Maurício Segall
Novos Estudos Cebrap, V. 1, N. 2, 1982,
pgs.: 18- 26 (125)
Só mesmo uma razoável dose de irritação me levaria a perturbar um evento cultural nosso, sobretudo em cinema e teatro, cujas vicissitudes são do conhecimento público. Mas, como a fita Eles Não Usam Black-Tie já deu na bilheteria o que tinha que dar, e como não tenho a pretensão de “fazer a cabeça” das pessoas e, finalmente, porque discordo radicalmente de algumas colocações da fita, aceitei o convite para escrever este artigo, pressupondo que o leitor já tenha assistido a ela.
Não se trata de uma critica, para o que seria incompetente, mas sim uma espécie de denúncia do que eu considero ser uma manipulação e/ou mistificação política.
0 fato é que se a peça Black-Tie, escrita em 1955 e estreada em 1958, representou um marco da dramaturgia nacional, a fita ,Black-Tie não é um marco da nossa cinematografia. E se é certo que Gianfrancesco Guarnieri cresceu a partir desta sua primeira peça escrita aos 2 1 anos de idade e nos deu, entre outras, a madura A Semente, Leon Hirszman nem de longe, a meu ver, consegue atingir o nível de suas fitas anteriores, como por exemplo São Bernardo, baseado na . obra de Graciliano Ramos.
Por outro lado no entanto a fita tem obtido um razoável sucesso de público. No caso, creio que a explicação não é complicada. Entre outras razões, me parece, em primeiro lugar, que ela é correta e seu artesanato e carpintaria estão à altura do talento e experiência do seu diretor e, portanto “funciona”.
Além disso, responde ao clima de descontentamento generalizado contra os donos do poder e do dinheiro. Três: o alto nível de algumas interpretações. Quatro: a fita “maneja” de forma competente os seus componentes fáceis, inclusive as cenas de sexo e nudez. Maria, peladinha da silva, pergunta a Tião - “gosta?”. Não sei se ele gostou, mas eu, certamente, sim.
Em quinto lugar, como se sabe, a mani¬queização sempre fatura, pois simplifica de forma esquemática aquilo que nem sempre é facilmente compreensível. Em sexto, a obrigatória repercussão dos numerosos A . que recebeu, não obstante estes freqüentemente serem fruto de uma “politização” indevida.
DA PEÇA À FITA
ou “uma adaptação ou uma avacalhação?”
A comparação da peça e da fita é necessária para apontar as modificações (e não simplesmente adaptações) que resultaram objetivamente numa evidente manipulação política.
Para inicio de conversa, a fita conseguiu enfraquecer a peça. Isto decorre, a meu ver, principalmente do agravamento qualitativo da desumanização (e/ou maniqueização e/ou moralização e/ou dogmatização) que alguns dos personagens da peça já apresentavam em grau incipiente e da introdução na fita de novos personagens totalmente esquemáticos.
A exceção à regra vai por conta do personagem Romana que mantém, em boa parte, a dosagem humana que a peça lhe conferia. O Otávio da peça era um operário sem qualificação, habitante de barraco no morro, cuja energia de luta e consciência política se situavam ao nível espontâneo. Como tal, era um personagem muito mais contraditório (humano, portanto) do que o Otávio da fita, que SABE TUDO, sobretudo o que quer e precisa a classe operária.
Na fita, ele é um operário com casa própria na periferia de São Paulo e é retratado como uma espécie de “irmão” mais velho encarregado de zelar pelos “irmãos” menores - bem intencionados, impulsivos, “porras-loucas”.
A cena da fita na qual Otávio, voltando da prisão, recomenda a Bráulio - “não sai de perto do Italiano (Santini), não deixa ele fazer besteira”, ilustra bem este pater¬nalismo.
O mesmo pode-se dizer de Bráulio, que, na fita, é um alter ego de Otávio. Sem falar que, para os fins colimados pela fita, como veremos adiante, Bráulio é assassinado no piquete, o que não acontecia na peça.
