Arquivo de 1 de Julho de 2008

Blogs trazem nova realidade para a opinião pública nos Estados Unidos

Richard Waters

Em São Francisco
Do Financial Times

Barack Obama e Bill Clinton desentenderam-se com os grandes nomes do mundo da mídia, mas isso não os ajudou em uma ocasião recente, quando enfrentaram uma repórter amadora californiana de 61 anos que brandia um gravador digital Sony de US$ 40.
Mayhill Fowler, uma blogueira do site "Huffington Post", da especialista em política Arianna Huffington, representa um fenômeno novo em anos de política eleitoral.
Apesar de toda a maestria demonstrada pelos candidatos perante as câmeras de televisão, nos comícios e nos debates, tem ficado cada vez mais difícil para os gerentes de publicidade das campanhas influenciar a forma como a mensagem dos seus candidatos é disseminada, devido à entrada dos "jornalistas cidadãos" no cenário.
"Os comitês de campanha trabalham cada vez mais arduamente no sentido de prevenir desastres, mas, inevitavelmente, haverá rachaduras na fachada", afirma Fowler, uma entusiasta que desembolsou dinheiro para participar continuamente da cobertura da campanha desde o final de dezembro passado.
"Antigamente, com muita freqüência, os candidatos falavam de uma forma para uma platéia e de outra totalmente diferente para um outro grupo de eleitores. Mas, devido à tecnologia, creio que agora tudo isso ficará registrado", afirma ela.
Atualmente os políticos enfrentam a assustadora possibilidade de que praticamente toda ação ou comentário improvisado possa ser gravado digitalmente e disseminado amplamente pela Internet.
Foi a presença de Fowler em um evento para arrecadação de verbas, em São Francisco, em abril, o fator responsável para que a campanha de Obama atingisse o seu patamar mais baixo até o momento. A gravação feita por ela dos comentários do candidato sobre como os "amargos" habitantes da Pensilvânia "agarram-se", como consolo, às armas e à religião, ressaltou aquilo que os críticos denunciaram como elitismo.
Fowler diz que à época esperava ser capaz de conciliar o seu entusiasmo pessoal por Obama com a sua reportagem. Ela ficou indecisa vários dias, sem saber se divulgava aquilo que o senador por Illinois dissera perante uma platéia de 400 pessoas, embora atualmente sinta pouco remorso. "Ele estava confirmando os piores estereótipos dos californianos da classe média alta a respeito dos eleitores da classe trabalhadora", diz.
Mais recentemente, esta mãe de Oakland estava em Dakota do Sul para registrar o último dia da campanha de Hillary Clinton nas primárias, quando Bill Clinton parou para conversar com uma multidão. Respondendo a uma pergunta dela sobre o áspero perfil publicado recentemente por uma revista, ele chamou o jornalista responsável pelo artigo de "um sujeito viscoso" e "um indivíduo desprezível" - comentários que ricochetearam pela Internet.
Inevitavelmente, os dois furos de Fowler geraram um debate entre os círculos jornalísticos no sentido de determinar se é correto publicar todos os comentários feitos de improviso, e se algum político é capaz de sobreviver a tal escrutínio constante.
Marc Cooper, o editor dela no "Huffington Post", dá pouca importância a tais argumentos. "A nova realidade para os políticos é que é melhor demonstrarem clareza quanto àquilo que são, ou então acostumarem-se a mentir a todo o momento".
A parte do site do "Huffington Post" destinada às reportagens dos voluntários - a "Off The Bus" - deixa claro que é uma virtude o fato de os seus colaboradores serem pessoas comuns, que não fazem parte do grupo de jornalistas tradicionais que viajam com os candidatos.
"Os jornalistas que embarcam no mesmo ônibus que o candidato estão sujeitos a bate-papos amigáveis. Agora os manipuladores da mídia aprenderam a fornecer ‘umas migalhas’ aos blogueiros favoráveis a fim de que estes influenciem o debate na Web. Eles não desejam alguém como eu, que está fora do círculo de controle", afirma Fowler.
Após meio ano de repousos breves em hotéis baratos e longas viagens de carro entre os comícios dos candidatos, Fowler traz as cicatrizes de um jornalista de campanha mais tarimbado.
Grande parte do seu idealismo desapareceu, à medida que ela observava os candidatos democratas de uma distância relativamente curta.
E embora ainda se defina mais como cidadã do que como jornalista, ela desistiu do seu antigo entusiasmo partidário. "Fiquei muito mais desvinculada, objetiva e fria", explica Fowler. "Tornei-me a clássica jornalista cética".
Tradução: UOL

do Financial Times

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Paulistanos usariam mais o transporte público, se passagem fosse mais barata

SÃO PAULO - Os moradores da cidade de São Paulo utilizariam mais o transporte público, se as passagens tivessem um preço menor do que o praticado atualmente, de acordo com dados da pesquisa Ibope, feita a pedido do Movimento Nossa São Paulo.

As passagens para o metrô e trem em São Paulo custam R$ 2,40, enquanto as de ônibus valem R$ 2,30.

No estudo, cerca de 15% dos paulistanos, ou 1,2 milhão de pessoas, afirmaram que se o ônibus, metrô e trens da capital paulista fossem mais baratos, confortáveis e tivessem uma área de cobertura maior, deixariam o carro em casa.

Já entre os entrevistados que utilizam o carro diariamente, 70% afirmaram que também deixariam o automóvel na garagem, caso houvesse uma boa alternativa para o transporte.

Meios de locomoção

Esse grupo de paulistanos afirmou na pesquisa que, se aumentasse o número de linhas dos ônibus e houvesse uma redução no tempo de espera nos pontos, utilizariam esse meio de transporte.

Já para o metrô, para fazer com que essas pessoas o utilizassem com mais freqüência, seriam necessários o aumento da cobertura e a diminuição no preço das passagens. Por outro lado, para que o trem se torne mais atrativo, os paulistanos apontaram que esse transporte deveria ser mais confortável, possuir mais linhas e percursos que não existem atualmente.

A pesquisa também constatou que 41% dos paulistanos aprovariam a ampliação do rodízio de veículos para dois dias. Já para o pedágio urbano, esse índice é menor: apenas 13% das pessoas aprovariam essa medida.

Matéria publicada no Portal UOL em 2 de abril de 2008

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Deputados querem que TSE retire parecer que restringe campanha eleitoral pela Internet

Claudia Andrade
Em Brasília

Em audiência pública realizada nesta terça-feira na Câmara dos Deputados, os parlamentares da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática defenderam a anulação da resolução do Tribunal Superior Eleitoral que restringe a campanha política pela Internet. Os deputados consideraram o parecer do TSE “um erro”.

“Temos que pedir que o Tribunal retire essa resolução, que corrija o erro que está cometendo e a dúvida que está causando na sociedade brasileira. Ele está causando uma insegurança enorme no meio digital e não lhe cabe fazer isso”, disse o deputado Julio Semeghini (PSDB-SP).

O deputado afirmou que vai solicitar uma audiência dos integrantes da comissão com o ministro Carlos Ayres Britto, presidente do TSE. No encontro, os parlamentares devem pedir a revogação da norma no que se refere ao uso da Internet.

Pela resolução 22.718, de fevereiro deste ano, o TSE restringiu o uso da rede mundial de computadores somente à página do candidato “destinada exclusivamente à campanha eleitoral”. O capítulo IV prevê ainda que os domínios registrados com a terminação can.br “serão automaticamente cancelados após a votação”. Com isso, a criação de blogs, envio de e-mails e veiculação de vídeos, entre outras ferramentas da Internet, ficariam proibidos.

“É preciso que o Tribunal entre em sintonia com o Congresso e saiba que a gente não quer uma legislação que restrinja o uso da Internet. Nos últimos anos, esta comissão rejeitou mais de 100 projetos de lei que tentam cercear o uso da Internet”, acrescentou Semeghini.

Para o deputado Jorge Bittar (PT-RJ), a decisão do TSE é “fruto do desconhecimento do meio Internet”. “É inaceitável que o TSE aja desta forma. Deveríamos ter uso livre da Internet, que é um meio público.”

Bittar é um dos autores do projeto de lei 3521/08, que modifica a lei eleitoral. Apresentada à Mesa da Câmara no início de junho, a proposta traz “mecanismos liberalizantes”, segundo a definição do seu autor. Na justificativa da proposta, os parlamentares defendem que “o uso da Internet, como meio de comunicação de baixo custo, possibilita o engajamento cívico e o debate político. (…) Quanto mais livre e irrestrito o uso, melhor para o debate e para a interação entre as pessoas em uma democracia.”

Candidatos “com medo”

Convidado para o debate, o presidente da Associação Brasileira de Consultores Políticos (Abcop) afirmou que “os candidatos estão com medo da Internet”. Segundo Carlos Manhanelli, os candidatos estão “sem chão”.

“Até para dar entrevista para a Internet estão com medo, porque se criar uma notícia na Internet, pode ser visto como propaganda. Eu administro 12 campanhas eleitorais e estou recomendando, em todas elas, a não fazerem nada na Internet”, ressaltou, acrescentando que a rede mundial de computadores “não pode ter o mesmo tratamento das emissoras de rádio e TV, que são concessões públicas e por isso estão sujeitas a restrições”.

Para ele, o judiciário não é feito para legislar e não deveria fazê-lo. “Principalmente na área eleitoral. Primeiro porque não compete a ele fazer isso. Segundo, porque está causando uma confusão enorme”, opinou.

O pesquisador do Instituto de Ciências Políticas da UnB (Universidade de Brasília) Francisco Brandão destacou que “a campanha eleitoral pela Internet está muito no início para ter uma legislação restritiva.” Em sua opinião, a decisão do Tribunal “está limitando um mundo que tem muito mais possibilidades do que outros meios de comunicação.”

Internet ainda é pouco utilizada

Em sua apresentação durante a audiência pública, Brandão apresentou dados de uma pesquisa realizada pelo núcleo de tecnologia, informação e comunicação da UnB apontando que o uso da Internet nas eleições ainda está engatinhando. Nas eleições federais e estaduais, o número de candidatos conectados aumentou de 3,2% para 14,5% entre 2002 e 2006, mas ainda está longe da população com acesso à Internet, que saltou de 10,1% para 27,3% no mesmo período.

