Arquivo de 28 de Abril de 2008

A terapia do choque

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1º de Maio de luta em São Paulo relembra 1968

Diego Cruz
da redação

• Enquanto as centrais sindicais como CUT e Força Sindical realizam festas milionárias para comemorar o Dia do Trabalho, financiadas pelo governo e por empresários, em São Paulo o 1º de Maio classista e de luta, impulsionado pela Conlutas, Intersindical, pastorais sociais, entre outras entidades, relembra a data histórica em 1968.

No Dia do Trabalho de quarenta anos atrás, os pelegos da direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, em plena ditadura militar, levaram o governador biônico do estado, Abreu Sodré, para as comemorações na Praça da Sé. O Movimento de Oposição Metalúrgica (Momsp) e demais trabalhadores presentes no ato vaiaram massivamente o governador e os pelegos, atirando paus e pedras e expulsando-os do palanque.

Aprendendo com a história
O 1º de maio de 1968 mostrou a importância decisiva das oposições sindicais na luta contra o peleguismo, o governo e o arrocho.

Waldemar Rossi, atual coordenador da Pastoral Operária e dirigente da Oposição Metalúrgica em 68, relembra que a Oposição foi resultado de um movimento de base durante anos, com o objetivo de derrotar a estrutura de direção fascista vigente até então. “Montamos duas oposições, uma em São Paulo e outra em Osasco. A de Osasco foi vitoriosa porque ela já vinha com base nas comissões de Fábricas da Cobrasma, que nasceu em 63, além de outros movimentos. Em São Paulo, perdemos por inexperiência, fomos roubados, mas a idéia avançou e a oposição se formou”, conta.

Quarenta anos após esse evento, no entanto, pouco é lembrado. “O 68 ocorreu porque nós, Osasco e outras oposições vínhamos denunciando o arrocho, que era instituído através dos decretos-leis da ditadura. Formamos então o MIA, Movimento Intersindical Anti-arrocho, mas que aí juntava pelegos, sindicato e oposições. Fizemos o 1º de maio em função disso. Mas os pelegos fizeram a besteira de levar o governador Abreu Sodré para o palanque. A massa vaiou, expulsou ele do palanque e, revoltada com a situação, derrubaram o palanque e atearam fogo. Os pelegos saíram de gatinho e, junto com o Sodré, fugiram para o Sindicato dos Metalúrgicos e aquela imensa massa saiu em passeata por São Paulo protestando contra o arrocho salarial”, conta emocionado Rossi.

Apesar da brutal repressão, as oposições não morreram e tiveram fundamental importância uma década depois, com o ascenso operário. “O movimento se expandiu como brasa, foi ganhando espaço, mesmo com a repressão que fez calar temporariamente, e o movimento foi penetrando em tudo o que é lugar onde há combustível e criando a chama que viria a explodir em 1978”.

E qual o papel colocado para as novas gerações da classe operária, num momento em que, assim como em 68, os principais sindicatos estão tomados pelos pelegos? Waldemar indica o caminho: “trabalhar com todas as forças que se opõem visando a ter um conjunto de atividades em comum, que dever ser, para o movimento sindical, de resgate o trabalho de base, um amplo processo de formação de uma consciência crítica, mas a partir do processo de organização e lutas locais, que vão criando as condições para luta maior”.

1º de Maio de luta
“Pensar na organização de um 1º de maio classista é um exercício de resistência aos desafios políticos e ideológicos que vêm sendo praticado pelas centrais tradicionais. Essas centrais infelizmente passaram para o outro lado, o lado do capital, que quer neutralizar a consciência de luta da classe trabalhadora”, opina Waldemar Rossi.

“Precisamos fazer um 1º de maio que resgate a tradição de luta da classe trabalhadora, esse dia nunca pode perder o seu caráter: independente, classista e internacionalista, e é isso que o 1º de maio da Sé pretende ser”, concorda Paulo Pedrini, também da coordenação da Pastoral Operária em São Paulo e da coordenação do 1º de Maio da Sé.

