Arquivo de Junho de 2008

Políticos usam pouco a internet nas eleições

O artigo é de 2006, publicado na websinder UOL, mas ainda é válido, pois analisa uma tendência que se mantém, apesar do salto no uso da internet nos últimos dois anos. Eis o artigo:

17 de setembro de 2006, 22:54

Políticos usam relativamente pouco a internet. Por não ser mídia de massa e ter baixa penetração social, não seria ferramenta capaz de atingir o número de pessoas necessário para alterar o resultado das eleições. Talvez não saibam usá-la.

 

Por Sérgio Mari Jr

O processo eleitoral deste ano começou com uma mudança de regras que alterou sensivelmente a forma como os partidos políticos fazem suas campanhas. Trata-se da Lei 11300/06. Entre essas mudanças está a proibição a candidatos e partidos de distribuir camisetas, chaveiros, bonés, canetas, cestas básicas ou qualquer outro bem material que possam significar benefícios ao eleitor. Também foi proibida a participação de artistas e cantores em comícios dos candidatos.

Outro veto imposto pela legislação é a utilização de outdoors para a propaganda eleitoral. A empresa responsável, os partidos, coligações e candidatos que utilizarem esta mídia podem ser condenados à imediata retirada da propaganda irregular e ao pagamento de multa no valor de 5.000 a 15.000 Ufirs.

Com tantas restrições à outras mídias, era de se imaginar que a internet pudesse ser a grande arma das campanhas deste ano. Contudo, a poucos dias do pleito, esta expectativa parece não ter se confirmado. Pelo menos não com a intensidade que se esperava.

A web se caracteriza pela interatividade e capacidade de aproximar pessoas entre si e de aproximar pessoas à idéias, conceitos, produtos, empresas e marcas. Olhando friamente, é tudo o que os partidos precisam: aproximar pessoas de suas idéias e propostas. Mesmo assim a utilização desta mídia nas campanhas tem sido no mínimo superficial.

Como exemplo do potencial desta mídia, podemos citar o e-mail marketing, que tem se revelado uma das estratégias mais baratas e eficientes de divulgação e formação de relacionamentos. Um estudo feito pelo Winterberry Group nos Estados Unidos mostrou que campanhas de marketing por e-mail geram um retorno 17 vezes maior do que campanhas feitas por correio convencional e até 73 vezes maior do que campanhas de telemarketing (Fonte: revista Webdesign. Ano 3, n.33, setembro/2006, p.8). Mesmo assim, este dispositivo está sendo utilizado com muita timidez pelos partidos nestas eleições.

Esses são apenas alguns exemplos. Além desses, um grande número de outras vantagens e motivos para a utilização da internet nas campanhas eleitorais poderiam ser citados aqui. Contudo, na prática, o que estamos vendo é o foco das campanhas voltado quase que exclusivamente ao horário eleitoral gratuito no rádio e televisão e às ações presenciais, como reuniões, comícios, atos públicos e caminhadas junto a eleitores.

Políticos com foco nas classes C e D

É claro que para nós profissionais desta mídia isso é lamentável, mas temos que procurar enxergar os motivos para o fraco ritmo do crescimento da utilização da web em campanhas políticas. Da mesma forma que as vantagens são óbvias, os motivos para sua pouca exploração também são óbvios. Vamos analisar alguns números.

Segundo o censo do IBGE, o Brasil tem pouco mais de 180 milhões de habitantes. O TSE divulgou que para as eleições 2006 somos mais de 120 milhões de eleitores habilitados.

Quando comparamos este universo com o número de usuários atingidos pela mídia internet, as coisas começam a ficar mais claras. Segundo o Ibope/NetRatings, em junho/2006 a internet tinha no Brasil 13,4 milhões de usuários ativos. Isso representa apenas pouco mais de 10% de todo o universo eleitoral.

As pesquisas eleitorais têm mostrado que quem está decidindo as eleições deste ano são as classes C e D, enquanto que a audiência da internet é formada principalmente pelas classes A e B.

Tudo isso nos mostra que, mesmo com todas as vantagens oferecidas, a baixa penetração social do acesso à internet ainda não a credencia como uma ferramenta capaz de atingir o número de pessoas necessário, o suficiente para alterar o resultado das eleições.

Outro motivo: as grandes vantagens da web atualmente giram em torno da exploração dos recursos multimídia, com áudio, vídeo e animações. Como sabemos, estes recursos, para serem bem aceitos pelos usuários, dependem de uma conexão de banda larga. Contudo, uma estimativa da E-Consulting mostra que até o final de 2006 deverão existir no Brasil apenas cerca de 4,1 milhões de usuários conectados em banda larga. Número irrisório quando comparado ao universo de 120 milhões de eleitores.

Público formador de opinião

Estas desvantagens, bem ou mal, justificam a não exploração da internet nas campanhas eleitorais com a mesma intensidade que esperávamos depois das sanções impostas pela legislação a outras mídias. Apesar disso, ainda há pelo menos um argumento que daria à internet um papel estratégico fundamental nas campanhas eleitorais: ela é povoada por formadores de opinião.

Mesmo representando apenas pouco mais de 10% do universo eleitoral brasileiro, a web é uma mídia privilegiada, pois a maioria de seus usuários é formada por pessoas das classes A e B, com alto grau de instrução. Há na internet um grande número de pessoas capazes de gerar e liderar mobilizações sociais.

Ou seja, mais do que 13,4 milhões de usuários, a internet tem 13,4 milhões de multiplicadores de idéias e formadores de opinião, que podem retransmitir as mensagens recebidas via web a um grande número de pessoas a quem estão socialmente ligadas. Não dá para não levar isso em conta. [Webinsider]

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Política precisa de interação para alcançar jovens na web

Esqueça o discurso, exercite o diálogo. Difícil para políticos? Pois este é exatamente o comportamento esperado de candidatos que querem atingir o eleitor das comunidades da Internet, cujo uso vêm crescendo no país em campanhas eleitorais.

A recomendação é de Marcelo Coutinho, professor da ESPM e diretor de análise e mercado do Ibope.

"O site do candidato é só discurso, não tem interatividade. Se você quer usar as comunidades de Internet, é preciso dialogar", disse ele à Reuters, tendo em mente o convencimento de candidatos sobre o eleitorado.

Coutinho, que realizou pesquisa em conjunto com dois outros professores da ESPM sobre uso da Internet nas eleições presidenciais de 2006, vai ainda mais longe ao aconselhar os candidatos que pretendem utilizar estas redes: "Esqueçam também a noção de controle".

Ou seja, para o pesquisador, o político precisa se desprender daquela neurose de que uma parte dos que querem entrar em contato com ele em um site ou uma comunidade de Internet são adversários e concorrentes que só querem prejudicá-lo.

Nessas comunidades, os candidatos podem entrar em contato com os eleitores jovens, os mais resistentes a temas políticos. Ao mesmo tempo, o levantamento dos pesquisadores indica que há interesse pelo assunto, já que existem aproximadamente 180 comunidades no Orkut sobre os atuais principais candidatos a prefeito da cidade de São Paulo, num universo de quase mil comunidades sobre eleições.

O número total é superior ao de julho de 2006, quando foram encontradas 46 comunidades sobre os principais candidatos a presidente. Nas duas eleições, o que chama mais a atenção são as comunidades pró e contra candidatos. Há dois anos, a maior comunidade pró-Geraldo Alckmin (PSDB) reunia 221 mil integrantes e a maior pró-Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 106 mil.

O crescimento contrasta com o interesse menor despertado pelas eleições municipais do que pelas presidenciais. Indica, por outro lado, o avanço do uso deste meio.

Pela rede social Orkut, é possível participar de fóruns de discussão sobre os temas mais diversos e fazer ou encontrar amigos. Dos 60 milhões de usuários do Orkut em todo o mundo, 27 milhões ficam no Brasil.

É preciso, no entanto, dar um desconto no dado fornecido pelo Google uma vez que ele não identifica um mesmo usuário que se cadastre com nomes diferentes.

"As eleições locais mobilizam menos os eleitores do que as eleições nacionais, mas dado o crescimento acelerado da web nos últimos anos e a popularidade crescente das redes sociais, pode ser que ao menos na Internet esta regra não se confirme", acredita Coutinho, que junto com os colegas vai atualizar a pesquisa com os dados da eleição municipal, que ficará pronta em 2009.

Internet bate revistas
A Internet como um todo está acima das revistas como meio utilizado pelos eleitores para conhecer os candidatos. Nas eleições de dois anos atrás, segundo o Ibope, a Internet foi o meio de informação indicado por 6% dos eleitores, ou 7,8 milhões do total de 126 milhões de eleitores daquela eleição.

As revistas ficaram com 4% e os meios tradicionais permaneceram bem à frente: TV (76%), jornais (29%) e rádio (28%).

Coutinho afirma que o patamar atual do Brasil é similar ao dos Estados Unidos no início da década, quando a Internet superou primeiro as revistas, depois o rádio e, na atual disputa presidencial, se transformou na segunda fonte de informação para os eleitores depois da TV.

O candidato democrata Barack Obama optou por reduzir sua estrutura administrativa para fazer campanha pela Internet. Ele tem usado as redes sociais para gerar envolvimento e contribuição financeira para sua campanha.

O professor afirma ainda que, apesar de o uso da Internet para temas políticos ser menor do que nos EUA e na Europa e ter impacto limitado na decisão de voto, os brasileiros, das faixas A e B, estão entre os que passam mais tempo na web em casa, ultrapassando norte-americanos e europeus.

Reuters

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O uso da internet nas eleições americanas

 

José Roberto Berni e Silvino Ferreira Jr:

