Arquivo de 3 de Julho de 2008

Os novos Espelhos de Galeano

 

galeanoEscritor uruguaio lança seu livro mais recente: "Espejos. Una historia casi universal". Em tom de crônica poética, obra passeia por temas como arte, desigualdade, feminismo, mídia, impérios e resistências. "Le Monde Diplomatique" publica uma seleção de trechos, cedidos e escolhidos pelo próprio autor

Eduardo Galeano

Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos nos lembram.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, eles se vão?

Este livro foi escrito para que não partam.
Nestas páginas unem-se o passado e o presente.
Renascem os mortos, os anônimos têm nome:
os homens que ergueram os palácios e os templos de seus amos;
as mulheres, ignoradas por aqueles que ignoram o que temem;
o sul e o oriente do mundo, desprezados por aqueles que
desprezam o que ignoram;
os muitos mundos que o mundo contém e esconde;
os pensadores e os que sentem;
os curiosos, condenados por perguntar, e os rebeldes e
os perdedores e os lindos loucos que foram e são o
sal da terra

Fundação da poluição

Os pigmeus, que têm corpo pequeno e memória grande, recordam os tempos de antes do tempo, quando a terra estava acima do céu.

Da terra caía sobre o céu uma chuva incessante de pó e de lixo, que sujava a casa dos deuses e lhes envenenava a comida.

Os deuses estavam, havia uma eternidade, suportando essa descarga sebosa, quando sua paciência acabou.

Enviaram um raio, que partiu a terra em dois. E através da terra aberta lançaram para alto o sol, a lua e as estrelas, e por esse caminho subiram eles também. E lá em cima, distante de nós, a salvo de nós, os deuses fundaram seu novo reino.

Desde então, estamos embaixo.

Fundação da beleza

Estão ali, pintadas nas paredes e nos tetos das cavernas.

Estas figuras, bisões, alces, ursos, cavalos, águias, mulheres, homens, não têm idade. Nasceram há milhares e milhares de anos, mas nascem de novo a cada vez que alguém as olha.

Como eles conseguiram, nossos remotos avós, pintar de maneira tão delicada? Como eles conseguiram, esses brutos que de mão limpa lutavam contra as feras, criar figuras tão cheias de graça?Como eles conseguiram desenhar essas linhas voadoras que escapam da rocha e se vão para o ar? Como eles conseguiram …?

Ou seriam elas?

Fundação da arte de te desenhar

Em algum leito do golfo de Corinto, uma mulher contempla, à luz do fogo, o perfil de seu amante adormecido.

Na parede, reflete-se a sombra.

O amante, que jaz ao seu lado, partirá. Ao amanhecer partirá para a guerra, partirá para a morte. E também a sombra, sua companheira de viagem, partirá com ele e com ele morrerá.

Ainda é noite. A mulher recolhe um tição entre as brasas e desenha, na parede, o contorno da sombra.

Esses traços não partirão.

Não a abraçarão e ela sabe disso. Mas não partirão.

Fundação literária do cão

Argos foi o nome de um gigante de cem olhos e de uma cidade grega há quatro mil anos.

Também se chamava Argos o único que reconheceu Odisseu, quando chegou, disfarçado, a Ítaca.

Homero nos contou que Odisseu regressou, ao final de muita guerra e muito mar, e se aproximou de sua casa fazendo-se passar por um mendigo enfermiço e andrajoso.

Ninguém se deu conta de que ele era ele.

Ninguém, salvo um amigo que não sabia mais latir, nem podia caminhar, nem sequer se mover. Argos jazia, às portas de um galpão, abandonado, crivado pelos carrapatos, esperando a morte.

Quando viu, ou talvez farejou, que aquele mendigo se aproximava, levantou a cabeça e abanou o rabo.

Fundação do machismo

De uma dor de cabeça pode nascer uma deusa. Atena brotou da dolorida cabeça de seu pai, Zeus, que se abriu para lhe dar à luz. Ela foi parida sem mãe.

Tempos depois, seu voto foi decisivo no tribunal dos deuses, quando o Olimpo teve que pronunciar uma sentença difícil.

Para vingar seu pai, Electra e seu irmão Orestes haviam decepado, de uma machadada, o pescoço de sua mãe.

As Fúrias acusavam. Exigiam que os assassinos fossem apedrejados até a morte, porque a vida de uma rainha é sagrada e quem mata a mãe não tem perdão.

Apolo assumiu a defesa. Sustentou que os acusados eram filhos de mãe indigna e que a maternidade não tinha a menor importância. Uma mãe, afirmou Apolo, não é mais que o sulco inerte onde o homem planta sua semente.

Dos treze deuses do júri, seis votaram pela condenação e seis pela absolvição.

Atena decidia o desempate. Ela votou contra a mãe que não teve e deu vida eterna ao poder masculino em Atenas.

Fundação dos contos de fadas

No início do século dezoito, Daniel Defoe, o criador de Robinson Crusoe, escreveu alguns ensaios sobre temas de economia e comércio. Em um de seus trabalhos mais difundidos, Defoe exaltou a função do protecionismo estatal no desenvolvimento da indústria têxtil britânica: se não fosse pelos reis que tanto ajudaram o florescimento fabril com suas barreiras aduaneiras e seus impostos, a Inglaterra continuaria sendo uma fornecedora de lã crua para a indústria estrangeira. A partir do crescimento industrial da Inglaterra, Defoe podia imaginar o mundo do futuro como uma imensa colônia submetida a seus produtos.

Depois, à medida que o sonho de Defoe ia se tornando realidade, a potência imperial foi proibindo, por asfixia ou a tiros de canhão, que outros países seguissem seu caminho.

Quando chegou ao topo, chutou a escada – disse o economista alemão Friedrich List.

Então, a Inglaterra inventou a liberdade de comércio: em nossos dias, os países ricos continuam contando esse conto aos países pobres, nas noites de insônia.

Fundação da linguagem

Em 1870, ao final de uma guerra de cinco anos, o Paraguai foi aniquilado em nome da liberdade de comércio.

Nas ruínas do Paraguai, sobreviveu o primeiro: entre tanta morte, sobreviveu o nascimento.

Sobreviveu a língua original, a língua guarani, e com ela a certeza de que a palavra é sagrada.

A mais antiga das tradições conta que nesta terra cantou a cigarra carmim e cantou o gafanhoto verde e cantou a perdiz e então cantou o cedro: da alma do cedro ressoou o canto que na língua guarani chamou os primeiros paraguaios.

Eles não existiam.

Nasceram da palavra que os nomeou.

Fundação de Hollywood

Cavalgam os mascarados, túnicas brancas, brancas cruzes, tochas ao alto: os negros, famintos de brancas donzelas, tremem diante destes cavaleiros vingadores da virtude das damas e da honra dos cavalheiros.

Em pleno auge dos linchamentos, o filme de D. W. Griffith, O nascimento de uma nação, eleva seu hino de louvor à Ku Klux Klan.

Esta é a primeira superprodução de Hollywood e o maior êxito de bilheteria de todos os anos do cinema mudo. É, também, o primeiro filme que estréia na Casa Branca. O presidente, Woodrow Wilson, o aplaude de pé. O aplaude, se aplaude: este defensor da liberdade é o autor dos principais textos que acompanham as épicas imagens.

As palavras do presidente explicam que a emancipação dos escravos foi uma verdadeira derrocada da Civilização no Sul, o Sul branco sob os calcanhares do Sul negro.

A partir de então, reina o caos, porque os negros são homens que ignoram os usos da autoridade, exceto suas insolências.

Mas o presidente acende a luz da esperança: Por fim foi dada à luz uma grande Ku Klux Klan.

E até Jesus em pessoa desce do céu, no final do filme, para dar sua bênção.

Fundação do Faroeste

Os cenários dos filmes do Oeste, onde cada revólver disparava mais balas que uma metralhadora, eram aldeias miseráveis, onde o único som eram os bocejos e os bocejos duravam muito mais que as badernas.

