Arquivo de Maio de 2008

Milicianos seqüestram e torturam equipe de “O Dia” no Rio, diz jornal

da Folha Online

Uma repórter, um fotógrafo e um motorista do jornal “O Dia”, do Rio, foram seqüestrados e torturados por milicianos que atuam na favela do Batan (zona oeste do Rio) enquanto faziam uma reportagem, conforme texto que o próprio jornal publica amanhã (1º). O crime ocorreu no último dia 14 de maio. Os profissionais afirmam que há PMs envolvidos no crime.

No texto que denuncia o caso, o jornal informa que comunicou a cúpula da Secretaria da Segurança Pública e que demorou duas semanas para publicá-lo para não atrapalhar as investigações. Segundo o jornal, as três vítimas estão em local seguro.

Conforme “O Dia”, a repórter e o fotógrafo moravam na favela havia 14 dias com o intuito de fazer uma reportagem sobre o funcionamento da milícia no local. Naquela noite, o fotógrafo e o motorista aceitaram um convite dos moradores da favela para beber uma cerveja. No local, os dois foram rendidos por dez homens armados encapuzados. Eles foram algemados diante dos moradores e levados para a casa alugada –onde a repórter também foi rendida.

Segundo a reportagem, os milicianos demonstraram em diversas ocasiões que eram PMs.

Os profissionais e um morador –que, para os milicianos, conhecia a identidade dos três– foram levados a um cativeiro e torturados. “Como nos porões das ditaduras mais sombrias, choques elétricos e sufocamentos com sacos plásticos passaram a ser aplicados até o limite do desfalecimento. Para acordar as vítimas, socos e pontapés. Para deixar o grupo ainda mais apavorado, eles foram levados para quartos separados”, afirma o jornal.

Os profissionais foram capturados por volta das 21h e liberados por volta das 4h.

Folha Online

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Ficção de risco sobre médico-legista enfrenta o tema da ditadura

Rubens Rewald e Rossana Foglia dirigem longa em que Leonardo Medeiros tenta descobrir identidade de cadáver

CRÍTICO DA FOLHA

Um tema recorrente no pensamento e nas religiões ocidentais é que o corpo sem a alma reduz-se à mera matéria, sujeita à desaparição. Hoje, nossa alma contemporânea foi resumida à identidade, este algo que permite existir em meio à multidão. Um cadáver não-identificado está condenado a um túmulo anônimo, a um enterro sem honras.
Neste terreno de idéias se aventuram os diretores Rossana Foglia e Rubens Rewald em “Corpo”, estréia em longa da dupla depois de uma carreira em curtas e no teatro.
A despeito das questões em que mergulha, “Corpo” não consiste num trabalho intelectualizado, acessível apenas a pequenos públicos. Trata-se, sim, de um filme mental, em que a trama se organiza de forma misteriosa, mas nunca obscura, e em que a fotografia em luz fria reitera para o espectador a impressão de irrealidade.
Seu ponto de partida é a obsessão de um médico-legista por um cadáver que aparece intacto em meio a ossadas de inimigos políticos eliminados durante o regime militar.
Nesta zona indefinida após a vida e antes do enterro é que transita Artur (o sempre excelente Leonardo Medeiros), para o qual a existência ganha sentido na medida em que guarda uma história. No metrô, Artur olha os corpos e imagina relatos com começo, meio e fim. Diante do corpo que aparece no necrotério, o médico mergulha no labirinto da história coletiva, em busca das peças de um quebra-cabeças ameaçado de nunca se completar.
Artur evoca em sua ação, sempre ameaçada de paralisia, o detetive Scottie, personagem de James Stewart em “Um Corpo que Cai”, de Alfred Hitchcock. Enquanto Scottie era vítima da paixão por uma imagem que se duplicava, Artur envolve-se com uma forma sem vida cujo fantasma se projeta em corpos femininos e no corpo da história.
No vaivém entre passado e presente, “Corpo” se impõe como uma ficção de risco, que enfrenta o tema do regime militar, até agora tratado com obviedade no cinema brasileiro, sem se resumir à mera exumação. (CÁSSIO STARLING CARLOS)

CORPO
Produção: Brasil, 2007
Direção: Rubens Rewald e Rossana Foglia
Com: Leonardo Medeiros, Rejane Arruda e Chris Couto
Onde: estréia hoje no HSBC Belas Artes e circuito; classificação: 14 anos

Folha de S. Paulo

Trailer do filme “Corpo”, com Leonardo Medeiros, Rejane Arruda, Chris Couto, Regiane Alves e Louise Cardoso. Direção de Rossana Foglia e Rubens Rewald. 2007 Glaz Cinema.

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Irmãos contam histórias do fotojornalismo

EDER CHIODETTO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Ética, estética, originalidade, informação relevante e, de preferência, exclusiva são os atributos de uma boa imagem jornalística.
Cultura, noções de arte, intuição, persistência, um pouco de sorte e muito, muito suor são os pré-requisitos básicos para alcançar tal resultado, como demonstram os irmãos Marques no livro “Caçadores de Luz: Histórias de Fotojornalismo”, lançado pela Publifolha.
São mais de 60 anos dedicados ao fotojornalismo, somando o tempo das carreiras de Sérgio, Lula e Alan. Todos atuam em Brasília, fotografando e editando diariamente imagens dos bastidores da política, acompanhando todos os presidentes da República desde 1984, quando Sérgio chegou ao jornal “O Globo”. Lula atua na Folha há 21 anos e Alan há 11, depois de fotografar por cinco anos no “Jornal de Brasília”.
No livro, os irmãos narram em tom quase épico as agruras do dia-a-dia da profissão de repórter-fotográfico. Como a maior parte das pautas em Brasília se limita a políticos dando declarações, os Marques demonstram quão necessário é ter a habilidade de um caçador para conseguir uma imagem diferenciada e que simbolize de forma inteligente os freqüentes escândalos que envolvem os políticos.
O capítulo “A Luta pela Imagem” destaca histórias nas quais a busca obsessiva pela imagem exclusiva quase transformou o fotógrafo numa notícia fúnebre, como na cobertura realizada por Sérgio na guerra de Angola, em 1989, ou quando Lula teve um revólver apontado para a sua cabeça na comemoração dos 500 anos do Brasil, em 2000.
Alan, o mais literário dos irmãos, conta em pormenores inimagináveis a dificuldade da cobertura da queda do vôo 1907 da Gol, em 2006.
Nos outros dois capítulos, “Histórias de Presidentes” e “Celebridades do Mundo”, os Marques dosam narrativas saborosas sobre as ante-salas de Brasília, as esperas intermináveis por uma declaração, a frustração com as fotografias protocolares, o eterno embate com assessores, seguranças e policiais para furar o cerco e ter acesso a lugares onde nem sempre são bem-vindos, com histórias que demonstram a personalidade dos presidentes Sarney, Itamar, Collor e FHC e a forma como eles se portavam em relação às imagens.
Quanto ao governo atual, Lula Marques faz uma pesada crítica à forma como o presidente Lula e sua assessoria tratam a imprensa em geral e os fotógrafos em particular: “Existe ordem para manter a imprensa longe. Os seguranças se sentiram no direito de voltar a ter atitudes com as quais só nos deparamos em países com regime de governo ditatorial”, escreve.
A boa idéia do projeto e as narrativas em ritmo de seqüência de fotogramas, porém, foram bastante prejudicadas por um projeto gráfico burocrático, pela edição decepcionante de minguadas fotos de cada história e pela má impressão. Idéia certeira em forma equivocada.

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CAÇADORES DE LUZ: HISTÓRIAS DE FOTOJORNALISMO
Autores: Alan Marques, Lula Marques e Sérgio Marques
Editora: Publifolha
Quanto: R$ 37 (240 págs.)

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Pollock

Ed Harris encarna vida e obra de Jackson Pollock em filme fundamental

Isso provavelmente nunca iria acontecer, mas Ed Harris merecia ser contemplado com o Oscar por sua atuação em Pollock. A academia entendeu o valor da obra e premiou Marcia Gay Harden como atriz coadjuvante, embora seu papel, na verdade, seja o de protagonista feminina.

Ed Harris tornou real seu sonho ao dirigir, produzir e estrelar um filme sobre um dos maiores pintores do pós-guerra americano, Jackson Pollock. Nesta biografia filmada, baseada no livro Jackson Pollock: An American Saga, o ator traz à tela a personalidade e arte de um artista obcecado pelo verdadeiro sentido e sentimento de sua obra.

Precursor do expressionismo abstrato americano, Pollock estudou em Nova York entre os anos 1929 e 31, com o também pintor Thomas Hart Benton. Apesar disso, sua grande influência artística foi de A. P. Ryder, da arte muralista mexicana, especialmente de Siqueiros, e principalmente do surrealismo de Pablo Picasso, o qual Pollock tinha verdadeira veneração.

Tal influência é revelada logo no ínicio do filme, em que o pintor americano, num de seus devaneios alcoólatras, revela: “Dane-se Picasso! O desgraçado era completo.”

A figura trágica que vemos no retrato de Pollock por Harris traz um artista ousado, inflexível e agressivo. Tais características marcaram este pintor que transcendeu e violou os limites da arte através de sua personalidade auto-destrutiva, misturando estrutura à espontaneidade, disciplina à liberdade, que culminou numa forma única de expressão em sua época. Para Pollock, a Arte Moderna nada mais era que “os anseios contemporâneos do tempo em que vivemos”.

O filme conta a história de Pollock a partir dos anos 40, quando a também pintora Lee Krasner (Marcia Gay Harden) visita seu estúdio pela primeira vez. Na verdade, o estúdio ficava num apartamento decadente em que o pintor morava junto ao irmão e sua esposa grávida.

Foi nesta mesma década que artistas começaram a livrar-se do peso das figuras e dos controles estéticos, convertendo-se em abstracionistas. Mas, enquanto os grandes mestres modernistas europeus expunham regularmente em museus de Arte Moderna e de Pintura Não-Objetiva (como o Museu Guggenheim), artistas americanos eram considerados meros seguidores provincianos.

Com o início da Segunda Guerra a situação começou a mudar. Vários artistas europeus renomados foram forçados a fugir da dominação nazista em países onde o Cubismo, Expressionismo e o Surrealismo foram oficialmente banidos por serem considerados movimentos de arte degenerados.

Nesta época, um grande número de exilados europeus com Max Ernst, Marcel Duchamp, Fernand Léger, Joan Miró e Mondrian mudaram-se para Nova York, onde suas idéias estimularam a vanguarda americana.