Recebo um e-mail do Obama todo dia. Todo dia ele me pede um dólar, que nunca dou. Ele fica tentando me convencer com uma contagem regressiva para alcançar um milhão de doadores: "Venha fazer parte da História". Obama arrecada um milhão de dólares por dia com essa conversinha! Assim, com o apoio de uma fantástica campanha pela internet, na próxima terça feira, 4 de março, o senador Barack Obama pode ser confirmado candidato do Partido Democrata e provável futuro presidente dos Estados Unidos.
Os sites de Obama e de Hillary são grandes portais interativos. O de Hillary abriga seis comunidades e sites específicos dirigidos aos jovens, às mulheres, aos delegados do Partido Democrata, à mídia (noticias da campanha), às polemicas (respostas às criticas de Obama) e um sobre a própria Hillary, com biografia, discursos, vídeos, fotos, projetos, agenda de viagens etc.
A abertura do portal de Obama é uma foto dele com a mulher e os dois filhos, emoldurada como as de família antigamente. É ainda maior e melhor do que o da concorrente: abriga cerca de 15 sites, 16 comunidades, 5 blogs oficiais e uma loja que vende até bolas de árvore de natal (três por 4,50 dólares, na liquidação).
A Hillary teve a gentileza e a esperteza de verter seu site para o espanhol, pois depende cada vez mais do voto hispânico para reverter a queda. Mas o do John McCain, humm, que é isso? Já viu? Começa com um vídeo de um soldado numa cama, todo enfaixado, fumando, respondendo o nome, número, batalhão. E depois tem depoimentos dos velhos companheiros, agora todos rechonchudos, a da senhora mãe dele, toda esticadinha… A coisa mais interessante do site do McCain é um DVD do filme "Faith of my Fathers", biografia de um piloto que ficou cinco anos preso no Vietnã: ele mesmo, o candidato. Um filme de herói americano, forjado na guerra, preparado para liderar. Tudo isso por módicos 50 dólares.
É assombroso que os republicanos não tenham apresentado candidatura mais consistente, mesmo considerando que oito anos de W.Bush acabaram com qualquer possibilidade de vitória. Mas toda eleição sempre deixa algum resultado, no mínimo torna um nome conhecido para daqui quatro anos. John McCain encarna o inconsciente coletivo de um povo que se orgulha de ser guerreiro, mas isso é pouco neste novo mundo digital.
No dia 17 de janeiro, o Google abriu o seu primeiro escritório em Washington, onde trabalham 25 pessoas para atender exclusivamente as novas demandas da campanha eleitoral. O Google adaptou duas de suas ferramentas - o Adwords e o AdSense - para atender exclusivamente os candidatos, ajudando-os a atingir alvos específicos e permitir um acompanhamento mais preciso dos resultados. Fiel às regras do capitalismo, vendeu seus serviços para McCain, Huckabee, Guiliani, Romney (republicanos), Hillary, Obama e Edwards (democratas).
O que o Google fez foi criar um grupo de profissionais para estudar as necessidades de cada candidato e fortalecer suas campanhas na rede. No caso de Obama, grande parte da mensagem foi direcionada para blogs e sites freqüentados por jovens, o que gerou a Obamania na web. A popularização de Obama na internet levou a uma proliferação de sites e blogs, usando o nome do candidato. Um exemplo é o www.obamamessiah.blogspot.com criado para satirizar sua aura messiânica. Tem também o www.barackobamaisyournewbicycle.com - literalmente "barack obama é a sua nova bicicleta.com".
Segundo JP Greenberger, chefe do novo escritório, o Google está introduzindo novos instrumentos na esfera política. "Nosso trabalho é mostrar que os consumidores mudaram e o consumo de mídia também." Cita um exemplo: "Para atingir o estado de New Hampshire você tem que comprar a TV Boston, mas 75% da sua audiência estão no estado de Massachusetts, o que significa uma perda de 75% de cada dólar investido. Isso não acontece com a internet". 
Sites de relacionamento como o Facebook, são instrumentos eficazes para mensurar o sucesso de um candidato e de sua plataforma política. No Facebook, por exemplo, Obama aparece com 235.000 citações e Hillary com 71.000. No MySpace, Obama ganha com 225.000 contra 162.000 de Hillary. Curiosidade: um dos fundadores do Facebook, Chris Hughes, é um dos conselheiros de Obama.
O You Tube também permite uma rápida avaliação do sucesso de uma mensagem em vídeo, não apenas pelo número de acessos, mas também pela análise dos comentários postados. Pela paixão e discussões que desperta. O clipe "Yes, We Can", criado pelo Black Eyed Peas e co-dirigido pelo filho de Bob Dylan, é o maior sucesso da campanha eleitoral nos EUA e isso se deve não apenas à presença de artistas famosos, mas à sua divulgação no You Tube. Divulgação que não custa nada ao bolso do candidato e que se espalha entre as comunidades de blogueiros, sites de relacionamento e torna o clipe um viral campeão.
Renata Pagliuso é redatora em uma agência de marketing viral, a Joahnnes Leonardo. Em um ano, saiu de São Paulo, passou por Madri e Londres, e foi convidada para trabalhar em New York com o australiano Leo Premutico e o sul-africano Jan Jacobs, dois premiados gênios do viral que receberam proposta irrecusável para trocar o grupo Publicis pelo grupo WPP. No mundo digital, tudo parece acontecer rapidamente.
Numa definição rápida, Renata diria que marketing viral é feito com idéias simples, que colam, que confiam no espectador como meio. O viral tem que ter força e alguma verdade, senão não vinga. A gente recebe diariamente um monte de bobagem no e-mail, que não tem a menor vontade de assistir e menos ainda de passar para frente, ou comentar ou socializar de alguma forma.
Mas viral não é só vídeo. Pode ser uma idéia bem sacada, ou um jogo, ou qualquer coisa que se propague sem muita maquiagem. Renata cita o hotsite http://waitless.org/ criado para a Sprint, uma operadora de celulares: um conceito simples que ensina como economizar tempo na vida.
O sonho de todo candidato é ter um viral de sucesso na campanha. Candidatos a prefeito e vereador nas próximas eleições já estão usando a internet para fortalecer seus nomes, criar redes de relacionamento, formar militância e quiçá, glória maior, produzir um viral de sucesso. Pela lei, ninguém pode fazer campanha antes de julho, mas a legislação eleitoral não faz referências à internet. Como tudo que não é proibido é lícito, a campanha já começou.
O número de computadores nas casas dos brasileiros dobrou em três anos. É o país com maior crescimento no mundo. Hoje existem 22 milhões de brasileiros ligados na web. Nós ficamos mais tempo navegando que os franceses, que os americanos, somos campeões também nisso.
Assim é que, em breve, os donos dos currais eleitorais terão que ter blogs. Currais não, redes de relacionamento. Teremos redes formadas por pessoas do bairro, da escola, da moçada, dos veteranos do Corintinha da Vila Monumento. Ainda estamos engatinhando, mas na campanha passada usei o You Tube para postar vários materiais de ataque. Funcionava bem, principalmente quando se conseguia publicar uma notinha dizendo que "uma nova peça está circulando no You Tube". Teve até um que fez sucesso…
A internet também ajudou os candidatos a candidato aumentar sua base de doadores, permitindo o acesso direto ao doador de pequenas quantias. Nos Estados Unidos, a doação via internet funciona como um investimento que se faz na bolsa de valores e, por isso, reflete o momento da disputa. Se o candidato está bem, as doações sobem. Se o candidato vai mal, como uma ação desvalorizada, ninguém quer arriscar.
Agora, por exemplo, a Hillary Clinton está com problemas com os doadores da campanha dela. Foram mais de 100 milhões de dólares arrecadados e o dinheiro praticamente acabou. O que eles estão questionando é se alguém que não soube administrar essa grana pode administrar as finanças de um país.
Lá, mais ainda que cá, a guerra de acusações, é pesada. Esta semana uma foto de Obama, vestido de mulçumano e divulgada através da internet, gerou muita polêmica, com a equipe de Obama acusando a adversária de jogo baixo. A foto ganhou primeiras páginas em todo o mundo. Obama passou dias explicando que foi uma visita ao Quênia, na aldeia do avô dele, que era uma desfeita não vestir e perdeu tempo importante numa semana decisiva.
Mas, por outro lado, mostrou sua capacidade em reverter situações delicadas. No último debate antes do confronto decisivo no Texas e em Ohio, obrigou Hillary a negar a responsabilidade pela divulgação da foto e, num gesto de generosidade, disse que "acreditava na palavra da senadora".  Aliás, muitos ataques de Hillary têm se voltado contra ela, num efeito bumerangue que os americanos chamam de "backfire". 
Os eleitores do Partido Democrata que vivem no exterior deram uma vitória inquestionável a Obama: 66 contra 33% de Hillary - dois por um.  A Obamania tem ajudado a melhorar a imagem dos EUA. Só quem vive fora tem a idéia precisa do estrago que Bush causou à imagem do país. É através da internet que estes eleitores estão conectados ao que acontece nos Estados Unidos.
Com a internet, por exemplo, vai ser possível aos brasileiros que vivem no exterior participar do processo político nacional, votando on-line.  Considerando que existem mais de três milhões de brasileiros pelo mundo afora, é uma boa questão para se começar a discutir.
Muito do sucesso de Obama se explica pela capacidade dele, e da sua equipe, de captar e explorar o potencial dessa nova ferramenta do marketing político: a internet. Talvez por isso eu ainda esteja esperando por um e-mail da Hillary que, muito provavelmente, não vem.
José Roberto Berni ( jberni@uol.com.br Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail )
e Silvino Ferreira Jr ( silvino.silvas@gmail.com Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail ) 
são redatores políticos e ratos de internet

Artigo Publicado no Portal do Arquiteto -  07 de março de 2008 - 11:49

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IBOPE: PUBLICIDADE NA INTERNET TEM ESPAÇO PARA CRESCER

 

Dados do Ibope Inteligência mostram que o Brasil superou a marca dos 40 milhões de acesso à internet no primeiro trimestre deste ano. No trimestre anterior o número de acessos à internet no Brasil era de 34 milhões.

O diretor do Ibope Inteligência Marcelo Coutinho disse em entrevista a Paulo Henrique Amorim nesta sexta-feira, dia 27, que a popularização do acesso à web abre espaço para o crescimento da publicidade na internet.

“O último número foi 3% ou 4% (de participação da internet no mercado publicitário). Então isso significa o que? Que ela ainda tem muito espaço para crescer. Eu tive acesso a um estudo na semana passada e a previsão é que na Inglaterra, no ano que vem, o investimento na internet já ultrapasse o investimento na televisão”, disse Coutinho.

Segundo Marcelo Coutinho, a popularização do acesso à internet se dá por causa do acesso ao crédito e a estabilidade na economia. “enquanto continuar com condições favoráveis em termos de câmbio, em termos de crédito, (o acesso à internet deve crescer)”, disse Coutinho.

A medição do Ibope Inteligência considerou acessos à internet de todos os locais, inclusive os públicos, como lan-house, escolas e tele-centros. Coutinho disse que 49% dos acessos à internet no Brasil são feitos a partir de locais públicos.

Leia a íntegra da entrevista com Marcelo Coutinho:

Paulo Henrique Amorim – O Brasil supera a marca de 40 milhões de acesso à web. Eu vou conversar com Marcelo Coutinho, diretor do Ibope Inteligência, empresa que trata desse assunto. Marcelo, esse é um número recorde, não é isso?

Marcelo Coutinho – É, exatamente.

Paulo Henrique Amorim – Nós tínhamos, até então, um número que no mês anterior seria de quanto?

Marcelo Coutinho – Nós estamos falando em acesso de acesso de qualquer local. Então, esse acesso estava, no último trimestre, em 34 milhões.

Paulo Henrique Amorim – Então foi um pulo brutal?

Marcelo Coutinho – Foi, foi um belo aumento.

Paulo Henrique Amorim – E como vocês explicam um pulo dessa extensão?

Marcelo Coutinho – Olha, Paulo Henrique, eu, como sempre, faço menção àquela sua parceria com o Michael Klein. Ou seja, a gente continua assistindo a popularização do uso da internet, feita principalmente via Casas Bahia.

Paulo Henrique Amorim – Via Casas Bahia?

Marcelo Coutinho – Ou seja, continua o fenômeno de redução de preço do computador, por conta da desvalorização do dólar, maior disponibilidade e isso tem levado as pessoas a comprarem mais computadores. Ao mesmo tempo tem outro fenômeno acontecendo, que é o aumento do acesso via locais públicos. E quando eu digo locais públicos não são necessariamente tele-centros, são o que a gente conhece como cyber-café, que vem explodindo no Brasil. Então, tem um dado do Comitê Gestor – é outra fonte, mas igualmente importante – que é que hoje a gente teria 49% de acessos via locais públicos. O que é um número bastante elevado também. Então, esses dois fatores combinados estão contribuindo para uma popularização cada vez maior do uso da internet.