Do site do PSTU

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Mundo tem mais de 20 milhões de imigrantes latino-americanos

Os números sobre refugiados e imigrantes do Brasil e América Latina; as dificuldades que eles enfrentam e necessidades de mudanças na legislação brasileira foram abordados na tarde deste domingo (27), na mesa “Direitos Humanos, Migrações e Refugiados no Cone Sul”, no Fórum Social do Mercosul. De acordo com dados apresentados pelo Instituto de Migrações e Direitos Humanos (IMDH), de Brasília, os imigrantes latino-americanos somam 20,7 milhões de pessoas em todo o planeta.

A situação mais preocupante, no momento, é a da Colômbia, de acordo com representante da Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

Segundo a professora Rosane Lacerda, uma das coordenadoras do IMDH, dos 20,7 milhões de imigrantes latino-americanos, a maioria absoluta – cerca de 15 milhões – está nos Estados Unidos. Outros 3 milhões de imigrantes se encontram na Europa, Canadá e Japão, e 2,7 milhões estão em outros países da própria América Latina, diferentes dos seus países de origem. “A globalização neoliberal, que gera cada vez mais excluídos, ajudou a ‘engordar’ essas estatísticas”, explicou a professora.

Quando o assunto são os refugiados (pessoas que saem de seus países em razão de conflitos, como guerras ou ditaduras), o quadro na América Latina é, atualmente, de estabilidade, observou o oficial da Acnur, Gabriel Godoy. Exceção se verifica no caso colombiano, informou Godoy. Tanto que a Acnur, no Brasil, tem nos últimos meses voltado suas atenções a ações desenvolvidas nos estados da região Norte do país (Amazonas, principalmente). “A instabilidade na Colômbia tem feito com pessoas procurem o Brasil, na região amazônica, para se refugiar, e a Acnur tem dado atenção especial àquela região.”

Mudanças

Rosane Lacerda, do IMDH, Gabriel Godoy, da Acnur, e a professora Vera Karam, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) – outra participante do debate –, defenderam mudanças na legislação brasileira referente a refugiados e imigrantes no país. “O Estatuto do Estrangeiro (lei 6.815/1980) é do contexto da ditadura militar”, frisou Vera Karam.

A coordenadora do IMDH criticou o fato de o Conselho Nacional de Imigração ser vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego. Para Rosane Freitas, isso é uma demonstração de que a questão de refugiados e imigrantes no Brasil ainda é encarada sob o viés econômico, não social e humanitário. “Por que, por exemplo, o Conselho não passa a ser vinculado à Secretaria Especial de Diretos Humanos”, indagou.

Fonte: Fórum Social do Mercosul

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Para Rafael Correa, Uribe tem pretensões de imperador

O presidente do Equador, Rafael Correa, disse neste domingo (27) que o mandatário da Colômbia, Álvaro Uribe, tem “pretensões de imperador” e pediu que o presidente colombiano “vá mandar na sua casa” porque o Equador “não fará o menor caso”.

Correa disse que Uribe é o único presidente, tanto na Colômbia quanto na América Latina, que chama as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) de terroristas e considerou que ele tenta envolver em sua “política bélica” o restante dos países da região.

“Por favor senhor Uribe, mande na Colômbia, aqui vamos mandar nós, equatorianos. Esqueça daqui, não vamos agüentar nenhum senhor com pretensões de imperador, nenhum governo da América Latina classifica como terroristas as Farc e nenhum governo antes de Uribe”, disse Correa.

O presidente explicou que Uribe tem “pretensões de imperador” porque enquanto o governo anterior do presidente Andres Pastrana iniciou um processo de diálogo com as Farc, ele chegou ao poder com o propósito de aniquilar a guerrilha.

“Antes, Andres Pastrana se reuniu com Marulana, lhes deu um território protegido para as Farc iniciar as conversas de paz e a ninguém sabia que ele estava com as Farc. Vem Uribe, com sua política de guerra e diz: eu vou aniquilar com as Farc e as chamo de terroristas. E agora quero que todo mundo sai a sua política”, disse o presidente equatoriano.

Correa também negou que suas declarações para um veiculo da imprensa venezuelana sobre outorgar status de beligerante às Farc tenham sido “tiradas de contexto”. “Desta entrevista se aproveitaram certos meios de comunicação controlados por Uribe para tirar de contexto minhas palavras. Eu não quero dar explicações ao governo de Uribe e para seus veículos de comunicação, mas sim ao povo equatoriano”, disse Correa.