O personagem Tião é completamente adulterado. Importante salientar que, na fita, Tião vê o pai ser preso e pouco se incomoda, havendo uma tendência clara de colocar o personagem nas fronteiras do mau-caratismo, o que não acontecia nem de longe na peça.
Através do personagem Tião, tanto a peça como a fita abordam o problema “fura-greve”. Na fita, porém, este é tratado com acentuado maniqueísmo e moralismo, o que já ocorria na peça, mas de forma muito mais matizada. A fita chega a associar fura-greve com delator, o que a peça nem insinuava.
Ao introduzir o “dedo-duro” na fita (que não existia na peça, pois ali Jesuíno era muito mais tímido que o próprio Tião e em nenhum momento falava em delatar), ela o faz de forma caricata. O homem é mau, inclusive nas caretas.
Na peça, a greve, ou pelo menos sua mobilização, foi vitoriosa (só dezoito operários, entre os quais Tião, a furaram), enquanto na fita a greve aborta, pois praticamente todos entram para trabalhar, a despeito do esforço dos minguados piquetes.
No entanto, a fita escolhe apenas Tião’ para fura-greve. Só porque é filho de Otávio, apesar de ficar claro, tanto na peça como na fita, não ser ele politizado nem conscientizado (ressalvando que isto se deu por ter sido educado fora de casa e longe do “Pai-herói”, portanto).
Na verdade, a fita agrava o moralismo que a peça já dedicava ao fura-greve. Fura-greve é um filho-da-puta e ponto final. Como se não existissem alguns direitos como ao medo, o direito à insegurança. o direito a um certo egoísmo, em contraponto aos deveres evidentes de solidariedade e de companheirismo. Isto não só é uma simplificação, como também é uma moralização do tipo “realismo socialista” deturpado.
Na personagem Maria, a maniqueização é evidente. Na peça, ela era cheia de cinzas - os cinzas peculiares aos seres humanos -, mas na fita inicialmente é branco (apaixonada e inconsciente) e depois é preto (heroína operária, consciente e sem mácula, mas cheia de ódio).
O fato é que, na peça, Maria rompia com Tião não porque ele traiu, mas sobretudo porque as raízes dela estavam no morro e ela era apegada a sua gente. Além disto, ela abria a perspectiva da volta de Tião.
Aliás, todos o faziam, inclusive João, o irmão de Maria. já na fita ela só falta cuspir bala em Tião quando brada – “Tião, você ficou sendo merda viva”. A fita, aliás, altera de forma sutil a expulsão de’ Tião de casa. No fim da peça Otávio dizia a Romana - “Enxergando melhor a vida, ele volta” -, dando conteúdo humano ao problema, enquanto a fita confere caráter irrevogável e moralista à expulsão.
Sem falar da criação na fita do personagem Santini (o Italiano), que personifica o “porra-louca” e cuja importância na sua manipulação e tão grande que tratarei dele adiante. Poderia apontar ainda outros exemplos, como a substituição de João (irmão de Maria e personagem moderador. na peça) pelo pai de Maria, com resultados moralistas dentro da ótica burguesa “o trabalho dignifica o homem”.
Há ainda a introdução de cenas policialescas na fita, evidentemente para demonstrar a insegurança da vida na periferia, mas sobretudo para torná-la mais “cinematográfica”. Cabe perguntar por que então não introduzir também seqüências, tão ou mais cinematográficas e certamente mais afins como a temática da fita, sobre o trabalho de organização da classe trabalhadora, da qual a fita tanto fala, de cenas de assembléias no sindicato e, last but not least, cenas apresentando a figura maquiavélica do “pelego”.
Finalmente, a fita, de forma meio subliminar mas inequivocamente, desestimula a greve como principal instrumento de luta dos trabalhadores, ao contrário do que se fazia na peça. Creio que estas e outras “alterações”, e não “adaptações”, são significativas e intencionais. Mas por que estas modificações apareceram desta forma? Por acaso? Creio que não. É o que procuro demonstrar a seguir.