Paulo Henrique Amorim – Quando você fala em locais públicos você fala em escolas também?

Marcelo Coutinho – Também escolas. Aí nós estamos combinando tanto escolas, quando tele-centros, quanto a lan-house etc.

Paulo Henrique Amorim – Agora, isso é simultâneo ou isso é compatível com o crescimento de banda larga ou não?

Marcelo Coutinho – Também, também é outro fenômeno que ocorre para esse tipo de utilização. Os preços de acesso à banda larga estão caindo bastante. Então, isso certamente também ajuda você a popularizar o acesso.

Paulo Henrique Amorim – Que tipo de previsão você pode fazer sobre a expansão desse acesso à web no Brasil?

Marcelo Coutinho – Olha, Paulo Henrique, enquanto continuar com condições favoráveis em termos de câmbio, em termos de crédito etc. Hoje você já consegue comprar um computador de R$ 1,2 mil em 36 meses. Então, esse cenário deve se manter. Agora, você sabe muito melhor do que eu que a economia entrou numa espécie de compasso de espera. Hoje, a própria divulgação do IGPM recorde, no dia de hoje, eu acompanhei diversos comentários ao longo do dia e o cenário não é dos mais favoráveis para a expansão do crédito. Então eu não posso lhe assegurar que a velocidade de expansão permanecerá a mesma. Mas com certeza o uso da internet deve continuar se expandindo. É um caminho sem volta.

Paulo Henrique Amorim – Agora, o que você diria sobre a indústria da publicidade na internet com esses números?

Marcelo Coutinho – Olha, a internet no Brasil ainda responde por um percentual que não chega a ser significativo para os segmentos publicitários. O último numero soltado agora foi 3% ou 4%. Então isso significa o que? Que ela ainda tem muito espaço para crescer. Eu tive acesso a um estudo na semana passada e a previsão é que na Inglaterra, no ano que vem, o investimento na internet já ultrapasse o investimento na televisão.

Paulo Henrique Amorim – Na televisão?

Marcelo Coutinho – Sim senhor. Isso é uma previsão para a Inglaterra. A internet hoje já é o segundo meio de massa na Inglaterra.

Paulo Henrique Amorim – O segundo depois da televisão?

Marcelo Coutinho – Segundo depois da televisão.

Paulo Henrique Amorim – E no Brasil também.

Marcelo Coutinho – Aqui no Brasil também, mas não em termos de investimento ainda, não é Paulo. Isso ainda vai demorar um pouco para acontecer. Mas que sem dúvida nenhuma a tendência como um todo é de crescimento, ela é, isso é inexorável, por dois motivos: primeiro pela própria dinâmica da internet, segundo o momento favorável que a economia brasileira ainda atravessa.

Do site do Paulo Henrique Amorin

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ALSTOM: Pano para todas as mangas

 

Prometi que voltaria com o caso Alstom, eis que estou aqui. Em linhas gerais, você sabe: procuradores da Suíça investigam se a francesa Alstom, um gigante mundial na área de infra-estrutura, pagou propinas entre 1997 e 2003 a políticos brasileiros para ganhar licitações gigantescas.

A cobertura dos jornais têm sido muito bem feita em relação aos contratos da Alstom com o metrô paulistano e com a CTEEP. Hoje, por exemplo, Mario Cesar Carvalho e José Ernesto Credendio revelam na Folha de S.Paulo que o Tribunal de Contas do Estado de S.Paulo julgou irregular a compra de 12 trens feita pela CPTM, companhia que cuida do metrô local, no fim de 2005. Por aqueles dias, o tucano Geraldo Alckmin era o governador.

O negócio, fechado sem licitação, correspondeu a R$ 223 milhões. Baseou-se em um contrato de 1995. Pior: o documento havia expirado em 2000. Vale a leitura.

Também é interessante a nota escrita por Monica Bergamo, da mesma Folha. Ela informa que o procurador suíço que investiga a Alstom já havia colaborado com o promotor Sílvio Marques, que cuida do caso no Brasil. Da outra vez, o alvo eram as contas do ex-prefeito Paulo Maluf.

Da outra vez, eu disse? Talvez não. Se o Ministério Público tiver liberdade para a investigação que pretende, é possível que esquemas antigos voltem à tona. Digo isso pois a história de usar notas frias para encobrir repasses ilegais aos políticos é antiga, respingou em Maluf há 11 anos, com o escândalo da Lavanderia Monte Cristo. Revista IstoÉ de 29/10/1997.

“… Ali funciona a sede do grupo Monte Cristo, amontoado de mais de 30 empresas, quase todas de fachada, comandadas pelo empresário Samir Assad. Duas delas, a Montreal Assessoria e Consultoria e a Somartec C M & Futuros Ltda., tiveram operações com títulos públicos da Prefeitura de São Paulo registradas pela CPI do Senado e há seis meses passaram a ser investigadas. O que a PF não sabia era o tamanho da conexão que seria descoberta. No bunker da Monte Cristo os policiais encontraram farta documentação (incluindo mais de dez mil notas fiscais frias) e funcionários dispostos a contar tudo o que sabem sobre um esquema de falsificações e lavagem de dinheiro. Este esquema aponta para empreiteiras e seus costumeiros parceiros, os políticos. Apenas em 125 das notas já analisadas, o valor da falcatrua atinge R$ 17,8 milhões. A PF acredita que o escândalo pode superar os R$ 500 milhões.

Segundo os depoimentos… as notas eram completamente falsas. Não correspondiam a nenhum serviço prestado pelas empresas do grupo, não eram registradas na Secretaria da Fazenda e, embora tenham sido impressas na Izar Artes Gráficas Ltda., estampavam o nome de gráficas fantasmas no rodapé.”

Se eu fosse cobrir essa bagunça toda, daria uma olhadinha em quem eram as parceiras da Alstom à época e veria se elas podem ter repassado dinheiro por aí em nome da francesa. Ficaria de olho especialmente na corretagem e nas operações financeiras. É aí que as investigações costumam se perder _ nos meandros do mercado.

A OAS, por exemplo, no fim de 1997 mandou para Jersey (onde ficavam as supostas contas de Paulo Maluf) R$ 6,8 milhões.

Volto para a Folha de hoje:

"Segundo o jornal norte-americano ‘The Wall Street Journal’, uma dessas propinas, de US$ 6,8 milhões, teria sido paga para que a Alstom conseguisse um contrato de US$ 45 milhões do Metrô de São Paulo."

Pode ser apenas coincidência de valores, e provavelmente o é, mas eu começaria a investigar por aí.

Para continuar lendo, clique aqui.

Outro ponto que levei em consideração são os outros nomes usados pela Alstom por aqui: Cegelec e Alcatel. Menos de 15 segundos após digitar alguns comandos, eis que encontrei a Folha de S.Paulo de 3/12/2000:

"Uma nova planilha eletrônica do comitê financeiro da campanha do presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1998, revela a ação do ministro Andrea Matarazzo (Secretaria de Comunicação de Governo) junto a grandes empresas e dá as primeiras pistas sobre a origem dos R$ 3 milhões arrecadados por ele para o caixa-dois da reeleição.

O registro eletrônico desse arquivo informa que seu autor, mais uma vez, é o ex-ministro da Administração e Reforma do Estado Luiz Carlos Bresser Pereira, tesoureiro oficial das duas campanhas presidenciais de Fernando Henrique Cardoso. A última alteração feita nesses dados ocorreu em 8 de julho de 1998 -portanto, quase três meses antes da eleição."

Nenhum dos três nomes da Alstom aparece nesse texto. A reportagem que traz o "outro lado", porém, intitulada "Empresas negam ter feito doações irregulares a FHC", não deixa dúvidas:

"Alegaram não ter tido tempo hábil para responder à Folha o grupo Vicunha e a Cegelec. Pela planilha, a meta de arrecadação para a Vicunha seria de R$ 150 mil. A Cegelec está no grupo de dez empresas para as quais não há indicação de meta para doação."

A Cegelec fechou contrato com o metrô do Rio em 1997. A Alcatel, por sua vez, era fornecedora de todas as grandes empresas de telefonia. Ah, e tem a Sabesp e a Dersa, responsável pelo Rodoanel.

Quem assinou o documento pela Dersa foi Manfred Von Richtofen. Você, certamente, ouviu falar dele: o engenheiro e a mulher foram assassinados a pauladas por ordem da filha, Suzane, presa por conta do crime. Sugiro que leia a íntegra da reportagem escrita por Helio Fernandes em 16/10/2002. Abaixo, alguns trechos:

"Surgiram agora, no horizonte, os seguintes fatos que estavam encobertos, não ganhavam o sol diário. As nuvens vão sendo afastadas, Receita Federal, polícia, Procuradoria entraram em cena, tentam esclarecer estes fatos.

1 - A Receita Federal já apurava a "evolução patrimonial" de Richtofen. Tiveram a atenção provocada pelos seus gastos e gostos luxuosos, incompatíveis com os salários.

2 - Estão sendo investigados, por três órgãos diversos, (federais) os últimos empregos de Richtofen. Em todos era "assalariado", nada que permitisse as "extravagâncias".

3 - A Receita acredita que indo fundo, vai abrir "a caixa-preta" da Dersa-SP.

4 - Tratavam disso há algum tempo, os obstáculos eram grandes.

5 - Essa Dersa participou e participa das maiores obras viárias do estado.

6 - Já existem pistas que levam à investigação, pelo menos a duas grandes empreiteiras. Uma delas foi que colocou Richtofen na Dersa.

7 - A Polícia Federal faz a sua parte e muito bem. Já localizou viagens ao exterior de Suzane (e do namorado), na companhia do próprio pai.

8 - Essa polícia já tem elementos convincentes sobre desvios (escondidos) de dinheiro feitos pela própria Suzane na conta externa do pai.

9 - Os dólares que o namorado de Suzane diz que recebeu dela, teriam vindo dessa conta. De onde mais?

10 - Ao lhe dar a "senha da conta no exterior", Richtofen não disse à filha que só uma parte do dinheiro era dele.

11 - Não contou, nem podia contar mesmo, que empreiteiros-pagadores-parceiros, eram donos de dois terços.

12 - Dele era o outro terço, nunca essa percentagem valeu tanto."

Bom, leitor, acho que essas sugestões estão de bom tamanho. A lista pode até crescer mais adiante, se os procuradores conseguirem dilatar o prazo em que foram assinados os contratos. Mas, lembre-se: tudo que está aqui é apenas um compilado de informações. Vamos esperar o trabalho do Ministério Público e das redações antes de concluir qualquer coisa. Até!

