Arquivo de 14 de Maio de 2008

Operação Condor: Documento dos EUA prova ação brasileira

Papel inédito obtido no Departamento de Estado norte-americano mostra participação direta do Brasil na Operação Condor

Para o americano Peter Kornbluh, especializado em assuntos da operação, país deveria abrir seus arquivos, mas está no “fim da fila”

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Sim, o Brasil participou ativamente da Operação Condor. E, sim, agora, mais do que nunca, o governo precisa abrir ao público os arquivos classificados do período do regime militar (1964-1982). As frases são do maior especialista norte-americano em Operação Condor, o historiador Peter Kornbluh, do Arquivo de Segurança Nacional, em Washington. A primeira ele prova enviando à Folha um documento que a organização não-governamental ligada à Universidade George Washington conseguiu que fosse desclassificado pelo Departamento de Estado norte-americano (veja reprodução nessa página). Autor de “The Pinochet File” (O Arquivo Pinochet, New Press, 2003), Kornbluh coordena o site recém-inaugurado da instituição dedicado à operação. A segunda ele diz em entrevistas ao jornal, ontem e anteontem. Leia abaixo:

FOLHA - O fato de brasileiros estarem na lista dos mandados de prisão expedidos pela Justiça italiana comprova uma participação mais efetiva do país na Operação Condor, algo que o regime militar sempre negou?

PETER KORNBLUH - Em nosso trabalho nos arquivos nós encontramos alguns documentos que detalham a participação do país na operação, alguns inclusive do chamado Arquivo do Terror paraguaio, que acabamos de colocar no ar. Mas, é claro, a maior fonte de informações ainda está nos arquivos do governo brasileiro, nos arquivos de inteligência militar do governo brasileiro.

FOLHA - Quanto à participação efetiva do Brasil, a versão corrente é que se tratava só de apoio logístico, troca de informações. Há documento que sugere algo diferente?
KORNBLUH - Há alguns enviados por funcionários do governo norte-americano, mas o mais importante é o que conseguimos no Departamento de Estado. Datado de 20 de julho de 1976, chega ao mesmo tempo em que relatórios da CIA e do Pentágono começam a dar uma noção mais exata ao governo dos EUA sobre as atividades da operação. [Ele lê o documento, que diz que o Brasil passaria a ser um “membro integral”; veja reprodução nessa página]. Até então, os relatórios diziam que o Brasil colaborava na Operação Condor “com exceção de operações de assassinatos”. Ainda assim, pode-se argumentar que uma operação de seqüestro no Brasil acabava em assassinato do mesmo jeito.

FOLHA - Seria a “pistola fumegante”, na sua opinião?
KORNBLUH - Seria, sim.

FOLHA - Por que a Argentina e o Paraguai foram mais rápidos e receptivos do que o Brasil em colocar os arquivos à disposição do público?
KORNBLUH - Houve uma retomada recente no movimento pelo direito de saber no Brasil, e esse movimento está trabalhando para pressionar o governo para desclassificar os documentos e permitir de verdade o acesso do público aos arquivos. O movimento renasceu em toda a América Latina. O Brasil está atrás de países como o Paraguai, que descobriu o chamado Arquivo do Terror nos anos 90 e desde sexta-feira o expõe ao mundo pela internet, o Chile tem uma lei de liberdade de informação que ainda não resultou na reabertura de nenhum arquivo significativo. Mas o Brasil deveria ser o líder nesse processo e até agora está no fim da fila. Suspeito que é uma questão que o governo de Lula não vê como importante para não criar uma crise ou um conflito ou um problema com os militares brasileiros. Em outros países, os militares têm sido desacreditados durante o processo. O único que lida com isso diferentemente é o Brasil, que insiste em salvaguardar os arquivos. É um direito dizer que esse é um governo civil, os arquivos do passado pertencem ao povo brasileiro.

FOLHA - Na lista de nacionalidades dos mandados de prisão não há nenhum norte-americano. Como?
KORNBLUH - Os EUA, especialmente no meio dos anos 70, certamente tinham laços com os governos da Operação Condor. Abro o meu livro com uma frase tirada do primeiro resumo secreto feito a Henry Kissinger sobre a Operação Condor, em agosto de 1976, por seu secretário assistente, Harry Shlaudeman. “Internacionalmente, os generais latinos parecem “gente nossa” [”our guys”, no original em inglês]. Somos particularmente identificados com o Chile. Isso não nos vai fazer bem.” Então, os EUA sabiam que tinham ligações com esses países. Mas, por toda a pesquisa que fizemos, nunca houve indicação de que funcionários do governo norte-americano estivessem diretamente envolvidos nessas atividades de seqüestros e assassinatos.
Com uma exceção. Foi a de um agente FBI, num caso muito conhecido no Chile, de Jorge Isaac Fuentes de Alarcon, que foi preso e interrogado no Paraguai por agentes da polícia secreta argentina, paraguaia e chilena e então desapareceu depois de entregue ao Chile. Aqui, um agente do FBI teve conhecimento do interrogatório e forneceu ao Chile informações sobre Alarcon.
Há ainda a questão de Kissinger, cujo papel foi questionado por juízes, inclusive no Brasil. Há alguns anos, iria receber uma medalha do governo brasileiro. A informação vazou, começou a se articular um protesto e houve indicação de que um juiz brasileiro poderia interrogá-lo. Ele cancelou a viagem.

Folha de S. Paulo - 27 de dezembro de 2007

Comentários

O pesadelo da “operação Condor”

Em 1960, um general norte-americano convidou seus colegas latino-americanos para uma reunião onde se discutiriam problemas comuns. É a partir dessas reuniões, um pouco obsessivas, que se situa o coração do que se tornaria um dia a operação Condor
Pierre Abramovici

“Nós, chilenos, como todos os povos do Ocidente, combatemos as ditaduras dos ’ismos’ e os agentes estrangeiros que ameaçam o nosso país. Devemos combatê-los com todas as forças, tendo como arma principal a cooperação entre as polícias de toda América.”1

As origens do que seria um dia a operação Condor podem ser da época em que Hollywood produzia filmes patrióticos intitulados “Por uma defesa comum”
O “señor Castillo, do serviço de segurança chileno”, está com os olhos fixos no espectador. O filme se intitula O crime não compensa. Estamos em plena II Guerra Mundial e Hollywood fabrica pequenos filmes patrióticos intitulados “Por uma defesa comum”. Inspirados pelo FBI, pretendem ser um ataque contra os espiões nazistas na América Latina e uma ilustração da cooperação dos serviços policiais e de segurança em escala continental.