Ele insistiu que sua declaração foi no sentido de que o Equador deixaria de reconhecer as Farc como um “grupo irregular” para reconhecer como um de “força beligerante”, ou seja, “como um ator político válido” se forem “respeitados os códigos de guerra, que tenham um território controlado e um exército organizado e disciplinado porque são as condições segundo o direito internacional para nominar um grupo subversivo como beligerante”.

“Só assim poderíamos considerá-las [as Farc] como beligerantes, ter uma conversa com elas e procurar uma saída pacifica para essa guerra na Colômbia”, disse Correa.

Fonte: Ansa Latina

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Martin Wolf: o socorro ao Bear Stearns marca limite da liberalização

Martin Wolf

Marque a sexta-feira, 14 de março de 2008: foi o dia em que o sonho do capitalismo de livre mercado global morreu. Por três décadas, nós caminhamos para sistemas financeiros regulados pelo mercado. Com sua decisão de socorrer o Bear Stearns, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), a instituição responsável pela política monetária americana, protagonista chefe do capitalismo de livre mercado, declarou o fim dessa era. Ele mostrou com sua ação concordar com o comentário de Joseph Ackermann, executivo-chefe do Deutsche Bank, de que “eu não mais acredito que o mercado possa se curar sozinho”. A desregulação atingiu seu limite.

Meu julgamento não é se o Fed agiu corretamente ao salvar o Bear Stearns da falência. Eu não sei se os riscos justificavam as decisões não apenas de agir como credor de último recurso para um banco de investimento, mas também de incorporar os créditos de risco nos livros do Fed. Mas as autoridades envolvidas são pessoas sérias. Elas deviam ter motivos para suas decisões. Elas certamente podem apontar para os riscos do momento -uma crise que Alan Greenspan, o ex-presidente do Fed, chama de “a mais violenta desde o final da Segunda Guerra Mundial”- e o papel do Bear Stearns nestes mercados frágeis.

Meu julgamento é mais sobre as implicações da decisão do Fed. Colocando de forma simples, o Bear Stearns foi considerado importante demais para o sistema para falir. Esta decisão foi tomada, é verdade, às pressas, em um momento de crise. Mas momentos de crise são quando surgem novas funções, notadamente práticas associadas à função de credor de último recurso dos bancos centrais, no século 19.

As implicações desta decisão são evidentes: haverá uma maior regulação dessas instituições. O Fed forneceu uma forma valiosa de seguro aos bancos de investimento. De fato, isto já é evidente a partir do que aconteceu com o mercado de ações desde o socorro: os outros grandes bancos de investimento desfrutaram de saltos consideráveis nos preços de suas ações. Este é um risco moral visível. O Fed decidiu que o “ataque” do mercado de dinheiro contra os bancos de investimento é o equivalente a uma corrida aos bancos comerciais para saque de depósitos. Ele concluiu que, por este motivo, é necessário abrir a torneira monetária em prol dessas instituições. Uma maior regulação deve estar a caminho.

Os lobbies em Wall Street vão, é verdade, resistir a uma regulação onerosa de exigências de capital ou liquidez após o término da crise. Eles poderão ter sucesso. Mas, intelectualmente, a posição deles agora é indefensável. Instituições importantes para o sistema devem pagar por qualquer proteção oficial que recebam. Sua capacidade de desfrutar do lado positivo dos riscos que correm, ao mesmo tempo que dividem com a sociedade em geral o lado negativo, deve ser restringida. Isto não é apenas uma simples questão de justiça (apesar de também ser). Também é uma questão de eficiência. Um cassino desregulado, mas subsidiado, não alocará bem os recursos. Além disso, tal subsídio não se aplica agora apenas aos acionistas, mas a todos os credores. Seu efeito é tornar os custos dos fundos irracionalmente baratos. Estes incentivos excessivamente desalinhados devem ser corrigidos.

Eu lamento o fato do Fed ter considerado necessário dar este passo. Eu antes esperava que a securitização transferiria uma parte substancial do ônus dos riscos para fora do sistema bancário regulado, onde os governos não mais precisariam intervir. Isto provou ser uma ilusão. Uma quantidade imensa de empréstimos de risco, quando não fraudulentos, promoveu finanças igualmente arriscadas, tornando os mercados de securitização altamente arriscados. Isto prejudicou as instituições, notadamente a Bear Stearns, que operava intensivamente nestes mercados.