A herdeira e patrona desta arte foi Peggy Guggenheim, sobrinha de Solomon Guggenheim, que estabeleceu um ligação crucial entre os movimentos americanos e europeus. No filme, Pegg é interpretada pela mulher do diretor, Amy Madigan. Exilada em Nova York, abriu a galeria Art of This Century, que rapidamente tornou-se a sensação da cidade. Neste período adquiriu grandes obras de vanguarda apoiando significativamente os artistas.

Além de exibir trabalhos abstratos e surrealistas, que trazia da Europa, Peggy Guggenheim começou a procurar representantes americanos de tais movimentos. Foi mesclando trabalhos de grandes nomes a desconhecidos, que ela ajudou a legitimar diversos artistas, que logo formariam o núcleo nova-iorquino.

É através do marchand bonachão Howard Putzel (But Cort) que Peggy conhece o trabalho de Pollock. A galerista apaixona-se pelo trabalho do artista e investe em sua carreira. É na galeria Art of This Century que ele realiza sua primeira mostra individual e insere-se no mercado de arte, mas não agrada à crítica.

Pollock, Robert Motherwell, Mark Rothko, Willem DeKooning (Val Klimer), Clyfford Still e William Baziotes (interpretado pelo artist Kenny Scharf) foram apenas alguns dos artistas que reaizaram suas primeiras exposições individuais na galeria Art of This Century.

Apesar de todos os fatos biográficos, o grande mérito do filme é o enfoque no relacionamento do artista com a pintora Lee, que torna-se sua mulher. Apaixonada pelo homem e sua arte, Lee é quem dá suporte psicológico e emocional ao pintor, que tinha um sério problema com o álcool. Em 1945 mudam-se para uma pequena fazenda em Long Island, e é aí que a criação de Pollock torna-se extremamente frutífera.

Seu experimentalismo ocasionou o desenvolvimento completo de seu trabalho. Ele energeticamente desenhava com grandes pincéis em enormes telas. Às vezes, aplicava a tinta diretamente dos tubos e, algumas vezes, usava tinta metálica para proprocionar um efeito de brilho em seus quadros.

Seu vigoros ataque às telas e sua devoção ao verdadeiro ato de pintar tornaram Pollock um símbolo da nova revolta artística. É pintando uma de suas telas no chão que ele encontra sua maior característica: fluxos de tinta, sem a marca do pincel, com líquidos soltos, definidos por pingos, respingos e grandes gotas abundantes.

A partir daí, sua técnica aperfeiçoa-se, seus trabalhos ficam cada vez mais elaborados e catárticos, o que o consagra entre a crítica. Seu sucesso chega ao ápice em 49, quando expõe trinta quadros em uma mostra individual e vende quase todos, restando apenas cinco.

Luciana Rocha - Redação Terra

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Condor

Trailer do documentário “Condor”. Direção de Roberto Mader. 2007 Taba Filmes.

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“Vincent” - Tim Burton (1982)

Primeiro curta-metragem de Tim Burton. A história do filme é um poema escrito pelo próprio Burton e narrado pelo ator Vincent Price. Em stop-motion. Com legendas em portugês.

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Jornada Continental pede o fim da ocupação do Haiti

Adital -

No próximo domingo (1º), os povos latino-americanos, solidários à luta haitiana pela soberania de seu território, participam da Jornada Continental contra a ocupação do país. Os manifestantes exigem a retirada das tropas da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) e denunciam que a ocupação baseia-se na “vontade imperial de manter a superexploração, por parte das multinacionais, em toda a América Central e no Caribe”.

No Uruguai, onde a mobilização é mais forte, o protesto será em Montevidéu, a partir das 12h, na explanada da Universidade. Para a Coordenação pela Retirada de tropas do Haiti - que convoca a manifestação - a participação uruguaia na Missão das Nações Unidas torna o governo do também um assassino, pois a Minustah é acusada de inúmeras violações aos direitos humanos do povo haitiano.

No Relatório da Anistia Internacional 2008 sobre direitos humanos, divulgado esta semana, foi denunciado que 108 soldados do Sri Lanka, que integram a Missão, foram repatriados sob a acusação de abusos e exploração sexual de mulheres e crianças haitianas.

“Teve-se notícia de que nas zonas rurais as autoridades judiciais exerciam pressões sobre as sobreviventes de violação para que aceitassem acordos econômicos com os violadores, ao invés de tramitar os crimes como delito”, disse o Informe.

O informe também denunciou que algumas pessoas foram detidas no Haiti, pelo pessoal da Minustah, “sem ordem judicial ou foram objeto de detenções coletivas, sem seguir os procedimentos básicos de um processo legal e sem respeitar as normas internacionais de direitos humanos”.

O dia 1º de junho foi escolhido para a Jornada por marcar os exatos 4 anos da chegada das tropas argentinas, uruguaias, bolivianas, brasileiras - que lideram a Missão - ao Haiti. Sob o pretexto da paz, elas chegaram a um país em que 80% da população vive em extrema pobreza, reprimindo as greves e movimentos populares, que apenas lutam para superar a miséria em que vivem.

Em carta, que será entregue ao Ministro das Relações Exteriores uruguaio e aos membros do parlamento, a Coordenação disse que “essa ocupação viola os mais elementares direitos à soberania e de não intromissão em assuntos internos de outros países. Violenta o direito de autodeterminação dos povos e é um verdadeiro atropelo aos direitos humanos essenciais da população”. Assim, os uruguaios pedem também o julgamento e a punição dos invasores.

O presidente brasileiro, Luis Inácio Lula da Silva, visitou o Haiti, no último dia 28, e, em discurso, disse que os militares brasileiros tiveram êxito na missão de paz. Agora, o país irá reforçar o envio de engenheiros militares, capacitados para trabalhos de infra-estrutura. Para o presidente “a paz, a segurança e a estabilidade duradouras têm como pré-condição básica a busca de condições mínimas para o desenvolvimento econômico e social dos haitianos”.

O discurso do presidente vai de encontro a todas as denúncias feitas pelos movimentos sociais haitianos, como o Batay Ouvriye, que denunciam os militares, de todos os países que integram a missão, como responsáveis por repressões, agressões e, inclusive, assassinatos. Denúncias essas que foram, em parte, confirmadas pelo relatório da Anistia.

Adital

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Como a Ação Popular escreveu e reescreveu o sentido de sua história[1]

por Reginaldo Benedito Dias*

Introdução

Este trabalho investiga como a Ação Popular, organização de esquerda das décadas de 1960 e 1970, elaborou e reelaborou o sentido de sua experiência, em face das redefinições políticas que vivenciou. Conforme demonstrou Dulce Pandolffi, a produção da memória é inerente à práxis dos partidos marxistas, que mantêm uma relação diferenciada com a história. A produção da memória faz com que sejam entrelaçadas três temporalidades: passado, presente e futuro. A memória é uma construção do presente sobre o passado (HALBWACHS, 1990), mas, nesse caso, ela sofre influência do projeto político, articulado com um futuro de longo alcance. Esse exercício obedece às hegemonias instauradas, exigindo a atualização da construção da memória e da identidade política (PANDOLFFI, 1995).

Atento ao papel que a memória desempenha na produção da identidade, Michael Pollak observa que as instituições políticas não podem “mudar de direção e de imagem brutalmente a não ser sob o risco de tensões difíceis de dominar, de cisões e mesmo de seu desaparecimento”. Tal risco pode ocorrer, como exemplificam as cisões partidárias, se os membros deixarem de se “reconhecer na nova imagem, nas novas interpretações de seu passado individual e no de sua organização” (POLLAK, 1989: p. 10).

A singularidade da AP precisa ser ressaltada. A AP caracteriza-se por ter uma origem heterodoxa, aberta a diferentes influências doutrinárias, e por filiar-se, na segunda metade da década de 1960, à tradição do marxismo-leninismo. O caminho da definição da linha marxista levou, em mais de uma conjuntura, a acirradas lutas internas e a dramáticas fraturas. Entretanto, consideradas as nuanças de cada período, a identidade marxista manteve-se até o fim. Em suma, pretende-se verificar como, na busca de determinada ortodoxia, a AP procurou reler sua origem e cada fase de sua existência, com o objetivo de legitimar, nos marcos do que considerava o verdadeiro marxismo-leninismo, as opções recentes.

Usos e sentidos da história da AP

Em 1966, o Comando Nacional da Ação Popular elaborou um documento, intitulado “Histórico da AP”, realizando um balanço de sua experiência. A história da AP foi dividida em quatro fases. A primeira se estenderia dos primeiros contatos e articulações para a formação da AP, datados de 1961, até seu congresso de fundação, ocorrido em 1963. A segunda iria desse congresso até o “golpe de abril” de 1964. A terceira iria do “golpe de abril” até a elaboração da Resolução Política, em 1965. A quarta se estenderia até o momento vivido (AÇÃO POPULAR, 1966). Tal exercício se justifica. O advento da ditadura militar impôs ao conjunto da esquerda uma reflexão sobre a derrota sofrida em 1964. O “histórico” aponta que, na terceira fase de sua trajetória, a AP vivia uma crise, caracterizada pela desarticulação da base social, por desorientação política e por uma tendência à desagregação. Essa tendência teria sido revertida a partir de 1965, quando foi aprovada a RP.

As balizas do citado “histórico” foram elaboradas pela RP, cujo objetivo era definir uma política revolucionária e inserir a AP em uma nova fase de sua história (AÇÃO POPULAR, 1965). Entretanto, ao examinar a orientação da fase anterior, condensada no Documento base, a RP não promove uma ruptura total. De um lado, faz uma crítica frontal à parte da estratégia política. Por intermédio do conceito de Revolução Socialista de Libertação Nacional, propõe a conquista do poder por via insurrecional. De outro, valoriza a fundamentação filosófica do DB, cujas linhas mestras ainda seriam atuais: “O que ele precisa é ser, antes de tudo, conhecido e entendido, e depois urgentemente completado” (AÇÃO POPULAR, 1965, p.9).

No DB, a AP definia-se como socialista, mas era crítica do modelo erigido a partir da URSS, no qual identificava a formação de novas formas de alienação. Defendia a possibilidade de que houvesse caminhos diversos de passagem ao socialismo e para a construção socialista. Perseguia, enfim, uma ideologia própria, cujo horizonte era o socialismo como humanismo. O ideário da AP era influenciado pelo cristianismo, pelo marxismo e pelo existencialismo.

A mudança da orientação filosófica não tardaria a acontecer. Em 1967, a AP abriu o processo do Debate Teórico e Ideológico. O documento que convocou o debate propõe a ruptura:

Pedir de menos seria negar a necessidade de centralizar o debate no estudo do marxismo, e pretender estudar, ao mesmo tempo, o pensamento de Teilhard Chardin, Emanuel Mounier, Bertrand Russel etc. (…). Na etapa atual, para que se possa chegar a resultados coerentes e inclusive preparar etapas futuras, é necessário considerar o estudo crítico do marxismo como eixo e princípio ordenador da discussão (AÇÃO POPULAR, 1967: 14).

