Arquivo de 5 de Julho de 2008

Que os girassóis floresçam sobre nosssas janelas.

As ensinanças da dúvida

Tive um chão (mas já faz tempo)

Todo feito de certezas

Tão duras como lajedo.

Agora (o tempo é que fez)

Tenho um caminho de barro

Umedecido de dúvidas

Mas nele (devagar vou)

Me cresce funda a certeza

De que vale a pena o amor

Thiago de Mello

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SP: após acordo, professores encerram greve na rede pública

A Secretaria de Educação de São Paulo assinou, nesta sexta-feira (4), um acordo com a Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino do Estado de São Paulo) que encerrou a greve dos professores, que durou 22 dias. A reunião conciliatória no TRT (Tribunal Regional do Trabalho) propôs um calendário de reposição das aulas perdidas, a garantia de que os professores serão remunerados por essas aulas e abertura de negociação sobre os demais pontos da pauta de reivindicação.

O acordo foi aprovado pela maioria dos professores em uma assembléia tumultuada da Apeoesp que durou cerca de 40 minutos na Praça da Republica, centro da capital. A votação ocorreu por volta das 18h desta sexta. Antes da definição, conselheiros do sindicato questionaram em discursos o acordo feito pela diretoria do sindicato com a Secretaria de Educação.

Em vários momentos, a direção do sindicato chegou a ser chamada de traidora por ter assinado a proposta que não obteve a principal reivindicação da categoria: a revogação do decreto do governo José Serra (PSDB) que dá novas orientações sobre as transferências de professores.

Na quinta-feira (10) está prevista uma nova assembléia. De acordo com a assessoria da Apeoesp, os representantes do governo estadual que participaram da reunião não possuem autonomia para definir um acordo. Eles irão levar a proposta para o governo, que deverá dar uma resposta até terça-feira (8). Caso a resposta do governo seja negativa, a Apeoesp informou que retomará a greve.

As férias na rede estadual de ensino estavam previstas para começar no dia 15 de julho. Com a suspensão da greve, o sindicato informou que os professores retornarão às salas de aula na próxima segunda-feira (7).

Na semana passada, o governo não compareceu a reunião de conciliação. A presidente do sindicato, Maria Izabel Azevedo Noronha, diz que categoria ‘’está disposta a negociar'’, mas deve manter o ‘’estado de greve'’ nas férias e retomar os protestos após o início das aulas, em agosto.

Depois da votação, houve apenas um empurra-empurra e discussão, sem agressões físicas, próximo ao carro de som da assembléia da Apeoesp. Às 18h30, o grupo já havia se dispersado e policiais militares com motos circulavam pela Praça da República.

Desentendimento

Antes do início da assembléia, professores se deslocavam para o Centro para a realização da assembléia. No caminho entre a Avenida Paulista e o Centro, por volta das 15h30, professores e policiais militares tiveram um desentendimento. O tenente-coronel Paulo Telhada foi vaiado pelos professores e chamado de racista.

Os professores se reuniriam pela quarta sexta-feira consecutiva no vão do Masp (Museu de Arte de São Paulo), na avenida Paulista, mas a promotoria de Habitação e Urbanismo obteve liminar da Justiça impedindo a manifestação no local. Foi fixada multa de R$ 500 mil caso os professores descumprissem a determinação.

O desentendimento aconteceu porque, segundo os professores que estavam no vão livre do Masp no início da tarde e foram encaminhados pela policia para a Praça da República, a Polícia Militar teria usado palavras de baixo calão para coduzi-los até o local. O coronel Paulo Telhada, responsável pela ação, disse que os manifestantes ficaram com raiva porque a polícia os conduziu até a Praça da República sem deixar que eles fechassem as vias, cumprindo a determinação da Justiça.

Na quarta-feira (2), a Secretaria anunciou o corte de salário e de gratificação dos professores em greve. Para reverter o caso, o sindicato entrou na Justiça com um mandado de segurança coletivo em defesa do direito de greve da categoria.

Por medo de perder o bônus, alguns docentes já estavam voltando às salas de aula. Maria Izabel lembrou que na greve realizada em 2000 os professores receberam holerites ‘’zerados'’ e aqueles que repuseram as aulas ainda não tiveram as faltas retiradas do prontuário.

Reivindicações

A categoria exige a revogação do decreto de lei 53.037/08. Na semana passada, José Serra (PSDB) publicou outro decreto que altera o anterior em três pontos. Pode pedir transferência quem: faltar até 12 vezes ao ano; tirar licença; ou estiver em estágio probatório (efetivados há menos de três anos). Também foi aprovado reajuste de 5% e incorporação ao salário-base de uma gratificação. Para o sindicato, a mudanças foram ‘’mínimas'’.

Segundo a Secretaria, menos de 2% dos professores estavam faltando diariamente nas 5.537 escolas estaduais –a rede tem 230 mil docentes. Contudo, a Secretaria autorizou a convocação de substitutos, cadastrados nas diretorias de ensino da rede. A pasta informa que os professores faltantes não precisarão repor aulas na maioria dos casos.

No comunicado, a Secretaria diz ainda que ‘’é totalmente contra uma greve corporativista organizada por um sindicato, a Apeoesp, que não tem pensando nos alunos, na melhoria da qualidade do ensino na rede estadual paulista'’.

A greve dos professores mobilizou milhares de trabalhadores em São Paulo. Somente na última sexta-feira (4), 60 mil professores estiveram no protesto que gerou um congestionamento de até 2,2 quilômetros. Segundo a CET (Companhia de Engenharia do Tráfego), nesta sexta-feira não foi registrada nenhuma ocorrência de lentidão na região causada pelo movimento.

Muitas lideranças expressaram sua indignação com a nota da Secretaria, uma vez que a maioria dos professores têm seus filhos na rede pública e lutam historicamente em defesa da qualidade de ensino, item ignorado pela política educacional do governo Serra.

Além da revogação deste decreto, os professores reivindicam o aumento real de 35% do salário –para cobrir perdas salariais dos últimos dez anos– e o fim da política de bonificação, que são valores acrescentados ao salário mensalmente.

Fotos: Apeoesp

Da redação, com agências

Portal Vermelho

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Somos todos diabos sem terras

Escrito por Marcelo Salles
26-Jun-2008

A decisão do Conselho de Promotores do Rio Grande do Sul de pedir a extinção do MST só encontra paralelo nas ditaduras mais sombrias. Seu entulho autoritário já serviu de base para oito ações contra os sem-terra, entre elas despejos violentos e proibição de manifestações pacíficas. Nesta terça-feira (24/6) a sede nacional do movimento, em São Paulo, foi invadida pela polícia, que levou 16 computadores e documentos importantes. São fatos inconcebíveis num Estado Democrático de Direito.

A recente ofensiva contra o MST teve início em 4 de março, quando 900 camponesas ocuparam uma fazenda ilegal da empresa Stora Enso, no Rio Grande do Sul. As trabalhadoras protestavam contra o monocultivo de eucalipto praticado nas instalações da transnacional, da mesma forma que haviam feito na Aracruz Celulose dois anos antes. A ação fez parte da Jornada de Lutas das Mulheres Sem Terra. Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, 60 camponesas tiveram seus corpos marcados por ferimentos causados pelas tropas da Brigada Militar e duas foram presas.

Em abril, a juíza Patrícia Rodriguez Whately, a pedido da Vale do Rio Doce, arbitrou multa de R$ 5 mil contra João Pedro Stédile a cada vez que ele se manifeste em público ou que o MST promova ocupações para denunciar a violenta exploração capitalista que coloca o Brasil entre os países mais injustos do mundo. Segundo Stédile, que não se calou, os 10% mais ricos recebem 23,5 vezes mais que os 10% mais pobres. E de tudo que é produzido, 60,9% fica com os donos do capital e 39,1% com os trabalhadores - proporção que já foi de 50% a 50% na década de 1960.

É a partir daí que devemos compreender as agressões jurídicas contra o MST. Além de alfabetizar e organizar os trabalhadores pobres, reforçando sua auto-estima e mostrando que eles são sujeitos de sua própria história - o que por si só já representa grande ameaça aos donos do poder -, o Movimento dos Sem-Terra está na linha de frente da resistência contra a exploração capitalista. Foi o MST quem deu visibilidade à campanha pela anulação da privatização da Vale do Rio Doce, que pertencia ao povo brasileiro e foi entregue à iniciativa privada por um preço aviltante. É o MST quem chega e afirma que o agronegócio é inimigo da humanidade; que o latifúndio é inimigo do trabalhador; e que as corporações de mídia são sócias da violência.

Por tudo isso o MST vem sendo demonizado. Como no mito do Paraíso Perdido, de John Milton, os militantes sem-terra são identificados como Lúcifer, o anjo rebelde. No mito, Lúcifer não se torna o inimigo número 1 do poder central porque é cruel, mesmo porque em nome de Deus se fizeram as Cruzadas, cujos métodos de conquista são conhecidos pela violência desmedida; Lúcifer não é expulso do Céu em razão de ser um sádico torturador, até porque muitos juízes não se preocupam em punir torturadores, sobretudo nesse pedaço de terra chamado Brasil; por fim, o diabo não se torna inimigo por ser corrupto, essa virtude tão cara ao sistema capitalista. Lúcifer se torna o símbolo da maldade quando se recusa a obedecer a uma norma, quando desafia o poder hegemônico; diz não àquele que tudo vê, tudo sabe, tudo pode.

O mito de John Milton serve como analogia perfeita. Os militantes sem-terra são demonizados não porque são supostamente violentos, baderneiros e corruptos, como afirma a mídia hegemônica. Os militantes sem-terra são enquadrados dentro do arquétipo da maldade porque ousam dizer “não”. O MST diz não à privatização da Vale do Rio Doce; diz não ao monopólio do eucalipto, diz não às sementes transgênicas, diz não ao latifúndio, diz não ao agronegócio, diz não à violência policial contra negros e jovens. Ou seja, recusa-se a aceitar o conjunto de normas que fundamenta o projeto capitalista para o Brasil.

Eis o grande crime do MST: dizer não ao sistema que tudo vê, tudo sabe, tudo pode. Pela rebeldia, enfrentará a fúria dos setores que lutam pela manutenção da exploração do povo brasileiro. Pela justeza de sua causa, receberá o apoio de milhões de brasileiros que ainda não perderam a capacidade de se indignar frente às injustiças. Seremos todos diabos sem-terra. Juntos, vamos lutar e vencer. Como disse outro diabo, o Santo Agostinho: “A esperança tem duas filhas lindas: a raiva e a coragem. A raiva do estado de coisas e a coragem para mudá-lo”.

Marcelo Salles é jornalista, editor do Fazendo Media - http://www.fazendomedia.com/

E-mail: msalles@uol.com.brEste endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

Correio da Cidadania

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Leitura cura tudo

Escrito por Gabriel Perissé
30-Jun-2008

Leitura cura tudo. É bom para tudo, tudo ajuda, faz de tudo.

Trabalha todas as dimensões intelectuais. Exercita a atenção, a memória recente, a conexão entre fatos e experiências passadas, a linguagem, a imaginação, a capacidade de prever, a capacidade de interpretar, a intuição.

A leitura nos cura do dogmatismo e do ceticismo, do medo e da temeridade, do sentimentalismo e da insensibilidade, da falta de assunto e da verborragia, da indecisão e do fanatismo, da arrogância e da timidez.