Os cowboys, esses taciturnos cavalheiros, cavaleiros empertigados que atravessavam o universo resgatando donzelas, eram peões mortos de fome, sem nenhuma companhia feminina além das vacas que fustigavam, através do deserto, arriscando a vida em troca de um salário de fome. E não se pareciam nem um pouquinho com Gary Cooper, nem com John Wayne, nem com Alan Ladd, porque eram negros ou mexicanos ou brancos desdentados que nunca haviam passado pelas mãos de uma maquiadora.

E os índios, condenados a trabalhar como extras no papel de maus, perversos, nada tinham a ver com esses débeis mentais, emplumados, mal pintados, que não sabiam falar e uivavam em volta da diligência crivada de flechadas.

A saga do Faroeste foi a invenção de um punhado de empresários vindos da Europa Oriental. Estes imigrantes tinham bom olho para o negócio, Laemmle, Fox, Warner, Mayer, Zukor, que nos estúdios de Hollywood fabricaram o mito universal de maior sucesso do século vinte.

Mais

Espejos. Una historia casi universal foi lançado em abril, simultaneamente na Argentina, Espanha e México. Ainda não disponível em português, a obra pode ser adquirida pela internet. No jornal mexicano La Jornada é possível encontrar uma longa entrevista com o autor (traduzida para o português e reproduzida pela agência Carta Maior) e uma http://www.lajornadajalisco.com.mx/2008/06/01/index.php?section=cultura&article=012n1cul">crítica alentada do livro, por Jorge Gomez Naredo.

Le Monde Diplomatique

Comentários

Perseguição aos movimentos sociais é a contrapartida da adesão ao agronegócio

rsmst 

Escrito por Gabriel Brito e Valéria Nader

02-Jul-2008

Com o recrudescimento da violência aos movimentos sociais e as articulações para criminalizá-los - fatos nacionalmente vistos no Rio Grande do Sul através da descoberta do plano do Ministério Público gaúcho para tentar dissolver o MST local -, o Correio da Cidadania conversou com Cedenir de Oliveira, dirigente do movimento exatamente no estado em questão.

Na busca de se analisar a situação relacionando-a com o plano nacional, Cedenir afirma que tais conflitos são inevitáveis, pois opõem distintas maneiras de se promover o desenvolvimento da agricultura, o que gera tensões cada vez mais crescentes. De acordo com o membro do diretório nacional do movimento, o governo fez a opção de se alinhar às grandes empresas multinacionais do setor, o que impossibilita uma política eficiente de assentamentos e, consequentemente, força ainda mais os trabalhadores a exigirem uma mudança no modelo político e econômico.

A entrevista completa pode ser conferida a seguir.

Correio da Cidadania: Primeiramente, como você definiria as recentes atitudes tomadas pelo governo gaúcho, e suas respectivas instituições, contra o MST?

Cedenir de Oliveira: O que temos visto aqui no Rio Grande do Sul é uma das maiores articulações político-econômico-militares após a ditadura, no intuito de desmobilizar e desmembrar as organizações sociais que lutam e questionam esse modelo que está sendo implementado no estado.

Num primeiro momento, achávamos que era somente uma posição política do governo do estado e do comando da brigada militar. Porém, os últimos dias revelaram uma grande articulação política e ideológica instalada no estado para atender aos interesses do capital internacional.

CC: A situação agravada no RS poderia ser vista como um caso mais isolado ou reflete uma forte tendência no sentido de se buscar criminalizar cada vez mais os movimentos sociais no Brasil?

CO: O que vem ocorrendo, em nível nacional, é que nosso processo de luta pela terra cada vez mais ocorre através do enfrentamento com as grandes empresas. Pela forma como foi organizada, é claro que no RS houve uma maior visibilidade, mas não podemos negar que o problema da terra, da disputa do território e da reforma agrária é nacional.

CC: E qual o grau de atuação das empresas estrangeiras na questão?

CO: A verdade é que, ao se avaliar o relatório de quando começaram as reuniões para montar os dossiês, vemos que tais encontros se relacionam muito com as datas e períodos em que se estabelece um processo de luta mais intenso com as empresas aqui no RS.

Para que se tenha uma idéia, a metade sul do estado, que era uma potencial área a ser destinada para assentamentos, já está sendo toda entregue às empresas de celulose para produção de eucalipto, tanto que há uma empresa multinacional, a Stora Enzo, que comprou ilegalmente terras para produção na área de fronteira. Ou seja, quando essas empresas cometem um crime, o que ocorre é um movimento para se reduzir a área de fronteira, e não para punir essas empresas, que cometem atrocidades contra o bioma dos pampas aqui em nosso estado.

CC: Qual a situação das famílias acampadas e como anda o processo de assentamento das famílias gaúchas?

CO: Nos últimos cinco anos, assentamos apenas 850 famílias, sendo que em nenhuma dessas áreas isso se deu por desapropriação, mas sim através de negociações com os proprietários.

É um processo muito lento, temos hoje algo em torno de 2.500 famílias acampadas, das quais muitas se encontram há 5, 6 anos vivendo em barracos. Por outro lado, vemos um movimento onde, em vez de se buscar destinar essas terras para reforma agrária, produção de alimentos, diversificação da propriedade, geração de emprego, renda e desenvolvimento regional, se articula para realizar um processo contrário: produzir matéria-prima para exportação.

CC: Como o movimento encara a omissão do governo Lula em relação aos recentes acontecimentos no RS e à repressão ao movimento?

CO: Temos de compreender que o problema que ocorre aqui está atrelado ao modelo de desenvolvimento implantado em nosso país, sobretudo na agricultura. Houve uma adesão ao agronegócio e percebemos que não existe compatibilidade entre um modelo e outro, entre o agronegócio e a reforma agrária. São dois modelos de desenvolvimento da agricultura que evidentemente se confrontam. E a partir do momento em que se adere ao agronegócio, a reforma agrária vai ficar aquém das necessidades, em número de assentamentos ou de áreas desapropriadas, não somente no RS, mas em todo país.

CC: O MST pretende endurecer sua postura e realizar algum tipo de enfrentamento com o governo federal ou a situação será conduzida de outra forma?

CO: Nosso movimento, ao longo de seus 25 anos, mantém sua autonomia, que se manifesta através da pressão sobre os governos estaduais e federal, independentemente de qual força política esteja no governo.

Portanto, nossa autonomia política permanece a mesma e sem dúvida alguma continuaremos fazendo mobilizações e ocupações de terras em massa, a fim de pressionar o governo a fazer a reforma agrária no país.

CC: Você não teme que dessa maneira o movimento fique mais distante do atual governo e se veja numa situação mais complicada para atuar, ou seria essa justamente a estratégia a ser buscada agora?

CO: Acho que nossa tarefa não se trata de sermos contra ou a favor de determinado governo. Nosso papel, enquanto movimento social, é o de pressionar e denunciar o que não está ocorrendo. Se nos omitirmos em fazer isso, não cumpriríamos com a luta primordial que entendemos encampar.

O MST nasceu e se constituiu como movimento de luta; portanto, essa luta não poderá deixar de acontecer em função de algum governo que eventualmente esteja no poder. Nossa tarefa como movimento é continuar pressionando e fazendo mobilizações em favor da reforma agrária no país.

CC: O que você tem a dizer sobre as acusações feitas e tornadas públicas pelo Ministério Público gaúcho, a respeito das atuações e métodos do movimento?

CO: As acusações são infundadas, inverídicas e revelam o teor político-ideológico desses procuradores. Nenhuma das acusações procede. A sociedade gaúcha e brasileira, conhecendo nossos assentamentos e escolas, sabe que somos um movimento que ao longo desses anos teve total transparência em sua trajetória.

O problema é que muitas vezes os procuradores não conhecem a realidade, a própria mídia não conhece os assentamentos, nossas escolas e acampamentos. Então, aquilo que tanto falam a respeito do MST pode acabar parecendo verdade.

De toda forma, estamos aqui abertos para demonstrar na prática que a reforma agrária pode dar certo neste país.

CC: Em relação à truculência e métodos utilizados pelas autoridades nos despejos e no tratamento para com as pessoas acampadas, qual a sua opinião?