Emergiram posições conflitantes no debate. A AP se dividiu em duas grandes correntes, às quais correspondiam pontos de vista divergentes sobre a estratégia revolucionária. A “corrente 1” apresentou o “Esquema de 6 pontos”, identificado com o maoísmo, declarado como a terceira etapa do marxismo, o marxismo da atualidade. O Brasil passa a ser caracterizado como um país semicolonial e semifeudal. A revolução deveria ser de tipo nacional-democrático, por intermédio da guerra popular prolongada. Defendia-se que existira um partido de vanguarda no Brasil e que era necessária a sua reconstrução. Estabeleceu-se que a militância da AP fosse reeducada em um processo de “proletarização”. A “corrente 2″ definia a sociedade brasileira como capitalista e que a revolução deveria ter um caráter imediatamente socialista. Não aceitava a tese da terceira etapa do marxismo e recusava a política “de proletarização”. Nunca existira, em sua ótica, um partido proletário no Brasil. Era necessário construí-lo. Em 1968, na I Reunião Ampliada da Direção Nacional, prevaleceram as posições da “corrente 1” e, evidência da contundência da disputa, membros da “corrente 2” foram expulsos da AP.

Saliente-se que as duas correntes, em nome do marxismo-leninismo, rompiam com a origem da organização e tinham o objetivo de superação da “velha” AP. Na seqüência, a ruptura com o passado se acentuou. A documentação dá conta do ritual de autodestruição da AP, desenvolvido voluntariamente, para reconstrução em novas bases. Segundo o documento Esboço de uma história da corrente 1, a transformação ideológica da AP não poderia ocorrer numa evolução linear: “O partido pequeno-burguês deveria promover uma autodestruição, condição para surgir o partido do proletariado ou melhor um núcleo desse partido”(AÇÃO POPULAR, 1969: 4). Esse Esboço serve de subsídio para a elaboração do documento Audácia nos objetivos e rigor nos métodos, extraído da II Reunião Ampliada da Direção Nacional, ocorrida em 1969. Declara-se que a AP entrara em uma nova etapa de sua história, em que se transformava em “um partido revolucionário proletário” (AÇÃO POPULAR, 1969b: 4).

A transformação era acompanhada de uma drástica autocrítica do passado, idéias e práticas da AP. A dinâmica da morte e recriação é explícita: “ao mesmo tempo em que começava a morrer a velha Ação Popular, começava a nascer uma nova Ação Popular, marxista-leninista, proletária; o processo de crise combinava-se com o processo de transformação e proletarização do partido” (AÇÃO POPULAR, 1969b: 3). A ruptura com a história da AP foi detalhada na formulação de 12 tarefas para reconstrução do partido operário, sempre dirigidas ao passado da organização. Ao proclamar a morte da “velha AP” e o nascimento da “nova AP”, o documento procura fundá-la na tradição marxista, procedendo a um extenso resgate da história do movimento socialista, desde a época de Marx e Engels até o período então vívido. Declara-se combate ao revisionismo contemporâneo, representado pela nova direção da URSS e, no Brasil, pelo PCB.

A II Reunião Ampliada definiu-se pela tese da Reconstrução do Partido Operário Unificado do Brasil. Entende-se que o marxismo vivia a etapa do pensamento de Mao Tse-tung. Aponta-se que duas organizações fundadas em 1962, AP e o PC do B, eram as mais aptas para liderar o processo de redefinição do partido de vanguarda. A união entre as duas seria a base da reconstrução do partido operário unificado.

Abrir-se-ia, no entanto, uma nova fase de luta interna. Por um lado, surgiram questionamentos à interpretação do Brasil como um país semifeudal e semicolonial e à concepção da revolução nacional-democrática. Para a ala que formulava essas questões, tornar-se-ia necessário construir um partido de tipo inteiramente novo. Por outro lado, dirigentes da AP aproximaram-se do PC do B e viriam a defender a incorporação a esse partido. Nesse caso, havia afinidade quanto ao caráter da revolução, definida como nacional-democrática.

Em 1971, por ocasião da III Reunião Ampliada da Direção Nacional, a organização passou a denominar-se Ação Popular Marxista-Leninista. Consagra-se, no início do Programa Básico, então aprovado, a seguinte periodização da história da AP:

A nova Ação Popular (…) surgiu de um partido pequeno-burguês, fundado em 1962, que se transformou de um partido pequeno-burguês-reformista (1962-1964) num partido pequeno-burguês revolucionário (1965-1967) e depois, através de uma árdua luta teórica e prática (1967-1969), numa organização marxista-leninista (a partir do segundo semestre de 1969). (AÇÃO POPULAR, In REIS FILHO & SÁ, 1984: 293-294).

Havia acentuadas divergências sobre os temas colocados a respeito da concepção de revolução e de partido, mas chegou-se a uma espécie de solução de compromisso entre as posições que amadureciam no interior da AP. O PB absorveu os pontos de vista em disputa. O II Congresso seria convocado para dar solução definitiva às divergências.

As disputas se acirraram, entretanto. Formou-se, na direção da AP, uma maioria favorável à incorporação ao PC do B, com base na afinidade de programas e no reconhecimento de que ele seria o partido histórico da classe operária, fundado em 1922 e reorganizado em 1962. Assumia-se, assim, a visão que o PC do B forjara sobre si próprio (SALES, 2002). Outra ala sistematizou a visão da revolução imediatamente socialista e a necessidade da constituição do partido inteiramente novo, próprio da etapa vivida pelo marxismo. Com o aquecimento da disputa, a chamada maioria destituiu os líderes da outra ala de seus cargos de direção e, em seguida, expulsou-os da AP, acusando-os de fracionismo.

O conflito teve desenlace. Em 1973, expressivo número de militantes – que se referem a si mesmos como “a maioria” – incorporou-se ao Partido Comunista do Brasil. A outra ala, citada como minoria, acusou a primeira de tentar liquidar a história da AP, de valer-se de maiorias ocasionais e de não respeitar os protocolos da organização para a tomada de decisões. Fundamentalmente, procurou reorganizar a Ação Popular.

Mais do que cotejar os termos das acusações recíprocas, interessa verificar como a disputa reescrevia o sentido da história da AP. Para militantes que se incorporaram ao PC do B, fechara-se, em 1973, o ciclo de existência da AP. Ao aderirem ao PC do B, abraçaram também sua história e passaram a contar a história da AP pela ótica de seu novo partido.[2] Essa fronteira é um dos marcos de disputa de memória. Na verdade, antes que se consumasse a incorporação de uma ala ao PC do B, os dois agrupamentos reivindicariam o nome da legenda. O setor remanescente vai se referir ao episódio da expulsão dos dirigentes como a “cisão de setembro/outubro de 1972”. Esses militantes procuraram manter a organização, disputar a memória dos fatos da luta interna, assim como da correção da linha política que representavam. Na seqüência, atualizariam, nas situações vividas, sua leitura sobre os marcos da história da organização, que foi reconstituída e teve existência até 1981 (DIAS, 2004).

Logo após a cisão, a Ação Popular viveu um período de grande fragilidade organizativa. Na segunda metade de 1973, os tentáculos do aparato repressivo provocaram uma série de “quedas” de militantes. A AP não perderia sua existência independente, mas sua intervenção, na conjuntura próxima, esteve pautada pela construção da Tendência Proletária, a ser constituída entre as organizações do campo da Esquerda Revolucionária. Em 1976, o processo de reorganização da AP atingiria um patamar mais elevado. Em fevereiro desse ano, foi constituído o Núcleo Provisório de Reorganização Nacional. A reorganização é tida como consolidada em 1977, quando foi aprovado o estatuto, que reafirma a identidade com o marxismo-leninismo.

O objetivo de construir a TP levou a AP a se aproximar do MR-8, do MEP e da PO. Um dos resultados foi a publicação da revista Brasil Socialista, editada no exterior. A revista veiculava tanto textos doutrinários quanto de intervenção na conjuntura do país. Em seguida, manteve relações privilegiadas com o MR-8, fato que levou ao objetivo de proceder à fusão entre as duas organizações. Mas as relações vieram a se deteriorar.

Em março de 1978, o Secretariado Nacional da AP editou um amplo documento de avaliação, com vistas à preparação da IV Reunião Ampliada Nacional. Nesse momento, a AP relacionava-se com o processo de rearticulação dos movimentos sociais. O vigoroso movimento sindical incidiria sobre a pauta da abertura política e da reforma partidária, servindo de suporte à constituição do Partido dos Trabalhadores.

A IV RAN ocorreu em fevereiro de 1979, enumeração que obedece à seqüência histórica dos eventos da organização. Em pauta: a conjuntura nacional, o futuro da AP e a opção partidária institucional. Revogou-se, finalmente, o Programa básico, aprovado pela III RADN, ocorrida em 1971. Essa revogação foi acompanhada de algumas autocríticas. Principalmente, teria sido cometido o erro de considerar o maoísmo a terceira etapa do marxismo, com suas derivações de diagnóstico da realidade brasileira e de estratégia revolucionária. O marxismo-leninismo continuaria sendo a base teórica da AP. A rigor, não se trata mais do que de um rito formal. Havia muito tempo que se considerava o PB superado. Percebe-se, nos documentos da última fase da AP, uma tendência de inserir a história da organização na trajetória da Esquerda Revolucionária. É sempre no campo da ER que sua experiência é referida. A IV RNA concluiu que não havia condições para a formulação de uma teoria revolucionária para a construção do partido do proletariado no Brasil. Remete o aprofundamento do debate ao II Congresso.

Nessa conjuntura, sem abrir mão do objetivo de constituir a TP, a AP propôs a formação de um partido socialista para atuar na nova legalidade, o Partido Popular. Em meados de 1979, inviabilizada a proposta do PP, o CC decidiu participar do Movimento pró-PT. Em seguida, aderiu ao PT como tendência interna. Em outubro de 1980, no Rio de Janeiro, finalmente se realizou o II Congresso, objetivo tantas vezes adiado. A pauta concentrou-se nos debates de conjuntura e tática e construção partidária.

Em 1963, o I Congresso foi o de fundação da AP. O segundo foi uma espécie de “canto de cisne”. Quando foi colocado em pauta, deveria concluir o debate sobre o partido operário. Essa pendência se mantinha, mas a conjuntura era muito diferente. A AP passara pelo que os remanescentes chamavam de cisão, tinha feito autocrítica do período anterior e, agora, relacionava-se com uma conjuntura em que os movimentos dos trabalhadores ocupavam a cena política. Sua a fragilidade organizativa era muito grande. Foi aprovado um documento genérico e a constituição da Comissão Nacional Provisória. Esta funcionou, precariamente, até 1981, desarticulando-se por si própria.