UM POUCO DE HISTÓRIA
ou “diga-me com quem andas
e direi quem és
Após a primeira era getuliana (a partir de 1945), o movimento operário organizado entre nós pode ser dividido grosso modo em grandes grupos: o dos pelegos (lideres amarelos, ou seja, testas-de-ferro do Governo e dos patrões), e de outro, o das forças progressistas.
Até 1963, estas últimas se aglutinavam sob a hegemonia do Partido Comunista, sendo pouco expressivas algumas outras correntes, entre as quais as trotskistas. No período 1945-1963, as forças progressistas conquistam a direção da maioria dos sindicatos importantes, encastelando-se os pelegos sobretudo nas federações e confederações
Em 1964, todas estas lideranças progressistas são substituídas manu militari por pelego-mor, o Joaquinzão, inicialmente como interventor no Sindicato dos Metalúrgicos de Guarulhos e, logo após, em 965, sua “eleição” para a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, rgo no qual permanece até hoje.
Inicia-se então um longo período de estagnação, sobretudo entre 1968 e 1975, o movimento operário, dada a violenta repressão exercida pela ditadura militar. Em seguida, e por razões que transcendem os limites deste artigo, inicia-se um lento período de desafogo. Começam a aflorar diversas tendências novas, algumas provindas da clandestinidade e outras de cunho espontâneo e sem base doutrinária.
Estas últimas surgem no bojo da estrutura sindical vigente, mas ultrapassam os limites da outorga oficial e começam a defender efetivamente os interesses das suas categorias, assumindo posturas independentes e corajosas. São as assim denomina¬das lideranças autênticas, e das quais Lula e seus companheiros de São Bernardo são os mais conhecidos exemplos.
As inúmeras tendências progressistas organizadas, oriundas dos rachas e sub-rachas pós- 1963, começam a ocupar espaços no movimento operário. Pode-se afirmar que, a partir de 1974, de um lado estavam sobretudo o PCB e os adeptos da Hora do Povo e, de outro, um bloco, nem sempre unido, freqüentemente com divergências sérias, onde, ao lado das lideranças autênticas de cunho não doutrinário, apresentava-se um arco-íris de tendências (trotskistas, marxista-leninistas ortodoxos ou não, cristãos, independentes etc.), reunidas chamadas oposições sindicais.
Pode-se afirmar também, que, grosso modo, o PCB e, posteriormente, os adeptos da Voz da Unidade (após o racha não oficializado dos prestistas e seus próximos) continuaram desenvolvendo a política já tradicional do conchavo com o peleguismo, com o fito de ocupar posições na cúpula sindical, dentro da orientação ado¬tada pela assim chamada “Unidade Sindical”.
O esforço tático do PCB parece ser assim o de chegar ao controle da classe operária, com a justificativa doutrinária discutível de representar sua vanguarda, procurando sempre impedir sua autonomia e em frear aquelas lutas que perturbem a conciliação e o conchavo.
Tá as oposições sindicais e as lideranças autênticas, não obstante suas divergências, se colocavam num quadro francamente antipelego e antiestrutura sindical vigente (os autênticos, num segundo momento, como resultado de um rápido processo de conscientização política), chegando em alguns casos a admitir a hipótese do plurissindilismo.
Ao contrário da “Unida de Sindical”, para quem a defesa intransigente dos sindicatos que ai estão é questão fechada, o que dá certa coesão àquele bloco é sua convicção de que o fundamental é conscientizar e organizar a classe trabalhadora em torno de suas lutas concretas (não aventuras irresponsáveis) e não através da conciliação, e, sobretudo, a preocupação de assegurar sua autonomia e independência.
As diversas tendências abrigadas pelas oposições sindicais de São Paulo nem sem¬pre caminharam unidas. Em 1975, houve unidade. Em 1979, durante a greve, houve sérias divergências quando, por exemplo, o mártir operário Santo Dias chegou a prever seu fracasso, mas nem por isso deixou de acatar a maioria da assembléia que a prolongou.