 

Janaina Leite

Blog Arrastãoapostos

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Imagens de 68 no Brasil

Maio de 68 no Brasil


Passeata dos Cem Mil

 


Passeata dos Cem Mil

 


Passeata dos Cem Mil

 


Repressão

 


Repressão

 


1º de maio: manifestantes expulsam pelegos e governador biônico e ateam fogo no palanque

 


Corpo de José Guimarães, estudante morto na batalha da Rua Maria Antonia, em São Paulo

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O maio francês de estudantes e operários


Henrique Carneiro, Professor do Departamento de História/FFLCH/USP

A sucessão dos acontecimentos franceses é, sem dúvida, a mais marcante do maio de 1968, pois foi a que surgiu com maior surpresa, que teve a maior profundidade em provocar um amplo movimento social que se expressou através da greve geral, que provocou a crise política de maior envergadura, e que teve as ações mais insurreicionais, na cidade européia que já foi o epicentro revolucionário de muitos episódios passados.
Os acontecimentos começam em Nanterre, faculdade dos subúrbios de Paris, onde os estudantes fazem um panfleto e um abaixo-assinado contra a separação por sexos nos dormitórios da residência estudantil. Vinte e nove estudantes são expulsos da residência em punição. E os estudantes descobrem que dentre estes, cinco são "inocentes", ou seja, são estudantes ativistas de esquerda, mas totalmente ausentes da agitação "sexual", e passam a denunciar a existência de listas negras e de policiais à paisana. No dia 26 de janeiro, fazem uma manifestação exibindo fotos de agentes policiais infiltrados entre os estudantes, o reitor chama a polícia e os estudantes resistem. Foi apenas uma primeira batalha.
Nos colégios secundaristas e faculdades se organizavam os CVB, Comitês Vietnam de Base. Em 21 de fevereiro, tomam o consulado sul-vietnamita em Paris, que é pichado e alçada uma bandeira da FLN. Em 20 de março, os CVB atacam a sede do American Express, cujas vitrines são estilhaçadas, alguns estudantes são presos, entre eles um de Nanterre.
Daniel Cohn-Bendit e um pequeno grupo convocam uma assembléia para defender os estudantes presos. Reúnem-se cerca de 800 estudantes que decidem ocupar o edifício. Os 142 que passam lá a noite decidem chamar-se Movimento 22 de março.
O mês de maio começa com um enorme desfile de primeiro de maio, onde a CGT, controlada pelo partido comunista, impõe com seu serviço de ordem a proibição da participação dos anarquistas, trotskistas, maoístas e a extrema-esquerda em geral. Há choques com o serviço de ordem que produzem feridos leves.
No dia 2 de maio, o reitor de Nanterre, com o crescimento da agitação, decide pedir ao ministro da educação o fechamento da faculdade por uns dias. No dia seguinte, os estudantes de Nanterre vão à Sorbonne, no centro de Paris, onde se reúnem em assembléia. Nesse dia começaria a insurreição.
Na assembléia na Sorbonne reúnem-se os "enragés" de Nanterre, do 22 de Março, com a vanguarda da Sorbonne, entre os quais estava Alain Krivine, da JCR (Juventude Comunista Revolucionária), de orientação trotskista. No final da tarde, o ministro da Educação, Alain Peyrefitte decide desocupar a Sorbonne com a polícia. A polícia vai prendendo centenas das lideranças que se reuniam na faculdade, quando ocorre o inesperado. A multidão começa a se reunir em torno dos carros da polícia e a protestar. Nesse levante espontâneo começou a rebelião de maio. A polícia, surpreendida por gente que protesta por todos os lados, sai distribuindo cacetadas que atingem todos que estão andando pelo bairro. A multidão reage, voam pedradas e gás lacrimogêneo. Seiscentos estudantes são levados presos e a França lê na manhã seguinte nos jornais os relatos da brutalidade policial. O jornal "L’Humanité", do Partido Comunista, se junta, entretanto à direita, para condenar os "agitadores irresponsáveis".
No mesmo dia 3, uma sexta-feira, Alain Geismar, presidente do SNESup, um sindicato de professores universitários, chama a greve geral em todas as universidades contra o fechamento e a repressão em Nanterre e na Sorbonne. No domingo, quatro dos estudantes presos são condenados à prisão por dois meses, e outros a multas.
Na segunda-feira, sob o apelo de uma manifestação chamada pela UNEF, presidida por Jacques Sauvegeot, ligado ao PSU de Mendès-France, mesmo que proibida pelo governo, vão se agrupar num centro de Paris coalhado de policiais, os estudantes e o povo. As dez horas da manhã já são mil e quinhentos no Boulevard Saint-Michel e a polícia lança as primeiras bombas, enquanto um cortejo sai por Paris gritando "Libertem nossos companheiros". A bola de neve rola. Às três horas da tarde já são levantadas as primeiras barricadas. No ato proibido da UNEF, as quatro da tarde, definem-se as reivindicações do movimento: reabertura das faculdades, libertação dos presos, e em seguida partem para a Sorbonne numa passeata de quinze mil pessoas e no caminho se chocam com o bloqueio policial, levantam barricadas e as sustentam contra a polícia até as 9h30 da noite.
Em 7 de maio, a UNEF e o SNESup chamam nova manifestação, reúnem-se vinte mil em Denfert-Rocherau, e quando a passeata sai já são quarenta mil. De onde vêm? Uma adesão importante vem dos colégios secundários onde comitês de luta chamam à greve, a outra vem do povo. O governo decide manter o perímetro da Sorbonne vetado aos manifestantes que desfilam por trajetos decididos no calor da disputa, é o dia em que passam defronte do parlamento gritando "o poder está nas ruas", ganham o Champs-Elysées, para terminar ao pé do Arco do Triunfo onde cantam a Internacional. Ao final a ordem de dispersão da UNEF não é seguida por milhares de manifestantes que levantam barricadas e combatem a polícia até as três da madrugada.
No dia seguinte pela manhã, não só em Paris, mas em diversas cidades os estudantes estão nas ruas. Em Paris chove. Os estudantes fazem uma passeata e depois se dispersam, sob protestos de alguns setores, convocando uma nova e decisiva manifestação para sexta-feira, 10 de maio.
Esse dia começa com os estudantes secundaristas fazendo passeata pelos colégios, ao meio dia já são cinco mil. Mas é após a manifestação das 18:30, que os trinta mil manifestantes, são impedidos de ir para a Sorbonne e para a margem direita (região rica) da cidade. É nesta noite que se decide a tomada do bairro, o Quartier Latin, com barricadas. As rádios transmitem ao vivo para toda a França a batalha noturna.
Esta que foi a noite decisiva, não contou com o apoio e participação de todas as tendências do movimento. O 22 de março, de Conh-Bendit, e a JCR, de Alain Krivine, eram os principais grupos organizados que estavam presentes. Outros, como os maoístas da UJCml, de Robert Linhart, que haviam proposto a ida dos estudantes aos bairros operários, retiram-se dessa noite considerando que a "pequena-burguesia" (os estudantes) entravam numa armadilha do governo. Da mesma forma a FER, trotskistas adeptos do PCI de Pierre Lambert, se retiram em passeata do Quartier Latin, após não terem participado da manifestação da tarde, pois mantiveram um comício próprio de sua tendência no auditório da Mutualité. Mais do que os militantes organizados eram centenas os jovens e populares sem participação política anterior que se somavam aos combatentes daquela madrugada, em que os moradores desciam de seus apartamentos para ajudar a erguer as barricadas nas ruas. São, sobretudo, automóveis tombados as dezenas, que se incendeiam quando a polícia atira bombas. São dezenas de investidas e recuos da polícia sob o fogo de coquetéis molotovs e de projéteis atirados dos prédios. O governo decidido a não permitir que Paris despertasse com barricadas só conseguirá destruir a última delas às 5h30 da manhã.
No dia seguinte pela manhã as três centrais sindicais, CGT, CFDT e FO se reúnem com a UNEF e o SNESup e decidem convocar uma greve geral para segunda-feira, dia 13 de maio, com uma marcha em Paris. À noite, o primeiro-ministro George Pompidou anuncia um recuo do governo com a reabertura da Sorbonne e a revisão das condenações dos quatro estudantes presos.
Na segunda-feira os manifestantes serão, segundo as centrais, cerca de um milhão. A Sorbonne é reaberta e torna-se o centro de uma comemoração onde a "imaginação tomava o poder".
No dia seguinte, o presidente De Gaulle parte para uma viagem à Romênia. À tarde, em Nantes, na empresa estatal Sud-Aviation, dois mil operários em greve ocupam a fábrica e sequestram a diretoria.
Na quarta-feira, o comitê de ocupação da Sorbonne envia um telegrama de apoio à Sud-Avation ocupada. Perto de Rouen, mais 4 mil operários da Renault também ocupam a fábrica e tomam sua diretoria. No final da tarde o teatro Odéon é ocupado e um grande cartaz é colocado em sua entrada: "Quando a Assembléia nacional torna-se um teatro burguês todos os teatros burgueses devem se tornar assembléias nacionais!".
Na quinta-feira, dia 16, as ocupações se espalham, em todo país dezenas de fábricas são ocupadas pelos operários, inclusive a Renault de Paris (Billancourt), com 23 mil operários. Na sexta-feira, os comitês operários e estudantis se visitam, apesar dos dirigentes sindicais da CGT, braço sindical do PC, tentarem impedir o contato entre estudantes e operários, e as greves aumentam ainda mais. O metrô decide parar.
No sábado, das minas de carvão à indústria química, dos trens ao correio, já se estimam dois milhões de grevistas em todo o país. O presidente retorna ao país.
No domingo, os estudantes em assembléia recebem intelectuais como Sartre, Bourdieu e Châtelet para debaterem o movimento. A nova semana se inicia com seis milhões de grevistas. Cohn-Bendit vai de visita para a Alemanha e não recebe permissão de reentrada na França. No dia 22 de maio, em protesto milhares de manifestante fazem uma nova noite de barricadas. Dia 23, novos combates no Quartier Latin, no país os grevistas chegam a 10 milhões.
No dia 24, véspera do aniversário da Comuna de Paris, é marcada uma nova manifestação. Neste dia, pela primeira vez, De Gaulle se dirige à nação pela TV e se propõe a um referendo.
A manifestação do dia 24 coloca em questão o controle da cidade. A sede da prefeitura, edifício histórico que, ao ser tomado, decidiu a vitória da Comuna de Paris, em 1871, permaneceu protegido, e os manifestantes se dedicaram a incendiar a Bolsa, e de passar diante dos ministérios sem ocupar nenhum. Uma delegacia de polícia é atacada e incendiada. Morre um civil em Paris e um policial em Lyon. O conflito eclode em diversas cidades francesas.
No dia seguinte, começam os acordos de Grenelle, nome da rua onde se situava o Ministério dos Assuntos Sociais. Embora as greves e ocupações fossem em sua quase totalidade espontâneas, logo o PC e os aparelhos sindicais buscam "pelo alto" a retomada do controle. O governo patrocina as reuniões de Grenelle, entre sindicatos patronais e de trabalhadores, e acerta-se um aumento geral de 10% dos salários como forma de se parar a greve geral no país.
No dia 27 de maio, quinze mil operários em assembléia em Billancourt recebem a proposta defendida pelos dirigentes sindicais e não a aceitam, o mesmo ocorrendo em todas as grande fábricas do país. O Partido Comunista, que se opusera às greves e atacara violentamente o movimento estudantil, torna-se o defensor da aceitação do acordo salarial que as assembléias haviam rejeitado.
No momento em que este impasse se instaura no movimento social, De Gaulle retoma a ofensiva, após uma viagem ao comando militar francês na Alemanha, para assegurar-se do apoio militar, organiza uma manifestação em seu apoio em 30 de maio, dissolve a assembléia nacional e convoca eleições para dentro de um mês. Após a marcha pró-governamental de, ao menos, um milhão de pessoas, a polícia passa a agir violentamente, desocupando as fábricas e realizando prisões em massa. Em 10 de junho, um jovem é morto pela polícia e as barricadas cobrem novamente o Quartier Latin. Nos dias que se seguem dois operários são assassinados durante a repressão. Em Paris, violentos enfrentamentos, delegacias depredadas, prisões em massa. Em 12 de junho, o Conselho de Ministros decide a dissolução oficial de uma série de grupos de extrema-esquerda, entre os quais a JCR, o 22 de março, a UJCML, a FER, etc.
Em 30 de junho, De Gaulle, aos 78 anos, ganha as eleições legislativas e prepara seu sucessor Georges Pompidou. Após a aceitação dos acordos de Grenelle pelo PC, o movimento social sofrera a ação aberta do freio da CGT, que antes também houvera, mas desta vez eles acenavam com um aumento salarial de 10%. Perdido o momento da crise revolucionária, quando não havia uma alternativa de poder, na recusa do PC e da CGT em construí-la, isso terminou por desnortear o ímpeto do levante espontâneo de massas que tomava proporções insurreicionais, conduzindo-o para o isolamento da vanguarda mais combativa que continuou ocupando fábricas enquanto a maioria dos trabalhadores tinha suas greves desmontadas uma a uma em troca do aumento salarial, recurso que impediu a derrubada do governo.
Ecos de 68
O balanço de 68 foi o de um poderoso movimento social, que desafiou o Estado e a esquerda oficial do PC, mas que não conseguiu construir uma alternativa de poder durante o levante e uma alternativa política que sobrevivesse ao período do refluxo. Nesse momento pós-68 as derivações guerrilheiristas foram a via de destruição de um setor da vanguarda, na América Latina, na Europa Ocidental, no Japão e nos Estados Unidos, onde a busca de alternativas ao reformismo contra-revolucionário dos partidos comunistas se radicalizou no método, através de formas ultra-esquerdistas, mas mantendo as concepções teóricas e programáticas do stalinismo.
A derrota política do movimento de 68, - afinal De Gaulle ganhou as eleições, Nixon se elegeu, as ditaduras dominaram a América Latina, duzentos estudantes foram mortos no México e o exército soviético ocupou a Tchecoslováquia - representou um movimento de superação das velhas direções e de ausência de novas alternativas amadurecidas. A carência de uma alternativa revolucionária agravou-se. Do ponto de vista social, houve conquistas, como o aumento geral de salários na França, que embora muito aquém do questionamento radical do poder que existia, significou que a burguesia sufocou o movimento fazendo concessões e não podendo esmagá-lo.
As conquistas sociais de 68 enraízam-se também na ampliação da politização cultural, ou seja, da crítica do poder, para os mais amplos campos. A ordem familiar patriarcal e o machismo são postos em questão ao mesmo tempo que a estrutura educacional ou psiquiátrica, assim como todas as hierarquias do saber. Os direitos da democracia cultural radical, da livre opção sexual, da liberdade de crítica, inclusive no âmbito acadêmico, de liberdade estética e cultural, ampliam-se em diversos âmbitos das sociedades ocidentais.
Registre-se, entretanto, que, nas últimas décadas, tem havido um recuo significativo nestes direitos, não só no Oriente com os fundamentalistas islâmicos, como também nos países ocidentais, com os fundamentalistas evangélicos, católicos, ou judeus, todos empenhados na luta contra a liberdade cultural.
A guerra contra as drogas é uma outra face pós-68 de uma empreitada inquisitorial que repete a aliança do começo do século, na época da Lei Seca, dos aparelhos repressivos com a burguesia financeira do narcotráfico e os fanáticos do puritanismo para sustentarem um agravamento, com o proibicionismo deste fim do século, da inquisição moral e da hipertrofia do lucro, da repressão e da violência.
Ao questionarem a esquerda oficial, muitos setores intelectuais derivados de 68 mergulharam no ceticismo, ou no puro arrivismo, com muitos egressos da contestação depois integrados em cargos nos governos. A denúncia da política traidora do stalinismo e da social-democracia derivou em muitos casos para uma negação da possibilidade de uma política operária revolucionária, ou da ação política em geral.
Uma parte da herança ideológica de 1968 subsiste no trotskismo, e um de seus reflexos, na Europa, é o espaço eleitoral ocupado por candidatos da extrema-esquerda. A construção de uma alternativa revolucionária aos aparatos burocráticos e reformistas hoje, para que a classe operária e a juventude possam sair vitoriosas dos outros maios que virão, se expressa na reconstrução da Quarta Internacional, tema do próximo congresso da Liga Internacional dos Trabalhadores.
BIBLIOGRAFIA
Las luchas estudiantiles en el mundo, Buenos Aires, Galerna, 1969.
GOMEZ, Michel, Mai 68 L’Histoire et les Photos, Paris, Gaignault, 1988. KURLANSKY, Mark, 1968. O ano que abalou o mundo, Rio de Janeiro, José Olympio, 2005.
VILLA, Jose M. Vidal - Mayo 68. La Imaginación al Poder, Barcelona, Bruguera, 1978.