CO: Podemos afirmar que a brigada militar tem se comportado muito violentamente, não só com o MST, mas também com outras organizações e movimentos que passam por um processo de mobilização.

Fizemos uma denúncia na Comissão dos Direitos Humanos do Senado revelando que a truculência para com os movimentos sociais não se dá somente com o MST. Só aqui, no sul, temos casos de assassinatos de companheiros sapateiros, repressão ao movimento dos professores, dos metalúrgicos e também à Via Campesina.

Portanto, o processo de repressão aos movimentos sociais no RS pela brigada militar não ocorre somente conosco, mas com todo e qualquer movimento que ouse se posicionar contrariamente a este projeto político que está sendo implementado no estado.

CC: Que articulações o movimento tem feito na sociedade organizada para se defender desses ataques e angariar um maior apoio público?

CO: Nesse último período, temos procurado estabelecer um diálogo maior com as demais organizações, recebemos muitas manifestações de solidariedade, inclusive internacionais, e temos tentado utilizar todos os mecanismos possíveis para que se leve à sociedade as verdadeiras informações sobre o MST, nossa luta e o que acontece aqui no RS, que é uma perseguição político-ideológica, pois nos posicionamos contrariamente ao modelo aplicado.

Por conta de tudo isso, onde encontramos espaço para dialogar, apresentar nossas idéias e conclusões, nossas propostas têm sido aceitas.

CC: Você mencionou acima que, no âmbito nacional, o processo de luta pela terra ocorre cada vez mais através do enfrentamento com as grandes empresas. Nesse sentido, como você analisaria o atual momento de lutas e tensões vividas pelo MST, houve uma reversão na prioridade anteriormente dada às ocupações de terra na luta contra o latifúndio improdutivo?

CO: O que se apresenta é um período de bastante enfrentamento e disputa. A reforma agrária tem frequentemente saído da pauta do desenvolvimento e temos permanecido firmes em nossas posturas, reafirmando que ela é um instrumento de desenvolvimento de nossa sociedade. O que a impede de se realizar é o atual modelo que vem sendo implementado.

Portanto, é uma disputa grande e temos ciência de que hoje não se pode fazer apenas o enfrentamento com o latifúndio improdutivo, mas também com essas grandes empresas que estão se apropriando de nossas terras e riquezas para produzir matéria-prima para os países centrais.

CC: Na medida em que você faz sempre questão de frisar que os acontecimentos do RS estão atrelados ao modelo de desenvolvimento implantado em nosso país, sobretudo na agricultura, com adesão ao agronegócio, não é lógica a conclusão de que o governo Lula não deu andamento à política de reforma agrária em nosso país?

CO: O que ocorre no Brasil, não somente no governo Lula, é que não existe realmente uma política de reforma agrária para o país. O que há são políticas de assentamentos em determinadas regiões para resolver algum conflito estabelecido pelos trabalhadores.

Em nosso país, nunca tivemos nenhum programa efetivo de distribuição de terra, no qual se enfrente de uma vez por todas a sua concentração. Isso simplesmente não ocorre, são somente políticas de assentamento. As desapropriações têm diminuído e o que acontece são somente negócios com fazendeiros.

Portanto, em nosso país, podemos afirmar que foi feita a opção pelas grandes empresas no desenvolvimento da agricultura. E o que temos visto, cada vez mais, além da internacionalmente notória falta de alimentos, é o desemprego e problemas ambientais cada vez maiores.

Já denunciamos há muito tempo que esse modelo, que não gera emprego, serve somente para agredir o meio ambiente e produzir matéria-prima para o capital internacional. Não tem nenhum compromisso com as comunidades locais, com o desenvolvimento regional e muito menos com o meio ambiente.

CC: Além do RS, que outros pontos do país podem ser tidos como em ebulição?

CO: Podemos verificar alguns estados nos quais historicamente o conflito está mais avançado e os dados da CPT têm nos trazido informações sobre onde está mais iminente.

No Paraná, houve dois assassinatos nos últimos meses; no Pará, ainda permanece um grau de violência e impunidade muito grandes, tanto que os mandantes do crime da Irmã Dorothy foram libertos; no Nordeste, há uma tendência de aumento nos conflitos, sobretudo em Pernambuco e Alagoas.

Portanto, nada nos parece isolado. Onde há essa contradição entre o capital internacional e as organizações existe uma tendência natural de enfrentamento.

CC: Podemos temer, portanto, pelo aumento da violência aos movimentos sociais nos próximos meses?

CO: O que vem ocorrendo é o aumento dessa violência por parte dos proprietários e das grandes empresas, articulados com as respectivas polícias de cada estado. O que vimos aqui no RS nos últimos três anos é de um grau de violência jamais visto na história do MST e das organizações sociais. É comparável ao tempo da ditadura militar.

Correio da Cidadania

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A revolução surrealista e o valor do desejo

Por Jorge Coli

O primeiro manifesto surrealista data de 1924. Desde aí, o movimento dispôs, com clareza, uma atitude de furor contra a ordem do mundo, uma revolta que deveria conduzir o espírito à liberdade mais alta e absoluta. Esse desejo libertário proclamava-se num grupo bastante coeso, que gravitava à volta de André Breton. A sociedade em que viviam lhes parecia comprometida com covardias, egoísmos, interesses escusos de toda sorte. A revolta, o furor, a liberdade, dependiam da eclosão de uma disciplina espiritual, capaz de instaurar a pureza do desejo. O grupo se faz controlador. Patrulha o comportamento de seus membros.

Deste modo, as atitudes normativas que regem ações humanas, tais como foram praticadas pelo movimento surrealista, distingue, antes de tudo, algo que poderia ser chamado de atitude moral ou moralizadora. Este é um dos aspectos mais visíveis do comportamento dos surrealistas, em particular porque explode em dissidências escandalosas, em brigas individuais encarniçadas. É regido por um conjunto nega-tivo, muito exigente, de regras, que indica aquilo que não deve ser feito e onde é preciso não ceder. Tais preceitos, no entanto, não são visíveis dentro de um código nitidamente constituído. Eles emergem dos casos concretos.

Trata-se de uma moral ascética. É mesmo surpreendente o quanto ela é conservadora, ainda que se leve em conta os valores consagrados pela sociedade do tempo, valores contra os quais, em princípio, os surrealistas erguiam-se ou, por coerência, seria possível esperar que eles se erguessem. Desde os primórdios do movimento, a droga, muito freqüente nos meios intelectuais de vanguarda -pensemos, por exemplo, no célebre tratamento de desintoxicação feito por Cocteau sob a influência de Jacques Maritain, logo antes de sua conversão ao catolicismo- é apenas tolerada; o sexo é vinculado a práticas estritamente heterossexuais e monogâmicas.

O trecho de um diálogo sobre a sexualidade, ocorrido na noite de 27 de janeiro de 1928, é muito expressivo:

“Péret: O que você pensa da pederastia?
Queneau: De que ponto de vista, moral?
Péret: Por exemplo.
Queneau: A partir do momento em que dois homens se amam, não tenho nenhuma objeção moral a fazer sobre suas relações fisiológicas.

Protestos de Breton, de Péret e de Unik.
Unik: Do ponto de vista físico, tenho tanto nojo da pederastia quanto dos excrementos, e do ponto de vista moral, condeno.
Prévert: Concordo com Queneau.
Queneau: Constato que existe, entre os surrealistas, um singular preconceito contra a pederastia.
Breton: Eu acuso os pederastas de propor à tolerância humana um déficit mental e moral que tende a se erigir como sistema e a paralisar todos os empreendimentos que respeito
.” 1

É Thierion quem lembra, em Revolutionnaires Sans Révolution 2 que, nos meios surrealistas, por volta de 1927, “o uso da droga, a homossexualidade eram objetos de reprovação e as duas ou três exceções toleradas (Malkine e Crevel, por exemplo), se explicavam pela honestidade profunda e pelas qualidades humanas dos interessados. Sexo, por sinal, era uma das obsessões mais fortes do grupo, tanto nas obras por eles produzidas, quanto em discussões. A libertinagem era mal vista, a malícia, proscrita. A regra de ouro era o amor-paixão, de preferência fatal, entre dois indivíduos do sexo oposto.