“Nas eleições municipais, o uso da Internet é mais baixo porque, se a base distrital é menor, o contato é feito diretamente com o eleitor”, explicou. Pelo mesmo motivo, o percentual de candidatos com página na Internet é maior nos casos de eleições presidenciais: 62,5% em 2006. Na última disputa para governador, 43% dos candidatos estavam na rede, enquanto apenas 12,1% dos deputados federais tinham páginas pessoais na Internet.

Do UOL

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Lênin ou Kornilov

ou porque a democracia-liberal não foi uma alternativa histórica na revolução russa de 1917

Valério Arcary
Historiador, professor do Cefet/SP e membro do conselho editorial da revista Outubro

• No próximo mês de outubro dar-se-á o aniversário de noventa anos da revolução russa. A efeméride oferece a ocasião para o ressurgimento da interpretação liberal sobre o seu significado: seus arautos nos recordarão, em um exercício manipulado de história contra-factual, que o século XX teria sido o palco de uma luta titânica da democracia contra os totalitarismos comunista e fascista. Esquecerão, convenientemente, que sem a revolução de outubro e, portanto, a existência da URSS, seria muito duvidoso o resultado da luta contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial. Argumentarão, solenes, que as revoluções seriam processos de transformação, historicamente, superados: teriam sido, afinal, terremotos convulsivos característicos de nações com baixos níveis de instrução. Descuidarão, no entanto, que a história é um processo em aberto e, ininterrupta, voltou a nos surpreender com revoluções políticas, como nos recorda a história dos últimos anos da América Latina.

O século do encontro da revolução com a história
A revolução política e social foi o fenômeno decisivo da história contemporânea, deslocando o lugar que, no passado, era ocupado pela guerra. A desigualdade social foi e continua sendo o maior problema da civilização. Revoluções aconteceram e continuarão acontecendo porque há injustiça e tirania no mundo. A disparidade de condições materiais e culturais de existência humana precipitaram, recorrentemente, crises sociais que transbordaram em crises políticas. Quando as crises políticas não encontram uma solução no limite das relações sociais dominantes, abre-se uma situação revolucionária. A revolução russa de outubro não foi uma excepção. Ao contrário, a revolução bolchevique estabeleceu um dos paradigmas mais longevos do século XX e inspirou várias das gerações de socialistas que vieram depois.

Mudanças eram - e continuam - sendo necessárias. Nenhuma sociedade permanece imune à pressão por mudanças. Mas, as forças da inércia histórica são proporcionais à força social reacionária de cada época. Um atraso significativo e, muitas vezes, terrível, é inevitável entre o momento da manifestação de uma crise social, e o tempo que a sociedade precisa para que seja capaz de enfrentar as mudanças que são indispensáveis. Revoluções não acontecem quando são necessárias, mas quando a pressão pela transformação se demonstrou inadiável. A história confirmou que as transformações podem ocorrer por via de reformas, ou seja, por lutas que resultam em negociações e acordos transitórios que mantém, na essência, a ordem econômica, social e política, ou por via de revoluções.

Derrotas históricas, conseqüências trágicas
A velha máxima que assegura que as revoluções tardias são as mais radicais não deixou de se confirmar. Ao final da Primeira Guerra Mundial ruíram na Europa Central e Oriental três Impérios – o russo, o austro-húngaro e o prussiano – que tinham atravessado, incólumes, o século XIX, desde a Santa Aliança anti-republicana e o Tratado de Viena de 1815. As formas monárquicas mais ou menos arcaicas de cada um deles – expressão de uma transição burguesa negociada sob as cinzas da derrota das revoluções democráticas de 1848 - foram destruídas pelo desenlace da guerra, mas, também, pela maior vaga revolucionária que a história tinha até então conhecido: de Petrogrado a Budapeste, de Viena a Berlim, milhões de homens e mulheres, trabalhadores e soldados, atraíram para o seu lado setores das camadas médias, artistas, intelectuais e professores, e lançaram-se na obra de destruir os velhos regimes de opressão que os tinham mergulhado no turbilhão do genocídio que acabou consumindo algo próximo a dez milhões de vidas.

Aonde as revoluções democráticas de 1848 foram derrotadas pelas velhas monarquias - fortalecidas na época da restauração depois de 1815- como na Alemanha prussiana e no Império dos Habsburgos, a tarefa de pôr fim à guerra uniu-se à proclamação da República, mas as forças sociais que impuseram, pelos métodos da revolução, a derrota do governo - o proletariado e os camponeses arruinados que constituíam a maioria do exército - não se contentaram somente com as liberdades democráticas, e lançaram-se na vertigem da conquista do poder com suas esperanças socialistas.

As revoluções atrasadas da Europa Central e Oriental transformaram-se em revoluções proletárias pioneiras ao final da Primeira Guerra Mundial, mas, à excepção da Rússia, foram desbaratadas. Derrotas históricas, contudo, têm conseqüências trágicas e duradouras. O custo histórico, para os alemães, da derrota de seus jacobinos em 1848 foi o militarismo nacionalista do II Reich, o imperialismo do Kaiser, e a Primeira Guerra Mundial. O preço que a nação alemã pagou pela derrota do seu proletariado – o triunfo do nazismo, a Segunda Guerra e os seis milhões de vidas da juventude alemã - foi ainda maior.

Ditadura do proletariado ou ditadura fascista
Aonde as formas tirânicas do Estado revelaram-se mais rígidas, como na Rússia, a revolução democrática radicalizou-se, muito rapidamente, em revolução socialista, confirmando que revoluções não podem ser compreendidas somente pelas tarefas que se propõem resolver, e menos ainda pelos seus resultados, mas, sobretudo, pelos sujeitos sociais, ou classes, que tiveram a audácia de fazê-las, e pelos sujeitos políticos, ou partidos, que foram capazes de dirigi-las. O substitucionismo histórico - de uma classe por outra – e a centralidade da política – com a redução das margens de improviso da liderança - demonstraram-se as chaves de explicação dos processos revolucionários contemporâneos.

Não foi a burguesia russa que se lançou à insurreição para derrubar o Estado semi-feudal dos Romanov em fevereiro de 1917, mas foi ela quem impediu o governo provisório do Príncipe Lvov de fazer a paz em separado com a Alemanha: os capitalistas russos demonstraram-se demasiado frágeis para, por um lado, romper com seus parceiros europeus, e por outro, para garantir a sua dominação através de métodos eleitorais na República que nascia pelas mãos da insurreição proletária e popular. Não foi a burguesia quem mandou os seus filhos para as trincheiras da guerra serem massacrados, mas era ela quem apoiava Kerensky, quando este insistia em lançar os camponeses fardados em ofensivas suicidas sobre o exército alemão.

A pressão de Londres e Paris exigia a manutenção da frente oriental, mas a pressão de um proletariado poderoso e combativo - proporcionalmente a uma burguesia com pouco “instinto de poder” pela submissão à monarquia - exigia o fim da guerra; as forças mais fortes da esquerda socialista – mencheviques e esseristas - se recusavam a assumir o poder sozinhos, porque não queriam romper com a burguesia, porém os bolcheviques, minoritários até setembro, se recusavam a colaborar com o governo de colaboração de classes e romper com as reivindicações populares. Quando Kerensky perdeu o apoio nas classes populares, a burguesia russa apelou ao general Kornilov para resolver com as armas, o que não podia ser resolvido com argumentos. A hora das eleições para a Constituinte tinha passado. A burguesia russa perdeu a paciência com Kerensky e rompeu com a democracia, dois meses antes de o proletariado perder a paciência com os seus líderes, e recorrer a uma segunda insurreição para terminar com a guerra.

O fracasso do putsch selou o destino da burguesia russa. O proletariado e os soldados encontraram nos bolcheviques, nas horas terríveis de agosto, o partido disposto a defender com a vida as liberdades conquistadas em fevereiro. Sem o apoio da burguesia e sem o apoio das massas, suspenso no ar, o governo de Kerensky - e seus aliados reformistas – procurou socorro no pré-parlamento, mas a legitimidade da democracia direta dos sovietes superava a representação indireta de qualquer assembléia: o tempo para as negociações com a Entente tinha se esgotado, a oportunidade histórica para a república burguesa tinha sido perdida. Era tarde demais.

A engrenagem da revolução permanente empurrava os sujeitos sociais interessados no fim imediato da guerra – a maioria do Exército e dos trabalhadores - para uma segunda revolução e operava a favor dos bolcheviques que, no espaço de poucos meses, viam sua influência se agigantar. O proletariado e os camponeses pobres precisaram dos meses que separaram fevereiro de outubro para perderem as ilusões no governo provisório, onde os partidos em que depositavam suas esperanças, mencheviques e esseristas, eram incapazes de garantir a paz, a terra e o pão e entregar sua confiança aos sovietes onde a liderança de Lênin e Trotsky se afirmava.

Martov, líder dos mencheviques internacionalistas e Kautsky, líder da social-democracia alemã, insistiram, nos anos seguintes, que Outubro teria sido uma aventura voluntarista. Mais razoável, entretanto, seria concluir que uma hesitação bolchevique em outubro, ou a sua derrota na guerra civil entre 1918/1920, teria levado ao poder - apoiado pelas democracias de Washington e Londres - um fascismo russo, e ninguém deveria querer imaginar o que poderia ter sido um “Hitler” no Kremlin.

Revolução européia e contra-revolução nazi-fascista
Onze anos depois do fim da Primeira Guerra Mundial, quando se precipitou a crise catastrófica de 1929, já era claro que a alternativa colocada diante daquelas nações era, tão somente, entre um governo dos sovietes ou uma ditadura fascista, mas a revolução socialista, paradoxalmente, acabou triunfando apenas no mais atrasado dos velhos Impérios europeus. A vaga revolucionária que sacudiu o continente ao final da guerra – iniciada em 1917 com a queda do Czar, e derrotada na Alemanha em 1923 - foi forte o bastante para bloquear a violência contra-revolucionária sem quartel – uma guerra “total” contra a ditadura do proletariado como o jovem Winston Churchill chegou a defender - e preservar a jovem República dos trabalhadores por alguns anos, mas insuficiente para impedir o seu isolamento internacional.

Na seqüência da crise de 1929, uma segunda vaga revolucionária abalou a dominação capitalista até os seus alicerces tendo como epicentro, pela primeira vez, uma onda que uniu a Europa do Mediterrâneo à luta na Europa Central e, mais uma vez, o destino da revolução mundial foi depositado sobre os ombros da classe operária alemã. A força e coragem dos trabalhadores germânicos foram em vão: suas organizações dirigentes demonstraram-se incapazes da mais elementar união diante do perigo nazista, e sua derrota abriu o caminho para que Franco triunfasse nas trincheiras da Guerra Civil Espanhola.

