - O governo publicou, nesta semana, alteração do decreto nº 6168 de 2007, que regulamenta a pensão especial concedida a pessoas com hanseníase e que foram isoladas pelo Estado brasileiro, em hospitais colônias, até 31 de dezembro de 1986.

A alteração estabelece que o número de funcionários que avalia os requerimentos seja aumentado. A Comissão Interministerial de Avaliação da Secretaria Especial dos Direitos Humanos antes contava com quatro titulares e quatro suplentes, sendo um representante por ministério: Saúde, Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Previdência Social e Planejamento. Agora, a comissão passa a ter mais três representantes de cada ministério, aumentando para 12 o número de integrantes.

De acordo com a assessora da comissão, Sueli Dias, o pedido para alteração no decreto foi feito pelos próprios integrantes depois da crescente demanda de requerimentos para receber a pensão. “Em princípio, a gente esperava entre 3.500 a 4.000 requerimentos. Mas, de dezembro de 2007 a janeiro deste ano, já havíamos recebido 8 mil requerimentos. Com mais integrantes, esperamos que, até o fim do ano, tenhamos analisado, pelo menos, 70% desses requerimentos”, estimou Sueli.

A pensão, no valor de R$ 750,00 mensais, é vitalìcia. O benefício é concedido somente para pessoas que sofreram isolamento entre a década de 20 até dezembro de 1986. “Essa pensão não é para todas as pessoas que tem hanseníase hoje no Brasil”, alertou a assessora da comissão.

No período abrangido pela norma, pessoas com diagnóstico de hanseníase eram obrigadas a se isolar ou a se internar em hospitais-colônias, para evitar o contato com outras pessoas. Após o período de confinamento obrigatório, algumas pessoas tentaram se reinserir na sociedade, porém o preconceito impediu essa integração e muitas decidiram voltar para as antigas colônias, que se transformaram em vilas residenciais.

Agência Brasil

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Túnel do tempo - Filme do enterro de Edson Luis é achado 40 anos depois

Publicada em 26/04/2008 às 18h17m

RIO - Ele não lembra como surgiu a idéia, mas, em 29 de março de 1968, o cineasta Eduardo Escorel saiu de casa com uma câmera e dois rolos de filme na mão para registrar o que intuiu ser um momento histórico. Ele soube do assassinato do estudante Edson Luis e foi à Assembléia Legislativa do Rio, então na Cinelândia, para o velório. O lugar (onde hoje funciona a Câmara de Vereadores) estava lotado e ele não entrou. Das escadarias da Biblioteca Nacional, ligou sua Éclair 16 mm e registrou o primeiro grande protesto contra a ditadura militar, no ano que culminou com o AI-5.

O filme, de 12 minutos, mostra a indignação que acompanhou o funeral do secundarista morto pela PM durante um protesto no restaurante estudantil Calabouço. Mudo, é como se gritasse: ‘Mataram um estudante, podia ser seu filho’. Na multidão, estimada em 100 mil pessoas, personagens como o cineasta Joaquim Pedro de Andrade, o artista plástico Rubens Gerchman, o crítico Mario Pedrosa, as atrizes Norma Bengell e Joana Fomm, e líderes estudantis. Escorel filmou o que pôde, pulando de uma sacada a outra, até o momento em que o caixão baixou à sepultura, no cemitério São João Batista.
Meses depois, temendo a repressão, entregou o filme à Cinemateca do Museu de Arte Moderna e não mais o viu.

Os negativos do funeral de Edson Luis foram telecinados no Rio e enviados à Cinemateca Brasileira para restauração. Uma cópia em DVD será exibida esta semana no curso de cinema-documentário do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. Para Celso Castro, diretor do CPDOC, encontrar o filme é motivo de comemoração.

- Visto 40 anos depois, parece mais dramático, porque a gente sabe o futuro. A repressão ainda não tinha começado.

Globo Online

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Tanto Mar - Chico Buarque

Por ocasião dos 34 anos da Revolução dos Cravos, data comemorada em 25 abril, esta bela homenagem do nosso poeta

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