Na medida em que o amor-paixão era exaltado como o bem supremo, o amor único se impunha como ideal, pois seria possível amar duas vezes? O contrário não abria as portas à libertinagem, com as complacências que tais exercícios arrastam para si e para os outros (…)? As mulheres amadas tornavam-se objeto de veneração (…). As aventuras, sempre suspeitas, só podiam ser levadas em consideração apenas se se envolvessem por circunstâncias singu-lares, às vezes inteiramente inventadas por aqueles que queriam desculpá-las. Entretanto, a prostituição feminina não era condenada, e os bordéis tinham defensores confessos: Aragon, Éluard e mesmo Breton. Essas regras estreitas e um pouco contraditórias foram freqüentemente quebradas pela força da vida, mas no final das contas, a maior parte dos surrealistas devia, grosso modo, permanecer-lhes fiel”.

Xavière Gauthier 3 notará que Crevel será o único no grupo a se opor “enérgica e sistematicamente a todos os mitos alienadores da mulher: ele recusa a sexualidade monogâmica, ele recusa a sublimação ilimitada da mulher, ele recusa em fazer desta última um instrumento de reprodução, ele recusa em ‘virginizá-la’, em puerilizá-la, em beatificá-la” 4. Porém, Breton freqüentemente se servirá de critérios mo-rais para atacar os dissidentes -como o fez com Desnos, no segundo manifesto surrealista 5. E Jacques Baron, para ironizar, em Um Cadáver, dirá: “Era o íntegro Breton, o indomável revolucionário, o severo moralista” 6.

Perpassa por tudo isso, uma evidente tradição herdada dos comportamentos românticos, com suas prolongações decadentistas. Mas, de modo ainda mais claro, surge uma exigência de verdade, solicitada aos contemporâneos, a partir dos próprios critérios estabelecidos por estes últimos. Ou seja, o que temos, em verdade, é uma radicalização “purificadora” das próprias regras da moral “burguesa”, exigidas com extrema severidade, mantendo mesmo, como num espelho cristalino que reflete tudo com nitidez implacável, a falsa contradição do dualismo monogamia /bordel.

A essas regras associa-se, entretanto, uma exigência de “pureza” também em relação ao trabalho e ao comércio artístico. “Quase todos os suportes materiais eram condenados: o trabalho era desprezado e as atividades jornalísticas ou para-artísticas eram assimiladas à traição” 7. Max Ernst e Miró são insultados por causa de uma encomenda que aceitam para cenários de balé, feita por Diaghilev. E no Segundo Manifesto, manifesto de anátemas, encontramos, entre outros exemplos, o de Artaud 8: “Ele fazia a montagem de O So-nho de Strindberg, tendo ouvido dizer que a embaixada da Suécia pagaria (o sr. Artaud sabe que eu posso provar), e ele estava consciente que isso determinava o valor moral de seu projeto”.

Os exemplos poderiam se multiplicar, mas o importante é que a noção de comércio ou venda, ligada à desonestidade ou à desonra, alarga e ultrapassa o quadro inicial do “ascetismo burguês”. Na realidade, trata-se de uma oposição à burguesia, à sociedade, por uma exigência extrema de honestidade para consigo mesmo, traduzida pela recusa a toda sedução que esteja contida neste mundo. Trata-se de conservar incólume uma pureza primordial para reencontrar a liberdade, esmagada pelo mundo exterior. Trata-se de se dispor, como homem e como artista, fora de qualquer submissão a tudo que possa exalar cheiro de lucro ou de rentabilidade monetária. Salvador Dali assumiu e encarnou o anjo caído do surrealismo; objeto dos mais violentos anátemas de André Breton 9 -que o chamava pelo anagrama de “Avida Dollars”- não cessará jamais de provocar a ortodoxia bretoniana.

Conservar-se puro para reencontrar a própria liberdade é o ponto de partida do surrealismo no Primeiro Manifesto; o mundo esmaga a liberdade que poderia ser:

“As ameaças se acumulam, cedemos, abandonamos uma parte do terreno a conquistar. Essa imaginação que não admitia limites não é mais autorizada a exercer seus poderes a não ser segundo leis de uma utilidade arbitrária; ela é incapaz de assumir durante muito tempo esse papel inferior e, por volta dos vinte anos, prefere, em geral, abandonar o homem ao seu destino sem luz”.

Herdeiros evidentes dos românticos, os surrealistas revelam claras ligações com o século XIX. De um surrealismo a um surromantismo há, quase que só, um programa e uma sistematização apenas.

Mas a moral negativa não poderia se contentar consigo própria. O surrealismo inventou dispositivos para reencontrar essa liberdade perdida ou esmagada. A negação protege das contaminações possíveis e o automatismo, a narração dos sonhos, o frottage, entre outros, serão instrumentos propiciatórios que cristalizarão, por meio da linguagem ou da arte, essas manifestações de liberdade perdida.

Por um lado, reencontrar a liberdade não significa uma terapia individual. Por outro, o surrealismo não se quer como uma estética. Não sendo nem uma terapia, nem uma estética, o surrealismo não adapta essa liberdade interior ao mundo, mas bem ao contrário, inflama as contradições. O surrealismo se quer, desde seus inícios, em luta contra o mundo opressor, e a partir daí proclama-se revolucionário. Desde 1924 ele se exprimirá num periódico que se chama justamente “A Revolução Surrealista”. Os princípios revolucionários são estabelecidos muito cedo, na “Declaração do dia 27 de janeiro de 1925”, um manifesto ao qual o surrealismo, durante toda sua história, jamais se afastou. Eis o texto 10:

“1. Não temos nada a ver com a literatura. Mas somos muito capazes, se necessário, de nos servir dela como todo mundo.

2. O surrealismo não é um meio de expressão mais ou menos fácil, nem mesmo uma metafísica da poesia. É um meio de libertação total do espírito e de tudo o que se parece com ele.

3. Nós estamos firmemente decididos a fazer uma Revolução.

4. Juntamos a palavra surrealismo à palavra Revolução apenas para mostrar o caráter desinteressado, desligado e mesmo completamente desesperado dessa revolução.

5. Não pretendemos mudar em nada os erros dos homens, mas pensamos com firmeza demonstrar-lhes a fragilidade de seus pensamentos, e sobre que fundações movediças, sobre que porões eles fixaram suas trêmulas casas.

6. Lançamos à sociedade este solene aviso. Que ela preste atenção aos seus equívocos, a cada um dos maus-passos de seu espírito, nós não a perdoaremos (…).

7. Somos especialistas na Revolta. Não existe um meio de ação que, em caso de necessidade, não sejamos capazes de empregar (…).

O surrealismo não é uma forma poética.
É um grito do espírito que se volta a si mesmo e está decidido a moer desesperadamente suas travas.
E, se necessário, por meios materiais”.

Da revolta à revolução, da revolução ao empenho político, o caminho é bastante conhecido. Aproximação, depois ruptura com o Partido Comunista, em seguida encontro de Breton e Trotsky e formação de uma aliança prenhe de ambigüidades. E a crítica politizada, marcada por Marx, reage.

Nos idos de 1968, de um intelectualizado e sofisticado artigo de Philipe Sollers em Tel Quel 11, ao pensamento ortodoxo do Partido Comunista francês, expresso por Jean-Louis Houdebine na revista Nouvelle Critique, com o ensaio “André Breton et la Double Ascendence du Signe” 12, assistimos à cristalização veemente de críticas antigas à “ingenuidade” ou “idealismo” surrealistas, analisados e denunciados com veemência, graças a uma inesperada atualidade.