Na história, o que não avança, tende a recuar. A primeira onda da revolução mundial obteve a maior vitória do movimento operário – a existência da URSS - mas, ao adiar para o futuro a hora dos combates decisivos em Berlim, permitindo, assim, a reconstrução do capitalismo alemão sob as ordens de Hitler, favoreceu as condições que acabaram resultando na II Guerra Mundial e, finalmente, na invasão dos exércitos nazistas até às portas de Petrogrado. Colocou em risco mortal, em 1941, tudo o que se tinha conquistado em 1917. A derrota alemã em 1923 esteve na raiz do isolamento internacional que favoreceu o processo de burocratização da URSS, e a vitória da fração de Stálin dentro da III Internacional. A derrota alemã em 1933 inverteu a relação de forças entre revolução e contra-revolução em toda a Europa e ameaçou a própria existência da URSS. Em 1942, o mapa da Europa era dominado pelo Império nazista. Mas, sem a revolução de Outubro, seria impensável a mobilização que permitiu a derrota do exército alemão em Stalingrado, o início do colapso do nazi-fascismo, uma vitória sobre a barbárie sem a qual a segunda metade do século XX seria impensável.

Regimes democrático-liberais e pacto social
Ao final da Segunda Guerra Mundial, os proletariados francês e italiano levantaram-se na batalha final contra o nazi-fascismo ao lado dos povos dos Bálcãs, mas, ao contrário da Yugoslávia e Albânia, onde o capitalismo foi erradicado, em Paris e Roma se estabeleceram regimes democrático-liberais, enquanto em Madri e Lisboa as ditaduras de Franco e Salazar foram poupadas pelos EUA, e perpetuaram-se até os anos setenta. Mas a consolidação dos regimes democrático-liberais na Europa Ocidental, nos trinta anos seguintes, só foi possível sob as cinzas da Segunda Guerra Mundial, e em função da vaga revolucionária que derrotou o nazi-fascismo.

As burguesias norte-americana e européia retiraram lições do período histórico anterior: os métodos da reação – ou concertação - poderiam ser menos custosos que os métodos da contra-revolução. Não foi o vigor econômico do capitalismo que permitiu a negociação do pacto social do pós-guerra, mas, fundamentalmente, o inverso. A rigor, o crescimento econômico sob o capitalismo não foi nunca causa suficiente de distribuição de renda ou, menos ainda, fator suficiente para a extensão universal de direitos sociais. Assim como revoluções ocorreram onde as mudanças por reformas foram adiadas, a conquista de reformas foi possível depois que as classes dominantes compreenderam que era melhor negociar concessões, do que ter que enfrentar revoluções. A explicação para a relativa prosperidade das sociedades dos Estados centrais, nos trinta anos entre 1945 e a primeira crise mundial em 1973/74, repousou mais em fatores político-sociais, ou seja, a luta de classes, do que econômicos ou tecnológicos.

A diminuição das desigualdades sociais só ocorreu, historicamente, por meio de negociações quando a combinação, até hoje muito excepcional, de alarme diante da possibilidade de uma revolução social e desenvolvimento econômico, levaram o capital a fazer concessões ao trabalho. O capital nunca cedeu reformas diante do movimento dos trabalhadores, a não ser quando se sentiu ameaçado. Assim como a integração dos partidos comunistas aos regimes democráticos foi um fator de contenção do protesto social, evitando a precipitação de situações revolucionárias, a existência da URSS e as circunstâncias da Guerra fria foram um fator que pressionou no sentido de reformas na Europa. As conquistas do pacto social do pós-guerra no Ocidente europeu – pleno emprego, e universalização da saúde e educação, etc… - seria inexplicável, portanto, sem a revolução de outubro.

Inversamente, aonde o perigo de revoluções tinha sido superado – por exemplo, os fascismos ibéricos - as reformas não vieram. Quando, finalmente as ditaduras caíram, primeiro em Lisboa, em 1974, sob o impacto da guerra anti-colonial em África e, depois em Madri, em função da nova situação européia aberta pelo Maio francês de 1968, o custo histórico que seus povos sofreram por causa das ditaduras senis revelou-se devastador: em Portugal, milhares de vidas sacrificadas, em vão, na tentativa, historicamente, condenada de preservar um Império obsoleto; em Espanha, o obscurantismo cultural de uma geração e uma tal decadência econômica e atraso, em relação aos países europeus, que levou à emigração em massa de sua juventude.

A revolução deixou sua obra incompleta diante do futuro
A revolução portuguesa confirmou, mais uma vez, o padrão histórico: sem a pressão da disposição revolucionária de luta dos trabalhadores e seus aliados, não se conquistam sequer reformas. Mas, as revoluções abortadas deixam pelo caminho sem solução problemas que a geração seguinte terá que enfrentar em condições ainda mais adversas.

Assim como no final da Segunda Guerra Mundial, quando a onda da revolução européia anti-nazista levou ao desmoronamento do regime de Vichy, mas não foi suficiente para libertar as colônias, como a Argélia e o Vietnam e, por isso, a juventude francesa foi morrer, em vão, aos milhares, a vaga revolucionária conjunta da revolução anti-colonial na África – a resistência dos Movimentos de Libertação Nacional em Angola, Guiné-Cabo Verde e Moçambique - e da revolução democrática na metrópole foi suficiente para derrubar o regime fascista, e fez tremer com tal intensidade a dominação burguesa em Portugal que despertou o proletariado do Estado Espanhol, mas sucumbiu diante dos regimes democrático-liberais improvisados depois da derrota do 25 de novembro em Lisboa, e do Pacto de La Moncloa em Madri, com o socorro de Londres, Paris e Berlim, intermediado pelos EUA.

Este curso da história – revoluções abortadas e estabilização de regimes democrático-liberais que garantem a perpetuação do capitalismo - se repetiu uma terceira vez na América Latina, no início dos anos oitenta, quando o triplo impacto do esgotamento das ditaduras militares surgidas, nos anos sessenta, como resposta da contra-revolução à vitória da revolução cubana, do choque econômico da moratória das dívidas externas, e da derrota nas Malvinas, colocou para o proletariado brasileiro, argentino e uruguaio o desafio chave de suas revoluções democráticas e anti-imperialistas: aceitar os limites políticos e sociais que as burguesias dependentes exigiam para a concertação de regimes democrático-coloniais – a conservação do lugar semi-colonial destas nações no mercado mundial - ou ir além, desafiando a ordem capitalista no Cone Sul.

As mobilizações que derrotaram Galtieri em Buenos Aires em 1982 e Figueiredo no Brasil em 1984 foram grandes o bastante para conquistar as liberdades democráticas para os trabalhadores poderem se auto-organizarem e resistir aos planos de superexploração de Alfonsín e Sarney, mas não foram suficientes para derrotar o plano da estabilização dos regimes democrático-liberais. Em conclusão: a dinâmica da decadência econômico-social do continente não foi revertida e a recolonização avançou.

A alternativa de outubro: capitalismo ou socialismo
O balanço que a história deixou parece irrefutável: se até a Alemanha, a mais desenvolvida e educada das nações européias não escapou da ditadura nazista, seria superficial e até, talvez, ingênuo, imaginar que a atrasada Rússia semi-asiática poderia ter consolidado um regime democrático-liberal ao final da Primeira Guerra Mundial. São variadas as razões que explicam essa impossibilidade na Rússia, ao contrário do que aconteceu, posteriormente, na Europa do Mediterrâneo em 1945, em Portugal e Espanha entre 1975 e 1978, ou na América Latina entre 1982 e 1985.

Nas condições da Rússia depois da queda do Czar, em fevereiro, a burguesia não estava disposta a romper suas relações com Londres e Paris e iniciar um processo de paz em separado com Berlim, porém, sem a paz, a burguesia não poderia imaginar a convocação das eleições para a Constituinte. Ao chegar mais de meio século atrasada ao processo de industrialização, e ao ter se inserido no sistema internacional como potência semi-periférica - imperialista em relação às suas colônias no Cáucaso e na Ásia, mas sub-metrópole em relação à França e à Inglaterra - a burguesia russa tinha se associado aos capitais estrangeiros para financiar a implantação de seu parque industrial.

A consolidação de uma democracia-liberal pressupunha a convocação de eleições em uma situação em que a legitimidade da vontade popular tinha encontrado representação nos sovietes, onde o principal partido burguês, o Kadete, não tinha expressão. A força do proletariado em movimento impunha uma forte presença dos partidos socialistas moderados, mencheviques e esseristas, nos variados Governos provisórios, mas, assim como Miliukov não estava disposto a romper com a Entente, estes partidos não estavam dispostos a romper com a burguesia, levando primeiro o Príncipe Lvov, e depois Kerensky, ao impasse crônico. Ao exigir das massas que fizeram a revolução contra o Czar para se libertar da guerra, que prolongassem a guerra para conseguir a Constituinte (e a promessa secular de terra e libertação nacional para ucranianos, bálticos, caucasianos e asiáticos) sucessivas crises políticas foram se precipitando em vertigem até à crise revolucionária, depois da derrota do golpe de Kornilov.

Mas, retrospectivamente, fica a questão de saber porque a primeira metade do século XX foi tão diferente da sua segunda metade: por quê as burguesias européias lançaram-se na aventura de resolver suas disputas manu militari em 1914, em vez de articularem uma divisão compartilhada e, em grande medida, complementar do mercado mundial como os EUA lograram impor depois de 1945. Ou porque a burguesia alemã não hesitou em recorrer a Hitler diante do perigo da revolução alemã, mas, depois de 1945, as burguesias francesa e italiana lograram consolidar suas repúblicas democrático-presidencial e parlamentar, apesar de terem que enfrentar dois proletariados tão ou mais poderosos que o proletariado russo de Petrogrado e Moscou.

A resposta destas perguntas nos remete, incontornavelmente, à revolução de outubro, porque o mundo, tal qual o conheceram as últimas quatro gerações, seria inexplicável sem a vitória bolchevique de 1917. O primeiro e mais importante fator a ser considerado é que a revolução russa demonstrou que o movimento operário moderno era uma classe, suficientemente forte - objetiva e subjetivamente - para arrastar atrás de si a vontade da maioria da nação e triunfar na luta pelo poder. Antes de Outubro, a única revolução proletária tinha sido a efêmera experiência da Comuna de Paris de 1871. Depois da revolução russa, no entanto, a política mundial não poderia mais ser considerada somente como uma disputa de posições de força entre Estados imperialistas no sistema internacional.