Mas a extensão da rede de segurança do Fed para os bancos de investimento não é o único motivo para esta crise marcar um ponto de virada nas posturas em relação à liberalização financeira. Também contribui a confusão no mercado imobiliário americano (e talvez em breve em vários outros países desenvolvidos). Ben Bernanke, o presidente do Fed, descreveu grande parte das hipotecas subprime (de risco) dos últimos anos como “nem responsáveis, nem prudentes” em um discurso cujos detalhes são de arrepiar os cabelos.* Esta é a forma do Fed de dizer “criminosas e insanas”. De novo, isto não pode acontecer de novo, particularmente considerando que as perdas impostas ao sistema financeiro por estes empréstimos poderão ser enormes. O colapso no preço dos imóveis, o aumento da inadimplência e as execuções hipotecárias afetarão milhões de eleitores. Os políticos não ignorarão seus apuros, mesmo se o resultado for um socorro oneroso aos imprudentes. Mas depois certamente haverá uma maior regulação do que hoje.

Se os Estados Unidos ultrapassaram a marca da desregulação financeira, isto terá implicações globais imensas. Até recentemente, era possível dizer aos chineses, indianos ou à aqueles que sofriam crises financeiras significativas, nas duas últimas décadas, que existia um sistema financeiro tanto livre quanto robusto. Agora não há mais. Será difícil persuadir estes países de que os fracassos no mercado experimentados nos Estados Unidos e em outros países de alta renda não são um alerta. Se os Estados Unidos, com sua vasta experiência e recursos, foram incapazes de escapar dessas armadilhas, por que, eles perguntarão, nós devemos esperar que nos sairemos melhor?

Estas implicações de longo prazo para as posições em prol de mercados financeiros desregulados estão longe de ser o único motivo para a presente turbulência ser significativa. Nós ainda precisamos superar a crise imediata. Um colapso nos lucros financeiros (muito importantes na economia americana), um crash no preço dos imóveis residenciais e um grande aumento nos preços dos commodities são uma combinação que provavelmente gerará uma recessão longa e profunda. Para lidar com este risco o Fed já reduziu suas taxas de juros de curto prazo para 2,25%. Enquanto isso, o Fed também corre o risco de uma fuga global das obrigações denominadas em dólares e um ressurgimento da inflação. É difícil ver um motivo para o rendimento dos títulos do Tesouro americano serem tão baixos, fora um desejo de possuir obrigações do Tesouro americano, o emissor dos títulos denominados em dólar mais seguros.

“Alguns dizem que o mundo acabará em chamas, alguns dizem que em gelo”, Kenneth Rogoff, de Harvard, citou recentemente as palavras de Robert Frost ao descrever os riscos da ruína financeira (fogo) e da inflação (gelo) diante de nós.** Estes são tempos perigosos. Também são tempos históricos. Os Estados Unidos estão mostrando os limites da desregulamentação. Administrar esta mudança inevitável, sem jogar fora o que foi conquistado nas últimas três décadas, é um desafio imenso. Assim como passar incólume pela desalavancagem à frente. Mas devemos começar pelo lugar certo, ao reconhecer que mesmo o passado recente é uma terra estrangeira.

*”Promovendo uma Propriedade Sustentável de Imóvel”, 14 de março de 2008, www.federalreserve.gov; **Globalização e Política Monetária, 7 de março de 2008, uma conferência sobre globalização, inflação e política monetária, www.banque-france.fr

Fonte: Financial Times

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Comissão pode votar garantia para organização estudantil

A Comissão de Educação e Cultura tem reunião na quarta-feira (30) e pode votar o Projeto de Lei 6993/06, do deputado Rubens Otoni (PT-GO), que assegura a liberdade de organização das entidades estudantis nas escolas. A proposta altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (9.394/96).

As escolas que não obedecerem à determinação, de acordo com o projeto, poderão perder a autorização de funcionamento. A relatora, deputada Alice Portugal (PCdoB-BA), recomenda a aprovação do projeto, mas é contra a sanção prevista. Ela apresentou substitutivo no qual determina ainda que apenas estudantes emancipados poderão participar de conselhos escolares. “Trata-se de um cuidado que a própria regulamentação do Fundeb teve de adotar, uma vez que a participação em conselhos implica responsabilidade civil pelos atos e decisões administrativas tomadas”, explica a parlamentar.