Do site do PSTU

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Muito além da França:

A revolta pelo mundo

 

Henrique Carneiro, Professor do Departamento de História/FFLCH/USP
Um pequeno resumo cronológico dos principais acontecimentos em diversos países permite um panorama da extensão da revolta, cuja eclosão, antes da França, começou em países como os EUA, Japão, Alemanha, Itália e Brasil. Nos três principais países imperialistas - Estados Unidos, Alemanha e Japão - ocorriam as mais fortes manifestações de protesto político desde o final da segunda guerra mundial.
Nos Estados Unidos, após um ano de 67 rico de protestos pacíficos, quando a contracultura, o psicodelismo, e os hippies se uniam com a "new left" e o movimento negro, na onda de festivais de rock, num espírito anti-guerra de "paz e amor", no que ficou conhecido na Califórnia como o "verão do amor", o ano de 68 mostrava que no coração do imperialismo a luta seria menos idílica do que a ingenuidade juvenil esperava. Em abril acontecia o assassinato de Martim Luther King, que radicaliza definitivamente o movimento negro, lançando um setor, o dos Panteras Negras, na luta armada. Ao mesmo tempo ocorre a ocupação da universidade de Columbia, desencadeando uma greve geral estudantil contra a guerra e o racismo nesse mesmo mês de abril. Em maio há uma marcha em Washington, em junho o assassinato de Robert Kennedy, em julho barricadas em Berkeley e a aliança entre o ativismo negro e o estudantil, com o acordo SNCC-Black Panther, em agosto/setembro a Convenção democrata em Chicago, que torna-se palco de combates de rua. Em 31 outubro, o presidente Johnson suspende os bombardeios do Vietnam do Norte, mas em 6 de novembro, Richard Nixon é eleito o novo presidente.
No Japão, em 18 de janeiro se realiza uma manifestação da Zengakuren, espécie de sindicato estudantil radical, contra a chegada do submarino atômico norte-americano Enterprise à base de Sasebo. Há intervenção da polícia com 90 feridos. Em 11 de março, estudantes da Zengakuren se manifestam contra a construção de um hospital norte-americano no centro de Tóquio, os choques produzem centenas de presos e feridos. Em 30 de março ocupam o hospital e há uma centena de feridos na desocupação policial. Em 15 de junho, 10 mil estudantes fecham o centro de Tóquio em solidariedade com os estudantes franceses. Em 9 de outubro, ocorre uma greve de 1 hora de mais de um milhão de funcionários e violentos choques em diversas cidades. Em 21 de outubro, há uma manifestação pacífica de 800 mil pessoas organizada pelos sindicatos no "dia anti-guerra" e choques violentos dos estudantes com a polícia.
Na Alemanha, o "Congresso Vietnam", proibido pelas autoridades, realiza-se em Berlim ocidental, e em 18 de fevereiro vinte mil manifestantes desfilam com bandeiras vietcongs da FLN. Em 11 de abril há uma tentativa de assassinato do líder estudantil Rudi Dutschke, nos protestos que se seguem a polícia é responsabilizada por dois mortos em Munique (um fotógrafo e um estudante), manifestações de solidariedade acontecem em Oslo, Roma, Viena, Amsterdam, Paris, etc. Em fins de maio, são ocupadas com barricadas as universidades em Munique, Hamburgo, Gottingen, Heidelberg, Frankfurt, e Berlim ocidental, entre outras.
Na Espanha, sob a ditadura franquista, os estudantes saem às ruas desde janeiro, há greves operárias após o primeiro de maio e no dia 17 deste mês na Faculdade de Filosofia de Madrid lutam durante três horas para impedir a invasão da polícia que queria retirar uma bandeira vermelha do alto do edifício, e durante todo o ano prossegue a agitação.
Na Itália, desde janeiro explodem os conflitos nas faculdades e escolas secundárias, com o centro dos acontecimentos em Turim e Florença, onde o reitor se demite em protesto contra a violência da repressão policial. Em fevereiro, a solidariedade aos estudantes de Florença espalha-se pelo país e há ocupações em Roma, a solidariedade aos estudantes franceses aumenta a temperatura durante maio, mas é ao final do ano, em outubro e novembro que a agitação estudantil atingirá o auge com ondas de ocupações de colégios secundários e de faculdades.
Na Turquia, em 15 de julho, a VI Frota norte-americana chega à Istambul, desencadeando uma onda de protestos estudantis contra a presença das tropas norte-americanas.
No Leste Europeu, os estudantes também mantinham uma reivindicação geral de apoio às lutas do terceiro mundo, mas a questão central era a reivindicação de liberdades democráticas. Na Polônia, é em torno da questão da liberdade artística que se catalisa o movimento estudantil e popular. Em 16 de janeiro, o governo resolve tirar de cartaz uma peça no Teatro Nacional devido "aos aplausos demasiado demonstrativos durante a última apresentação". Os estudantes fazem primeiro um abaixo assinado, depois realizam manifestações, há choques e prisões, e em 9 de março começam as greves e ocupações de faculdades. Grandes manifestações se espalham pela Polônia com a participação de operários. Após maio, com dezenas de presos e expulsos das universidades, o movimento arrefece. Em 21 de agosto ocorre a invasão da Tchecoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia. Depois da resistência nos dias da invasão, com o suicídio público de protesto por imolação do estudante Jan Palack, o movimento estudantil resiste ao desmonte de suas representações autônomas e realiza uma grande manifestação em Praga em 28 de outubro e, em 7 de novembro, ocupam a universidade e fazem greve.
Na Iugoslávia, na noite de 2 para 3 de junho, se impede a entrada de estudantes num concerto de música pop, e há uma luta no qual um estudante é ferido. Na manhã seguinte, os estudantes saem em passeata no centro de Belgrado e enfrentam a polícia. À tarde numa assembléia de oito mil pessoas se decreta a greve e a ocupação. Em 5 de junho, a universidade é ocupada e denominada de "universidade vermelha", na fachada se colocam os cartazes de "Socialismo, liberdade, democracia" e "A revolução não terminou". Os estudantes atacam o que chamam de "burguesia vermelha". Tito opta por negociar e aceita parte das reivindicações, indo à televisão defender um acordo, enquanto os estudantes aceitam declarar que sua ação era inspirada no "pensamento revolucionário do camarada Tito". Após a invasão da Tchecoslováquia, em agosto, aprofunda-se a integração do movimento estudantil com o governo.
Na América Latina, os países onde mais incide a crise são o Brasil e o México. No Rio de Janeiro, a polícia mata o estudante Edson Luís em 28 de março. Abril se inicia com manifestações contra o quarto aniversário do golpe militar e com a greve operária de Contagem. Em junho, ocorre a batalha da rua Maria Antonia, em São Paulo, e a "passeata dos 100 mil" no Rio de Janeiro. Em outubro, o congresso clandestino da UNE em Ibiúna é desbaratado pela polícia. No México, após um turbulento ano de manifestações estudantis e populares, com passeatas de 200 mil pessoas, como em 13 de agosto, o movimento é duramente reprimido, cerca de 200 estudantes são assassinados, em 2 de outubro, no massacre da praça de Tlatelolco, e o exército ocupa universidades e colégios. Segundo o escritor Carlos Fuentes, em seu mais recente livro, o número de mortos neste massacre pode ter chegado a 500.
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O significado político do ano de 1968