A partir de 1981 houve nova unidade tática quando, após a retirada, no segundo escrutínio, da chapa 3 em favor da chapa 2, a Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo por pouco não derrota o pelego Joaquim nas eleições do sindicato, tendo este se salvado apenas pelo voto dos aposentados e devido ao apoio dos- adeptos da “Unidade Sindical”.
O PANO DE FUNDO DA FITA
ou “de como a cor da lente
altera a paisagem”
Guarnieri, desde menino vivendo o clima das lutas progressistas do país, escreveu sua primeira peça - Black-Tie - em 1955, sob o impacto das numerosas greves de 1952 em todo o país, que envolveram perto de 1 milhão de grevistas. Sob o impacto da histórica e vitoriosa greve geral de 1953, sob o impacto das repercussões do suicídio de Getúlio Vargas e de sua carta-testamento em 1954, e durante a campanha presidencial desenvolvimentista de JK em 1955.
Por outro lado, a peça foi escrita ainda em plena era “stalinista”, apenas um ano antes das denúncias de Kruschev no XX Congresso do PCUS. Saliente-se que a greve geral de 1953, liderada pelo PC, pelas sua fantástica mobilização, pela conquista de certas melhorias, e pelo cunho espontâneo de base que por vezes assumiu, pode ser considerada como vitoriosa.
Em 1980 Hirszman roda a fita Black-Tie, numa adaptação escrita em 1979 e 1980 por ele e pelo próprio Guarnieri. Ela é portanto concebida após os incríveis movimentos operários de 1978 iniciados no ABC, que culminaram com a greve dos 300.000 metalúrgicos de São Paulo.
O roteiro da fita, evidentemente, sofre o efeito do refluxo conjuntural de 1979. Mas, por outro lado, sua filmagem se dá ainda sob pleno impacto oposto das movimentadas greves de 1980 do ABC. Com uma mobilização contínua de fazer inveja a qualquer movimento operário do mundo inteiro, culminando com a passeata dos 100.000 no 1º de maio e a tomada efetiva da praça pública pela massa, não obstante o aparato de repressão.
A fita foi rodada ainda antecedendo de um ano a quase tomada do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, conforme já apontamos acima, ou seja, foi escrita quando existiam as condições objetivas para esta quase vitória, quando ficou claro, que a maioria dos operários das fábrica (não aposentados) era favorável às oposições contra o pelego.
Em decorrência, pode-se afirmar que, assim como a partir de 1946 o movimento operário brasileiro, estagnado nos anos do Estado Novo, entrou em lenta ascensão, também em 1974, após os dez anos de estagnação durante o período mais ferrenho da ditadura militar, iniciou uma lenta e gradual ascensão, chegando no final da década de 70 a momentos de verdadeira euforia.
Creio não ser inverídico afirmar que se assiste também, desde então, a um lento mas efetivo processo de erosão das lideranças pelegas e da própria estrutura sindical, pois multiplicam-se os movimentos operários mais ou menos ao arrepio da lei e em desafio à hierarquia sindical.
Só no segundo semestre de 1981, quando a fita já estava rodada, assistimos a um arrefecimento sensível da mobilização operária nas fábricas, sobretudo devido o espectro do desemprego.
Não obstante, alguns acontecimentos - o “não” à Volkswagen, algumas paralisações de solidariedade aos líderes condenados do ABC, as ocupações de terra em todo país, as eleições no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo etc. - indi¬cam claramente que restou forte saldo organizativo e de conscientização dos movimentos anteriores, podendo-se presumir que a resultante do ascenso continua positiva.
É neste quadro, esquematicamente apresentado, que as intenções da fita têm dê ser avaliadas.