Agência Câmara

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Dívida externa fica em R$ 203 bilhões em março

Kelly Oliveira
Repórter da Agência Brasil

Brasília - A dívida externa total estimada para março chegou a US$ 203 bilhões, um aumento de US$ 4,6 bilhões em relação à posição de fevereiro. Os dados são da nota do Setor Externo, divulgada hoje (28) pelo Banco Central.

De acordo com o BC, desse total, US$ 162 bilhões correspondem à dívida de médio e longo prazos e US$ 40,9 bilhões à de curto prazo. Na comparação com o mesmo período do ano passado, houve alta de US$ 1,7 bilhão e de US$ 2,9 bilhões, respectivamente.

Agência Brasil

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Déficit nas transações do país com o exterior em março é o maior da série histórica

Kelly Oliveira
Repórter da Agência Brasil

Brasília - O resultado negativo do saldo em transações correntes (todas as movimentações do Brasil com o exterior), no mês de março e no trimestre, de US$ 4,429 bilhões e US$ 10,757 bilhões, respectivamente, foi o maior para esses períodos desde o início da série histórica do Banco Central, de 1947. A projeção do Banco Central é de que em abril o déficit chegue a US$ 2,8 bilhões e, no ano, a US$ 12 bilhões. A próxima revisão de projeções do Banco Central será feita em junho.

De acordo com o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, esse resultado é influenciado, principalmente no mês de março, pela redução do saldo comercial (exportações menos importações) e pelo aumento das remessas de lucro e dividendos de empresas estrangeiras no Brasil para o exterior.

Segundo Lopes, o crescimento das remessas ao exterior – no valor de US$ 8,662 bilhões no trimestre, bem maior dos que os US$ 3,965 bilhões registrados no mesmo período do ano passado – ocorre devido à apreciação do real frente ao dólar, o que torna o valor enviado mais elevado. Outro fator é o aumento do estoque de Investimento Estrangeiro Direto e em ações, ou seja, as empresas estrangeiras investem, têm lucros e enviam para o exterior. “Quando se tem uma economia crescendo de forma significativa, você tem uma rentabilidade expressiva e isso leva a mais remessas.”

Lopes citou ainda que, com a crise na economia internacional, as empresas estrangeiras no Brasil remetem recursos para cobrir dívidas no exterior. “Os setores que mais remetem são financeiro, automotivo e metalúrgico. Os dois primeiros têm uma rentabilidade expressiva na economia doméstica e têm enfrentado dificuldades mais pronunciadas no exterior. Portanto, há nesse processo a possibilidade de remessas para cobertura de necessidades de recursos no exterior”.

Lopes explicou que esse déficit é coberto pela entrada de Investimento Estrangeiro Direto (IED) no Brasil, que no primeiro trimestre do ano chegou a US$ 8,799 bilhões. Segundo ele, as empresas multinacionais que investem no Brasil são também as que mais remetem recursos ao exterior.

Para o chefe do Departamento Econômico do BC, não é arriscado depender do capital externo para financiar o déficit em transações correntes. “Já vivenciamos coisas expressivamente piores: déficit de transações correntes insustentáveis e sem fluxo de recursos. Hoje, temos déficits perfeitamente sustentáveis e financiáveis. A economia brasileira atingiu um patamar de atração de recursos sustentáveis que é muito importante. Por mais que se tenha resultado deficitário, você tem uma fonte de financiamento assegura”.

Agência Brasil

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Vídeos das Manifestações Estudantis na França - Maio de 1968

Mai 68 : la révolution en images

Mai 68

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Pais sem rumo, crianças sofridas

Filhos não têm como se defender da displicência, dos excessos ou da irresponsabilidade dos pais

Maria Rita Kehl* - O Estado de S.Paulo

- No momento em que escrevo este artigo ainda não há conclusões definitivas sobre o assassinato da menina Isabella. Mas desde o primeiro dia a sociedade já havia decidido condenar o casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá. Aos poucos a indignação popular aumentou, orquestrada inescrupulosamente pelos telejornais em disputa por audiência, até se transformar em pura sanha linchadora.

