Arquivo de 8 de Julho de 2008

Certidão de Nascimento

Carta Capital
Antonio Luiz M. C. Costa

Em nova edição, o texto que inaugurou o socialismo científico e a parceria entre Marx e Engels.

Com A Sagrada Família, a Boitempo retoma seu projeto de publicar traduções competentes dos clássicos de Karl Marx e Friedrich Engels. De acordo com os planos da editora, seguir-se-ão, em breve, os Manuscritos econômico-filosóficos, o 18º Brumário de Luís Bonaparte e a primeira tradução integral em português de A Ideologia Alemã (as hoje disponíveis limitam-se à primeira parte).

A tradução do original alemão é tão rigorosa, fluente e bem anotada quanto a da edição de 1998 do Manifesto Comunista. O leitor que conta com a manutenção desse padrão de qualidade não ficará decepcionado – e ficará muito agradecido pelos índices de personagens históricos, literários, bíblicos e mitológicos que ajudam a esclarecer citações que ficaram mais do que um pouco obscuras para o leitor moderno que não seja erudito em história da filosofia, letras clássicas e cultura popular do século XIX. Mas talvez sinta a falta de um artigo para situar a obra historicamente e explicar sua importância e sua influência, como os seis que acompanharam o Manifesto.

Se os Manuscritos econômico-filosóficos são a ultrassonografia do marxismo em gestação, o Manifesto é o batismo e O Capital é o atestado de maioridade, então A Sagrada Família é o registro civil de seu nascimento.

Esta obra marca a ruptura de Marx com a esquerda hegeliana com que inicialmente havia se identificado. Não por acaso, é também sua primeira obra em parceria com Engels.

Certos autores do final do século XX, simpáticos ou não ao marxismo, acusaram Engels de deformar o pensamento do amigo com interpretações deterministas, mecanicistas, positivistas e cientificistas que teriam desembocado na social-democracia, no stalinismo ou no que mais possa ter dado errado no movimento.

É difícil entender como tal colaboração poderia ter sobrevivido às graves divergências que tais análises deduzem de variações de ênfase e estilo nas quais os próprios co-autores viam apenas uma divisão de trabalho e de campos de interesses. Ou mesmo perceber como, sem Engels, o marxismo chegaria a existir.

Foi indispensável seu papel nessa síntese arrojada, que procuraria fundar cientificamente a análise da história do movimento social concreto e a possibilidade da concretização do comunismo no mundo real.

A primeira vítima desta nova visão seria seu próprio berço: a esquerda hegeliana alemã, representada pelos irmãos Bruno e Edgar Bauer. Esses antigos mentores de Marx agora editavam um Jornal Literário que pregava, contra a reacionária monarquia prussiana, uma política de reformas liberais a partir de uma elite esclarecida e desinteressadamente motivada por ideais filosóficos.

A “sagrada família” do título deste alentado panfleto polêmico alude ao distanciamento olímpico entre a escola de Bauer e a realidade. “O crítico nem sequer pode ousar misturar-se pessoalmente na sociedade” escrevera o jornal dos irmãos Bauer – “por isso ele forma para si uma sagrada família, assim como o deus solitário aspira a superar através da sagrada família sua separação tediosa da sociedade”, comenta Marx.

Engels escreveu alguns capítulos para mostrar a ignorância dos Bauer sobre as realidades históricas, sociais e até geográficas da Inglaterra liberal sobre a qual peroravam. Depois passou a bola a Marx, que completa o serviço com uma crítica devastadora de suas incoerências e de sua fragilidade filosófica.

Com isto, o conhecimento concreto e prático das realidades da indústria, da economia e da luta de classes na Inglaterra que Engels trouxera a Marx completou a abertura de um caminho arrojado para além das abstrações hegelianas e das utopias socialistas. Uma concepção de história movida pelas realidades materiais das classes e de seus interesses e uma filosofia que se propunha cooperar com o movimento social realmente existente para transformar a realidade. Goste-se ou não ela, é preciso convir que este livro marca o parto de uma idéia e tanto.
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Comentários

O embate contra os liberais

Jornal do Brasil
Jesus Ranieri

Em ‘A sagrada família’, dois jovens, Marx e Engels, atacam de forma voraz os defensores de uma política elitista

Em agosto de 1844, Karl Marx teve seu segundo encontro com Friedrich Engels. Marx tinha na época 26 anos e Engels, 24. Foi a partir desta troca de idéias que os jovens pensadores, na contramão do pensamento dominante na Alemanha, conceberam A sagrada família, considerada uma das melhores portas de entrada para o pensamento dos dois autores.