A existência da URSS, enquanto o regime da ditadura revolucionária internacionalista manteve o compromisso de incentivar a revolução mundial, passou a ser uma ameaça à preservação do capitalismo. A luta de classes passou a um grau mais elevado de intensidade, e o movimento internacional socialista adquiriu o estatuto de um protagonista de primeira grandeza, capaz de desestabilizar a dominação burguesa nas metrópoles imperiais e de apoiar política e, materialmente, a resistência dos povos oprimidos em nações coloniais e semi-coloniais.

A vitória de Outubro foi, contudo, também, efêmera. Tal como tinham previsto Lênin e Trotsky revelou-se impossível um processo de transição ao socialismo sem uma vitória da revolução alemã. As condições do isolamento e atraso russo explicam o avanço da reação interna que acabou dando um salto de qualidade e degenerando em um processo de contra-revolução burocrática.

Seria impossível explicar o triunfo da revolução de Outubro em 1917 sem considerar as seqüelas da I Guerra Mundial e a fragilização do sistema de Estados na Europa: afinal, a Alemanha ansiava por uma paz em separado e a conseguiu. Pela mesma razão, seria muito difícil explicar a decisão de Mao e da direção do PC da China de levar a guerra contra Chiang Kai Chek em 1949 até ao fim, sem considerar o quadro das relações de forças no sistema internacional de Estados após a entrada do Exército russo em Berlim. Seria, também, impossível compreender a decisão de Fidel Castro – até então, um líder nacionalista - de não aceitar os ultimatos norte-americanos em 1961, sem considerar que a perspectiva de alinhamento com a URSS oferecia um bloco de alianças no sistema internacional de Estados. Em uma palavra, outubro foi a revolução que mudou o mundo.

Referências bibliográficas
BENSAÏD, Daniel. La discordance des temps: essais sur les crises, les classes, l’historie. Paris: Les Éditions de la Passion, 1995.
CHURCHILL, Sir Winston, Memorias, Barcelona: Orbis, 1985.
COLLETTI, Lucio. El marxismo y el derrumbe del capitalismo. México: Siglo XXI, 1985.
DRAPER, Hal. Karl Marx’s theory of revolution. v. 2. Nova York: Monthly Review Press, 1978.
FURET, François. O passado de uma ilusão. São Paulo: Siciliano, 1995.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX, 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
TROTSKY, Leon. Historia de la revolución rusa. Bogotá: Pluma, 1982.

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Imagens da Revolução - Cartazes Soviéticos


Cartaz após a morte de Lenin. A. Strahov, 1924


Litografia com Trotsky comandando o Exército Vermelho


"Bata os brancos com a cunha vermelha". Este cartaz, concebido como instrumento de propaganda de guerra contra o exército branco da contra-revolução, é um marco do construtivismo russo. El Lissitzky, 1920


"Ladrões capitalistas


"Cada golpe do martelo é um golpe no inimigo"


"Ao front polonês - Partido Bolchevique
A comuna se fortalece sob as balas avançamos. Camarada, com as baionetas organizamos a nossa força"


"Venha para o Partido Comunista"


"1º de Maio - Mutirão Pan-russo"


"O poderoso trabalho criativo"


"Cidadãos! Conservem os monumentos artísticos"


"Operário e Camponês - comemoramos o 1º ano"


"Compramos o Plano - dos grandes trabalhos"


"Viva o I aniversário da grande revolução proletária
- IV Congresso da Internacional Comunista"


"Da Rússia da NEP sairá a Rússia Socialista"


"Das brigadas da guerra civil para as brigadas de trabalho"

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Imagens do maio francês


Confrontos com a polícia no Quartier Latin


Jovem segura uma bandeira, em uma das fotos mais famosas do maio francês


Confrontos em Paris


Escudos na frente do protesto


Carros viram barricadas


“Sinfonia rebelde“, em meio às barricadas


Jovem atira pedra contra policiais


Confrontos em Paris

Seleção de imagens do site do PSTU - Especial 1968

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Pessoa jurídica

 

Joel Bakan, autor do livro que deu origem ao filme A corporação, explica o caráter psicopata das corporações e o perigo de se entregar a elas as rédeas da economia mundial

Por Filipe Luna

Foto: Divulgação/Nancy Bleck

O objeto de estudo do doutor Bakan são os psicopatas, mas ele não é médico psiquiatra nem psicólogo. Nem seus "pacientes" são de carne e osso. São pessoas de natureza diferente, as pessoas jurídicas. O advogado Joel Bakan ganhou fama mundial estudando uma instituição com graves problemas na cabeça: as corporações. A partir da 14ª emenda da Constituição americana, feita para proteger os direitos dos recém-libertos escravos e argumento legal usado para transformar empresas em pessoas jurídicas, ele traça o perfil psicológico dessa forma de organização empresarial que entende ter sido criada para agir como um psicopata. O seu diagnóstico é A corporação: A busca patológica por lucro e poder, livro agora lançado no Brasil, que deu origem ao premiado documentário de mesmo nome, já exibido nos cinemas daqui. No livro, e no filme, Joel analisa as práticas que considera nocivas de corporações mundiais como General Motors, Enron, Nike, Shell,Wal Mart. Empresas que, pela própria natureza e com autorização do Estado, só podem se preocupar em gerar riqueza para seus acionistas, sem se importar com as conseqüências para o restante das pessoas. E que cada vez mais mandam no mundo, conseqüência da globalização neoliberalista, cujos efeitos fazem eco em países periféricos como o Brasil - constantemente explorados na sua força de trabalho e seus recursos naturais. O resultado é um perfil detalhado da atual ordem econômica mundial, apoiado por entrevistas de executivos das empresas e estudiosos como Noam Chomsky, Naomi Klein e Milton Friedman. Da sua sala, na Universidade de British Columbia, no Canadá, o advogado com graduação em Oxford e mestrado em Harvard, explicou por telefone para a CULT a patologia de seu "paciente".

CULT - Você acha que o sistema econômico vigente está nos levando à nossa própria ruína?
Joel Bakan - Até um certo ponto, está sim. O sistema econômico atual funciona melhor quando uma série de medidas é tomada para que a dinâmica da ganância não saia de controle. Tanto no nível internacional como em termos de sistemas regulatórios locais, temos afrouxado as rédeas e permitido que decisões orientadas por ganância sejam tomadas livremente. E isso é perigoso e destrutivo.

CULT - Como evitar isso?
J.B. - Existem muitas maneiras de dominar os aspectos destrutivos e egoístas do capitalismo corporativo. O ativismo é muito importante, seja da sociedade civil, seja de organizações não-governamentais, mas acho que um aspecto necessário para controlar essas forças é o envolvimento do Estado para garantir que o interesse público esteja protegido do caráter exploratório do capitalismo. A dificuldade é que cada vez mais o Estado facilita essas dinâmicas de exploração. Essa é uma das mensagens centrais do meu livro. Dessa maneira, vão criar um sistema capitalista que é baseado no interesse próprio, na produção e acúmulo de riqueza. Se o Estado vai apoiar isso, ele também tem a responsabilidade fundamental de proteger o interesse público de ser destruído por essa dinâmica.

CULT - Mas, com as corporações financiando campanhas políticas, é possível confiar no governo para proteger o interesse público e controlar as companhias?
J.B. - Essa é o problema fundamental que enfrentamos hoje. O Estado foi capturado pelo interesse das corporações não apenas por meio do financiamento das campanhas políticas e do lobby, mas também pela ameaça de uma coisa chamada greve do capital: se o governo impuser normas e regulações sobre a corporação, ela simplesmente vai embora fazer sua sede em outro estado ou país onde essas restrições não existam. Através de mecanismos diferentes, as corporações exercem influência no Estado, tornando muito difícil para o governo em exercício proteger o interesse público. É muito difícil dizer para confiarmos no Estado como ele existe agora. Meu argumento é que, em vez de abandonar o projeto de ter controle estatal da economia e contarmos apenas com a sociedade civil e o ativismo nas ruas, o que precisamos fazer é redemocratizar o Estado. Pegar o ideal que fundamenta o estado democrático e fazer dele uma realidade.

CULT - Algum dos candidatos à presidência dos Estados Unidos pode mudar essa situação?
J.B. - Acho que o sistema político americano é muito enraizado no interesse corporativo. É um desafio substancial para as pessoas dentro desse sistema, e cidadãos em geral, tentar quebrar as amarras que as corporações têm no processo político americano. Não acho que seja impossível, mas não acho que possa ser feito apenas por um presidente. Seja ele Barack Obama, Hillary Clinton ou qualquer outro. Acho que tem de haver uma ampla atividade dos cidadãos para convencê-los de que eles têm o poder, o direito e, de fato, a responsabilidade de tomar o controle do Estado. É assim numa democracia. Observando os candidatos desta eleição presidencial americana, provavelmente o que tem mais probabilidade de criar esse tipo de sentimento nos cidadãos é Obama. Não por quem ele é, mas pelo que ele parece estar inspirando entre os cidadãos: ajudar as pessoas a resgatar seu senso de cidadania.

CULT - O que você acha desses novos governos de esquerda da América Latina? Como Hugo Chávez, na Venezuela, e Evo Morales, na Bolívia.
J.B. - É difícil colocar esses governos num bloco só. Cada um deles é diferente dos outros e tem problemas diferentes. No entanto, o que eles têm em comum é a sensibilidade de que o Estado tem papel importante para garantir a proteção dos interesses públicos e coletivos; e que, conquanto o mercado e as corporações também tenham papel importante, eles não são sagrados - são maneiras de alcançar objetivos públicos, em vez de um fim.

CULT - Você é a favor de programas de distribuição de renda como os que Lula está fazendo no Brasil?
J.B. - Tentativas sérias de promover uma distribuição mais igual de renda são cruciais e parabenizo o governo brasileiro por reconhecer esse fato. Mais importante: embora a redistribuição de renda seja particularmente urgente em países mais pobres, é também um problema crítico em países como Canadá e Estados Unidos.