Não me disponho a tentar explicar o que teria levado um pai e uma madrasta a assassinar, ainda que acidentalmente, uma criança, e depois livrar-se do corpo de maneira tão brutal. Fora da clínica e da transferência, o psicanalista é tão leigo quanto qualquer pessoa ante os sintomas e surtos alheios. O que a experiência clínica oferece são algumas chaves para a compreensão das condições subjetivas presentes em uma sociedade, que favorecem certas manifestações aberrantes, violentas e aparentemente incompreensíveis.

Como entender essa torcida em massa para que o pai e a madrasta de Isabella sejam os culpados? Em primeiro lugar, penso que diante dos crimes domésticos as pessoas se sentem menos inseguras do que diante do fantasma da violência social generalizada que assola o país. “Se o crime foi cometido em família, isso é lá problema deles”, pensamos, na esperança de que em nossa família essas coisas não aconteçam. Em segundo lugar, a família de Isabella pertence à mesma classe média dos consumidores de jornais e revistas, público alvo dos anunciantes da televisão. No dia 20 de abril, um menino negro de 11 anos foi morto com um tiro na cabeça na favela da Vila União, em São Paulo. Até agora, não vi a imprensa acompanhar a apuração do assassinato do pequeno Jefferson Alves, considerado desinteressante pela sociedade.

É evidente que a figura mitológica da madrasta excita a imaginação popular. A personagem da madrasta má, nas histórias infantis, encobre o lado sombrio da mãe. É ela quem encarna o egoísmo, a rivalidade, a crueldade ou o descaso para com o sofrimento das crianças, de modo a manter a idealização da maternidade biológica e conservar a santa mãe em seu pedestal. No entanto, qualquer psicanalista sabe o quanto as mães são capazes de abusar de seus filhos, rivalizar com suas filhas, violentar a dignidade deles, desrespeitar seus direitos.

O colunista da Folha de S. Paulo Contardo Calligaris fez uma análise interessante sobre o ciúme que algumas madrastas sentem de suas enteadas, disputando com elas o lugar de filhas de seus companheiros. Vale lembrar que a presença do (a) enteado (a) também pode reavivar os ciúmes da madrasta em relação à mulher que a precedeu. Mas nem todas as madrastas odeiam seus enteados. Conheço casos, em meu próprio consultório, em que a presença e a intervenção de madrastas generosas e sensíveis praticamente salvou a infância de filhos maltratados ou abandonados por mães imaturas, que se vingavam do ex-marido maltratando os filhos dele. Evito embarcar em uma defesa conservadora da família “de sangue” em detrimento de outras configurações familiares.

Os crimes domésticos colocam em evidência o desamparo infantil. As crianças não têm como se defender da displicência e da irresponsabilidade dos pais, nem dos excessos de amor, de sensualidade, de ira, de gozo: pais, mães, padrastos, madrastas, avôs e avós abusam de várias maneiras, “por amor”, de crianças indefesas. Neste sentido, para a criança, a família não é um ambiente tão seguro quanto se imagina. Pesquisa da Unicef sobre a violência doméstica no Brasil revela que 44,3% dos homicídios de crianças ocorrem dentro de casa, sendo 34,4% deles cometidos por parentes das vítimas. Sem contar os casos de abuso sexual, que ocupam o primeiro lugar na lista das formas de violência familiar.

É evidente que existem famílias tranqüilas, pais e mães equilibrados e protetores. Mas a família moderna, fechada sobre si mesma, toda voltada para a produção de bem-estar, fundada nas formas mais egoístas de amor, é um canteiro propício, no mínimo, à violência psicológica. Os filhos frustram as expectativas dos pais, o amor vira moeda de barganha e chantagem mútua, a esperança de entendimento de parte a parte é freqüentemente obstruída pela culpa que cada um sente por não amar o outro tanto quanto devia.

Apesar disso, não existe nenhuma outra instituição que a substitua. Desejamos formar família, viver em família, criar condições de convívio protetoras, agradáveis. Mas é bom lembrar que se a família, em seus moldes tradicionais, fosse um mar de rosas, Freud não teria criado a psicanálise.

