Arquivo de 15 de Junho de 2008

Rezem e Atirem

Karl Liebknecht
26 de março de 1912

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Primeira Edição: Discurso proferido no Landstag (Parlamento regional) da Prússia, em 26 de março de 1912
Fonte: Caderno O TRABALHO - Juventude e Socialismo
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[…] Para nós - que os vemos com diversão trabalharem pela nossa destruição, sob o pretexto de proteção da juventude -, é particularmente agradável observar a que ponto vocês estão desunidos. Assim, de uma parte, o Centro e as organizações confessionais em geral assinalam o papel predominante que deve ter a Igreja neste domínio; de outro lado, o sr. Von Kardoff, cuja influência, graças a seu partido e a suas relações, é considerável, afirma ao contrário e de modo enérgico que a Igreja não fez até agora o que deveria ter feito. De acordo com ele, seria preciso criar organizações interconfessionais porque a grande massa do povo, em virtude de seu afastamento da Igreja, não pode ser reunida pelas organizações confessionais. Mas a luta entre diferentes organizações se caracteriza antes de tudo pelo modo como disputam entre si a repartição de fundos, e disso tivemos a prova mais agradável na Conferência de Elberfeld [1]. O prefeito de Hagen em pessoa, Cuno, declara que ele ficou contrariado ao mais alto grau ao ver as diferentes organizações disputarem o melhor lugar à manjedoura e finalmente deplora que esses milhões tenham fornecido à social-democracia um excelente material de agitação. É incontestável que essa disputa em torno da subvenção governamental tem um caráter pouco atraente, e faz aparecer a proteção governamental à juventude como um fenômeno muito pouco resolvido do ponto de vista moral. De resto, o tipo de proteção à juventude que assegura essa subvenção do Estado é o que testemunha o Deutsche Tageszeitung [2] de 2 de março último. Ele trata dos cuidados extremos, “em meio à vida prática”, graças aos quais a juventude rural é educada pela senhora Von Schwerin [3] no senso do patriotismo e de todas as qualidades que vocês amariam, em seu próprio interesse, de inculcar à juventude do povo. Podemos citar igualmente todas as declarações de Mathias Claudius etc., todas as coisas que lhes parecem particularmente próprias para reforçar o “amor à pátria”. Vejam em seguida um hóspede estrangeiro, o pastor Schlegelmilch, que iniciou uma turnê de conferências na Pomerânia: ele fala de “bênção do solo natal” e da “maldição de ser privado da pátria” diante da juventude camponesa, diante de filhos de operários agrícolas, e naturalmente também da missão que cabe à cidade de Berlim. Essa foi, a se acreditar no Deutsche Tageszeitung, uma “noite verdadeiramente para ser exaltada”. Sim, senhores, é qualquer coisa de particular falar da “maldição de ser privado da pátria” e da “bênção do solo natal” perante pessoas que seu sistema econômico deixa de fora, que não podem usufruir dessa “bênção” porque não possuem solo natal e não poderão jamais possuir. (Interrupção.) Não tentem me contradizer. Eu vou lembrar apenas contratos de trabalho bem conhecidos, estes contratos de diaristas, que são ainda moeda corrente na Prússia, e que contêm uma cláusula segundo a qual se há crianças de mais de catorze ou quinze anos que não trabalham na fazenda, os pais são obrigados a expulsá-los da casa, expulsá-los do solo natal. (”Escutem! Escutem!”, ouve-se na bancada dos social-democratas.) Essas cláusulas estão ainda por toda a parte, porque os senhores proprietários rurais crêem ter o direito de obrigar as crianças dos diaristas a entrar como servos a seu dispor.

É de resto muito divertido ver como, graças à subvenção governamental, encorajados pela chuva de ouro que cai de cima, o clero, os militares etc. se encontram todos juntos. Muito divertido constatar como se educa os jovens em um espírito militarista, com a bênção do clero. (”Muito bem!”, na bancada dos social-democratas.) O pastor dá sua bênção, vai ao templo e reza. Depois ele vai e vem, por montanhas e vales, e adiante novamente faz-se a guerra - frisch, fromm, fröhlich, frei [4] - de modo cristão, segundo o mandamento do amor ao próximo. Ah, Deus! Tudo isso é tão ridículo que não se pode de fato falar seriamente.

Ensina-se também às crianças: o tiro após a reza. Sim, senhores, isso não é um pouco perigoso? Vocês não têm um pouco de medo de ensinar as crianças do proletariado a atirar? Eu peço que vocês considerem se não seria preferível encontrar outras ocupações. Mas rezar e atirar, isso vai muito bem junto (”Tudo de modo cristão”, na bancada dos social-democratas.) Do modo como a religião é praticada aqui, é exatamente a mesma coisa, porque o modo como vocês a praticam não é nada mais, no fundo, que uma violência, exatamente como a guerra e outras violências humanas (”Muito bem!”, na bancada dos social-democratas).

Eu retorno a esse famoso número do Deutsche Tageszeitung de 2 de março. Ele trata da questão de um clube social-democrata de tiro, que se encontra, parece, em Dresde. O jornal se queixa que os social-democratas também têm clubes de tiro e mostra que existe, de fato, um grande perigo. Seria interessante saber o quanto. Propõe-se, manifestamente, mobilizar o governo e a polícia contra o grande perigo que representam os clubes de tiro social-democratas. Senhores, é inútil falar longamente do jogo guerreiro e “grandioso” de Essen, que provoca entusiasmo no próprio sr. Hackenberg, ainda que ele seja muito característico do modo como vocês educam a juventude. Conduzem-se 5.000 crianças, ministram-lhes abundantes exercícios de tiro e outros exercícios de patriotismo entusiasmado, e quando a juventude está suficientemente exaltada com a idéia de poder aniquilar vidas humanas, ou ao menos de haver aprendido como se pode fazer isso (”Muito bem!”), é então que o sentimento religioso é desenvolvido em seu mais alto ponto. Ah, Deus, que gênero de cristianismo, verdadeiramente, senhores!

[…] E agora, senhores, vejamos um pouco como se dá essa proteção da juventude? Fala-se da ação comum das autoridades do Estado e das municipalidades, das autoridades religiosas, das associações patrióticas de todo o tipo, de pessoas privadas pertencentes aos meios os mais diferentes, de conselheiros da indústria, de médicos, de inspetores de escola etc. Sábado, na Câmara dos Senhores, nós vimos muito se falar das magníficas realizações dos médicos e dos advogados nesse domínio, considerando-os como pessoas particularmente qualificadas. Coloca-se a questão de utilizar também as instituições criadas por outras administrações, principalmente as administrações de empresas, de minas, de ferrovias etc., assim como as que existem já relacionadas com as escolas profissionais. Assim, em consequência, os senhores professores, os senhores pastores, os senhores Landrat que tocam os primeiros violões, pois, como na canção:

E depois o senhor tenente, o tenente, o tenente,

E depois o senhor tenente,

a qual coloca sua marca registrada em todos os negócios: Trovão de Deus! Impecável! Assim, o senhor tenente, em companhia do senhor pastor e dos senhores Landrat, de não sei quem mais, serão encarregados do trabalho que consiste em reconciliar a juventude proletária com o regime social atual! (”Muito bem!”, na bancada dos social-democratas.) De fato, senhores, vocês não sabem quanta alegria nos dão quando continuam nessa via. (”Muito bem!”, na bancada dos social-democratas.) Enquanto um de vocês, senhores, pretende que o interesse a respeito desses assuntos pela social-democracia mostra que eles nos inquietam, ah, que vocês abram o olho! Com tais ações vocês só vão levar água ao nosso moinho e tornam-se a si mesmos ridículos. (”É verdade!”, na bancada dos social-democratas.)

Senhores, alguns dentre vocês têm uma conversa afetada e untuosa para descrever os objetivos altamente idealistas desta política de proteção da juventude. No decorrer dos debates do último sábado, ouvimos todo tipo de declarações retumbantes e até ameaçadoras sobre a fidelidade ao rei e o amor à pátria, a crença em Deus e outras belas coisas. O senhor Heckenroth nos disse: “Liberdade e amizade, natureza e arte cavam na fossa da ciência e do progresso das facilidades técnicas que encontram compreensão e proteção.” E ele glorificou o “alto e verdadeiro idealismo” no qual se inspiram os esforços do senhor ministro. Em seguida, nos falou do idealismo corajoso, da grande coragem com a qual o senhor ministro prossegue sua atividade nesse terreno. E as declarações podem ser entendidas assim: “Nós não podemos dar à nossa atividade um sentido político…” “Espírito patriótico em relação a nossa vida nacional…” “Fidelidade ao imperador e ao Reich e ao rei…” “Tomem as coisas como elas são, não procurem ler nas entrelinhas…” “Nacional”, “patriótico” e todas aquelas que são grandes palavras: “educação religiosa” etc.

Senhores, nós estamos cheios (”Muito bem!”, na bancada dos social-democratas) e vocês mesmos deveriam estar cheios de toda esta empáfia (”Muito bem!”), como no discurso do ministro dos Cultos, um modelo de banalidade… (manifestações à direita e no centro; o presidente toca a sineta.)

O vice-presidente Dr. Krause - Senhor deputado Liebknecht, o senhor não tem o direito de fazer ataques pessoais. Eu o chamo à ordem.

Senhores, após o decreto do ministro dos Cultos, é expressamente assinalado que não se deve esquecer de respeitar os direitos dos pais sobre seus filhos. É um princípio que o senhor deputado Kesternich também assinalou no ano passado. E, em seu decreto, o ministro dos Cultos lembra de novo o quanto é necessário colaborar com a casa, a família, os pais. Mas na realidade, senhores, vocês procuram alguma coisa muito diferente. Na medida em que a família, os pais, têm uma atitude política que vocês, assim como o senhor ministro dos Cultos, consideram justa, nessa medida, vocês nem sonham em dar uma proteção à juventude. Toda solicitude de vocês ocorre precisamente quando estão convencidos de que os pais educam seus filhos de forma diferente da que vocês desejam. (”Muito bem!”, na bancada dos social-democratas.) Aí, vocês querem se insinuar entre os pais e seus filhos para semear a discórdia nas famílias, vocês querem roubar dos pais as almas de seus filhos. Esse é o objetivo que vocês perseguem de um modo completamente consciente, refletido. (Aprovação à esquerda. Risos entre os deputados do centro.) Senhores, vocês sabem perfeitamente que eu lhes digo a verdade, e se vocês ousam rir, concedem a si próprios o mais triste dos diplomas.

Em seguida, senhores, o senhor deputado Von Kardoff ousa dizer que o jovem operário é o homem mais livre do mundo, mais livre que o jovem saído das camadas mais altas. Eu pergunto a vocês: o que significa isso? É verdade que o jovem operário tem a liberdade de ser jogado na rua com a idade de catorze anos; é verdade que tem a liberdade de ser exposto nessa idade a todas as tentações a todos os perigos (”É verdade!”, na bancada dos social-democratas.) da vida moderna; ele é livre a partir dos catorze anos para se deixar levar por seu chefe e explorador na usina - extraordinária liberdade para o jovem operário de catorze anos! (Muito bem!) Se é verdade que o jovem operário é, segundo o senhor Von Kardoff, o homem mais livre do mundo, deixem então seus filhos juntar-se também aos homens mais livres do mundo! (Aprovação à esquerda.)
O senhor deputado Kesternich declarou, em 14 de março de 1911, em seu discurso: “O espírito de ordem e de submissão que caracterizavam antes a juventude desapareceu em amplas camadas do povo, e nossa juventude atual manifesta às vezes uma inclinação quase doentia à independência.” Sim, senhores, a inclinação doentia à independência no seio da juventude trabalhadora! Uma palavra assim viria aos lábios de um homem que refletisse apenas um pouco (Risos e aprovação na bancada dos social-democratas.) Onde está, portanto, a liberdade dessas pessoas? O que é sua inclinação à independência? É a fome da jovem pele humana do regime econômico atual que se exprime aí - e não outra! (”Muito justo!”) São as necessidades dos jovens operários que põem à prova nossos capitalistas, nossos proprietários rurais. (”Muito justo!” na bancada dos social-democratas.) É por isso que essas jovens pessoas são arrancadas muito cedo de suas famílias! E é também porque seus pais são mal pagos que não podem dar a seus filhos uma formação escolar mais longa. (”É verdade!” na bancada dos social-democratas.) Que os que resmungam a esse respeito se coloquem de uma vez por todas a questão de saber que há centenas e centenas de milhares de operários e de operárias, de mães e pais que, com o coração triste, retirar seus filhos da escola com a idade de catorze anos. (”Muito justo!”); que há filhos de operários que se deixam, com o coração entristecido, retirar da escola e que gostariam muito de poder se beneficiar de uma formação mais longa, como a que beneficia as crianças das classes superiores. E aqui nos vêm falar de inclinação doentia à independência! Se há alguma coisa de doentia é a nossa ordem social, e isso vocês mesmos confirmam a que ponto nós temos razão quando dizemos que esta sociedade deve ser reformada de fio a pavio.

Senhores, a mortalidade infantil entre nós é absolutamente pavorosa. A Alemanha, a esse respeito, está próxima à Rússia (Gritos: “Escutem! Escutem!” na bancada dos social-democratas), é o país, depois da Rússia, mais desfavorecido. As cifras são pavorosas e vocês as conhecem também, sem dúvida. Recentemente, no Reichstag, o sr. Dr. Struve deu algumas cifras que mostram de uma forma assustadora a taxa de nossa mortalidade infantil e o grau diferente dessa mortalidade em função da situação social da população nas diferentes partes da Alemanha. Eu darei apenas um: em Berlim, a mortalidade infantil é em média de 18,1%. No bairro de Tiergarten, ela não passa de 5,2%; em Wedding, por outro lado, é de 42% (”Escutem! Escutem!” na bancada dos social-democratas), quer dizer, oito vezes mais elevada em Wedding, nos bairros operários, do que no bairro rico de Tiergarten!

Senhores, a crise de alojamentos que aflige as classes trabalhadoras é incontestavelmente uma das principais causas da miséria moral que se desenvolve na juventude dessas classes pobres. Sim, senhores, mas como vocês propõem resolver o problema dos alojamentos? No mesmo momento em que vocês se propõe a resolvê-lo, ocorre o mesmo que na questão da escola: seria preciso proceder a mudanças fundamentais de nosso regime político e social, e cada vez que vocês chegam a tais conclusões, vocês são levados a caminhar no sentido do socialismo. (”Muito justo!” na bancada dos social-democratas)

Senhores, tenho a necessidade de falar-lhes ainda da infeliz vida da família, destruída por nosso regime econômico, e das conseqüências que daí decorrem? São vocês, é o regime social atual que retira as mães de suas casas e deixa as crianças sem cuidados. (”Muito justo!”) E as mesmas causas são responsáveis pela criminalidade dos jovens, de sua debilitação física, das cifras enormes de doenças e da mortalidade entre os jovens (Aprovação na bancada dos social-democratas.) A miséria moral e a miséria fisiológica têm ambas as mesmas raízes.

[…] A estatística de abandonos de crianças não justifica de maneira nenhuma as conclusões que foram tiradas aqui. É um fato que, precisamente nas regiões altamente industrializadas onde a social-democracia não domina - isso vale particularmente para a Renânia e Westfália, onde nossa influência é mais fraca que a do centro e do partido nacional-liberal, e a Alta Silésia, onde a classe operária apóia ainda em maioria a bandeira do centro, do partido nacional-liberal e do partido polonês -, a criminalidade é muito mais elevada que em outras regiões, mais industrializadas igualmente, mas onde a social-democracia expandiu sua influência.

[…] Mas se vocês querem ver o que significa ainda a miséria dos filhos dos trabalhadores na Alemanha e em Berlim, leiam então - mesmo que tenha surgido de uma editora social-democrata - o relatório da Comissão da Proteção à Infância do Partido Social-Democrata e da Comissão Sindical de Berlim e arredores para o período de julho de 1910 a junho de 1911. Vocês verão em detalhes como, em Berlim, a despeito das leis sobre a proteção à infância, há ainda exploração de crianças. (”Muito justo!” na bancada dos social-democratas) Vocês verão que crianças de cinco anos são utilizadas o tempo todo, antes das cinco horas da manhã, para entregar cafés-da-manhã, jornais etc., aqui em Berlim, sob os olhos da polícia. (”Escutem! Escutem!” na bancada dos social-democratas) Para dizer a verdade, com essa idade, apenas quatro casos foram confirmados: uma menina e três meninos. Mas se trata apenas de uma pesquisa parcial. Cada caso desse tipo deveria no entanto levar a que nos ocupássemos da juventude de forma totalmente diferente da que fazemos; deveria nos levar a procurarmos outras vias diferentes das que temos seguido até aqui.

Com a idade de 6 anos, havia 8 meninos e 5 meninas; com a idade de 7 anos, 27 meninos e 23 meninas. A maioria das crianças têm entre 8 e 13 anos, e estão portanto numa tenra idade. E eu apelo a todos os que se lembram ainda da época em que tinham essa idade: o que diriam se as crianças dos meios mais favorecidos fossem exploradas dessa forma? Porque esse trabalho profissional é realizado além do trabalho escolar, sem contar que essas crianças, claro, quando voltam para casa, não podem ainda descansar, porque precisam ainda ajudar as mães a fazer os trabalhos domésticos. Por isso, a não ser por um pequeno período de sono, não há, de dia e à noite, nenhum repouso para essas crianças.

Nós encontramos ainda na estatística 23 meninas e 112 meninos com a idade de 8 anos; de 9 anos, 88 meninas e 175 meninos; de 10 anos, 163 meninas e 293 meninos. E também: 12 anos, 268 meninas e 566 meninos; 13 anos - 302 meninas e 612 meninos. A partir dos 14 anos, as cifras diminuem, o que prova que é precisamente a mais jovem idade que favorece esta exploração.

As cifras são uma acusação incômoda contra nossa ordem social atual e seu sentimento de obrigação quanto à futura geração. Senhores a juventude burguesa está mais bem cuidada, tanto em casa como na escola. Fomos muito ridicularizados aqui quando comparamos os orçamentos destinados à escola primária e os destinados aos liceus e colégios. Vocês consideraram que é algo completamente normal conceder mais créditos para o ensino secundário e instalar salões especiais e outras belas coisas desse tipo para os filhos das camadas mais favorecidas. Apesar disso, senhores, eu me pergunto se a desmoralização no seio da juventude burguesa, a bem da verdade, por outras razões, não é, no final das contas, maior do que antes. De um tempo para cá, lemos nos jornais artigos indignados sobre os filhos de Tauentzienstrasse etc.; ouvimos contar todo o tipo de coisas sobre os hábitos existentes na juventude das outras classes da sociedade, apesar de todos os cuidados de que ela é cercada. Uma Dolly Pincus não irá seguramente para uma casa de correção, ainda que o mereça amplamente. Isso não ocorre com as crianças das classes pobres.

Senhores, o objetivo que persegue, na realidade, nossa proteção do Estado da juventude e que o introduz com grande reforço de fanfarras e de clarins - nós não temos necessidade de nos colocar à frente nesse ponto -, a história o mostrará de forma muito clara. Primeiramente, nós vimos como as classes dirigentes estão ocupadas, a bem da verdade de uma maneira muito particular, da juventude proletária. Na escola, estão sempre empenhadas, diferentemente da difusão dos conhecimentos necessários, em formar as características e as opiniões no sentido que lhes convêm. O serviço militar é considerado uma escola que deve servir a desenvolver o espírito chauvinista e sobretudo a combater a social-democracia. A escola primária, o serviço militar devem ser instituições neutras do ponto de vista política? Ninguém crê nisso, e todos vocês sabem que isso não é verdade. (Aprovação na bancada dos social-democratas.) Eles são de fato instituições dirigidas de modo muito consciente pelo Estado, com a aprovação das classes dirigentes, com o objetivo de incutir ao jovens convicções políticas bem determinadas.

E há ainda as organizações cristãs, confessionais, que se empenham em fazer qualquer coisa pelos jovens retirados da escola, na medida em que eles não estão sob responsabilidade das escolas profissionais. Além disso, senhores, os batalhões escolares existem há muito tempo entre nós, na Alemanha. Eles não foram fundados apenas nos últimos anos, no momento em que os escoteiros apareceram; já nos anos 90, eu vi em Grünewald estes desfiles militares, ouvi esses rufares de tambores. Tudo isso foi feito com a intenção evidente de que vocês se apropriem da juventude operária. Particularmente, as organizações cristãs confessionais existem há muito tempo - os católicos há séculos, e os protestantes há várias gerações.

Essas organizações, que não são absolutamente neutras, são a pedra de toque da proteção da juventude das classes dirigentes como instrumentos de classe caracterizados (”É verdade!”), para impedir o desenvolvimento da consciência de classe das camadas inferiores do povo, do proletariado.

[…] Sim, vocês devem distinguir diferentes coisas. É certo que as organizações confessionais, a escola primária, o serviço militar já são utilizados contra a juventude (Aprovação na bancada dos social-democratas.) para impedir um desenvolvimento intelectual e moral verdadeiramente livre da juventude. Tudo isso já existia antes do aparecimento do movimento social-democrata. Mas agora existe alguma coisa nova: o Estado se esforça, utilizando as organizações criadas pelo movimento da juventude social-democrata, aparentemente apoiando os esforços desse movimento, para tomar as rédeas. É o que há de novo. E ainda isso: uma certa compreensão dos males sociais de que sofre nossa juventude. Essa compreensão pode já ter existido, do ponto de vista teórico, aqui e ali entre tal ou qual aderente dos seus partidos citados em estatísticas, mas a idéia de intervir nesse terreno, ou pelo menos de dar a aparência, com um grande barulho, de que algo está sendo feito, foi provocada pelo movimento que se chama social-democrata, ou seja, o movimento da juventude proletária. (”Muito justo!” na bancada dos social-democratas.) Não há dúvida de que o grande fogo bruscamente aceso - eu não sei quem falou, creio que o senhor ministro dos Cultos, de que é preciso que seja derramado o azeite suficiente para que o fogo possa pegar - foi pelo “fogo revolucionário” da social-democracia (”É verdade!” na bancada dos social-democratas); ele provém do nosso fogo, mesmo se foi transformado de uma maneira muito particular.

O objetivo que vocês perseguem é, como já dissemos, o de preparar a juventude proletária para a exploração econômica, para a ausência de qualquer direito político e para a sua formação como um instrumento para utilizar contra o proletariado rebelde e também em caso de guerra (”É verdade!” na bancada dos social-democratas), para que vocês possam defender no campo de batalha seus interesses econômicos e políticos. Compreende-se então porque vocês soltam grandes gritos cada vez que pensam: agora vão se desprender do militarismo e das idéias de treinamento militar. Com efeito, é todo um concerto de lamentos e de ranger de dentes que se levanta no seio das classes dirigentes quando eles tomam súbita consciência do perigo que representaria o movimento “social-democrata” da juventude. Mas é um erro grosseiro da parte de vocês pensar que é esse movimento que criou o antimilitarismo. O que é verdade é que, desde o primeiro dia de sua existência, a social-democracia foi um adversário feroz do militarismo (Aprovação entre os social-democratas: “É verdade!”) e que ela combateu esse sistema de todas as formas que dispõe.

[…] É certo que vocês também têm interesse em exercer a maior influência possível sobre as meninas, porque elas têm para vocês uma importância considerável como futuras mães e educadoras. Mas eu devo assinalar que, no decorrer dos debates, à medida que se tratava da juventude feminina, não foi dita uma única palavra sobre o capítulo mais triste do abandono ao qual está jogada nossa juventude, em particular a das camadas mais pobres da população: nem uma palavra sobre a prostituição infantil, sobre a prostituição feminina, que começa na adolescência e até mais cedo. Vocês se recordam ainda das cifras que eu me permiti submeter a vocês por ocasião da discussão a respeito do orçamento da Justiça? Esse é o capítulo mais doloroso de todos. Se se quer verdadeiramente levar em conta aqui do ponto de vista social, como vocês querem nos fazer crer, a proteção da juventude feminina não teria de estar atrás um único dia sobre a da juventude masculina. (”Muito justo!” na bancada dos social-democratas.)