O TEOR POLÍTICO DA FITA
ou “quem não manipula
se estrumbica”
A fita focaliza a ação numa greve real e derrotada. A greve dos metalúrgicos de São Paulo em 1979 foi decretada numa assembléia com boa participação de massa, mas, por diversos motivos, entra rapidamente em descenso e é aí artificialmente prolongada pela ação coordenada de uma reduzida massa de piqueteiros. Estes, em certos momentos, chegam a verdadeiros confrontos com as lideranças das oposições sindicais, cuja hesitação, na prática, deixou o movimento acéfalo.
Com isto, a derrota foi hipertrofiada, sem falar na trágica morte de Santo Dias. Tudo isto ocorrendo com a conivência passiva do pelego e seus apoiadores, a fim de tirar proveito da derrota inevitável da greve. Mas a fita transcende este fato isolado, e já que, num momento de mobilização, não abre nenhuma perspectiva, acaba por generalizar e fomentar, na prática, o pessimismo e o derrotismo.
Para chegar a isto, a fita não “adaptou” a peça. “Atualizou-a” com a pretensão indiscutível de dar uma “aula” política e moral a certos setores do movimento operário. Acaba assim, nem que seja por coin¬cidência, propagandeando, justificando e defendendo “subliminarmente” a linha política daquelas forças conciliatórias aliadas aos pelegos e que se aglutinam na “Unidade Sindical’ . Sobretudo no que se refere ao “fortalecimento” da estrutura sin¬dical que aí está.
Não estou sugerindo que a “Unidade Sindical” tenha teleguiado a fita. Pouco sei do que pensam hoje Guarnieri e Hirszman da conjuntura político-sindical do país e qual seu relacionamento político-partidário. Afirmo apenas que há muitas semelhanças entre a “pregação” da fita e a pregação da “Unidade Sindical”.
A fita “usa” a greve de 1979. Desde já, cabe indagar por que escolheu esta derrota e não, por exemplo, as vitórias mobilizadoras de 1978. Afinal de contas, a peça contava a história de uma vitória, refletindo as mobilizações de 1953. Nada mais lógico que se “adaptasse” a peça localizando sua ação nas estimulantes mobilizações de 1978, ou, melhor ainda, nas grandes mobilizações de 1980 no ABC.
Na fita, a greve é desagrada, segundo Otávio e Bráulio, por um golpe desta nova categoria “científica” do movimento operário brasileiro, os “porras-loucas” - sinônimo de. extremistas de esquerda, conforme o diretor Hirszman. A fita parece querer dizer que existem apenas três categorias no nosso mundo operário: os “fura-greves” (identificados como, delatores e retratados por Tião), os “porras-loucas” (retratados por Santini) e os “bons” (retratados por Otávio e Bráulio).
Esquece assim, de um lado, os pelegos e os “porras-loucas” de direita, e, de outro, a principal categoria - a massa e suas lideranças representativas.
Fala-se muito da massa operária na fita, mas em nenhum momento ela efetivamente aparece, a não ser paradoxalmente, para furar a greve. A peça, mesmo escrita ainda em pleno período “stalinista”, não delineava tão mecanicamente a essência do movimento operário entre. nós como o faz na fita.
Ao contrário, na peça, os personagens eram massa, por diferenciados que fossem. Na fita, são paradigmas, verdadeiros símbolos das categorias caras aos dogmáticos
Já na categoria dos extremistas de esquerda, a fita engloba todas as facções do movimento operário (inclusive, por tabela, a Igreja progressista) que não afinam com a Voz da Unidade ou com a Hora do Povo, sugerindo mesmo que são todas “anti-sindicato”. Expõe ainda os tradicionais chavões tais como “a massa não está preparada”, pois Otávio e Bráulio vivem repetindo que é preciso antes “organizar a massa”, como se tratasse de cozinhar fuzili, mas em nenhum momento esboçam uma receita.
O líder Otávio chega ao cúmulo de ser flagrado em plenas reminiscências com Romana (num entrevero humano muito mais próximo do Otávio da peça, mas longe do herói infalível na fita), enquanto se desenrola a assembléia fatal que decreta a greve. Resta-lhe as bradar, após receber a noticia – “um ¬golpe!”.