Leitura faz bem para os músculos, para os ossos, para os olhos, para os ouvidos, para a queda de cabelo, para os rins, para os intestinos, para as juntas, para as costas, para as pernas, para os pés, para as mãos, para os dedos, para as unhas, para tudo.

Ler resolve problemas de visão, de solidão, de falta de recreação, de impotência, de sonolência, de implicância, de amargura, de cabeça dura, de alergia a fritura, de incultura, de postura, melhora a temperatura, aumenta a estatura, cola as fissuras, cura qualquer gastura, queima todas as gorduras.

Durante a leitura o leitor esquece as torturas da vida, recupera o amor à vida, dá vida a novas idéias, revive vidas passadas, prevê vidas futuras, comunica vida à vida mesma.

A cada leitura o leitor sai de si, reencontra-se, dá a volta ao mundo, mergulha oceanos, perfura a terra, entra em órbita, engole nuvens, desafia o Sol, abraça a lua… E tudo isso sem sair do lugar.

O leitor que lê bebe o leite, bebe o vinho, bebe o café do vizinho, bebe a cerveja, bebe de todos os rios, bebe sicuta, bebe uísque, bebe muito, bebe e cala, bebe e ouve, bebe tudo e continua sóbrio.

Leitura, sobretudo, é remédio para todos os males.

Cura dor de cotovelo, dor aguda, dor cansada, dor surda, dor crônica, dor romântica, dor poética, dor dramática, dor trágica, dor da mente, dor demente, dor da alma, dor de barriga, dor de cabeça, dor de dente, dor de peito, dor que nada respeita, dor difusa, dor confusa, dor fantasma, dor fina, dor grossa, dor incausada, dor ousada, dor para todos os gostos e lamentos.

Leitura cura tudo. E, claro, cura até mesmo o maior de todos os problemas. Cura a própria falta de leitura! Quem lê torna-se incuravelmente leitor. Isto afirmo sem o menor exagero.

Gabriel Perissé é doutor em educação pela USP e escritor.

Website: http://www.perisse.com.br/

Correio da Cidadania

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Quem mantém acesa a chama libertária?

Embora nem todos tenham conseguido sustentar a coerência dos ideais do período, alguns parecem conservar intactos a resistência e o inconformismo

Ubiratan Brasil

O historiador Eric Hobsbawm disse, certa vez, que o movimento de 1968 não foi um começo nem um fim, apenas um sinal - ‘As pessoas daquela época acreditavam que estavam derrubando uma velha sociedade ou pelo menos fazendo o possível para isso. Em retrospectiva, o movimento de 68 é sinal de uma importante revolução cultural, com diversas raízes’, afirmou. Passados 40 anos, o desafio de alguns pensadores é detectar quem ainda sustenta aquele espírito libertário.

Afinal, para alguns historiadores, como o inglês Tony Judt, aquela foi uma época marcada pela ‘auto-indulgência narcisística’. Nunca, segundo ele, uma geração falou tanto de si própria em seu próprio tempo. E hoje, observando alguns nomes que foram símbolo do movimento, é possível perceber que o envelhecimento físico não foi tão acentuado como a decadência ideológica daqueles que picharam nos muros palavras de ordem como ‘A imaginação no poder’ e ‘Os sonhos são realidade’.

Nem todos conseguiram sustentar alguma coerência como, por exemplo, Daniel Cohn-Bendit, o jovem líder estudantil de Nanterre, apelidado de ‘o Vermelho’ por seu radicalismo de esquerda, e que hoje, passados 40 anos, tornou-se deputado do Parlamento Europeu pelo Partido Verde da Alemanha. Para ele, sua geração ainda enfrenta dificuldades para lidar com a globalização. Mais antenado parece estar o grande colaborador de Cohn-Bendit nos acontecimentos de maio de 1968, Jean-Pierre Duteil, um dos protagonistas da invasão da faculdade de Nanterre e hoje militante e editor. Depois dos eventos daquele mês, Duteil colaborou com outros sete colegas revolucionários na criação do jornal Passer Outre, que conseguiu se sustentar por três números.

A partir de 1974, ele assume a direção da publicação La Lanterne Noire, participando ainda de movimentos da Organização Revolucionária Anarquista. Em seguida, torna-se um dos diretores da Organização Comunista Libertária, dividindo seu tempo com um acampamento agrícola formado por refugiados latino-americanos. Na década seguinte, inicia colaborações com jornais e revistas que, apesar das baixas tiragens (e das vendas menores ainda), buscam manter acesa a chama revolucionária.

Com a comemoração dos 40 anos do mês em que invadiu a faculdade de Nanterre, Duteuil participou de uma série de eventos relativos à data, como um encontro na cidade de Perpignan, na segunda-feira passada. Além do debate, aproveitou ainda para promover seu livro Maio 68 - Um Movimento Político, no qual assinala: ‘A França não se entedia, a luta de classes não era uma fila do departamento de antiguidades, a classe operária não fez sua despedida. Em maio de 68, surgiram também novas formas de organização que se refletem, 40 anos depois, nos comitês de ação, com o desejo de autonomia e a desconfiança diante das estruturas sindicais e políticas.’

A resistência e o inconformismo parecem continuar intactos em outros nomes, como Raoul Vaneigem, autor de A Arte de Viver para as Novas Gerações, lançado no Brasil apenas em 2002, sob a chancela da editora Conrad. Membro de um grupo de nome estranho, Internacional Situacionista, ele era um dos artistas, intelectuais e ativistas que orbitavam em torno do francês Guy Debord (1931-1994), e que tinham como principal missão o combate contra o que chamavam de espetacularização da sociedade.

Metaforicamente, o grupo via a humanidade como uma entediante peça de teatro na qual uma minoria ocupava o palco e uma multidão assistia calada na platéia. Assim, o situacionistas defendiam a participação ativa dos indivíduos em todos os segmentos da sociedade, incentivando uma luta contra todas as monotonias da vida cotidiana moderna. O grupo, que surgiu nos anos 1950 e incensou decisivamente o movimento de 68, curiosamente saiu de cena em 1972, quando percebeu que a popularidade conquistada estava justamente espetacularizando o trabalho. A obra de Vaneigem, porém, incentivou herdeiros como o escritor Hakim Bey, autor de panfletos reunidos em Caos - Terrorismo Poético & Outro Crimes Exemplares, que a Conrad publicou em 2003.

‘Trata-se de um ato num Teatro da Crueldade sem palco, sem fileiras, sem ingressos ou paredes’, escreve Bey, buscando atualizar as táticas revolucionárias de 1968. Ele criou o conceito de ZAT (Zona Autônoma Temporária), que incentiva grupos a promoverem ações favoráveis a mudanças.

No Brasil, o conceito de ZAT também influenciou artistas. Em 2006, sua essência inspirou o processo de criação do Coletivo T1, formado por 13 dançarinos que propunham uma reflexão sobre ativismo cultural. E, ainda no mesmo ano, o tal ZAT foi usado de forma mais debochada.

Em Fortaleza, foi anunciada a mostra Geijitsu Kakuu, do artista japonês Souzousareta Geijutsuka. O Museu de Arte Contemporânea do Ceará divulgou maciçamente o currículo do artista, que não falava português. Uma única assessora de imprensa, Ana Monteja, intermediava entrevistas com o ilustre expositor.

Depois de a mostra ser amplamente divulgada, descobriu-se que Souzousareta Geijutsuka quer dizer ‘artista inventado’. Na verdade, tal japonês não existia, era uma invenção de Yuri Firmeza, artista plástico então com 23 anos. A assessora de imprensa era Irina, namorada de Firmeza. E o plano tinha a cumplicidade do diretor do museu, Ricardo Rezende. Citando Hakim Bey, o artista justificou o ataque contra as estruturas de controle, especialmente das idéias.

Mais atenção ao ensino e à cultura, pregava Firmeza, seguindo um conceito também defendido pelo francês Hugues Lenoir, outro que também pode figurar no grupo de descendentes do Maio de 68. Professor e diretor de pesquisas de Ciências da Educação e diretor do Centro de Educação Permanente da Universidade Paris X, ele é autor do livro Educar para Emancipar (Editora Imaginário), no qual defende que educação e sindicalismo revolucionário estão ligados em um mesmo projeto - aquele de uma classe operária culta porque emancipada, emancipada porque culta. Um caminho a ser semeado.

“Estado de S. Paulo”

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A África do Sul está desgostosa de si mesma

Karl-Ludwig Günsche

O mundo observou chocado enquanto uma onda de violência xenofóbica engolfou a África do Sul, deixando mais de 50 mortos e dezenas de milhares de desabrigados. Agora, as pessoas na África do Sul estão pedindo perdão às vítimas - e acusando o governo de Mbeki de enormes fracassos.

As duas cenas não poderiam ter sido mais diferentes. O presidente sul-africano Thabo Mbeki leu seu discurso para a nação no domingo em uma voz dura de pedra, sem paixão, expelindo os clichês políticos costumeiros de tristeza, vergonha e desgraça.

No mesmo dia, na aldeia de Masiphumelelel, perto de Cidade do Cabo, Nontembiso Madikane abraçou, com lágrimas nos olhos, sua antiga vizinha Abdi Sirej, da Somália.

A aldeia de Madikane inteira tem vergonha de si mesma - e seus moradores prometeram compensar pelo que fizeram. De fato, estão pedindo solenemente perdão aos estrangeiros que fugiram da aldeia. Além disso, estão pedindo aos imigrantes que voltem e prometendo devolver suas propriedades saqueadas. Os moradores estão até entregando os perpetradores para a polícia e prometendo proteger seus vizinhos assustados no futuro.

“Eles pertencem a este lugar”, disse o pastor metodista Vuyo Ngwenyana, referindo-se aos moradores estrangeiros da aldeia.

O governador da Província do Cabo Ocidental, Ebrahim Rasool, ficou assombrado com as ações da aldeia. “Os líderes e o povo de Masiphumelelel fizeram o impensável: convenceram as pessoas a devolverem os bens que foram roubados - foi uma medida corajosa”, disse. “Vocês mostraram a verdadeira liderança para o resto da nossa província, de fato, para todo o país.”

Desde o início dos ataques contra os imigrantes africanos no bairro de Alexandra em Johannesburgo, há duas semanas, ao menos 50 pessoas foram mortas, centenas feridas e dezenas de milhares desabrigadas. Durante grande parte desse tempo, o silêncio do governo foi ensurdecedor.

No final de semana, entretanto, o país finalmente começou a encontrar sua voz. A professora Loren Landau, pesquisadora de imigração da Universidade de Witwaterstrand, cunhou um lema para o contra-movimento: “O pesadelo é um chamado para o despertar.”

Em Johannesburgo e Cidade do Cabo, milhares tomaram as ruas para demonstrar solidariedade às vítimas da violência. Políticos, artistas, cientistas, médicos, advogados, estudantes e donas de casa uniram-se em manifestações. “Nunca mais”, prometeram os manifestantes a seus companheiros cidadãos de outras nações africanas.

Músicos proeminentes escreveram uma música contra a xenofobia, cantando: “Em nossa vida não”. “Vamos escrever a música no estúdio amanhã com o que transborda de nossos corações. Queremos disseminar a mensagem que a violência deve parar”, disse o rapper Slikour ao jornal “The Sunday Times” da África do Sul.