Assim, senhores, vocês podem dar voltas e voltas como quiserem: a verdade é que o súbito espírito de sacrifício e todas as despesas são o produto do medo e não se devem a quaisquer motivações idealistas de vocês, mas a motivações muito pouco morais, que consistem em criar condições próprias para manter as deploráveis condições sociais e políticas atuais, que a social-democracia se deu como tarefa combater. Por que, então, se trata apenas de manter a juventude em bom estado para o exército e a pátria, por que nosso governo não fez nada ainda a respeito da questão mais urgente: a da proteção da mãe e da criança, da proteção dos recém-nascidos? (”Muito justo!” na bancada dos social-democratas.)

[…] O mesmo se aplica, senhores, no que diz respeito aos esforços para impedir a exploração das crianças. Aqui também nós constatamos a ausência de qualquer tentativa, por parte do governo, para proibir o trabalho infantil. Onde estão os arautos entusiastas da proteção da infância, quando se trata de agir energicamente, sem que seja possível fazê-lo junto com pequenos negócios confessionais ou políticos? (”Muito justo!” na bancada dos social-democratas.)

Além disso, senhores, a frouxidão moral, em si, não perturba a vocês realmente, não mais que a criminalidade. Enquanto esta não se manifesta, vocês não mexem um só dedinho (”É verdade!” na bancada dos social-democratas.) Foi apenas quando o proletariado começou a se ocupar de sua juventude que vocês começaram a se mexer. É nesse terreno que se pode ver melhor que em qualquer outro quais são as raízes de sua política em favor da juventude: não é a miséria social que assusta a vocês, são as medidas de autodefesa do povo contra ela. Não é a decadência moral nem o crime que lhes mete horror, é a autodefesa do povo contra as conseqüências de suas condições de vida atuais; não é contra a ausência de direitos, a miséria intelectual das massas que vocês se dirigem, é contra a luta que o povo começou para colocar um fim a elas. É, em conseqüência, a autodefesa do povo, sua luta, que assusta a vocês e os obriga a intervir, não as razões que vocês apresentam, com todo o tipo de frases grandiloquentes. E é por isso que vocês não têm pressa; se se trata de reformas sociais, não se pode atender até a Saint-Ginglin (”Muito justo!” na bancada dos social-democratas.) Que sejam covardes aqui também frente aos milhões, isso decorre de que o sol, por razões evidentes, deverá queimar sob seus pés.

Alguma coisa além dos fundos de corrupção poderia ser mais útil para a manutenção de nossa ordem social e política atual, mas levaria muito tempo. Até hoje, nós temos esperado que seja cumprida a promessa feita no discurso do trono a respeito do sufrágio universal. Isso seria, senhores, sem nenhuma dúvida um meio excelente de suprimir numerosas causas de descontentamento. (”Muito justo!” na bancada dos social-democratas.) Mas nem se sonha em cumprir essa promessa, é muito difícil. É com o objetivo de oprimir ainda mais o povo que vocês se colocam rapidamente em ação.

O trabalho de educação social-democrata que nós temos em alguma medida cumprido para vocês e que assusta a vocês não é, em todo caso, insignificante. Em particular, nós temos feito um trabalho de educação notável no que concerne ao sentido das cores das associações patrióticas. Até bem recentemente ainda, os membros dessas associações portavam lenços vermelhos. (”Escutem! Escutem!”) Mas a social-democracia conseguiu, por seu efeito intimidante, fazer com que esses lenços passassem a ser azuis. (Risos entre os social-democratas e gritos: “Amarelos seriam ainda mais certos!”) Por pouco, é a mesma coisa. Os amarelos são os protegidos, os azuis são os protetores. É preciso, claro, neste caso, elevar as cores dos senhores protetores.

[…] O que vocês querem não é a despolitização da juventude, mas que ela seja politizada no sentido que lhes convém. (”Muito justo!” na bancada dos social-democratas.) Vocês não lutam para que a juventude não seja atirada nas engrenagens dos partidos, mas para ter o privilégio exclusivo de incutir à juventude suas concepções políticas. (”É verdade!” na bancada dos social-democratas.) E como o movimento livre da juventude se opõe àquilo pelo qual vocês lutam, é que vocês lutam sob um disfarce, uma falsa bandeira. Sim, senhores, é um combate sob uma falsa bandeira que vocês desenvolvem, quando vocês vem nos falar da despolitização da juventude, e é uma hipocrisia da pior espécie quando vocês, que politizam a juventude, mas no sentido que lhes interessa, vêm nos dizer: ah, esta pobre juventude não está ainda em condições de fazer política sem colocar sua alma em perigo! Senhores, é preciso sempre e sempre denunciar suas enganações, e também a do sr. ministro dos Cultos e a do governo, nessa questão. Combatam então com o rosto descoberto, como era antes feito, ao que parece, entre os cavalheiros. Digam francamente: é uma luta pelo poder, uma luta pela conquista dos jovens; nós queremos precisamente politizar a juventude no sentido que nos convém, vocês querem politizá-la de outra maneira; é por isso que nós, que temos o poder nas mãos, a utilizamos em nosso interesse, para abater o proletariado. Reconheçam isso abertamente: é a verdade, e tudo o que é dito diferentemente não passa de mentira.

[…] Senhores, quando nos esforçamos para incutir na juventude a concepção de mundo que decorre naturalmente da situação do proletariado, não fazemos um pedacinho de política. Mas os jovens proletários são levados, por vocês, à política de uma maneira muito característica (”É verdade!” na bancada dos social-democratas.). Eu gostaria ainda de assinalar isso: quando vocês conseguem, graças à lei sobre as associações e às ilegalidades cometidas nas atribuições de autorizações de ensino, tornar quase impossível à juventude qualquer atividade política e até mesmo qualquer atividade científica, vocês cometem uma grande injustiça e contribuem para agravar os antagonismos, e não para superá-los. Vocês não tenham nenhuma ilusão sobre isso. Por que o que haveria de mais natural a não ser a juventude proletária experimentar a necessidade de se orientar politicamente e socialmente, essa juventude que é jogada desde cedo na existência e se encontra, em virtude dela e da multiplicidade dos fenômenos sociais, em estado de luta e de defesa permanentes? Que essa juventude tenha a necessidade de compreender a essência das coisas e procure, quando está mais constantemente oprimida e esmagada pela polícia, conhecer os defeitos de nossa legislação social e política, examinar também a situação cientificamente e formar uma concepção política, discutir as questões políticas, entender os discursos dos adultos a respeito desses assuntos, é a coisa mais normal que pode existir.

E, bem, senhores, é perfeito! Vocês não se contentam em perseguir a política do movimento livre da juventude, mas querem destruir completamente esse movimento. É o que mostra a luta que vocês levam contra as nossas organizações de jovens, nossas sociedades de ginástica, nossos grupos de ciclistas, nossos corais etc., da qual eu já tive oportunidade de falar. Não é necessário repetir.

[…] Eu não tenho necessidade de dizer a vocês o que realizam de positivo nossas organizações de juventude proletária: luta contra o lixo em palavras e em imagens, luta contra o alcoolismo, melhoria da cultura e da consciência de si da juventude, proteção social e desenvolvimento do sentimento humanitário. De outra parte, nossas organizações de juventude se colocam cada vez mais como objetivo disseminar as concepções altruístas que são as da social-democracia. Essas concepções têm naturalmente na juventude uma boa acolhida e uma enorme compreensão. Quanto aos esforços na direção de uma educação da juventude, eles se caracterizam especialmente pelos programas e catálogos editados pela Central de Jovens da Social-Democracia e dos Sindicatos. Esses catálogos e esses programas que são desconhecidos de vocês em sua maior parte, eu me permitiria, ao final de minha intervenção, remeter aos que, entre vocês, tenham interesse, a fim de que possam ter uma idéia por vocês mesmos daquilo que lhes falo sem parar mas vocês ignoram completamente. (Vivos protestos à direita e ao centro.)
O senhor deputado Kesternich lançou ultimamente contra Juventude Operária uma muito viva philippique. Nós estamos agradecidos pelos quinze minutos de sadio contentamento que nos valeram suas declarações. Apresentando Freiligrath e Heine como monstros que freqüentam Juventude Operária, o sr. deputado Kesternich mostrou de modo notável seu nível cultural, sobre o qual não é necessário dizer mais nada. O mais divertido é o modo como ele fala de uma poesia grosseira, enjoativa, de lamentável linguagem confusa da qual ele não ousa dar mais do que um pequeno fragmento e da qual ele não sabe de onde vem. (O deputado Kesternich: “Muito bem!”) E enquanto nós pensávamos que se tratava de Fürstengruft (A fossa aos príncipes), de Schubart [5], e ele nos respondeu, indignado: “Que seja Schubart ou outro que tenha escrito essa poesia, isso nos é completamente indiferente”, sr. deputado Kesternich, não há nada demais em dizer aqui: você mostra, por meios dessas declarações, qual é seu diploma de atitude como educador da juventude (Interrupção dos social-democratas: “E também professor!”). E essa declaração dada pelo senhor é de tal maneira característica dos objetivos que vocês perseguem que nós só podemos desejar que ela seja largamente difundida entre o povo, a fim de que ele saiba quais os objetivos obscurantistas se perseguem na Alemanha e na Prússia no que se refere à formação e à proteção da juventude. Eis portanto como vocês e seus amigos concebem a formação da juventude! Tal é a cultura que vocês se propõem a disseminar! É bom que vocês tenham mostrado seus objetivos e os meios de alcançá-los; é a escravidão do espírito, o obscurantismo, a falsidade (”Bravo!” à direita), a hipocrisia que se manifestam neles. E se o sr. Kesternich conclui suas declarações com estas palavras patéticas: “O espírito de incroyance levanta a cabeça de uma maneira cada vez mais insolente e se esforça para romper todos os laços”(Aprovações à direita e ao centro: “Muito justo!”), eu lhe respondo: o espírito da ignorância, do obscurantismo e da falsidade levanta cada vez mais a cabeça nesta casa (”Muito justo!” na bancada dos social-democratas), particularmente nas fileiras do centro. Sim, vocês não podem desembaraçar-se disso.

De resto, o sr. Kesternich está particularmente chocado com a violência dos poemas que foram publicados, com o caráter combativo dos artigos. Sim, senhores, é preciso tomar o partido de vocês: nós não podemos fazer a classe operária cantar nenhuma “Eia popeia” [6], nós não podemos fazê-la cantar: “Dorme, meu pequeno filho, dorme”, enquanto vocês preferem sem dúvida (Interrupções à direita) que nós lhes demos poemas encorajadores e textos vigorosos (Muitos risos à direita e no centro), uma alimentação fortificante, uma alimentação de combate. O destino da juventude proletária não é o sonho e o delírio, mas a luta, a qual está sempre oprimida pelo seu regime social, por vocês e suas brutais intervenções policiais. O proletariado, como categoria, nasceu para o combate, o combate é seu destino, é preciso formá-lo em função do combate. Não se pode evitar isso. Vocês gostariam que o educássemos para o sonho, a docilidade da exploração, para o hilotisme. (O deputado barão von Reitzenstein: “Não, para a satisfação!”) Essa é a diferença que há entre vocês e nós. Nós queremos educá-lo em um espírito guerreiro, seguramente em um sentido mais nobre que vocês, não em um espírito chauvinista, para deixá-lo pronto a atirar sobre pai e mãe, mas guerrear no sentido da luta contra todos os atrasos de nossa vida social e todos os perigos que ameaçam a juventude proletária, contra toda a reação que tem livre curso na Prússia e na Alemanha e que levanta a cabeça cada vez mais intrepidamente.

Nos recriminam por falarmos muito da história das revoluções. É possível, com efeito, que em Juventude Operária fale-se mais da revolução do que nas revistas de vocês dedicadas à juventude. A razão é que, nas escolas, procura-se tanto quanto possível escondê-la, ou, quando se fala nela, é apenas num tom de zombaria, a menos que não se trate de uma revolução em alta e que, além disso, se coloque de um modo bizantino ad usum delphini. Então, para nós é preciso falar da história das revoluções, no interesse de uma boa formação da juventude. E vocês poderão negar que os períodos revolucionários são os mais interessantes, aqueles em que a natureza da sociedade humana e sua estrutura são em alguma medida colocadas a nu e que, em conseqüência, são precisamente aqueles em que se reconhece em primeiro lugar as forças motrizes de toda a evolução humana? Além disso, é o caráter heróico que ressalta nestas revoluções e que suscita o interesse da juventude do proletariado para essa parte da história. Heroísmo não de assassínio, mas de devoção aos grandes ideais da humanidade, pelo desenvolvimento do gênero humano, e neste sentido há na história das revoluções algo de grandioso, de ideal, a que justamente aspira a juventude proletária. Apesar de todas as tentativas feitas para tiranizar intelectualmente sua própria juventude no seu ser mais profundo, ela se entusiasma ainda, como há cem anos, com os grandes cantos revolucionários que lhes canta um Schiller, e a palavra impetuosa: in tyrannos, que o poeta empregou em sua grande obra de juventude faz também fremir os corações dos seus jovens. Está na natureza dos jovens sentir um vivo entusiasmo por tal fogo revolucionário e vocês deixam sua própria juventude ler Schiller e se dissipar nestas “doenças infantis” porque ela volta rapidamente ao curral. Mas se a juventude proletária faz a menor tentativa de adquirir a mesma dose de formação política e de liberdade de movimento que a de vocês, eis que a polícia, o ministro dos Cultos a ameaçam duramente; eles querem colocar a corda em seu pescoço. Mas isso não será fácil para vocês.

[…] As perseguições que as organizações da juventude proletária sofrem sem parar e sem que haja uma razão são particularmente dolorosas e lamentáveis, porque elas têm um caráter unilateral e partidário. Em contraposição, as organizações da burguesia, da Igreja, que têm um caráter inteiramente político, são toleradas, e ninguém sonha em importuná-las. As do proletariado poderiam também ser apolíticas que se iria querer destruí-las, ainda que elas perseguissem os objetivos mais elevados. (”É verdade!” na bancada dos social-democratas) Ao destruir-se as associações de juventude, dissolver-se os comitês de jovens, faz-se uma interpretação elástica da lei sobre as associações, a fim de nos privar de nossa liberdade de movimento, e o ministro dos Cultos fala do azeite sobre o fogo. (”É verdade!” na bancada dos social-democratas) Se se compara essa atitude em relação às organizações proletárias à verdadeira pouponnage a que o Estado procede, precisamente à ajuda de fundos que está em questão aqui, com as organizações burguesas, essas crianças gâtés e particularmente protegidas pela burguesia; enquanto se vê, por exemplo, a exposição “A mulher em sua casa e em sua profissão”, essas seções bem cuidadas, bem mimadas das organizações burguesas de juventude, então, senhores, se experimenta um vivo sentimento de amargura. (”É verdade!” na bancada dos social-democratas) Não apenas de amargura, mas também de indignação diante dessa ausência de qualquer sentido de justiça e da legalidade que ali se manifesta.

Senhores, existem, de diferentes lados, e mesmo dos meios burgueses, julgamentos os mais favoráveis sobre o movimento da juventude proletária e sobre os objetivos elevados que ele persegue. Mas para vocês é completamente indiferente que valores de uma importância enorme sejam destruídos por essa intervenção brutal. Vocês não querem de fato criar nenhum valor moral, mas apenas destruir o que o proletariado criou por seus próprios meios, a fim de poder submetê-lo à vontade de vocês e continuar a explorá-los. Vocês só conhecem uma reza e ela diz: “Meu Deus, livre-nos da social-democracia!” (À direita e ao centro: “Muito justo!”) Todas as outras rezas retornam a essa.

[…] Eu reconheço tudo abertamente: nós sabíamos que vocês recusariam nossas propostas, mas nós as apresentamos nem que fosse para que, em caso de recusa de sua parte, a opinião pública soubesse do verdadeiro caráter de sua proteção da juventude e que seja arrancado o véu que cobre todas essas declarações hipócritas com as quais vocês apresentam essa proteção da juventude, que não passa de uma provocação à juventude. (”É verdade!” na bancada dos social-democratas) Vocês podem dizer o que quiserem, a raposa está presa pelos pés: a partir do momento em que vocês recusaram nossas propostas, vocês estarão marcados com ferro quente perante o mundo inteiro (Risos à direita e ao centro), marcados perante o mundo inteiro, e o objetivo de seus esforços será claramente demonstrado pelo voto de vocês.

O sr. ministro dos Cultos, assim como o sr. Hackenberg, declarou que a social-democracia não poderia nunca satisfazer a juventude porque ela apenas semeia o ódio e não o amor, que ela não dá nada para a alma das crianças. Isso, senhores, mostra um desconhecimento completo a respeito da social-democracia. O fato é que ela suscita na juventude proletária um imenso e puro amor, um imenso e puro amor por tudo o que é grande, nobre e generoso, a coletividade, o orgulho do povo, os grandes ideais da humanidade. E o ódio que existe, na verdade, na juventude, é aquele do qual Friedrich Schiller estava inflamado quando escreveu in tyrannos, e que fala de seu talismã, que deveria destruir os tiranos. É o ódio a tudo o que há de nocivo e de hostil ao povo em nossa ordem social. Assim, execrando tudo o que há de hostil ao povo, o povo exprime seu amor pelo povo (”Muito justo!” na bancada dos social-democratas), e é no fim das contas unicamente disso que se trata. Devemos portanto educar o povo para fazê-lo amar o chicote que lhe aplica uma surra? Não, é preciso odiar o chicote, é preciso odiar a opressão que vocês propagam, assim como odiar a falta de igualdade de direitos. Odiar a exploração e odiar a nossa ordem social, responsável pela miséria do povo. Mas é preciso amar todos os que contribuem para o orgulho do povo. Para vocês não é possível espalhar o amor, porque ao contrário vocês só têm acordo quanto ao chicote que surra o povo (”Muito justo!” na bancada dos social-democratas), às botas dos soldados que pisoteiam o povo, aos fuzis que, durante as greves e em outras ocasiões semelhantes, devem atirar sobre pai e mãe, aos sabres que devem cortá-los. E vocês, senhores (vira-se para a direita), vocês odeiam o povo em sua totalidade. Vocês o consideram como inimigo de sua legislação e de sua administração. Como o ódio de vocês se dirige ao povo em seu conjunto, e vosso amor ao que lhe prejudicam. Vocês odeiam a social-democracia e todos os movimentos livres do proletariado. E a cada um de vocês eu coloco a questão: o que é melhor, prosseguir o ódio à massa do povo e amar a opressão, ou odiar a opressão e amar a massa do povo? (”Muito bem!” na bancada dos social-democratas) Eu creio que a resposta não é difícil. E é o grande ideal que a juventude proletária recebe precisamente da social-democracia. Ela seguramente perdeu o paraíso pela falha de nossa ordem social, mas recebe em retorno outro paraíso: a concepção de mundo que lhe dá a social-democracia suscita nela o entusiasmo para os grandes objetivos a atingir e para tudo o que a humanidade fez de grande. Senhores, do subterrâneo de nossa ordem social atual se levanta, luminoso, o movimento da juventude proletária (Aprovação por parte dos social-democratas.) Contra ela vocês podem lançar todos os seus cães, os da polícia e os outros, vocês não se livrarão! (”Muito justo!” na bancada dos social-democratas)

Vocês pensam, senhores, que nós temos medo de vocês? Se sim, vocês se enganam. Estejam certos de uma coisa: nada precipitou tanto o resultado do qual se lamenta o sr. ministro dos Cultos -este encorajamento trazido pelo Partido Social-democrata e os sindicatos ao movimento da juventude proletária- quanto a luta implacável e em parte ilegal levada contra ela pelo governo. Esse movimento nunca teria tido tão rápido progresso se ele não tivesse agido dessa maneira com vocês. Nossa juventude não se deixará certamente - estejam certos - arrastar seus ideais pela violência.

[…] Senhores, eu não falo para vocês, vocês sabem muito bem. Que vocês não representam mais nenhum grande ideal, que o que vocês procuram incutir no povo no movimento da juventude não passam de falsos ideais, vocês têm perfeita consciência. Mas se vocês acreditam, com semelhantes ideais e tais métodos de violência, impressionar o movimento da juventude proletária, vocês se enganam: todos os esforços serão vãos. A luta de vocês será chicotear o mar, como fazia o rei persa… (Movimentos prolongados. Gritos: “Três horas, já basta!” O presidente toca a sineta.) Eu vi com grande alegria que o sr. presidente me protege contra o barulho que faz esta assembléia. Mas, senhores, continuem a fazer barulho, entretenham-se tranqüilamente com o orçamento dos haras e outros temas semelhantes. Não serei eu a desviá-los dessas coisas de interesse mundial que apaixonam vocês! (À direita: “Muito justo!”)

Senhores, deixem-me dizer-lhes uma coisa: é um trabalho de Sísifo o que vocês fazem aqui. Vocês podem consagrar muito dinheiro a esse tipo de proteção da juventude, é um tonel das Danaïdes no qual vocês derramarão. Saber que vocês trarão finalmente à juventude isso que depende dela, será utilizado por nós graças ao espírito são que anima a juventude e ao fato de que não é por meio da “educação social-democrata da juventude” que ela vem até nós, mas pela continuidade de seu desenvolvimento político, assim como do desenvolvimento do Partido Social-democrata, e que ela, assim como este último, está inseparavelmente ligada à experiência pessoal de cada um, ao desenvolvimento de toda a nossa vida social.

Vocês poderão, certamente, em sua luta contra o movimento socialista da juventude, contra o embrutecimento da juventude e de numerosas derrotas de nosso regime social, obter alguns resultados. Mas somente se vocês decidirem levar, do modo mais enérgico e com toda a imparcialidade política, uma ação social de grande envergadura, dar ao povo a liberdade política e a liberá-lo da exploração econômica, dos danos causados pelo capitalismo. (”Muito bem!” na bancada dos social-democratas) Em breve, senhores, vocês poderão obter resultados, mas apenas se seguirem em seu trabalho a via que segue a social-democracia. A única possibilidade que se oferece a vocês para combater é acompanhar as tarefas que estão fixadas (Aprovação na bancada dos social-democratas: “É verdade!”) Mas seria ir muito longe esperar isso de vocês. Vocês continuarão a levar sua luta com os métodos que são os de vocês, os da brutalidade, da mentira e da violência. Nós os felicitamos desde já pelos resultados que vocês obterão: nós podemos, desde o presente, assegurar a vocês que será um novo reforço considerável para o movimento da juventude proletária, que é tão indestrutível quanto o conjunto do movimento proletário, quanto a social-democracia, a qual será um dia seu coveiro, sem que vocês possam fazer nada para impedi-la. (Aplausos na bancada dos social-democratas.)

Início da página

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Notas:

[1] Conferência da juventude da instância central da Saúde Pública que ocorrei em Elberfeld em 1911.

[2] Deutsche Tageszeitung: jornal agrário cristão nacional fundado em 1893.

[3) A sra. Von Schwerin era a esposa do presidente da República.

[4] Literalmente: frescos, devotos, alegres, livres! Era assim que designavam a si próprios os membros de organizações da juventude cristã na Alemanha.

[5] Christian Friedrich Schubart (1739-1791), poeta e jornalista que foi também diretor de música em Stuttgart. Preso durante dez anos por sua atividade jornalística, ele escreveu uma poesia política e popular que influenciaria Schiller.

[6] Eia popeia: expressão tradicional de canções de ninar alemãs.