Revista Cult

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Resistindo ao choque

A jornalista e ativista canadense Naomi Klein analisa o novo estágio do capitalismo pós-11 de setembro: a privatização do desastre

Por Eduardo Socha

Seu nome circula em todo debate que questiona a arrogância do pensamento único e a imposição do neoliberalismo como modelo econômico irrevogável na era da globalização. Naomi Klein, 38, tornou-se mundialmente conhecida depois do sucesso de Sem logo -  A tirania das marcas em um planeta vendido. Lançado em 2001 e traduzido para 28 idiomas, o livro superou a marca de um milhão de cópias vendidas, fato surpreendente para um volume de 500 páginas que se propõe a denunciar em detalhes os efeitos nocivos do branding, além das práticas de extorsão e exploração do trabalho de corporações como Nike, The Gap, Microsoft e McDonalds. Tornou-se rapidamente um dos maiores manifestos do movimento anti-globalização.

Dois anos após o lançamento de uma pequena coletânea de artigos escritos para imprensa, Cercas e janelas, chega ao Brasil a tradução de seu terceiro livro, A terapia do choque - A ascensão do capitalismo do desastre, resultado de mais de seis anos de pesquisas sobre as reações de governos alinhados à ideologia neoliberal aos desastres cada vez mais freqüentes - da guerra no Iraque ao tsunami. A autora analisa a estreita relação dessas reações com a teoria dos choques econômicos proposta por Milton Friedman, prêmio Nobel de Economia em 1976 e um dos fundadores da ortodoxa Escola de Chicago; teoria esta que, segundo a autora, guardaria semelhanças assombrosas com as técnicas de tortura da CIA, descobertas há pouco tempo. Ligando neoliberalismo ao uso da violência, parte significativa do livro é dedicada à história recente dos golpes militares na América Latina, em especial o Chile do governo Pinochet, onde teria ocorrido o primeiro "laboratório vivo" para a implantação das idéias radicais de Friedman.

Klein contribui regularmente para o jornal britânico The Guardian e para revista norte-americana The Nation. Co-produziu com o marido, Avi Lewis, o documentário Sin Patrón - The Take, que relata a ocupação de fábricas argentinas, falidas após a crise econômica de 2001, por parte de seus trabalhadores. Possui doutorado em Direitos Civis pela Universidade King’s College de Nova Scotia, no Canadá, e lecionou como convidada na London School of Economics.

Nesta entrevista exclusiva dada à CULT por telefone, de sua casa em Toronto, durante uma pausa em sua agenda de viagens, ela fala sobre o conceito de capitalismo de desastre, sua relação pessoal com o tema durante sua estada na Argentina, os impasses da questão ambiental e as possíveis alternativas ao neoliberalismo que podem surgir com os governos de esquerda da América Latina.

Divulgação/ Andrew Stern

CULT - Um dos principais objetivos do seu livro é mostrar que os conceitos de neoliberalismo e democracia são internamente incompatíveis, certo?

Naomi Klein - O propósito principal do livro é contestar a alegação central da máquina de propaganda neoliberal, que procura identificar pessoas livres com o que eles chamam de mercado livre. Tento mostrar que democracia e neoliberalismo entram diretamente em conflito.

CULT - Essa forma de capitalismo não nasce da liberdade e sim do uso da força…

NK - Sim, uso da força e uso de crises. A razão pela qual me concentro em crises é porque elas criam uma zona livre de formas democráticas, um estado de emergência no qual regras democráticas não se aplicam. Mesmo que seja uma democracia formal, no papel, os agentes políticos podem suspender tais regras para impor suas medidas.

CULT - Por que a implementação dessas medidas depende tanto de crises, sejam naturais ou forjadas? Por que precisariam até mesmo do uso tirânico de forças?

NK - Porque  as pessoas resistem a essas medidas quando têm a oportunidade e a possibilidade de se organizar. No livro, cito o economista John Williamson, que criou a expressão "Consenso de Washington". Ele diz que "devemos começar a pensar em aumentar as crises de hiperinflação a fim de colher os benefícios da reforma", em referência direta ao Brasil como possível candidato a essa estratégia - o que achei muito interessante. A razão pela qual os estados de exceção ou de emergência são tão importantes vem do fato de que as pessoas se organizam para proteger seus interesses. Essa é a ironia. A teoria do mercado livre está baseada na idéia de que as sociedades devem ser organizadas de tal maneira a permitir que as pessoas lutem por seus próprios interesses. O problema é que isso é válido apenas parcialmente, pois quando as pessoas defendem alguns interesses específicos, como melhoria de condições de trabalho, manutenção de serviços públicos, entram em ação as medidas de exceção. Não é uma idéia complicada. As táticas de choque são empregadas porque as políticas neoliberais não têm o apoio da maioria. Algumas peças da plataforma têm apoio, mas, em geral, privatizações, cortes de gastos em serviços sociais, livre comércio, não são medidas populares. De modo que é preciso haver estratégias alternativas para contornar a democracia e é aí que as crises entram.

CULT - Desde o começo do livro você deixa claro que a expressão "doutrina do choque" não se trata apenas de uma metáfora. De onde veio esta idéia de propor a relação entre as técnicas de tortura da CIA e a implementação da idéias econômicas de Milton Friedman?

NK - Parte veio por morar na Argentina, quando começou a invasão do Iraque. Era um momento muito particular no país, em 2002, porque se vivia uma crise econômica e, ao mesmo tempo, a abertura para uma discussão muito mais abrangente sobre o período da ditadura do que antes. A Argentina tem um movimento de direitos humanos muito forte, mas nos anos 1990 esses grupos ainda eram politicamente marginais. O debate sobre o período da ditadura estava concentrada na questão dos direitos humanos, mas quando a economia entrou em colapso, a discussão foi ampliada e as pessoas começaram a fazer conexões entre o modelo econômico que fracassou de maneira tão retumbante e o período da ditadura quando esse modelo foi introduzido. E o que se ouvia constantemente era que essas políticas econômicas foram instauradas mediante o uso da violência, do choque. Quando a guerra do Iraque começou, os argentinos fizeram comparações entre o que aconteceu no país nos anos 1970 e o que estava acontecendo no Iraque. Foi isso que me fez querer entender as conexões entre os diversos tipos de choque, pois já estavam sendo feitas nas ruas da Argentina. Era uma maneira nova de interpretar a história - eu sabia da ditadura militar, mas não sabia que a agenda econômica era tão clara. No livro cito a carta aberta de Rodolfo Walsh à Junta Militar. Naquele tempo, em Buenos Aires, essa carta tomou vida própria: era lida em parques, assembléias de bairros, na frente das casas de generais, no rádio. Isso me fez querer entender essas conexões e querer viajar ao Iraque. Alguns amigos jornalistas argentinos, especialmente Claudia Acuña, descreveram como era difícil perceber as razões por trás do terror quando se está vivendo a situação. No momento em que dizia isso, Paul Bremer chegava ao Iraque e anunciava uma transformação econômica radical, dizendo que o país estava aberto para negócios. Mesmo assim, toda a atenção jornalística estava concentrada na guerra e não no programa econômico. Então senti que, depois de ter aprendido essa lição na Argentina, tinha a responsabilidade, como jornalista e escritora, de ir ao Iraque e pesquisar a verdadeira causa da violência. Foi depois dessa experiência que li o manual de interrogatório da CIA, pois eu estava no Iraque quando estourou o escândalo de Abu Ghraib.

CULT - O que significa exatamente "capitalismo do desastre"? É um conceito realmente novo ou é apenas uma nova expressão para uma velha premissa capitalista? Afinal, devastações e crises sempre criaram oportunidades de negócio, são internos ao processo de acumulação capitalista..

N.K. - Acho que o conceito de "destruição criativa", de Joseph Schumpeter, está muito ligado ao que descrevo. No sentido de que o capitalismo cria crises, de que executa constantemente criação e destruição. Mas estou falando de algo menos orgânico que isso. Trata-se aqui de uma estratégia política deliberada, de uma filosofia de poder; não apenas de ciclos naturais do capitalismo, em que uma nova tecnologia destrói um modelo econômico anterior e, a partir dessa destruição, um novo nível de criação surge. Trata-se de um conceito que foi profundamente compreendido e articulado por Williamson: que você precisa de uma crise para aprovar um conjunto específico de diretrizes econômicas. Acho que há algo de novo e antigo no que estou documentando. Veja o que aconteceu com após o furacão Katrina, exemplo clássico do capitalismo do desastre. Não considero o Katrina um desastre "natural" porque foi envolveu uma clara omissão do Estado - no sentido de que as barragens estavam deterioradas. Imediatamente depois do ocorrido, um político republicano, Richard Baker, disse "não pudemos limpar os projetos de conjuntos habitacionais, mas Deus fez isso por nós". Isso é o capitalismo do desastre! É uma idéia muito velha, que já existia na mentalidade colonial. Na América do Norte, os colonos que ocuparam a Nova Inglaterra tinham uma teoria religiosa sobre a varíola, pois a causa principal de mortalidade dos índios era a doença. Nos diários da época, falava-se da moléstia como uma dádiva de Deus. De diversas maneiras, estavam usando a mesma formulação que o político republicano. Quando a varíola acabou com diversas comunidades do Iroquois e a terra deles foi invadida pelos colonos, Deus foi invocado, e o desastre foi visto com um ato divino. Então, sim, isso não é novidade [ risos]. Mas, o que há de novo aqui, e que vimos em Nova Orleans, é que não apenas o desastre foi utilizado para a privatização do sistema educacional e habitacional, mas a resposta ao próprio desastre foi vista como oportunidade de mercado. E essa é realmente a última fronteira para o neoliberalismo. Todas as partes do estado foram privatizadas: estradas, eletricidade, telefone, água. Havia sobrado apenas as funções fundamentais: os militares, a polícia, os bombeiros. Mas agora estamos assistindo ao surgimento de um complexo do capitalismo do desastre: negócios que dependem diretamente desse conjunto de crises e desastres. Bombeiros privados, empresas como a Blackwater [ empresa militar privada], que apareceu em Nova Orleans pronta para substituir a policia, o Helpjet, um serviço que proporciona um plano de fuga rápido e luxuoso, com direito a limosine, no caso de furacão. Acho que estamos vendo isso agora na crise dos alimentos, no sentido de que esse desastre torna altamente lucrativo o setor corporativo do agrobusiness. Acho que precisamos entender os desafios que enfrentamos, principalmente relativos à mudança climática. Está muito claro que existe uma parcela da economia cujo desempenho é favorecido conforme a situação piora. Não são apenas as empresas de armamentos. São as companhias de petróleo, de agronegócios, de biocombustíveis, farmacêuticas, empreiteiras, companhias de segurança. Precisamos mapear essas empresas que, com um lobby poderoso, impedem mudanças efetivas para nos tirar desse processo de crises contínuas.
(…)

Revista Cult

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A menina que sofria do “mal de mãe”

 

por Paulo Schiller

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(As duas mães de Mila, de Clara Vidal. Tradução de Paulo Schiller. Edições SM, 2006, 78 págs., R$ 23.00)

Especialistas estimam que um terço das pessoas que apresentam sintomas de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) são crianças e adolescentes. O diagnóstico normalmente é difícil e muitas vezes só é possível quando pais ou professores observam no comportamento do paciente tendência ao perfeccionismo, isolamento e excessiva timidez. É muito comum que as crianças não reconheçam que suas atitudes são exageradas e sem sentido, ou tenham vergonha, preferindo escondê-las dos adultos. O quadro se agrava com a dificuldade dos pais em aceitar que o filho esteja com o distúrbio, por constrangimento diante dos outros. As duas mães de Mila, da escritora francesa Clara Vidal, apresenta a dolorosa história da menina que, dos 9 aos 15 anos, desenvolve rituais obsessivos como defesa para as situações de violência psíquica que enfrenta dentro de casa. O livro faz parte da coleção Estado de alerta, da editora SM, que reúne histórias sobre momentos de crise protagonizados por crianças ou adolescentes.
Leia a seguir trechos do romance e o posfácio do psicanalista Paulo Schiller, tradutor da obra.