Milhares de sul-africanos foram fundo em seus bolsos para doar dinheiro e ajudar as vítimas. De Johannesburgo à Cidade do Cabo, voluntários vêm coletando roupas, alimentos, cobertores, dinheiro e brinquedos - coisas desesperadamente necessárias nos abrigos de emergência.

O gerente de banco George Woods, que é um pregador laico da Igreja Metodista, ficou tão chocado com a miséria após uma visita a um dos abrigos em Johannesburgo que organizou uma campanha espontânea. Em quatro dias, coletou 10 toneladas de alimentos e roupas. A organização de assistência Gift of the Givers angariou um milhão de rands (cerca de R$ 240 mil) em apenas alguns dias.

Um doador anônimo enviou um caminhão de cinco toneladas carregado de artigos de emergência. Igrejas, agências de assistência, a Cruz Vermelha, o Exército da Salvação e a comunidade judaica da África do Sul, todos ajudaram a coletar doações. Algumas doações são mais modestas: um quilo de farinha, uma bisnaga de pão ou uma cesta de legumes. Freqüentemente, entretanto, isso é tudo que podem dar.

Depois do primeiro final de semana sem violência em 14 dias, a África do Sul agora está começando a entender o choque dos horrores. Foi a pior, mais sangrenta e violenta agitação desde o final do apartheid, há 14 anos. Pela primeira vez desde esses tempos obscuros da história da África do Sul, militares altamente armados patrulharam as ruas dos bairros. Na última sexta-feira, o general Kwena Mangope foi forçado a anunciar que uma pessoa tinha morrido durante uma operação militar nos subúrbios de Johannesburgo.

Cerca de 30 mil pessoas deixaram suas casas em pânico na província de Gauteng, perto de Johanesburgo e Pretória, e procuraram refúgio nas igrejas, prefeituras, escolas e delegacias de polícia. Na região da Cidade do Cabo, o número foi de 20 mil. Até o porto da marinha da África do Sul em Simonstown estava aberto para refugiados.

De acordo com os números oficiais, 19.850 moçambicanos já haviam fugido na segunda-feira de manhã. Para atendê-los, campos de refugiados foram estabelecidos em Moçambique na fronteira com a África do Sul, no aeroporto internacional da capital Maputo e na própria capital. Em Beitbridge, o funil da fronteira da África do Sul com Zimbábue, a tendência de imigração foi revertida: pela primeira vez em meses, menos pessoas estão fugindo da ditadura de Robert Mugabe do que estão voltando da África do Sul.

Os políticos da África do Sul estão na defensiva. Muitos acusaram o governo de ter sido advertido como muita antecedência da violência que estava por vir. De acordo com os informes, embaixadores de outros países africanos disseram ao ministro de segurança Charles Nqakula que o Departamento de Assuntos Internos tinha recebido uma advertência escrita já em abril.

“É claro que estávamos conscientes de que algo estava fermentando”, admitiu o ministro de serviços de inteligência Ronnie Kasrils, em uma entrevista de rádio. Ainda assim, o governo ficou surpreso com o surto de violência.

As críticas pela forma que o governo administrou a crise estão cada vez mais direcionadas ao já enfraquecido presidente, Thabo Mbeki. O jornal de alta circulação “The Sunday Times” publicou um acerto de contas amargo com o antes celebrado astro político em sua última edição, sob a manchete: “Senhor presidente: por favor, renuncie agora.”

“Durante toda essa crise - argumentavelmente o momento mais grave, sombrio e repulsivo da vida de nossa jovem nação - Mbeki demonstrou que não tem mais a energia para liderar”, escreveu o jornal. “Então apelamos ao presidente Mbeki: renuncie no interesse de nosso país”.

O cientista político Frans Cronje do Instituto de Relações de Raça, chegou à triste conclusão que os excessos das últimas dois semanas foram “uma resposta direta aos fracassos de política por parte do governo de Thabo Mbeki”. O presidente contesta essa alegação. Em seu discurso à nação, ele repetidamente relativizou a violência étnica como obra de indivíduos e criminosos.

Entretanto, ele deve ter muitas razões para estar preocupado. No final de semana, os jornais da África do Sul revelaram os resultados chocantes de uma pesquisa recente. Como disse o “The Sunday Times”: “Atualmente, a África do Sul é oficialmente a nação mais xenofóbica do mundo.”

“Infelizmente, não me surpreende sermos os piores do mundo nesta questão”, comentou nada menos que o irmão de Thabo Mbeki, Moeletsi Mbeki, cientista social respeitado em observações ao “The Sunday Times”. “Mas certamente que a violência poderia ter sido evitada”, acrescentou.

“Estado de S. Paulo”

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O segundo governo Lula e a desertificação social-liberal no Brasil

Ricardo Antunes [*]

I
As recentes eleições no Brasil conferiram à Lula um segundo mandato. Se em 2002, quando houve a primeira vitória nacional do partido dos Trabalhadores, ela sinalizava, em alguma dimensão, o inicio da desmontagem do neoliberalismo no Brasil. Praticamente concluído o primeiro mandato presidencial de Lula, pode-se constatar que os elementos de continuidade suplantaram completamente os traços de descontinuidade, abafando e finalmente travando as possibilidades de mudanças abertas com a eleição de 2002. O Brasil ajudava a referendar uma tese que tem sido reeditada em vários (ainda que não em todos) países: muitas forças de esquerda que se credenciam para demover o neoliberalismo, quando chegam ao poder, freqüentemente tornam-se prisioneiras da engrenagem neoliberal.

Para aqueles que esperavam uma significativa mudança da política econômica, contraditando os interesses do FMI; que almejavam a contenção do fluxo de capitais que migram para o sistema financeiro internacional, esgotando a produção da nossa riqueza; que imaginavam que pudesse ocorrer uma recuperação substancial do salário mínimo nacional, contra a política de arrocho salarial; que combatiam a produção dos transgênicos que tantos riscos podem trazer a nossa saúde; que lutavam pela realização de uma reforma agrária profunda, imprescindível para desmontar a miséria brasileira; que esperavam uma real recuperação da res publica contra a política de privatizações dos anos 1990, enfim, pelo início de um programa efetivo de mudanças, com prazos e caminhos construídos com sólida impulsão popular e social, é imperioso constatar que a primeira “reforma” do governo Lula, logo em 2003, foi a (contra)reforma de previdência pública e sua privatização, foi agendada pelo FMI, imposição que o governo aceitou sem resistência, desestruturando um setor importante da classe trabalhadora brasileira, composta pelos funcionários públicos e que havia sido, até então, um dos pilares de sustentação do PT, particularmente no dificílimo período da ditadura militar.

E, ao fazer isso, o governo Lula teve que derrotar cabalmente, exemplarmente, a ação dos trabalhadores públicos, escolhidos pelo governo como elemento causal da tragédia brasileira. Sua força não se voltou contra os capitais financeiros, contra os capitais transnacionais, contra os proprietários agrários, contra as privatizações que desmontaram o setor produtivo estatal e os serviços públicos, mas contra os trabalhadores do espaço público, um dos raros espaços onde se preserva a dignidade dos assalariados e se tenta obstar o flagelo dos mercados.

E, de lá para cá, a política de superávit fiscal se acentuou, seguindo o receituário do FMI, que não cansa de citar o governo Lula como exemplo da América Latina; a produção do país foi essencialmente voltada para a remuneração do capital financeiro nacional e transnacional, além do grande capital produtivo.

Por que tal fenômeno se efetivou? Por que ao invés do início da descontinuidade e ruptura com o neoliberalismo, o governo de Lula do PT postou-se como expressão forte de sua continuidade ?

As explicações são, por certo, complexas, mas se encontram em grande medida na contextualidade vivenciada na década dos 90, onde pudemos presenciar movimentos de grande amplitude: 1) a proliferação do neoliberalismo na América Latina; 2) o desmoronamento cabal do “socialismo real” e a prevalência equivocada da tese que propugnava pelo “fim do socialismo”; 3) a socialdemocratização de parcela substancial da esquerda e seu influxo para a agenda social-liberal , eufemismo que a certa “esquerda” usa quando pratica o neoliberalismo.

Como o PT sofreu esse processo? Responder a essa questão é condição para entendermos o que vem se passando no caso brasileiro e sua esquerda dominante.

II

O PT parece completar seu ciclo e chegar à maioridade política: nascido no seio das lutas sociais, sindicais e da esquerda do final dos anos 70, o jovem partido surgia, então, sob o signo da recusa, tanto do “socialismo real”, quanto da socialdemocracia, sem migrar para o capitalismo. Sua vitalidade decorria do forte vínculo com as forças sociais do trabalho. A década de 80, que tantos consideram como a “década perdida” no Brasil, para o mundo do trabalho foi um período de criação e avanço. Bastaria lembrar que ali floresceram, além do PT, da CUT e do MST, uma pletora de movimentos sociais e sindicais, dos campos e das cidades, que irrompiam pela base, questionando nossa trajetória quase prussiana, autocrática, cujos estratos “de cima” expressavam um universo burguês ao mesmo tempo agressivo e medroso, elitista e insensível.

Nos anos 1990, a década da desertificação neoliberal, uma tormenta se abateu sobre o nosso país. Tivemos privatização acelerada, informalidade descompensada, desindustrialização avançada e financeirização desmesurada. Tudo em conformidade com o figurino global. Se o governo Collor foi marcado por uma espécie de semi-bonapartista aventureiro, fonte inesgotável de irracionalidade, com Fernando Henrique Cardoso e sua “racionalidade acentuada”, o país descarrilou nos trilhos do social-liberalismo, quando não do próprio neoliberalismo, uma vez que essa distinção é mais semântica do que real.

O PT sofreu essa tempestade, nos anos 1990, oscilando entre a resistência ao desmonte e a aceitação da política da moderação. Lutava contra o receituário e a pragmática neoliberais, mas aumentava sua sujeição aos calendários eleitorais, atuando cada vez mais no leito da institucionalidade. De partido contra a ordem foi se metamorfoseando em partido dentro da ordem. As derrotas eleitorais de Lula em 1994 e 1998 intensificaram seu transformismo, enquanto o Brasil também se modificava profundamente.
No apogeu da fase da financeirização do capital-dinheiro, do avanço tecno-científico, do mundo digital e quase espectral, onde tempo e espaço se convulsionam, o Brasil vivenciava uma mutação do trabalho que alterava sua morfologia, da qual a informalidade, precarização e desemprego, ambos estruturais, são expressões. Ingressávamos, então, na simbiose entre a era da informalização do trabalho e da informatização do capital.