Arquivo Marxista

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Contos curtos

José Cândido de Carvalho

Adeus tardes fagueiras à sombra das laranjeiras
de Casemiro de Abreu

Alcimaco Azambuja, dono de muito boi e muito voto em Pirapora, tendo de resolver umas coisas e loisas com o governo, rebocou Zizinho Pinto para terras e mares do Rio de Janeiro. E, na porta do Palácio do Catete, que naqueles dias comandava a vida do Brasil, falou para o compadre Zizinho:

— Vou ver uns papéis que estão entalados nas gavetas do governo. Venha comigo.

Zizinho recusou:

— Compadre, careço de competência para pisar chão tão mimoso. Vou quedar do lado de fora, assuntando compadre.

O compadre sumiu pela larga porta de entrada enquanto Zizinho, instalado num bom cigarro de palha, ficava vendo aquele entrar e sair de gente em formato de formiga de correição. Alcimaco, depois de desencravar seus papéis, voltou e quis saber a opinião de Zizinho Pinto:

— Compadre, gostou do Catete? Coisa assim não tem em Pirapora.

E Zizinho de Pirapora:

— Eta, compadre, lugarzinho bom de especial para um varejo, para um comercinho de cachaça e rapadura!

E mais não disse nem lhe foi perguntado.

Em boca fechada bem-te-vi não faz ninho

Campos de Melo passou todos os anos de sua vereança sem dar uma palavra. Era o boca-de-siri da câmara municipal de Cuité. Até que, uma tarde, ergueu o busto, como quem ia falar. O presidente da Mesa, mais do que depressa, disse:

— Tem a palavra o nobre vereador.

Então, em meio do grande silêncio, o grande mudo falou.

— Peço licença para fechar a janela, pois estou constipado.

José Cândido de Carvalho (1914 - 1989), foi jornalista, contista e romancista. Filho de lavradores de Trás-os-Montes, norte de Portugal, aos oito anos, por doença do pai, deixou Campos(RJ) e veio morar algum tempo no Rio de Janeiro, quando trabalhou, como estafeta, na Exposição Internacional de 22. Desses tempos fabulosos da história do mundo, os alegres anos 20, o menino guardou lembranças inesquecíveis. Logo voltou a Campos, onde continuou a estudar em escolas públicas. Nas férias trabalhava como ajudante de farmacêutico, cobrador de uma firma de aguardente e trabalhador de uma refinação de açúcar. Ao anunciar-se a Revolução de 30, José Cândido trocou o comércio pelo jornal. Iniciou a atividade de jornalista na revisão de O Liberal. Entre 1930 e 1939, exerceu funções de redator e colaborador em diversos periódicos de Campos (RJ). Admirador de Rachel de Queiroz e José Lins do Rego, começou a escrever, em 1936, o romance Olha para o céu, Frederico!, publicado em 1939. Concluiu seus preparatórios no Liceu de Humanidades de Campos e veio conquistar o diploma de bacharel de Direito, em 1937, pela Faculdade em Direito do Rio de Janeiro. Passou a morar no Rio, em Santa Teresa, entrando para a redação de A Noite, um jornal de quatro edições diárias. Como funcionário público, conseguiu um cargo de redator no Departamento Nacional do Café, mas ali ficou por pouco tempo. Em 1942, Amaral Peixoto, então interventor no Estado do Rio, convidou-o para trabalhar em Niterói, onde vai dirigir O Estado, um dos grandes diários fluminenses, e onde passa a residir. Com o desaparecimento de A Noite, em 1957, vai chefiar o copidesque de O Cruzeiro e dirigir, substituindo Odylo Costa, filho, a edição internacional dessa importante revista. Somente 25 anos depois de ter publicado o primeiro romance, José Cândido publica, em 1964, pela Empresa Editora de “O Cruzeiro”, o romance O coronel e o lobisomem, uma das obras-primas da ficção brasileira. Foi publicado também em Portugal traduzido para o francês e o espanhol. Obteve o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, o Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira, e o Prêmio Luísa Cláudio de Sousa, do PEN Clube do Brasil. Em 1970, José Cândido de Carvalho foi diretor da Rádio Roquette-Pinto, onde se manteve até 74, quando assumiu a direção do Serviço de Radiodifusão Educativa do MEC. Eleito em 23 de maio de 1973 para a Cadeira n. 31, sucedendo a Cassiano Ricardo, foi recebido em 10 de setembro de 1974 pelo acadêmico Herberto Sales na Academia Brasileira de Letras. Em 75, foi eleito presidente do Conselho Estadual de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. De 1976 a 1981, foi presidente da Fundação Nacional de Arte (Funarte), cargo para o qual foi convidado por uma de suas maiores admirações políticas, o ministro Nei Braga. De 1982 a 1983 foi presidente do Instituto Municipal de Cultura do Rio de Janeiro (Rioarte). Estava escrevendo um novo romance, O rei Baltazar, que ficou inacabado. Além do grande romance que o inscreveu na literatura brasileira como um autor singular, José Cândido publicou dois livros de “contados, astuciados, sucedidos e acontecidos do povinho do Brasil” e reuniu, em Ninguém mata o arco-íris, uma série de retratos jornalísticos. Sua obra de ficcionista é das mais originais, graças à linguagem pitoresca e aos personagens, ora picarescos, ora populares extraídos do “povinho do Brasil”.

Em 2005, foi lançado o filme “O coronel e o lobisomem”, baseado no romance de mesmo nome, com Diogo Vilela, Selton Mello, Ana Paula Arósio, Pedro Paulo Rangel, Andréa Beltrão e Tonico Pereira, sob a direção de Maurício Farias.

Bibliografia:

Olha para o céu, Frederico!, romance (1939)

O coronel e o lobisomem, romance (1964)

Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon, contados, astuciados… (1971)

Um ninho de mafagafos cheio de mafagafinhos, contados, astuciados… (1972)

Ninguém mata o arco-íris, crônicas (1972)

Manequinho e o anjo de procissão, contos (1974)

Se eu morrer, telefone para o céu, Ed. Ediouro - Rio de Janeiro, 1979

Os Mágicos Municipais, José Olympio Editora — Rio de Janeiro, 1984

Os textos acima foram extraídos do livro “Se eu morrer, telefone para o céu”, Ediouro – Rio de Janeiro, 1979, págs. 99 e 132.

Releituras

Comentários

DANÇA DA CHUVA

Paulo Leminski

senhorita chuva
me concede a honra
desta contradança
e vamos sair
por esses campos
ao som desta chuva
que cai sobre o teclado

Comentários

Para o Quarto Aniversário da Revolução de Outubro

V. I. Lénine
14 de Outubro de 1921

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Primeira Edição: 18 de Outubro de 1921, no n.” 234 do Pravda.5.a ed. em russo, Assinado: N. Lénine
Fonte: Obras Escolhidas em três tomos, Edições “Avante!”, 1977.
Tradução: Edições “Avante!” com base nas Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t. 44, pp. 144-152.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, junho 2006.
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Aproxima-se o quarto aniversário do 25 de Outubro (7 de Novembro).

Quanto mais se afasta de nós esse grande dia, mais claro se torna o significado da revolução proletária na Rússia e mais profundamente reflectimos também sobre a experiência prática do nosso trabalho, tomada no seu conjunto.

Esse significado e essa experiência poderiam expor-se muito brevemente — e, naturalmente, de forma muito incompleta e imprecisa — da seguinte maneira.

A tarefa imediata e directa da revolução na Rússia era uma tarefa democrático-burguesa: derrubar os restos do medievalismo, varrê-los definitivamente, limpar a Rússia dessa barbárie, dessa vergonha, desse enorme entrave para toda a cultura e todo o progresso no nosso país. E orgulhamo-nos justamente de ter feito essa limpeza com muito mais decisão, rapidez, audácia, êxito, amplitude e profundidade, do ponto de vista da influência sobre as massas do povo, sobre o grosso dessas massas, do que a grande revolução francesa há mais de 125 anos.

Tanto os anarquistas como os democratas pequeno-burgueses (isto é, os mencheviques e os socialistas-revolucionários como representantes russos deste tipo social internacional) disseram e dizem uma incrível quantidade de coisas confusas sobre a questão da relação entre a revolução democrático–burguesa e a socialista (isto é, proletária). Os quatro últimos anos confirmaram plenamente a justeza da nossa interpretação do marxismo sobre este ponto, do nosso modo de aproveitar a experiência das revoluções anteriores. Levámos, como ninguém, a revolução democrático-burguesa até ao fim. É de modo perfeitamente consciente, firme e inflexível que avançamos para a revolução socialista, sabendo que ela não está separada da revolução democrático-burguesa por uma muralha da China, sabendo que só a luta decidirá em que medida conseguiremos (em última análise) avançar, que parte da nossa tarefa infinitamente grande cumpriremos, que parte das nossas vitórias consolidaremos. O tempo o dirá. Mas vemos já agora que fizemos uma obra gigantesca — tendo em conta que se trata de um pais arruinado e atrasado — na transformação socialista da sociedade.

Mas terminemos com o que se refere ao conteúdo democrático-burguês da nossa revolução. Os marxistas devem compreender o que isto significa. Para o explicar, tomemos alguns exemplos eloquentes.

O conteúdo democrático-burguês da revolução significa depuração das relações (ordem, instituições) sociais de um país do medievalismo, da servidão, do feudalismo.

Quais eram as principais manifestações, sobrevivências e vestígios do regime de servidão na Rússia em 1917? A monarquia, o sistema dos estados sociais, as formas de propriedade da terra e o usufruto da terra, a situação da mulher, a religião, a opressão das nacionalidades. Tomai qualquer destes «estábulos de Augias» — que, diga-se de passagem, todos os Estados avançados deixaram em grande parte por acabar de limpar ao realizarem as suas revoluções democrático-burguesas há 125, 250 ou mais anos (em 1649 na Inglaterra) —, tomai qualquer destes estábulos de Augias: vereis que os limpámos a fundo. Numas dez semanas, de 25 de Outubro (7 de Novembro) de 1917 até à dissolução da constituinte (5 de Janeiro de 1918), fizemos neste domínio mil vezes mais do que os democratas burgueses e liberais (democratas-constitucionalistas) e os democratas pequeno-burgueses (mencheviques e socialistas-revolucionários), durante os oito meses do seu poder.

Esses cobardes, charlatães, Narcisos enfatuados e pequenos Hamlets brandiam uma espada de cartão e nem sequer destruíram a monarquia! Nós deitámos fora todo o lixo monárquico como ninguém o fez. Não deixámos pedra sobre pedra, tijolo sobre tijolo no edifício secular do sistema dos estados sociais (os países mais avançados, como a Inglaterra, a França e a Alemanha não se desembaraçaram ainda dos vestígios do sistema dos estados sociais!). Arrancámos definitivamente as raízes mais profundas do sistema dos estados sociais, a saber: os restos do feudalismo e da servidão na propriedade da terra. «Pode discutir-se» (no estrangeiro há bastantes literatos, democratas-constitucionalistas, mencheviques e socialistas-revolucionários, para se dedicarem a essas discussões) o que resultará «ao fim e ao cabo» das transformações agrárias da Grande Revolução de Outubro. Não estamos dispostos a perder agora tempo nessas discussões, porque é pela luta que resolvemos esta discussão e toda a quantidade de discussões que dela derivam. Mas o que não se pode contestar é o facto de que os democratas pequeno-burgueses estiveram oito meses a «entender-se» com os latifundiários, que conservavam as tradições da servidão, enquanto nós, em algumas semanas, varremos por completo da face da terra russa esses latifundiários e todas as suas tradições.

Tomai a religião, ou a falta de direitos da mulher, ou a opressão e a desigualdade de direitos das nacionalidades não russas. Tudo isso são questões da revolução democrático-burguesa. Os democratas pequeno-burgueses vulgares passaram oito meses a falar disso; não há nem um dos Países mais avançados do mundo onde estas questões tenham sido resolvidas até ao fim no sentido democrático-burguês. No nosso país, a legislação da Revolução de Outubro resolveu-os até ao fim. Lutámos e continuamos a lutar seriamente contra a religião. Demos a todas as nacionalidades não russas as suas próprias repúblicas ou regiões autónomas. Na Rússia não existe já essa vileza, essa infâmia e ignomínia que é a falta de direitos ou a restrição dos direitos da mulher, sobrevivência indigna da servidão e do medievalismo, renovada em todos os países do globo terrestre, sem uma só excepção, pela burguesia egoísta e pela pequena-burguesia obtusa e assustada.

Tudo isto é o conteúdo da revolução democrático-burguesa. Há cento e cinquenta e duzentos e cinquenta anos os chefes mais avançados dessa revolução (dessas revoluções, se falarmos de cada variedade nacional de um tipo comum) prometeram aos povos libertar a humanidade dos privilégios medievais, da desigualdade da mulher, das vantagens concedidas pelo Estado a uma ou outra religião (ou à «ideia de religião», à «religiosidade» em geral), da desigualdade de direitos das nacionalidades. Prometeram-no e não o cumpriram. E não podiam cumprir, porque os impedia o «respeito» . . . pela «sacrossanta propriedade privada». Na nossa revolução proletária não houve esse maldito «respeito» por esse três vezes maldito medievalismo e por essa «sacrossanta propriedade privada».

Mas para consolidar para os povos da Rússia as conquistas da revolução democrático-burguesa, nós devíamos ir mais longe, e fomos mais longe. Resolvemos as questões da revolução democrático-burguesa de passagem, como um «produto acessório» do nosso trabalho principal e verdadeiro, proletário revolucionário, socialista. Sempre dissemos que as reformas são um produto acessório da luta revolucionária de classe. As transformações democrático-burguesas — dissemo-lo e demonstrámo-lo com factos — são um produto acessório da revolução proletária, isto é, socialista. Digamos de passagem que todos os Kautskys, os Hilferdings, os Mártovs, os Tchernovs, os Hillquits, os Longuets os MacDonalds, os Turatis e outros heróis do marxismo «II 1/2» não souberam compreender esta correlação entre a revolução democrático-burguesa e a revolução proletária socialista. A primeira transforma-se na segunda. A segunda resolve de passagem os problemas da primeira. A segunda consolida a obra da primeira. A luta, e só a luta, determina até que ponto a segunda consegue ultrapassar a primeira.

O regime soviético é precisamente uma das confirmações ou manifestações evidentes dessa transformação duma revolução em outra. O regime soviético é o máximo de democracia para os operários e os camponeses e, ao mesmo tempo, significa a ruptura com a democracia burguesa e o aparecimento de um novo tipo de democracia de importância histórica mundial: a democracia proletária ou ditadura do proletariado.

Que os cães e os porcos da moribunda burguesia e da democracia pequeno-burguesa que se arrasta atrás dela nos cubram de maldições, de injúrias e de escárnios pelos insucessos e erros que cometemos ao construir o nosso regime soviético. Nem por um momento esquecemos que, de facto, tivemos e temos ainda muito insucessos e erros. E como havíamos de evitar insucessos e erros numa obra tão nova, nova para toda a história mundial, como é a criação de um tipo de regime estatal ainda desconhecido! Lutaremos sem descanso para corrigir os nossos insucessos e erros, para melhorar a forma como aplicamos os princípios soviéticos, que está ainda longe, muito longe, de ser perfeita. Mas temos o direito de nos orgulharmos e orgulhamo-nos de nos ter cabido a felicidade de iniciar a construção do Estado Soviético, de iniciar assim uma nova época da história universal, a época do domínio duma nova classe, oprimida em todos os países capitalistas e que avança em toda a parte para uma vida nova, para a vitória sobre a burguesia, para a ditadura do proletariado, para a libertação da humanidade do jugo do capital e das guerras imperialistas.

A questão das guerras imperialistas, da política internacional do capital financeiro, política que hoje domina em todo o mundo e que gera inevitavelmente novas guerras imperialistas, que gera inevitavelmente uma intensificação sem precedentes do jugo nacional, da pilhagem, da exploração, do estrangulamento de pequenas nacionalidades, fracas e atrasadas, por um punhado de potências «avançadas», é uma questão que desde 1914 se tornou a pedra angular de toda a política de todos os países do globo terrestre. É uma questão de vida ou de morte para dezenas de milhões de homens. Trata-se da questão de saber se na próxima guerra imperialista, que a burguesia prepara diante dos nossos olhos, que vai surgindo do capitalismo diante dos nossos olhos, morrerão vinte milhões de homens (em vez dos dez milhões que morreram na guerra de 1914-1918 e nas «pequenas» guerras que vieram completá-la e que ainda não terminaram), de saber se nessa futura guerra inevitável (se o capitalismo se mantiver) ficarão mutilados 60 milhões de homens (em vez dos 30 milhões de mutilados de 1914-1918). Também nesta questão a nossa Revolução de Outubro abriu uma nova época da história universal. Os lacaios da burguesia e os seus bajuladores, os socialistas-revolucionários e mencheviques, toda a democracia pequeno-burguesa pretensamente «socialista» de todo o mundo, troçaram da palavra de ordem de «transformação da guerra imperialista em guerra civil». Mas esta palavra de ordem revelou-se a única verdade — desagradável, brutal, nua e cruel, com efeito —, mas a verdade no meio da multidão das mais subtis mentiras chauvinistas e pacifistas. Essas mentiras vão-se desmoronando. Foi desmascarada a Paz de Brest. Cada novo dia desmascara mais implacavelmente o significado e as consequências duma paz ainda pior que a de Brest, a Paz de Versalhes. E perante milhões e milhões de homens que reflectem sobre as causas da guerra de ontem e sobre a guerra iminente de amanhã, ergue-se cada vez mais clara, nítida e inelutavelmente esta terrível verdade: é impossível sair da guerra imperialista e do mundo imperialista que a gera inevitavelmente (se tivéssemos a antiga ortografia eu escreveria aqui as duas palavras mir(1*) em ambos os seus significados), é impossível sair desse inferno a não ser por uma luta bolchevique e por uma revolução bolchevique.

Que a burguesia e os pacifistas, os generais e os pequenos burgueses, os capitalistas e os filisteus, todos os cristãos crentes e todos os cavaleiros das Internacionais II e II 1/2 insultem furiosamente esta revolução. Com nenhumas torrentes de raiva, de calúnias e de mentiras poderão ocultar o facto histórico universal de que, pela primeira vez desde há séculos e milénios, os escravos responderam à guerra entre escravistas proclamando abertamente esta palavra de ordem: transformemos essa guerra entre escravistas pela partilha do saque numa guerra dos escravos de todas as nações contra os escravistas de todas as nações.

Pela primeira vez depois de séculos e milénios, esta palavra de ordem transformou-se de esperança vaga e impotente num programa político claro e preciso, numa luta efectiva de milhões de oprimidos sob a direcção do proletariado, transformou-se na primeira vitória do proletariado, na primeira vitória da causa da supressão das guerras, da causa da aliança dos operários de todos os países, sobre a aliança da burguesia das diversas nações, da burguesia que faz umas vezes a paz e outras a guerra à custa dos escravos do capital, à custa dos operários assalariados, à custa dos camponeses, à custa dos trabalhadores.

Esta primeira vitória não é ainda a vitória definitiva, e a nossa Revolução de Outubro alcançou-a com privações e dificuldades inauditas, com sofrimentos sem precedentes, com uma série de enormes insucessos e erros da nossa parte. Como poderia um povo atrasado conseguir vencer sem insucessos e sem erros as guerras imperialistas dos países mais poderosos e avançados do globo terrestre? Não receamos reconhecer os nossos erros e encará-los-emos serenamente para aprender a corrigi-los. Mas os factos continuam a ser factos: pela primeira vez depois de séculos e milénios, a promessa de «responder» à guerra entre escravistas com a revolução dos escravos contra toda a espécie de escravistas foi cumprida até ao fim….. e é cumprida apesar de todas as dificuldades.

Nós começámos esta obra. Quando precisamente, em que prazo os proletários de qual nação culminarão esta obra — é uma questão não essencial. O essencial é que se quebrou o gelo, que se abriu caminho, que se indicou a via.

Continuai a vossa hipocrisia, senhores capitalistas de todos os países, que «defendeis a pátria» japonesa da americana, a americana da japonesa, a francesa da inglesa, etc! Continuai a «escamotear» a questão dos meios de luta contra as guerras imperialistas com novos «manifestos de Basileia» (segundo o modelo do Manifesto de Basileia de 1912), senhores cavaleiros das Internacionais II e II 1/2 e todos os pequenos burgueses e filisteus pacifistas de todo o mundo! A primeira revolução bolchevique arrancou a guerra imperialista, ao mundo imperialista, a primeira centena de milhões de homens da terra. As revoluções seguintes arrancarão a essas guerras e a esse mundo toda a humanidade.

A última tarefa — e a mais importante, e a mais difícil e a menos acabada — é a construção económica, o lançamento dos alicerces económicos do edifício novo, socialista, em lugar do edifício feudal destruído e do edifício capitalista semidestruído. É nessa tarefa, a mais importante e a mais difícil, que temos sofrido mais insucessos e cometido mais erros. Como se poderia começar sem insucessos e sem erros uma obra tão nova para todo o mundo? Mas começámo-la. E continuamo-la. Precisamente agora, com a nossa «nova política económica», corrigimos toda uma série dos nossos erros e aprendemos a prosseguir sem esses erros a construção do edifício socialista num país de pequenos camponeses.

As dificuldades são imensas. Estamos habituados a lutar contra dificuldades imensas. Por alguma razão os nossos inimigos nos chamaram «firmes como a rocha» e representantes de uma política de «partir ossos». Mas aprendemos também — pelo menos aprendemos até certo ponto — outra arte necessária na revolução: a flexibilidade, o saber mudar de táctica rápida e bruscamente, partindo das mudanças verificadas nas condições objectivas, e escolhendo outro caminho para os nossos objectivos se o caminho anterior se revelou inconveniente, impossível, para um período de tempo determinado.

Contávamos, levados por uma onda de entusiasmo, depois de despertar no povo um entusiasmo a princípio político e depois militar, contávamos realizar directamente, na base desse entusiasmo, tarefas económicas tão grandes (como as políticas, como as militares). Contávamos — ou talvez seja mais justo dizer: supúnhamos, sem ter calculado o suficiente — que com imposições directas do Estado proletário poderíamos organizar de maneira comunista, num país de pequenos camponeses, a produção estatal e a distribuição estatal, dos produtos. A vida mostrou o nosso erro. Foram necessárias diversas etapas transitórias, o capitalismo de Estado e o socialismo, para preparar — preparar com o trabalho de longos anos — a passagem ao comunismo. Não directamente na base do entusiasmo, mas com a ajuda do entusiasmo, entusiasmo gerado pela grande revolução, na base do interesse pessoal, na base do incentivo pessoal, na base do cálculo económico, trabalhai para construir primeiro sólidas pontes, que conduzam num país de pequenos camponeses ao socialismo através do capitalismo de Estado. De outro modo não vos aproximareis do comunismo, de outro modo não levareis ao comunismo dezenas e dezenas de milhões de homens. Eis o que nos disse a vida. Eis o que nos disse o curso objectivo do desenvolvimento da revolução.