Considerações finais

Na atualização do projeto da Ação Popular, ocorrida em várias conjunturas, verifica-se o exercício de reconstrução de sua memória e de recomposição de sua identidade. Todavia, não foi um processo linear e indolor. Por conta da intensidade das disputas e das acentuadas redefinições, houve dramáticas cisões.

Sua conversão ao marxismo, com ritos que declaravam morta a “velha AP” e saudavam a “nova AP”, significou uma ruptura com seu passado e a atualização de sua memória, forma de recompor sua identidade. Nas disputas acerca da definição de qual linha deveria ser seguida, cada qual entendida como o verdadeiro marxismo, havia a compreensão, a despeito das divergências, de que essa ruptura com o passado era necessária, a fim de que fosse reorganizada com base na tradição marxista.

A busca dessa tradição se fez sentir, de forma nuançada, nos debates sobre o partido de vanguarda do proletariado. Viu-se como uma ala aderiu ao PC do B por entender que se tratava do partido histórico do proletariado. Outra ala manteve-se organizada como AP, entendendo que o partido deveria ser construído em bases novas, de acordo com a etapa vivida pelo marxismo. Na fase de seguinte, manteve-se a pauta do partido de vanguarda, sempre apontado como principal carência do processo revolucionário. Nesse momento, a identidade da AP se insere no campo da Esquerda Revolucionária, inspirada no marxismo-leninismo.

É com a identidade de pertencer ao campo da Esquerda Revolucionária marxista-leninista que a AP se incorporou ao processo de formação do PT.

Referências

AÇÃO POPULAR. Documento base. In: SOUZA, Luiz A. G. A JUC: os estudantes católicos e a política. Petrópolis: Vozes, 1984.

AÇÃO POPULAR. Resolução política, 1965.

AÇÃO POPULAR. Histórico. 1966.

AÇÃO POPULAR. Resolução sobre o debate teórico e ideológico, 1967.

AÇÃO POPULAR, Esboço de uma história da Corrente 1, 1969,

AÇÃO POPULAR, Audácia nos objetivos e rigor nos métodos, 1969B.

AÇÃO POPULAR. Programa básico. In REIS FILHO, D. A. & SÁ, J.F. (orgs). Imagens da revolução. Rio de Janeiro: marco zero, 1985.

AÇÃO POPULAR. Resoluções políticas da IV RNA, 1979.

DIAS, R. B. A cruz, a foice o martelo e a estrela: a tradição e renovação da esquerda na experiência da Ação Popular. Tese (doutorado). Unesp, 2004.

DIAS, Reginaldo B. A história da Ação Popular na perspectiva do PC do B. In Diálogos. Volume 10, n.1, 2006. www.dialogos.uem.br

DIAS, Reginaldo B. A história que poderia ter sido: Herbert de Souza interpreta a experiência da ação popular. REA, nº 81, fevereiro de 2008. Trabalho originalmente apresentado ao XVIII Encontro da ANPUH/SP. Unesp/Assis, 24 a 28 de julho de 2006.

DIAS, Reginaldo B. A Ação Popular na história do catolicismo. Comunicação apresentada ao I Encontro Nacional de História das Religiões e das Religiosidades – ANPUH. Identidades Religiosas e História. Universidade Estadual de Maringá, maio de 2007.

HALBWACHS, M. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.

PANDOLFFI, Dulce. Camaradas e companheiros. História e memória do PCB. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995.

POLLAK, M. Memória, esquecimento e silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, 1989, p. 3-15.

SALES, Jean R. O PC do B conta a sua história: tradição, memória e identidade política. In Diálogos. UEM-Maringá, 2002, v.6. p.155-172.

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[1] Trabalho originalmente apresentado ao XXIV Simpósio Nacional da Associação Nacional de História/ ANPUH. Unisinos - São Leopoldo, julho de 2007.

* Professor do Dep. de História da Universidade Estadual de Maringá. Doutor em História Política.

[2] Em outro artigo, analisei como a experiência da AP foi interpretada pela ótica do PC do B (DIAS, 2006). A respeito da relação entre a disputa da memória com a história da AP, cito dois outros artigos de minha autoria. O primeiro analisa interpretação que Herbert de Souza, primeiro coordenador nacional da AP, legou em vários depoimentos (DIAS, 2006b). O segundo aborda a interface da experiência da AP com a esquerda católica (DIAS, 2007).

Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá; Doutor em História Política (UNESP)

Revista Espaço Acadêmico

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A proposta do ELAC não ajuda a luta dos trabalhadores e dos povos latino-americanos

(Polêmica no Conlutas)

Nós, que assinamos esta declaração, já manifestamos em várias oportunidades que consideramos um erro da direção que hoje hegemoniza a CONLUTAS a iniciativa de realizar, após o Congresso da entidade (julho de 2008), uma reunião de sindicalistas latino-americanos, denominada Encontro Latino Americano e do Caribe (ELAC).

A forma como foi concebido e convocado esse evento não possibilita que qualquer passo para somar forças e avançar na direção da necesária unificação da vanguarda sindical brasileira seja dado. Acreditamos que este Encontro está muito distante de ajudar na organização da luta dos trabalhadores e povos latino-americanos e, pelo contrário, põe a CONLUTAS do lado de setores que, em nome da pureza socialista, fazem o jogo de interesses da direita.

Isto porque os objetivos que o PSTU (corrente que tem maioria no CONLUTAS) tem proposto ao ELAC vão na contramão dos processos mais avançados das lutas e dos movimentos antiimperialistas que ocorrem na América Latina.

Desde o fim dos anos 1990, nosso continente inquietou-se com as lutas populares, democráticas e antiimperialistas que fizeram retroceder a política do de dominação que pretendia impôr a ALCA. Nos países onde a luta foi mais aguda, surgiram novos governos que se contrapõem ao Imperialismo e que romperam com a agenda neoliberal; na Bolívia, no Equador e na Venezuela avançou-se com processos de novas Assembléias Constituintes e nacionalizações de empresas. A única orientação possível para os trabalhadores é a de estar do lado dos governos para resistir aos ataques sistemáticos que fazem a direita e o imperialismo, buscando desgastá-los e derrubá-los e apoiar suas medidas progressivas, mantendo a independência e demonstrando quando existem incoerências.

Mas para os organizadores, segundo a primeira declaração do ELAC, a política é outra. Todos os governos da América Latina estão a serviço do imperialismo. Dizem que todos os países estão submetidos ao imperialismo sem ver as gritantes diferenças que existem entre os processos venezuelano, boliviano e equatoriano e os demais. Pretendem fazer do ELAC uma coordenação dos trabalhadores latino-americanos, que lute contra as políticas neoliberais do imperialismo no continente, mas ignoram os enfrentamentos reais que ocorrem na América Latina e que tem colocado de um lado o imperialismo, as classes dominantes, os governos lacaios e de outro estes governos particualrmente o da Venezuela especialemente, quando tomam medidas de nacionalizações.

Foi assim quando Chávez não renovou a concessão da televisão RCTV (a Rede Globo Venezuelana), cúmplice da direita e do golpe de Estado organizado pelos EUA em 2002, avançando na nacionalização dos meios de comunicação. Nesta oportunidade uma campanha internacional foi organizada para denunciar a não renovação e a Rede Globo brasileira foi o instrumento local desta campanha. O PSTU esteve do mesmo lado que a Rede Globo, contra a medida de Chávez. A CONLUTAS não se pronunciou sobre este fato de enorme importância, ou seja, seu silêncio seguiu os passos da reação.

Na campanha do Referendo para aprovar a nova Constituição Venezuelana, um novo movimento contrário foi desencadeado pela direita e o imperialismo. O PSTU, mais uma vez, fez parte da posição reacionária. Apoiou as mobilizações dos estudantes direitistas, considerando-o um movimento democrático por princípio. Este fato foi tão grave que o renomado intelectual James Petras, que apoiou o PSTU por muito tempo e esteve na fundação da CONLUTAS, rompeu publicamente e denunciou o apoio financeiro da direita aos estudantes venezuelanos.

A justificativa para esta política pode ser econtrada na primeira convocatória para o ELAC, redigida pelo PSTU. Nela é sustentado o argumento de que o governo Chávez, cada vez mais, enfrenta e reprime os trabalhadores. Essa afirmação é feita quando ocorreu a nacionalização da SIDOR, em 1º de maio de 2008, uma das maiores siderúrgicas da América Latiana (que tem capitais argentinos, italianos e, inclusive, brasileiros através da USIMINAS). Os venezuelanos comemoraram uma vitória histórica sobre o capital internacional, alcançada graças à luta dos trabalhadores e a política adotada pelo governo Chávez. Toda imprensa internacional combateu, com todo o rancor e o ódio de classes que lhe são típicos, esta nacionalização feita pelo governo Chávez.

A única posição correta que os trabalhadores brasileiros podem adotar é a de apoiar o processo de nacionalização da SIDOR, e a forma como estão levando o processo adiante os trabalhadores sidorianos e o governo bolivariano. Da mesma forma, temos que apoiar as nacionalizações que acontecem na Venezuela, na Bolívia e no Equador, que é o oposto do que ocorre nosso país onde, infelizmente, se aprofunda a desnacionalização sem que os trabalhadores e o povo possam impedir.

Na política não existe o vazio! Quando nosso continente vive uma luta política acirrada é impossível não ter lado. Quem não se posiciona frente às lutas concretas contra o imperialismo, termina caindo do lado oposto, como tem acontecido com o PSTU. Quem não se pronuncia nestas lutas cruciais e formula generalidades para marcar posição, como a nacionalização sem indenização ou o não pagamento da dívida, e pretende que essas sejam palavras de ordem para coordenar a luta na América, termina fazendo o coro com a burguesia.

Além destas diferenças substanciais sobre a situação latino-americana temos diferenças sobre o papel da CONLUTAS. A CONLUTAS, no nosso entendimento, é um instrumento amplo e de massas e não de um único partido. A realização do encontro internacional da LIT (organização internacional do PSTU) dois dias depois do ELAC, na mesma cidade, demonstra exatamente essa política de transformar instrumentos legítimos de amplos setores em aparato a serviço da política de um partido que, como temos visto, caracteriza-se por ser contra o processo bolivariano. Não aceitamos um encontro cuja essência é por-se contra o processo bolivariano, posicionando-se objetivamente do lado da reação e do imperialismo.