Como agravante, retratam-se as demais forças do movimento operário como irmãos menores que, pela sua imaturidade, irresponsabilidade, incompetência, devem ser orientados, aturados, paternalmente repreendidos. E, quando fazem besteira, apoiados, nem que disto resulte a morte e prisão.
São os “homens de ferro”, os heróis positivos, cuidando dos irmãos impúberes, se¬jam estes Lula e seus companheiros, sejam eles Santo Dias e seus companheiros das oposições sindicais brasileiras.
A fita, falando dos metalúrgicos de São Paulo hoje, tem ainda o despudor de ignorar o pelego que domina o sindicato desde 1965 e que tão acintosamente boicotou e “usou” para seus próprios interesses a greve de 1979. Só o menciona uma vez, e assim mesmo de forma atenuada. Diz Bráulio ao se referir à assembléia que decretou a greve - “o presidente lavou as mãos e foi embora”. “Pelego”, parece indagar a fita, “que é isto? Nunca ouvi fa¬lar.”
A manipulação revoltante que se faz é, porém a cooptaçâo da morte de Santo Dias, ligado ao trabalho de base da Igreja católica progressista, cuja importância no apoio à organização do movimento operário, tanto em São Paulo como em outros lugares, não deve ser subestimada.
A fita ignora este importante papel, sobretudo organizativo, dos setores progressistas da Igreja. Como quem dá uma colherzinha de chá, dedica apenas uma seqüência com o ator Paulo José numa figuração sem fala do padre no cortejo fúnebre de Bráulio.
Este líder da oposição sindical, Santo Dias, adversário dos Otávios e dos Bráulios da vida real, na fita passa a ser Bráulio. Isto chama-se “vale tudo”. Quando se vê na fita Santo Dias - tragicamente assassinado no piquete da greve de 1979 - retratado por Bráulio, cujo equivalente na vida real apoiou o pelego no boicote do movimento paredista, a coisa passa dos limites.
Por tudo isto, quem acaba sendo envolvido pelo clima da fita só pode concluir que nada resta fazer. A não ser, claro, aguardar que, algum dia, por milagre ou por um passe de mágica, a classe trabalhadora se organize.
Como se o fantástico processo, freqüentemente espontâneo, que permeou as bases trabalhadoras deste pais na segunda metade da década de 70, com suas greves frustradas ou não, com suas mobilizações populares de todo tipo, mais ou menos politizadas, mais ou menos organizadas, com suas vitórias e derrotas, não evidenciasse que é justamente este o verdadeiro processo (e que está em curso) para a sua organização e conscientização.
Como se a lição de 1964 não deixasse bem claro que a briga por posições de cúpula na estrutura sindical fascista é ineficiente e oportunista, quando não existe para escorá-la uma base solidamente conscientizada e organizada.
A fita é derrotista numa fase histórica onde a resultante, não obstante os refluxos conjunturais, é de ascensão e esperança. Uma fase que vê modificações qualitativas na mobilização e conscientização popular e nas lutas e organização operárias.
Uma fase que vê o surgimento do Partido dos Trabalhadores, inovação de caráter mundial na expressão política dos explorados. Do possivelmente Santo Dias, se ainda vivesse, estaria participando, ao contrário dos Otávios e Bráulios da vida real, com seu engajamento nesta ampla frente de conciliação de clas¬ses, sem contornos definidos, que é o PMDB.
Existem ainda outros “deslizes” na fita. Por exemplo, quando ela adota a versão próxima da versão oficial da morte de Santo Dias, ou seja, de que este foi morto por um tiro provindo da multidão, quando todo mundo sabe que o autor do disparo foi um PM uniformizado do aparelho de repressão à greve. Além disso, separa mecanicamente o ABC do resto do pais.