E nós, que em três ou quatro anos aprendemos um pouco a fazer viragens bruscas (quando se exige uma viragem brusca), pusemo-nos com zelo, atenção e afinco (embora ainda com insuficiente zelo, insuficiente atenção e insuficiente afinco) a estudar uma nova viragem, a «nova política económica». O Estado proletário deve tornar-se um «patrão» prudente, diligente e hábil, um consciencioso comerciante por grosso — de outro modo não pode pôr economicamente de pé um país de pequenos camponeses; agora, nas condições actuais, ao lado do Ocidente capitalista (ainda capitalista), não há outra passagem para o comunismo. O comerciante por grosso parece um tipo económico tão afastado do comunismo como o céu da terra. Mas esta é precisamente uma das contradições que na vida real conduzem da pequena exploração camponesa ao socialismo, através do capitalismo de Estado. O incentivo pessoal eleva a produção; nós necessitamos, antes de mais nada e a todo o custo, de aumentar a produção. O comércio por grosso une economicamente milhões de pequenos camponeses, incentivando-os, ligando-os, conduzindo-os à etapa seguinte: às diversas formas de ligação e de união na própria produção. Iniciámos já a necessária transformação da nossa política económica. Neste domínio temos já alguns êxitos, é certo que pequenos, parciais, mas indubitáveis. Estamos já a terminar, neste domínio da nova «ciência», o ano preparatório. Estudando com firmeza e perseverança, verificando com a experiência prática cada um dos nossos passos, não receando refazer mais de uma vez aquilo que começámos nem corrigir os nossos erros, examinando atentamente o seu significado, passaremos também nos anos seguintes. Faremos todo o «curso», embora as circunstâncias da economia mundial e da política mundial tenham tornado isto mais longo e difícil do que teríamos desejado. Custe o que custar, por muito penoso que sejam os sofrimentos do período de transição, as calamidades, a fome, a ruína, não nos deixaremos abater e levaremos a nossa obra até ao final vitorioso.

Arquivo Marxista

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Uma oração

Jorge Luis Borges

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

Jorge Luis Borges nasceu em 1899 na cidade de Buenos Aires, capital da Argentina e faleceu em Genebra, no ano de 1986. É considerado o maior poeta argentino de todos os tempos e é, sem dúvida, um dos mais importantes escritores da literatura mundial.

“Seu texto é sempre o de uma pessoa que, reconhecendo honestamente a fragilidade e as limitações do ser humano, nos coloca diante de reflexões nas quais, com freqüência, está presente o nosso próprio destino.” (Miguel A. Paladino).

Algumas obras do autor:

- Fervor de Buenos Aires
- Lua de frente
- Inquisições (renegado pelo autor)
- O Aleph
- Ficções
- História Universal da infâmia
- O informe de Brodie
- O livro de areia
- O livro dos seres imaginários
- História da eternidade
- Nova antologia pessoal
- Prólogos
- Discussão
- Buda
- Sete noites
- Os conjurados
- Um ensaio autobiográfico (com Norman Thomas di Giovanni)
- Obras completas (4 volumes)
- Elogio da sombra

O poema acima foi extraído do livro “Elogio da Sombra”, Editora Globo - Porto Alegre, 2001, pág. 75 (tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques; revisão da tradução: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz).

Releituras

Comentários

Sobre as Tarefas do Proletariado na Presente Revolução - Teses de Abril

V. I. Lénine
07 Abril de 1917

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Escrito: Escrito em 4 e 5 (17 e 18) de Abril de 1917.
Primeira Edição: Publicado em 7 de Abril de 1917 no jornal Pravda, n.° 26. Assinado: N. Lénine.

Fonte: Obras Escolhidas em Três Tomos, 1977, Edições Avante! - Lisboa, Edições Progresso - Moscovo.
Tradução: Edições “Avante!” com base nas Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t. 31 pp. 113-118.
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Tendo chegado a Petrogrado só no dia 3 de Abril à noite, é natural que apenas em meu nome e com as reservas devidas à minha insuficiente preparação tenha podido apresentar na assembleia de 4 de Abril um relatório sobre as tarefas do proletariado revolucionário.

A única coisa que podia fazer para me facilitar o trabalho a mim próprio — e aos contraditores de boa-fé — era preparar teses escritas. Li-as e entreguei o texto ao camarada Tseretéli. Li-as muito devagar e por duas vezes: primeiro na assembleia dos bolcheviques e depois na de bolcheviques e menchevíques.

Publico estas minhas teses pessoais acompanhadas unicamente de brevíssimas notas explicativas, que no relatório foram desenvolvidas com muito maior amplitude.

TESES
1. Na nossa atitude perante a guerra, que por parte da Rússia continua a ser indiscutivelmente uma guerra imperialista, de rapina, também sob o novo governo de Lvov e C.a, em virtude do carácter capitalista deste governo, é intolerável a menor concessão ao «defensismo revolucionário».

O proletariado consciente só pode dar o seu assentimento a uma guerra revolucionária que justifique verdadeiramente o defensismo revolucionário nas seguintes condições:

a) passagem do poder para as mãos do proletariado e dos sectores pobres do campesinato que a ele aderem;

b) renúncia de facto, e não em palavras, a todas as anexações;

c) ruptura completa de facto com todos os interesses do capital.

Dada a indubitável boa-fé de grandes sectores de representantes de massas do defensismo revolucionário, que admitem a guerra só como uma necessidade e não para fins de conquista, e dado o seu engano pela burguesia, é preciso esclarecê-los sobre o seu erro de modo particularmente minucioso, perseverante, paciente, explicar-lhes a ligação indissolúvel do capital com a guerra imperialista e demonstrar-lhes que sem derrubar o capital é impossível pôr fim à guerra com uma paz verdadeiramente democrática e não imposta pela violência.

Organização da mais ampla propaganda deste ponto de vista no exército em operações.

Confraternização.

2. A peculiaridade do momento actual na Rússia consiste na transição da primeira etapa da revolução, que deu o poder à burguesia por faltar ao proletariado o grau necessário de consciência e organização, para a sua segunda etapa, que deve colocar o poder nas mãos do proletariado e das camadas pobres do campesinato.

Esta transição caracteriza-se, por um lado, pelo máximo de legalidade (a Rússia é agora o país mais livre do mundo entre todos os países beligerantes); por outro lado, pela ausência de violência contra as massas e, finalmente, pelas relações de confiança inconsciente destas com o governo dos capitalistas, os piores inimigos da paz e do socialismo.

Esta peculiaridade exige de nós habilidade para nos adaptarmos às condições especiais do trabalho do partido entre as amplas massas do proletariado duma amplitude sem precedentes que acabam de despertar para a vida política.

3. Nenhum apoio ao Governo Provisório, explicar a completa falsidade de todas as suas promessas, sobretudo a da renúncia às anexações. Desmascaramento, em vez da «exigência» inadmissível e semeadora de ilusões de que este governo, governo de capitalistas, deixe de ser imperialista.

4. Reconhecer o facto de que, na maior parte dos Sovietes de deputados operários, o nosso partido está em minoria, e, de momento, numa minoria reduzida, diante do bloco de todos os elementos oportunistas pequeno-burgueses, sujeitos à influência da burguesia e que levam a sua influência para o seio do proletariado, desde os socialistas-populares[N14] e os socialistas-revolucionários[N15] até ao CO[N16] (Tchkheídze, Tseretéli, etc), Steklov, etc.

Explicar às massas que os SDO(1*) são a única forma possível de governo revolucionário e que, por isso, enquanto este governo se deixar influenciar pela burguesia, a nossa tarefa só pode consistir em explicar os erros da sua táctica de modo paciente, sistemático, tenaz, e adaptado especialmente às necessidades práticas das massas.

Enquanto estivermos em minoria, desenvolveremos um trabalho de crítica e esclarecimento dos erros, defendendo ao mesmo tempo a necessidade de que todo o poder de Estado passe para os Sovietes de deputados operários, a fim de que, sobre a base da experiência, as massas se libertem dos seus erros.

5. Não uma república parlamentar — regressar dos SDO a ela seria um passo atrás, mas uma república dos Sovietes de deputados operários, assalariados agrícolas e camponeses em todo o país, desde baixo até acima.

Supressão da polícia, do exército e do funcionalismo(2*).

A remuneração de todos os funcionários, todos eles elegíveis e exoneráveis em qualquer momento, não deverá exceder o salário médio de um bom operário.

6. No programa agrário, transferir o centro de gravidade para os Sovietes de deputados assalariados agrícolas.

Confiscação de todas as terras dos latifundiários.

Nacionalização de todas as terras do país, dispondo da terra os Sovietes locais de deputados assalariados agrícolas e camponeses. Criação de Sovietes de deputados dos camponeses pobres. Fazer de cada grande herdade (com uma dimensão de umas 100 a 300 deciatinas, segundo as condições locais e outras e segundo a determinação das instituições locais) uma exploração-modelo sob o controlo dos deputados assalariados agrícolas e por conta da colectividade.

7. Fusão imediata de todos os bancos do país num banco nacional único e introdução do controlo por parte dos SDO.

8. Não «introdução» do socialismo como nossa tarefa imediata, mas apenas passar imediatamente ao controlo da produção social e da distribuição dos produtos por parte dos SDO.

9. Tarefas do partido:

a) congresso imediato do partido;

b) modificação do programa do partido, principalmente:

sobre o imperialismo e a guerra imperialista,
sobre a posição perante o Estado e a nossa reivindicação de um « Estado-Comuna »(3*),
emenda do programa mínimo, já antiquado;
c) mudança de denominação do partido(4*).

10. Renovação da Internacional.

Iniciativa de constituir uma Internacional revolucionária, uma Internacional contra os sociais-chauvinistas e contra o «centro»(5*).

Para que o leitor compreenda por que tive de sublinhar de maneira especial, como rara excepção, o «caso» de contraditores de boa-fé, convido-o a comparar estas teses com a seguinte objecção do Sr. Goldenberg: Lénine «hasteou a bandeira da guerra civil no seio da democracia revolucionária» (citado no Edinstvo[N18] do Sr. Plekhánov, n.° 5).

Uma pérola, não é verdade?

Escrevo, leio e mastigo: «Dada a indubitável boa-fé de grandes sectores de representantes de massas do defensismo revolucionário … dado o seu engano pela burguesia, é preciso esclarecê-los sobre o seu erro de modo particularmente minucioso, paciente e perseverante …

E esses senhores da burguesia, que se dizem sociais-democratas, que não pertencem nem aos grandes sectores nem aos representantes de massas do defensismo, apresentam de rosto sereno as minhas opiniões, expõem-nas assim: «hasteou (!) a bandeira (!) da guerra civil» (sobre a qual não há uma palavra nas teses, não há uma palavra no relatório!) «no seio (!!) da democracia revolucionária…».

Que significa isto? Em que se distingue de uma agitação de pogromistas? da Rússkaia Vólia[19]?

Escrevo, leio e mastigo: «Os Sovietes de DO são a única forma possível de governo revolucionário e, por isso, a nossa tarefa só pode consistir em explicar os erros da sua táctica de modo paciente, sistemático, tenaz, e adaptado especialmente às necessidades práticas das massas…»

Mas contraditores de uma certa espécie expõem as minhas opiniões como um apelo à «guerra civil no seio da democracia revolucionária»!!

Ataquei o Governo Provisório por não marcar um prazo próximo, nem nenhum prazo em geral, para a convocação da Assembleia Constituinte e se limitar a promessas. Demonstrei que sem os Sovietes de deputados operários e soldados não está garantida a convocação da Assembleia Constituinte, o seu êxito é impossível.

E atribuem-me a opinião de que sou contrário à convocação imediata da Assembleia Constituinte!!!

Qualificaria tudo isto de expressões «delirantes» se dezenas de anos de luta política não me tivessem ensinado a considerar a boa-fé dos contraditores como uma rara excepção.

No seu jornal, o Sr. Plekhánov qualificou o meu discurso de «delirante». Muito bem, Sr. Plekhánov! Mas veja quão desajeitado, inábil e pouco perspicaz é você na sua polémica. Se durante duas horas pronunciei um discurso delirante, como é que centenas de ouvintes aguentaram esse «delírio»? Mais ainda. Para que dedica o seu jornal toda uma coluna a relatar um «delírio»? Isso não pega, não pega mesmo nada.

É muito mais fácil, naturalmente, gritar, insultar e vociferar que tentar expor, explicar e recordar como raciocinaram Marx e Engels em 1871, 1872 e 1875 sobre a experiência da Comuna de Paris[N20] e sobre qual o Estado de que o proletariado necessita.

Provavelmente o ex-marxista Sr. Plekhánov não deseja recordar o marxismo.

Citei as palavras de Rosa Luxemburg, que em 4 de Agosto de 1914 chamou à social-democracia alemã «cadáver malcheiroso». E os Srs. Plekhánov, Goldenberg e C.a sentem-se «ofendidos»… por quem? Pelos chauvinistas alemães, qualificados de chauvinistas!

Enredaram-se os pobres sociais-chauvinistas russos, socialistas nas palavras e chauvinistas de facto.

Início da página

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Notas de rodapé:

(1*) Sovietes de deputados operários. (N. Ed.) (retornar ao texto)

(2*) Isto é, substituição do exército permanente pelo armamento geral do povo. (retornar ao texto)

(3*) Isto é, de um Estado cujo protótipo foi dado pela Comuna de Paris[N17]. (retornar ao texto)

(4*) Em lugar de «social-democracia», cujos chefes oficiais traíram o socialismo no mundo inteiro, passando para o lado da burguesia (os «defensistas» e os vacilantes «kautskianos»), devemos denominar-nos Partido Comunista. (retornar ao texto)

(5*) Na social-democracia internacional chama-se «centro» a tendência que vacila entre os chauvinistas (= «defensistas») e os internacionalistas, isto é, Kautsky e C.a na Alemanha. Longuet e C.a na França, Tchkheídze e C” na Rússia, Turati e C.a na Itália, MacDonald e C.a na Inglaterra, etc. (retornar ao texto)

Notas de fim de tomo:

[N13] O artigo Sobre as Tarefas do Proletariado na Presente Revolução, publicado em 7 de Abril de 1917 no jornal Pravda, n.O26, com a assinatura de N. Lénine, contém as famosas Teses de Abril de V.I. Lénine, aparentemente escritas durante a viagem de comboio, nas vésperas da sua chegada a Petrogrado.
Lénine leu as suas teses em duas reuniões do dia 14 (17) de Abril: na reunião de bolcheviques e na reunião conjunta de bolcheviques e mcnchcviqucs delegados à Assembleia de Toda a Rússia dos Sovietes de deputados operários e soldados, cfectuada no Palácio de Táurida. Lénine desenvolveu e concretizou pormenorizadamcnte as Teses de Abril no trabalho As Tarefas do Proletariado na Nossa Revolução (Projecto de Plataforma do Partido Proletário), escrito em 10 (23) de Abril de 1917. Ver o presente tomo, pp. 21-48.) (retornar ao texto)

[N14] Socialistas-populares: membros do Partido Socialista Popular do Trabalho, pequeno-burguês, criado em 1906 com base na ala direita do Partido Socialista-Revolucionário. Os «socialistas-populares» eram partidários duma aliança com os democratas-constitucionalistas.
À frente do partido encontravam-se A. V. Pechekhónov, N. F. Annénski, V. A. Miakotine e outros. Durante a Primeira Guerra Mundial os «socialistas-populares» adoptaram posições sociais-chauvinistas. Depois da revolução democrática burguesa de Fevereiro de 1917, o partido dos «socialistas-populares» fundiu-se com os trudoviques, apoiou a actividade do Governo Provisório burguês, no qual estava representado. Depois da Revolução Socialista de Outubro os «socialistas-populares» participaram em conspirações e levantamentos armados contra-revolucionários contra o Poder Soviético. (retornar ao texto)

[N15] Socialistas-revolucionários: membros dum partido pequeno-burguês russo criado em fins de 1901, princípio de 1902. Durante a guerra imperialista mundial, a maior parte dos socialistas-revolucionários adoptaram posições sociais-chauvinistas. Após a revolução democrática burguesa de Fevereiro de 1917, os socialistas-revolucionários, juntamente com os mencheviques, foram o apoio principal do Governo Provisório contra-revolucionário, e dirigentes deste partido (Kérenski, Avxéntiev, Tchernov) fizeram parte do Governo. O partido dos socialistas-revolucionários renunciou a apoiar a reivindicação camponesa da liquidação dos latifundiários. Os ministros do Governo Provisório membros do partido dos socialistas-revolucionários enviaram destacamentos punitivos contra os camponeses que tinham tomado as terras dos latifundiários. Depois da Revolução Socialista de Outubro, os socialistas-revolucionários, em aliança com a burguesia, com os latifundiários e com os intervencionistas estrangeiros, lutavam activamente contra o Poder Soviético. (retornar ao texto)

[N16] CO: Comité de Organização. Foi criado em 1912 na conferência de Agosto dos liquidacionistas. Durante a guerra imperialista mundial o CO adoptou uma posição social-chauvinista. O CO funcionou até à eleição do CC do partido menchevique no congresso “de unificação” do POSDR (menchevique) em Agosto de 1917. (retornar ao texto)

[N17] Comuna de Paris de 1871: a primeira experiência de ditadura do proletariado na história da humanidade; governo revolucionário da classe operária instituído pela revolução proletária em Paris. Existiu durante 72 dias, de 18 de Março a 28 de Maio de 1971. (retornar ao texto)

[N18] Edinstvo (Unidade): jornal diário, órgão do grupo de extrema-direita dos mencheviques defensistas chefiado por G. V. Plekhánov. Publicou-se em Petrogrado de Março a Novembro de 1917; de Dezembro de 1917 a Janeiro de 1918 publicou-se com o nome de Nache Edinstvo (Nossa Unidade).
Manifestando-se pelo apoio ao Governo Provisório, à coligação com a burguesia, por um «poder firme», o jornal exigia a continuação da guerra imperialista «até à vitória completa»; juntamente com a imprensa burguesa e centrista participou na campanha contra os bolcheviques. Teve uma atitude hostil em relação à Revolução de Outubro e à instauração do Poder Soviético. (retornar ao texto)

[N19] Rússkaia Vólia (Liberdade Russa): diário burguês fundado pelo ministro tsarista do Interior A. D. Protopópov e financiado pelos grandes bancos. Publicou-se em Petrogrado de Dezembro de 1916 a Outubro de 1917. (retornar ao texto)

[N20] Ver K. Marx e F. Engels, Prefácio à edição alemã do «Manifesto do Partido Comunista» de 1872; K. Marx, A Guerra Civil em França. Mensagem do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, Critica do Programa de Gotha; F. Engels, Carta a A. Bebel de 18-28 de Março de 1875; K. Marx, Cartas a L. Kugelmann de 12 e de 17 de Abril de 1871. (ln Karl Marx/Friedrich Engels, Werke, Bd. 4, S. 573-574; Bd. 17, S. 335-350; (retornar ao texto)

Arquivo Marxista

Comentários

Mas acontecem coisas neste mundo!…

Joaquim Manuel de Macedo

Mas acontecem coisas neste mundo!…

O Tenente João Moreira, o Amotinado, o companheiro ou caudatário do Marquês de Lavradio em seus passeios noturnos, era casado e tinha em sua companhia uma cunhada, Josefa, chamada em família Zezé, viúva há um ano.

A esposa do Amotinado era bonita e jovem; mas a Zezé, dois anos mais moça, mais bonita ainda.

O Tenente morava à Rua do Padre Homem da Costa, um pouco acima da dos Ouvires, e sua casa de um só pavimento tinha além da porta de entrada uma outra em curto muro contíguo, a qual só se abria para o serviço dos escravos.

Ora, no último ano do seu vice-reinado o Marquês, apanhado uma noite na Rua do Padre Homem da Costa por súbita e grossa chuva, aceitou o oferecimento do Tenente, recolheu-se à casa deste, e viu Leonor, ou Lolora, como o marido e parentes a chamavam, e a Zezé, sua irmã.

O Marquês ficou encantado, e creio que só em lembrança dos serviços que devia ao Amotinado não pensou em apaixonar-se por ambas.

Enamorado da Zezé, e castigando assim e sem idéia de castigo as vis cumplicidades do Tenente, fez chegar seus recados e proposições amorosas à linda viuvinha, conseguindo comovê-la com a ternura prestigiosa e com a sua singular beleza de Vice-Rei.

Não sei como o Amotinado descobriu o namoro e os projetos do Marquês, e pôs-se alerta para impedir que o vice-real namorado penetrasse em sua casa.

O cem vezes baixo e aviltado cúmplice de entradas noturnas em casas alheias não queria graças pesadas na sua: com outro qualquer teria logo posto fim à história, rompendo em escandaloso conflito do seu costume; como o vice-rei, porém, o caso era outro, e o Tenente sabia que a mais pequena cabeçada leva-lo-ia à forca ou pelo menos ao desterro, ficando não só Zezé mas também Lolora indefesas e à mercê do Marquês, e de outros depois dele.

O Amotinado não fez bulha na família, guardou o seu segredo; e esperou, zelando vigilante e desconfiado a casa.

O Marquês tinha, no entanto, chegado a sorrir a mais terna esperança:

Uma noite o Tenente achou o Vice-Rei de cama em conseqüência de um resfriamento e em uso de sudoríficos.

— Tenente, disse o Vice-Rei com voz trêmula, eu hoje não posso sair; vão rodar até à meia-noite, e vigia bem o Jogo da Bola e a cadeia. Amanhã às oito horas vem dar-me parte do que houver

O Amotinado saiu.

Às onze horas da noite em ponto, o Marquês, disfarçado em oficial de marinha, parou na Rua do Padre Homem da Costa junto à porta do muro contíguo à casa do Tenente e bateu de leve cinco vezes.

Uma voz comprimida e como ansiosa perguntou de dentro.

— Quem é?…

O Marquês respondeu sorrindo:

— Sou o Tenente Amotinado.

O portão abriu-se, e o Marquês recuou um passo, vendo o Tenente que trazia na mão uma lanterna, e disse logo:

— Perdão, Sr. Vice-Rei! Eu sei que há dois Amotinados na cidade, mas nessa casa só entra sem pedir licença o Amotinado verdadeiro.

E trancou a porta.

O Marquês quase que se encolerizou, mas faltou-lhe, o quase, porque imediatamente desatando a rir voltou sobre seus passos e foi dormir e sonhar com a linda viuvinha Zezé.

No outro dia recebeu às oito horas da manhã o Tenente, tratou-o com a maior bondade, riu-se, lembrando-lhe o desapontamento por que passara no portão, louvou-lhe o zelo pela honra da Zezé, e, a rir ainda mais, recomendou-lhe que tivesse cuidado com o falso Amotinado.

Continuaram como dantes em noites determinadas os passeios noturnos do Marquês e do Tenente, este, porém, velava sempre em desconfiança daquele.

Algumas semanas depois, em noite de falha de ronda, o Amotinado, ouvindo o toque das dez horas no sino de S. Bento, correu para casa, porque era a essa hora que o Marquês costumava sair. Chegou, bateu à porta que Lolora veio abrir-lhe um pouco morosa; quando, porém, ia entrando, o Tenente sentiu leve ruído… voltou a chave, fingindo ter trancado a porta e esperou…

Quase logo a porta do muro abriu-se, e por ela saiu um embuçado.

O Tenente deu um salto em fúria de tigre, mas estacou, murmurando com os dentes cerrados:

— Sr. Vice-Rei! …

— Aqui não há Vice-Rei, disse-lhe em voz baixa o Marquês; há dois homens; mas, se o achas melhor, há o falso Amotinado a sair pela porta do muro, quando o verdadeiro entra pela porta da casa. E vê lá! não ofendas aquela que protejo!…

O embuçado afastou-se, deixando o Tenente em convulsão de raiva estéril.

Um vice-rei deveras fazia medo.

Mas às dez horas da noite ainda havia gente acordada na Rua do Padre Homem da Costa, e no dia seguinte toda a cidade sabia do caso das duas portas e dos dois Amotinados. Apareceram pasquins, compuseram-se cantigas e lundus, que eram as armas da censura popular do tempo, e alguns malévolos propuseram que a rua deixasse o antigo nome pelo do Amotinado.

O tenente celebrizou-se por brigas, em que ele só espalhou e espancou grupo de dez ou doze maldizentes.

E chegou então o novo Vice-Rei Luís de Vasconcelos.

O Marquês, despedindo-se do Amotinado a quem pagara sempre liberalmente a exagerada e servil dedicação, deu-lhe larga bolsa cheia de ouro; este, porém, pediu-lhe com a[dor a patente de capitão.