A política do CONLUTAS de criar uma pseudo-unidade internacional pode mesmo é estar criando uma precoce divisão nacional. O ELAC é uma imposição inoportuna diante de um momento tão importante que estamos vivenciando na CONLUTAS, que deveria e poderia sair mais fortalecida de seu I Congresso Nacional, não se desviando de sua tarefa principal que é buscar construir a reorganização do movimento sindical brasileiro e aproveitar os ventos favoráveis que se abrem na unidade com a INTERSINDICAL.

Estas são as razões pelas quais nos pronunciamos contra o Encontro tal como tem sido concebido e como está sendo executado.

Assinam

MTL, Poder Popular (PSOL), MAS(CCLCP), MES(PSOL)

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William Bonner chorando a morte de Roberto Marinho

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Campanha mundial quer proibir árvore transgênica

Reportagem: Raquel Casiraghi

Porto Alegre (RS) – Organizações sociais ligadas ao setor do meio ambiente realizam campanha na tentativa de impedir o plantio de árvores transgênicas. Ao todo, 137 entidades de 34 diferentes países da Europa, América e Ásia exigem junto a organismos internacionais, entre eles a Organização das Nações Unidas (ONU) que seja mantido o princípio de precaução e a proibição implementada na Eco 92, realizada no Rio de Janeiro.

O tema tem sido amplamente discutido na 9ª Reunião da Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU, a COP-9, que prossegue até o dia 30 de Maio na cidade de Bonn, na Alemanha. Em entrevista à Rádio Mundo Real, o membro do Comitê Editorial da Revista Biodiversidade, Carlos Vicente, explica que o perigo de contaminação das árvores transgênicas é maior do que no caso das sementes geneticamente modificadas.

“No caso das árvores é pior porque o pólen das árvores viaja milhares de quilômetros. Assim, os genes das árvores transgênicas ultrapassam todas as fronteiras e contaminam qualquer outro tipo de planta”, afirma.

O ambientalista explica que a liberação do plantio de árvores transgênicas tem ganho força junto ao setor de biocombustíveis. Empresas, entre elas a Aracruz, realizaram estudos em que mostram que árvores com baixa quantidade da substância lignina permitem produzir álcool a partir da celulose com custo menor do que outras matérias-primas, como a cana-de-açúcar.

O combustível, chamado de biocombustíveis de segunda geração, tem tido grandes incentivos nos Estados Unidos. No entanto o perigo, diz Carlos, é redobrado, já que as árvores para produção de biocombustível serão cultivadas em monoculturas.

“As árvores transgênicas, obviamente, serão cultivadas em grandes extensões de terra, somando às ameaças dos transgênicos e ao uso de agrotóxicos, que certamente virá acompanhado, pois já estão sendo estudadas árvores resistentes aos herbicidas. Ainda há o risco das árvores sugarem muita água e desalojarem os agricultores”, diz.

Mais informações sobre a campanha podem ser obtidas na página de internet do Movimento Mundial pelas Florestas (www.wrm.org.uy)

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MANIFESTO DAS ENTIDADES PARTICIPANTES DO CDPP SOBRE AS INVERDADES DIVULGADAS PELA FUP

Em 2001, quando a Petrobrás quis aprovar o Plano Petros Vida, o repúdio dos participantes da PETROS repercutiu nacionalmente.

Os Sindicatos, na época comandados pela FUP - Federação Única dos Petroleiros - foram unânimes neste repúdio, ganhando o conjunto dos trabalhadores para lutar e resistir. De lá para cá, muita coisa mudou.

A principal mudança, infelizmente, não foi uma mudança de postura por parte das direções da Petrobrás e da Petros em relação à ameaça em precarizar a previdência complementar dos trabalhadores.

A principal mudança foi a postura da outrora combativa FUP, que deixou de ser uma Federação ÚNICA e de representar os PETROLEIROS, para se dividir, dividir a categoria, prejudicar trabahadores aposentados e da ativa e representar o interesse dos acionistas da Petrobrás.

Os Sindicatos, principalmente, que compõem a FNP - Frente Nacional dos Petroleiros se declaram claramente contrários a homologação do Acordo de Obrigações Recíprocas, porque se opuseram a ele durante o processo de imposição da repactuação, bem como ao posterior acerto entre a FUP e o patronal, com a assinatura do Termo de Ajuste Jurídico.Isto se dá porque este malfadado acordo é contrário aos interesses dos participantes da Petros.

Em primeiro lugar, na tentativa de modificar o custeio do Plano Petros, retirando da Petrobrás e das demais patrocinadoras responsabilidades financeiras garantidas pelos contratos assinados com os trabalhadores.
Em segundo lugar, na tentativa de perdoar a dívida da Petrobrás para com o fundo Petros na medida em que sequer o valor estipulado pela perícia do processo na 18a Vara Cível do Rio de Janeiro foi cobrado, diluindo o pagamento e com o vil agravante da armadilha do perdão da dívida na figura do `corrigidos atuarialmente`.

Em terceiro lugar, a dívida confessada pelas patrocinadoras, não é objeto de cobrança pelos atuais diretores da PETROS, conforme seguidos pareceres do Conselho Fiscal da Petros, que tem rejeitado as contas da nossa fundação, tendo este motivo como uma de suas fundamentações. Esta não-cobrança trata-se de gravíssimo erro que prejudica seriamente os participantes da Petros, dilapidando seu patrimônio.

Por último, não se pode admitir, em hipótese alguma, que uma dívida confessada seja usada para obrigar os participantes da Petros abrir mão de seus direitos. Muito menos ser utilizada como moeda de troca para que sejam conquistadas as reivindicações históricas da categoria, como:

1) A paridade efetiva na administração da Petros, com a eleição pelos participantes de no mínimo dois diretores, a eliminação do poder de desempate dos presidentes dos Conselhos e, principalmente o restabelecimento dos poderes estatutários do Conselho Fiscal;

2) a eliminação do limite de idade para os entrados entre 1978 e 1979;

3) a revisão do cálculo das pensões para equiparação com o percentual considerado pelo INSS;

4) a eliminação do limite de contribuição dos entrados pós-82;

5) a possibilidade dos novos empregados optarem pelo Plano Petros BD.

Essas mudanças no Regulamento e Estatuto da Petros podem ser imediatamente implementadas pelo Conselho Deliberativo da Petros logo após a Petrobrás pagar o que deve aos participantes, legítimos donos do patrimônio.

A verdadeira entrada dos recursos pelo pagamento da dívida propiciará superávit suficiente para os necessários ajustes mencionados.

Portanto, a realização das necessárias mudanças não dependem de acordo algum nem da categoria se postar de joelhos diante do patronal, como esta sendo proposto neste Termo de Ajuste Jurídico ao Acordo de Obrigações Recíprocas integralmente repudiado por todos os sindipetros que compõem a FNP.

Em resumo: todas essa mudanças historicamente defendidas por todos os Sindipetros foram abandonadas ou usadas pela direção da FUP e de seus sindicatos como moeda de troca por dívida que a própria patrocinadora Petrobrás confessa existir.

São por essas razões que as entidades que subscrevem este MANIFESTO repudiam com veemência mais essa tentativa escusa da FUP de usar em período eleitoral desinformação, publicando como certa a homologação pelo Judiciário da sua traição , quando o processo está muito longe de terminar.

Todos somos solidários aos Sindipetros LP e AM/PA/MA/AP por não terem concordado com o AOR e, por não o terem assinado, mantivemos como nosso defensor, o advogado Dr. Antonio Castagna Maia.

Assinam este manifesto:

Sindipetro Alagoas e Sergipe, Sindipetro Litoral Paulista, Sindipetro Rio de Janeiro, Sindipetro São José dos Campos, Sindipetro Pará, Amazonas, Amapá, Maranhão e Macapá, Frente Nacional dos Petroleiros (FNP), APAPE (Associação dos Participantes da Petros), AMBEP (Associação dos Mantenedores e Beneficiários da Petros), AEPET (Associação dos Engenheiros da Petrobrás)Federação Nacional das Associações dos Aposentados (FENASPE), ASTAPE/RJ, ASTAIPE-Santos, ASTAPE/Bahia, AASPECE/Ceará, ASPENE/Alagoas, ASPENE/Sergipe, ASTAUL, SONTAPE, AEPETRO/BAHIA.

Site da AEPET

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Diferentes futuros

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Teremos de decidir, nos próximos anos, se queremos ser México ou Noruega em relação ao petróleo
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DUAS SITUAÇÕES em curso justificam que a sociedade brasileira reabra a discussão sobre sua política para o petróleo. No cenário internacional, os preços do barril mudaram de patamar, com um salto de dez vezes em poucos anos -de US$ 13 em 2001 para US$ 130 hoje-, e não mostram tendência de queda. Há algum componente especulativo nisso, mas também há elementos reais: o mundo pode ter atingido o pico da capacidade de produção, enquanto o consumo continua a crescer, não só pelo modelo de economia que predomina nos países ricos mas pelo rápido crescimento da China e da Índia, com suas enormes populações.
É difícil precisar, na prática, o momento desse pico, mas há muito se sabe que ele é inescapável. O petróleo é um recurso não-renovável, e a produção de qualquer campo segue uma curva em formato de sino. Como a soma dessas curvas resulta sempre em outra curva com o mesmo formato, a produção mundial, que é a soma da produção de todos os campos, também terá a forma de sino. Há bons motivos para acreditar que estamos assistindo à temida inflexão. O Energy Watch Group, da Alemanha, afirma que a capacidade de produção já passou do pico em 25 regiões importantes. Restariam poucas em que ela ainda pode crescer. A busca de novas jazidas, aperfeiçoamentos nas técnicas de extração e o uso misto de combustíveis alternativos podem estender prazos, mas sempre à custa de aumentos de custos. Diferentemente de 1972 (guerra entre Israel e países árabes) e de 1979 (Revolução no Irã), o atual choque de preços parece ser estrutural.
Ao mesmo tempo, confirmam-se as expectativas de que a Petrobras pode ter encontrado campos submarinos de grandes dimensões. É um fato excepcional: na contramão do mundo, o Brasil está às vésperas de dar um salto à frente. Os mais otimistas falam em 90 bilhões de barris, a serem somados aos 13 bilhões em reservas já comprovadas. Isso nos colocaria, subitamente, na quarta posição mundial, atrás de Arábia Saudita, Irã e Iraque. Formidável transformação, quando vista em perspectiva histórica.
Todo cuidado é pouco: há riquezas benditas e riquezas malditas. A regressão da capacidade produtiva de um país exposto a súbita inundação de divisas externas é um fenômeno bem conhecido, a famosa “doença holandesa”. Para ficar em petróleo, recordemos que México e Indonésia torraram as suas reservas em poucos anos, permanecendo pobres e periféricos. A Noruega fez o contrário: estabeleceu uma estratégia cuidadosa de exploração, com forte presença do Estado, tendo como referência os interesses gerais da sociedade; com a bênção do petróleo, criou um fundo para sustentar o desenvolvimento do país em longo prazo. Diferentes opções, diferentes futuros.
A nossa legislação, que já era ruim -feita no auge do encantamento neoliberal-, não dá conta das novas realidades. Os campos são leiloados pela ANP (Agência Nacional do Petróleo), e todo o óleo extraído passa a pertencer às empresas vencedoras, que compram bilhetes premiados -graças a 50 anos de trabalho da Petrobras- e ganham o direito de exportar a quantidade que desejarem, no ritmo que definirem, pagando impostos risíveis. Se, em situações de emergência, tiverem que dar prioridade ao mercado interno, entregam-nos o óleo ao preço vigente no mercado internacional. O Brasil passa a importar petróleo brasileiro.
A lei atual nos impede de planejar, de forma racional, a exploração de um recurso não-renovável, estratégico, dotado de fortes implicações geopolíticas. É preciso mudá-la. Há muitas opções a serem debatidas. Porém, fundamentalmente, teremos de decidir, nos próximos anos, se queremos ser México ou Noruega.