As duas mães de Mila
“Mila tem duas mamães. Ela tem certeza disso, desde bem pequena. Desde que viu na TV um desenho animado de duas heroínas que eram gêmeas. Duas menininhas idênticas, mas que tinham personalidades muito diferentes. Uma era doce e delicada, a outra, violenta e malvada. A mãe de Mila é assim. Às vezes rosa e delicada, às vezes cinza e malvada. São com certeza duas pessoas, duas irmãs gêmeas, que dividem a educação de Mila. Ela não se pergunta se o pai sabe disso. E não discrimina qual das duas é a verdadeira mãe. Há dias em que Mila quer que a mãe verdadeira seja a rosa e delicada, pois é muito mais agradável. Mas acontece também de Mila sentir pena da cinza, malvada, raivosa, que vive chorando muito. Quando a mãe cinza diz que está infeliz e doente, Mila tem vontade de fazer tudo para consolá-la e vê-la sorrir.
É assim que Mila vive, entre as duas mães, uma rosa e outra cinza. Não é muito difícil. Quando a mãe está de bom humor, é com certeza a mãe rosa que chegou. Quando ela se transforma numa harpia1, foi a mãe cinza que tomou o seu lugar. O jeito, então, é esperar que a mãe rosa volte.”
(…)
“No auge da preocupação, Mila inventa uma fórmula mágica a fim de transferir para si mesma o mal-estar da mãe: “Mamãe, dê-me a sua doença. Eu te dou a minha saúde”. Ela repete a frase mentalmente até se sentir esgotada, com a sensação de que a saúde da mãe depende dela, de que é responsável por sua cura.
Certa noite, à mesa, depois de uma crise, mamãe está servindo o jantar, ainda muito abatida. Volta-se para Mila e diz:
– Você contou pro seu pai o que me aconteceu?
O pai lança um olhar resignado para a filha. Ele compreende, uma vez mais. Socorre-a:
– Você teve de novo uma das suas indisposições, como de costume?
– Não, justamente, não como de costume. Dessa vez tive de verdade a impressão de que ia acabar. Um dia desses não vou escapar.
– Cale-se. Você sabe muito bem que isso faz mal à menina!
Mila ocupa-se em desenhar “erres” sobre a toalha com o indicador. E, ao lado de cada “r”, ela acrescenta um “s”, de “saúde”, não só para que a mãe volte a sorrir, mas também para que tenha boa saúde. De noite, ao dar as voltas pelo quarto, ela acaba acrescentando também a letra “s” aos seus encantamentos.”


© FrankyDeMeyer/istockphoto

(c) FrankyDeMeyer/istockphoto

A crueldade à espreita
Por Paulo Schiller
Mila não é única. A história de Mila não é incomum como desejaríamos que fosse. Por outro lado, com certeza existem muitas mães melhores que a dela, mais suaves, amorosas e dedicadas. Com diferentes intensidades, a distância e a omissão do pai de Mila também não são raridade nas narrativas escutadas no cotidiano dos consultórios de psicanálise ou de psicoterapia. Para além das famílias mais “saudáveis”, se abre todo um espectro de relações entre pais e filhos que se estende de vínculos simbióticos, quase incestuosos, a situações em que prevalece o desprezo e, às vezes, a maldade.
É sedutor pensar que a maldade depende de um gene extraviado ou que a crueldade nasce de um desarranjo bioquímico em um grupo de células cerebrais.
É confortável nomear sob diagnósticos precisos a anorexia, a depressão e as obsessões. Além da ilusão de conhecimento e de domínio, a nomeação nos autoriza a prescrever drogas discutíveis e de valor efêmero que amortecem a busca pelas causas da melancolia, da tristeza e do mal-estar próprios da natureza humana.
A medicação irresponsável de crianças, novidade incentivada pela indústria farmacêutica, alimentada sem critérios cuidadosos pelos meios de comunicação, se vale da complacência da sociedade, que assim se livra de suas responsabilidades. Mila seria hoje rotulada por alguns como portadora, entre outros males, de um transtorno obsessivo-compulsivo, candidata ao uso da droga do momento. Entretanto, durante a leitura do livro, acompanhamos, impotentes, a lógica impiedosa da montagem que resultou em seus sintomas. Em certo sentido, Mila teve sorte. Ao final, abriu-se para ela a possibilidade de falar, de desmontar e de se libertar não dos seus genes, mas dos seus fantasmas, do seu romance familiar.

A crueldade, também própria do homem, nos espreita.
Quase sempre de longe, nas palavras e ilustrações dos livros de história, nas narrativas de tragédias em terras e tempos remotos. Dizemos, conformados, que as guerras sempre existiram, que a violência é parte da natureza humana. Algumas vezes, a crueldade emerge dos textos e das telas e aparece no presente, viva, próxima, palpável. Irrompe na vizinhança, trai ou atinge um conhecido, denuncia um parente distante, aproxima-se ameaçadora.
Pressentimos, embora de uma forma nebulosa, que a crueldade retratada nos livros de histórias nasce entre as paredes que delimitam a vida familiar.
Toda professora sabe que, para além da inocência, a intriga e a maldade permeiam as relações entre as crianças e desconfiam, acertadamente, que elas reproduzem situações domésticas. Toda babá sabe que a sexualidade nos marca desde os primeiros anos, a despeito do devaneio dos sonhadores que pretendem ver na infância um tempo apenas de alegrias e encantamentos.
Os conflitos retratados na paisagem que se mostra pela janela aberta para o mundo infelizmente demonstram que não existe nenhuma evidência de que os pais fazem, concretamente, o melhor pelos filhos. Apesar das recomendações religiosas, morais e pedagógicas, apesar do conhecimento hoje amplamente disponível, não há pai ou mãe que não tenha sido surpreendido um dia pelo pensamento fugaz, verdadeiro, que revela um momento de negligência ou de descuido. Temos, em um plano mais ou menos superficial, certa consciência das nossas faltas e transgressões. Não somos, talvez sem exceções, ilhas de santidade cercadas de maldade por todos os lados.

Paulo Schiller é tradutor, psicanalista, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). É autor de A vertigem da imortalidade: segredos, doenças. (Companhia das Letras, 2000).

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A torneira está aberta

 

27/06/2008 13:20:14

Revista Carta Capital

Rodrigo Martins

capacapitalNa Europa, o inquérito sobre o esquema de propinas alimentado pela Alstom está próximo de um desfecho. O juiz federal suíço Ernst Roduner afirmou que já detém informações que comprovam pagamentos da multinacional francesa a funcionários públicos estrangeiros. Por ora, ele prefere não revelar os nomes dos beneficiários. É prudente. Antes de procurar os holofotes, quer colher os depoimentos de suspeitos.

Pena que a Justiça suíça não teve a mesma cautela antes de confiar aos investigadores brasileiros pilhas de documentos sigilosos, reunidos ao longo de quase quatro anos de trabalho. Os europeus estavam dispostos a ajudar os promotores nativos no mapeamento dos receptores da propina no País, responsáveis por assegurar contratos milionários da Alstom com estatais paulistas. Encaminharam ao Ministério da Justiça, em meados de maio, informações valiosíssimas sobre as ramificações do esquema e os principais suspeitos. Mas, tão logo as informações chegaram ao Brasil, boa parte das evidências ganhou as páginas dos jornais.

As provas reunidas até então viraram notícia antes que os acusados fossem convocados a depor no Ministério Público ou que a Justiça pudesse autorizar a quebra do sigilo fiscal das empresas que intermediaram a negociata. Quem tinha algo a esconder teve tempo de sobra para eliminar vestígios. Não por acaso, a Justiça suíça interrompeu o envio espontâneo de novos documentos ao Brasil. Agora, os arquivos são encaminhados somente após requerimentos oficiais do governo federal.

Em conversas informais, autoridades que acompanham o caso não escondem o descontentamento com o que consideram ser “um vazamento criminoso, com prejuízos incalculáveis para as investigações”. Os responsáveis pela trapalhada não dão as caras. Mas não é difícil relacionar as prováveis fontes das informações sigilosas. Todos os documentos enviados pelos suíços passaram pelo Ministério da Justiça e, em seguida, foram remetidos aos promotores envolvidos no caso. Em alguma dessas pontas, a torneira está aberta. 

O promotor Sílvio Marques, do Ministério Público Estadual, diz não ser o autor dos vazamentos. Sempre que é procurado por CartaCapital, afirma que a investigação segue sob sigilo. Rodrigo de Grandis, da Procuradoria da República em São Paulo, nem sequer atende os telefonemas da revista. No Ministério da Justiça, os assessores de imprensa estão orientados a falar que o conteúdo dos documentos não pode ser divulgado em hipótese alguma. Mas, se os funcionários desses três órgãos estão de fato comprometidos com o sigilo das investigações, quem mais teria repassado as informações? 

Na esteira das informações vazadas à imprensa, talvez o caso mais emblemático seja o de Robson Marinho, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE), coordenador da campanha eleitoral de Mário Covas em 1994 e chefe da Casa Civil do governo do Estado entre 1995 e 1997. Bilhetes trocados por executivos da Alstom, e apreendidos na subsidiária suíça da empresa, apresentam as iniciais “RM” e fazem referência a um “ex-secretário do governador”, possivelmente encarregado de intermediar “gratificações ilícitas” para beneficiar pessoas ligadas ao governo e também no tribunal. O mesmo memorando que cita as iniciais revela que a propina a ser paga seria de 7,5% em relação a um contrato de 110 milhões de reais da Eletropaulo. 