O número 31 de Nouvelle Critique é uma tomada de posição face aos acontecimentos de maio de 1968, e a crítica ao surrealismo se encontrou então sob a égide de um ataque contem-porâneo a “uma prática política pseudo-revolucionária” 13. De um ponto de vista teórico e geral, a crítica de Tel Quel é também fundamentalmente a mesma, dirigida aos contemporâneos e aos os surrealistas, e os “critérios morais”, o “espontaneísmo”, os “modelos subjetivos idealistas” serão contraditos por “análises objetivas”. Além disso, o surrealismo, ou pelo menos um “espírito surrealista”, era associado a manifestações do movimento de 1968, como assinala Houdebine:

“É forçoso, no entanto, constatar que a ideologia surrealista (muito mais que sua prática propriamente dita) não deixou de se espalhar sob formas aliás mais ou menos difusas e que se devem à própria natureza do movimento: não é a toa que certos muros (sempre os mesmo, aliás) do mês de maio de 1968 se cobriram de slogans ‘surrealistas’ ou de ‘espíritos surrealistas’, atestando a reativação maciça dessa ideologia em função de uma situação política excepcional” 14.

A forma mais lapidar exprimindo o núcleo central de todas es-sas críticas, e conferindo aos atacantes uma invejável legitimidade histórica, encontra-se certamente no texto de Georges Bataille, intitulado: “La ‘vieille taupe’ et le prefixe sur dans les mots surhomme et surréaliste”. Este escrito data de 1931, do ardoroso momento de conversão de Bataille ao marxismo; mas, por razões circunstanciais, ficou durante muito tempo inédito 15, e foi ressuscitado oportunamente em 1968 pela revista Tel Quel a que nos referimos.

1 - "Recherches Sur la Séxualité", in "La Révolution Surréaliste Paris", Gallimard, 1928, apud "Labirinto Surrealista", Brasilcap, CCBB, MinC, 2001.

2 - THIERION, André, "Révolutionnaires Sans Révolution", Paris, 1972, págs. 98-99.

3 - In "Surréalisme et Sexualité". Paris, 1971.

4 - Op. cit., pág. 235.

5 - BRETON, André - "Second Manifeste Surréaliste", in "Manifestes du Surréalisme". Paris, Gallimard, 1972, pág. 127.

6 - BARON, Jacques, "L’An I du Surréalisme", Paris, Denoël, pág. 155.

7 - THIRION, op. cit., pág. 99.

8 - Op. cit., págs. 84, 85.

9 - BRETON, André, "Premier Manifeste", in "Manifestes…", op. cit., pág. 12.

10 - In NADEAU, Maurice, "Histoire du Surréalisme". Seuil, Paris, 1964, pág. 72.

11 - SOLLERS, Philippe, "La Grande Méthode”, in "Tel Quel", n.º 34, verão de 1968.

12 - In "Nouvelle Critique", n.º 31, 1970.

13 - Op. cit., pág. 12.

14 - Op.cit., pág. 43.

15 - Cf. HOLLIER, Denis, "Le Savoir Formel", in "Tel Quel", n.º 34.

Revista Trópico

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Luz, câmera e ação na América Latina

Por Alan de Faria

Ofelia Medina em cena de "Frida, Natureza Viva" (1983), filme de Paul Leduc
André Komatsu

Seis diretores do II Festival de Cinema Latino-Americano falam sobre política e cinema no continente

Na abertura do IIº Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, que ocorreu entre os dias 24 e 29 de julho, o curador e cineasta João Batista de Andrade declarou: “Mais do que um festival cinematográfico, este é um evento político”. Tratou-se de uma resposta concreta à dominação dos filmes realizados e distribuídos pela poderosa indústria audiovisual norte-americana, que, por meio de suas produções, ocupa cerca de 90% do mercado latino-americano -no Brasil, três filmes (“Harry Potter e a Ordem da Fênix”, “Shrek III” e “Transformers”) chegaram a ocupar 70% das salas.

Por meio do festival, foram vistos longas latino-americanos de diferentes escolas cinematográficas, algumas já estabelecidas, como é o caso do México e da Argentina, e outras que vivem um nascimento da produção audiovisual (Equador, Paraguai e Bolívia, por exemplo). Pode ter sido, inclusive, a única chance de o público brasileiro assistir a algumas das produções, uma vez que boa parte delas não tem estréia prevista no país no circuito comercial.

O evento também promoveu uma série de mesas de discussão, nas quais profissionais do audiovisual brasileiro e do restante da América Latina debateram a respeito da produção cinematográfica na região e meios de criar parcerias entre os órgãos do cinema.

Trópico aproveitou a visita de alguns dos cineastas para falar com eles a respeito da atual situação política latino-americana e da pouca circulação de filmes entre os países da região.

Foram entrevistados: a argentina Daniela Goggi, que assina a direção de “Vésperas” (2005); o mexicano Paul Leduc, diretor de, entre outros, “Barroco” (1969), “Frida, Natureza Viva” (1986) -seu longa mais premiado- e o ainda inédito “O Cobrador” (2006), que concorre no Festival de Gramado; a paraguaia Galia Giménez, cujo filme, “O Inverno de Gunter” (2005), foi exibido no festival; o brasileiro José Eduardo Alcázar, diretor de “US/Nosostros” (2007), que vive há dez anos no Paraguai; o cubano Pavel Giroud (“A Idade da Peseta”, 2006), que venceu na categoria de melhor diretor no último Festival Cine Ceará, e Tania Hermida, diretora equatoriana do longa “Qué Tan Lejos” (2006), escolhido o melhor filme do festival pelo público.

*

Como você se define politicamente?

Daniela Goggi: Posso dizer que eu sou da corrente marxista-dialética, pois acredito que os problemas só podem ser solucionados por meio da reflexão e da discussão.

Paul Leduc: Não sei. Estamos em uma época na qual a auto-proclamação política não quer dizer muita coisa. São utilizados de maneira enfática alguns termos para definir a atualidade, quando, na verdade, estamos em um momento de novas definições. De um modo muito genérico, eu diria que sou de esquerda. Acredito que podemos mostrar como realmente somos e o que pensamos por meio de nosso trabalho. É muito fácil fazer declarações, mas, se o nosso trabalho não corresponder com o que dizemos, fica sem sentido.

Galia Giménez: Não gosto de nenhum partido. Diria que sou amante da liberdade de expressão e do apoio à cultura, que, na minha opinião, é o que nos salva e permite à sociedade reivindicar seus direitos.

José Eduardo Alcázar: Sou eleitor do Lula. Sempre tive uma visão mais de esquerda, pois acredito que, ou você é solidário com todo mundo, ou não tem saída para problemas como a concentração de riqueza e a marginalização. Mas qual é a solução? Não acredito que esteja na Argentina de Nestor Kirchner, nem na Venezuela de Hugo Chávez, nem na Cuba de Fidel Castro ou no Brasil de Lula, mas sim em uma nova visão de progresso democrático que atenda às necessidades de toda a sociedade. Temos que acabar com essa história de que é preciso crescer primeiro para depois dividir.

Tania Hermida: No momento, eu estou envolvida no processo de votação (que irá ocorrer no dia 30 de setembro) da Assembléia Constituinte do Equador, como candidata na lista do governo (o esquerdista Rafael Correa). É uma tarefa nova e complicada, pois represento todo um setor que quer uma transformação profunda na gestão cultural equatoriana.

Acredita que os EUA ainda podem ser um modelo de desenvolvimento e civilização para a América Latina?

Goggi: A influência dos Estados Unidos na América Latina é horrível. No campo do audiovisual, eu percebo que se injeta muito dinheiro, sobretudo em marketing, para que continuemos a assistir às produções hollywoodianas. Em contrapartida, faltam ferramentas para promover o cinema produzido pela América Latina em nossa própria região.

Leduc: Nota-se hoje um intenso movimento migratório mexicano, não só de camponeses, mas também de físicos, matemáticos e cineastas, para os Estados Unidos. No entanto, não se trata de um problema local. Muitos africanos e pessoas que residem nos países europeus ex-socialistas estão migrando para a Europa Central. A cifra de migrantes tem sido enorme. Não são mais exilados políticos, mas sim cidadãos vítimas da situação econômica, das guerras e do desemprego. Está se criando uma nova geografia, que irá resultar no aparecimento e no desaparecimento de países.

Giménez: Cada pessoa tem o direito de pensar o que realmente quer e ir atrás de seus objetivos. No entanto, culturalmente, eu acredito que devemos ser independentes de qualquer outra nação, embora seja benéfico existir conexões com outras realidades culturais.