Quando Lula venceu as eleições em 2002, ao contrário da potência criadora das lutas sociais dos anos 1980, o cenário era de estancamento em meio a tanta destruição. Sua eleição foi, por isso, uma vitória política tardia. Nem o PT, nem o país eram mais os mesmos. O Brasil estava desertificado enquanto o PT havia se desvertebrado. A Carta aos Brasileiros, assinada pelo PT em plena campanha eleitoral era uma clara demonstração de que o governo do PT seria fiador dos grandes interesses do capital financeiro, sob o comando do FMI. Por isso ela se tornou conhecida pelos seus críticos como Carta aos Banqueiros…

Por isso, a política que o governo do PT vem implementando, desde seu primeiro mandato (2002-6), é expressão de seu transformismo (Gramsci) e sua conseqüente adequação à ordem. Mas, a intensidade da subordinação ao financismo, ao ideário e à pragmática neoliberais, deixaram estupefatos até seus mais ásperos críticos: o governo do PT manteve pelos quatros anos uma política econômica que preserva o desemprego e a informalidade, com poucas oscilações, acentuando uma política exclusivamente assistencialista, chamada Bolsa-Família, que oferece uma renda, em média entre 8 a 40 dólares por mês para as famílias de baixíssima renda. Sua postura em relação aos transgênicos curvou-se às transnacionais e sua ação contra a previdência pública foi a visceral negação de todo seu passado, gerando catarse junto aos novos operadores dos fundos de previdência que vislumbram a feliz confluência do mundo financeiro com o sindicalismo de negócios. Nenhum elemento estrutural que preserva a miséria brasileira, nenhum aspecto da realidade desigual, nenhum interesse do capital (seja financeiro ou industrial ou ainda de serviços) foi sequer minimamente arranhado.

Ao contrário, o governo Lula mostrou enorme competência em dividir os trabalhadores privados em relação aos trabalhadores públicos. Se não fosse trágico, poder-se-ia dizer que o partido que nasceu na luta de classes (PT) converteu-se no partido que incentiva a luta intra-classe.

Claro que para tanto foi necessário repetir a história anterior, dos “processos e depurações”, que levou o PT dominante a expulsar a coerência para preservar a subserviência, expulsando três parlamentares, a senadora Heloísa Helena e os deputados Luciana Genro, Babá e João Fontes.

O mais exitoso partido de esquerda das últimas décadas, que tantas esperanças provocou no Brasil e em tantas outras partes do mundo, assemelha-se hoje ao New Labour da velha Inglaterra. Acabou por se converter num partido da ordem, exauriu-se enquanto partido de esquerda, capaz de transformar a ordem societal, para se qualificar enquanto gestor dos interesses dominantes no país. Converteu-se num partido que sonha em humanizar o nosso capitalismo, combinando uma política de privatização dos fundos públicos, atendendo tanto aos interesses do sindicalismo de negócios quanto especialmente aqueles presentes no sistema financeiro nacional e especialmente internacional que efetivamente dominam.

III

O que podemos esperar, então, do segundo governo Lula?

A política de alianças ilimitadas, com todos os setores de centro, de direita e mesmo de extrema-direita, mostra que qualquer ilusão em relação ao segundo governo Lula, ou é má fé ou completa desinformação. Consolida-se, mais uma vez, o triste processo de cooptação do que de melhor as classes trabalhadoras criaram nas últimas décadas.

A política econômica, por exemplo, em benefício dos capitais financeiros e do grande capital produtivo, vem reiterando a dependência aos ditames do FMI. A concentração da terra se mantém. O sentido público e social do estado está sendo, passo à passo, desmantelado. A maior virulência praticada pelo governo do PT foi, como dissemos acima, dada pelo desmonte da política de previdência pública e sua privatização. A política dos transgênicos curvou-se, como também já dissemos anteriormente, à pressão das transnacionais, como a Monsanto. A política externa, particularmente em relação aos EUA e o governo Bush, que deveria ser de frontal oposição e confronto, é de conciliação, quando não de adesão. Procura equilibrar-se entre a esquerda – Chavez, Morales e Fidel Castro – e o pior da direita, como os governos da Colômbia, México e os EUA.

Se isso já não bastasse, Lula ainda tentou, em meados de seu primeiro mandato, defender a flexibilização das leis de trabalho, como os capitais transnacionais estão exigindo. Só não levou à frente seu propósito pela eclosão da crise de corrupção que atingiu a alma de seu governo. E sabemos que os capitais globais estão exigindo, cada vez mais, a flexibilização dos direitos do trabalho, forçando os governos nacionais a se ajustarem à fase da acumulação flexível. Flexibilizar a legislação do trabalho significa, não é possível ter nenhuma ilusão sobre isso, aumentar ainda mais a precarização e destruição dos direitos sociais que foram arduamente conquistados pela classe trabalhadora, desde o início da Revolução Industrial na Inglaterra e especialmente pós-1930, quando se toma o caso brasileiro.

Como a lógica capitalista é acentuadamente destrutiva, os governos nacionais estão sendo cada vez mais pressionados a adaptar sua legislação social às exigências do sistema global do capital, aos imperativos do mercado, destruindo profundamente os direitos do trabalho.

É esse cenário que, depois de inúmeras tentativas feitas durante o período FHC, o FMI exigirá do segundo governo Lula a retomada do projeto de flexibilização de legislação sindical e trabalhista no Brasil. Se durante os anos 1990, houve forte oposição dos sindicatos, especialmente vinculados à CUT e ao PT, contra esses projetos, agora presenciamos o inverso: atrelados ao governo, os setores dominantes da CUT e do PT são os maiores defensores das propostas do governo Lula, sejam elas quais forem. Tudo em nome da chamada “governabilidade”.

Com o segundo mandato de Lula trata-se de destruir a coluna vertebral da legislação social brasileira, no que ela ainda tem de positivo, no que diz respeito aos direitos do trabalho. Por isso, a reforma trabalhista, elaborada pelo Fórum Nacional do Trabalho, com representantes dos “trabalhadores, empresários e governo”, todos escolhidos pelo governo do PT, é antípoda daquilo que era defendido pela CUT e pelo PT durante os anos 1980. Numa síntese, é a negação da autonomia, da liberdade e da independência sindicais. Dividida em duas partes, o desmonte começa pela reforma sindical. Depois viria a reforma trabalhista, na onda da desconstrução global. Ela tem pelo menos três pontos nefastos.

Primeiro: é extremamente cupulista, transferindo para as centrais sindicais o poder de negociação de direitos dos trabalhadores, restringindo a participação dos sindicatos e das assembleias de base para a realização dos acordos de classe.

Segundo: as centrais passam a ser definidas a partir da sua representação, o que fere qualquer possibilidade de exercício de autonomia e liberdade sindicais, ao estabelecer limites mínimos para a representação dos sindicatos.

Terceiro: o imposto sindical e as contribuições assistenciais são substituídas pela chamada Contribuição de Negociação Coletiva, ferindo-se o desejo fundamental do sindicalismo autônomo que é a cotização livre e voluntária dos trabalhadores para a manutenção dos sindicatos. Trata-se de trocar gato por lebre, para manter a velha (e também a nova) burocracia sindical que sustenta há anos o chamado peleguismo sindical.

Trata-se, portanto, de uma “reforma” que preserva e intensifica o verticalismo, o cupulismo, o burocratismo das centrais sindicais, tolhendo o nascimento de novos organismos de base e restringindo ainda mais a ação autônoma dos trabalhadores.

IV

Mas a crise política do governo Lula, presente na corrupção intensa desencadeada pela cúpula do PT e do governo Lula foi ainda mais profunda, atingindo o próprio coração do poder. Crise que quase levou o PT e seu governo precocemente ao fim e só a custa de fortes interesses econômicos e políticos dominantes – que não queriam turbulência política que pudesse alterar a política econômica do governo – foi que permitiu apoio para Lula poder terminar seu primeiro mandato sem ruptura.

Mas, a reedição, neste segundo mandato, da política de aliança de classes com todos os setores, é clara reprodução do quadro anterior. Em termos eleitorais, a população, ao votar em Lula no segundo mandato, preferiu, majoritariamente, dar-lhe a vitória, para impedir o retorno do esquema PSDB e PFL, partidos da direita brasileira, que sempre tiveram uma política elitista e de clara insensibilidade social. A amplitude do assistencialismo do governo Lula, aliado à preservação integral dos grandes interesses dominantes, preservados, garantidos e mesmo ampliados durante o governo Lula, fechou um circulo favorável à sua reeleição. Mas é evidente que a crise pode retornar e mesmo se agravar, tanto no plano interno, quanto no plano externo, se a retração econômica dos EUA atingir dimensão mais acentuada.

Favoreceu também o primeiro governo Lula, a vigência de um cenário econômico internacional dos mais favoráveis, o que não se pode esperar tão facilmente no segundo mandato. Mas é visível que os movimentos sociais, como o MST (sem terra), dos operários, do sindicalismo de esquerda, dos sem-teto, dentre tantos outros, tendem a exigir do governo Lula o que ele não está disposto a realizar. O que nos permite antever uma ampliação das lutas sociais e políticas no Brasil atual.

Como conclusão podemos afirmar que o mais expressivo partido de esquerda do Brasil soçobrou vertiginosamente frente aos ditames e encantos da ordem dominante. Não ofereceu nem mesmo uma única opção alternativa e contrária à pragmática dominante, que riscasse um pouco o receituário do superávit, do ajuste fiscal, da defesa dos bancos e finanças globais, do incentivo aos capitais voláteis etc. A Bolsa-Família, que puxou os votos em Lula, nas eleições de 2006, é de um assistencialismo que há alguns anos atrás seria recusada até mesmo pelos setores localizados mais ao centro do espectro político, tal sua insuficiência. É incapaz de arranhar minimamente a estrutura geradora da miséria e da barbárie social. Passa longe disso.

Na contextualidade política marcada pelo neoliberalismo, financeirização e mundialização do capital, desregulamentação e precarização do trabalho, o segundo governo Lula procura sustentar-se numa política de “coalização” com os setores mais tradicionais da direita brasileira que foram – e ainda são – responsáveis pela perpetuação da dominação burguesa no Brasil, para não falar da corrupção privada e política que sempre sustentou e preservou estes mesmos interesses dominantes.

Se esse é o quadro político brasileiro, torna-se claro o novo desafio da esquerda: a criação de um pólo social e político de base, que não tenha medo em oferecer ao país as causas reais, profundas, históricas e estruturais, de nossas mazelas sociais e políticas. E, desse modo, que se insira nas lutas sociais e políticas da América Latina, ajudando a retomar o dilema do século XXI, que nos obriga, uma vez mais, a repor a questão do socialismo. Tema que o governo Lula e o PT dominante abandonaram, faz tempo…

[*] Professor de Sociologia do IFCH/UNICAMP (Brasil) e autor de, entre outros, Los Sentidos del Trabajo (Ed. Herramienta, Argentina); Adios al Trabajo? (Ed. Herramienta, Argentina); Lavoro in Tràppola (Jaca Book, Milão); O Caracol e sua Concha (Boitempo, São Paulo) e A Desertificação Neoliberal no Brasil (Ed. Autores Associados, Campinas), entre outros livros. Colabora regularmente em revistas estrangeiros como Margem Esquerda (Brasil), Herramienta (Argentina), Trajectórias (México), Latin American Pespectives (EUA), Proteo (Itália) e Asian Journal of Latin American Studies (Coréia).

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O cérebro não é uma folha de papel em branco

Fernando Reinach *

O ensino está baseado na crença de que o ser humano possui um cérebro que pode ser comparado a uma folha de papel em branco. À medida que a pessoa é educada, pais e professores preenchem essa folha com informações e conhecimento. Nada mais errado.