Poderíamos dizer que as origens do que iria ser a operação Condor datam dessa época: um vasto plano de repressão continental, posto em prática pelas ditaduras latino-americanas nos anos 1970-1980. Somente a cor do “ismo” mudou, passando do pardo ao vermelho.

O ovo do condor
A descoberta acidental de duas toneladas de arquivos numa delegacia paraguaia permitiu reconstituir as atividades criminosas de uma rede internacional
Foi a descoberta, por acaso, em fins de dezembro de 1992, de duas toneladas de arquivos da ditadura Stroessner numa delegacia de Lambaré, subúrbio de Assunção (Paraguai), que permitiu reconstituir, em um primeiro momento, as atividades criminosas desta rede internacional. O deslocamento de documentos da CIA referentes ao Chile, no dia 13 de novembro 2000, confirmou e detalhou o conteúdo desses “arquivos do terror”.

Desde a Conferência Pan-Americana de Chapultepec, no México, em fevereiro de 1945, os Estados Unidos vinham alertando os militares sul-americanos contra o comunismo. Nessa perspectiva, acordos bilaterais de assistência militar seriam efetivamente assinados em 1951: fornecimento de armas e financiamento norte-americano, presença de assessores militares e treinamento de oficiais latino-americanos nos Estados Unidos e na Escola das Américas, na zona norte-americana do canal do Panamá.

A revolução castrista, em 1959, evidentemente precipitou o movimento para uma “defesa continental contra o comunismo”. Em 1960, o general Theodore F. Bogart, comandante da US Southern Command (Comando Sul do exército dos Estados Unidos), com base na Zona do Canal, no Panamá, convidou seus colegas latino-americanos para uma reunião “amigável” onde se discutiriam problemas comuns. Dessa forma nasceram as Conferências dos exércitos americanos (CEA). Realizadas todos os anos em Forte Amador (Panamá) e depois, em 1964, em West Point, as reuniões se tornam mais espaçadas a partir de 1965 e passam a ser organizadas a cada dois anos. É aí, nessas reuniões um pouco obsessivas, típicas da guerra fria e raramente abertas ao público, que se situa o coração do que se tornaria um dia a operação Condor.

A rede “Agremil”
Desde a Conferência de Chapultepec, no México, em fevereiro de 1945, os Estados Unidos vinham alertando os militares sul-americanos contra o comunismo
Além do MCI (Movimento comunista internacional, sigla cômoda para designar todos os opositores), os militares latino-americanos compartilhavam de uma obsessão maior: a interconexão dos serviços. Desde sua segunda reunião, a CEA exprime o desejo de estabelecer um comitê permanente na zona do canal de Panamá “para trocar informações e dados.”2 Esta vontade vai se realizar principalmente na organização de uma rede de comunicação em escala continental e a encontros bilaterais ultra-secretos (Argentina-Paraguai, Brasil-Argentina, Argentina-Uruguai, Paraguai-Bolívia etc.) para informações.

Emitidas por um determinado país para um ou muitos outros, as fichas de informações circulavam através da rede “Agremil” — de agregados militares (adidos militares). Originadas geralmente nos serviços secretos militares (G-2), elas podem vir de polícias políticas ou mesmo de serviços menos oficiais, como a Organização de Coordenação de Operações Antisubversivas (OCOA), um esquadrão da morte originário da polícia política uruguaia, cujos membros participam dos interrogatórios, da tortura e de execuções, principalmente na Argentina.3

Esquadrões da morte “oficiais”
As conferências dos exércitos americanos (CEA) começaram por ser realizadas em Forte Amador (Panamá), e a partir de 1964, em West Point
Por ocasião da X reunião da CEA, ocorrida em Caracas no dia 3 de setembro de 1973, o general Breno Borges Fortes, chefe do Estado-Maior do exército brasileiro, admite que a estratégia de luta contra o comunismo é da competência exclusiva das forças armadas de cada país mas que, “no que diz respeito ao aspecto coletivo, estimamos que somente são eficazes (…) a troca de experiências ou de informações e a ajuda técnica na medida em que esta for solicitada.”4 É tomada a decisão de “dar mais força à troca de informações para enfrentar o terrorismo e (…) controlar os elementos subversivos em cada país.”5

Enquanto o sub-continente cai progressivamente nas garras de regimes militares inspirados no exemplo brasileiro, a Argentina passa por uma curiosa transição entre a volta ao poder de Juan Domingo Perón, em 1973, e o golpe de 1976. A polícia e as forças armadas autorizam o desenvolvimento de esquadrões da morte originários de suas fileiras, como a Aliança Anticomunista Argentina (AAA, ou Triple A). Entretanto, a Argentina continua sendo o único país do Cone Sul onde podem encontrar asilo milhares de refugiados, principalmente chilenos e uruguaios, vítimas da perseguição política e social.

O assassinato de Prats
Além do Movimento Comunista Internacional (MCI), os militares latino- americanos compartilhavam de uma obsessão maior: a interconexão dos serviços
No início de março de 1974, representantes das polícias do Chile, Uruguai e Bolívia se reúnem com o sub-chefe da polícia federal argentina, delegado Alberto Villar (co-fundador da Triple A), para estudar a maneira pela qual poderiam colaborar para destruir o “foco subversivo” que constitui, em sua opinião, a presença destes milhares de “subversivos” estrangeiros na Argentina. O representante do Chile, um general dos carabineiros, propõe “credenciar em cada embaixada um agente secreto, que poderia pertencer seja às Forças armadas ou à polícia, e cuja função principal seria a de assegurar a coordenação com a polícia ou o representante da Segurança de cada país”. E o general acrescenta: “Deveríamos dispor igualmente de uma central de informações onde pudéssemos buscar informações sobre indivíduos marxistas (…), trocar programas e informações sobre pessoas políticas (…). Seria necessário podermos entrar e sair da Bolívia, passar da Bolívia para o Chile e de lá voltar à Argentina. Em suma, nos deslocarmos em qualquer desses países sem necessidade de um pedido formal.”6

O delegado Villar promete que o Departamento de Assuntos Estrangeiros (DAE) da Superintendência de Segurança da polícia federal argentina se ocupará dos estrangeiros que interessam às ditaduras vizinhas. Em agosto desse ano, começam realmente a aparecer, nos depósitos de lixo de Buenos Aires, os primeiros cadáveres de refugiados estrangeiros, principalmente bolivianos. No dia 30 de setembro, na capital argentina, uma bomba colocada por um comando chileno e um agente (ou ex-agente) da CIA, Michael Townley, mata o general Carlos Prats, ex-comandante em chefe do exército durante o governo da Unidade Popular e principal adversário do general Augusto Pinochet.