Com organização, notas e tradução direto do alemão de Marcelo Backes, o livro conta ainda com ilustração inédita de Loredano na capa e orelha assinada por Leandro Konder. Para orientar o leitor, foram incluídos dois índices remissivos - um de pessoas citadas e outro de personagens literários, bíblicos e mitológicos -, além do registro de obras, periódicos e artigos citados pelos autores. Trata-se do primeiro dos quatro lançamentos da editora reunindo a obra conjunta de Marx e Engels. Em seguida, virão Manuscritos econômico-filosóficos, O 18º Brumário de Luís Bonaparte e A ideologia alemã.

A sagrada família, que tem como subtítulo A crítica da crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes, abre fogo contra a política liberal elitista defendida pelos irmãos Bauer -Bruno, Edgard e Egbert-, editores da Gazeta Geral Literária, de Charlottemburgo.

Em texto denso e panfletário, Marx e Engels mergulham em reflexões teóricas e avaliam os desdobramentos políticos causados pelo neo-hegelianismo.

No livro, a parte que cabe a Marx tem importância nitidamente maior que a de seu parceiro. Engels redigiu os três primeiros capítulos, além de pequenos trechos do quarto e do sétimo. Marx, a partir de suas anotações sobre os Manuscritos econômico-filosóficos e sobre a Revolução Francesa, escreveu o restante do texto e incluiu o apêndice ‘’A crítica moralizante ou a moral crítica.'’

A sagrada família foi o único escrito filosófico publicado por intervenção dos autores, ao contrário de obras póstumas como Sobre a crítica do Estado hegeliano, Os manuscritos de Paris e A ideologia alemã.

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A edição de A sagrada família, primeira obra conjunta de Karl Marx e Friedrich Engels é extremamente oportuna porque um texto clássico só é digno desse nome se disser, nos dias de hoje, algo que tenha a ver com os conflitos da vida cotidiana com os quais nos deparamos mas não conseguimos, necessariamente, corrigir. Tomamos consciência deles, mas nem sempre conhecemos suas causas ou origens - e muito menos que tipo de força nos impele a subordinação a essas obrigações que fogem ao nosso controle.

Certamente A sagrada família tem algo muito atual a dizer, e essa atualidade está na atenção dedicada por Marx e Engels a três esferas sem as quais é praticamente impossível levar adiante qualquer reflexão sobre a nossa própria existência: a política, a teoria do conhecimento (que, no texto, aparece como a filosofia dos neo-hegelianos Bruno, Egbert e Edgar Bauer - a sagrada família do título) e a economia, disciplina essa ainda incipiente nos estudos de Marx, mas já ocupando o devido lugar na ordem de importância de seu nascente sistema teórico.

O mote dos autores, já nessa obra de juventude, é que a história é feita pelos homens, mas nem sempre o movimento engendrado pelo trabalho humano pode ser inteiramente controlado por esses homens que fazem história. O concurso da atividade do ser humano é intrincado e a base material na qual assenta a vida e a cultura humanas só pode ser adequadamente compreendida se compreendido for o jogo das contradições que a conformam - por isso a política e a economia aparecem como elementos que, a um só tempo, operacionalizam e fazem com que a vida se produza e reproduza a partir das chamadas considerações materiais. E é por isso que não é possível entender aspecto algum da vida humana, seja ele material ou mental, se não tomarmos pé do lugar privilegiado das relações da política e também da economia.