Neste sábado, estava tomando café da manhã com meu filho de dois anos quando ele pegou uma colher. De repente, observei que ele havia descoberto sua imagem refletida na face convexa da colher. Ficou olhando sua superfície até que virou o talher e examinou a face côncava. As sobrancelhas demonstraram seu espanto com sua imagem de ponta-cabeça. Segurando a colher pelo cabo, por várias vezes, mirou-se no espelho côncavo e convexo. Finalmente, concentrou-se na face interna da colher. Parou e, então, fez o que me parecia impossível: rodou o talher de modo que, ainda olhando sua imagem invertida, o cabo da colher, que apontava para o solo, passou a apontar para o teto. Será que se frustrou porque não teve sucesso em corrigir a imagem invertida girando a colher? Não sei, mas perdeu a paciência e jogou o talher no chão. A cena não durou mais do que um minuto.

Comportamentos como esse, normais em qualquer criança e descritos há décadas, são as raízes do pensamento científico. Primeiro somos estimulados por uma observação (a imagem refletida no lado externo da colher). Ao examinar o fenômeno, deparamo-nos com algo estranho e inesperado (a imagem invertida de nossa face no lado interno da colher). Confirmamos a observação (comparamos diversas vezes a imagem formada no lado interno com a imagem formada no lado externo da colher). Fazemos uma hipótese para explicar o ocorrido (a imagem, que está de ponta-cabeça, pode ser corrigida se virarmos o cabo da colher para cima). Fazemos o experimento (viramos o cabo da colher para cima). O experimento demonstra que nossa teoria estava errada (a imagem não é corrigida). Frustração.

É claro que meu filho nunca leu Popper ou teve aulas sobre método científico, mas seu cérebro já possui o aparato mental necessário para esse tipo de raciocínio. Atualmente, acredita-se que já nascemos com essa capacidade. O mesmo ocorre com nossa capacidade para a fala (em que língua, depende do meio ambiente em que crescemos), para efetuar operações matemáticas simples (foi demonstrado em bebês de três meses) e para dezenas de outras habilidades. A cada ano que passa, biólogos e psicólogos demonstram que ao nascermos nosso cérebro é exatamente o oposto de uma folha de papel em branco. O problema é que essa descoberta ainda não chegou ao sistema educacional.

Daqui a quinze anos, meu filho terá uma aula de ótica na qual as propriedades dos espelhos côncavos e convexos serão ‘ensinadas’. Provavelmente, ele será estimulado a fazer experimentos com espelhos, e as noções básicas do método científico serão diligentemente ensinadas. É fácil prever que, como a maioria dos jovens, ele vai achar o assunto pouco interessante. Dificilmente seus professores verão em seus olhos o espanto que observei no último sábado.

Do ponto de vista biológico, a educação pode ser resumida como a tentativa da sociedade de influenciar o funcionamento do cérebro de seus membros. Entender os mecanismos que regem o funcionamento e o desenvolvimento do órgão que estamos manipulando deveria ser uma das principais preocupações dos educadores. Infelizmente, a pedagogia ainda está muito distante de tentar incorporar os progressos recentes da neurobiologia.

*Biólogo (fernando@reinach.com)

“Estado de S. Paulo”

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Treinamento da memória aumenta o poder cerebral

Nicholas Bakalar

Um novo estudo descobriu que pode ser possível treinar pessoas para que se tornem mais inteligentes, aumentando o poder cerebral que tinham ao nascer.

Até hoje, tem sido presumido que o tipo de habilidade mental que nos permite resolver novos problemas sem qualquer experiência anterior relevante - o que os psicólogos chamam de inteligência fluida - é inata e não pode ser ensinada (apesar de ser possível melhorar o desempenho em testes com a prática).

Mas no novo estudo, pesquisadores descrevem um método para melhorar essa habilidade, juntamente a experimentos para provar que o método funciona.

A chave, segundo os pesquisadores, é um treinamento cuidadosamente estruturado na memória ativa - o tipo que permite a memorização de um número de telefone apenas o tempo suficiente para discá-lo. Este tipo de memória altamente relacionada com a inteligência fluida, segundo informações do artigo, parece contar com o mesmo sistema de circuitos do cérebro. Então os pesquisadores consideraram que aprimorar esse tipo de memória poderia aprimorar a inteligência fluida.

Primeiro, eles mediram a inteligência fluida de quatro grupos de voluntários utilizando testes-padrão. Então eles treinaram cada um em uma complicada tarefa de memória, uma elaborada variação em “Concentração”, o jogo de cartas para crianças, no qual eles memorizaram simultaneamente estímulos auditivos e visuais que teriam de recordar depois.

O jogo era ajustado para que, conforme os participantes tivessem sucesso, as tarefas ficassem mais difíceis, e, conforme falhassem, as tarefas ficassem mais fáceis. Isso assegurou um alto nível de dificuldade, adaptado individualmente para cada participante, mas não alto o suficiente para minar a motivação de continuar trabalhando. Os quatro grupos passaram por meia hora diária de treino por 8, 12, 17 e 19 dias, respectivamente.

Ao final de cada treinamento, os pesquisadores testavam a inteligência fluida dos participantes novamente. Para garantir que eles não estavam apenas aprimorando suas habilidades em fazer testes, os pesquisadores os compararam com grupos de controle que fizeram os testes sem o treinamento.

Os resultados, publicados na revista “The Proceedings of the National Academy of Sciences”, foram surpreendentes. Embora os grupos de controle também tenham atingido ganhos, presumivelmente por terem ganhado prática nos testes de inteligência fluida, a melhora nos grupos treinados foi substancialmente maior. Além disso, quanto mais eles treinavam, mais altos ficavam seus resultados. Todos os participantes, do mais fraco ao mais forte, mostraram significativa melhora.

“A inteligência sempre foi considerada um traço herdado imutável”, diz Susanne M. Jaeggi, membro do pós-doutorado em psicologia da Universidade de Michigan e co-autora do artigo. “Nossos resultados mostram que você pode aumentar sua inteligência com o treinamento apropriado”.

Por que o treinamento funcionou? Os autores sugerem vários aspectos do exercício relacionado a resolver novos problemas: ignorar itens irrelevantes, monitorar o desempenho do andamento, gerenciar duas tarefas simultaneamente, conectar itens relacionados uns com os outros em espaço e tempo.

Segundo Jaeggi, ninguém sabe por quanto tempo os ganhos vão durar depois do fim do treinamento, e o formato do experimento não permitiu que os pesquisadores determinassem se a continuidade do treino produziria mais ganhos.

“The New York Times”

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Dez dias: na Europa, crianças se desintoxicam das telinhas

Martine Laronche

No dia 20 de maio, uma terça-feira, os 254 alunos da escola primária do Ziegelwasser (antigo afluente do Reno, hoje um dos canais que atravessam Estrasburgo, uma cidade constituída por várias “ilhas”) se lançaram num desafio tão arriscado quanto difícil: dispensar toda e qualquer telinha de televisão, computador e consoles de videogame durante dez dias. Logo após o anúncio, os jornalistas passaram a disputar espaço diante da porta da escola, que é classificada na categoria ZEP (Zona de Educação Prioritária), situada no bairro popular do Neuhof, na periferia. Até mesmo a secretária de Estado para a família Nadine Morano se deslocou de Paris até o estabelecimento.

Uma semana mais tarde, as crianças estão prestes a vencerem a partida. A taxa de sucesso supera os 90%, enquanto a meta que havia sido projetada para tanto era de 70%.

“No começo, nós não sabíamos o que esperar”, se recorda Lucette Tisserand, mãe de um baixinho chamado Samuel, de 7 anos e meio. Habitualmente, o seu filho fica assistindo aos desenhos animados na televisão, pela manhã, além das informações regionais e do seriado “Omar et Fred” no canal por assinatura “Canal+”, à noite, junto com a sua mãe. Nos dias sem escola, ele fica brincando com o seu Nintendo DS.

“Ele realmente levou o desafio a sério. Um dia, excepcionalmente, eu quis assistir a uma reportagem na televisão sobre esta experiência. Pois ele saiu da sala e foi se trancar no seu quarto”, recorda-se a sua mãe. Felizmente, o garoto dispõe de muitas alternativas: bicicleta, piscina, museu, feirinha de objetos usados no pátio da escola… Com tudo isso, Samuel teve um fim de semana bastante agitado.

“Graças a esta experiência, o ambiente está tranqüilo lá em casa”, acrescenta Lucette. “Em relação a tudo isso, creio que algumas dessas regras deverão ser mantidas: não mais assistir à televisão durante as refeições, continuar nos divertindo com jogos de sociedade, e ler uma história para o meu filho à noite”.

Os pais, apoiados pela associação ambientalista estrasburguesa ECO-conseil, que esteve na origem da operação em parceria com a Câmara de Consumo da Alsácia, participaram da realização de diferentes atividades, as quais foram coordenadas pelo diretor da escola.

Na última terça-feira (27), duas mães estiveram ocupadas em recortar moldes para a oficina de costura do dia seguinte. “Há muitas coisas que nós fazemos para os nossos filhos que nós não faríamos anteriormente”, explica Sabrina Klem, mãe de Lyse, 7 anos, e de Laura, 8 anos. “Por conta disso, anteriormente, eu não tinha contato algum com os outros pais. Agora, a gente se cumprimenta, e vai criando laços de amizade”. A mesma constatação é feita por Karine Vanhouck, mãe de quatro filhos, dos quais um está sendo escolarizado na escola do Ziegelwasser. “O meu filho quer continuar estudando aqui, não apenas porque ele aprecia muito os desafios, como também porque nós temos nos mostrado mais disponíveis para ele”.

Uma parte das crianças teve lá seus momentos de fraqueza, sucumbindo a uma ou outra tentação, mas nem por isso elas resolveram desistir. Este foi o caso de Yasin, 10 anos, e de Matine, 11 anos, que na semana assistiram ao jogo de futebol da final da Liga dos Campeões e ao seu programa predileto, “As Trinta histórias mais espetaculares”. Nasrine, 10 anos, confessa ter participado de um chat, uma vez, no MSN, junto com a sua prima, e ter assistido a um programa sobre o código do trânsito. Dylan, por sua vez, “tropeçou” em duas oportunidades diante da sua televisão, e tampouco resistiu a brincar com seu videogame. Essas pequenas distorções das regras resultaram toda vez na retirada de um ponto em sua grade de avaliação, mas, no total, os resultados obtidos por esses quatro colegas se revelaram mais do que honrosos.

Sobre a mesa do diretor da escola, destaca-se uma pilha de cerca de quarenta cartas de incentivo. “Todas essas mensagens mostram que nós estamos lidando com um fenômeno que diz respeito a todos os meios da sociedade”, analisa Xavier Rémy. “Os últimos dez dias que nós vivenciamos foram um pouco mágicos. A operação permitiu que laços sociais fossem firmados, e disso restará forçosamente alguma coisa”.

Ao meter o bedelho em comportamentos que, a priori, não lhe diziam respeito, mas sim envolviam a intimidade das famílias, a escola do Ziegelwasser desempenhou um papel unificador no nível do bairro, incentivando as famílias a participarem de uma aventura inédita na Europa.

“Para idealizar este projeto, nós nos inspiramos em parte na experiência quebequense de Jacques Brauder, um professor de ginástica aposentado que atua como militante em favor da paz”, explica Serge Hygen, um encarregado de missão na associação ECO-conseil.