Um Estado dentro do Estado
Emitidas por um país para vários outros, as fichas de informações circulavam através da rede “Agremil” — de agregados militares (adidos militares)
Comandos policiais ou militares atravessam fronteiras sem qualquer dificuldade. Durante os meses de março e abril de 1975, por exemplo, mais de vinte e cinco uruguaios são presos em Buenos Aires por policiais argentinos e uruguaios. Nas delegacias de polícia argentina, os policiais uruguaios participam dos interrogatórios.7 Jorge Isaac Fuentes Alarcón, militante argentino, foi preso pela polícia paraguaia após passar a fronteira deste país. Como estabeleceria a Comissão Retting — Comissão Nacional de Verdade e Reconciliação Chilena — em seu relatório enviado ao presidente Patrício Aylwin no dia 8 de fevereiro de 1991,8 o interrogatório do preso foi feito pela polícia paraguaia, pelos serviços secretos argentinos e… por funcionários da embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires, que transmitiram à polícia chilena as informações obtidas. Alarcón seria em seguida entregue aos agentes da Direção de Informações Nacionais (Dina chilena) presentes no Paraguai, e transferido para o Chile.

Pois, neste meio tempo, o Chile aperfeiçoou o sistema. Depois do golpe de 11 de setembro de 1973 — pelo qual o presidente norte-americano Richard Nixon e seu secretário de Estado Henry Kissinger têm responsabilidade direta —, o general Pinochet confiou plenos poderes ao coronel Manuel (Mamo) Contreras para “extirpar o câncer comunista” do país. Rapidamente, a Dina se transformou num Estado dentro do Estado.

A exceção venezuelana
A Organização de Coordenação de Operações Antisubversivas, um esquadrão da morte uruguaio, participava dos interrogatórios, da tortura e das execuções
A grande presença no exterior de opositores irredutíveis constitui um dos principais problemas da ditadura chilena. Ela consegue assassinar o general Prats, mas os anticastristas cubanos recrutados em fevereiro de 1975 fracassam na tentativa de execução de Carlos Altamirano e Volodia Tetelboim, respectivamente líderes dos partidos Socialista e Comunista chilenos no exílio. No início de agosto, o coronel Contreras efetua uma viagem destinada a convencer os serviços de segurança de toda a América Latina a criarem uma força especial anti-exilados. Ainda se deu ao trabalho de ir à sede da CIA em Washington, no dia 25 de agosto, onde se encontrou com Vernon Walters, sub-diretor encarregado da América Latina.

Dois dias mais tarde ele visitaria, em Caracas, Rafael Riva Vasquez, diretor adjunto dos serviços secretos venezuelanos, a Disip: “Ele explicou (…) que desejaria ter agentes nas embaixadas chilenas no exterior, que já tinha a confiança de funcionários das embaixadas prontos para servirem de agentes, se necessário. Disse que fez várias viagens coroadas de êxito para conseguir o apoio de diferentes serviços secretos latino-americanos. Tudo isso na base de acordos verbais.”9 Segundo Rivas, o governo venezuelano deu ordem à Disip de rechaçar as propostas do coronel Contreras. Seria a única recusa. Todos os outros países (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia) aceitam.

A versão chilena da operação Condor
O general Borges Fortes, chefe do Estado-Maior do exército brasileiro, disse que a luta contra o comunismo é da competência exclusiva das forças armadas
Paralelamente, é dada a ordem para concretizar uma rede na Europa. Esta se articula junto a terroristas italianos de extrema-direita. Não podendo eliminar Carlos Altamirano — que vivia na República Federal Alemã, sob escolta armada —, esses assassinos optam por Bernardo Leighton, ex-vice-presidente do Chile e um dos fundadores do Partido Democrata-Cristão. No dia 6 de outubro de 1975, Leigthon e sua esposa são atacados em Roma por um comando fascista. Salvam-se, mas a sra. Leighton ficaria paralisada para o resto da vida. Apesar do fracasso, o general Pinochet encontra-se com o chefe dos comandos italianos, um certo Stefano Delle Chiaie, que aceita em ficar à disposição dos chilenos.

Por ocasião de sua reunião de 19 a 26 de outubro de 1975 em Montevidéu, a CEA aprova a organização de uma “primeira reunião de trabalho sobre informação nacional” preparada pelo coronel Contreras, de 25 de novembro a 1º de dezembro de 1975. Ela tem “um caráter estritamente secreto”. A principal proposta do coronel Contreras visa à criação de um arquivo continental, “algo, em linhas gerais, parecido ao que a Interpol tem em Paris, mas especializado em subversão”. Nascia a operação Condor, versão chilena.

A fase três do Condor
A polícia e as forças armadas argentinas autorizaram, em 1976, o desenvolvimento de esquadrões da morte originários de suas fileiras, como a Triple A
Segundo a CIA — que garante nunca ter realmente ouvido falar a respeito até 197610 -, três países membros da operação Condor (o Chile, a Argentina e o Uruguai) “teriam ampliado suas atividades de cooperação antisubversiva para incluir o assassinato de terroristas de alto escalão no exílio na Europa”. Embora se considerasse, há muitos anos, que a troca de informações se deveria processar de maneira muito mais bilateral, “uma terceira e muito secreta fase da operação Condor teria concebido a formação de equipes especiais, vindas dos países membros, implicadas em operações que incluiriam assassinatos de terroristas ou simpatizantes de organizações terroristas. Por exemplo, se um terrorista ou um simpatizante de uma organização terrorista de um país membro fosse identificado, uma equipe especial seria mandada para localizar e vigiar o alvo. Enquanto a localização e a vigilância fossem efetuadas, uma segunda equipe seria enviada para executar a operação. A equipe especial contaria com documentos falsos originários de países membros. Ela poderia ser composta de indivíduos vindos de uma ou muitas nações membros”.

Para a CIA, o centro operacional desta “fase três” se situa em Buenos Aires onde uma equipe especial teria sido constituída. Enquanto isso, as reuniões bilaterais da CEA continuam entre os diferentes países do Cone Sul e suas conseqüências também são brutais.11

Le Monde Diplomatique

Comentários

Ato em Solidariedade ao Povo Palestino

SEXTA-FEIRA, 16 DE MAIO

17h00 - São Paulo

Ato em Solidariedade ao Povo Palestino. 60 anos de genocídio contra o povo palestino. 60 anos de terrorismo praticado pelo Estado de Israel. 60 anos de resistência palestina.