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CESAR BENJAMIN , 53, editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade Bicentenária de Aragua (Venezuela), é autor de “Bom Combate” (Contraponto, 2006).

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O futuro chegou: crise alimentar e energética

PAUL SINGER

Nunca em tempos de paz houve pressões inflacionárias tão violentas a partir do encarecimento de bens essenciais

O PREÇO do petróleo está batendo recordes quase diariamente. No momento, ele gira ao redor de 130 dólares o barril. O índice dos preços de alimentos da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) foi, em média, 127 em 2006 e 157 em 2007, subindo para 220 em março de 2008 (1998-2000 = 100). Nunca em tempos de paz houve pressões inflacionárias tão violentas a partir do encarecimento de bens essenciais.
Eis a grande novidade dessa dupla crise que se deve às mesmas causas: a redução da pobreza em grandes países periféricos, como a China, a Índia e o Brasil (além de outros), que expandiu fortemente a demanda por derivados de petróleo e por alimentos “nobres” -carne e laticínios, cuja produção exige muito mais trabalho humano, energia e recursos naturais não renováveis, como terra e água.
A elevação dos preços do petróleo e da comida deveria provocar um aumento de sua produção, pois seu encarecimento a torna mais lucrativa. Mas a elevação da produção alimentar esbarra na disponibilidade de terra e água, limitada pela sua poluição pelos elementos químicos utilizados pelos agricultores. O mesmo vale para o aumento da produção de petróleo, limitado pelas reservas exploráveis.
Estamos nos defrontando com um cenário que Celso Furtado previu em 1974, quando escreveu “O Mito do Desenvolvimento Econômico”. Ele sustentava que era um mito esperar que o desenvolvimento econômico dos países do Terceiro Mundo lhes permitiria alcançar o nível de vida usufruído apenas pelos povos do Primeiro Mundo, porque não haveria recursos naturais suficientes para que isso pudesse acontecer.
Quase um terço de século decorreu desde então, e o que parecia na época um exagerado temor malthusiano tornou-se consensual, sobretudo desde que se comprovou que o clima da Terra está aquecendo, com conseqüências danosas para os recursos naturais do planeta.
A nova classe média nos países chamados de emergentes passou a ter dinheiro para alcançar o padrão de vida de sua congênere do Primeiro Mundo. Essa mudança seria desejável se ela não impactasse desfavoravelmente sobre a grande massa que continua pobre.
A carestia da comida, causada pelo aumento da demanda dos ex-pobres, empobrece ainda mais os que já gastam a maior parte do que ganham para alimentar a família. Os cereais que lhes mataria a fome tendem agora a ser dados aos animais cujos derivados alcançam preços cada vez mais atraentes.
O funcionamento do mercado mundial de alimentos produz “naturalmente” esses efeitos perversos. Motins da fome estouram em cada vez mais países e, de acordo com a FAO, em 37, dos quais 21 africanos, há crise alimentar.
Premidos pelo desespero dos famintos, cada vez mais governos (inclusive o brasileiro) tratam de restringir a exportação de alimentos básicos para garantir o abastecimento do mercado interno. O que naturalmente agrava a situação dos pobres nos países que dependem de alimentos importados.
A ONU, alarmada com a gravidade da situação, está solicitando das nações mais ricas recursos para impedir que a fome se alastre pelo mundo, pondo em risco não só o combate à pobreza mas também a paz mundial.
Governos terão de adotar medidas de emergência para garantir um abastecimento alimentar mínimo a todos: estatizar os estoques de alimentos para evitar que sejam açambarcados pelos que têm dinheiro para formar estoques privados. E racionar a sua venda, por preços que os mais pobres possam pagar; eventualmente, taxar mais os alimentos derivados de animais para possibilitar o aumento da produção dos alimentos vegetais, indispensáveis à nutrição do conjunto da população; taxar também os derivados de petróleo, para reduzir a utilização do transporte individual e aumentar a do transporte coletivo.
A crise alimentar e energética poderá talvez ser contida por medidas como essas, mas sua resolução exigirá mudanças mais profundas.
Os padrões de consumo terão de ser acomodados à real disponibilidade de recursos naturais, e esta deverá ser alargada por mais investimentos no aumento da produção agrícola sustentável do ponto de vista social e ambiental.
As crises energética e da mudança climática terão de ser resolvidas pelo desenvolvimento de fontes renováveis de energia limpa, única maneira de acabar com as emissões de gases resultantes da queima de combustíveis fósseis.
A crise alimentar não pode deixar de limitar, em alguma medida, a produção de agrocombustíveis, de modo que o desenvolvimento de outras fontes de energia -solar, eólica, hidráulica- terá de receber prioridade.

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PAUL SINGER, 76, economista, professor titular da Faculdade de Economia e Administração da USP, é secretário nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego. Foi secretário municipal do Planejamento de São Paulo (gestão Luiza Erundina).

Folha de S. Paulo - 30/5/08

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Hip hop e Internet ressuscitam o interesse pela ‘palavra falada’

Por Tom Chatfield*

A poesia é a ocupação de uma minoria na Grã-Bretanha do século 21. Um olhar de relance para a magra, ou simplesmente inexistente, prateleira de poesia das principais livrarias confirma o fato. A “poesia séria” é normalmente terreno de acadêmicos, estudantes e bolsistas - todos eles, como observou ironicamente o falecido poeta Philip Larkin, ou são pagos para escrever ou pagam para ler. Há menos de um milhão de livros de poesia escritos por poetas vivos, dentre os quais apenas poucos conseguem vender mais do que 500 cópias.

Ainda assim, as prateleiras e as vendas estão distantes da verdadeira história. Na arena do ao vivo e online, um tipo bem diferente de poesia está atingindo uma audiência que há dez anos atrás mal sabia que existia poesia fora do currículo escolar: os indivíduos com menos de 30 anos. Há bons motivos para isso: a popularidade do hip hop gerou um novo interesse em relação às letras das músicas; o crescimento da Internet deu às artes menos comerciais o acesso livre à uma comunidade mais ampla; e sempre há uma demanda por algo novo, ou pelo menos por algo velho reinventado. Mas será que devemos nos animar com essa nova tendência? Recentemente passei uma noite com um dos grupos de “spoken word” (palavra falada) mais novos de Londres tentando descobrir.

Os artistas da spoken word não têm os mesmos instintos de relações públicas que seus colegas da indústria musical. Só depois de várias cervejas consegui persuadir os quatro membros do grupo “A Poem in Between People” (”Um Poema Entre as Pessoas”) - PiP para os mais chegados - a listar alguns dos lugares em que eles tocaram no ano passado: “É… Tate Modern, Royal Festival Hall, Oxford Playshouse, Glastonbury, Big Chill, o Forum…” Quem já tocou suas composições? “BBC 6 Music, Radio One, XFM, Channel 4″. E quais são suas influências? “Dê-nos um pouco de tempo para responder essa, por favor. Shakespeare. Ben Okri. John Keats. Mos Def. WB Yeats. The Streets. Os contos de Hemingway.” Eles não vêem nenhum conflito entre admirar o velho e querer que o novo aconteça o mais rápido possível.

O PiP começou sua carreira no final de 2005, com o nome “Two Black Guys and a Poem Between Us” (”Dois Caras Negros e um Poema Entre Nós”). Os negros em questão eram o poeta Joshua Idehen - nascido na Inglaterra em 1980 mas criado na Nigéria de 1984 até seu retorno em 1999 - e o saxofonista e clarinetista Shabaka Hutchings, mais conhecido por seu trabalho com luminares do jazz como Soweto Kinch e Courtney Pine. O nome veio, observa Joshua meio brincando, por querer “dizer o óbvio antes que os outros dissessem”: eis um jovem negro interpretando poemas sobre a vida em Londres, acompanhado de um saxofone.

Os dois caras negros logo se tornaram três com a chegada de Musa Okwonga, um advogado formado em Eton e Oxford que se tornou poeta e escritor performático (seu livro em homenagem ao futebol chamado “A Cultured Left Foot” foi publicado no mês passado). No final de 2006, as coisas se tornaram semanticamente complexas com a chegada de uma miscelânea de outros participantes - alguns dos quais não eram nem negros nem caras - fazendo com que o grupo chegasse a ter até oito integrantes em determinado momento. Era um redemoinho comparado ao ponto de partida do PiP. Em 2007, o grupo ficou um pouco mais disciplinado, com um núcleo fixo de quatro integrantes: Joshua, Musa e os novos Inua Ellams - um poeta e escritor de 23 anos nascido na Nigéria - e Catherine Martindale, também conhecida como PoetiCat, estudante e poeta que conheceu o grupo nas noites de microfone aberto no Poetry Cafe no centro de Londres.

O que o PiP está fazendo, explica Inua, é o que o hip hop fez em suas raízes nos Estados Unidos nos anos 70, quando emergiu como uma forma de os moradores mais pobres das cidades expressarem suas vidas através da música.

As performances de spoken word ainda têm uma relação difícil com a “verdadeira” literatura.

Não há barreiras para entrar no meio; os truques retóricos podem dominar o cenário, e as noites de microfone aberto degeneram em competições de gritos ou em números de segunda linha. Ainda assim esses eventos estão ganhando importância quase que à revelia - porque muitas pessoas da geração do PiP se sentem deixadas para trás pelo verso escrito moderno e pela ausência de algo belo e transformador nas letras da maioria dos principais atores musicais.