Se a criança é desamparada frente aos que cuidam dela, os adultos de hoje também se sentem desamparados no exercício de suas funções. A vida contemporânea está tão privatizada, tão indiferente a valores ligados ao bem comum, a sociedade tornou-se tão narcisista e infantilizada, que o bem-estar das crianças se tornou praticamente o único ideal dos adultos. Ser “bom pai” tornou-se a razão de viver de adultos que perderam as referências para saber tanto o que é ser “bom” quanto o que é ser “pai” (ou “mãe”). Se os filhos se tornam o único ideal de seus pais, estes não têm mais nada a lhes transmitir a não ser “seja feliz” - isto, numa sociedade em que felicidade se mede pela capacidade de consumo e diversão.

O desamparo do adulto diante das exigências dos filhos, a quem eles próprios prometeram dar “tudo de bom e de melhor”, tem resultados patéticos ou, no pior dos casos, trágicos. Algumas crianças, hiperestimuladas e excitadas, ficam cada vez mais insatisfeitas e agressivas enquanto os pais, incapazes de estabelecer limites para a farra que eles mesmos prometeram, vivem exasperados, culpados, impotentes - e às vezes, tão fora de controle quanto os pequenos. Um adulto que se vê incapaz de educar uma criança é capaz de confundir autoridade com violência, poder simbólico com coerção física.

Vez por outra, um desses pais incapazes de colocar limites em seus filhos também corre o risco de perder os próprios limites.

* Maria Rita Kehl, psicanalista, escreveu Sobre Ética e Psicanálise (Companhia das Letras) e Ressentimento (Casa do Psicólogo), entre outros

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Globalizai-vos!

PS francês revê seu ideário e sepulta a esperança revolucionária em troca das promessas do mercado

Andrei Netto - O Estado de S.Paulo

- As esperanças revolucionárias morreram - ao menos para o mais importante segmento do eleitorado francês que ainda as nutriam. O último sopro da luta de classes marxista que sobrevivia no ideário do Partido Socialista (PS) francês se esvaiu nesta semana, após 18 anos de sobrevida. O atestado de óbito - ou a nova Declaração de Princípios - foi apresentado ao público pela cúpula do PS, na terça-feira, em Paris, e marca a oficialização das convicções sociais-democratas de um dos mais importantes partidos políticos progressistas do Ocidente. Reescritos pela quinta vez em sua história secular, os cânones socialistas agora ignoram expressões plenas de significados no século 20, como “revolução”, “propriedade coletiva dos meios de produção” ou “operariado”. Em seu lugar, constam “desenvolvimento sustentável”, “economia mista”, “dinamismo privado”, ambientalismo e novas tecnologias.

A Declaração de Princípios pode ser entendida como a matriz do pensamento no Partido Socialista francês. Fundada em 1905, na efervescência dos movimentos intelectuais e trabalhistas que fervilhavam na Europa de então, a Seção Francesa da Internacional Operária (SFIO), gênese do PS atual, havia sido reformada em seus pilares ideológicos na esteira de quatro grandes eventos sociais do século 20: a ascensão dos movimentos operários, a 2ª Guerra Mundial e os primeiros sinais da Guerra Fria, as revoltas estudantis e trabalhistas de maio de 68 e a queda do Muro de Berlim, em 1990. Essa linha do tempo deixa um traço que se esvai: a fé na revolução. Dezoito anos depois da queda do comunismo real, vem à tona a ruptura entre os socialistas franceses e a transformação radical. O cenário, agora, é a globalização.

Os atuais 22 artigos da declaração trazem, cada um, o peso da história. Em 1905, o documento exprimia o desejo de mudança radical. “O Partido Socialista é um partido de classe que tem por objetivo socializar os meios de produção e de troca, ou seja, transformar a sociedade capitalista em uma sociedade coletivista ou comunista.” Hoje, 103 anos depois, “o sistema desejado (…) é de uma economia mista, combinando um setor privado dinâmico, um setor público com serviços de qualidade e um terceiro setor de economia social”.

Entre um e outro momento, o que se constata é o declínio - até a extinção - do apego revolucionário e sua substituição pela ambição da reforma. “O Partido Socialista é um partido reformista” define, com todas as letras, o artigo 13 das novasdisposições. “Ele não considera as relações de força de um momento como irremovíveis ou insuperáveis.” Este é o trecho no qual o texto mais se aproxima da idéia de “luta de classes”, que já não constava dos dogmas de 1990.