Organização: Mopat (Movimento Palestina para Tod@s)

Apoio: ICArabe (Instituto da Cultura Árabe); Sociedade Árabe-palestina de São Paulo; PSOL (Partido Socialismo e Liberdade); SBM (Sociedade Beneficente Muçulmana); Assisp (Associação Islâmica de São Paulo); PCdoB-SP (Partido Comunista do Brasil); CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil); Revolutas; MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra); Conlutas (Coordenação Nacional de Lutas); PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado); Marcha Mundial de Mulheres; SOF (Sempreviva Organização Feminista); Uemb (União dos Estudantes Muçulmanos do Brasil); CUT (Central Única dos Trabalhadores); Casa de Cultura Santa Tereza; Projeto Arte e Cidadania; Comitê Democrático Palestino.

Contatos para mais informações: Soraya Misleh (11) 7663-1907 / Arturo Hartmann (11) 7607-9095.

Local da Manifestação: Vão livre do Masp (Av. Paulista, São Paulo/SP) - a partir das 17h

Comentários (2)

Curso gratuito: ‘A Perspectiva da Emancipação Humana: uma introdução ao pensamento de Karl Marx’

ATÉ 17 DE JUNHO

19h30 às 22h00 - São Paulo

O Coletivo de Teatro Núcleo 2 e a ONG Mudança de Cena, em parceria com a Ação Educativa, realizam o curso A Perspectiva da Emancipação Humana: uma introdução ao pensamento de Karl Marx, integrante do programa Circuito Popular de Teatro, com o suporte do Fundo Nacional de Cultura.

Trata-se de um curso de introdução ao pensamento marxista e as questões suscitadas por este pensamento no século XX e XXI, como as tentativas de socialismo no século XX, a determinação social do pensamento e a crítica da economia política no sistema capitalista.

Ministrado por Diego Maia, Tomás Bastian de Sousa, Ana Cotrim, Daniel Fonseca e Vera Cotrim, o curso é gratuito e é direcionado a educadores de todas as áreas e ao público em geral, e a participação é GRATUITA.

Segue abaixo o cronograma e os temas de cada aula:

15 de maio: Marx: as três críticas - política, especulação, economia política

20 de maio: O “Manuscrito de 1844″ de Karl Marx

27 de maio: Emancipação política e emancipação humana

29 de maio: Marx e os direitos humanos

03 de junho: A crítica das tentativas de socialismo do século XX

05 de junho: Marx e a superação do Idealismo: a atividade prática sensível

10 de junho: Marx e o problema da decadência ideológica

12 de junho: Trabalho produtivo em Marx

17 de junho: Aspectos dos pensamentos estéticos de Marx e Engels: o debate sobre o Sickingen

Informações e Inscrições através dos e-mails: audi.sergio@gmail.com ou sergio.audi@ig.com.br

Ou pelo telefone: (11) 8709-0934

Local do Curso: Ação Educativa - Rua General Jardim 660 - (Telefone: 3151-2333)

Apoio: Fundo Nacional de Cultura - Ministério da Cultura

Comentários

Velocidade da web causará perda de memória, diz Umberto Eco

Em entrevista publicada no jornal espanhol “El Pais” e reproduzida pelo caderno Mais! Da Folha de S. Paulo do último domingo (11/05), o romancista Umberto Eco fala sobre a velocidade da internet e como ela afeta a troca de informação.

Antes de se consagrar como romancista, Eco já era considerado um importante semiótico, autor de obras marcantes como “Apocalípticos e Integrados” e “Super-Homem de Massa” (sobre a cultura de massa, analisando romances de folhetim e quadrinhos), “Como Se Faz uma Tese” e “Obra Aberta” (Perspectiva).

Na ficção, além de “O Nome da Rosa” (Best Seller), publicou “O Pêndulo de Foucault”, “A Ilha do Dia Anterior”, “Baudolino” e “A Misteriosa Chama da Rainha Loana” (Record). Sobre tradução, saiu no Brasil em 2007 “Quase a Mesma Coisa” (também pela Record).

Confira trechos da entrevista

PERGUNTA - Existe alguma saída para esse mal-estar universal?

ECO - No momento, não. E, se eu tivesse a receita, a venderia ao presidente dos EUA por alguns bilhões de dólares!

PERGUNTA - Com certeza. E quem será ele?

ECO - E que sei eu? Os escritores não somos Nostradamus.

PERGUNTA - O que é certo é que alguns anos atrás o sr. disse que viveríamos de modo rapidíssimo, e agora vivemos em velocidades supersônicas.

ECO - E tudo o que existe agora será obsoleto dentro de pouco tempo. Até o e-mail será obsoleto, porque tudo será feito com o celular.

Talvez as novas gerações se acostumem a isso, mas existe uma velocidade do processo que é de tal calibre que a psicologia humana talvez não consiga adaptar-se. Estamos em velocidade tão grande que não existe nenhuma bibliografia científica americana que cite livros de mais de cinco anos atrás.

O que foi escrito antes já não conta, e isso é uma perda também quanto à relação com o passado.

PERGUNTA - A fé cega na internet, por outro lado, cria monstros.

ECO - Sim, parece que tudo é certo, que você dispõe de toda a informação, mas não sabe qual é confiável e qual é equivocada. Essa velocidade vai provocar a perda de memória.

E isso já acontece com as gerações jovens, que já não recordam nem quem foram Franco ou Mussolini! A abundância de informações sobre o presente não lhe permite refletir sobre o passado. Quando eu era criança, chegavam à livraria talvez três livros novos por mês; hoje chegam mil. E você já não sabe que livro importante foi publicado há seis meses. Isso também é uma perda de memória. A abundância de informações sobre o presente é uma perda, e não um ganho.

PERGUNTA - A memória é o esquecimento, como diria [o escritor uruguaio] Mario Benedetti.

ECO - É a história de “Funes, o Memorioso”, de Borges: aquele que tem toda a memória é um estúpido.

PERGUNTA - Tanta informação faz com que os jornais pareçam irrelevantes.

ECO - Esse é um de nossos problemas contemporâneos. A abundância de informação irrelevante, a dificuldade em selecioná-la e a perda de memória do passado -e não digo nem sequer da memória histórica. A memória é nossa identidade, nossa alma. Se você perde a memória hoje, já não existe alma; você é um animal.

Se você bate a cabeça em algum lugar e perde a memória, converte-se num vegetal. Se a memória é a alma, diminuir muito a memória é diminuir muito a alma.