Só que tanto política quanto economia, sob os auspícios da sociedade burguesa, representam opressão e desumanidade, na medida em que estão profundamente comprometidas pela determinação universal da propriedade privada e pela apropriação e posterior expropriação do trabalho do homem. Por outro lado, a forma como os homens sistematizam, por meio de um método próprio, essa organização da vida chama em especial a atenção de Marx e Engels, e é notadamente sobre essa sistematização que o texto trata: no caso de A sagrada família, a filosofia neo-hegeliana, produção intelectual amplamente marcada pela crítica da religião como alienação universal, mas também pela justificativa da dominação do trabalho pelo capital, posto que a ação humana depende de uma determinação posta fora dela, uma espécie de predestinação social. O ponto-chave de A sagrada família é a demonstração da forma segundo a qual essa interpretação filosófica autonomiza aquela atividade humana, separando-a do próprio homem e atribuindo-a a uma racionalidade exterior, uma espécie de demiurgo onipotente, onipresente e onisciente que seria o responsável pela liberdade plena do ser humano, mas liberdade somente possível se a crença nesse poder exterior fosse levada a efeito pelos homens como um todo, mas um todo que sabe que a anunciada mudança é tarefa de poucos homens, seres especiais que filosofam; como se a história tivesse uma finalidade pressuposta, e somente um grupo pequeno de filósofos iluminados pudesse compreender esse movimento, sendo que a massa dos homens comuns tinha que tomar ciência disso para que viesse a ser, também ela, livre, emancipada. É como se só pudéssemos mudar a realidade se mudássemos, antes, a representação que temos dela - para o neo-hegelianismo, não é a realidade que funda a representação, mas é a representação que funda a realidade. Como diz Marx num texto posterior, essa filosofia trabalha com uma analogia mais ou menos assim: basta ao homem livrar sua mente da idéia de gravidade, declarando que essa é uma representação religiosa ou supersticiosa, para que ele não corra risco algum de afogamento, a despeito de todas as estatísticas que demonstram o contrário.

Essa filosofia não entendeu, como fica claro, que a desigualdade entre os homens é, primeiro, fruto da apropriação e da expropriação do trabalho humano, trabalho esse produtor de cultura e, portanto, da própria consciência e, segundo, que a política (incorporada num Estado constitucional no qual essa filosofia apostava) não é sinônimo de emancipação (emancipação humana de forma alguma se confunde com emancipação política), posto que essa última tem de ter conteúdo social, e não puramente formal.

É por isso que A sagrada família é um texto que tece uma espécie de crítica universal - mas ao mesmo tempo rigorosa, uma vez que se preocupa com cada uma das esferas particulares que está criticando - a política, a filosofia e a economia. Para os autores, na medida em que a política se apresenta necessariamente como o concurso da vontade particular (ainda que essa vontade se mascare numa suposta vontade geral, coletiva ou universal), sobre a vontade da maioria, o que deve prevalecer é sua negatividade como ação, ou seja, ela só pode ser objeto de operacionalização humana quando e enquanto durar a passagem para uma sociedade sem classes - o exercício do poder político como o conhecemos não tem lugar numa sociedade em que a propriedade privada foi abolida. Além disso, a política burguesa reveste de alienação a liberdade que os homens almejam - ela não os livra dos obstáculos que o oprimem (a religião, a propriedade privada, o trabalho assalariado), mas solicita que esses homens se conformem no interior de uma perspectiva que se refere a e legitima esses mesmos obstáculos como sendo perenes, eternos.

Nesse sentido, a atualidade de A sagrada família está nessa consideração da unidade histórica da ação dos homens, e de como essa ação se transforma em conquista, em consciência do gênero humano sobre si mesmo, apesar do peso dos obstáculos sociais que atuam contrariamente ao progresso - por exemplo, não seria possível pensar em socialismo sem as reflexões levadas a efeito por Hegel sobre a dialética, e muito menos sem a contribuição da filosofia materialista francesa e inglesa. Por seu lado, a economia tem de ser domada e reentregue às determinações oriundas das necessidades humanas em geral, e não somente de uma classe. E cabe à filosofia munir-se dos reais motivos das contradições da economia e da política para orientar-se enquanto possibilidade futura de uma nova sociedade, a fim de que não tenhamos mais sagradas famílias justificando, ancoradas num positivismo acrítico, o conjunto das ações (boas ou más) dos homens sem que essa justificativa se apóie na construção histórica de uma ética que poderia, ou não, permiti-la.
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Comentários