Henrique Carneiro, Professor do Departamento de História/FFLCH/USP

O ano de 1968 se tornou emblemático porque nele se concentraram acontecimentos que representaram uma inflexão histórica. Foi a maior onda de conflitos políticos simultâneos em diversos continentes, particularmente na Europa, depois da crise do pós-guerra. E foi o primeiro movimento de massas internacional a sair fora do controle das organizações tradicionais do movimento operário mundial: os partidos comunistas e as organizações ligadas à social-democracia, tanto nos países da Europa ocidental e da América Latina, como no interior dos próprios estados controlados pela burocracia soviética, dos quais o movimento mais importante foi o da Tchecoslováquia.
O mais importante dessa onda histórica de lutas talvez tenha sido, não apenas a sua força e extensão objetivas, mas o fator subjetivo da ruptura com as velhas direções, do surgimento de uma nova consciência crítica nas vanguardas estudantis e operárias que protagonizaram tais lutas.
No interior da esquerda, germinou uma busca de alternativas anti-stalinistas, de vertentes heterodoxas e de um renascimento da crítica radical. A obra de Leon Trotsky alcançou um novo impacto, apenas doze anos passados do reconhecimento oficial pela burocracia soviética, dos crimes de Stálin no XX Congresso do PCUS, em 1956. A juventude que despertava para a militância política, já o fazia distanciada dos partidos tradicionais, e engrossava as fileiras dos maoístas, anarquistas, e trotskistas e desconfiava da esquerda "oficial", integrada ao Estado e à ordem européia do pós-guerra.
Autores até então obscuros ou marginalizados foram relidos, as vezes até publicados pela primeira vez em muitos países, como foi o caso de Charles Fourier, Wilhelm Reich e Antonio Gramsci. A escola de Frankfurt, sobretudo a obra de Herbert Marcuse, a inspiração do que se chamou de "esquerda freudiana", e a redescoberta da obra até então inédita de Reich, levou a que a "revolução sexual" se tornasse uma bandeira gêmea da revolução social. O movimento feminista preparava a sua nova onda histórica de mobilizações na Europa ocidental por reivindicações como direito ao aborto e ao divórcio, enquanto nascia um movimento homossexual.
Tais transformações nos costumes tomavam inédita repercussão e dimensão política, e no compasso de uma efervescência estética vanguardista, com o rock tomando proporções de estilo rebelde internacional, e todas as artes eclodindo de experimentalismos e inovações, conquistavam-se novas esferas no direito à autonomia do próprio corpo, com reivindicações que iam da legalização do consumo de drogas ao direito do uso de cabelos compridos ou adereços extravagantes, à práticas de vida comunitária alternativas ou a buscas espirituais em filosofias orientais, num rechaço moral ao domínio histórico do imperialismo ocidental e sua religião.
Muitas vezes, 1968 é interpretado, desde um prisma essencialmente francês, a partir dos processos teóricos que se originaram ou se seguiram aos eventos deste ano. Se 68 teve esta importância reflexiva, anterior e posterior à eclosão da rebelião de maio, o seu significado imediato enquanto ocorria era o de uma crise política devido à intervenção ativa das massas numa luta que se espalhava das escolas para as fábricas. Logo após o final da segunda guerra mundial haviam eclodido movimentos de revolta, tanto na Europa, com ondas grevistas na França e Itália, como no mundo colonial, onde da Indonésia à África, as colônias conquistaram a independência formal de suas metrópoles. Em muitas delas contra governos metropolitanos nos quais os PCs participavam, como é o caso da França, que praticou os massacres de Madagascar, Argélia e Vietnam com comunistas nos ministérios, inclusive no da Defesa. Na China, Iugoslávia e Albânia, o processo foi além do que Stálin estabelecera e a burguesia foi expropriada.
Embora o processo de luta nas antigas colônias prosseguisse no curso dos anos 50 e 60, com os picos na revolução argelina e cubana, conseguiu-se uma fase de relativa estabilidade política na Europa, possibilitada por um boom econômico a partir da reconstrução capitalista com o plano Marshall e a divisão do continente em dois blocos, onde cada lado encarregava-se de manter a ordem dos acordos de Yalta e Potsdam nos seus territórios, chegando a erguer para isso um muro para separar as duas Alemanhas. A União Soviética, além de manter a ordem no seu território e dos seus satélites, direcionava os partidos comunistas no mundo para uma ação de aliança com as burguesias e de sabotagem do movimento operário independente. Em Cuba aliam-se a Batista ocupando ministérios, na Argélia opõem-se à independência, e na própria Europa, desmontam as ondas grevistas do pós-guerra na França e na Itália.
A coincidência de levantes políticos em diversas regiões do planeta de uma forma mais ou menos simultânea foi a característica decisiva do ano de 1968. Os levantes na Europa, Estados Unidos e Japão combinaram-se com a ofensiva do Tet no Vietnam e com manifestações em toda a América Latina. No leste europeu, vivia-se a segunda onda de lutas do pós-guerra (a primeira foi em 56), especialmente na Polônia e Tchecoslováquia, que culminaram na invasão soviética. E o boom econômico das duas décadas do pós-guerra também se esgotava exatamente nesse período.
A noção de uma revolução internacional tomava dimensão não só na ocorrência objetiva de levantes políticos em diferentes países como numa solidariedade concreta entre manifestantes que se identificavam com bandeiras comuns, como a denúncia da agressão norte-americana no Vietnam, a reivindicação do Che Guevara e a luta por um socialismo que não se identificava com o governo soviético e os PCs mas, ao contrário, apoiava as rebeliões na Tchecoslováquia e se encantava com o radicalismo da revolução cultural chinesa.
Mas foi na França, com a greve geral e as barricadas, que a influência de 68 irradiou-se mais forte. Além dos elementos objetivos do movimento, o que se destacava era o fato de que ele não era controlado pelas direções políticas tradicionais do movimento dos trabalhadores, ou seja, as direções sindicais e do Partido Comunista Francês. Ao invés das direções tradicionais, o que despontava era uma outra geração, que irrompia na cena política com a reivindicação de sua própria juventude como garantia de legitimidade e autenticidade políticas. O movimento internacional da juventude assumia também proporções mais subterrâneas do que os eventos massivos e os conflitos diretos, insinuando-se nas atitudes culturais, invadindo as menores cidades com a identidade comum de uma postura anti-repressiva no âmbito dos costumes e antigovernamental no terreno político. Os estudantes, "barômetro da sociedade", refletiram em inúmeros países uma nova relação de forças sociais e se combinaram com lutas operárias mais embrionárias para desencadearem movimentos de oposição aos regimes vigentes da Turquia ao Japão, dos Estados Unidos à Polônia, do Brasil ao México.
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Maio de 68: a última onda revolucionária que atingiu o centro do capitalismo


Valério Arcary, professor do CEFET/SP, doutor em história pela USP e autor, entre outros livros, de As Esquinas Perigosas da História, é militante do PSTU

  • Baixe a íntegra deste artigo
    Se não houvesse senão uma chance sobre cem mil, uma ínfima probabilidade, eu apostaria mesmo assim (…) Eu tenho a paixão das causas difíceis, quase perdidas, quase desesperadas. É toda a diferença entre a falésia, confortavelmente sentada, contente de seu lugar, arrogante, condescendente consigo mesma, e a onda, que reflue, se retira, sem esquecer jamais de voltar à carga. Tu sabes quem, entre a falésia e a onda do mar, tem a última palavra?
    Daniel Bensaïd [1]

    Só há bons ventos para quem sabe onde quer chegar.
    Sabedoria popular portuguesa

    Melhor andar para trás, do que andar para frente na direção errada.
    Sabedoria popular inglesa