O Marquês respondeu-lhe:

— Pobre Amotinado!… os postos do exército são do rei, que os confere a quem presta serviços a seu governo; os teus serviços foram prestados só à minha pessoa, e eu não posso pagá-lo senão com o meu dinheiro. Veio que uma bolsa foi pouco, e dou-te outra.

E foi buscá-la, e deu-lhe, e o miserável aceitou-o.

O povo chorou, vendo partir para Lisboa o Marquês de Lavradio, a quem todos perdoavam as travessuras amorosas pelo bom, sábio, justo e benemérito governo.

A linda viuvinha Zezé ficou com seu dote que lhe aumentou bastante a boniteza para achar, como achou, marido de seu gosto e escolha.

Mas a Rua do Padre Homem da Costa não podia mais conservar a denominação envelhecida.

Continuava a teima dos zombeteiros e dos inimigos do tenente valentão e espalha brasas em querer chamá-la Rua do Amotinado.

Joaquim Manuel de Macedo nasceu em São João de Itaboraí (RJ) no ano de 1820 e faleceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 1882. Formado em Medicina pela Escola Médica do Rio de Janeiro em 1844, no mesmo ano publicou seu primeiro romance, “A Moreninha”, que alcançou grande êxito; nas décadas seguintes escreveria mais 16 romances. Em 1849, tornou-se Professor de História e Geografia do Brasil do Colégio Pedro II, cargo em que permaneceria até 1870. Foi sócio-correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e fundou, com Gonçalves Dias e Araújo Porto-Alegre, a revista cultural “Guanabara”. Elegeu-se várias vezes Deputado pelo Partido Liberal (ala conservadora). Colaborador do Jornal do Comércio, com a crônica “A Semana”, em 1856. Em 1857 publicou “A Nebulosa”, considerado pelo crítico Antonio Candido “o melhor poema-romance do Romantismo”. Macedo publicou 12 peças de teatro (em 1858 foi montada, no Rio de Janeiro (RJ), a peça “O Primo da Califórnia”, pela Companhia de Joaquim Heliodoro no Ginásio Dramático e, em 1860, também no Rio foi montada a peça “Luxo e Vaidade”, pela Sociedade Dramática Nacional, no mesmo local). O autor é considerado um dos maiores prosadores do Romantismo brasileiro. Em sua poesia encontram-se traços românticos bastante característicos, como amores fatais, cenários de tempestade, imagens de donzelas angelicais e sonhadoras.

Obras do autor:

A Moreninha, 1844
Poemas Avulsos, 1850/1852
O Cego, 1851
O Fantasma Branco, 1851
Cobé, 1852
A Nebulosa, 1857
O Sacrifício de Isaac, 1859
Um Passeio pela cidade do Rio de Janeiro, 1862
A Torre em Concurso, 1863
Memórias da rua do Ouvidor, 1878

(Dados obtidos no sítio “Itaú Cultural”)

Texto extraído do livro “Memórias da rua do Ouvidor”, Tipografia Perseverança - Rio de Janeiro, 1878. pág. 99.

Releituras

Comentários

O Oportunismo e a Falência da II Internacional

V. I. Lenin
Janeiro de 1916

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Primeira Edição: Revista Vorbote, nº1, Janeiro de 1916
Transcrição para a web: amavelmente cedida por “O Vermelho”
HTML por Carlos Henrique (KK) para Marxists’ Internet Archive, 03.01.03.
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I
A II Internacional deixou realmente de existir? Os seus representantes mais autorizados, como Kautsky e Vandervelde, negam-no obstinadamente. Nada aconteceu além de uma ruptura das relações; tudo está bem; tal é o seu ponto de vista.

A fim de esclarecer a verdade, vejamos o manifesto do congresso de Basileia de 1912, que se refere precisamente à atual guerra mundial imperialista e foi adotado por todos os partidos socialistas do mundo. Deve-se assinalar que nenhum socialista ousará, em teoria, negar a necessidade de uma avaliação histórica concreta de cada guerra.

Agora que a guerra eclodiu, nem os oportunistas declarados nem os kautskistas se resolvem nem a negar o manifesto de Basileia nem a confrontar com as suas exigências o comportamento dos partidos socialistas durante a guerra. Porquê? Pois porque o manifesto os desmascara inteiramente a uns e a outros.

Nele não há nem uma única palavrinha sobre a defesa da pátria, nem sobre a diferença entre a guerra ofensiva e a guerra defensiva, nem uma palavra sobre tudo que afirmam agora aos quatro ventos os oportunistas e os kautskistas(1) da Alemanha e da quádrupla Entente. O manifesto não podia falar disso, dado que aquilo que ele diz exclui absolutamente qualquer emprego desses conceitos. Ele indica de maneira absolutamente concreta uma série de conflitos econômicos e políticos que prepararam esta guerra durante decênios, que se tinham revelado plenamente em 1912 e provocaram a guerra de 1914. O manifesto recorda o conflito russo-austríaco a propósito da “hegemonia nos Balcãs”, o conflito entre a Inglaterra, a França e a Alemanha (entre todos estes países!) a propósito da sua “política de conquista na Ásia Menor”, o conflito austro-italiano a propósito da “aspiração ao domínio” na Albânia, etc. O manifesto define numa palavra todos esses conflitos como conflitos no terreno do “imperialismo capitalista”. Deste modo, o manifesto reconhece com toda a clareza o caráter espoliador, imperialista, reacionário, escravista desta guerra, isto é, o caráter que transforma a admissibilidade da defesa da pátria numa insensatez do ponto de vista teórico e num absurdo do ponto de vista prático. Está em curso uma luta dos grandes tubarões para devorar “pátrias” estrangeiras. O manifesto tira as conclusões inevitáveis de fatos históricos indiscutíveis: esta guerra não pode ser “justificada por qualquer pretexto de interesse popular”; ela é preparada “a bem dos lucros dos capitalistas e das ambições das dinastias”. Seria “um crime” se os operários “começassem a disparar uns contra os outros”. Assim diz o manifesto.

A época do imperialismo capitalista é a época do capitalismo maduro e mais que maduro, do capitalismo que está em vésperas da sua derrocada, que amadureceu o suficiente para dar lugar ao socialismo. O período de 1789 a 1871 foi a época do capitalismo progressista, em que na ordem do dia da história estava o derrube do feudalismo e do absolutismo, a libertação do jugo estrangeiro. Nesse terreno, e só nele era admissível a “defesa da pátria”, isto é, a defesa contra a opressão. Este conceito poderia ainda hoje ser aplicado a uma guerra contra as grandes potências imperialistas, mas seria absurdo aplicá-lo à guerra entre as grandes potências imperialistas, à guerra na qual se trata de saber quem pilhará mais os países balcânicos, a Ásia Menor, etc. Não é por isso de espantar que os “socialistas” que reconhecem a “defesa da pátria” na presente guerra evitem o manifesto de Basileia como o ladrão evita o lugar do roubo. É que o manifesto demonstra que eles são sociais-chauvinistas, isto é, socialistas em palavras e chauvinistas na realidade, que ajudam a “sua” burguesia a pilhar países estrangeiros, a subjugar outras nações. O que é essencial na noção de “chauvinismo” é a defesa da “sua” pátria mesmo quando as ações desta visam escravizar as pátrias alheias.

Do reconhecimento de uma guerra como guerra de libertação nacional decorre uma tática, do seu reconhecimento como guerra imperialista decorre outra. O manifesto aponta claramente essa outra tática. A guerra “provocará uma crise econômica e política” que deverá ser “aproveitada”: não para atenuar a crise, não para defender a pátria mas, pelo contrário, para “sacudir” as massas, para “apressar a queda do domínio do capital”. Não se pode apressar aquilo cujas condições históricas ainda não amadureceram. O manifesto reconhecia que a revolução social é possível, que as premissas para ela amadureceram, que ela virá precisamente em relação com a guerra: as “classes dominantes” temem “a revolução proletária”, declara o manifesto, invocando o exemplo da Comuna de Paris e da revolução de 1905 na Rússia, isto é, os exemplos das greves de massas, da guerra civil. É uma mentira afirmar, como faz Kautsky, que a atitude do socialismo para com esta guerra não foi esclarecida. Esta questão não só foi discutida como foi decidida em Basileia, onde foi adotada a tática da luta proletária revolucionária de massas.

É uma revoltante hipocrisia passar em silêncio, totalmente ou nas partes mais essenciais, o manifesto de Basileia e em lugar dele citar discursos de dirigentes ou resoluções de certos partidos que, em primeiro lugar, foram proferidos antes de Basileia, em segundo lugar não eram decisões dos partidos de todo o mundo, em terceiro lugar referiam-se a diferentes guerras possíveis, mas não à presente guerra. O fundo da questão está em que a época das guerras nacionais entre as grandes potências européias foi substituída pela época das guerras imperialistas entre elas e em que o manifesto de Basileia teve pela primeira vez de reconhecer oficialmente esse fato.

Seria um erro pensar que o manifesto de Basileia é uma declamação oca, uma fraseologia oficial, uma ameaça pouco séria. É assim que gostariam de apresentar a questão aqueles que esse manifesto desmascara. Mas isso é falso. O manifesto é apenas o resultado de um grande trabalho de propaganda de toda a época da II Internacional, é apenas um resumo de tudo aquilo que os socialistas lançaram entre as massas em centenas de milhares de discursos, artigos e apelos em todas as línguas. Ele apenas repete aquilo que escreveu, por exemplo, Jules Guesde em 1899, quando fustigava o ministerialismo(2)dos socialistas em caso de guerra: ele falava da guerra provocada pelos “piratas capitalistas” (En garde!, p. 175); apenas repete aquilo que escreveu Kautsky em 1909 em O Caminho do Poder, onde reconhecia o fim da época “pacifica” e o inicio de uma época de guerras e revoluções. Apresentar o manifesto de Basileia como fraseologia ou como um erro significa considerar como fraseologia ou como um erro todo o trabalho socialista nos últimos 25 anos. A contradição entre o manifesto e a sua não aplicação é tão intolerável para os oportunistas e kautskistas porque ela revela a profundíssima contradição no trabalho da II Internacional. O caráter relativamente “pacifico” do período de 1871 a 1914 alimentou o oportunismo primeiro como estado de espírito, depois como tendência e finalmente como grupo ou camada da burocracia operária e dos companheiros de jornada pequeno-burgueses. Estes elementos só podiam submeter o movimento operário reconhecendo em palavras os objetivos revolucionários e a tática revolucionária. Eles só podiam conquistar a confiança das massas através da afirmação solene de que todo o trabalho “pacifico” constitui apenas uma preparação para a revolução proletária. Esta contradição era um abcesso que alguma vez haveria de rebentar, e rebentou. Toda a questão consiste em saber se se deve tentar, como fazem Kautsky e C.a, reintroduzir de novo esse pus no organismo em nome da “unidade” (com o pus) ou se, para ajudar à completa cura do organismo do movimento operário, se deve, o mais depressa possível e o mais cuidadosamente possível, livrá-lo desse pus, apesar da temporária dor aguda causada por esse processo.

E evidente a traição ao socialismo por parte daqueles que votaram pelos créditos de guerra, entraram para os ministérios e advogaram a idéia da defesa da pátria em 1914-1915. Só os hipócritas podem negar este fato. É necessário explicá-lo.

II
Seria absurdo encarar toda a questão como uma questão de pessoas. Que relação tem isso com o oportunismo se pessoas como Plekhánov e Guesde, etc.? - interrogava Kautsky (Neue Zeit, 28 de Maio de 1915). Que relação tem isso com o oportunismo se Kautsky, etc.? - respondia Axelrod em nome dos oportunistas da quádrupla Entente (Die Krise der Sozialdemokratie(3), Zurique, 1915, p. 21). Tudo isso é uma comédia. Para explicar a crise de todo o movimento é necessário examinar, em primeiro lugar, o significado e c o n ó m i c o desta política, em segundo lugar as ideias que estão na sua base, e em terceiro lugar a sua ligação coma história das tendências no socialismo.

Em que consiste a essência econômica do defensismo durante a guerra de 1914-1915? A burguesia de todas as grandes potências trava a guerra com o fim de partilhar e explorar o mundo, com o fim de oprimir os povos. Um pequeno circulo da burocracia operária, da aristocracia operária e de companheiros de jornada pequeno-burgueses podem receber algumas migalhas dos grandes lucros da burguesia. A causa de classe profunda do social-chauvinismo e do oportunismo é a mesma: a aliança de uma pequena camada de operários privilegiados com a “sua” burguesia nacional contra as massas da classe operária, a aliança dos lacaios da burguesia com esta última contra a classe por ela explorada.

O conteúdo político do oportunismo e do social-chauvinismo é o mesmo: a colaboração das classes, a renúncia à ditadura do proletariado, a renúncia às ações revolucionárias, o reconhecimento sem reservas da legalidade burguesa, a falta de confiança no proletariado, a confiança na burguesia. O social-chauvinismo é a continuação direta e o coroamento da política operária liberal inglesa, do millerandismo e do bernsteinianismo(4)

A luta entre as duas tendências fundamentais no movimento operário, o socialismo revolucionário e o socialismo oportunista, abrange toda a época de 1889 a 1914. E também hoje existem em todos os países duas correntes principais quanto à questão da atitude para com a guerra. Deixemos a maneira burguesa e oportunista de invocar os indivíduos. Tomemos as tendências numa série de países. Tomaremos dez Estados europeus: Alemanha, Inglaterra, Rússia, Itália, Holanda, Suécia, Bulgária, Suiça, Bélgica e França. Nos primeiros oito países a divisão em tendências oportunista e revolucionária corresponde à divisão em sociais-chauvinistas e internacionalistas. Na Alemanha os pontos de apoio do social-chauvinismo são os Sozialistische Monatshefte e Legien e C.a; na Inglaterra os fabianos e o Partido Trabalhista (o ILP fez sempre bloco com eles, apoiou o seu órgão e sempre foi mais fraco nesse bloco do que os sociais-chauvinistas, enquanto no BSP os internacionalistas constituem três sétimos); na Rússia essa corrente é representada pela Nacha Zariá (agora Nache Delo), pelo Comitê de Organização, pela fração da Duma dirigida por Tchkheidze; na Itália pelos reformistas encabeçados por Bissolati; na Holanda pelo partido de Troelstra; na Suécia pela maioria do partido, dirigida por Branting; na Bulgária pelo partido dos “amplos” (5); na Suiça por Greulich e C.ª Foi precisamente entre os sociais-democratas revolucionários de todos estes países que se ergueu já um protesto mais ou menos vivo contra o social-chauvinismo. Apenas dois países constituem excepção: a França e a Bélgica, onde no entanto o internacionalismo também existe, mas é muito fraco.

O social-chauvinismo é o oportunismo acabado. Ele amadureceu para uma aliança aberta, freqüentemente vulgar, com a burguesia e os estados-maiores. E é precisamente essa aliança que lhe dá uma grande força e o monopólio da imprensa legal e da mistificação das massas. E absurdo considerar ainda hoje o oportunismo como um fenômeno interno do partido. É absurdo pensar em aplicar a resolução de Basileia em conjunto com David, Legien, Hyndman, Plekhánov e Webb. A unidade com os sociais-chauvinistas é a unidade com a sua “própria” burguesia nacional, que explora outras nações, é a cisão do proletariado internacional. Isso não significa que a ruptura com os oportunistas é imediatamente possível em toda a parte, significa apenas que ela amadureceu historicamente, que ela é necessária e inevitável para a luta revolucionária do proletariado, que a história, que conduziu do capitalismo “pacifico” ao capitalismo imperialista, preparou essa ruptura. Volentem ducunt fata, nolentem trahunt. (6)

III
Os representantes inteligentes da burguesia compreenderam-no muito bem. Por isso elogiam tanto os atuais partidos socialistas, à frente dos quais se encontramos “defensores da pátria”, isto é, os defensores da pilhagem imperialista. E por isso que os governos gratificam os chefes sociais-chauvinistas ora com postos ministeriais (em França e Inglaterra) ora com o monopólio da existência legal sem obstáculos (na Alemanha e na Rússia). É por isso que na Alemanha, onde o partido social-democrata era o mais forte e onde a sua transformação em partido operário nacional-liberal contra-revolucionário foi mais evidente, as coisas chegaram a tal ponto que o ministério público vê na luta entre a “minoria” e a “maioria” uma “incitação ao ódio de classe”! Por isso os oportunistas inteligentes se preocupam acima de tudo com a preservação da anterior “unidade” dos velhos partidos, que prestaram tão grandes serviços à burguesia em 1914-1915. Um dos membros da social-democracia alemã, que publicou em Abril de 1915, sob o pseudônimo de Monitor, um artigo na revista reacionária Preussische Jahrbucher, exprime com uma franqueza digna de agradecimento as concepções desses oportunistas em todos os países do mundo. Monitor considera que para a burguesia seria muito perigoso que a social-democracia se deslocasse ainda mais para a direita: “Ela deve manter o caráter de partido operário com ideais socialistas. Porque no dia em que ela renunciar a isso, surgirá um novo partido, que adotará o programa rejeitado pelo velho partido anterior e lhe dará uma formulação ainda mais radical” (Preussische Jahrbucher, 1915, n.0 4, pp. 50-5 1).

Monitor acertou em cheio. Os liberais ingleses e os radicais franceses sempre quiseram precisamente isso: frases de ressonância revolucionária, para enganar as massas, para que estas tenham confiança em Lloyd George, Sembat, Renaudel, Legien e Kautsky, em homens capazes de pregar a “defesa da pátria” na guerra de rapina.

Mas Monitor representa apenas uma das variedades do oportunismo: aberta, grosseira, cínica. As outras atuam dissimuladamente, subtilmente, “honestamente”. Engels disse uma vez: os oportunistas “honestos” são os mais perigosos para a classe operária…(7) Eis um exemplo:

Kautsky escreve na Neue Zeit (de 26 de Novembro de 1915):

“Cresce a oposição contra a maioria; o espírito das massas é de oposição.” “Depois da guerra (só depois da guerra? N. L.) as contradições de classe agudizar-se-ão de tal modo que o radicalismo entre as massas se imporá.” “Depois da guerra (só depois da guerra? N. L.) arriscamo-nos a que os elementos radicais fujam do partido e refluam para um partido de ações de massas antiparlamentares (entenda-se: extraparlamentares).” “Assim, o nosso partido decompõe-se em dois campos extremos, que nada têm de comum entre si.” A fim de salvar a unidade, Kautsky procura convencer a maioria no Reichstag a autorizar a minoria a pronunciar alguns discursos parlamentares radicais. Isto significa que Kautsky quer, por meio de alguns discursos parlamentares radicais, reconciliar as massas revolucionárias com os oportunistas, que “nada têm de comum” com a revolução, que já há muito dirigem os sindicatos e que agora, apoiando-se na sua estreita aliança com a burguesia e com o governo, se apoderaram também da direção do partido.

Em que é que isto difere, no fundo, do “programa” de Monitor? Em nada a não ser nas frases melosas que prostituem o marxismo.

Na reunião da fração do Reichstag de 18 de Março de 1915, o kautskista Wurm “preveniu” a fração para não “esticar demasiado a corda; nas massas operárias cresce a oposição contra a maioria da fração; é necessário manter-se no centro marxista” (?! sem dúvida uma gralha: deve ler-se “monitoria”) (Klassenkampf gegen den Krieg! Material zum “Fali Liebknecht”. Ais Manuskript gedruckt(8), p. 67). Deste modo, vemos que o fato de que as massas são revolucionárias foi reconhecido em nome de todos os kautskistas (o chamado “centro”) já em Março de 1915!! E oito meses e meio mais tarde Kautsky de novo apresenta a proposta de “reconciliar” as massas, que querem lutar, com o partido oportunista, contra-revolucionário, e isto com a ajuda de algumas frases de sonoridade revolucionária!!

A guerra tem muitas vezes a utilidade de pôr a nu a podridão e rejeitar o convencionalismo.

Comparemos os fabianos ingleses com os kautskistas alemães. Eis o que escrevia acerca dos primeiros um verdadeiro marxista, Friedrich Engels, em 18 de Janeiro de 1893: “… um bando de ambiciosos que têm entendimento suficiente para verem a inevitabilidade do revolucionamento social, mas para quem é, no entanto, impossível confiar este trabalho gigantesco ao proletariado imaturo… medo da revolução é o seu princípio fundamental…” (Correspondência com Sorge, p. 390).

E em 11 de Novembro de 1893 escreve: ….. estes burgueses enfatuados que querem por benevolência condescender em libertar o proletariado de cima para baixo, desde que este queira ser tão inteligente para assim compreender que uma massa bruta inculta não pode libertar-se a si própria e não chega a nada a não ser pela benevolência desses advogados, literatos, atemorizados e destas comadres sentimentais…” (ibidem, p. 401).

Em teoria Kautsky olha os fabianos com desprezo, como o fariseu o pobre publicano. Porque ele jura pelo “marxismo”. Mas qual é na prática a diferença entre eles? Assinaram ambos o manifesto de Basileia e atuaram ambos em relação a ele como Guilherme II em relação à neutralidade belga. Enquanto Marx durante toda a sua vida fustigou as pessoas que procuram abafar o espírito revolucionário dos operários.

Kautsky opôs aos marxistas revolucionários a nova teoria do “ultra-imperialismo”. Por ultra-imperialismo ele entende a eliminação da “luta dos capitais financeiros nacionais entre si” e a sua substituição pela “exploração conjunta do mundo pelo capital financeiro internacional” (N. Z., 30 de Abril de 1915). Mas acrescenta: “ainda não dispomos das premissas suficientes para decidir se esta nova fase do capitalismo é realizável”. Assim, é com base apenas em suposições sobre uma “nova fase”, sem ousar declarar abertamente que ela é “realizável”, que o inventor dessa “fase” rejeita as suas próprias declarações revolucionárias, rejeita as tarefas revolucionárias e a tática revolucionária do proletariado agora, na “fase” da crise já iniciada, da guerra, de uma agudização maldita das contradições de classe! Não será isto o mais ignóbil fabianismo?

O líder dos kautskistas russos, Axelrod, vê “o centro de gravidade do problema da internacionalização do movimento libertador do proletariado na internacionalização da prática quotidiana”: por exemplo, “a legislação sobre a proteção do trabalho e a legislação do seguro social devem ser objeto de ações e da organização internacionais dos operários” (Axelrod, A Crise da Social-Democracia, Zurique, 1915, pp. 39-40). É perfeitamente claro que não só Legien, David, os Webb, mas também o próprio Lloyd George, Naumann, Briand e Miliukov aderirão inteiramente a esse “internacionalismo”. Tal como em 1912, Axelrod está disposto, em nome de um futuro muito, muito distante, a proferir as frases mais revolucionárias, se a futura Internacional “atuar (contra os governos, em caso de guerra) e levantar uma tempestade revolucionária”. Vejam lá como nós somos corajosos! Mas quando se trata de apoiar e desenvolver agora a efervescência revolucionária que começa entre as massas, então Axelrod responde que essa tática das ações revolucionárias de massas “ainda teria alguma justificação se estivéssemos imediatamente em vésperas de uma revolução social, como aconteceu, por exemplo, na Rússia, onde as manifestações estudantis de 1901 anunciavam a aproximação de batalhas decisivas contra o absolutismo”. Mas no presente momento tudo isso é uma “utopia”, “bakuninismo”, etc., inteiramente no espírito de Kolb, David, Sudekum e Legien.