Alcázar: Os números mostram que, a cada ano, aumenta o número de latino-americanos migrando para os Estados Unidos. Talvez acreditem que lá possa haver mais possibilidades de crescimento e desenvolvimento. Acontece que, hoje em dia, a mobilidade populacional é muito grande, o que permite o fluxo de pessoas não só para os Estados Unidos, mas também para a Argentina, para o Japão…

Pavel Giroud: Eu estou muito feliz em Cuba, tanto que não me interessa migrar para os Estados Unidos e trabalhar como cineasta lá, como muitos profissionais latino-americanos estão fazendo. Meus filmes se adequam à realidade sociocultural cubana.

Hermida: De modo algum! Ao contrário: creio que, frente à invasão de histórias e personagens da indústria audiovisual norte-americana em nosso continente, temos que ter políticas culturais que nos permitam fazer resistência por meio de alternativas próprias e diversas, porque uma das características da América Latina é justamente a diversidade.

Na América Latina, o modelo bolivariano é defendido por Hugo Chávez, presidente da Venezuela, e Evo Morales, presidente da Bolívia. Você acredita que esse modelo e os governos citados são benéficos para o presente e o futuro da região?

Goggi: É muito interessante a atitude do presidente venezuelano Hugo Chávez. De certa forma, por meio de suas decisões, ele faz com que a Venezuela passe a ser notada no mundo, uma vez que muitas das políticas adotadas têm sido benéficas para a população. Há, porém, um outro lado: eu não concordei, por exemplo, com o fechamento do canal RCTV (no dia 27 de maio deste ano, o presidente Chávez decidiu não renovar a licença para a transmissão em sinal aberto da Rádio Caracas Televisão). No caso de Evo Morales, percebe-se também a tentativa de reduzir a desigualdade, um problema crônico presente em todos os países da América Latina. E se o Brasil e a Argentina não criarem políticas sociais similares farão com que uma geração inteira cresça sem perspectiva.

Leduc: Na medida em que os venezuelanos decidiram por Chávez e os bolivianos, por Evo Morales, em eleições democráticas -no caso de Chávez, em várias eleições (o candidato foi reeleito em dezembro de 2006) -, acredito que não podemos fazer nada. No máximo, deixar de nos meter nos assuntos dos dois países.

Giménez: Creio que toda mudança é positiva. Ao mesmo tempo, é difícil dizer se as políticas adotadas por Chávez e Morales são benéficas. De qualquer maneira, se eles foram eleitos pelas sociedades venezuelana e boliviana, respectivamente, é porque elas sentiram a necessidade de colocá-los no poder. É preciso sempre buscar o que as pessoas chamam de democracia.

Giroud: Não sou analista político, mas acredito que Chávez e Morales têm bons propósitos. Assim como o desempenho de um longa-metragem, é preciso um bom roteiro para guiar o país ao desenvolvimento. Acredito que as políticas implantadas por eles, apoiadas pelas classes menos favorecidas, têm gerado avanços sociais importantes. O problema é que tanto a classe média quanto a elite econômica da Venezuela e da Bolívia, preocupadas em não perder status, temem mudanças radicais.

Hermida: Creio que cada um desses governos -e acrescento também o do presidente Rafael Correa- têm projetos distintos, uma vez que Venezuela, Bolívia e Equador são países com situações e histórias diferentes. O que os une é uma tendência -que pode ser chamada de esquerda, mas creio que podem ser inventados novos nomes- que busca dar mais poder à sociedade do que ao chamado “livre mercado”. Ou seja, uma tendência na qual o capital está subordinado ao bem-estar dos seres humanos, e não o contrário, o que predominou nos últimos anos. Ao mesmo tempo, acredito que estamos em um momento de “crise dos modelos” e, por essa razão, é preciso inventar um modelo singular para casa país. Como equatoriana, acredito que o projeto do governo Rafael Correa está abrindo as portas a uma nova era para meu país, pois se propõe a romper com a dicotomia Estado-mercado, dando à população o poder de propor modelos próprios por meio da participação democrática.

Você acredita na possibilidade de uma unidade latino-americana, mesmo com tantos contrastes geográficos e as dificuldades de trocas culturais?

Goggi: Eu percebo que, infelizmente, há um déficit e uma incomunicabilidade marcantes. Quando o assunto é a produção audiovisual, por exemplo, é triste constatar o pouco intercâmbio cultural. Ok, existem festivais de cinema, sim. Ao mesmo tempo, porém, o que é uma semana inteira de exibição de filmes latinos? E ao longo do ano: por que não são exibidos filmes latinos nas salas de cinema? A cinematografia da região só cresce por meio do intercâmbio cultural dos realizadores.

Leduc: A América Latina é um continente muito singular, muito parecido, mas também com grandes diferenças refletidas, inclusive, dentro dos próprios países. O México de hoje, por exemplo, é muito diferente do México de 20 anos atrás. Enquanto era mais liberal, hoje se mostra mais conservador (o presidente de direita Felipe Calderón venceu nas últimas eleições presidenciais, em 2006, o candidato de esquerda Andrés Manuel López Obrador) e mais próximo da política norte-americana, características que influenciam a cultura produzida no país. Temos uma língua comum, fora o Brasil, o que acaba sendo uma barreira. Mas, mesmo assim, temos tradições e costumes muito semelhantes. No caso do cinema, houve um momento de intensa integração com o denominado “Novo Cinema Latino-Americano” (tendência dos anos 60 e 70 que reuniu cineastas como Fernando Birri, Tomás Gutiérrez e Glauber Rocha). No período, os diretores da região se reuniam, não para produzir filmes, mas para discutir leis e melhorias de condições de trabalho etc.

Giménez: Sempre há algo que nos une: entre outros fatos, temos a língua. No entanto, acho bastante complicado porque, pelo menos no Paraguai, a cultura é a última das preocupações do governo. Os profissionais paraguaios produzem praticamente sem apoio e com muito sacrifício.

Alcázar: Não só é possível, como fundamental. Somos um continente cheio de possibilidades. E tem uma diferença em relação à Europa. Posso estar exagerando, mas tenho a impressão de que a Europa tem uma tara visceral de se matar: basta lembrar as duas guerras mundiais, mas, que na verdade, foram muito mais guerras civis. Na América Latina, isso nunca ocorreu: na realidade, foram os europeus que vieram para cá e assassinaram os índios. Por aqui, não há antagonismo. Pode ser que, quando as sociedades latino-americanas se unirem, isso aflore, que nossas distâncias estejam nos preservando dessa possível loucura. Mas, de todo modo, eu tenho esperança de que ocorra a união latino-americana.

Giroud: Creio que sim. Sempre há pontos em comum, seja entre um cubano e um brasileiro, ou entre um cubano e um alemão. Cuba e Brasil, por exemplo, apresentam mais aspectos semelhantes do que Cuba e Equador ou Bolívia. Temos raízes históricas parecidas. A música é diferente, mas tenho a impressão de que tanto os brasileiros quanto os cubanos a sentem da mesma forma.

Revista Trópico

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Confissões de adolescente

Por Fernando Masini

Cena de "Hannah Takes the Stairs" (2007), de Joe Swanberg
Divulgação

O movimento Mumblecore, criado por jovens americanos, cria uma nova maneira de fazer e difundir filmes

Uma nova maneira de fazer e distribuir filmes tem sido capitaneada há cinco anos por um grupo de despretensiosos garotos da classe média norte-americana.

São produções de baixíssimo orçamento, que usam recursos ordinários como câmeras digitais amadoras e situações e cenografia improvisadas, para dar conta dos contratempos típicos de adolescentes recém-saídos da universidade. O fenômeno foi batizado de “Mumblecore” -algo como geração do resmungo-, logo chamou a atenção da crítica especializada e chacoalhou o panorama independente americano.

Em matéria publicada no jornal “The New York Times”, Dennis Lim escreveu que os integrantes “evidenciam uma sensibilidade característica do século 21, decorrente do modelo myspace de relacionamento social e também reflexo do voyeurismo praticado em sites como o youtube”.