No Canadá, um balanço realizado em dez escolas listou inúmeros benefícios que podem ser obtidos com operações desse tipo: melhora do bem-estar e do humor das crianças, que acabam passando uma maior parte do seu tempo com a família, além de menos disputas.

A maior parte das escolas que haviam lançado o desafio manifestou a intenção de repetir a operação.

“Le Monde”

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A violência no Rio e em SP

Para melhor entender os ataques no Rio e a violência cotidiana no país, é importante relembrar o que ocorreu em São Paulo com o PCC. A facção criminosa, cujo Estatuto reivindicava direitos humanos para os presos, perdeu sua finalidade inicial diante de um Estado fraco e desorganizado.

Ariel de Castro Alves

Novamente a sociedade brasileira está em pânico diante de novos ataques do crime organizado. Desta vez o cenário não é a “terra da garoa” e sim a “cidade maravilhosa” – o principal cartão postal brasileiro, exatamente na alta temporada de verão, gerando graves danos ao turismo. Mais uma vez, alguns políticos, de várias vertentes, lançam suas bravatas e atuam com demagogia para ludibriar a opinião pública. Especialistas de ocasião, sensacionalistas e oportunistas de plantão também aparecem defendendo soluções milagrosas, principalmente pugnando pela elaboração de mais leis que jamais sairão do papel. Certamente, dentro de duas semanas, tudo será esquecido, nenhuma medida será tomada até a chegada de uma nova onda de ataques.

Por outro lado, o crime organizado se aproveita do cenário de desentendimento entre os governantes, da corrupção que toma conta das instituições que deveriam combater o crime, das transições nos governos, da ressaca e do recesso de início de ano e até do turismo do verão para impor o terror e depois negociar uma trégua. Em São Paulo, um dos ingredientes que motivou a atuação do crime organizado, além de alguns dos citados acima, foi o período pré-eleitoral, quando os governos ficam totalmente perdidos e tudo se torna motivo para disputas e ataques recíprocos. No Rio de Janeiro atuam as milícias criminosas com a conivência da polícia. Em São Paulo atuaram os grupos de extermínio, também com a complacência das forças policiais. Para melhor entender os ataques no Rio e a violência cotidiana no país, é importante relembrar o que ocorreu em São Paulo nos últimos anos:

A facção criminosa denominada Primeiro Comando da Capital (PCC) surgiu em 1993, no Anexo da Casa de Custódia de Taubaté, no interior de São Paulo. No início, a idéia originária dos fundadores do grupo era a de, através de uma “entidade” ou um “partido”, organizar os detentos com a finalidade de lutar contra o que chamavam de “opressão carcerária”, torturas, humilhações, ausência de perspectivas e direitos elementares no sistema prisional, e também para que houvesse Justiça no caso do assassinato de 111 presos no epísódio internacionalmente conhecido como “Massacre do Carandiru”, ocorrido em 1992.

O Estatuto do PCC manifestava idéias inclusive de cunho progressistas e reivindicava direitos humanos previstos na própria legislação brasileira com relação ao tratamento do preso e de seus familiares. Ocorre que com o tempo a organização ganhou complexidade e passou a se desviar das finalidades iniciais traçadas por seus fundadores e no seu Estatuto. O PCC se fortaleceu rapidamente em razão da precariedade das condições no sistema prisional. O crime organizado é forte onde o Estado é fraco e desorganizado! A falta de fiscalização e controle externo nos estabelecimentos penitenciários por parte do próprio Poder Executivo, mas também do Judiciário e do Ministério Público, inclusive contrariando a própria legislação, contribuiu para o fortalecimento do PCC.

No mesmo período, o poder público restringiu a fiscalização que poderia ser realizada por organizações de direitos humanos, impedindo a entrada de muitos de seus representantes nas prisões. Contando com a corrupção corrente nos vários escalões do sistema prisional, a organização de detentos se transformou realmente numa facção criminosa sustentada por crimes e contravenções dentro e fora do sistema penitenciário, explorando presos e seus familiares, fortalecendo e se abastecendo do tráfico de drogas, impondo medo, terror e mortes aos seus desafetos e até para seus próprios seguidores, ganhando alguns adeptos na advocacia, no funcionalismo público do sistema prisional, nas polícias e em variados segmentos da sociedade. Somavam, assim, todos os ingredientes do que podemos definir como crime organizado.

Diante do crescimento da organização criminosa, o Estado se manteve praticamente inoperante e até colaborou indiretamente para o seu fortalecimento instituindo e reconhecendo “líderes”, “vozes” e “faxinas” no sistema prisional. Mantendo um constante diálogo com negociações e acordos recíprocos. Para o próprio Estado sempre interessou que os próprios detentos estabelecessem sistemas de autogestão do controle interno. Isso sempre foi muito mais cômodo. Realmente é mais fácil garantir trabalho, boa alimentação, aparelhos de TV, condições de estudo e assistência judiciária para alguns do que para todos. Quando não, com a corrupção, a entrada de drogas, dinheiro e celulares. E, assim, negociar com esses poucos “privilegiados” para que eles controlassem os demais.

Essa rotina manteve uma aparente calmaria no sistema por alguns anos. Durante esse período, as autoridades divulgavam com orgulho a diminuição de fugas e as poucas rebeliões. Também davam publicidade a desativação de carceragens em delegacias e a inauguração de novos estabelecimentos penitenciários considerados modelos. Porém, o crime organizado nos presídios cresceu rapidamente conforme a ambição das lideranças antigas e emergentes da facção criminosa majoritária, fugindo totalmente do controle do Estado. Vários sinais demonstraram isso antes dos ataques contra as forças policiais em maio de 2006. A principal prova de força do grupo criminoso ocorreu na megarrebelião de fevereiro de 2001, que envolveu 29 presídios no Estado de São Paulo, na qual o centro da articulação foi o complexo penitenciário do Carandiru.

As transferências de presos para outros Estados da Federação naquele período acabaram fazendo com que a facção criasse ramificações e apoios no país todo. Também nos anos de 2001, 2002 e 2003 vários ataques contra policiais e Fóruns da Justiça foram atribuídos ao PCC. Em 2003, o juiz corregedor de Presidente Prudente, Antonio José Machado Dias, foi assassinado a mando da facção. Perante tudo isso, o Estado se manteve praticamente inerte, efetivando poucas ações e medidas eficientes para reestabelecer sua autoridade. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito foi criada após a megarrebelião de 2001, na Assembléia Legislativa de São Paulo, mas foi inviabilizada pela bancada governista e não acabou chegando a nenhuma conclusão, exatamente quando o foco das investigações era o possível envolvimento de dirigentes do sistema prisional com o crime organizado. A única grande ação de suposto combate à facção não passou de uma armação que gerou a morte de 12 pessoas na rodovia Castelinho em março de 2002.

Tendo em vista que nenhum desses prenúncios citado anteriormente foi observado com a devida atenção e quase nada foi feito para garantir a segurança pública e desmantelar os grupos criminosos através de um trabalho sério de inteligência, organização do sistema prisional, prevalência do cumprimento da lei e estruturação das forças policiais, no dia 12 de maio de 2006 o crime organizado deu início as execuções sumárias de agentes do Estado. Entre maio e agosto, ao todo, a facção teria matado 59 pessoas em suas três ondas de atentados. Foram mortos 25 policiais militares, 4 guardas civis, 7 policiais civis, 14 agentes penitenciários, 6 civis e 3 seguranças. No total, foram 998 ataques no período. Ocorreram rebeliões em praticamente todos os presídios e em algumas unidades da Febem (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor). Alguns movimentos também foram observados em outros Estados, como Espírito Santo, Paraná e Mato Grosso. Mas São Paulo foi o Estado que mais conviveu com dias de pânico e terror.

Após a primeira onda de ataques do dia 12 de maio, o que se viu em seguida foram execuções sumárias e extermínios deliberados também por parte das forças policiais e de grupos de extermínio. No total, 492 pessoas morreram entre os dias 12 e 20 de maio, conforme levantamentos feitos por entidades e pelo Conselho Regional de Medicina junto às sedes do Instituto Médico Legal. Dados da própria Secretaria de Segurança Pública demonstraram que no segundo trimestre de 2006 1.888 pessoas morreram em São Paulo. Esse número corresponde a mais que o dobro de mortes no mesmo período no Iraque, país que está em Estado de Guerra já há algum tempo.

O que não faltaram foram relatos de familiares com relação às mortes e desaparecimentos de jovens, pobres, negros e moradores da periferia. Um verdadeiro massacre. Os 126 casos classificados pela própria Secretaria de Segurança Pública como supostas “resistências seguidas de morte” foram analisados pelo perito criminal Ricardo Molina, que constatou que em 88 casos haviam indícios de execuções sumárias, muitos com tiros de cima para baixo, nas costas e sempre em regiões letais. Pessoas mortas que provavelmente não ofereceram a suposta resistência propalada pelas autoridades da segurança pública.

Alguns casos com investigações em curso estão demonstrando isso, apesar do pouco interesse tem tido o Estado em esclarecer as mortes dos seus próprios agentes, muito menos das vítimas civis, supostamente mortas pelas forças de segurança estatais e por grupos de matadores. A Ouvidoria de Polícia já diagnosticou ao menos 82 casos de atuação de grupos de extermínio, porém nenhum desses casos ainda foi esclarecido pela polícia nem pelas corregedorias. Desde o dia 19 de maio, as entidades de direitos humanos atuam através de uma Comissão Especial Independente, reunindo representantes das organizações não governamentais e de órgãos públicos.

Essa comissão foi constituída pelo Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), após ter sido aprovada em audiência pública realizada na Assembléia Legislativa de São Paulo. No entanto, essa comissão tem tido grande dificuldade de acesso às informações, que são sonegadas pela Secretaria de Segurança Pública. Até o próprio Ministério Público tem enfrentado dificuldades para obter informações oficiais. As testemunhas também temem retaliações e não acreditam nas instituições, até com razões plenamente consideráveis. Esse é mais um ingrediente que favorece a impunidade.

Podemos afirmar que após 7 meses dos ataques do crime organizado em São Paulo e da reação descontrolada das polícias e dos grupos de extermínio, a situação ainda é propícia para novos ataques e outros massacres, gerando um ciclo de violência que precisa ter fim. Até agora sequer sabemos exatamente quantas pessoas morreram no período; o sistema prisional se mantém sem controle; os policiais continuam sem estrutura de trabalho; a maioria das famílias dos agentes do Estado que morreram ainda não receberam indenizações.

A maior homenagem às vítimas civis e militares seriam ações efetivas por parte dos governos federal, estadual e municipais visando ao enfrentamento da violência com medidas preventivas, na área social e repressivas, na área policial, mas preferem não fazer nada apostando no esquecimento da população. Até antigas propostas nacionais, como a reformulação das polícias, a reforma do sistema prisional e a implantação de um Sistema Nacional de Segurança Pública parece que foram deixadas de lado.

Quando ocorrem variações no câmbio, queda nas bolsas de valores, variações nas taxas de juros e pequenos distúrbios na economia, rapidamente os governos atuam e tomam providências urgentes lançando os mais variados pacotes de medidas, mas quando ocorrem mortes de jovens, pobres, moradores da periferia, sendo agentes do Estado ou civis, a inércia é a regra, em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em qualquer outro estado do país.