PERGUNTA - Qual seria hoje o papel da informação?

ECO - Creio que perdemos muito tempo nos formulando essas perguntas, enquanto as gerações mais jovens simplesmente deixaram de ler jornais e se comunicam por meio de mensagens de texto.

Eu não posso me desligar dos jornais. Para mim, sua leitura é a oração matinal do homem moderno. Não posso tomar o café da manhã se não tiver pelo menos dois jornais para ler.

Mas talvez sejamos os resquícios de uma civilização, porque os jornais têm muitas páginas, mas não muita informação. Sobre o mesmo tema há quatro artigos que talvez digam a mesma coisa… Existe abundância de informação, mas também abundância da mesma informação.

Não sei se você se lembra de minha teoria sobre o “Fiji Journal”. Eu estava em Fiji coletando informações sobre os corais para meu livro “A Ilha do Dia Anterior” [ed. Record], e em meu hotel chegava todas as manhãs o “Fiji Journal”, que tinha oito páginas -seis de anúncios, uma de notícias locais e outra de notícias internacionais.

No mês que passei ali, a primeira Guerra do Golfo estava prestes a estourar, e, na Itália, o primeiro governo de Berlusconi tinha caído. Inteirei-me de tudo porque em uma única página de notícias internacionais, em três ou quatro linhas, davam-me as notícias mais importantes.

PERGUNTA - Como a internet.

ECO - Vamos à internet para tomar conhecimento das notícias mais importantes. A informação dos jornais será cada vez mais irrelevante, mais diversão que informação. Já não nos dizem o que decidiu o governo francês, mas nos dão quatro páginas de fofocas sobre Carla Bruni e Sarkozy [atual presidente da França].

Os jornais se parecem cada vez mais com as revistas que havia para ler na barbearia ou na sala de espera do dentista. (Da Folha de S. Paulo para a Folha Online)

Comentários

Veja íntegra da carta de demissão de Marina Silva

Pedido foi encaminhado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta terça-feira, 13 de maio

BRASÍLIA - Veja a íntegra do pedido de demissão da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, encaminhado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva:

“Caro presidente Lula,

Venho, por meio desta, comunicar minha decisão em caráter pessoal e irrevogável, de deixar a honrosa função de Ministra de Estado do Meio Ambiente, a mim confiada por V. Excia desde janeiro de 2003. Esta difícil decisão, Sr. Presidente, decorre das dificuldades que tenho enfrentado há algum tempo para dar prosseguimento à agenda ambiental federal.

Quero agradecer a oportunidade de ter feito parte de sua equipe. Nesse período de quase cinco anos e meio esforcei-me para concretizar sua recomendação inicial de fazer da política ambiental uma política de governo, quebrando o tradicional isolamento da área.

Agradeço também o apoio decisivo, por meio de atitudes corajosas e emblemáticas, a exemplo de quando, em 2003, V. Excia chamou a si a responsabilidade sobre as ações de combate ao desmatamento na Amazônia, ao criar grupo de trabalho composto por 13 ministérios e coordenado pela Casa Civil. Esse espaço de transversalidade de governo, vital para a existência de uma verdadeira política ambiental, deu início à série de ações que apontou o rumo da mudança que o País exigia de nós, ou seja, fazer da conservação ambiental o eixo de uma agenda de desenvolvimento cuja implementação é hoje o maior desafio global.

Fizemos muito: a criação de quase 24 milhões de hectares de novas áreas de conservação federais, a definição de áreas prioritárias para conservação da biodiversidade em todos os nossos biomas, a aprovação do Plano Nacional de Recursos Hídricos, do novo Programa Nacional de Florestas, do Plano Nacional de Combate à desertificação e temos em curso o Plano Nacional de Mudanças Climáticas.

Reestruturamos o Ministério do Meio Ambiente, com a criação da Secretaria de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e do Serviço Florestal Brasileiro; com melhoria salarial e realização de concursos públicos que deram estabilidade e qualidade à equipe. Com a completa reestruturação das equipes de licenciamento e o aperfeiçoamento técnico e gerencial do processo. Abrimos debate amplo sobre as políticas socioambientais, por meio da revitalização e criação de espaços de controle social e das conferências nacionais de Meio Ambiente, efetivando a participação social na elaboração e implementação dos programas que executamos.

Em negociações junto ao Congresso Nacional ou em decretos, estabelecemos ou encaminhamos marcos regulatórios importantes, a exemplo da Lei de Gestão de Florestas Públicas, da criação da área sob limitação administrativa provisória, da regulamentação do art. 23 da Constituição, da Política Nacional de Resíduos Sólidos, da Política Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais. Contribuímos decisivamente para a aprovação da Lei da Mata Atlântica.

Em dezembro último, com a edição do Decreto que cria instrumentos poderosos para o combate ao desmatamento ilegal e com a Resolução do Conselho Monetário Nacional, que vincula o crédito agropecuário à comprovação da regularidade ambiental e fundiária, alcançamos um patamar histórico na luta para garantir à Amazônia exploração equilibrada e sustentável. É esse nosso maior desafio. O que se fizer da Amazônia será, ouso dizer, o padrão de convivência futura da humanidade com os recursos naturais, a diversidade cultural e o desejo de crescimento. Sua importância extrapola os cuidados merecidos pela região em si, e revela potencial de gerar alternativas de resposta inovadora ao desafio de integrar as dimensões social, econômica e ambiental do desenvolvimento.

Hoje, as medidas adotadas tornam claro e irreversível o caminho de fazer da política socioambiental e da economia uma única agenda, capaz de posicionar o Brasil de maneira consistente para operar as mudanças profundas que, cada vez mais, apontam o desenvolvimento sustentável como a opção inexorável de todas as nações.

Durante essa trajetória, V. Excia é testemunha das crescentes resistências encontradas por nossa equipe junto a setores importantes do governo e da sociedade. Ao mesmo tempo, de outros setores tivemos parceria e solidariedade. Em muitos momentos, só conseguimos avançar devido ao seu acolhimento direto e pessoal. No entanto, as difíceis tarefas que o governo ainda tem frente sinalizam que é necessária a reconstrução da sustentação política para a agenda ambiental.

Tenho o sentimento de estar fechando o ciclo cujos resultados foram significativos, apesar das dificuldades. Entendo que a melhor maneira de continuar contribuindo com a sociedade brasileira e o governo é buscando, no Congresso Nacional, o apoio político fundamental para a consolidação de tudo o que conseguimos construir e para a continuidade da implementação da política ambiental.