Assim como o pelego e a Igreja, o ABC também só merece urna seqüência – “você pensa que isto aqui é São Bernardo?”, pergunta Otávio, como se o ABC fosse no Japão e não logo ali na via Anchieta.
Vendo o Otávio e o Bráulio da fita rodada em 1980, me vi desagradavelmente transposto à literatura da era “stalinista” de antes de 1956 com seu “realismo socialista” deturpado, pleno de “heróis positivos” paternalistas. O que não me aconteceu com a releitura da peça escrita naquela mesma era.
CONCLUSÃO
ou “arte divina arte”
A fita Eles Não Usam Black-Tie joga sobretudo com ambigüidades. Apresenta-se como ficção. E certamente o é - ficção “científica”. No entanto coopta, à sua maneira, posições, atitudes e fatos ocorridos em São Paulo em 1979 com feições de documentário, mas o que ela não é.
Se o fosse, desse fielmente nome aos bois, e sendo exibida em cima dos acontecimentos pouco haveria o que discutir. A greve de 1979 fracassou por tudo que já Foi dito, e morreu um líder das oposições sindicais cujo nome era Santo Dias.
Seria apenas um documento de um fato real isolado na história operária nacional, onde uma tendência exporia, como é do seu direito, seu ponto, de vista a respeito. Mas não. A fita extrapola e, sempre insinuando estar no nível de cinema documental, generaliza para o contexto em geral. Deturpa os fatos e sugere que o que não deu certo em São Paulo em 1979 não daria certo em outras circunstâncias, digamos, em 1981. Veja-se a entrevista de Hirszman à revista Veja, onde afirma que a fita pretende retratar a vida de uma família durante uma greve qualquer, NÃO a greve de 1979. ‘
Neste quadro, ela parece sugerir que “nun dianta fazê nada”. Só resta atrelar-se aos pelegos, ao Governo, aos patrões, pois algum dia… algum dia “as coisa muda”.
E nisto que vai a principal manipulação e mistificação da fita. Sugere implicitamente ainda a versão absurda de que todos os que não estão de acordo com os Otávios e Bráulios da vida real são contra a organização da classe trabalhadora, contra o sindicato como tal e a favor do “oba¬oba”.
Sugere que a solução está nas amplas frentes, onde é possível marchar junto até com o pior inimigo. Desumaniza seus personagens e é uma mensagem de derrota e negativismo, não abrindo rigorosamente perspectiva alguma.
Acho até que, mesmo não o querendo, como tenho certeza que não quis, acaba fazendo objetivamente o jogo do sistema e dos patrões.
E se resta na fita alguma emoção, algum romantismo ingênuo, alguma generosidade a nível humano, apesar da simplificação moralizante que dai advém, gostaria de poder acreditar que isto foi por conta do genuíno, generoso e felizmente incurável romantismo do meu velho amigo e companheiro Gianfrancesco Guarnieri.
Mas ele assina a fita e é, pelo menos, conivente com suas posições. Por outro lado, a entrevista do diretor Leon Hirszman a Veja, em que reafirma explicitamente o conceito de “Porra-louca”, leva a crer que a “Realpolitik”‘ foi por conta dele, não obstante ter afirmado que sua posição política é a mais ampla possível (aqui é preciso ver o que ele entende por “am¬pla”).
Aliás, ainda estamos aguardando o rico documentarão que o mesmo diretor rodou em São Bernardo em 1980, não obstante já estar em fase de acabamento há um ano. Ali veríamos que a maioria dos líderes que estão despontaram, e que não são personagens de ficção, não pertence à “Unidade Sindical”, mas sim ao Partido dos Traba¬lhadores. E onde constataríamos, sobretudo, que nem sempre “a massa está despreparada”.
Pode-se concluir, em síntese, que Eles Não Usam Black-Tie, a despeito da onda, a despeito dos prêmios, a despeito de um certo sucesso popular e a despeito de sua qualidade cinematográfica acima da média¬, não é, para dizer o mínimo, um mo¬mento feliz do nosso cinema.