O inefável Axelrod esquece simplesmente que em 1901 na Rússia ninguém sabia nem podia saber que a primeira “batalha decisiva” teria lugar quatro anos mais tarde - não esqueça: quatro anos mais tarde - e não seria “decisiva”. E no entanto só nós, marxistas revolucionários, tínhamos razão nessa altura: nós ridicularizámos os Kritchevski e os Martinov, que apelavam imediatamente ao assalto. Nós apenas aconselhávamos os operários a expulsarem por toda a parte os oportunistas e a apoiar, intensificar e alargar com todas as suas forças as manifestações e outras ações revolucionárias de massas. A situação atual na Europa é perfeitamente análoga: seria insensato apelar ao assalto “imediato”. Mas seria vergonhoso intitular-se social-democrata e não aconselhar os operários a romper com os oportunistas e consolidar, aprofundar, alargar e intensificar com todas as suas forças o movimento revolucionário e as manifestações que se iniciam. A revolução nunca cai do céu já pronta, e no início da efervescência revolucionária nunca ninguém sabe se esta conduzirá e quando a uma revolução “verdadeira”, “autêntica”. Kautsky e Axelrod dão aos operários conselhos velhos, gastos, contra-revolucionários. Kautsky e Axelrod alimentam as massas com a esperança de que a futura Internacional será já certamente revolucionária - trata-se apenas de presentemente proteger, encobrir e embelezar a dominação dos elementos contra-revolucionários: os Legien, os David, os Vandervelde, os Hyndman. Pois não é evidente que a “unidade” com Legien e C.a constitui o melhor meio de preparar a “futura” Internacional revolucionária?

“A aspiração de transformar a guerra mundial em guerra civil seria uma loucura”, declara o líder dos oportunistas alemães, David (Die Sozialdemokratie und der Weltkrieg - A Social-Democracia e a Guerra Mundial, 1915, p. 172), respondendo ao manifesto do Comitê Central do nosso partido de 1 de Novembro de 1914 (9). Nesse manifesto diz-se, entre outras coisas:

“Por maiores que pareçam as dificuldades dessa transformação num ou noutro momento, os socialistas nunca renunciarão a um trabalho preparatório sistemático, perseverante, constante nesse sentido, desde que a guerra se tornou um fato.”

(Também citado por David, p. 171.) Um mês antes da publicação do livro de David o nosso partido publicou resoluções nas quais a “preparação sistemática” era explicada do seguinte modo:

1. Recusa dos créditos. 2. Ruptura da paz civil. 3. Criação de organizações ilegais. 4. Apoio às manifestações de solidariedade nas trincheiras. 5. Apoio a todas as ações revolucionárias de massas. David é quase tão corajoso como Axelrod: em 1912 não considerava “loucura”, em caso de guerra, a referência à Comuna de Paris.

Plekhánov, representante típico dos sociais-chauvinistas da Entente, raciocina sobre a tática revolucionária do mesmo modo que David. Chama-lhe “alucinofarsa”. Mas ouçamos Kolb, oportunista confesso, que escreveu: “O resultado da tática das pessoas que rodeiam Liebknecht seria uma luta levada até ao ponto de ebulição no seio da nação alemã” (Die Sozialdemokratie am Scheidewege -A Social-Democracia na Encruzilhada, p. 50).

Mas o que é uma luta levada até ao ponto de ebulição, senão uma guerra civil?

Se a tática do nosso CC, que nos seus traços fundamentais coincide com a tática da esquerda de Zimmerwald, fosse uma “loucura”, “um sonho”, “uma aventura”, “bakuninismo” - como afirmaram David, Plekhánov, Axelrod, Kautsky, etc. -, ela nunca poderia conduzir à “luta no seio da nação”, e muito menos ser levada até ao ponto de ebulição. As frases anarquistas em parte nenhuma do mundo conduziram à luta no seio de uma nação. Em contrapartida, os fatos mostram que precisamente em 1915, em conseqüência da crise suscitada pela guerra, cresce a efervescência revolucionária entre as massas, crescem as greves e as manifestações políticas na Rússia, as greves na Itália e na Inglaterra, as marchas da fome e as manifestações políticas na Alemanha. Não será isto o início das ações revolucionárias de massas?

Apoio, desenvolvimento, alargamento, intensificação das ações revolucionárias de massas, criação de organizações ilegais, sem as quais mesmo nos países “livres” não é possível dizer a verdade às massas populares: eis todo o programa prático da social-democracia nesta guerra. Tudo o resto é mentira ou fraseologia, sejam quais forem as teorias oportunistas ou pacifistas com que se enfeite (10).

Quando nos dizem que essa “tática russa” (expressão de David) não convém à Europa, nós respondemos habitualmente indicando fatos. Em 30 de Outubro, em Berlim, apresentou-se na direção do partido uma delegação de camaradas, mulheres de Berlim, e declarou “que agora, com a existência de um grande aparelho organizativo, é possível, muito mais facilmente que no tempo da lei contra os socialistas, difundir brochuras e panfletos ilegais e realizar “reuniões não autorizadas”". “Não nos faltam meios nem vias, mas, visivelmente, falta a vontade” (Berner Tagwacht, 1915, n.0 271).

Será que estas más camaradas foram desviadas do bom caminho pelos “sectários” russos, etc.? Será que as verdadeiras massas são representadas não por estas camaradas mas por Legien e Kautsky? Por Legien, que no seu relatório de 27 de Janeiro de 1915 fulminava a idéia “anarquista” de criação de organizações ilegais; por Kautsky, que se tornou a tal ponto contra-revolucionário que em 26 de Novembro, quatro dias antes da manifestação em Berlim de dez mil pessoas, qualificou as manifestações de rua como uma “aventura”!!

Basta de frases, basta de “marxismo” prostituído à la Kautsky! Depois de 25 anos de existência da II Internacional, depois do manifesto de Basileia, os operários não acreditarão mais em frases. O oportunismo mais do que amadureceu, passou definitivamente para o campo da burguesia, transformando-se em social-chauvinismo: ele rompeu espiritual e politicamente com a social-democracia. Romperá com ela também organizativamente. Os operários reclamam já uma imprensa “sem censura” e reuniões “não autorizadas”, isto é, organizações clandestinas para apoiar o movimento revolucionário das massas. Só uma tal “guerra à guerra” é uma causa social-democrata e não uma frase. E a despeito de todas as dificuldades, das derrotas temporárias, dos erros, dos enganos, das, essa causa levará a humanidade à revolução proletária vitoriosa.

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Notas:

(1)Não se trata aqui da personalidade dos partidários de Kautsky na Alemanha, mas desse tipo internacional de falsos marxistas que oscilam entre o oportunismo e o radicalismo mas na realidade servem apenas de folha de parra ao oportunismo.

Ministerialismo: o mesmo que millerandismo, tática oportunista de participação dos socialistas em governos burgueses reacionários. O termo surgiu em relação com a participação em 1899 do socialista francês Millerand no governo burguês de Waldeck-Rousseau. (regressar ao texto)

(2) A questão do millerandismo foi discutida em 1900 no congresso de Paris da II Internacional. O congresso aprovou uma resolução conciliatória proposta por K. Kautsky, a qual condenava a participação dos socialistas no governo burguês , mas admitia a possibilidade dessa participação em casos “excepcionais”. Os socialistas franceses utilizaram esta ressalva para justificar a sua participação no governo da burguesia imperialista no período da Primeira Guerra Mundial. (regressar ao texto)

(3) A Crise da Social-Democracia. (regressar ao texto)

(4) Bernsteinianismo: corrente oportunista na social-democracia internacional surgida no fim do século XIX na Alemanha e designada segundo o nome de E. Bernstein, o mais aberto representante do revisionismo. Bernstein pronunciava-se contra a doutrina da revolução socialista e a ditadura do proletariado, declarando como única tarefa do movimento operário a luta por reformas, pela melhoria da situação econômica dos operário no quadro da sociedade capitalista.

Nos congressos do Partido Social Democrata Alemão K. Kautsky criticou o bernsteinianismo, mas não colocou decididamente a questão da incompatibilidade da revisão do marxismo com a permanência de fileiras nas fileiras da social-democracia. (regressar ao texto)

(5) Socialistas “amplos”: na Bulgária o mesmo que “Obschedeltsi” . Corrente oportunista do Partido Social-democrata Búlgaro, que desde 1900 editou a revista Obscho Delo. Depois da cisão do X Congresso (1903) do Partido Social-Democrata, os “obschedelsi” formaram o Partido Social-Democrata Búlgaro, reformista. Durante a Primeira Guerra Mundial os “obschedeltsi” tiveram uma posição chauvinista. (regressar ao texto)

(6) O destino conduz aquele que consente, arrasta aquele que resiste. (regressar ao texto)

(7) F. Engels, Para a Crítica do Projeto de Programa Social-Democrata de 1891. (regressar ao texto)

(8) Luta de Classe contra a Guerra! Materiais para o “Caso Liebknecht”. Publicado como Manuscrito. (regressar ao texto)

(9) Em 1º de Novembro d 1914 foi publicado no jornal Sotsial-Demokrat o manifesto do CC do POSDR A Guerra e a Social-Democracia Russa, escrito Lenin. O manifesto definiu o caráter da Primeira Guerra Mundial como guerra imperialista e elaborou a tática dos bolcheviques: transformação da guerra imperialista em guerra civil. O manifesto condenou o social-chauvinismo dos dirigentes da II Internacional. (regressar ao texto)

(10) No congresso internacional de mulheres em Berna, em Março de 1915, as representantes do CC do nosso partido indicaram a necessidade absoluta de criar organizações ilegais. Isto foi rejeitado. As inglesas riram-se dessas propostas e enalteceram a “liberdade” inglesa. Mas alguns meses mais tarde foram recebidos jornais ingleses, como por exemplo o Labour Leader *, com espaços em branco, e posteriormente chegaram notícias de buscas policiais, de confiscação de brochuras, prisões e sentenças draconianas contra camaradas que na Inglaterra falavam da paz e só da paz!

*The Labour Leader (O Dirigente Operário): jornal semanal inglês, publica-se desde 1891. A partir de 1893 foi órgão do Partido Trabalhista Independente da Inglaterra. Desde 1946 publica-se com o nome de Socialist Leader (Dirigente Socialista). (regressar ao texto)

Arquivo Marxista

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Mesa farta para todos

João Ubaldo Ribeiro

Leio no Guinness que o francês Michel Lotito, nascido em 1950, come metal e vidro desde os 9 anos de idade. Um quilo por dia, quando está disposto. Informa-se ainda que, de 1966 para cá, ele já comeu dez bicicletas, um carrinho de supermercado, sete aparelhos de televisão, seis candelabros e um avião Cessna leve — este ingerido em Caracas, embora o livro não revele por quê. Sim, e comeu um caixão de defunto, com alça e tudo, a fim de garantir um lugar na História como o primeiro homem a ter um caixão de defunto por dentro, e não por fora.

Se é chute, não sei, mas não deve ser, levando em conta o rigor do Guinness. E esse tipo de coisa é menos raro do que se pensa. Nunca participei de comilanças de cacos de telha ou de torrões de barro, mas muitos amigos meus, na infância; às vezes traçavam até um tijolinho. E um outro amigo, poeta etíope que conheci nos Estados Unidos, me contou que, na tribo dele, os Galinas, todas as famílias tinham pelo menos um maluco, de quem se orgulhavam muitíssimo, porque maluco é visto como uma pessoa superior. Na sua própria família, havia diversos, embora um primo fosse favorito, pelo seu alto nível.

— Qual é a maluquice dele?

— Ah, ele come qualquer coisa. Você bota um troço na frente dele, ele pergunta se é para comer, você diz que é e ele come. Ele come comida normal também, mas se, depois de ele esvaziar o prato, você diz que pode comer o prato, ele come o prato. Come pneu, chifre, couro, madeira, qualquer coisa, nunca decepcionou.

Um certo Dr. Buckland, inglês do século XIX, ficou, digamos, famoso por sua determinação em comer amostras de todo o reino animal. Morava perto do zoológico de Londres e, quando um animal adoecia, entrava em prontidão. Se o bicho morria, ele comia e dizem que, certa feita, durante uma ausência dele, um leopardo morreu e ele, ao regressar,. não vacilou: desenterrou o leopardo e comeu um filezinho. Afirmava que o pior sabor era o da toupeira, mas depois mudou de idéia, porque achou a mosca-varejeira pior.

Em algum lugar do mundo ou outro (geralmente a China não há quem tenha ido à China e não traga uma história culinária provocante), são itens do passadio, ou finas iguarias, lagartas, larvas, sangue fresco, banha derretida, gafanhotos, ovos de cobra com cobrinhas dentro, caça em decomposição, fígado de foca cru, baba de andorinha, ovo podre e assim por diante. Para não falar nos esforços de cientistas mais ou menos renomados, que se bateram seriamente contra os tabus alimentares. Mero preconceito, manter excelentes fontes de proteína escandalosamente ignoradas, a exemplo de ratos, baratas e gente morta de causas não contagiosas, como propôs outro inglês, cujo nome agora esqueci. Na Bahia, não faz muito tempo, apareceu um japonês com amostras de vinho de — como direi? —, é isso mesmo, vinho de cocô. Segundo ele, era coisa da melhor qualidade, da mesma forma que bife de cocô, cuja tecnologia ele já dominava. Depois de higienizado e processado, o bife, garantia ele, era mais nutritivo e gostoso do que muita picanha aí. Besteira desperdiçar tanta comida boa por causa de uma ojeriza sem fundamento científico.

Por aí vocês vêem as dificuldades que o povo causa. Se fôssemos um povo de mente mais aberta, não existiria o problema da fome, que tantos embaraços traz aos nossos governantes em conferências internacionais. Temos ratos, baratas, piolhos, capim (outro japonês sugeriu capim, que também dá um bife de truz), temos tudo em abundância, notadamente a matéria-prima daquele vinho. Meu único receio é que, se der certo. tabelem o rato, a barata e o capim, cobrem IPI e ICM de todo mundo que for ao banheiro e regulamentem a captura de moscas com fins alimentícios. Mas vamos ter fé nos homens. Talvez eles livrem a cara do pequeno produtor, o que já é um grande passo e mostra sensibilidade para com os problemas da maioria do bravo povo brasileiro. Agora, sem boa vontade para colaborar e aceitar alguns pequenos sacrifícios, não se resolve nada.

Texto publicado na revista “Veja – Paulista”, Editora Abril, São Paulo, edição do dia 21/10/1992, encontrado nos “Arquivos Implacáveis” do amigo João Antônio Bührer, do blog “Grafolalia”.

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A Guerra e a Social-Democracia da Rússia

V. I. Lenin

28 de Setembro de 1914

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Escrito: em Setembro de 1914, antes do dia 28 (11 de Outubro).
Primeira edição: Sotsial-Demokrat n.° 33, 1 de Novembro de 1914.
Fonte: Obras Escolhidas em Três Tomos, 1977, Edições Avante! - Lisboa, Edições Progresso - Moscovo

Tradução: Edições “Avante!” com base nas Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t. 26, pp. 13-23.
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A guerra europeia, que foi preparada no decurso de decénios pelos governos e pelos partidos burgueses de todos os países, rebentou. O aumento dos armamentos, a extrema agudização da luta pelos mercados na época do estádio actual, imperialista, de desenvolvimento do capitalismo nos países avançados e os interesses dinásticos das monarquias mais atrasadas, as da Europa Oriental, deviam conduzir inevitavelmente, e conduziram, a esta guerra. Conquistar terras e subjugar nações estrangeiras, arruinar a nação concorrente, saquear as suas riquezas, desviar a atenção das massas trabalhadoras das crises políticas internas da Rússia, Alemanha, Inglaterra e de outros países, a desunião e o entontecimento nacionalista dos operários e o extermínio da sua vanguarda com o objectivo de debilitar o movimento revolucionário do proletariado — tal é o único real conteúdo, significado e sentido da actual guerra.

Sobre a social-democracia recai antes de mais nada o dever de revelar este verdadeiro significado da guerra e desmascarar implacavelmente a mentira, os sofismas e as frases «patrióticas» difundidas pelas classes dominantes, pelos latifundiários e pela burguesia em defesa da guerra.

À cabeça de um grupo de nações beligerantes está a burguesia alemã. Ela engana a classe operária e as massas trabalhadoras, assegurando que faz a guerra para defender a pátria, a liberdade e a cultura, para libertar os povos oprimidos pelo tsarismo, para destruir o tsarismo reaccionário. Mas de facto é precisamente esta burguesia, que rasteja diante dos junkers prussianos com Guilherme II à sua frente, que sempre foi a aliada mais fiel do tsarismo e inimiga do movimento revolucionário dos operários e dos camponeses da Rússia. De facto esta burguesia, juntamente com os junkers, dirigirá todos os seus esforços para, qualquer que seja o resultado da guerra, apoiar a monarquia tsarista contra a revolução na Rússia.

De facto a burguesia alemã empreendeu uma campanha de rapina contra a Sérvia, querendo subjugá-la e estrangular a revolução nacional dos eslavos do Sul, dirigindo ao mesmo tempo o grosso das suas forças militares contra países mais livres, a Bélgica e a França, a fim de saquear um concorrente mais rico. Difundindo a fábula de uma guerra defensiva da sua parte, a burguesia alemã escolheu de facto o momento mais favorável, do seu ponto de vista, para a guerra, aproveitando os seus últimos aperfeiçoamentos na técnica militar e adiantando-se aos novos armamentos, já planeados e decididos pela Rússia e pela França.

A cabeça do outro grupo de nações beligerantes encontra-se a burguesia inglesa e francesa, que engana a classe operária e as massas trabalhadoras, assegurando que faz a guerra pela pátria, pela liberdade e cultura, contra o militarismo e o despotismo da Alemanha. Mas de facto esta burguesia há muito já que alugou e preparou, com os seus milhares de milhões, as tropas do tsarismo russo, a monarquia mais reaccionária e bárbara da Europa, para atacar a Alemanha.

De facto o objectivo da luta da burguesia inglesa e francesa é conquistar as colónias alemãs e arruinar a nação concorrente, que se distingue por um desenvolvimento económico mais rápido. E para este nobre fim as nações «avançadas», «democráticas», ajudam o selvagem tsarismo a sufocar ainda mais a Polónia, a Ucrânia, etc, a esmagar ainda mais fortemente a revolução na Rússia.

Ambos os grupos de países beligerantes nada ficam a dever um ao outro no que respeita às pilhagens, às atrocidades e à interminável crueldade da guerra. Mas para enganar o proletariado e desviar a sua atenção da única guerra verdadeiramente libertadora, isto é, da guerra civil contra a burguesia tanto do «seu» país como dos países «alheios», para atingir este elevado fim a burguesia de cada país procura exaltar com frases falsas sobre patriotismo o significado da «sua» guerra nacional e assegurar que aspira a vencer o inimigo nao para a pilhagem e a conquista de terras, mas para «libertar» todos os outros povos salvo o seu.

Mas quanto mais zelosamente os governos e a burguesia de todos os países procuram desunir os operários e lançá-los uns contra os outros, quanto mais ferozmente é empregado para este elevado fim o sistema do estado de guerra e da censura militar (que persegue muito mais, mesmo agora, durante a guerra, o inimigo «interno» do que o externo), tanto mais imperioso é o dever do proletariado consciente de defender a sua coesão de classe, o seu internacionalismo, as suas convicções socialistas, contra o chauvinismo desenfreado da clique «patriótica» burguesa de todos os países. Renunciar a esta tarefa por parte dos operários conscientes significará renunciar a todas as suas aspirações libertadoras e democráticas, sem falar já das socialistas.

É preciso constatar com um sentimento da mais profunda amargura que os partidos socialistas dos principais países europeus não cumpriram esta sua tarefa, e a conduta dos dirigentes destes partidos — particularmente do alemão — confina com a traição directa à causa do socialismo. Num momento da maior importância histórica mundial, a maioria dos dirigentes da actual, da segunda (1889-1914) Internacional Socialista tenta substituir o socialismo pelo nacionalismo. Devido à sua conduta, os partidos operários destes países não se opuseram à conduta criminosa dos governos, mas chamaram a classe operária a fundir a sua posição com a posição dos governos imperialistas. Os dirigentes da Internacional cometeram uma traição em relação ao socialismo, votando a favor dos créditos de guerra, repetindo as palavras de ordem chauvinistas («patrióticas») da burguesia dos «seus» países, justificando e defendendo a guerra, entrando nos ministérios burgueses dos países beligerantes, etc, etc. Os dirigentes socialistas mais influentes e os órgãos da imprensa socialista mais influentes da Europa contemporânea adoptam um ponto de vista burguês-chauvinista e liberal, de forma alguma socialista. A responsabilidade por esta desonra do socialismo recai em primeiro lugar sobre os sociais-democratas alemães, que eram o partido mais forte e influente da II Internacional. Mas também não se pode justificar os socialistas franceses, que aceitam cargos ministeriais no governo daquela mesma burguesia que traiu a sua pátria e se aliou a Bismarck para esmagar a Comuna.

Os sociais-democratas alemães e austríacos tentam justificar o seu apoio à guerra pretendendo que assim lutam contra o tsarismo russo. Nós, sociais-democratas russos, declaramos que consideramos tal justificação um puro sofisma. O movimento revolucionário contra o tsarismo adquiriu novamente no nosso país nos últimos anos enormes proporções. À frente deste movimento sempre marchou a classe operária da Rússia. As greves políticas de milhões de trabalhadores, nos últimos anos, realizaram-se sob a palavra de ordem do derrubamento do tsarismo e da reivindicação de uma república democrática. Na própria véspera da guerra, o presidente da República francesa, Poincaré, durante a sua visita a Nicolau II, pôde ver com os seus olhos barricadas nas ruas de Petersburgo, erguidas pelas mãos dos operários russos. O proletariado da Rússia não recuou diante de nenhum sacrifício para libertar toda a humanidade da vergonha da monarquia tsarista. Mas devemos dizer que se alguma coisa pode, em determinadas condições, adiar a queda do tsarismo, se alguma coisa pode ajudar o tsarismo na luta contra toda a democracia da Rússia, é precisamente a actual guerra, que colocou ao serviço dos objectivos reaccionários do tsarismo o saco de dinheiro da burguesia inglesa, francesa e russa. E se alguma coisa pode dificultar a luta revolucionária da classe operária da Rússia contra o tsarismo é precisamente a conduta dos dirigentes da social-democracia alemã e austríaca, que não deixa de nos ser apresentada como exemplo pela imprensa chauvinista da Rússia.

Mesmo que admitamos que a falta de forças da social-democracia alemã era tão grande que podia obrigá-la a renunciar a quaisquer acções revolucionárias, mesmo nesse caso não devia juntar-se ao campo chauvinista, não devia dar passos a propósito dos quais os socialistas italianos declaram com razão que os dirigentes dos sociais-democratas alemães desonram a bandeira da Internacional proletária.

O nosso partido, o Partido Operário Social-Democrata da Rússia, já sofreu e sofrerá ainda enormes perdas ocasionadas pela guerra. Toda a nossa imprensa operária legal foi liquidada. A maioria dos sindicatos foram encerrados, numerosos camaradas nossos foram presos e deportados. Mas a nossa representação parlamentar — a Fracção Operária Social-Democrata da Rússia na Duma de Estado — considerou ser seu dever socialista incondicional não votar os créditos de guerra e mesmo abandonar a sala de sessões da Duma para expressar ainda mais energicamente o seu protesto, considerou um dever estigmatizar a política dos governos europeus como imperialista[N343]. E, apesar da opressão decuplicada do governo tsarista, os operários sociais-democratas da Rússia já editam os primeiros apelos clandestinos contra a guerra[N344], cumprindo o seu dever para com a democracia e a Internacional.

Se os representantes da social-democrada revolucionária, personificada na minoria dos sociais-democratas alemães e nos melhores socíais-democratas nos países neutrais, experimentam o pungente sentimento de vergonha por motivo desta bancarrota da II Internacional; se as vozes dos socialistas contra o chauvinismo da maioria dos partidos sociais-democratas ressoam tanto na Inglaterra como na França; se os oportunistas personificados, por exemplo, pelos Cadernos Mensais Socialistas (Sozialistische Monatshefte), que há muito ocupam uma posição nacional-liberal, celebram com plena razão a sua vitória sobre o socialismo europeu — prestam o pior serviço ao proletariado aqueles que vacilam entre o oportunismo e a social-democracia revolucionária (como o «centro» no partido social-democrata alemão), que procuram silenciar ou ocultar com frases diplomáticas a bancarrota da II Internacional.