O Ministério Público Federal solicitou ao Superior Tribunal de Justiça uma investigação criminal contra o conselheiro, protegido por foro privilegiado. O pedido foi ajuizado duas semanas após a divulgação do nome de Marinho pelos jornais. Àquela época, ele teve de justificar aos jornalistas, e não aos promotores, as relações que mantinha com a Alstom. 

De acordo com autoridades envolvidas na investigação, esse vazamento foi o primeiro fato a esfriar as relações entre os investigadores europeus e brasileiros. Na seqüência, vieram muitas outras revelações das descobertas feitas pelos suíços. 

Já são de conhecimento público, por exemplo, os nomes de seis empresas offshore, constituídas em paraísos fiscais, que receberam o equivalente a 13,5 milhões de reais, entre 1998 e 2001, para repassar parte do dinheiro a empresas ligadas a políticos paulistas, por meio de consultorias de fachada. A MCA Uruguay Ltda., com sede nas Ilhas Virgens Britânicas e então administrada pelo empresário brasileiro Romeu Pinto Jr., é uma das que mais receberam depósitos. Os pagamentos somam 8,7 milhões de reais, em valores corrigidos. 
Também é suspeita de integrar o esquema a Taltos Ltda., administrada por José Geraldo Villas Boas, ex-presidente da Companhia Energética de São Paulo (Cesp). Chamado pela Alstom para ajudar a empresa a ganhar um contrato de instalação de subestações elétricas para a estatal Eletropaulo, ele teria recebido depósitos na soma de 7,8 milhões de francos (o equivalente a 1,4 milhão de dólares, na época), por meio de uma conta na Suíça pertencente à offshore
Ao Wall Street Journal, Villas Boas admitiu ter feito serviços de consultoria à Alstom, alguns deles “fictícios”, apenas para “realizar um pagamento”. “A quem?”, indaga o jornal. “O quê? Você quer que eu leve um tiro?”, rebate. 

Os promotores suíços também possuem documentos que indicam que a Alstom transferiu 5 milhões de dólares, entre 1998 e 2003, para um intermediário próximo ao governo tucano, identificado no papel como Cláudio Mendes. Uma incógnita até o início dessa semana, o Ministério Público paulista acredita que ele possa ser o empresário Cláudio Luiz Petrechen Mendes, suspeito de fazer lobby junto ao governo estadual do fim da década de 1980, durante a gestão Orestes Quércia (PMDB), até 2004, já na administração do tucano Geraldo Alckmin. É um dos únicos que foram ouvidos pelo MP antes de aparecer nos jornais. 
A investigação sobre a Alstom começou em 2004, quando as autoridades suíças descobriram acidentalmente documentos que detalham pagamentos de propina da empresa na América do Sul e Ásia. Os auditores da KPMG Fides Peat, a serviço da comissão bancária federal da Suíça, encontraram arquivos que revelam o envio ilegal de 31 milhões de dólares da Alstom para empresas fantasmas e contas de bancos na Suíça e em Liechtenstein. Os beneficiários seriam funcionários públicos que negociaram com intermediários da empresa no Brasil, na Venezuela, em Cingapura e na Indonésia. 
O Ministério Público francês entrou nas investigações apenas em 2007, para averiguar a participação da sede da empresa em Paris. Somente depois de o diário americano Wall Street Journal divulgar o teor das investigações, no início de maio, é que os promotores brasileiros passaram a averiguar as relações da empresa com o poder público no País. A reportagem informava que a empresa havia repassado 6,8 milhões de reais a políticos brasileiros, para ganhar um contrato de 45 milhões de reais com o Metrô de São Paulo. 
Embora já se conheçam alguns dos intermediários que operavam no Brasil, ainda restam dúvidas sobre os beneficiários finais da propina. Trata-se das pessoas que realmente tinham poder de influenciar na contratação da empresa em obras públicas. 
Debruçada sobre mais de 150 contratos firmados entre o governo paulista e a Alstom desde 1989, a bancada do PT na Assembléia Legislativa identificou dezenas de irregularidades em contratos com estatais, alguns deles também reportados pelo Tribunal de Contas. Mas os petistas não conseguem instaurar uma CPI. Qualquer iniciativa nessa direção é barrada pela ampla maioria governista na Casa. “Tentamos chamar representantes da Alstom na CPI da Eletropaulo, mas os tucanos também impediram essa manobra”, lamenta o deputado Antônio Mentor (PT), que presidiu a comissão. 
Com o limitado poder de fiscalização dos parlamentares, o Tribunal de Contas sob suspeição e o vazamento desenfreado de informações sigilosas, causa preocupação o rumo que a investigação terá no Brasil. Em jogo, está a herança de quatro anos de investigação conduzida pelos promotores europeus.

Carta Capital

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SP tem 14 áreas com nível severo de poluição

 

Índice é o mais alto entre as classificações da Cetesb, que fez análise da concentração de poluentes em 80 pontos de 2005 a 2007

Problema mais grave é o ozônio, que aparece com 11 registros em nível crítico; USP e Ibirapuera estão entre os locais com níveis mais altos

Caio Guatelli/Folha Imagem
avião

Aviões no aeroporto de Congonhas, região em que a poluição do ar é alta; Estado tem 14 áreas com índices considerados severos

AFRA BALAZINA
JOSÉ ERNESTO CREDENDIO
DA REPORTAGEM LOCAL

O Estado de São Paulo tem hoje 14 áreas em que o nível de poluição é considerado "severo", índice mais alto entre as classificações da Cetesb, que faz uma tabela baseada na concentração de poluentes registrada entre 2005 e 2007 em 80 pontos de monitoramento. O problema mais grave é o ozônio, com 11 registros entre os níveis mais altos de um total de 28 estações medidoras.
É a primeira vez que a Cetesb (agência ambiental paulista) faz uma graduação da saturação desse poluente -até então, o órgão indicava somente se a área estava saturada, não saturada ou em vias de saturação.
Entre as estações que foram apontadas como em situação severa estão Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, e USP, na zona oeste. A classificação foi feita para orientar o programa que pretende restringir o aumento e ainda tentar reduzir as emissões de poluentes nas áreas mais poluídas.
Apesar de todas as regiões saturadas serem consideradas preocupantes, as com classificação "severa" têm qualidade do ar ruim por mais tempo, ou maior intensidade de poluição, do que as áreas com classificação "séria" e "moderada".
Com base num decreto de 2007 do governador José Serra (PSDB), a Cetesb vai condicionar a liberação de licenças para empreendimentos em áreas saturadas à implantação de programas contra a poluição.
A legislação permite até que a Cetesb impeça a instalação de indústrias em locais em que, devido aos índices de poluição, houver dano potencial à saúde, caso as emissões aumentem.
Em dois anos, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente planeja ver em funcionamento um sistema semelhante ao de créditos de carbono. Se uma empresa pretende emitir mais poluentes, por exemplo, terá de financiar a redução deles com investimentos na região em que opera.
Uma das fórmulas de operar com esses créditos será, ainda como exemplo, aplicar recursos na renovação da frota de ônibus que circula naquela área ou dotar empresas vizinhas de equipamentos antiemissão.
Segundo Marcelo Minelli, diretor de Engenharia, Tecnologia e Qualidade Ambiental da Cetesb, a classificação é importante para estabelecer metas de redução de emissões de poluentes para a atmosfera.
De certa forma, porém, o decreto é mais permissivo que o anterior, de 2006, que, porém, jamais foi posto em prática. No mais recente, as emissões decorrentes de ampliações de indústrias não precisam ser compensadas até 2012 -apenas novas fábricas devem fazer compensações.
O secretário do Meio Ambiente, Xico Graziano, diz que todo o processo de ajuste do decreto foi discutido com a Fiesp (federação das indústrias do Estado). Ele afirma que o decreto anterior era bom na teoria, mas não funcionava.
Segundo Minelli, apesar de não ser o objetivo do decreto, uma de suas conseqüências é que as empresas têm modernizado os projetos e feito maiores investimentos para poder reduzir as emissões e evitar a necessidade de compensação.
Ozônio e saúde
O ozônio é tóxico quando está na troposfera (mais próximo ao solo), onde as pessoas respiram. Entretanto, na estratosfera (a cerca de 25 km de altitude), tem a função de proteger a Terra dos raios ultravioleta.
Quando a qualidade do ar está ruim por ozônio, pessoas com doenças respiratórias têm os sintomas agravados, e a população em geral pode apresentar ardor nos olhos, nariz e garganta, tosse seca e cansaço.
Além das áreas em nível "severo", outras seis estações ficaram classificadas como saturadas em nível "sério" -entre elas, São José dos Campos e Paulínia- e mais sete foram qualificadas como saturadas em nível "moderado" -caso de Americana, Ribeirão Preto e Sorocaba, no interior, e de Pinheiros, na zona oeste de SP.
Apenas a estação de Jaú-Cartódromo aparece fora da lista de saturadas, mas está próxima de integrar a relação: está classificada como quase saturada.
O ozônio se forma a partir de reações químicas entre óxidos de nitrogênio e compostos orgânicos voláteis na presença de luz solar -por isso, em dias bonitos a poluição é pior no caso desse poluente. Áreas como a USP e o Ibirapuera sofrem mais com o ozônio principalmente por receberem muita luz solar.