O que se vê na tela são personagens vacilantes em ocasiões mundanas, discutindo banalidades com a namorada(o) ou amargando o término de um relacionamento. Quase sempre há presença da tecnologia no enredo, realçando como os novos meios virtuais podem alterar o comportamento dos jovens.

As imagens captadas em tom casual no interior de apartamentos ou festas de faculdade aparecem como se fossem diários audiovisuais, aos moldes de um filme-blog, cujas confissões descrevem o mal-estar de uma geração, a dos 20 e poucos anos. Os personagens mostram-se desajustados frente ao mundo, inseguros diante das imposições do amadurecimento e hesitam nos relacionamentos quando têm a necessidade de tomar decisões a longo prazo.

De tanto falarem e pensarem (os diálogos da maioria dos filmes fluem de forma disparatada), pouco fazem de fato. A turma Mumblecore foi inicialmente reconhecida graças aos trabalhos de Andrew Bujalski, 30 anos, nome apontado como pioneiro do grupo.

Após estudar cinema em Harvard, escreveu, atuou e dirigiu seu primeiro longa-metragem, “Funny Ha Ha” (2002), e impressionou pelo naturalismo tanto do comportamento dos personagens, quanto das situações rotineiras e aparentemente banais retratadas no filme.

O próprio Bujalski faz o papel de um nerd que tenta se aproximar de Marnie, uma garota de 24 anos, que sofre uma desilusão amorosa ao ver seu pretendente se casar com outra. Os dois passam a compartilhar momentos de consolo, sem saber ao certo o que querem exatamente com isso, apenas jogam conversa fora durante uma disputa de basquete ou no meio de um jogo de xadrez. Em busca de uma guinada no marasmo da sua vida, ela formula uma lista de “coisas a fazer”.

Os itens variam desde “tornar-se uma cozinheira melhor” até “fazer exercícios”, passando por “deixar de beber durante um mês”. Numa conversa entre Marnie e Mitchell, o personagem de Bujalski, ele comenta que ela parece um pouco deprimida. Ela responde dizendo que está apenas cansada. Então ele pergunta em seguida: “o que você quer da vida?”. “Eu não quero nada”, diz Marnie.

O filme foi rodado em 16 mm, com poucos milhares de dólares e distribuído por conta própria, no esquema conhecido nos EUA como DIY (do it yourself), sigla também usada para definir a geração dos Mumblecore. Muitos deles não contam com o sistema tradicional de distribuição de filmes e acabam fazendo suas próprias cópias de DVD em casa e vendem pela internet. Só para se ter uma idéia, Bujalski teve de rodar Nova York durante seis meses até encontrar um lugar onde seu filme fosse aceito e exibido.

O nome seguinte a surgir após o aparecimento de Bujalski foi o de Joe Swanberg, de 26 anos. Em 2005, finalizou seu primeiro filme, “Kissing on the Mouth”, com suporte digital e sem trabalhar com roteiro, abusando de diálogos improvisados. Convidou um grupo de amigos sem experiência de atuação para participar do projeto. “Kissing on the Mouth” aproveita a onda lançada por Bujalski para tratar das turbulências vividas por um casal de adolescentes recém-formado e em busca de espaço profissional.

O naturalismo é adquirido aqui na maneira como os personagens conversam entre si, um atropelando o discurso do outro, sendo que várias vezes as falas são entrecortadas ou interrompidas no meio. Swanberg interpreta o namorado de Ellen (Kate Winterich), uma garota de classe média que mantém um caso fora do relacionamento. Patrick, o namorado, trabalha em casa colhendo depoimento de jovens a respeito de traição, casamento e relação com os pais.

Apesar de repetir temas recorrentes ao movimento -vida conjugal, rompimento de namoro, problemas com os pais etc.- Swanberg aposta na exibição despudorada dos personagens a fim de atiçar o moralismo. Em uma das cenas, ele aparece em nu explícito se masturbando debaixo do chuveiro. Em outra seqüência, Ellen discute com a amiga sobre o uso de vibradores. Os tipos de “Kissing…” têm algo em comum: espanam em refúgios infantis quando confrontados no mundo dos adultos.

Este primeiro longa de Swanberg estreou em 2005 no festival South by Southwest, em Austin, no Texas. O diretor do evento, Matt Dentler, foi o maior responsável por impulsionar o movimento Mumblecore e lançar ao público nomes como Bujalski, Swanberg e Jay Duplass, diretor de “The Puffy Chair”, obra que segue a mesma linha. Nessa edição do evento, Dentler disse que estava à procura de “filmes que outros festivais jamais dariam a chance de serem exibidos”.

O encontro ajudou a convergir interesses de jovens americanos espalhados pelo país e tornou-se o lugar ideal para a troca de idéias sobre os filmes que estavam sendo produzidos. Ali eles se conheceram e passaram a cooperar em diferentes projetos, assim nasceu o mumblecore. Após o encontro, Duplass criou o roteiro junto com Swanberg para o filme “Hannah Takes the Stairs” (2007), dirigido pelo último, que conta também com a participação de Bujalski como ator.

Apesar do termo mumblecore ter sido sugerido em um bar pelo editor de som dos filmes de Bujalski, Eric Masunaga, há três anos, ao longo do tempo outros nomes foram cunhados e passaram a acompanhar os filmes dessa geração. Eles já foram chamados de “slackavettes”, em referência ao patrono do cinema independente americano John Cassavetes, de “geração DIY (do it yourself)”, enquanto outros falam de “myspace neo-realismo”.

Em cinco anos de vida, o movimento já rendeu 14 longas-metragens. Além de Bujalski e Swanberg, a trupe ainda conta com os irmãos Duplass -de um dos filmes mais bem recebidos da geração, “The Puffy Chair” (2005), road movie que acompanha a viagem de um casal de namorados que vai buscar uma poltrona comprada pela internet para dar de presente- e Aaron Katz, 26 anos, diretor de “Dance Party USA” (2006).

Ainda que o fenômeno Mumblecore tenha ganhado notoriedade pela autenticidade estética e frescor de conteúdo, algumas fórmulas parecidas já foram testadas por grandes mestres do cinema independente que hoje figuram no mainstream, como Richard Linklater, cuja dobradinha “Antes do Amanhecer” e “Antes do Pôr-do-Sol” empresta o tom casual da conversa entre os personagens, e Gus Van Sant, cineasta fascinado pela estranha resignação da juventude atual.

Mesmo filmes bem recentes, como “Eu, Você e Todos Nós” (2005), da videoartista e diretora de cinema Miranja July, servem como ponto de referência para se estabelecer uma relação com a geração atual. Assim como no filme de July, os jovens mumblecore parecem buscar a todo custo uma maneira de se comunicar e contar suas próprias histórias. E por isso às vezes soam como relatos narcisistas e egocêntricos.

Em depoimento à revista “Filmmaker”, Joe Swanberg disse: “Eu não sinto que eu tenho algo a dizer agora sobre a guerra do Iraque, as histórias da minha vida e dos meus amigos são as únicas que eu posso contar”.

Querer aglutinar tendências pode ser um caminho prático para simplificar a complexidade de cada autor, mas é quase impossível examinar as obras desses jovens cineastas e não amontoá-los debaixo de uma estética comum. Não somente devido ao naturalismo com que filmam situações casuais, mas principalmente por revelarem uma juventude atordoada com o despropósito de suas vidas e insegura com o futuro que lhes espera.

Publicado em 2/5/2008

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Fernando Masini
É jornalista.