    Essa é uma briga particular, ou qualquer um pode participar?
    Sabedoria popular irlandesa
    O maio de 1968 francês é um daqueles meses que fizeram história. Quarenta anos são um intervalo de tempo suficiente para podermos olhar o passado com sentido de perspectiva. Todos os anos têm doze meses, todos os dias têm vinte e quatro horas, mas os dias, os meses e os anos não são iguais entre si. Há horas que valem por meses, dias que valem por anos, e meses que valem por décadas, pela intensidade dos acontecimentos e suas conseqüências. Quando revoluções se colocam em movimento, a história se acelera, e tudo que parecia duvidoso se torna, subitamente, plausível.
    Revoluções aconteceram, estão acontecendo e voltarão a acontecer porque mudanças eram, são e continuarão sendo necessárias. As forças de inércia das sociedades contemporâneas, contudo, foram, são e permanecerão sendo muito grandes, bloqueando até as transformações pela via de reformas. Foi o reacionarismo das classes dirigentes que, invariavelmente, emperrou as reformas e empurrou as massas na direção da revolução. As revoluções em um país, todavia, sobretudo se vitoriosas, favorecem mudanças por reformas. Nos países onde o terremoto explodiu, e em outros. Mesmo as revoluções abortadas funcionam, historicamente, como um "alerta amarelo" para as classes dirigentes de que algumas concessões terão que ser aceleradas, para evitar um novo curto-circuito das relações político-sociais (Draper,1978). As reformas podem ser econômicas, sociais, políticas ou culturais. A extensão do direito de organização sindical, ou a universalização do voto nas décadas finais do século XIX, na França, mas também na Alemanha, por exemplo, seria inexplicável sem a Comuna de Paris de 1871. A consagração do salário mínimo, ou as preocupações keynesianas com o desemprego seriam incompreensíveis sem a revolução de Outubro de 1917, e o perigo de novos Outubros. Separar o que foi a obra da revolução, do que foi a política da contra-revolução, é um dos desafios mais importantes da historiografia.
    O maio francês foi uma revolução política e, mesmo derrotada, abriu o caminho para reformas, entre elas, mudanças sócio-culturais progressivas que eram inadiáveis. Os direitos da mulher passaram a ser parte da agenda política: o direito ao divórcio, a legalização do aborto, a criminalização da violência doméstica, entre outros, encontraram reconhecimento legal, mais rápido ou mais lentamente, em inúmeros países. Os direitos da juventude, entre outros, foram, também, ampliados. Não deveria surpreender que muitos tenham se dedicado, nas décadas seguintes, a exorcizar o fantasma, ou o perigo, da revolução social anti-capitalista, aplaudindo as reformas político-culturais. Mas, as reformas não foram obra da contra-revolução: foram, essencialmente, um sub-produto da revolução.
    O maio francês se desenvolveu, também, no contexto de uma vaga revolucionária internacional, a maior da segunda metade do século XX antes dos processos do Leste Europeu entre 1989-91, que fez tremer a ordem mundial: nas ruas de Saigon se revelava para o mundo que o Império mais poderoso da história, militarmente, não poderia alcançar uma vitória no Vietnam; de Paris ao Rio de Janeiro, de Praga à Cidade do México, de Turim a Córdoba na Argentina, sem esquecer a nova situação dentro dos EUA e na Alemanha - só o Japão, na Tríade, escapou - e as batalhas decisivas das guerras de libertação nacional contra o Império Português na Guiné, Angola e Moçambique, em quatro continentes, a revolução abria frentes de combate.
    Revoluções são surpresas históricas
    Revoluções foram sempre uma surpresa histórica. Mas, na história, há surpresas e surpresas. Marx tinha acompanhado o movimento operário francês, com especial atenção, embora a influência dos proudonistas, nas alas mais moderadas, e dos blanquistas, entre as radicais, fosse superior à dos seus camaradas. Paris foi, afinal, a capital da revolução européia no século XIX por três vezes: em 1830, 1848 e 1871. Ao final da vida, Marx depositou esperanças em uma revolução que viria da Rússia, um dos últimos grandes Impérios autocráticos.
    A república que surgiu da derrota da Comuna de Paris parecia ter consolidado o poder burguês por muitas gerações, e afastado a França do furacão revolucionário. Ao final da Primeira Guerra Mundial, a França, uma das potências vitoriosas, embora exausta, senão prostrada pelo esforço de guerra, foi poupada da onda revolucionária que sacudiu a Europa central e oriental. Na seqüência da crise mundial de 1929, a França chegou a viver a experiência de um governo de Frente Popular com Leon Blum, eleito em 1936, e uma situação revolucionária com a grande greve geral, mas as hesitações insuperáveis da SFIO (Seção Francesa da Internacional Operária) - a social-democracia - e do PCF (Partido Comunista Francês), associadas às dificuldades no cenário internacional - consolidação do nazismo na Alemanha, terror do estalinismo na URSS durante os anos dos julgamentos de Moscou, isolamento das forças revolucionárias na guerra civil espanhola - conduziram a uma inversão desfavorável da relação de forças entre as classes. As classes proprietárias francesas abraçaram uma perspectiva contra-revolucionária aberta: "mieux Hitler que le Front Populaire" (melhor Hitler que a Frente Popular).
    Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, no entanto, não voltaram a se abrir situações revolucionárias nos países centrais, e a burguesia européia e seus representantes estavam confiantes que as revoluções eram turbulências do passado, características de uma época histórica superada, ou de países atrasados ou até exóticos, como Cuba. Mesmo entre os marxistas eram poucos aqueles que ainda apostavam nos desdobramentos de uma situação revolucionária nas metrópoles imperialistas, apesar das conseqüências desestabilizadoras das derrotas nas guerras coloniais, como no Vietnam e Argélia para a França. Empolgante e inesperado, o Maio de 68 francês demonstrou que revoluções ainda eram possíveis nas fortalezas da retaguarda do imperialismo contemporâneo.
    O grande tabu do pós-guerra: a presença dos PCs em governos europeus
    Na França, uma nova geração tinha chegado à vida adulta sem passar pela tragédia das guerras mundiais da primeira metade do século, mesmo se considerado os sacrifícios da juventude francesa nas guerras do Vietnam e da Argélia; o crescimento econômico, mesmo se financiado pelos investimentos norte-americanos - que deixavam a França e, de resto, toda a Europa, em uma posição complementar dentro do sistema internacional de Estados - era alimentado pelo peso da intervenção do Estado que aumentava os gastos militares: o capitalismo regulado não só tinha reduzido as taxas de desemprego, como se apoiava em uma crescente dependência de mão de obra emigrante; a extensão dos serviços públicos, mesmo se respeitadas as diferenças sociais consideráveis que ainda separava o padrão de vida dos trabalhadores das classes médias urbanas e rurais, tinha diminuído de forma significativa a mortalidade infantil, elevado a escolaridade e aumentado a proteção social dos idosos. Um otimismo histórico animava a sociedade, mesmo se considerado o perigo latente da guerra fria: os salários subiam lentamente, mas subiam, enquanto as pressões inflacionárias estavam sob controle; as necessidades mais intensamente sentidas - alimentação, moradia, transporte, educação, saúde - eram crescentemente satisfeitas; o consumo dos bens duráveis aumentava. Políticas keynesianas anticíclicas pareciam ter garantido a governabilidade política (Chesnais, 1997).
    Mas, estas mudanças não foram suficientes para conter os estudantes - a primeira linha da nova geração - e não impediram que estes arrastassem atrás de si a maioria do povo: entre 14 e 27 de maio, a França foi sacudida por uma greve geral espontânea, porém, irresistível, talvez uma das greves gerais mais fortes da história e que se alastrou de norte a sul, paralisando o país. À sua frente estava a juventude operária que, rapidamente, forjou uma aliança com os estudantes. Não restou a De Gaulle alternativa senão convocar o Exército, e apelar, dramaticamente, ao medo da revolução: ameaçou a nação com o perigo da guerra civil, algo impensável somente um mês antes. Sabia que a chantagem é uma arma política poderosíssima. Contava com a hesitação do PCF e a obteve, como concluiu o insuspeito Hobsbawm: "o PCF condenou-se a si mesmo durante os dias cruciais de 27 a 29 de maio, esperando e lançando apelos. Mas, em tais ocasiões, a espera é fatal. Os que perdem a iniciativa perdem o jogo" (Hobsbawm, 1999) [2].
    De Gaulle era consciente de que estava em jogo não somente o seu destino, mas um dos pilares da ordem do pós-guerra. Era preciso agir, e agir rapidamente para recuperar a governabilidade. Na França, ao contrário da Inglaterra, da Alemanha ou dos países nórdicos, onde a oposição - por dentro dos limites do regime político - se estruturava em torno de partidos social-democratas, a alternância eleitoral se expressava através da Frente Popular que tinha no PCF (Partido Comunista Francês) de George Marchais sua coluna vertebral. A presença de um partido comunista em um governo da NATO era ainda um tabu político. A proibição da presença dos PCs em governos na Europa ocidental era uma herança política das negociações entre Washington e Moscou ao final da guerra. Foi um dos artigos "pétreos" dos acordos de Yalta e Potsdam (Anderson, 1976). Só foi violado, depois do 25 de Abril de 1974, em Portugal.
    A influência alcançada pelo PCF na luta contra a ocupação alemã, assim como o prestígio da URSS pelos sacrifícios gigantescos do exército vermelho na luta contra o nazi-fascismo, tinham transformado o PCF no principal partido de oposição e, portanto, no principal beneficiado, se De Gaulle viesse a ser derrubado. Mitterand tinha reorganizado a SFIO em um novo partido socialista, mas estava longe, em 1968, de ter uma posição hegemônica na oposição ao gaullismo. O PCF, ao contrário de Tito na Yugoslávia, tinha colaborado na estabilização do regime entre 1945 e 48 - Maurice Thorez foi ministro de De Gaulle - e, nos seus planos, em 1968, não constava qualquer veleidade de desafiar Moscou.
    O PCF, todavia, não queria chegar ao poder antes da hora. Não queria uma revolução contra De Gaulle. Articulava, pacientemente, uma aliança eleitoral e aguardava. A direção do PCF sabia que revoluções não podem triunfar, se não estão dispostas a fazer a insurreição. Mas, insurreições precisam de uma direção. Esta foi umas das chaves de explicação para a posição attentiste ou de inércia (esperar para ver) do PCF e, portanto, pela sua falta de iniciativa em momentos decisivos dos combates de maio, e pela colaboração dos líderes sindicais da CGT, ao assinar e defender os acordos ao final da greve geral. O PCF estava disposto a chegar ao poder por eleições, nos marcos de um governo de colaboração de classes com aliados que tranqüilizassem a burguesia, mas não como resultado de uma revolução.
    No Maio de 1968 francês, abriu-se uma situação revolucionária atípica, porque sem uma direção disposta a lutar até o fim para derrubar o governo, portanto, diferente das situações revolucionárias clássicas, como aquela que precedeu a revolução de Outubro da Rússia de 1917 - quando havia um partido disposto a tomar o poder, o bolchevismo - mas ainda assim uma situação revolucionária: o governo De Gaulle tremeu e quase caiu. Foi mais parecida com a situação revolucionária que precedeu a revolução de Fevereiro de 1917 na Rússia, embora esta tenha sido vitoriosa: de um lado, uma colossal irrupção da mobilização operária, popular e juvenil, em grande medida espontânea e, do outro lado, por algumas semanas, a divisão da classe dominante - rachada entre os que defendiam o uso da repressão e os que hesitavam - e a paralisia do Governo e das instituições do Estado e, entre estas duas forças, um deslocamento à esquerda da maioria das classes médias, elas, também, cindidas, entre os pequenos proprietários mais reacionários, e as novas camadas intermediárias com alta escolaridade, porém, assalariadas.
    Um movimento estudantil admirável
    Um novo movimento estudantil saiu às ruas em 1968 e, surpreendentemente, suas bandeiras eram vermelhas. Quando a repressão mostrou a verdadeira cara do governo De Gaulle - e, sem máscara, o que se viu foi estarrecedor - os estudantes foram para as portas das fábricas pedir o apoio do proletariado. Empolgaram a França e deixaram o mundo estupefato. Incendiaram o ânimo da maioria popular com sua imaginação política. Subverteram Paris. Os muros da cidade, que foi a capital cultural da civilização burguesa, foram cobertos com pichações, ao mesmo tempo, irreverentes e rebeldes, satíricos e amotinados como: "as mercadorias são o ópio do povo, a revolução o êxtase da história"; "Sejam realistas, exijam o impossível!" (Soyez réalistes, demandez l’impossible!); "Deixemos o medo do vermelho aos animais com cornos!" (Laissonz la peur du rouge aux bêtes à cornes!) "Corra camarada, o velho mundo está atrás de ti!" (Cours camarade, le vieuz monde est derriére toi!); "Os muros têm orelhas, vossa orelhas têm muros!" (Les murs ont des oreilles, vos oreilles ont des murs!); "O respeito se perde, não vão procurá-lo!" (Le respect se perd, n’allez pas le rechercher!).