Ariel de Castro Alves é advogado, coordenador do Movimento Nacional de Direitos Humanos, presidente do Projeto Meninos e Meninas de Rua, assessor jurídico da Fundação Projeto Travessia, membro da Comissão da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), secretário geral do Condepe (Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana – São Paulo) e membro eleito do Conselho Nacional da Criança e do Adolescente (Conanda). Correio eletrônico: ariel.alves@uol.com.br.

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Palestinos exilados revelam o outro lado dos 60 anos de Israel

Dezenas de manifestações na Cisjordânia, Gaza, Síria, Jordânia e Líbano, para comemorar a Nakba (Catástrofe), a outra face do aniversário israelense

Juan Miguel Muñoz

“Como vamos esquecer, se Israel nos lembra nossa história com suas matanças de cada dia?” Omar Suleiman Turk, 62 anos, nascido em Haifa e expulso para o Líbano em 1948 ainda bebê, junto com seus pais e uma irmã, faz um resumo superficial de sua vida miserável no campo de refugiados de Chatila, em Beirute: “Nunca conheci vários de meus irmãos maiores. Creio que um deles vive no Egito. Sei que outro morreu lutando com o exército jordaniano. Dos outros, não sei nada”, comenta. Não é uma história excepcional. É fácil escutar narrativas dramáticas em qualquer dos países árabes que cercam Israel, onde na quinta-feira os palestinos comemoraram a Nakba, a “Catástrofe”: o desterro maciço de mais de 700 mil pessoas de sua terra na antiga Palestina e depois no recém-fundado Estado de Israel.

Hoje são 4,5 milhões de refugiados que, divididos como sempre, saíram às ruas em dezenas de manifestações na Cisjordânia, Gaza, várias cidades da Síria, Jordânia e Líbano. Chaves que simbolizam as casas das quais foram expulsos, milhares de bolas pretas -uma para cada dia transcorrido desde 15 de maio de 1948-, sirenes e discursos moderados e incendiários salpicaram os atos em memória de sua tragédia, enquanto o presidente dos EUA, George W. Bush, falava no Parlamento israelense sobre o “terrorismo e a maldade”.

“Passaram 60 anos. Já é hora de acabar com o desastre do povo palestino”, declarou o presidente palestino, Mahmud Abbas, que negocia com o Executivo israelense um acordo de paz emperrado. Os dirigentes do Hamas seguem outro caminho. “Não reconhecemos Israel. Não reconhecemos Israel”, insistiu Mahmud Zahar, um dos líderes islâmicos em Gaza.

Seis décadas depois, o 1,5 milhão de habitantes de Gaza -ocupada pelo Egito até 1967- vivem hoje o assédio brutal de Israel, condenado pela totalidade das organizações de direitos humanos. A Cisjordânia sofre uma ocupação militar que transformou suas cidades e povoados em cárceres submetidas a um regime militar. A radicalização das jovens gerações é palpável. “Eu sou da OLP”, afirma Omar Suleiman, o refugiado de Chatila, “mas a maioria dos jovens segue o Hamas ou a Jihad Islâmica.”

Se os campos de refugiados palestinos da Cisjordânia e de Gaza são miseráveis, os do Líbano são autênticos “lixões”. Chatila, cenário da chacina em setembro de 1982 que horrorizou o mundo, é um espanto. Ain el Helwe, vizinha a Sidon, cidade no sul do Líbano, também é um lugar repugnante. Provavelmente são os refugiados palestinos neste país que mais sofrem. Eles não têm o direito de exercer 73 profissões e, como acontece nos demais países árabes, também não adquirem a cidadania do país de acolhimento. Muitos deles por vontade própria, para resistir à tentação da assimilação.

Alguns milhares, fugidos depois da guerra de junho de 1967, nem sequer podem abandonar os campos porque não têm documentação. Dificilmente pode surgir moderação em semelhante ambiente: um amontoado de barracos fétidos, edifícios separados por ruas de um metro de largura e um desemprego assustador.

“El País”

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Ivana Bentes: o contraditório discurso da TV sobre a periferia

Pesquisadora analisa a contradição do discursos das emissoras de TV sobre a periferia: ou pobre é violento ou é o pacífico criativo

02/02/2007

Dafne Melo,
da Redação

A periferia está na moda? A julgar pela produção audiovisual, mais do que nunca. Somente a maior emissora do país, a TV Globo, dedicou quatro produções ao cotidiano dos moradores dos grotões das metrópoles nos últimos dois anos: a programa Cidade dos Homens, a série de Regina Cazé para o Fantástico, Central da Periferia e, para o mesmo programa, a exibição do documentário Falcão, Os Meninos do Tráfico. Mais recentemente, houve a exibição do filme Antônia, em forma de minissérie.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Ivana Bentes, professora de Comunicação da UFRJ, analisa o discurso “esquizofrênico” das emissoras de TV: se nos programas jornalísticos o jovem negro continua marginalizado, como o criminoso representado por uma sombra na parede e uma voz metálica, esse mesmo jovem é visto como “o favelado legal” na dramartugia.

O cinema também não fica de fora do que Ivana chama de “cosmética da fome”, ou seja, a glamourização da pobreza e da violência das periferias. Sobre esse tema, a professora dedica um dos ensaios de seu novo projeto, uma pesquisa sobre as periferias – ainda não finalizada – em que busca a análise das imagens produzidas nas últimas décadas sobre o tema, analisando as mudanças tecnológicas e do imaginário da sociedade, nesse processo.

Ivana Bentes é professora e pesquisadora de Comunicação, cinema e
novas mídias e diretora da Escola de Comunicação da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Participa da Rede
Universidade Nômade: www.universidadenomade.org.br.

Brasil de Fato - Ultimamente, a televisão tem mostrado interesse em retratar a periferia não só no jornalismo, mas de forma crescente na dramartugia. Por quê?
Ivana Bentes - As favelas e periferias brasileiras e a pele negra, modeladas por séculos de exclusão e criminalização, vêm se tornando uma “mercadoria quente” na cultura urbana jovem, com a disseminação das expressões urbanas e estilos de vida vindos da pobreza que são um fenômeno global com visibilidade na cena cultural mundial. Como aconteceu com a cultura negra dos guetos nos Estados Unidos, a cultura da pobreza e das favelas no Brasil ganha hoje visibilidade como uma fonte de significado e identidade. A publicidade precisa de “estilos de vida” para se espelhar e vender. Paradoxalmente, comportamentos criminalizados pelo Estado – bailes populares nas favelas, pixação, venda de produtos piratas e apropriação de espaços públicos – se tornam “estilo” de vida passíveis de comercialização. Ao se constituírem como consumidores e produtores, pobres e negros passaram a ser considerados cidadãos, o que tem seu lado evidentemente positivo. Se como “mercadoria nova” ou como consumidores, esses novos sujeitos do discurso, saídos das favelas aparecem na mídia de forma isolada, não se pode neutralizar a sua real força. Trata-se de um processo cultural saído das periferias que apreende de forma privilegiada a dinâmica da sociedade brasileira, profundamente desigual e, ao mesmo tempo, aberta para as “misturas” multiculturais.

BF - Como o morador da periferia está sendo retratado nesses programas?
Ivana - De formas distintas. Existe um discurso celebratório da “periferia legal”, como se aquelas produções culturais fossem geração espontânea do nosso povo criativo. Admiro as propostas sempre à frente e ousadas de um Hermamo Vianna na Globo, que faz antropologia urbana no Central da Periferia, ou a Tata Amaral, que vem do cinema dar sua contribuição a uma visão menos estereotipada da vida na periferia paulista, em Antonia. O perigo é a gente transformar pobreza em folclore ou em gênero cultural, naturalizar isso, achar que “puxa, é legal ser pobre”. Aceitar essa domesticação do racismo, do preconceito, da desigualdade e criar o pobre criativo e feliz, mas fora da universidade, sem disputar emprego com os garotos de classe média. Enfim, o pobre “limpinho” do discurso higienista, pronto para consumo, sem um sobressalto ético, sem perceber a violência física e simbólica a qual esses jovens são submetidos.

Racismo não é um problema individual, de caráter,
um “acidente”, é um dos fundamentos da
desigualdade do Estado, da
sociedade brasileira. Pobreza não é
um acidente, não é uma exceção,
não é um problema
individual, é um problema da sociedade

BF - E no jornalismo?
Ivana - Aí caímos nos discursos mais retrógrado de criminalização dos moradores das favelas e periferias, da relação entre essa cultura e a criminalidade, na idéia que a violência nasce na favela e que os pobres são a causa da violência urbana e da insegurança. Enfim, nos estereótipos, no racismo, em discursos extremamente conservadores.

BF -O que está por trás deste discurso ambivalente?
Ivana - A bipolaridade esquizofrênica é, por exemplo, apresentar na produção ficcional, um mundo folhetinesco, em que os negros e pobres são bons e honestos, em que se faz uma idealização, quase uma santificação da pobreza feliz. Aí, a mesma “emissora da ética e dos bons costumes premiados” faz editorial contra as cotas no Jornal Nacional, ou seja, contribui para barrar os jovens negros na sua entrada urgente e imediata na Universidade. Então, será que o pobre bom é esse folclórico, não-problemático, destituído de discurso político, que não reivindica nada socialmente? Racismo na novela é visto como uma exceção, quando sabemos que no Brasil é a regra. Quem morre violentamente no Brasil são os jovens negros pobres. Racismo não é um problema individual, de caráter, um “acidente”, é um dos fundamentos da desigualdade do Estado, da sociedade brasileira. Pobreza não é um acidente, não é uma exceção, não é um problema individual, é um problema da sociedade. Então, como é que o mesmo jovem negro criminalizado no telejornal - o desordeiro, drogado, traficante, arruaceiro, trabalhador ilegal, invasor - vira o pobre legal da novela? Porque alguns são “bons” e outros “maus”? Ou porque alguns têm “força de vontade” e outros não? Definitivamente não é por ai. Essa ambigüidade reflete e, ao mesmo tempo, produz a violência dos discursos no Brasil, quando a questão são os fenômenos ligados à pobreza.

BF - Como falar da realidade social brasileira, retratar a periferia, sem fazer “canibalismo dos fracos”? Quais experiências você cita como positivas?
Ivana - Canibalismo dos fracos é a gente se comer entre nós. Canibalismo potente é o que se apropria das forças, dos instrumentos, do corpo e das tecnologias “inimigas” para fazer algo diferente. Acho que temos que entender os fenômenos da pobreza, do racismo e da potência cultural que vêm dos territórios da pobreza, dentro de um contexto global. São fenômenos do capitalismo contemporâneo. Então, para entender a periferia paulista em um filme como O Invasor (Beto Brant), nos é mostrado a relação que ela tem com a cultura empresarial, com a falta de limites de certo capitalismo brutal, com os métodos gerenciais dos executivos. Ou ainda, o [documentarista] Eduardo Coutinho vai à favela e encontra discursos sofisticados e complexos, visões de mundo que não tem nada a ver com os clichês que construímos. Ou então, vemos alguns clipes como os do MV Bill, dos Racionais MCs, falando de violência policial, tráfico de drogas, da vida cotidiana nos presídios, mas de forma renovada. Ou um documentário como Prisioneiros da Grade de Ferro (Paulo Sacramento), que dá uma câmera para os internos do presídio se expressarem, sem demonizá-los. Isso para ficar na produção audiovisual. Outro filme excelente é Sou Feia Mas Estou na Moda, (Denise Garcia), um documentário sobre o funk feminino no Rio de Janeiro e sua renovação das questões de sexualidade, direito reprodutivo, etc. São muitos os exemplos.