Revista Trópico

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Monty Python - Olhe Sempre Pro Lado Bom Da Vida (dublado)

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O Sol - caminhando contra o vento - Trailer do filme

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Fluxo cambial de junho tem saldo negativo de US$ 877 mi

É a primeira vez, desde janeiro, que as remessas de divisas superam as entradas

Segundo o BC, o resultado semestral foi positivo em US$ 14,934 bi, abaixo dos US$ 51,627 bi registrados no mesmo período de 2007

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

No mês passado, o fluxo de dólares para o Brasil ficou negativo pela primeira vez desde janeiro, segundo dados divulgados pelo Banco Central. Em junho, as remessas de divisas ao exterior superaram os ingressos em US$ 877 milhões.
O número inclui todas as operações cambiais feitas no país, como investimentos estrangeiros, pagamentos da dívida externa, gastos com viagens internacionais, exportações e importações.
Os dados do BC mostram que a saída de recursos é mais forte no chamado segmento financeiro, que exclui as transações de comércio exterior. Essas operações responderam pela saída de US$ 5,578 bilhões, influenciadas, em parte, pelas incertezas dos mercados internacionais -entre 1º e 24 de junho, investidores estrangeiros retiraram R$ 7,4 bilhões que estavam aplicados na Bovespa.
Por outro lado, se fossem consideradas apenas a compra e a venda de dólares de exportadores e importadores, o fluxo de divisas no Brasil teria sido positivo em US$ 4,701 bilhões.
Para Mário Battistel, gerente de câmbio da Fair Corretora, o elevado volume de dólares que exportadores continuam trazendo para o país, mesmo com o dólar em queda, pode ser explicado pelos elevados juros praticados no país. “A melhor forma de recuperar a perda [dos exportadores] com essa valorização absurda do real é antecipar a venda de dólares para aplicar o dinheiro no mercado financeiro”, afirma.
Em relação ao comportamento dos estrangeiros que aplicam na Bolsa paulista, o analista lembra que, em momentos de crise, muitos investidores optam por sacar o dinheiro que está em mercados que já renderam lucros elevados para cobrir perdas sofridas em outros países.

Mais importações
Apesar do fluxo negativo de dólares registrado em junho, o resultado acumulado no semestre ficou positivo US$ 14,934 bilhões, bem abaixo dos US$ 51,627 bilhões apurados no mesmo período de 2007.
Mas o desempenho seria pior se não fossem as operações de comércio exterior, que continuam proporcionando forte entrada de recursos externos.
Entre janeiro e junho, os exportadores trouxeram US$ 96,278 bilhões ao Brasil, resultado das vendas ao exterior. O valor representa crescimento de 4% em relação ao primeiro semestre do ano passado.
O que tem ajudado a reduzir o ingresso líquido de dólares para o país é o forte crescimento das importações. Na primeira metade deste ano, os importadores enviaram US$ 66,728 bilhões ao exterior para pagar a seus fornecedores, 44% a mais do que nos primeiros seis meses do ano passado.

Folha de S. Paulo - 3/7/08

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Tenebrosas transações

Em artigo publicado hoje na Folha de S. Paulo, César Benjamin desvenda uma jogatina perversa patrocinada pelo Banco Central e que premia os especuladores. Pelas contas do articulista, está história já causou um prejuízo de 18 bilhões de reais aos cofres públicos. Eis o artigo:

Tenebrosas transações

CÉSAR BENJAMIN

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Se diretores de bancos centrais da Europa agissem assim, sairiam algemados dos seus escritórios. Aqui, é provável que nada aconteça
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O BANCO Central (BC) vem realizando operações heterodoxas e desnecessárias que resultam em prejuízos reiterados de bilhões de reais repassados ao Tesouro Nacional. É o chamado “swap” cambial. A tecnicalidade dos procedimentos e a blindagem nos meios de comunicação têm garantido a impunidade.
Economistas e jornalistas, implacáveis com qualquer aumento nos gastos públicos, ignoram a suspeitíssima sangria.
Na linguagem do sistema financeiro, agentes privados fazem uma operação de “swap” quando trocam ativos com diferentes rentabilidades e prazos de vencimento. Problema deles. O “swap” cambial é uma aposta nas variações das taxas de câmbio e de juros: ganha quem acerta no comportamento futuro dessas duas variáveis.
É uma operação puramente especulativa: um lado ganha exatamente o que o outro perde. No Brasil, porém -e só no Brasil-, quem oferece o negócio é o BC. É, pois, problema nosso. Estranha operação. Pois o próprio BC, numa ponta, fixa a taxa básica de juros; na outra, como gestor das reservas cambiais, interfere decisivamente na taxa de câmbio. É como se, em um jogo qualquer, um dos times pudesse escalar também o juiz. Os especuladores aceitam uma aposta contra um adversário que controla as regras do jogo. Incrivelmente, ganham!
Essas operações foram introduzidas por Armínio Fraga, então presidente do BC, em pleno curso da campanha eleitoral de 2002. Com a crescente possibilidade de vitória de Lula, temia-se uma corrida para o dólar.
Fraga decidiu inaugurar uma operação heterodoxa em que o BC arbitraria suas perdas, garantindo aos especuladores o reembolso de prejuízos com a desvalorização do real, de modo a induzi-los a permanecer na moeda nacional. Lançou operações de “swap” em que o BC ganharia se houvesse valorização do real, cabendo aos especuladores a posição oposta.
Quando a pressão dos credores internos paralisou o refinanciamento da dívida pública a partir de maio daquele ano, a cotação do dólar disparou, como se previa, subindo de R$ 2,50 em abril para R$ 3,63 em novembro. Quem tinha contratos de “swap” cambial ganhou com essa diferença, dando um prejuízo de R$ 10,9 bilhões ao Banco Central.
Nos dois primeiros meses do governo Lula, o prejuízo com essas operações foi de R$ 4,6 bilhões. Porém, as condições mudaram. A rápida recuperação da balança comercial e dos saldos externos induziu à valorização do real. Como os contratos de “swap” cambial haviam sido estabelecidos no regime anterior, quando o real se desvalorizava, os especuladores começaram a perder.
Já sob o comando de Henrique Meirelles, o BC alterou gentilmente as condições dos contratos, oferecendo o chamado “swap” reverso. O BC e os especuladores trocaram de posição, e o BC recomeçou a perder. Estamos diante do único caso, no mundo, em que um banco central aposta contra a sua própria moeda.
Operações de “swap” realizadas por bancos centrais são uma heterodoxia brasileira. Já não existem mais, há muito tempo, os motivos alegados por Fraga para justificar a invenção, mas ela continua a existir e a fazer milionários. Em 2006 e 2007, nessas operações, o BC repassou aos especuladores R$ 14,3 bilhões. De janeiro a maio de 2008, já havia entregue mais R$ 4 bilhões. As perdas são crescentes, pois as taxas de juros voltaram a subir e o real continua a se valorizar.
Na contabilidade do Banco Central, esses resultados têm sido escondidos no meio de números que tratam da contração ou expansão da base monetária, de um modo que ninguém consegue entendê-los.
A política atual do BC só aumenta essas doações. Com o pretexto, agora, de conter a inflação. O papel dos juros no controle da inflação é controverso, para dizer o menos. E a valorização continuada do real, como todos sabem, é o suicídio do país em médio prazo. Quem ganha, com certeza, são os apostadores no “swap”.
Recapitulemos: o BC propõe uma aposta viciada, em que ele mesmo pode manipular as variáveis decisivas.
Os especuladores aceitam. E o BC perde a aposta! Joga porque quer -pois isso nada tem a ver com política monetária- e perde porque quer.
O prejuízo -cerca de R$ 18 bilhões em pouco mais de dois anos- é repassado ao Tesouro Nacional.
Nos jornais, sob aplausos dos defensores da responsabilidade fiscal, os dirigentes do BC criticam o aumento dos gastos públicos e solicitam um superávit primário maior. Precisam de mais recursos, retirados da sociedade, para cobrir as bondades que fazem à turma da especulação.
Se diretores de bancos centrais dos Estados Unidos ou da Europa, formalmente independentes, agissem assim, sairiam algemados dos seus escritórios, no mínimo, por gestão temerária. Aqui, provavelmente nada acontecerá.
Sabíamos, há muito tempo, que o Banco Central brasileiro está acima dos Poderes da República. Agora sabemos que também está acima da lei. O Ministério Público deveria agir.

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CÉSAR BENJAMIN , 53, editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade Bicentenária de Aragua (Venezuela), é autor de “Bom Combate” (Contraponto, 2006). É colunista do caderno Dinheiro .

Folha de S. Paulo - 3/7/08

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