A ideologia alemã

Título Original: Die deutsche Ideologie
Subtítulo: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas
Autor(a): Karl Marx e Friedrich Engels
Prefácio: Emir Sader
Tradutor(a): Rubens Enderle, Nélio Schneider e Luciano Cavini Martorano
Páginas: 616
Ano de publicação: 2007
ISBN: 978-85-7559-073-7
Preço: R$ 69,00
Indique para um amigo

Chega às livrarias a aguardada edição integral de A ideologia alemã, de Karl Marx e Friedrich Engels. Traduzida diretamente do alemão para o português por Rubens Enderle, Nélio Schneider e Luciano Martorano, com texto final de Rubens Enderle, a edição da Boitempo tem introdução escrita por Emir Sader e supervisão editorial de Leandro Konder, um dos maiores estudiosos do marxismo no Brasil. Além disso, será a versão mais fiel aos originais deixados pelos autores, pois a primeira no mundo traduzida a partir da inovadora Mega-2.

Essa nova edição cuidadosa, que se tornará referência para todos os interessados nos escritos de Marx e Engels, foi feita dentro da tradição de rigor com os livros desses autores estabelecida pela Boitempo. A editora já lançou cinco das obras dos dois filósofos, todas traduzidas do original e sob a supervisão de reconhecidos especialistas.

A ideologia alemã é considerada por muitos estudiosos a obra de filosofia mais importante de Marx e Engels. Escrita entre os anos 1845-1846, representa a primeira exposição estruturada da concepção materialista da história e é o texto central dos autores acerca da religião. Nela eles concluem um acerto de contas com a filosofia de seu tempo – tanto com a obra de Hegel como com os chamados “hegelianos de esquerda”, entre os quais Ludwig Feuerbach. Esse ajuste passou antes pelos Manuscritos econômico-filosóficos, por A sagrada família, por A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, para alcançar em A Ideologia alemã sua primeira formulação articulada como método próprio de análise.

A crítica – quase toda em tom sarcástico – dos dois filósofos ridiculariza o idealismo alemão e articula as categorias essenciais da dialética marxista (como trabalho, modo de produção, forças produtivas, alienação, consciência), constituindo assim um novo corpo teórico. A tradução dos capítulos I e II, respectivamente dedicados à polêmica com Feuerbach e Bruno Bauer, baseia-se na edição da Mega-2 (Marx-Engels Gesamtausgabe), texto que foi antecipado no Marx-Engels Jahrbuch. Nessa nova edição, os manuscritos de Marx e Engels aparecem em sete seções, ordenadas cronologicamente, e são reproduzidos tal como foram deixados pelos autores. A nova organização do volume revoluciona a forma como até então A ideologia alemã foi lida e interpretada, principalmente no que diz respeito a seu primeiro capítulo, que Marx e Engels deixaram inacabado.

Fora da Alemanha, é a primeira vez que as sete partes do manuscrito de Marx e Engels sobre Feuerbach são apresentadas ao leitor como textos independentes, em sua fragmentação originária, sem sofrer as montagens mais ou menos arbitrárias que os diversos editores (desde a edição de Riazanov, em 1926) imputaram à obra.

Esse tratamento editorial esmerado levou à descoberta de que Marx e Engels, até o fim de 1845, não haviam concebido o plano de escrever A ideologia alemã, pelo menos não com esse título. Foi a partir de um artigo de Marx intitulado “Contra Bruno Bauer” que, em novembro de 1845, nasceram os manuscritos que, meses mais tarde, dariam corpo ao projeto inacabado de A ideologia alemã. Esse artigo, inédito no Brasil, compõe a nova edição da Boitempo Editorial, assim como uma série de anexos (apêndice, índices, cronologia, notas filológicas) preparados especialmente para esta publicação e atualizados com base nos mais recentes estudos sobre essa fundamental obra.