A questão da cosmética da fome ,
colocada pelo Glauber
no Cinema Novo,
não foi superada
nem resolvida
no contexto internacional

BF -No cinema, um dos últimos filmes de maior sucesso de público e crítica, no Brasil, “Cidade de Deus”, retrata esse ambiente da favela. Você disse que ele criava uma “cosmética da fome”. Por quê?
Ivana - A expressão “estética da fome” foi proposta por Glauber Rocha, em 1965, justamente para dizer que precisávamos de imagens não estereotipadas da pobreza. Fiz uma paródia, dizendo que Cidade de Deus apontava muito mais para uma “cosmética da fome”, ou seja uma forma esvaziada/estilizada de consumir as imagens da violência e da pobreza. Quase fui linchada publicamente em um debate em São Paulo. Isso piorou quando o filme concorreu ao Oscar. Mas a questão dessa cosmética - a glamourização estética da pobreza - está muito mais presente em outros filmes. Em Abril Despedaçado (Walter Salles), por exemplo. Cidade de Deus é um filme com méritos e também com questões ambivalentes. A que apontei era essa demonização do negro favelado, tornado um “assassino por natureza” e a transformação da guerra do tráfico em “gênero”, como nos filmes norte-americanos de gangues e máfia. Apontei questões éticas e estéticas, mas é um filme que como espetáculo e linguagem cinematográfica é eficiente e criativo. Filmes existem para ser analisados, não julgados. Trato da cosmética da fome nesse ensaio sobre as periferias, pois considero que essa questão, colocada pelo Glauber no Cinema Novo, não foi superada nem resolvida no contexto internacional, é uma questão global super pertinente.

BF - Você acha que iniciativas de se retratar a realidade da periferia “de fora” estão fadadas a traçar um perfil equivocado dessa população?
Ivana - Não. Se fosse assim escritores não escreveriam sobre situações que não viveram, cineastas só falariam de seus grupos sociais, etc. A questão não é essa, a questão é o quão complexa é a visão de mundo possível nesses filmes e programas. Adoro televisão, vejo inúmeros programas na TV aberta, no cabo, em DVD. É muito difícil restituir, entender, expressar alguns fenômenos e idéias sem cair em clichês. Certamente que a entrada de jovens vindos das periferias na TV, na universidade, nas redações de jornal, nos teatros, nas editoras, nos lugares de decisão política e produção cultural muda muita coisa, muda estereótipos, traz discursos que podem disputar e concorrer com o que está ai já dado.

BF -Cidade de Deus originou um programa televisivo, Cidade dos Homens, que agora também vai virar filme. Alguns cineastas como Walter Salles, acusam o Globo de empobrecer a linguagem cinematográfica levando a estética televisiva para o cinema. O que você acha disso?
Ivana - O programa de TV Cidade dos Homens foi muito feliz em justamente tentar fugir de alguns estereótipos do próprio filme Cidade de Deus. É um bom exemplo de que a TV pode apostar na inteligência e ser bem sucedida. A priori, não existe problema em combinar tecnologias e estéticas vindas do cinema e da TV, são linguagens que se aproximam. Mas, infelizmente, historicamente, a TV brasileira nunca foi aliada do cinema brasileiro. Isso está mudando, porque hoje o cinema brasileiro ganhou prestígio, tem apoio político e políticas públicas que o valorizam, têm mais financiamentos no Ministério da Cultura, na Secretaria do Audiovisual, nas leis de renúncia fiscal. A própria sociedade brasileira tem hoje uma outra postura diante de seu cinema. O problema é simplesmente a TV parasitar o circuito de cinema duplicando o que deu certo na TV aberta, sem arriscar, apostando nas fórmulas televisivas que deram certo. O cinema tem que ter sua biodiversidade, e não duplicar a monocultura televisiva.

BF - No Brasil, o cinema considerado popular são filmes da Xuxa, Trapalhões, Angélica, etc. Como fazer um cinema popular no Brasil com qualidade?
Ivana - Não existe nenhuma fórmula, existem muitos mitos do que é popular, do que as pessoas “querem” ver. Não acho que a pesquisa de opinião ou testes de platéia resumam as possibilidades da inteligência popular, subestimada nesse discurso paternalista de que “damos o que o povo gosta”. Com atores conhecidos da TV, campanhas de mídia agressivas, com merchandising na novela, no programa de auditório, no caderno de cultura da empresa, matéria no telejornal, algum público acaba aparecendo. Mas quem tem R$ 15 para pagar no ingresso? Para ter público para o cinema brasileiro tem que passar os filmes brasileiros de graça na televisão aberta, baixar o preço do ingresso, passar filmes nas escolas, criar uma cultura audiovisual.

A TV Digital pode se abrir para os
movimentos sociais, para o cinema
brasileiro, para a produção
independente, para a produção
que vem das periferias. Mas
isso não vai acontecer
sem pressão

BF - Nesse ano, houve a decisão da TV Digital que era visto como um instrumento de grande potencial democratizante, podendo dar vazão à produção independente de audiovisual…
Ivana - Acho que as cartas ainda estão sobre a mesa e se houver pressão e mobilização política, a TV Digital pode se abrir para os movimentos sociais, para o cinema brasileiro, para a produção independente, experimental, universitária, para a produção que vem das periferias. Mas isso não vai acontecer sem pressão. Os interesses são enormes nessa área e vêm de todos os lados. A sociedade tem que intervir e pressionar também, afinal, as TVs são concessões públicas. Nada mais natural que lhe seja restituído o direito de produzir uma comunicação que expresse a sua singularidade e multiplicidade. Se esse governo conseguir mudar a mentalidade corporativa e monopolista dos meios de comunicação, vai ter realizado uma das maiores mudanças na história do país. Mas sem pressão e apoio, nenhum governo faz tamanha mudança.

BF - O que muda com o digital?
Ivana - Com tantas possibilidades tecnológicas de multiplicar os canais de Comunicação com o digital, todos nós nos tornamos potenciais produtores, distribuidores e consumidores de informação, de arte, de linguagem. Isso já está acontecendo com a internet, quebrando consensos, fazendo uma guerrilha semiótica, no campo das idéias. A sociedade tem que estar tecnologicamente equipada para fazer essa que será a grande revolução do capitalismo cognitivo, onde todos nós nos transformamos em unidades móveis de produção e expressão, sem mediadores. Daí a importância hoje de lutar por emissoras de TV públicas – nem privadas e nem estatais – mas da sociedade. Internet pública e gratuita e telefonia também de graça. São as bases da produção contemporânea e da cidadania. Essa cultura da periferia que estamos vendo explodir tem a ver com essa apropriação e subversão da tecnologia. São as tecnologias capazes de criar a “intelectualidade de massas”, como diz Antonio Negri no seu livro Multidão.

Brasil de Fato

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O IMPÉRIO DO CONSUMO

Eduardo Galeano

A explosão do consumo no mundo atual faz mais barulho do que todas as guerras e mais algazarra do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco, aquele que bebe a conta, fica bêbado em dobro. A gandaia aturde e anuvia o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço.

Mas a cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque está vazia; e na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbado acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos quebrados que deve pagar. A expansão da demanda se choca com as fronteiras impostas pelo mesmo sistema que a gera. O sistema precisa de mercados cada vez mais abertos e mais amplos tanto quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo, requer que estejam no chão, como estão, os preços das matérias primas e da força de trabalho humana. O sistema fala em nome de todos, dirige a todos suas imperiosas ordens de consumo, entre todos espalha a febre compradora; mas não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventura começa e termina na telinha da TV. A maioria, que contrai dívidas para ter coisas, termina tendo apenas dívidas para pagar suas dívidas que geram novas dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes, materializa cometendo delitos. O direito ao desperdício, privilégio de poucos, afirma ser a liberdade de todos.

Dize-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa as flores dormirem, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores estão expostas à luz contínua, para fazer com que cresçam mais rapidamente. Nas fábricas de ovos, a noite também está proibida para as galinhas. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade dos calmantes, ansiolíticos e demais drogas químicas que são vendidas legalmente no mundo; e mais da metade das drogas proibidas que são vendidas ilegalmente, o que não é uma coisinha à-toa quando se leva em conta que os EUA contam com apenas cinco por cento da população mundial.

«Gente infeliz, essa que vive se comparando», lamenta uma mulher no bairro de Buceo, em Montevidéu. A dor de já não ser, que outrora cantava o tango, deu lugar à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. «Quando não tens nada, pensas que não vales nada», diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, em Buenos Aires. E outro confirma, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: «Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas, e vivem suando feito loucos para pagar as prestações».

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade, e a uniformidade é que manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todas partes suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde quantidade com qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a «obesidade mórbida» aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou 40% nos últimos dezesseis anos, segundo pesquisa recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do carro só para trabalhar e para assistir televisão. Sentado na frente da telinha, passa quatro horas por dia devorando comida plástica.

Vence o lixo fantasiado de comida: essa indústria está conquistando os paladares do mundo e está demolindo as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que vêm de longe, contam, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade e constituem um patrimônio coletivo que, de algum modo, está nos fogões de todos e não apenas na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão sendo esmagadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida em escala mundial, obra do McDonald´s, do Burger King e de outras fábricas, viola com sucesso o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

A Copa do Mundo de futebol de 1998 confirmou para nós, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola proporciona eterna juventude e que o cardápio do McDonald’s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército do McDonald´s dispara hambúrgueres nas bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O duplo arco dessa M serviu como estandarte, durante a recente conquista dos países do Leste Europeu.

As filas na frente do McDonald´s de Moscou, inaugurado em 1990 com bandas e fanfarras, simbolizaram a vitória do Ocidente com tanta eloqüência quanto a queda do Muro de Berlim. Um sinal dos tempos: essa empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. O McDonald´s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama de Macfamília, tentaram sindicalizar-se em um restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas, em 98, outros empregados do McDonald´s, em uma pequena cidade próxima a Vancouver, conseguiram essa conquista, digna do Guinness.

As massas consumidoras recebem ordens em um idioma universal: a publicidade conseguiu aquilo que o esperanto quis e não pôde.

Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que a televisão transmite. No último quarto de século, os gastos em propaganda dobraram no mundo todo. Graças a isso, as crianças pobres bebem cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite e o tempo de lazer vai se tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisão, e a televisão está com a palavra. Comprado em prestações, esse animalzinho é uma prova da vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos.

Pobres e ricos conhecem, assim, as qualidades dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que tal ou qual banco oferece. Os especialistas sabem transformar as mercadorias em mágicos conjuntos contra a solidão. As coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o carro é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

Os buracos no peito são preenchidos enchendo-os de coisas, ou sonhando com fazer isso. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas escolhem você e salvam você do anonimato das multidões. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou faz isso muito raramente. Isso é o que menos importa. Sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias. Comprando este creme de barbear, você quer se transformar em quem?

O criminologista Anthony Platt observou que os delitos das ruas não são fruto somente da extrema pobreza. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre ouvi dizer que o dinheiro não trás felicidade; mas qualquer pobre que assista televis