Será que a poesia performática é realmente capaz de escalar as alturas da qualidade ou do reconhecimento público? O PiP é menos catequizador do que se espera. Inua tem suas suspeitas sobre o futuro da spoken word - “se ela pode ser de fato boa? Com certeza há problemas de qualidade” -, enquanto Joshua está começando a usar mais ritmo, música e elementos do rap em seu trabalho, “para torná-lo mais fácil de ouvir. Você precisa fazer com que as pessoas voltem.” Mas a experiência ao vivo, eles concordam, é o coração de algo com que muitos artistas perderam o contato - um lugar em que, de acordo com o nível de satisfação da audiência, “não há como pensar que você está indo bem quando não está.”

As melhores noites de spoken word são bem mais parecidas com um show de variedades do que com qualquer outra coisa, com piadas, músicas, leituras, performances e uma química fácil entre os participantes. Depois de anos comparecendo esporadicamente a esses eventos (e vez ou outra contribuindo com eles), ainda tenho minhas dúvidas, talvez porque esta seja uma forma de arte inerentemente mais efêmera do que a palavra escrita: um método apropriado para os nossos tempos, mas que tem uma relação bem mais tênue com a posteridade - qualquer que seja a posteridade possível na era digital.

Você também tem de estar preparado para aceitar o mais grosseiro ao lado do mais refinado, para digerir o sentimental, o equivocado e o totalmente bizarro. Mas quando funciona, há algo eletrizante no trabalho que se desenvolve ao vivo na nossa frente.

O poema “Midnight Music Marauders” de Inua, por exemplo, tece seu encanto com uma mistura sinestésica de sons e palavras: “We played like a dead French kiss reincarnated/as a saxophone with tendencies to hiss/galaxophonic secrets through the tombs of trombone/reborn as the lower bones of Bojangles, dancing/on bass drums prancing like songs of the railroad/set free.” (em uma tradução livre: “Tocamos como um beijo à francesa morto e reencarnado/como um saxofone com tendência a sibilar desafinado/segredos galaxofônicos pelas tumbas do trombone/renascidos como ossos da perna de Bojangles, dançando/ao som do surdo sacudindo como canções de ferrovia/libertos.”) Escrito, à primeira vista, o poema poderia quase ser uma paródia - um desastre de trem de idéias e imagens. Mas à velocidade do ouvido, torna-se melódico, refrescante e livre. A audiência pára, aplaude e dança quando o próximo artista entra no palco: Musa, com um trecho de sua rimada versão de Otelo. O futuro, aos tropeços, está a caminho.

*Tom Chatfield é editor-assistente da revista Prospect.

Tradução: Eloise De Vylder

Prospect

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A ópera, a guerra e a ressurreição russa

Como já fizera três vezes, desde o século 18, o país ressurge, superando o trauma da derrota soviética na Guerra Fria. Além de grande potência geopolítica, recompôs sua base econômica e cresce aceleradamente. O “espírito russo” parece saltar da obra de Prokofiev direto para a vida real
José Luís Fiori

(30/05/2008)

Relembro, porque causou profunda impressão, uma montagem russa, da ópera Guerra e Paz, de Serguei Prokofiev, na Bastilha. Era 1998, a União Soviética havia desaparecido, e a Rússia estava humilhada e destruída. A ópera estreou no Teatro Maly, em Leningrado, no dia 12 de junho de 1946, pouco depois da expulsão das tropas alemãs e da vitória russa na Segunda Guerra Mundial. Conta a história da invasão e expulsão das tropas francesas e da vitória da Rússia na guerra contra Napoleão Bonaparte, em 1812. Na última cena, o povo e os soldados russos cantam juntos uma peroração apoteótica, proclamando a eternidade do “espírito russo”. Com força, emoção, convencimento: inesquecível. E, de fato, depois da destruição de 1812, a Rússia reconstruiu-se e se transformou numa das principais potências européias do século 19. Após 1945, a União Soviética voltou a levantar e se transformou na segunda potência militar e econômica do mundo, na segunda metade do século 20. A exemplo de como já havia acontecido antes, em 1709, depois invasão e expulsão das tropas suecas de Carlos XII, por Pedro o Grande, quando a Rússia começou sua fantástica modernização do século 18.

Em 1998, depois da derrota soviética e da destruição liberal da economia russa, parecia impossível que isso pudesse acontecer de novo. Dez anos depois, entretanto, no momento da posse do seu terceiro presidente republicano, Dmitri Medvedev, o país está novamente de pé, e o “espírito russo” volta a assustar os europeus e preocupar o mundo. O jornal Financial Times publicou recentemente um caderno especial sobre a Rússia, onde afirma que “nem Bruxelas nem Washington estão sabendo como tratar com a Rússia, depois de Vladimir Putin, porque a Rússia está cada vez mais disposta a retomar sua posição no mundo, em particular nos países da antiga União Soviética” [1].

Em 1991, imediatamente depois da dissolução da União Soviética, os Estados Unidos e a União Européia atribuíram-se a tarefa de “administrar” a desmontagem do “império russo”. Por causa das conseqüências econômicas da queda e do problema geopolítico da Europa Central. Para os Estados Unidos, o objetivo fundamental era impedir o surgimento de uma “terra de ninguém” no leste europeu. Por isso, lideraram a expansão imediata das fronteiras da OTAN e a ocupação das posições militares que haviam sido abandonadas pelos soviéticos na Europa Central. Tal ofensiva estratégica da OTAN e da União Européia, e sua posterior intervenção militar nos Bálcãs, foi uma humilhação para os russos e provocou uma reação imediata e defensiva, que começou exatamente pela vitória eleitoral de Vladimir Putin, em 2000, e a retomada de uma estratégia militar agressiva pelo seu governo, depois de 2001. Durante seus dois governos sucessivos, o presidente Putin manteve a opção pela economia de mercado, mas rescentralizou o poder e reconstruiu o estado e a economia russa. Refez o complexo militar-industrial e nacionalizou os recursos energéticos. A Rússia ainda detém o segundo maior arsenal atômico do mundo, e o governo Putin aprovou uma nova doutrina militar que autoriza o uso de armamento nuclear, mesmo no caso de um ataque convencional à Rússia, no caso em que fracassem outros meios para repelir o agressor.

O PIB está prestes a superar o da França. Os salários cresceram seis vezes, em dólar. A reserva de moeda estrangeira é a terceira do mundo e trabalha-se para reduzir a dependência tecnológica
Além disso, o novo governo russo alertou os Estados Unidos — ainda no ano 2000 — para a possibilidade de uma corrida nuclear, caso insistissem no seu projeto de criação de um “escudo anti-balístico” na Europa Central. O interessante, do ponto de vista da história russa, é que depois de 2001, como no passado, também a economia russa recuperou-se e voltou a crescer à uma taxa média anual de 7%, puxada pelos preços do petróleo e das commodities, e sustentada por um boom de consumo e investimento interno. Tal crescimento – liderado pelas grandes empresas estatais do setor de energia e armamentos — permitiu que PIB da Rússia superasse o da Itália, devendo ultrapassar o da França nos próximos dois anos. Dez anos depois da sua moratória, a Rússia detém a terceira maior reserva em moeda estrangeira do mundo, depois da China e do Japão, e seus salários subiram de uma média de U$ 80 dólares por mês, no ano de 2000, para U$ 640, no ano de 2007, quando a economia russa alcançou seu nível de atividade anterior à grande crise. E nesse clima de boom econômico, o novo presidente Dmitri Medvedev convocou, recentemente, os empresários russos a copiar o modelo chinês e aderir à onda global de aquisição de empresas estrangeiras, para acelerar ainda mais a economia russa, e reduzir a sua dependência tecnológica.

Ou seja, quinze anos depois da derrota e do colapso da União Soviética, o estado russo retomou o comando de sua economia e de sua inserção internacional. E tudo indica, nesse início do século 21, que está recuperando sua importância estratégica, como maior estado territorial do mundo, o único com capacidade de intervenção por terra, por meio de suas próprias fronteiras, em todo o continente eurasiano. Por isso, é uma rematada bobagem falar da Rússia como uma potência ou uma economia emergente, quando, na verdade, se trata de uma velha e grande potência que está reocupando sua posição tradicional, na Europa, Ásia Central e Oriente Médio.

Mas nenhum analista internacional consegue prever os caminhos futuros da nova ressurreição do “espírito russo”, até porque a Rússia sempre foi mais misteriosa e imprevisível do que a União Soviética. Há algumas semanas, Andre Klimov, líder liberal da Duma, afirmou que seria um erro grave, nesse momento, alguém pensar que possa “fazer com a Rússia o que bem entenda” [2]. Palavras que soam como uma advertência suave, como quem quisesse relembrar, às demais potências, a mensagem final de Serguei Prokofiev, na sua grandiosa ópera Guerra e Paz: o “espírito russo é eterno” e ressurgirá sempre, e com mais força, toda vez que o seu sagrado território for invadido; ou que o povo russo for humilhado, como aconteceu várias vezes, na história, e voltou a acontecer, no final do século 20.

Mais:
José Luís Fiori é colaborador do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique.

Textos anteriores:

Provavelmente, Deus não é africano
A economia do continente já cresce 5,5% ao ano, duas vezes mais que em 1990. Mas há algo grave por trás dos números: a África caminha para ser, pela terceira vez, o espaço privilegiado de uma grande competição imperialista, o palco em que as potências disputarão riquezas e posições militares

Sobre crises, hecatombes e ilusões
As teorias que falam na necessidade de uma grande potência econômica mundial — e, vêem, hoje, o “ocaso” dos EUA — não respondem a duas questões. Quem substituiria os norte-americanos? E como funcionaria o novo sistema monetário e financeiro internacional, depois do dólar?

Cuba e EUA, aproximação improvável
Desde 1819, os EUA desejam Cuba. Tal obsessão permanente não autoriza grandes ilusões de mudanças nas relações entre os dois países. Para Washington, a ilha lhes pertence. E esta não tem como abrir mão do poder que acumulou, a partir de sua posição defensiva e resistência vitoriosa

Os “poliglotas descalços”
Henry Kissinger será lembrado tanto pela diplomacia pouco convencional e extremamente ágil que praticou quanto pelo lado sangrento de suas decisões e iniciativas. Ainda muito influente, ele jamais escondeu a importância que têm, para os EUA, políticos latino-americanos como Carlos Menem e FHC

Nicholas Spykman e a América Latina
O grande teórico da “escola norte-americana de geopolítica” nasceu na Holanda e viveu apenas 49 anos — mas seu pensamento alimenta até hoje a estratégia de poder global dos EUA. Ele dedicou especial atenção à “luta pela América do Sul”

O novo mosaico global, visto por Fiori
Num depoimento especial, um dos mais importantes cientistas sociais brasileiros antecipa o sentido de seu novo livro, que descreve um início de século já marcado por duas grandes reviravoltas, e lança nova contribuição ao debate sobre a “hegemonia norte-americana”

[1] Financial Times, Rússia, Special Report, 18 de abril de 2008, p:3

[2] Idem.