Nosso trabalho à frente do MMA incorporou conquistas de gestões anteriores e procurou dar continuidade àquelas políticas que apontavam para a opção de desenvolvimento sustentável. Certamente, os próximos dirigentes farão o mesmo com a contribuição deixada por esta gestão. Deixo seu governo com a consciência tranqüila e certa de, nesses anos de profícuo relacionamento, temos algo de relevante para o Brasil.

Que Deus continue abençoando e guardando nossos caminhos. Marina Silva”

(Fonte: Agência Estado)

Comentários

Minustah apóia projeto de extrema exploração imperial-burguesa

Invalid Image: haiti.jpg

Adital -

.

Em entrevista a Adital, o professor e sindicalista, integrante de organização Batay Ouvriye, Didier Dominique, criticou a presença da Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti (Minustah), pois, além de violar os direitos humanos e a soberania do país, apóia o projeto sanguinário de extrema exploração imperial-burguesa.

Além disso, disse que a principal diferença entre o governo de René Preval - atual presidente - e Bertrand Aristide é que a orientação neoliberal está ainda mais vigente e que a crise social está agravada. As classes dominantes não têm uma solução para a crise alimentar que enfrenta o povo, e ele já indicou, claramente, como inimigo de classe.

Adital - Após a renúncia de Bertrand Aristide, muita coisa aconteceu no Haiti. Você pode fazer um breve resumo do que mudou?

Didier Dominique - No essencial, o único que mudou é que a orientação neoliberal está ainda mais vigente. Não é que o “momento Aristide” não rumava, igualmente, nessa direção, e sim que estava cheio do “influx popular” existindo desde a saída de Duvalier e que evidenciava, por um lado, a irrupção das massas no âmbito político oficial e, por outro, a rua sem saída na qual se encontram as classes dominantes.

Entreguistas e, por vezes, antipopulares ao extremo, essas classes dominantes não têm nenhum projeto hegemônico exceto render-se para a chamada “comunidade internacional” (entenda: imperialismo).

Os partidos políticos, agora sob o mandato da MINUSTAH (política e militar!), com uns mecanismos muito frágeis, tratam de impor a todo custo uma “democracia” de fachada, na qual o “voto” parece ser a única expressão possível, mas suas múltiplas contradições internas acrescentadas a sua crônica incapacidade, não deixa abertura sã para tal proeza. Nesse sentido, outra vez, nada mudou, senão para pior.

Adital - No mandato de René Preval, a crise foi intensificada. Quais são as principais demandas dos movimentos com relação ao custo da vida e os preços de alimentos?

Didier Dominique - A intensificação da crise é a prova mais tangível do que dizíamos: as classes dominantes não têm solução e a rua sem saída em que estão lhes assusta. As principais demandas ficaram mesmo nos preços, mas, de certa maneira, a ira popular chegou a indicar claramente ao inimigo de classe.

Adital - A presença das tropas da Minustah vem sendo uma denúncia freqüente, sobretudo, em termos de direitos humanos e soberania…

Didier Dominique - Para nós, não só em termos de direitos humanos e soberania, mas também porque apóiam o projeto sanguinário de extrema exploração imperial-burguês, executado pelos distintos governos lacaios da vez.

Adital - Há várias manifestações internacionais que pedem a retirada das tropas. Mas os pedidos continuam sem efeito. Você crê que os países estão seguros sobre as conseqüências da Minustah?

Didier Dominique - Para responder precisamente a essa pergunta, a palavra “país” não é a adequada. Em cada “país”, as classes dominantes, junto aos governos a seu serviço, apóiam a ocupação. É uma prova adicional tanto de seu aspecto pró-imperialista, como também de suas próprias contradições internas. Tem que se perceber que só Cuba e Venezuela se opuseram e não têm tropas aqui.

Mas, em cada “país”, também existem progressistas, companheiros, camaradas que se opõem fortemente à ocupação. No Brasil, no Uruguai, na Argentina… De fato, até houve uma delegação de sindicalistas do Brasil da CONLUTAS que veio ao Haiti, para solidarizar-se com o povo haitiano, seus sofrimentos, suas lutas e rechaçaram (com uma bela carta, mas também pela atitude séria e sempre firme frente às “autoridades”) por completo a ocupação. É a prova de um internacionalismo conseqüente e extremamente são. Por outro lado, se está preparando manifestações para se contrapor à “celebração” da data de ocupação, que será primeiro de junho.

Cada lado está, pois, consciente das “conseqüências da MINUSTAH”, só que cada um as vê segundo seus próprios interesses.

Adital - Que tipo de situação os movimentos sociais e organização enfrentaram por denunciar os fatos no Haiti?

Didier Dominique - Antes de tudo, o povo mesmo se viu reprimido por essas forças militares de ocupação. Desde o final de 2005, acabou a lua de mel e essas forças mostram sua verdadeira cara, semeando o terror em Cité Solei, em Solino, em Ti Ginen… Recentemente, nas mobilizações contra o alto custo de vida e a fome, conseqüentemente, reprimiram do mesmo jeito. Em mobilizações trabalhistas também já haviam atuado da mesma forma: defendendo os patrões, ainda que eles tenham sido totalmente ilegais nas demissões ou abusos.

Nos últimos dias, várias organizações se levantaram contra essa presença. Com as mesmas “conseqüências” previsíveis. A nós, de Batay Ouvriye, duas de nossas últimas mobilizações foram altamente intimidadas por militares da ONU.

Adital - Em geral, as pessoas estão conscientes do que realmente está acontecendo no país?

Didier Dominique - Fundamentalmente, sim! A evolução da situação mostrou isso e, como mencionávamos em nossas últimas intervenções, o povo já odeia a Minustah. Falta-lhe, no entanto, articular melhor a lógica de exploração em sua totalidade e em sua complexidade para dar um salto qualitativo.

* Batay Ouvriye http://www.batayouvriye.org/

Batay Ouvriye é uma organização que reagrupa sindicatos de fábricas, associações de trabalhadores como das massas populares em geral e militantes. Todos trabalham no Haiti para a construção de um movimento sindical autônomo, combativo e democrático, e organizam também trabalhadores, operários, desempregados e todas as pessoas das massas populares para a defesa de seus direitos

Comentários

PF pediu ao Supremo para investigar Raupp

O Globo Online

BRASÍLIA - A Polícia Federal pediu autorização ao Supremo Tribunal Federal para abrir um inquérito sobre o suposto pagamento de propina da Alstom, fábrica francesa de turbinas, ao líder do PMDB no Senado, Valdir Raupp (RO), a seu ex-assessor José Roberto Paquier e ao diretor de Projetos da Eletronorte, Adhemar Palocci, entre outros altos funcionários da estatal investigados na Operação Castores. A PF também pediu licença para investigar o deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) por quebra de sigilo de informações da hidrelétrica de Itaipu. É o que mostra reportagem de Jailton de Carvalho na edição desta quarta em ‘O Globo’.