Pelo contrário, deve-se reconhecer abertamente esta bancarrota e compreender as suas causas, para poder edificar uma nova e mais sólida coesão socialista dos operários de todos os países.

Os oportunistas fizeram fracassar as decisões dos congressos de Stuttgart, de Copenhaga e de Basileia[N345], que obrigavam os socialistas de todos os países a lutar contra o chauvinismo em todas e quaisquer condições, que obrigavam os socialistas a responder a qualquer guerra desencadeada pela burguesia e pelos governos com a redobrada propaganda da guerra civil e da revolução social. A bancarrota da II Internacional é a bancarrota do oportunismo, que se desenvolveu sobre a base das particularidades de uma época histórica passada (a chamada época «pacífica») e que nos últimos anos passou a dominar de facto na Internacional. Os oportunistas há muito que preparavam esta bancarrota, negando a revolução socialista e substituindo-a pelo reformismo burguês; negando a luta de classes e a sua necessária transformação, em determinados momentos, em guerra civil e defendendo a colaboração de classes; pregando o chauvinismo burguês sob o nome de patriotismo e de defesa da pátria e ignorando ou negando a verdade fundamental do socialismo, já exposta no Manifesto Comunista, de que os operários não têm pátria; limitando-se na luta contra o militarismo ao ponto de vista sentimental-filisteu, em vez de reconhecer a necessidade da guerra revolucionária dos proletários de todos os países contra a burguesia de todos os países; transformando a necessária utilização do parlamentarismo burguês e da legalidade burguesa numa feiticização desta legalidade e no esquecimento da obrigatoriedade das formas clandestinas de organização e de agitação nas épocas de crise. O «complemento» natural do oportunismo, a corrente anarco-sindicalista — concepção igualmente burguesa e hostil ao ponto de vista proletário, isto é, marxista — caracterizou-se não menos ignominiosamente por uma repetição fátua das palavras de ordem do chauvinismo durante a presente crise.

Não é actualmente possível cumprir as tarefas do socialismo, não é possível realizar a verdadeira coesão internacional dos operários, sem romper decididamente com o oportunismo e explicar às massas a inevitabilidade do seu fiasco.

A tarefa da social-democracia de cada país deve consistir, em primeiro lugar, na luta contra o chauvinismo desse país. Na Rússia este chauvinismo abrangeu inteiramente o liberalismo burguês (os «democratas-constitucionalistas») e parte dos populistas, indo até aos socialistas-revolucíonários e aos sociais-democratas «de direita». (Em particular, é obrigatório estigmatizar as intervenções chauvinistas, por exemplo, de E. Smirnov, P. Máslov, G. Plekhánov, retomadas e utilizadas largamente pela imprensa «patriótica» burguesa.)

Na actual situação não se pode determinar, do ponto de vista do proletariado internacional, a derrota de qual dos dois grupos de nações beligerantes seria o mal menor para o socialismo. Mas para nós, sociais-democratas russos, não pode haver dúvida alguma de que, do ponto de vista da classe operária e das massas trabalhadoras de todos os povos da Rússia, o mal menor seria a derrota da monarquia tsarista, o governo mais reaccionário e bárbaro, que oprime o maior número de nações e a maior massa de população da Europa e da Ásia.

A palavra de ordem política imediata da social-democracia da Europa deve ser a formação dos Estados Unidos da Europa republicanos, sendo que, diferentemente da burguesia, que está pronta a «prometer» tudo o que se queira, só para atrair o proletariado à torrente geral do chauvinismo, os sociais-democratas irão explicar toda a falsidade e falta de sentido desta palavra de ordem se não forem derrubadas pela revolução as monarquias alemã, austríaca e russa.

Na Rússia, dado o maior atraso deste país, que não terminou ainda a sua revolução burguesa, as tarefas da social-democracia devem ser, tal como antes, as três condições fundamentais de uma transformação democrática consequente: república democrática (com a plena igualdade de direitos e a autodeterminação de todas as nações), a confiscação das terras dos latifundiários e a jornada de 8 horas de trabalho. Mas em todos os países avançados a guerra coloca na ordem do dia a palavra de ordem de revolução socialista, que se torna tanto mais urgente quanto mais o fardo da guerra recair sobre os ombros do proletariado, quanto mais activo deva ser o seu papel na reconstrução da Europa, após os horrores da actual barbárie «patriótica» nas condições dos gigantescos progressos técnicos do grande capitalismo. A utilização pela burguesia das leis do tempo de guerra para amordaçar por completo o proletariado coloca diante dele a tarefa imperiosa da criação de formas clandestinas de agitação e de organização. Que os oportunistas «guardem» as organizações legais ao preço da traição às suas convicções — os sociais-democratas revolucionários utilizarão a experiência e os laços organizativos da classe operária para a criação de formas clandestinas, correspondentes à época de crise, de luta pelo socialismo e a união dos operários não com a burguesia chauvinista do seu país, mas com os operários de todos os países. A Internacional proletária não pereceu e não perecerá. Apesar de todos os obstáculos as massas operárias criarão uma nova Internacional. O actual triunfo do oportunismo é efémero. Quanto mais vítimas da guerra houver, tanto mais clara será para as massas operárias a traição à causa operária por parte dos oportunistas e a necessidade de voltar as armas contra os governos e a burguesia de cada país.

A transformação da actual guerra imperialista em guerra civil é a única palavra de ordem proletária justa, indicada pela experiência da Comuna, apontada pela resolução de Basileia (1912) e decorrente de todas as condições da guerra imperialista entre os países burgueses altamente desenvolvidos. Por muito grandes que pareçam ser as dificuldades de tal transformação neste ou naquele momento, os socialistas nunca renunciarão ao trabalho preparatório sistemático, persistente, contínuo nesta direcção, já que a guerra se tornou um facto.

Só nesta via o proletariado poderá escapar à sua dependência da burguesia chauvinista e, de uma ou de outra forma, mais ou menos rapidamente, dar passos decisivos na via da verdadeira liberdade dos povos e na via para o socialismo.

Viva a fraternidade internacional dos operários contra o chauvinismo e o patriotismo da burguesia de todos os países!

Viva a Internacional proletária, libertada do oportunismo!

O Comité Central do Partido Operário Social-Democrata da Rússia

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A silhueta

João Saldanha

Toda cidade que se preza tem uma esquina, uma praça, um largo onde se reúnem turmas. Em Porto Alegre o largo do Medeiros, onde desde a revolução entre chimangos e maragatos está o Beregaray, que veio de Uruguaiana para Porto Alegre. É o “prefeito” do largo, onde atende seu expediente. Sempre de chapéu gelot, mas nem sempre de gravata sobre a camisa listrada. Às vezes de sobretudo. Comanda o papo com certa soberba. Deve ser muito amplo aquele papo do largo do Medeiros, pois resistiu a vários governos e a algumas ditaduras gaúchas e federais. Em Florianópolis lá estão os barrigas-verdes, fazendo onda. Aquela com o Figueiredo nasceu ali. Até ovos apareceram não se sabe como. Em Curitiba é a famosa Boca Maldita. Importante organização, muito peculiar. E presidida por uma carismática figura da Lapa, o Anfrísio Siqueira. A Boca ficou célebre quando, só falando mal, derrubou o governo León Peres. Sua sede fica no largo Luís Xavier. Ali fizeram um obelisco de mármore cinzento. E falam mal de todo o Brasil e do mundo. Reúne gente de toda a estirpe: juízes togados e de futebol, médicos e cirurgiões consagrados. O Félix de Almeida já operou quase todos, mas nunca recebeu de nenhum. Esta importante organização de rua faz de escritório uma agência do Bamerindus, onde sem a menor cerimônia entram e saem para usar a mesa do gerente e o telefone local e interurbano. Quem quiser escrever para a Boca basta colocar o endereço: “Boca Maldita, agência Bamerindus da praça Luís Xavier, Curitiba, Paraná, Brasil.” Para teste mandei um cartão ao Anfrísio, de Tóquio, com este endereço, e batata: chegou lá.

No inverno eles vão para dentro do saguão de um hotel. Lá em Porto Alegre a turma do largo do Medeiros também entra para um local daqueles. Em São Paulo o pessoal é mais civilizado. Ou mais rico. Sentam num bar e fazem despesa. Turma de esquina era a dos cariocas, que se reunia na esquina da São João com Ypiranga. Parece que a barra pesou ali: um assalto em cima do outro, e saíram.

No Rio vários e vários pontos ficaram famosos. Mas nenhuma esquina seguiu a fama da esquina da rua Miguel Lemos com avenida Copacabana. O prefeito no começo era o Cristiano Lacorte, já falecido. Cristiano, paraplégico, usava cadeira de rodas mas comparecia a tudo. Futebol, turfe, samba, comícios, tudo. A turma resolveu e Cristiano foi um dos vereadores mais votados do Rio de Janeiro. Depois, aquela esquina elegeu o Paulo Alberto, o Artur da Távola, e o Edson Khair. Nestas últimas eleições, Macaé, o atual “prefeito”, apoiou Brizola, depois Saturnino e a Alice Tamborindegui. Todos foram eleitos. Não que a esquina tenha sido decisiva, mas de qualquer forma demonstra sua profunda sabedoria e experiência política.

Uma série de fatos e ocorrências fizeram a esquina sempre mais famosa. Ali teve e tem de tudo. Andou sendo proibido o carnaval organizado nos bairros. Menos ali, onde começaram bailes infantis e depois com tablado, orquestra e tudo, bailes de marmanjos. O futebol é um dos grandes assuntos da esquina, mas nunca saiu briga séria por este lado. Uma democracia plena existe lá até hoje. Os mais consagrados craques do futebol, locutores esportivos e outros fazem ponto na esquina. E personalidades de “alto bordo”, como juízes, dirigentes de clubes e das principais entidades esportivas do pais. A esquina sempre esteve presente, ora por uns ora por outros, a todos os grandes fatos ou eventos nacionais e internacionais. E quando apareceu no Rio de Janeiro um programa de televisão chamado o “Céu é o limite” vários representantes da esquina foram lá ganhar prêmios grandes. Havia piadas, apelidos sérios, e mesmo quando, após a revolução de 64, mandaram espiões para evitar qualquer propagação de idéias, em pouco tempo os “espiões” estavam integrados ao espírito comunitário e democrático da esquina. Houve um importante delegado especializado em política que dizia, quando o papo esquentava: “Bem, tenho de ir andando porque minha velha está me esperando.” E caía fora. De fato não seria conveniente ficar ali. Denunciar quem? E depois ter de sair dali?

Um dia, a esquina inteira se mobilizou. Foi quando um edifício ali perto foi apelidado de “edifício Silhueta” . Já era mais de meia-noite quando chegou na roda um garoto, com os olhos maiores do que um pires e disse, gaguejando: “Ali naquele edifício tem um casal… eu acho. Estão lá dentro, mas se vê tudo da rua.” Era sábado e a roda estava imensa. Até dividida em duas ou três rodinhas de papo. Um fundador do Botafogo, um dirigente atuante do Fluminense, ex-jogadores do Flamengo, do Botafogo, e do Vasco, médicos, advogados, dentistas — dentistas então sempre estavam uns três ou quatro — estudantes de várias escolas, comerciários e comerciantes, todo mundo. Casa cheia. Todos correram na direção que o tal garoto indicara. A avenida Copacabana encheu. Veio o ônibus e teve de parar. Passar como? O chofer ia entrar na bronca, mas um dos organizadores da pequena multidão, que já estava se acotovelando, com gestos bem significativos, fez ver ao chofer do ôn1bus o que se passava. O chofer entendeu logo e ficou na paquera do lance. Algum passageiro estrilou, mas ele, sem tirar os olhos do lance, mostrou o que se passava. E o casal mandando brasa. A porta estava fechada. Mas a luz do saguão ou hall de entrada estava acesa. Bem acesa e forte. A porta era vidro fosco. Ora, a luz por trás do casal transmitia para a turma da rua a mais perfeita silhueta que se poderia desejar. E foi juntando gente. Um gaiato quis fazer onda, mas um tremendo e severo “psssssiu” lhe tapou a boca. Parecia uma tropa de comandos ou de assalto pretendendo pegar o inimigo desprevenido. Com o ônibus parado e mal parado, os carros iam parando e as indicações sempre diretas apontando para o evento e pedindo silêncio. Todos compreendiam logo e até casais que iam passando paravam para olhar a cena inédita. De repente, o casal lá de dentro parou rapidamente. A mulher, que estava sempre abaixada, meio de quatro, se arrumou depressa. A rua ficou no mais profundo silêncio. Um segurando o outro para ninguém invadir o lugar privilegiado de alguém que chegara primeiro. Mas não era nada de mais. O elevador fora acionado, o casal atuante teve de parar e de dentro do prédio saiu um cidadão. Uma vaia chegou a ser ensaiada, mas o “sinal” de silêncio foi mais forte. O cara saiu, ficou meio atônito de ver a rua tão cheia. E, ante os gestos e vozes surdas de “cai fora… cai fora…” , olhou para trás e entendeu tudo. Procurou se ajeitar ali pela frente, mais foi energicamente barrado. Arrumou um lugar mais atrás e toda aquela pressa da saída do edifício desapareceu. O casal lá dentro engrenou de novo. Do começo. Fizeram tudo e de repente terminou. Um “oh…oh!” se fez ouvir. O cara do casal se arrumou, ela também. Ele deu um beijinho e veio para a rua. Mal a porta se abriu, uma tremenda ovação. Bateram palmas e saudaram o cidadão. Ele, meio aturdido, tomou a rua e se mandou, sumindo na primeira esquina da rua Miguel Lemos em direção à rua Barata Ribeiro. Desapareceu na noite e o papo bem entusiasmado voltou para a esquina. O ônibus foi embora e os carros puderam passar.

João Saldanha era gaúcho e nasceu em 1917 na cidade de Alegrete. Jornalista combativo, treinador, apaixonado pelo futebol, conseguiu unir o Brasil — então politicamente dividido — em 1969, por ocasião das eliminatórias para aquela que seria a Copa do tricampeonato no México. De temperamento difícil, extremamente corajoso, fez muitos inimigos na vida. Mas todos admiravam aquele homem (ainda que muitas vezes não o perdoando pelas aventuras que dizia — e acreditava — ter vivido) que assistiu a todas as Copas do Mundo de futebol; que, como jornalista, cobriu a guerra da Coréia; que desembarcou na Normandia com Montgomery e que fez a grande marcha com Mao Tse-Tung. Faleceu no dia 12 de julho de 1990, durante a Copa do Mundo.O texto acima, extraído do livro “Futebol e Outras Histórias”, edição especial para a agência de publicidade MPM, São Paulo, 1988, pág. 139, é bem uma mostra de sua reconhecida capacidade de bem escrever e nos foi enviado pelo amigo Custódio, cartunista e autor do livro “Manual do Sexo Virtual”.

Releituras

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As Três Fontes e as Três partes Constitutivas do Marxismo

V. I. Lenin
Março de 1913

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Primeira Edição: Prosvechtchénie, nº 3, Março de 1913. Assinado: V. I.
Fonte: Obras Completas de V.I. Lénine, 5. ed. em russo, t. 23, pp. 40 - 48.
Transcrito por Fred Leite Siqueira Campos para The Marxists Internet Archive.
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A doutrina de Marx suscita em todo o mundo civilizado a maior hostilidade e o maior ódio de toda a ciência burguesa (tanto a oficial como a liberal), que vê no marxismo um a espécie de “seita perniciosa”. E não se pode esperar outra atitude, pois, numa sociedade baseada na luta de classes não pode haver ciência social “imparcial”. De uma forma ou de outra, toda a ciência oficial e liberal defende a escravidão assalariada, enquanto o marxismo declarou uma guerra implacável a essa escravidão. Esperar que a ciência fosse imparcial numa sociedade de escravidão assalariada seria uma ingenuidade tão pueril como esperar que os fabricantes sejam imparciais quanto à questão da conveniência de aumentar os salários dos operários diminuindo os lucros do capital.

Mas não é tudo. A história da filosofia e a história da ciência social ensinam com toda a clareza que no marxismo não há nada que se assemelhe ao “sectarismo”, no sentida de uma doutrina fechada em si mesma, petrificada, surgida à margem da estrada real do desenvolvimento da civilização mundial. Pelo contrário, o gênio de Marx reside precisamente em ter dado respostas às questões que o pensamento avançado da humanidade tinha já colocado. A sua doutrina surgiu como a continuação direta e imediata das doutrinas dos representantes mais eminentes da filosofia, da economia política e do socialismo.

A doutrina de Marx é onipotente porque é exata. É completa e harmoniosa, dando aos homens uma concepção, integral do mundo, inconciliável com toda a supertição, com toda a reação, com toda a defesa da opressão burguesa. O marxismo é o sucessor legítimo do que de melhor criou a humanidade no século XIX: a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês.

Vamos deter-nos brevemente nestas três fontes do marxismo, que são, ao mesmo tempo, as suas três partes constitutivas.

I
A filosofia do marxismo é o materialismo. Ao longo de toda a história moderna da Europa, e especialmente em fins do século XVIII, em França, onde se travou a batalha decisiva contra todas as velharias medievais, contra o feudalismo nas instituições e nas idéias, o materialismo mostrou ser a única filosofia conseqüente, fiel a todos os ensinamentos das ciências naturais, hostil à supertição, à beatice, etc. Por isso, os inimigos da democracia tentavam com todas as suas forças “refutar”, desacreditar e caluniar o materialismo e defendiam as diversas formas do idealismo filosófico, que se reduz sempre, de um modo ou de outro, à defesa ou ao apoio da religião.

Marx e Engels defenderam resolutamente o materialismo filosófico, e explicaram repetidas vezes quão profundamente errado era tudo quanto fosse desviar-se dele. Onde as suas opiniões aparecem expostas com maior clareza e pormenor é nas obras de Engels Ludwig Feuerbach e Anti-Dübring, as quais - da mesma forma que o Manifesto Comunista - são os livros de cabeceira de todo o operário consciente.

Marx não se limitou, porém, ao materialismo do século XVIII; pelo contrário, levou mais longe a filosofia. Enriqueceu-a com as aquisições da filosofia clássica alemã, sobretudo do sistema de Hegel, o qual conduzira por sua vez ao materialismo de Feuerbach. A principal dessas aquisições foi a dialética, isto é, a doutrina do desenvolvimento na sua forma mais completa, mais profunda e mais isenta de unilateralidade, a doutrina da relatividade do conhecimento humano, que nos dá um reflexo da matéria em constante desenvolvimento. As descobertas mais recentes das ciências naturais - o rádio, os elétrons, a transformação dos elementos - confirmaram de maneira admirável o materialismo dialético de Marx, a despeito das doutrinas dos filósofos burgueses, com os seus “novos” regressos ao velho e podre idealismo.

Aprofundando e desenvolvendo o materialismo filosófico, Marx levou-o até ao fim e estendeu-o do conhecimento da natureza até o conhecimento da sociedade humana. O materialismo histórico de Marx é uma conquisto formidável do pensamento científico. Ao caos e à arbitrariedade que até então imperavam nas concepções da história e da política, sucedeu uma teoria científica notavelmente integral e harmoniosa, que mostra como, em conseqüência do crescimento das forças produtivas, desenvolve-se de uma forma de vida social uma outra mais elevada, como, por exemplo, o capitalismo nasce do feudalismo.

Assim, como o conhecimento do homem reflete a natureza que existe independentemente dele, isto é, a matéria em desenvolvimento, também o conhecimento social do homem (ou seja: as diversas opiniões e doutrinas filosóficas, religiosas, políticas, etc.) reflete o regime econômico da sociedade. As instituições políticas são a superestrutura que se ergue sobre a base econômica. Assim, vemos, por exemplo, como as diversas formas políticas dos Estados europeus modernos servem para reforçar a dominação da burguesia sobre o proletariado.

A filosofia de Marx é o materialismo filosófico acabado, que deu à humanidade, à classe operaria sobretudo, poderosos instrumentos de conhecimento.

II
Depois de ter verificado que o regime econômico constitui a base sobre a qual se ergue a superestrutura política, Marx dedicou-se principalmente ao estudo deste regime econômico. A obra principal de Marx, O Capital, é dedicada ao estudo do regime econômico da sociedade moderna, isto é, da sociedade capitalista.

A economia política clássica anterior a Marx tinha-se formado na Inglaterra, o país capitalista mais desenvolvido. Adam Smith e David Ricardo lançaram nas suas investigações do regime econômico os fundamentos da teoria do valor-trabalho. Marx continuou sua obra. Fundamentou com toda precisão e desenvolveu de forma conseqüente aquela teoria. Mostrou que o valor de qualquer mercadoria é determinado pela quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário investido na sua produção.

Onde os economistas burgueses viam relações entre objetos (troca de umas mercadorias por outras), Marx descobriu relações entre pessoas. A troca de mercadorias exprime a ligação que se estabelece, por meio do mercado, entre os diferentes produtores. O dinheiro indica que esta ligação se torna cada vez mais estreita, unindo indissoluvelmente num todo a vida econômica dos diferentes produtores. O capital significa um maior desenvolvimento desta ligação: a força de trabalho do homem torna-se uma mercadoria. O operário assalariado vende a sua força de trabalho ao proprietário de terra, das fábricas, dos instrumentos de trabalho. O operário emprega uma parte do dia de trabalho para cobrir o custo do seu sustento e de sua família (salário); durante a outra parte do dia, trabalha gratuitamente, criando para o capitalista a mais-valia, fonte dos lucros, fonte da riqueza da classe capitalista.

A teoria da mais-valia constitui a pedra angular da teoria econômica de Marx.

O capital, criado pelo trabalho do operário, oprime o operário, arruína o pequeno patrão e cria um exercito de desempregados. Na indústria, é imediatamente visível o triunfo da grande produção; mas também na agricultura deparamos com o mesmo fenômeno: aumenta a superioridade da grande exploração agrícola capitalista, cresce o emprego de maquinaria, a propriedade camponesa cai nas garras do capital financeiro, declina e arruína-se sob o peso da técnica atrasada. Na agricultura, o declínio da pequena produção reveste-se de outras formas, mais esse declínio é um fato indiscutível.

Esmagando a pequena produção, o capital faz aumentar a produtividade do trabalho e cria uma situação de monopólio para os consórcios dos grandes capitalistas. A própria produção vai adquirindo cada vez mais um caráter social - centenas de milhares e milhões de operários são reunidos num organismo econômico coordenado - enquanto um punhado de capitalistas se apropria do produto do trabalho comum. Crescem a anarquia da produção, as crises, a corrida louca aos mercados, a escassez de meios de subsistência para as massas da população.

Ao fazer aumentar a dependência dos operários relativamente ao capital, o regime capitalista cria a grande força do trabalho unido.

Marx traçou o desenvolvimento do capitalismo desde os primeiros germes da economia mercantil, desde a troca simples, até às suas formas superiores, até à grande produção.

E de ano para ano a experiência de todos os países capitalistas, tanto os velhos como os novos, faz ver claramente a um numero cada vez maior de operários a justeza desta doutrina de Marx.

O capitalismo venceu no mundo inteiro, mas, esta vitória não é mais do que o prelúdio do triunfo do trabalho sobre o capital.

III
Quando o regime feudal foi derrubado e a “livre” sociedade capitalista viu a luz do dia, tornou-se imediatamente claro que essa liberdade representava um novo sistema de opressão e exploração dos trabalhadores. Como reflexo dessa opressão e como protesto contra ela, começaram imediatamente a surgir diversas doutrinas socialista. Mas, o socialismo primitivo era um socialismo utópico. Criticava a sociedade capitalista, condenava-a, amaldiçoava-a, sonhava com a sua destruição, fantasiava sobre um regime melhor, queria convencer os ricos da imoralidade da exploração.