Le Monde Diplomatique

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Preço dos combustíveis e mudança climática abalam o “american way of life”

O preço do petróleo e a mudança climática põem em xeque o modelo urbanístico dos EUA, baseado em grandes áreas residenciais. Levittown, o primeiro subúrbio residencial, lidera uma pequena revolução para reduzir o consumo

Marc Bassets
Em Levittown, Nova York

Em uma das ruas principais de Hicksville, um povoado de Long Island a uma hora do centro de Nova York, há um cartaz que recomenda aos motoristas: “Troquem o posto de gasolina pela estação de trem”.

Com os preços dos combustíveis na estratosfera e a ameaça de mudança climática fora de discussão, cada vez mais habitantes dessa região formada por quilômetros e quilômetros de zonas residenciais estão conscientes da necessidade de mudar de estilo de vida. Mesmo que seja por causa da conta de gasolina.

Long Island ainda é a pátria das urbanizações características da classe média norte-americana, com casas de dois andares e jardins construídas no final da Segunda Guerra Mundial, coincidindo com o regresso de centenas de milhares de soldados e o início de uma longa era de prosperidade.

Carro passa ao lado de posto de gasolina na Pacific Coast Highway, na Califórnia

Mas Suburbia -o nome dessa cidade imaginária que se estende de Long Island à Califórnia, de Chicago ao Texas- passa por um mau momento. Desde que foi criado há 60 anos, no que era um campo de batatas perto de Hicksville, Levittown, considerado o primeiro bairro residencial do país, Suburbia foi o cenário do “American way of life”. Um estilo de vida indissociável da dependência do petróleo e do consumo energético desenfreado.

A construção das urbanizações e a rede de autopistas ocorreram paralelamente. Sem as primeiras não se entende a dependência do automóvel pelos americanos. Quem vive em uma dessas áreas -e mais da metade dos 300 milhões de americanos vivem nelas- precisa do carro para ir comprar e trabalhar.

Viver sem automóvel? Nem em Levittown é possível. “É muito difícil”, diz Louise Cassano, ao volante de seu carro enquanto conduz o visitante pelas ruas do bairro prototípico.

Cassano, casada e com dois filhos já adultos, mora aqui desde 1951. Quatro anos antes, a empresa familiar Levitt & Sons começou a construir as 17 mil casas para outras tantas famílias jovens que começavam do zero. Não está claro se Levittown foi realmente o primeiro, mas serviu de modelo para as centenas de subúrbios que brotaram por todo o país.

Quando Cassano, que tem uma pequena empresa de relações públicas, chegou aqui, procedente do bairro nova-iorquino do Brooklyn, era menina. Seu pai era bombeiro e usava o único carro que havia na casa.

“Não havia serviço telefônico. Os serviços de ônibus eram horríveis. Íamos sempre andando”, lembra.

As vantagens de viver em Levittown, porém, eram indiscutíveis. A área residencial representava o sonho da casa com jardim ao alcance de todos. Longe da sujeira e do ruído urbanos, o ambiente era limpo e seguro.

“Nunca trancávamos a porta”, diz Cassano. Com os anos, os moradores dessas regiões compraram outro carro. A gasolina era “de graça”. A era de Levittown também foi a dos “malls”, os imensos centros comerciais que serviram de rua principal dos bairros residenciais.

Enquanto ocorria o êxodo para a periferia, o centro das cidades empobreceram e foram tomados pela violência e o abandono.

O crescimento dos subúrbios tinha limites. Em seu livro “A Opção do Urbanismo”, o urbanista Christopher B. Leinberg afirma que essa evolução “fomentou a decadência urbana, aumentou as emissões de gases do efeito estufa e contribuiu para o aumento da obesidade e da asma”.

Leinberg acredita que o esgotamento do modelo energético, as mudanças demográficas -a proporção de famílias com filhos diminuiu- e a crise imobiliária vão acelerar uma “mudança importante na maneira de viver e trabalhar de muitos americanos”.

Para reduzir drasticamente as emissões, seria preciso uma revolução: ou construir uma rede de transportes públicos que alcançasse todos os subúrbios do país -coisa improvável, nem que seja pelas dimensões dessas áreas residenciais-, ou que seus habitantes voltassem de repente para o centro das cidades. O repovoamento das cidades já é um fato, mas dificilmente representará a morte dos subúrbios.

Enquanto isso, em Levittown buscam soluções mais realistas. Pioneiros há 60 anos, querem voltar a sê-lo agora. Tom Suozzi, o presidente do condado de Nassau, onde se encontra Levittown, lançou uma iniciativa para revigorar a área. Associado a empresas privadas, o condado ofereceu milhares de lâmpadas de baixo consumo, assim como facilidades para substituir as velhas caldeiras ou instalar painéis solares.

Os Cassano trocaram as lâmpadas há dez anos e instalaram um aparelho para economizar combustível para a caldeira, o que reduz ao mesmo tempo a poluição e a conta de energia no fim do ano.

“Temos de recrutar os americanos comuns”, diz Brad Tito, assessor de Suozzi em questões ambientais. “As mudanças começam em casa.”

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
La Vanguardia

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Por que o petróleo está ficando caro? Escassez, especulação ou manipulação?

O aumento da negociação de contratos futuros de petróleo tem contribuído para a alta dos preços. Mas até o momento não há evidência de estocagem

Moira Herbst*

Especulação. Manipulação. Enquanto políticos, empresários e consumidores comuns tentam entender as causas e efeitos do aumento histórico nos preços do petróleo, a atenção se volta para as noções sombrias de manobras financeiras exploradoras.

Estarão investidores hábeis lucrando -ou até mesmo monopolizando uma parcela do mercado- e assim contribuindo para a alta dolorosa que está afetando a todos, de companhias aéreas a motoristas nas bombas de gasolina?

Adotando um tom populista em sua campanha presidencial, a senadora Hillary Clinton (democrata de Nova York) pediu por uma “repressão à especulação dos investidores em energia e à manipulação dos mercados de petróleo e gás”. O vice-presidente sênior da ExxonMobil, J. Stephen Simon, tentando se esquivar das críticas aos lucros das companhias de petróleo, disse a um comitê do Senado, em 21 de maio, que a especulação, juntamente com instabilidade geopolítica e o dólar desvalorizado, criaram uma “desconexão” entre os padrões de preço do passado e o preço atual de US$ 131 o barril. Motivado por um desejo semelhante de desviar o ultraje para outra direção, o secretário-geral da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), Abdalla El Badri, também destacou o papel dos especuladores na alta dos preços.

Quando o petróleo sobe tanto quanto recentemente, dobrando desde maio de 2007, é natural presumir que algo significativo deve ter mudado. Alguns dizem que o mundo está ficando sem o produto; outros culpam a manipulação do mercado. A busca por um culpado é compreensível.

Mas evidência persuasiva da manipulação por investidores é, até o momento, inexistente. Especulação -fazer apostas nos preços futuros- é outra coisa. Há muito disso, e geralmente é legal. Na verdade, há um bom argumento, apesar de não haver prova conclusiva, de que a escalada acentuada no comércio de contratos futuros de petróleo tem contribuído para os aumentos dos preços. Mas é importante lembrar que a natureza do mercado de petróleo -especificamente, a extrema inflexibilidade tanto na oferta quanto na demanda- está amplificando qualquer influência que os especuladores estejam exercendo nos preços.

Pois para haver manipulação real, os especuladores teriam que manter quantidades substanciais de petróleo fora do mercado, planejando descarregá-lo no futuro. Jeff Bingaman, democrata do Novo México e presidente do Comitê de Energia do Senado, sugeriu que uma recente tendência dos investidores institucionais de adquirir capacidade de estocagem de petróleo cria “preocupações em relação a potenciais estratégias de manipulação do mercado”. Em uma carta em 27 de maio, ele repreendeu as autoridades da Comissão de Comércio de Commodities e Futuros (CFTC) pelo seu depoimento “altamente incompleto” durante recentes audiências sobre especulação de petróleo. Ele exigiu mais informações sobre como a agência monitora o mercado.

Mas suspeita não é o mesmo que evidência. Até o momento, ninguém apontou para exemplos específicos de estocagem. Os especialistas da CFTC disseram que as forças do mercado estão elevando os preços. A agência disse que está trabalhando em uma resposta à carta de Bingaman.

O que pode ser corroborado é que fundos hedge, bancos de investimento, fundos de pensão e outros investidores profissionais estão despejando quantidades cada vez maiores de dinheiro em petróleo e outras commodities, buscando uma proteção contra a inflação e alternativas a um mercado de ações instável. Nos últimos cinco anos, o investimento em fundos de índices ligados aos preços das commodities cresceu de US$ 13 bilhões para US$ 260 bilhões. Mais de 630 fundos hedge de energia estão fazendo apostas, em comparação a apenas 180 em 2004, segundo Peter C. Fusaro, fundador do Energy Hedge Fund Center, um site de informação de investimento.

Os corretores de contratos futuros na IntercontinentalExchange fizeram apostas em petróleo em um valor total de US$ 8 trilhões em 2007, em comparação a US$ 1,7 trilhão em 2005, segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos. No mesmo período, o volume de contratos futuros negociados na Bolsa Mercantil de Nova York mais que dobrou, apesar de números em dólares não estarem disponíveis. O mercado de balcão é ainda maior, mas difícil de medir.

Com o crescente aumento da demanda de energia pela China e com a oferta mundial estagnada, o afluxo de dinheiro tem contribuído para a alta dos preços. “Os fundos hedge e especuladores provocaram uma alta bem maior do que deveria”, disse Malcolm M. Turner, presidente da Turner, Mason & Co., um firma de consultoria de refino, em Dallas.

Na maioria dos mercados, a alta dos preços resultaria em maior oferta e diminuição da demanda. Isto estabilizaria os preços. Mas o mercado de petróleo não está funcionando desta forma. A oferta está basicamente fixada a curto prazo, porque são necessários anos para encontrar novos campos e colocá-los em operação. Enquanto isso, a demanda também é fixa, já que não há pronto substituto para a gasolina, diesel e combustível para jatos. Cheios de dinheiro de investidores de todo tipo, os corretores atentos a estas condições têm apostado na alta dos preços.

É difícil calibrar a influência da especulação, porque grande parte do mercado de petróleo não é regulado. Essa nebulosidade quase que assegura que as teorias de conspiração continuarão proliferando.

*Peter Coy e Christopher Palmeri contribuíram com a reportagem

Tradução: George El Khouri Andolfato