Publicado nesta semana para ser homologado na convenção do partido em junho, o documento mantém a crítica ao capitalismo, “criador de desigualdades, portador de irracionalidades, fator de crises que persistem até hoje, na era da globalização dominada pelo capitalismo financeiro”. O discurso, de matizes keynesianos, prega uma “sociedade nova, que ultrapasse as contradições do capitalismo”, mas em lugar da apologia à superação do sistema baseado na propriedade privada a proposta é a conciliação: “Os socialistas são partidários da economia social e ecológica de mercado, uma economia regulada pelo poder público, como também pelos parceiros sociais”.

O PS prega agora a renovação do “Estado social” - terminologia forjada pela social-democracia alemã -, realizável por meio da reforma, cautelosa, do Estado de bem-estar social. “Este privilegia o investimento produtivo em detrimento da renda. Assegura a seguir proteção contra os riscos sociais. E repousa sobre a redistribuição. “O Estado”, diz agora o texto, “deve ser regulador para conciliar a economia de mercado, a democracia e a coesão social”. E agrega: para que possa “privilegiar a educação, a pesquisa, a inovação e a cultura”.

Neste modelo, o crescimento deve ser baseado no princípio do desenvolvimento sustentável. Um dos primeiros objetivos do partido, assegura a declaração, é a “emancipação completa da pessoa humana e a salvaguarda do planeta”. Ambientalismo e defesa da inovação tecnológica são, aliás, temas recorrentes no texto, a ponto de novíssimas - e controversas - ciências serem citadas. “A expansão tecnológica, o desenvolvimento das nano e biotecnologias e da engenharia genética despertam questões essenciais para o futuro da humanidade.”

A nova matriz de pensamento socialista também preserva algumas antigas bandeiras, introduzidas por líderes históricos da esquerda ao longo do século 20, como Jean Jaurès e Léon Blum. São metas como pacifismo, internacionalismo, solidariedade para com países subdesenvolvidos, defesa dos direitos humanos, Estado laico e o pilar da França moderna, a República.

Embora consensual entre membros da cúpula do partido, o texto despertou duas polêmicas internas. A primeira, ao defender — pela primeira vez de forma franca - a União Européia. “O PS é um partido europeu”, enfatiza, para desgosto dos partidários do “não” à constituição européia, recusada pelos franceses em referendo realizado no ano de 2005. A segunda polêmica, na verdade, levou ao reconhecimento do feminismo, até hoje ignorado nos estatutos. Um novo parágrafo 14 foi escrito para aplacar antigas mágoas: “O PS é feminista e age em favor da emancipação das mulheres”.

Ao desfraldar a bandeira da reforma e sepultar os ossos da revolução, o partido quis emitir uma mensagem clara. “A nova declaração avança ao incorporar idéias e práticas do PS quando está no poder. Somos hoje um partido socialista reformista, que usa o poder para transformar”, reafirmou ao Estado Alain Bergonioux, historiador, secretário nacional da agremiação e um dos dois autores do texto. “Era preciso dizê-lo sem ambigüidades.”

Bergonioux acredita que seus contemporâneos de partido fizeram um inventário ideológico para encarar o século 21. Sustenta que a idéia de transformação social não está em contradição com a idéia de mercado, a ponto de negar qualquer incongruência conceitual entre “socialismo” e “propriedade privada”. “Há muito tempo renunciamos à revolução”, admite François Hollande, secretário-geral do partido, citando o presidente socialista François Mitterrand, eleito nos pleitos longínquos de 1981 e 1988. Abatido pela ausência de uma liderança clara e por derrotas em três eleições presidenciais sucessivas - uma delas no trágico abril de 2002, no qual Lionel Jospin obteve 16% do eleitorado - o primeiro desafio do PS com seu novo ideário será reconquistar corações e mentes na França. Tarefa dura. Se a esperança revolucionária de fato desapareceu, resta agora ao partido demonstrar quais são as propostas práticas da esperança reformista. Antes que vire desilusão.

O Estado de S. Paulo - 27/4/08

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