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO – Emir Sader

SOBRE A TRADUÇÃO

ABREVIATURAS

PRIMEIRA PARTE
Artigos, rascunhos, textos prontos para impressão e anotações referentes aos capítulos “I. Feuerbach” e “II. São Bruno”

VOLUME I
[Crítica da mais recente filosofia em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner ]
KARL MARX – CONTRA BRUNO BAUER
KARL MARX • FRIEDRICH ENGELS – FEUERBACH E HISTÓRIA
Rascunho das páginas 1 a 29
Rascunho das páginas 30 a 35
Rascunho das páginas 36 a 72
Anotações
KARL MARX • FRIEDRICH ENGELS – FEUERBACH
KARL MARX • FRIEDRICH ENGELS – I. FEUERBACH
A. A IDEOLOGIA EM GERAL, EM ESPECIAL A ALEMÃ
KARL MARX • FRIEDRICH ENGELS – I. FEUERBACH (INTRODUÇÃO)
1. A IDEOLOGIA EM GERAL, EM ESPECIAL A FILOSOFIA ALEMÃ
KARL MARX • FRIEDRICH ENGELS – I. FEUERBACH – FRAGMENTO 1
KARL MARX • FRIEDRICH ENGELS – I. FEUERBACH – FRAGMENTO 2
KARL MARX • FRIEDRICH ENGELS – O CONCÍLIO DE LEIPZIG
KARL MARX • FRIEDRICH ENGELS – II. SÃO BRUNO
1. “Campanha” contra Feuerbach
2. Considerações de São Bruno sobre a disputa entre Feuerbach e Stirner
3. São Bruno contra os autores d’A sagrada família
4. Necrológio de “M. Heß”

SEGUNDA PARTE
Textos prontos para impressão e rascunhos referentes aos capítulos “III. São Max”,

“IV. Karl Grün: ‘O movimento social na França e na Bélgica’ (Darmstadt, 1845)
ou A historiografia do socialismo verdadeiro”, e “V. ‘O Dr. Georg Kuhlmann von Holstein’
ou A profecia do socialismo verdadeiro”
III. SÃO MAX
1. O ÚNICO E SUA PROPRIEDADE
ANTIGO TESTAMENTO: O HOMEM
1. Gênesis, isto é, Uma vida humana
2. Economia do Antigo Testamento
3. Os antigos
4. Os modernos
A) O Espírito (História pura dos espíritos)
B) Os possessos (História impura dos espíritos)
a) A assombração
b) A obsessão
C) Impura história impura dos espíritos
a) Negros e mongóis
b) Catolicismo e protestantismo
D) A Hierarquia
5. Stirner comprazendo-se com sua construção
6. Os Livres
A) O liberalismo político
B) O comunismo
C) O liberalismo humano
NOVO TESTAMENTO: “EU”
1. Economia da Nova Aliança
2. Fenomenologia do egoísta em acordo consigo mesmo ou a doutrina da justificação
3. Apocalipse de João, o teólogo, ou “a lógica da nova sabedoria”
4. A peculiaridade
5. O possuidor
A) Meu poder
I. O direito
A) Canonização em termos gerais
B) Apropriação pela antítese simples
C) Apropriação pela antítese composta
II. A lei
III. O crime
A) Simples canonização de crime e punição
B) Apropriação de crime e punição por meio de antítese
C) O crime na acepção comum e na acepção incomum
5. A sociedade como sociedade burguesa
II. A revolta
III. A associação
1. Propriedade fundiária
2. Organização do trabalho
3. Dinheiro
4. Estado
5. Revolta
6. Religião e filosofia da associação
A. Propriedade
B. Riqueza
C. Moral, intercâmbio, teoria da exploração
D. Religião
E. Adendo sobre a associação
C. Minha autofruição
6. O Cântico dos Cânticos de Salomão ou O Único
2. COMENTÁRIO APOLOGÉTICO
FIM DO CONCÍLIO DE LEIPZIG

VOLUME II
[Crítica do socialismo alemão em seus diferentes profetas]