    A entrada em cena dos estudantes foi um fenômeno histórico-social inesperado. Como sempre, diante de acontecimentos novos, aqueles que não permitem analogias, há o perigo de exagerar ou diminuir seu significado. Ambos os excessos foram cometidos para exaltar ou criticar o movimento estudantil que, repentino, surgiu à luz do dia. Antes de 68, o movimento estudantil nunca jogou um papel tão destacado em qualquer outro processo revolucionário. Entre outras razões, porque nunca antes tinham existido tantos estudantes, em especial, tantos estudantes com uma origem social não-burguesa. Sessenta e oito foi um batismo de fogo internacional: na França e no Brasil, no México e na Argentina, e mesmo em Praga, os estudantes estiveram na primeira linha.
    As transformações nas sociedades do pós-guerra - entre elas, a "explosão" demográfica, e a mais intensa urbanização e industrialização, mesmo de nações que eram capitalistas há séculos - exigiram uma mão-de-obra mais educada e alargaram o acesso ao ensino médio e ao ensino superior em uma escala qualitativa. O fenômeno geracional e social-cultural foi internacional, ainda que em proporções diferentes. Os jovens eram muito mais numerosos que no passado, e a entrada no mercado de trabalho passou a ser feita muito mais tarde.
    Não só o número, mas, também, o peso social dos estudantes aumentou com o agigantamento das cidades universitárias: a audiência das classes médias às reivindicações estudantis aumentou e a repercussão do exemplo de suas lutas entre o povo, incluindo o proletariado, também. Em Paris, a solidariedade com os estudantes, depois do cerco da Sorbonne, foi espantosa. Entre o 3 e o 11 de maio, o entusiasmo entre os estudantes não pareceu de crescer e contagiou a nação. Nem De Gaulle, nem a ditadura brasileira sabiam como lidar com aquela massa de jovens: imaginavam, com razão que, se reprimissem, podiam acender o pavio de uma mobilização incontrolável; se não reprimissem, poderiam sinalizar fraqueza, e se desmoralizar diante de sua própria base social.
    O dia em que a Sorbonne foi vermelha
    Os primeiros atos de grandes dramas históricos parecem, freqüentemente, triviais. A luta de classes na Europa assumia uma forma previsível, e mesmo na França, depois do fim da guerra da Argélia, seguia um ritmo contido: lutas, essencialmente, defensivas, e protestos de dimensões modestas, que reagrupavam uma vanguarda. Mas, algumas prisões depois de um ato em solidariedade com a resistência no Vietnam foram o estopim de uma avalanche. Na seqüência, pouco mais do que uma centena de estudantes da Universidade de Paris-X, em Nanterre, na periferia de Paris, ocupou a sala do Conselho de Universidade [3]. O movimento estudantil estava engajado em uma campanha contra a reforma do ensino superior. Mas, não eram indiferentes à espetacular repercussão da Ofensiva do Tet que conseguiu hastear a bandeira vietcong no teto da embaixada americana em Saigon.
    A ocupação se estendeu para a Sorbonne, e o reacionarismo e a soberba do governo De Gaulle - uma mistura sempre explosiva - o levou a cometer a provocação de lançar a polícia sobre o Quartier Latin (o bairro latino de Paris, no coração da capital). Não conseguiram, apesar de uma apocalíptica batalha campal, desalojar a massa de estudantes que se defendiam em improvisadas barricadas. O espírito das jornadas revolucionárias de 1848 e de 1871 parecia ter ressuscitado. Poucos dias depois, um milhão de pessoas desfilaram pelas ruas de Paris em solidariedade com os estudantes e contra o governo. Foi um terremoto político, que anunciava que um tsunami estava por chegar: na seqüência, o país entrou em greve geral por tempo indeterminado, portanto, greve geral política, porém acéfala, sem uma proposta de saída política para a crise. O movimento não levantava sequer uma proposta clara de deposição do governo.
    Um fenômeno novo na Europa do pós-guerra: uma greve geral política apesar das direções dos sindicatos e contra as direções do PS e do PCF, ou seja, um processo, essencialmente, espontâneo, de rebelião operária-popular. Foi argumentado à exaustão que as massas não queriam fazer na Paris de 1968, uma Petrogrado de 1917. No maio francês, como de resto em todos os processos revolucionários da história, as massas não se lançaram à luta com um plano pré-concebido de como gostariam que a sociedade deveria ser. Os estudantes e operários franceses sabiam, porém, que queriam derrubar De Gaulle. Derrubar o governo é o ato central de toda revolução moderna. Quando descobriram a sua força social e política, no calor dos dias da greve geral, as massas populares francesas se moveram com instinto de poder. Seus dirigentes reconhecidos - porque a ação das massas em processos revolucionários está, geralmente, à frente ou à esquerda da sua consciência - ao contrário, esquivaram-se de responder à questão do poder. O desbordamento na ação dos aparelhos sindicais e políticos foi transitório. A crise política, que caminhava para se radicalizar em crise revolucionária, foi superada. O PCF não fracassou como partido revolucionário, mas como partido reformista (Touraine, 1969) . De Gaulle não caiu, imediatamente, mas, o regime tremeu. O mal estar foi desviado para os processos eleitorais que culminaram, mais de uma década depois, com a eleição de Mitterand, somente em 1981.
    Uma vaga revolucionária mundial
    O maio Francês esteve inserido na quarta onda da revolução mundial do século XX: a primeira teve como epicentro a revolução russa e se estendeu da Europa Oriental para a Central; a segunda sacudiu a Europa do Mediterrâneo depois da crise de 1929; e a terceira aconteceu na seqüência da derrota do nazi-fascismo. Entre 1968 e 1979/80 a dominação imperialista esteve seriamente ameaçada. Foi a mais internacional de todas as vagas revolucionárias, até hoje. O internacionalismo renasceu das cinzas com a solidariedade internacional ao Vietnam - uma campanha muito mais ampla que o apoio ao FLN (Frente de Libertação Nacional) na Argélia - e o repúdio mundial ao golpe de Pinochet.
    A quarta onda da revolução mundial começou na Europa, como as anteriores - maio 68 francês, primavera de Praga e Outono quente italiano -, mas, esteve articulada com a situação na Ásia (ofensiva no Vietnam e internacionalização no Camboja) passou pela África - início da derrota militar portuguesa nas colônias africanas, em especial na Guiné - e chegou a ter uma refração na América Latina, onde o movimento estudantil se levantou pelas liberdades democráticas (México e Brasil em 1968), e o movimento operário se lançou a ações de massas radicalizadas (Cordobazo argentino em 1969, revolução chilena 1970/73). Em todos estes processos, o papel dos partidos comunistas disciplinados por Moscou foi, dramaticamente, em maior ou menor medida, reacionário, e sua influência começou a declinar, abrindo o caminho para a reorganização de uma nova esquerda.
    A disputa da memória: a revolução foi possível?
    O maio francês foi satanizado pelas forças reacionárias do mundo inteiro, e transformado em polêmica eleitoral por Sarközy, porque foi a primeira vez que, em um país central da ordem imperialista, depois do fim da guerra em 1945, milhões se interrogaram outra vez se uma revolução social não seria possível. Essa foi sua herança mais significativa. Essa é a memória que os defensores da ordem estão preocupados em apagar.
    O maio francês será recordado, por alguns, porque ele ajudou a abrir o caminho para que surgissem, nos anos seguintes, os movimentos feministas, os movimentos negros, ambientalistas, os movimentos pela legalização das drogas, os movimentos contra a opressão homofóbica. É justo que seja assim. A elevação da escolaridade média da sociedade e o surgimento de uma nova classe média urbana de profissionais assalariados ajudou a potencializar novos sujeitos sociais que levantaram bandeiras político-culturais progressivas contra uma ordem mundial, até então, anacronicamente, reacionária.
    Entretanto, o maio francês foi, em primeiro lugar, uma inspiração para que na França e, pela sua repercussão, em todo o mundo mais urbanizado, ganhasse relevância político-social um novo movimento estudantil. Desde então, nem sempre a maioria dos estudantes se identificaram com o movimento estudantil. Nem todos os estudantes tiveram disposição para se colocar em movimento. Uma parcela mais privilegiada, ou mais iludida com as possibilidades de ascensão social, permaneceu à margem, ou foi diretamente hostil ao movimento estudantil. Não obstante, dependendo da relação de forças política mais geral na sociedade, e oscilando entre um movimento mais de vanguarda e ideológico em situações mais defensivas, e um movimento de massas em situações de crise política, os estudantes passaram a ser sujeitos políticos da maior importância.
    A história das revoluções é um campo de batalha ideológica
    Conservadores de todos os tempos, no entanto, asseguraram sempre que as coisas só mudam para permanecerem, essencialmente, iguais. As ideologias reacionárias admitem que o mundo pode passar por transformações, mas somente na longa duração. Não são inocentes: sabem que mudanças na longa duração não entusiasmam ninguém. Na longa duração estaremos todos com dores nas costas, senão diabéticos, ou pior, mortos. Não ignoram que as revoluções são processos que incendeiam a imaginação dos jovens, porque demonstram que as mudanças podem ser feitas.
    Os reacionários precisam denunciar os voluntarismos, mesmo quando admitem que são bem intencionados. Os mais esclarecidos podem reconhecer a legitimidade dos que lutam contra a exploração e a opressão, mas somente para desqualificá-los como sonhadores infantis. Consideram que todos os esforços de mudar a sociedade por métodos revolucionários estão condenados à partida. Apelam para os argumentos mais viciados: as recompensas seriam duvidosas, mas, certamente, não compensariam as seqüelas que toda luta traz; os sacrifícios seriam em vão. Não seria possível mudar o mundo, porque afinal as pessoas são como elas são; as relações sociais são como são, em função da natureza humana. A história, no entanto, tem a ambição de atribuir sentido ao passado, e não é casual que os historiadores marxistas tenham entre as suas preferências o estudo daqueles processos que desafiaram as forças de inércia que aprisionam as sociedades.
    Revoluções, portanto, sempre inspiraram batalhas ideológicas. O maio francês foi um ensaio geral de uma revolução. Foi um ensaio de uma revolução política ou democrática: a aliança entre trabalhadores e estudantes, que potencializou a greve geral e atraiu a simpatia de uma parcela das classes médias, esteve muito perto de derrubar o governo De Gaulle e o regime da V República (Hobsbawm, 1999). Remetendo a uma metáfora histórica, foi o ensaio de uma revolução de fevereiro.[4] Foi somente um ensaio porque a situação francesa foi bloqueada, ou controlada, e a queda de De Gaulle da presidência foi amortecida, apesar da greve geral. O 68 francês foi uma revolução de fevereiro abortada. De Gaulle acabou sendo sacrificado, depois que a vertigem da crise tinha sido superada, para preservar o gaullismo como principal partido do regime. Mas, mesmo sendo parcialmente derrotado, o maio francês demonstrou que a aliança operária-estudantil era o alicerce de um bloco de classes que podia desafiar um dos imperialismos mais poderosos do mundo.
    Conclusão
    A disputa da memória foi o feijão com arroz das polêmicas historiográficas do século passado, porque a ordem político-social, em um mundo tão injusto e desigual, precisa de legitimação. A justificação do presente repousa na interpretação do passado. Não deveria nos surpreender que as revoluções, em especial aquelas nos países centrais, tenham sido, furiosamente, discutidas. A onda revolucionária de 68 teve três características novas: (a) a entrada em cena da juventude estudantil como detonador da mobilização operária e popular, ou seja, um papel protagonista como sujeito social; (b) a superação parcial, porém significativa, do domínio hegemônico que os partidos comunistas mantinham sobre as organizações dos trabalhadores; (c) a extensão internacional que a onda revolucionária alcançou, contagiando lutas em três continentes.
    Apesar de sua força, a onda revolucionária foi derrotada. A investigação histórica não deveria ignorar, no entanto, que existiram desenlaces alternativos em cada uma das encruzilhadas em que a revolução mundial mediu forças com a ordem do capital. Ao vencer, o capitalismo provou que era (ou estava) ainda forte o bastante para impor sua dominação, fosse pela for&#