Mas, o socialismo utópico não podia indicar uma saída real. Não sabia explicar a natureza da escravidão assalariada no capitalismo, nem descobrir as leis do seu desenvolvimento, nem encontrar a força social capaz de se tornar a criadora da nova sociedade.

Entretanto, as tempestuosas revoluções que acompanharam em toda a Europa, e especialmente em França, a queda do feudalismo, da servidão, mostravam cada vez com maior clareza que a luta de classes era a base e a força motriz de todo o desenvolvimento.

Nenhuma vitória da liberdade política sobre a classe feudal foi alcançada sem uma resistência desesperada. Nenhum país capitalista se formou sobre uma base mais ou menos livre, mais ou menos democrática, sem uma luta de morte entre as diversas classes da sociedade capitalista.

O gênio de Marx está em ter sido o primeiro a ter sabido deduzir daí a conclusão implícita na história universal e em tê-la aplicado conseqüentemente. Tal conclusão é a doutrina da luta de classes.

Os homens sempre foram em política vítimas ingênuas do engano dos outros e do próprio e continuarão a sê-lo enquanto não aprendem a descobrir por trás de todas as frases, declarações e promessas morais, religiosas, políticas e sociais, os interesses de uma ou de outra classe. Os partidários de reformas e melhoramentos ver-se-ão sempre enganados pelos defensores do velho, enquanto não compreenderem que toda a instituição velha, por mais bárbara e apodrecida que pareça, se mantém pela força de umas ou de outras classes dominantes. E para vencer a resistência dessas classes só há um meio: encontrar na própria sociedade que nos rodeia, educar e organizar para a luta, os elementos que possam - e, pela sua situação social, devam - formar a força capaz de varrer o velho e criar o novo.

Só o materialismo filosófico de Marx indicou ao proletariado a saída da escravidão espiritual em que vegetaram até hoje todas as classes oprimidas. Só a teoria econômica de Marx explicou a situação real do proletariado no conjunto do regime capitalista.

No mundo inteiro, da América ao Japão e da Suécia à África do Sul, multiplicam-se as organizações independentes do proletariado. Este se educa e instrui-se travando a sua luta de classe; liberta-se dos preconceitos da sociedade burguesa, adquire uma coesão cada vez maior, aprende a medir o alcance dos seus êxitos, temperam as suas forças e cresce irresistivelmente.

Arquivo Marxista

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Via Campesina faz protestos em sete estados em jornada

A Via Campesina e trabalhadores urbanos da Assembléia Popular seguem com protestos da jornada de lutas para denunciar os problemas causados pela atuação das grandes empresas no país, especialmente as estrangeiras, que são beneficiadas pelo modelo do agronegócio e pela política econômica neoliberal.

Nesta quinta-feira, 12, aconteceram protestos em Minas Gerais, Rio da Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso, Pernambuco e audiência em Brasília. Desde terça-feira, 10, aconteceram protestos em 16 estados.

Em Brasília, uma comissão de representantes dos movimentos da Via Campesina apresentou o documento “Programas Estruturantes De Curto Prazo”, com propostas para a agricultura brasileira superar a crise do preço dos alimentos

Em Minas Gerais, cerca de 1.500 trabalhadores e trabalhadoras da Via Campesina e Assembléia Popular ocuparam a ferrovia da Vale no município de Governador Valadares, ao lado da BR 381, para exigir que a mineradora abra negociação com as 500 famílias da comunidade Pedra Corrida, que será desalojada pela barragem de Baguari, construída pela empresa na divisa dos municípios de Valadares e Periquito. Os manifestantes respeitaram decisão da Justiça e saíram da estrada de ferro no final da tarde.

No Rio da Janeiro, cerca de 500 trabalhadores rurais da Via Campesina e de diversas organizações populares da Assembléia Popular realizaram um ato na frente da sede nacional da Vale, no final da tarde, no centro do Rio de Janeiro, para denunciar os impactos sociais negativos causados pela atuação da mineradora nos estados de Minas Gerais, Pará, Maranhão e Rio de Janeiro. Os manifestantes exigem que a empresa, que extrai recursos minerais que pertencem à União, de acordo com o artigo 176 da Constituição, garanta melhores condições de vida às comunidades onde atua e à sociedade brasileira.

No Paraná, cerca de 700 camponeses da Via Campesina, do Comitê em Defesa dos Pequenos Agricultores e entidades da agricultura familiar protestaram em frente a fábrica de fertilizantes Ultrafértil/Fosfértil, da transnacional Bunge, em Araucária, Região Metropolitana de Curitiba.

Os trabalhadores rurais cobram do governo federal a reestatização da empresa Ultrafértil/Fosfértil, privatizada há 15 anos, a quebra do controle das transnacionais sobre os alimentos e fertilizantes e uma política eficaz de financiamentos para os camponeses e a agricultura familiar.

Em Goiás, agricultores da Via Campesina, trabalhadores de bairros organizados em sindicatos e na Assembléia Popular fizeram protestos em três pontos no estado de Goiás. As mobilizações acontecem em Uruaçu, onde 800 manifestantes trancaram a BR-153, estrada que dá acesso ao estado de Tocantins. Em Catalão, 600 pessoas fecharam a BR 050, que liga Goiânia.

Em Goiânia, 150 manifestantes protestaram em frente à CELG (Companhia Energética de Goiás) contra o alto preço da luz, onde entregarão autodeclarações que garantem o cumprimento de determinação da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) sobre a Tarifa Social. A autodeclaração garante que quem consome até 220 kwh/mês de energia elétrica pode receber os descontos referentes a Tarifa Social Baixa Renda na conta de luz, sem precisar estar cadastrado em qualquer programa social do governo.

No Mato Grosso, cerca de 300 lavradores da Via Campesina realizaram um ato público no município de Diamantino, no encerramento de marcha de 80 Km, que partiu de Nova Marilândia no dia 5. Os agricultores fizeram debates com a população local, em escolas e nas rádios locais.

Os trabalhadores denunciam os graves problemas sociais e ambientais que o Grupo Camargo Corrêa causa na região. O grupo, que detém 52% das terras da região, é responsável pela obras do Complexo Rio Madeira.

No Rio Grande do Sul, cerca de 200 agricultores assentados e acampados marcharam rumo à Fazenda Tarumã, em Rosário do Sul, Fronteira Oeste gaúcha, para denunciar práticas ilegais da transnacional de celulose Stora Enso, que adquiriu milhares de hectares na área da Faixa de Fronteira, descumprindo a legislação.

A atividade também é em repúdio à violência sofrida pelos 1,2 mil manifestantes, do governo Yeda Crusius, que protestaram ontem em Porto Alegre e foram duramente reprimidos.

Em Vacaria, três mil autodeclarações de moradores dos bairros de Vacaria e Lagoa Vermelha estão sendo entregues à RGE ( Rio Grande Energia). A entrega dos documentos é feita por cerca de 300 integrantes do MAB, pastorais sociais, e associações de bairro.

Em Pernambuco, cerca de 500 trabalhadores rurais da Via Campesina e índios Xukuru trancaram a BR-232, na altura do município de Pesqueira, Agreste Meridional de Pernambuco, e outros 400 trabalhadores rurais bloquearam a BR-110, que liga os municípios de Inajá e Ibimirim, contra o avanço da monocultura da cana, projetos de irrigação para o agronegócio, em defesa da agricultura camponesa. Os manifestantes também protestam contra a transposição do Rio São Francisco.

Revista Fórum

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Zicartola

Recordações de uma Casa de Samba

João Antônio

Com licença. Vou me valer dos poetas, essa gente rara e bem topada.

A filosofia, neste século, já recomendou que a essência da arte é a poesia e a essência da poesia é a instauração da verdade.

E se Mário Quintana cantou:

“Da vez primeira que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha…
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha…”

também cantou Nélson Cavaquinho:

“Mas o sambista vive eternamente
No coração da gente”.

A roda reunida no segundo pavimento do velho casarão da Rua da Carioca boquejava boatos num à-vontade macio, enquanto rolavam cachaça e cerveja gelada nos intervalos dos números musicais. Falou-se, que me lembro, de um patriarca de Madureira, vida de murros e porradas, Natal da Portela. Que teria dito:

— Você não canta mais aqui. Você é feio demais, canta feio e espanta os turistas.

Claro que era uma suposta intimação de Natal da Portela ao sambista Joãozinho da Pecadora, autor de um partido-alto proibido pela censura que dizia:

“Foi mulher de deputado
Pouco antes de ser minha
De autores laureados
E de um oficial da Marinha”.

Natal surpreendia os distraídos e bisonhos, inda mais nas entrevistas. Numa delas, por aquele tempo, lhe perguntaram como é que se sentia como bicheiro. Contraventor do jogo do bicho. Ele bateu:

— O samba deve muito à minha profissão e se eu quisesse ser senador da República teria sido.

Esse lero assim aceso, sapecado de picardia, catimbado, corria nas noites do Zicartola, casa de samba da Rua da Carioca, chamado “Templo do Samba” nos cinco primeiros anos da década de sessenta.

Havia a mulata Vitória que, quando cantava, fazia a cozinha parar.

Havia Nilo Bom Cabelo trazendo Chico Alves e os barcos perdidos e os faróis da alegria (1).

Inda mais: havia Cartola. Era um alma boa, nascido e criado nas rodinhas, forjado no samba, pelo samba, na pureza, sem maiores embelecos. Pontificava havia já uns trinta anos. Tinha no espírito alguma coisa daquela renúncia rara da música pela música, coisa não aprendida em bancos escolares, e sem objetivos outros — viver na sua reserva de sonhos.

Compunha porque gostava. Isso era tudo. Como era da Manga compunha para a Mangueira. A escola saía à avenida, anos e anos, cantando ritmos de Cartola. Muita vez, o crioulo de nariz de couve-flor — a evidenciar um entornador de cachaça — foi premiado nos carnavais. Querido, cortejado, admirado no meio das escolas todas.

Bom, lá de dentro, lá no íntimo. Sensível, dolente, harmônico, humano, musical. Tinha uma linha melódica rica e própria, agradava em cheio. Diferente de um talento desnorteante como o de Nélson Cavaquinho, diferente do desvario e do ímpeto de Geraldo das Neves. São exemplos. Cartola sempre fez a sua coisa, independente e, assim, fazia a noite de qualquer um, com suas músicas contando seus casos, no rebolado da conversa jeitosa. Era nobre na sua singeleza. Vamos dizer. Suas peças teriam o fascínio deslizante e o desenho dos movimentos de um mestre-sala, quando em quando, em câmara lenta. E um papo e tanto, na batida calejada e nas implicações da malandragem.

Amou Zica, cabrocha lá da Estação Primeira, com ela vivendo já não se sabia mais há quanto tempo. Havia gente que falava, por baixo, baixo, que aquela união tinha uns vinte anos. Zica era cabrocha de molejo, jogo de cintura, cozinheira cutuba. Tempero de rainha. Porreta.

Quem comeu um feijão de Zica, no Morro de Mangueira, não esquecerá tão cedo. Havia nele o dom mágico de fazer riqueza da coisa pobre, havia nele mãos de propriedade, sabedoras.

Zica pinta na vida de Cartola não como primeira mulher. O mestre de Mangueira teve outros amores e, pelo menos, um grande (”Tive sim”). O samba “Divina dama” (que Zica detestava, enciumada) é anterior a ela.

Tudo isso é papo de candinha faladeira. Zica pintou no pedaço e Cartola amou Zica. Pronto. Aquele lero de João e Maria.

Bem. Resolveu o sambista Cartola aproveitar comercialmente os dotes seus e de Zica. Abriu uma casa de samba, de comes e bebes. Chamou-a Zicartola. A mulher providenciava os comes. Ele fazia escorregar os bebes, com sua conversa, seus casos, sua música, sua charla. Era bom, era gente, era muito morro. Tinha fricote, não; não tinha quiquiricagem. Ambiente pra lá de gostoso.

Cartola foi isso, no começo. E assim era o Zicartola.

A ambiência da casa de samba estava disposta na base de proporcionar autênticos contrastes fotogênicos. Aquelas paredes apenas poderiam abrigar cantores e poetas do povo. A iluminação não lembrava nada que parecesse boate. A excelência dos trabalhos de Heitor dos Prazeres — o traço preto sobre fundo branco e amarelo — fazia desfilar pelas paredes do Zicartola um bom bocado. Lindas pastoras, passistas esguios e safos, porta-estandartes rodopiantes. Uma carioquice dosada e bom em termos de samba, africanidade, carnaval.

Era o Zicartola ainda do sambista Jorge dos Cabritos que, além de bom, trazia consigo, dando de lambujem, alguns companheiros lá da Portela e da Mangueira.

Se Nélson Cavaquinho cantava, excelia. E Manuelzinho da Flauta serelepava no tablado. O regional atacando de “Trem das onze”, do admirável e universal Adoniran Barbosa, que o Rio de Janeiro soube prestigiar.

Mas baixou fariseu na jogada. Os “cronistas” da noite , os falsos escribas, descobriram o Zicartola. Então, os bem-comportados lambuzaram a casa de samba da Rua da Carioca. E acabou-se.

Não mais a onda gostosa do samba pelo samba, conversas maneiras e cabrochas aparecendo sem compromisso, na base do chega pra cá. Desmoronou-se o ritmo calmo, mataram a chegança, emporcalharam o pedaço. Os bem-comportados, os festivos, os “politizantes” e os “participantes”, os sabidos da classe média começaram a freqüentar. Invadiram, encheram tudo. O aperto do espaço, que era íntimo e quente, ficou chato e incômodo. Passou a ser bem fazer a noite no Zicartola.

Aí, os ares mudaram e ficou ruço. Em lugar do cheirinho gostoso das cocadas suado no repinicado do samba quente, havia perfume francês e uísque. Tudo passou a exibicionismo estereotipado, bestices do tipo pra turista ver. Falso, truncado, comercializado. Vendável e vendido. Cego de um olho, capenga de uma perna, furado, contrafação, joguinho de interesses. Conversa de Cartola, agora, era cheia de dedos, dosada conforme a importância social do freguês. Uma falência.

A ratatuia (2) de falsos sabidos levou o seu populismo a ponto extremo. Conseguiram até, olhem só, armar o casamento de Cartola e Zica. Os dois haviam vivido, até ali, por mais de quinze anos e, no caso, foi uma presepada dispensável. Mas os bem-comportados da classe média acharam que não era bem apreciar e relacionar-se com um casal amigado. Então, forçaram a barra e, mais uma vez, cantou-se acima do tom. E o casal, no despreparo para a situação, resolveu dar uma satisfação às rodas de novatos que se meteram no Zicartola.

Pegou bem, já que deu reportagem em segundo caderno das folhas da imprensa chamada de grande. Pegou mal e atravessado — camaradinhas decentes entenderam tudo e houve constrangimentos. Afinal, casar para dar satisfação aos outros, a uma corriola mal chegada, de novo… Zica e o sambista Cartola estavam cercados por uma parranda da Zona Sul, uma gente colonizada, entre babaquara e deslumbrada e sem emulação cultural nenhuma. Esses sujeitinhos eternamente na moda e que sequer conhecem a diferença entre um pagode e um gurufim (3). A mesma cambada de bobalhões perniciosos que, hoje em dia, por um nada, vive dizendo: “a nível de”.

Mais fizeram. Trataram de convencer Cartola a fazer uma operação plástica no nariz couve-flor. Também deu reportagem.

Antes de desmoronar, o Zicartola dava saudade prévia. Não era mais o Zicartola de Zica e Cartola, de Nélson Cavaquinho, de Geraldo das Neves, do serelepe Manuelzinho da Flauta, pulando e repulando no tablado com seu requintadíssimo instrumento importado de Paris na mocidade. Também não era mais de Preto Rico, todo vestido de verde, sapatos brancos carregando as quebras de corpo e cujos sambas falavam da Vista Chinesa (4) e de Maria. Especialmente uma. A da Glória.

O Zicartola dos últimos anos já não tinha a presença lá atrás do microfone, de um papagaio cuja função era malhar uns gritos roucos quando a turma saía do ritmo ou perdia um pouco o rebolado, cantando ou tocando feio. A gente não o via, que a ave se escondia lá no seu canto. Escondidinho no seu mocó de papagaio. Mas os gritos chegavam até as mesas da gente.

— Cartola, Cartola, Cartola!

Para encurtar conversa, já em 65, a gente decepcionada saía da casa de samba e ia tomar um conhaque lá na Praça Mauá, num botequim xexelento, cheio de marinheiros estrangeiros, tatambas no falar, se mexendo nas caras vermelhas, mais vermelhas de bebida entre marafonas caxinguentas. Ficávamos lá pelo frege onde, pelo menos, não tinha fricote de perfume francês ou uísque falso e as criaturas eram definidas — mulher era mulher, homem era homem e até os invertidos do amor eram viventes mais respeitáveis.

Não havia flosô. Queimava-se o pé (5) na cana, na uca, na cerveja, no chope, no conhaque. Pronto. O povo da nossa terra diz que o que não tem remédio, remediado está.

Morreu o Zicartola, das cores de Mangueira e de todas as outras escolas. Puro e bom, não havia mais.

Depois, anos depois, Angenor de Oliveira aconteceu à grande, quando versejou que as rosas podem roubar o perfume de uma mulher e entregá-lo todo à sensibilidade de um poeta (6).

Cartola soube embalar corações. Sua obra é um hinário, lances sublimes. Em marras de malandragem e em assunto de coração era professor, tinha um quê inexplicável também chamado talento. Ele tinha uma relação de vida com o samba e não uma aflição artística. Uma lástima que o país o tenha reconhecido com quatro décadas de atraso.

Mas o Zicartola. Às vezes, hoje em dia, a gente ainda goza de alguns momentos de completa liberdade e a casa de samba nos renasce no coração. Em cada pagode que o Rio ainda sabe fazer nos fundos de seus quintais da Zona Norte, na beleza indizível de cada partido-alto e nessa coisa tão espontânea que é o nó que as mulheres do samba dão nas cadeiras!

(Junho de 1989)

(1) Referência a um samba de autoria de Nilo Bom Cabelo, em que ele imitava a voz de Francisco Alves.

(2) ratatuia = corja, bando; gente mal-intencionada.

(3) gurufïm = ,passatempo praticado durante os velórios de pessoas queridas (com jogos do anel e de adivinhações), típico dos morros do Rio de Janeiro.
(4) Vista Chinesa = ponto turístico na serra do Rio de Janeiro, com um quiosque em estilo chinês, e de onde se avista a baía da Guanabara; foi um recanto apreciado pelos namorados.

(5) queimar o pé (em) = beber muito.

(6) Referência à composição “As rosas não falam” que, gravada pela primeira vez em 1976, deu popularidade a Cartola ([…] “Queixo-me às rosas / Mas, que bobagem, as rosas não falam / Simplesmente as rosas exalam / O perfume que roubam de ti” […]).

João Antônio Ferreira Filho (1937-1996), nasceu de uma família de imigrantes portugueses de poucos recursos, na cidade de São Paulo (SP). Em 1949 publica seus primeiros contos no jornalzinho infanto-juvenil “O Crisol”. Sem deixar de ler e escrever muito, em 1954 começa a freqüentar os salões de sinuca da cidade. Em 1958, ganha os concursos de contos da revista “A Cigarra” e do jornal “Tribuna da Imprensa”, ambos do Rio de Janeiro. Inicia o curso de jornalismo. Em 1959, ganha o concurso de contos do jornal “Última Hora”, de São Paulo. Os originais de seu livro “Malagueta, Perus e Bacanaço” são destruídos no incêndio de sua casa, em 1960. O livro só será publicado em 1963, totalmente reescrito. Ganha o Prêmio Fábio Prado e dois Prêmios Jabuti (revelação de autor e melhor livro de contos do ano). Muda-se para o Rio de Janeiro, para trabalhar no “Jornal do Brasil”, em 1964. Em 1966 volta a São Paulo, onde fará parte da equipe criadora da revista “Realidade”. Tem contos publicados na Alemanha, Venezuela e, naquela época, Tchecoslováquia. De volta ao Rio, em 1968, passa a colaborar com diversos jornais. Publica, em 1975, “Leão-de-chácara” (Prêmio Paraná de 1974) e “Malhação do Judas carioca”. Edita o “Livro de cabeceira do homem” e cria a expressão “imprensa nanica” no jornal “O Pasquim”. Ainda nesse ano, é agraciado com o Prêmio Ficção da APCA (SP). Em 1977, seu conto “Malagueta, Perus e Bacanaço” é adaptado para o cinema, recebendo o nome de “O jogo da vida”. Outro prêmio: em 1983, seu livro “Dedo-duro” recebe o Troféu Calango do Prêmio Brasília de Ficção. Ganha também o Prêmio Pen Club. Nos mais de quinze livros que deixou mostra sua extrema habilidade em fundir a linguagem falada nas ruas e a escrita literária. Atuou intensamente na imprensa e foi um ardoroso defensor dos direitos do escritor no Brasil. Premiada, sua obra é objeto de análise dos mais importantes críticos literários brasileiros.

Outras obras do autor: “Casa de loucos” (1976), “Calvário e porres do pingente Afonso Henriques de lima Barreto (1977), “Lambões de caçarola” (1977), “Ô, Copacabana” (1978), “Noel Rosa” (1988), “Meninão do caixote” (1983), “Dez contos escolhidos” (1983) e “Abraçado ao meu rancor” (1986).

Sobre o autor:

RIBEIRO, Joana Darc. “Entre o lirismo nostálgico e o rancor violento: As percepções da cidade no conto de João Antônio”. In. Revista Humanidades - n.5-Série Letras -n.3-São João da Boa Vista. UNIFOEB - Centro Universitário da Fundação de Ensino Octávio Bastos, 2004, p.73-84.

SEVERIANO, Mylton. “Paixão de João Antônio”, Editora Casa Amarela - São Paulo (SP), 2005.

Texto extraído do livro “Zicartola e que tudo mais vá pro inferno!”, Editora Scipione – São Paulo, 1991, pág. 25.

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Mídia Livre: ativistas defendem diversidade e enfrentamento de monopólios da comunição

Por Anselmo Massad

O Fórum de Mídia Livre foi iniciado na manhã deste sábado, 14, no Campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Blogueiros, representantes de rádios comunitárias, de movimentos sociais e de veículos de comunicação independentes se reúnem para discutir o direito à comunicação e formas de enfrentamento dos veículos de comunicação tradicionais.

A diversidade foi apontada por diversos ativistas como a principal força do movimento. “Não queremos criar uma central única das mídias livres”, avisou Ivana Bentes, diretora da Faculdade de Comunicação da UFRJ. Para ela, o objetivo não é repetir as fórmulas e padrões da mídia convencional, mas construir redes de redes, com produtores fora da estrutura tradicional.

“Precisamos superar o discurso da falta, de que não temos espaço na mídia e aproveitar a potencia de fazer existente”, convoca. Ivana concluiu sua intervenção lembrando um lema do movimento midialivrista: “Odeia a mídia? Torne-se mídia”.

Para Gustavo Gindre, do coletivo Intervozes, a luta do movimento é pelo direito à comunicação, reconhecido como um direito humano. “Em uma sociedade de massas, não basta o direito à comunicação interpessoal, precisamos ter acesso aos meios de comunicação”, defende. Entre os meios que se busca estão tanto as mídias tradicionais, como radiodifusão – e o fim da criminalização das rádios comunitárias –, TV e novas mídias.

Ele citou ainda a necessidade de garantir mecanismos de distribuição e circulação da produção de mídia ao mesmo tempo em que se faz o enfrentamento da mídia monopolista que reflete a desigualdade e a injustiça social brasileiras.

Anselmo Massad

Revista Fórum

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