A PF fez o pedido de abertura de inquérito em 2006, ao final da primeira etapa da Operação Castores, que investigou fraudes em redução de multas aplicadas em empresas contratadas por estatais do setor elétrico. “Deve ser apurado em inquérito policial independente material apreendido na residência de José Roberto Paquier, onde se denota suposta contabilidade da quadrilha”, diz a PF . O pedido é endereçado ao STF porque Raupp tem foro privilegiado.

Uma das bases do pedido de investigação especial está numa folha de agenda apreendida na casa de Paquier, no Lago Norte, em Brasília, em maio de 2006. No documento, segundo o relatório, estão os nomes de Raupp, Adhemar Palocci, irmão do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, e de outros altos funcionários da Eletronorte, associados a cifras de até R$ 300 mil. No verso da folha, aparecem os nomes da Alstom e da empreiteira Norberto Odebrecht.

Em entrevista ao GLOBO na segunda-feira, Raupp negou qualquer envolvimento com o suposto esquema.

Comentários

Mantega detalha recursos do fundo soberano

Arnaldo Galvão, de Brasília
14/05/2008

Ruy Baron / Valor

O ministro da Fazenda, Guido Mantega: “Já faz algum tempo que o presidente Lula quer criar o fundo soberano”
O Fundo Soberano do Brasil (FSB), segundo explicou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, terá duas pernas: o Fundo Fiscal de Investimentos e Estabilização (FFIE), que vai abrigar o excedente do superávit primário, cujo valor ainda será definido pelo presidente da República; e uma perna financeira, mediante à qual o Tesouro Nacional, gestor do FSB, emitirá títulos da dívida pública e os reais captados serão utilizados para comprar dólares no mercado doméstico. Esses dólares serão remetidos para o exterior, para aquisição de ativos, seja papéis da subsidiária do BNDES no exterior ou outros ativos. Com esses dois instrumentos, o governo pretende apoiar interesses estratégicos do país no exterior, aumentar a rentabilidade dos ativos públicos, formar poupança pública e diminuir a quantidade de dólares disponíveis no mercado interno e, assim, reduzir a valorização da moeda.

Segundo Mantega, na prática, a criação do FSB equivale a aumentar o superávit primário, embora esteja mantida a atual meta para o setor público consolidado - 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB). A característica de ampliar a poupança pública foi comparada a um “cofrinho”. “Com o excedente, colocamos dinheiro no fundo. Vocês não têm um cofrinho em casa?”, indagou. Ele explicou que os valores destinados ao fundo soberano ficarão fora do cálculo do superávit primário, mas esses recursos não serão gastos.

O ministro indica que o governo já vem fazendo um esforço fiscal acima da meta estabelecida. Nesse cenário, garantiu que o país continuará crescendo e o governo seguirá arrecadando. Mantega citou, como exemplo, o resultado fiscal do governo central no primeiro trimestre. Nesse período, foi registrado superávit nominal, o que significa sobra de dinheiro (R$ 3 bilhões) mesmo após o pagamento de juros. Mas a perspectiva para o final do ano é de déficit nominal.

No aspecto das diretrizes de aplicação do FSB, as compras de debêntures e títulos representativos de ativos financeiros terão de observar parâmetros de risco. Os projetos aprovados deverão ter rentabilidade mínima equivalente à taxa Libor. Com gestão do Tesouro, o fundo soberano será operado por uma instituição financeira federal. BNDES e Banco do Brasil têm experiência nessa atividade.

Originalmente imaginado como um fundo soberano para comprar dólares no mercado interno e adquirir ativos no exterior, somente nos últimos dez dias é que sua criação assumiu também contornos fiscais, como resposta do governo à demanda por maior controle dos gastos públicos. Principalmente depois que o presidente Lula ouviu do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, o reforço à tese do esforço fiscal adicional para ajudar o trabalho do Banco Central no controle da inflação.

O FSB terá um conselho deliberativo que vai definir forma, prazo e natureza dos investimentos, tal como uma empresa estatal. O Congresso receberá, semestralmente, um relatório de desempenho do fundo. Mantega não revelou se o governo vai publicar uma medida provisória ou se enviará um projeto de lei. Ele também afirmou que ainda não está definido o valor inicial do FSB, mas um decreto presidencial vai estabelecer um teto provavelmente como uma porcentagem do PIB. O fundo terá dotação orçamentária, cujas fontes serão primárias (receita tributária), emissão de títulos e outras disponibilidades.

Os dois objetivos do FFIE serão formar poupança pública a partir do excedente do superávit primário e absorver flutuações dos ciclos econômicos. Esse é o caráter anticíclico. O FFIE será privado, operado por instituição financeira federal, mas terá o governo como único cotista. Seu patrimônio será separado dos ativos da União e estará subordinado a direitos e obrigações próprias. Esse Fundo Fiscal de Investimentos e Estabilização não poderá comprar papéis de empresas privadas, mas terá autorização para comprar papéis de empresas públicas lançados no exterior.

Como o Brasil tem recebido forte fluxo financeiro, Mantega disse que estão presentes as condições para que o país seja o 36º no mundo a ter um fundo soberano. A inspiração é dos modelos chileno e russo. Nessa avaliação, não é necessário ter superávit nominal. Além disso, o país é credor externo, tem reservas de US$ 200 bilhões e há perspectiva de expressivas reservas petrolíferas. Recentemente, foi promovido pela Standard & Poor’s ao grau de investimento.

O apoio a interesses estratégicos no exterior passa pela internacionalização de empresas brasileiras e o FSB pode atuar como o Eximbank americano, financiando compradores de produtos brasileiros. Um dos exemplos citados é o da compra de debêntures do BNDES. Esse “interesse estratégico”, segundo o ministro, significa o Brasil assumindo papel protagonista e, havendo excesso de dólares no país, usá-los de forma produtiva, obtendo rendimento maior que o das reservas internacionais.

No âmbito cambial, o fundo soberano vai enxugar dólares do mercado e destinar esses recursos a aplicações mais rentáveis que as de perfil conservador das reservas internacionais administradas pelo Banco Central. Mas Mantega garantiu que não vai faltar harmonia entre BC e Tesouro porque, atualmente, as duas instituições já fazem isso com alguns limites.