Folha de S. Paulo - 12 de junho de 2008

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Programa das ciclovias não sai do papel

Matéria da Folha de S. Paulo de 15 de junho último…

Sistema prevê uso de bicicleta como meio de transporte; secretaria não pode gastar verba com ciclovias fora de parques

Coordenadora do Pró-ciclista diz que falta de autonomia para fazer obras; projeto cicloviário da cidade ficará pronto no fim do ano

RICARDO SANGIOVANNI
DA REPORTAGEM LOCAL

PATRÍCIA GOMES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Um ano e quatro meses após a aprovação da lei que criou o “sistema cicloviário municipal” de São Paulo, a gestão Gilberto Kassab (DEM) não inaugurou nenhuma ciclovia destinada ao uso da bicicleta em vias públicas, como meio de transporte.
Com 23,5 km de ciclovias -apenas 4,5 km deles fora de parques, segundo a prefeitura- São Paulo subaproveita a bicicleta como veículo e não atende à demanda das cerca de 370 mil pessoas que a utilizam diariamente (para comparação, cerca de 1,7 milhão usam o carro todos os dias). Os dados são de pesquisa Ibope/Nossa São Paulo do final de 2007.
Essa quantidade de ciclistas, que corresponde à estimativa da prefeitura, é quase seis vezes a de 2002 -ano do último dado oficial sobre o assunto.
Desde 2006, o município possui um órgão responsável por fazer a lei sair do papel, por meio de estudos e da implantação de um sistema de ciclovias interligadas na cidade -o Pró-ciclista (Grupo Executivo de Melhoramentos Cicloviários).
Porém, por ser ligado à Secretaria do Verde e Meio Ambiente -e não à dos Transportes, por exemplo-, o Pró-ciclista tem poder executivo limitado: o órgão não pode empregar seu orçamento (R$ 11,8 milhões neste ano) em obras no sistema viário, porque a secretaria à qual pertence não tem autonomia para licitar e construir ciclovias fora de parques.
O grupo ainda não possui sequer o esboço de um projeto cicloviário para toda a cidade -algo que só deve ficar pronto no fim do ano, segundo Laura Ceneviva, coordenadora do Pró-ciclista. “Temos o recurso, mas falta autonomia e estrutura administrativa.” O grupo tem 12 membros de seis secretarias -desses, só cinco em regime de dedicação exclusiva.
A comparação com grandes cidades que adotaram ciclovias nos últimos anos revela quão tímida é a política paulistana.
Bogotá, na Colômbia, construiu 340 km de ciclovias em sete anos -mais da metade implantadas de 1998 a 2000, um ano após o início dos estudos.
Segundo o ITDP (ONG que pesquisa alternativas em transportes), hoje 54% das residências têm bicicletas, e 66% do uso das ciclovias é para ir ao trabalho ou à escola.
Nova York, nos EUA, que tem 8,2 milhões de habitantes, fez cerca de 180 km de ciclovias nos últimos dois anos -o plano é ter 480 km ainda em 2009.
Enquanto isso, em São Paulo, usar a bicicleta segue sendo um ato de coragem. As mortes de ciclistas na cidade, que em 2004 foram 51, chegaram a 93 em 2005 e a 84 em 2006.
“Ando de bicicleta mais pelo gosto. E pela teimosia”, diz o balconista Antônio Adelson de Souza, 54, que pedala 35 km por dia. “Os motoristas não respeitam, e até o lixo na rua é um obstáculo. Não tem pára-choque: o pára-choque é você”, conta Souza, que já foi atropelado por um automóvel.
Enquanto as ciclovias não chegam, o ciclista deve respeitar as leis de trânsito: andar pela margem direita, no mesmo sentido da via.

Folha de S. Paulo - 15 de junho de 2008

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Base de Serra encerra CPI da Eletropaulo sem citar Alstom

Relatório aprovado por deputados aliados não encontrou irregularidade na privatização

Presidente da comissão, Antônio Mentor (PT) fez texto alternativo com acusações de improbidade no empréstimo do BNDES

CLAUDIO DANTAS SEQUEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL

Tucanos e democratas comemoraram ontem o arquivamento das investigações da CPI da Eletropaulo. Por quatro votos a um, numa sessão com apenas metade do quórum efetivo, os deputados aprovaram o relatório final de João Caramez (PSDB), que não constatou irregularidades na venda da Eletropaulo ao consórcio Lightgás, em 1998, nem menciona as investigações sobre a multinacional francesa Alstom.
“Apesar de a Eletropaulo ter sido vendida pelo preço mínimo [US$ 1,8 bilhão], não encontramos indício de que o negócio tenha sido lesivo aos cofres públicos”, disse Caramez à Folha.
Relator da CPI, o tucano destacou que o montante arrecadado com a privatização “ajudou na amortização da dívida do Estado” com a União.
“Se não tivéssemos quitado aquele débito de R$ 2 bilhões, hoje seriam R$ 9 bilhões”, alegou. A justificativa, no entanto, não convenceu o presidente da CPI, o deputado petista Antônio Mentor. “Isso é hipótese. Se os ativos da Eletropaulo estivessem nas mãos do Estado, poderíamos ter hoje uma situação inversa, de lucro”, rebateu.
Mentor fez seis emendas normativas ao relatório final de Caramez e apresentou um relatório alternativo, em que denuncia prejuízo de ao menos R$ 2,4 bilhões na venda da Eletropaulo. O petista também acusou a direção do BNDES de “improbidade administrativa” na concessão do empréstimo -50% do valor do negócio- ao consórcio Lightgás, controlado pelo grupo AES Corporation.
“O BNDES prorrogou por mais 24 meses o prazo de carência para início do pagamento do empréstimo. A proposta foi votada em 24 horas, sem avaliação técnica do impacto que poderia ter no fluxo de caixa”, alertou. Mentor reproduziu no relatório a ata da reunião da diretoria do BNDES, de 2 de fevereiro de 1999.
No encontro, Fernando Perrone, então diretor de infra-estrutura, defendeu a ampliação do prazo de carência. “Havia uma expectativa, por parte do grupo, de que nós pudéssemos dar uma elasticidade. Houve uma certa negociação e nós ficamos de examinar”, diz Perrone, segundo transcrição da ata.
Mentor convocou Perrone para prestar depoimento, mas o ex-diretor não pôde comparecer. “Essa operação é altamente questionável, nebulosa”, questionou o deputado. A reportagem não conseguiu localizar Perrone.

Contratos
Na sessão final da CPI da Eletropaulo, Mentor voltou a defender as investigações sobre o caso Alstom, acusada de pagar propina a tucanos para obter vantagens em contratos no setor elétrico. O deputado cita acordos celebrados pela Eletropaulo com as empresas Cegelec e CMW, subsidiárias do grupo francês. Firmados antes da privatização, os contratos, diz o relator, “totalizam mais de R$ 10 milhões em confissão de dívida e R$ 111 milhões em projetos de modernização”.
Para Caramez, “não há clima” para investigar a Alstom.
Essas denúncias fogem do objetivo da CPI da Eletropaulo”, alegou.

Folha de S. Paulo - 1/7/08

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Brasil transgênico: ministros liberam venda de milho da Syngenta

 

19 de Junho de 2008

A Comissão Européia está sob pressão interna para rejeitar o plantio 
de duas variedades de milho transgênico no continente. Cientistas 
apontam problemas à biodiversidade e à vida selvagem.

Com a aprovação do milho da Syngenta, o Brasil agora tem três variedades transgênicas autorizadas para plantio e comercialização - as outras duas são da Monsanto e da Bayer.

 

Brasília (DF), Brasil — Variedade foi autorizada mesmo sem atender aos questionamentos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O que estava ruim ficou ainda pior. Depois de autorizar em fevereiro duas variedades de milho transgênico - uma da Bayer e outra da Monsanto -, o Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS) aprovou mais um nesta quarta-feira, desta vez da Syngenta. Oito ministros do Conselho votaram a favor da comercialização do produto - inclusive José Gomes Temporão, da Saúde, contrariando parecer técnico de um órgão de sua pasta, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A Anvisa e o Ibama entraram com recursos contra a liberação comercial pela CTNBio dos milhos da Bayer e da Monsanto porque as empresas não apresentaram estudos que comprovassem a segurança dos produtos para o meio ambiente e para a saúde humana.

Em fevereiro, Temporão votara contra a liberação dos milhos da Bayer e da Monsanto (este último é proibido na Europa) e disse que eles só teriam o registro necessário para a comercialização no país se comprovassem sua segurança - o que nenhuma das empresas fez até agora. Mas quatro meses depois, mudou de opinião, numa clara evidência de que seu voto a favor do milho transgênico da Syngenta foi político, não técnico.

Veja aqui a lista de documentos que enviamos aos ministros do CNBS e aos cientistas da CTNBio com questionamentos sobre a segurança dos milhos transgênicos à saúde humana e ao meio ambiente. Infelizmente, os documentos foram ignorados.

A aprovação do milho da Syngenta contou com 8 votos favoráveis no CNBS e três contrários - Meio Ambiente, Desenvolvimento Agrário e Aqüicultura e Pesca.

Segundo a advogada Maria Rita Reis, da Terra de Direitos, a votação poderá questionada judicialmente. Ela criticou a mudança de opinião do ministro Temporão.

"É óbvio que o voto dele teve razões políticas. Não há razão para um ministro, alguém ligado à saúde, ser radicalmente contrário à liberação e, quatro meses depois, mudar de opinião", afirmou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

MAIS 12 PEDIDOS

A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) está reunida nesta quinta-feira em Brasília para analisar 12 pedidos para a liberação comercial de variedades transgênicas de milho, algodão, arroz e soja, várias delas modificadas para se tornarem ‘inseticidas’.

Leia também:

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Do site do Greenpeace Brasil

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“Falha da Sabesp faz água do Tietê piorar” - Jornal Metro

Tratamento incompleto não elimina poluentes do rio

UMA LIMITAÇÃO no tratamento do esgoto feito pela Sabesp na Grande São Paulo impede melhoria substancial na água do rio Tietê e até agrava o nível de poluição em alguns pontos. Assim, moradores da região metropolitana e interior acabam recebendo água com alta concentração de nitrogênio e fósforo, que acabam com a vida aquática, segundo a “Folha de S. Paulo”.

A deficiência foi apontada pela Cetesb, agência do próprio governo do Estado, que também controla a Sabesp. A Cetesb coletou água em três pontos do Tietê: ponte dos Remédios, barragem Edgard de Souza e na barragem de Pirapora. E descobriu que a concentração dessas substâncias aumenta à medida que o rio avança.Já na estação de tratamento de Barueri, que recebe 70% do esgoto da região metropolitana,a água que corre após a estação é pior do que a colhida antes do local.

O pior trecho, inclusive, fica na Grande São Paulo, em Pirapora do Bom Jesus - famosa pelas placas de espuma que bóiam no rio. Para a Cetesb, o problema é que o tratamento feito não contempla uma técnica mais avançada. A agência ambiental recomenda a adoção do sistema terciário, que consegue “limpar” o Tietê do nitrogênio e fósforo.

A Sabesp afirma que esse sistema é muito mais caro e que consegue reter até 90% da contaminação no rio. Diz também que está investindo R$ 6 bilhões para aumentar o saneamento no Estado inteiro e que o índice dos dois poluentes aumenta porque os demais foram removidos da água.

Do site do Movimento Nossa São Paulo

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