Apesar de não ter revelado o valor inicial destinado ao FSB, o ministro afirmou que o montante será “robusto” e conviverá com o volume das reservas internacionais, atualmente em US$ 197 bilhões. Elas poderão continuar crescendo. “Não há um volume ideal de reservas. O ideal é que seja um volume grande”, comentou.

Mantega disse que o limite definido por decreto vai servir para sinalizar que não será um “superfundo”. Mas admitiu que, uma vez confirmadas as reservas de petróleo na camada submarina do pré-sal, o governo terá de adaptar as normas do fundo para receber parte dessas receitas.

A conciliação entre o objetivo anti-cíclico e o apoio à internacionalização de empresas brasileiras não foi esclarecida com precisão pelo ministro. Ele limitou-se a dizer que o fundo soberano terá ativos financeiros líquidos, como, por exemplo, papéis do BNDES. Mas Mantega procurou ressaltar que não acredita em uma necessidade abrupta de recursos. “Não vislumbro, mas, num momento futuro, talvez, ocorra alguma redução do crescimento e, nesse caso, há esse fundo soberano com suas reservas”, afirmou.

A criação do FSB teve, segundo o ministro da Fazenda, participação e aprovação do presidente do BC, Henrique Meirelles. Ele também negou que a iniciativa seja apenas uma complexa engenharia financeira para capitalizar o BNDES. “Já faz algum tempo que o presidente Lula quer criar o fundo soberano.”

Valor Econômico - 14/5

Comentários

Marina sofreu bombardeio desde o 1º mandato de Lula

Ministra fez várias concessões e teve de aceitar derrotas seguidas em 5 anos e 5 meses de governo, mas sai no instante em que desmatamento volta a aumentar

MARCELO LEITE
COLUNISTA DA FOLHA

AO FINAL do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, já estava claro para quem quisesse ver que seu governo não merecia Marina Silva. A voz ao mesmo tempo frágil e firme da ex-doméstica que chegou a senadora permanecia solitária na Esplanada. Era a única a defender que o desenvolvimento econômico não pode ser obtido a qualquer preço, porque não seria de fato desenvolvimento.
Lula repetiu a estratégia Fernando Collor com José Lutzenberger. Pôs Marina Silva na vitrine do MMA (Ministério do Meio Ambiente) para neutralizar pressões internacionais contra o país pela destruição da Amazônia. Funcionou por algum tempo. Tempo demais.

Era fácil deixar a ministra falando sozinha sobre “transversalidade”. Soava como (e era de fato) uma abstração insistir na necessidade de injetar a questão ambiental em todas as esferas de decisão e planejamento do governo. O desenvolvimentismo lulista seguiu em frente.
Foram muitas as batalhas perdidas. Primeiro, perante o Ministério da Ciência e Tecnologia, a dos transgênicos. Depois de anos de omissão do governo FHC quanto ao plantio de soja geneticamente modificada contrabandeada da Argentina, Lula capitulou diante do agronegócio e do lobby dos biotecnólogos, permitindo a comercialização do grão ilegal.

Em seguida vieram várias concessões, fracassos e derrotas do MMA: explosão do desmatamento (que chegou a 27 mil km2 em 2004, segunda maior marca de todos os tempos); licenciamento ambiental da transposição do São Francisco e das grandes hidrelétricas na Amazônia; a decisão de construir Angra 3 e outras quatro usinas nucleares…

Apesar disso, Marina Silva continuava como um conveniente bode expiatório. A certa altura, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) parecia ser o maior entrave ao desenvolvimento nacional. Pior que a taxa de juros mais alta do planeta, a julgar pelo bombardeio dos jornalistas de negócios e dos ministérios interessados em camuflar a própria inoperância.

Mãe do PAC, mãe do PAS
O MME (Ministério de Minas e Energia), onde começou a ser gestada a mãe do PAC e também o embrião de um apagão, capitaneava o canhoneio. Entre um mandato e outro, a artilharia quase derrubou Marina Silva. Havia até candidato preferido do MME, segundo se especulava na época: Jerson Kelman, diretor-geral da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). A proverbial raposa no galinheiro.
Marina Silva resistiu e ficou para um segundo mandato. Disse na época que o fez a pedido do próprio Lula. Afinal, o desmatamento na Amazônia vinha caindo, tendência que se confirmou ao longo do primeiro ano do segundo mandato. As cifras traumatizantes despencaram quase 60% em três anos. A ministra continuava bem na fita, pelo roteiro de Lula.

Aí começaram a surgir os primeiros sinais de que o desmatamento na Amazônia voltava a crescer. Era inevitável, diante da alta retomada no preço de commodities agrícolas, como soja, carne bovina e algodão. Enquanto isso, o frenesi dos biocombustíveis tomava conta do Palácio do Planalto.

Só os incautos acreditam que a expansão da produção será obtida apenas com aumento da produtividade e ocupação de áreas degradadas de pastagem. O empreendedor rural se dirige para onde encontrar a melhor combinação de terra e mão-de-obra baratas, solos férteis, topografia favorável e infra-estrutura logística. Soja e cana não desmatam a Amazônia, mas a pecuária, sim -e como.

Diante do trator pilotado pelo Ministério da Agricultura e teleguiado da Casa Civil, o espaço de manobra de Marina Silva se restringiu ainda mais. Nem ela fala mais em transversalidade, embora não deixe de apontar os riscos do excessos de entusiasmo com a expansão do agronegócio.

Os sensores de satélites, capazes de discernir florestas de verdade das áreas em processo de degradação, não se enganam a respeito. O desmatamento está em alta. É indiferente para eles que Lula, Dilma Rousseff e Marina Silva tenham lançado há poucos dias o enésimo programa desenvolvimentista, mais uma compilação de ações anteriormente providenciadas, e o batizem como PAS (Plano Amazônia Sustentável).

Lula tentou fazer blague na cerimônia, afagando a “mãe do PAS”. Ao mesmo tempo, designou o ministro Roberto Mangabeira Unger (aquele do aqueduto ligando a Amazônia ao Nordeste) para coordená-lo.

O presidente ainda jactou-se de estar “criando uma nova China aqui”. A infeliz frase presidencial -mais uma, apenas- não deve ter sido a causa do pedido de demissão da ministra. Mas nunca esteve nos planos de Marina Silva ajudar a armar a segunda maior bomba-relógio ambiental do planeta.

Folha de S. Paulo - 14/5

Comentários