O SOCIALISMO VERDADEIRO
I. DIE RHEINISCHE JAHRBÜCHER OU A FILOSOFIA DO SOCIALISMO VERDADEIRO
A) “Comunismo, Socialismo, Humanismo”
B) “Tijolos socialistas”
Primeiro tijolo
Segundo tijolo
Terceiro tijolo
IV. KARL GRÜN: “O MOVIMENTO SOCIAL NA FRANÇA E NA BÉLGICA” (DARMSTADT, 1845) OU A HISTORIOGRAFIA DO SOCIALISMO VERDADEIRO
Sansimonismo
1. Lettres d’un habitant de Genève à ses contemporains
2. Catéchisme politique des industriels
3. Nouveau christianisme
4. A escola sansimoniana
Fourierismo
O “obtuso Pai Cabet” e o senhor Grün
Proudhon
V. “O DR. GEORG KUHLMANN VON HOLSTEIN” OU A PROFECIA DO SOCIALISMO VERDADEIRO

APÊNDICE

I. KARL MARX – PRÓLOGO

II. JOSEPH WEYDEMEYER (COM A COLABORAÇÃO DE KARL MARX) BRUNO BAUER E SEU APOLOGISTA

III. TRECHO RISCADO NO MANUSCRITO DO CAPÍTULO “II. SÃO BRUNO” (1)

IV. TRECHO RISCADO NO MANUSCRITO DO CAPÍTULO “II. SÃO BRUNO” (2)

V. KARL MARX – 1. AD FEUERBACH (1845)

VI. KARL MARX – MARX SOBRE FEUERBACH (1845)

VII. KARL MARX – [SOBRE A FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO DE HEGEL]

VIII. KARL MARX – [PLANO DE TRABALHO SOBRE O ESTADO]

IX. KARL MARX – [ANOTAÇÕES ESPARSAS]

NOTAS

ÍNDICE ONOMÁSTICO

ÍNDICE DAS OBRAS CITADAS

CRONOLOGIA RESUMIDA DE KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS

Boitempo

Comentários

Marx hoje

Armando José

Homens e máquinas
Em 1844, portanto há exatos 163 anos, Marx escreveu em seu livro “Manuscritos Econômico-Filosóficos”: “A divisão do trabalho acarreta a concorrência não só dos homens, mas também entre máquinas. Posto que o trabalhador baixou à condição de máquina, a máquina pode enfrentá-lo como concorrente”. [MARX, K. Manuscritos Econômico-Filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004, p. 27] Se isto era verdade em 1844, o que vemos é que ainda mais verdade nos dias de hoje. Olhe ao redor: na maioria das empresas, trabalhadores de setores como os administrativo e produtivo atuam como apêndices de sistemas de gestão de produção, de gestão empresarial, de gestão de relação com clientes, entre muitos outros. A criatividade humana foi reduzida àquela necessária à alimentação de sistemas, posto que tudo hoje só pode ser feito através de sistemas. Você pode achar que sem sistemas as empresas não sobreviveriam, mas o fato inegável é que, como Marx aponta, uma vez que o ser humano baixou à condição de máquina, agora a máquina o enfrenta como concorrente. Quer um exemplo disso? Sistemas como o de escrituração contábil e a nota fiscal eletrônica estão promovendo a demissão maciça de contadores na maioria das grandes organizações. Talvez você acredite que isso é um sinal do “progresso”. Mas essa visão de mundo ignora que máquinas executam rotinas e são incapazes de criar o novo. E sem o novo, as organizações se acomodam perigosamente face a uma realidade sempre mutável. Qual será o resultado isso? Espere para ver. Vamos falar mais sobre o impacto da máquina na criatividade humana.

Comentários

Manuscritos da juventude

Jornal do Brasil
Jorge Grespan

Publicada postumamente, obra de Marx foi escrita em 1844

Numa edição muito bem cuidada, o público brasileiro pode contar finalmente com o texto completo dos Manuscritos econômico-filosóficos, escritos na juventude de Marx, em Paris, no ano de 1844, e publicados postumamente em 1932. É difícil descrever o impacto que a publicação tardia causou no marxismo do século 20, acostumado ao pensamento de O Capital, diferente no conteúdo e na forma.

Se talvez pela força desse costume os Manuscritos tenham chamado pouca atenção nos anos imediatamente seguintes à sua publicação, eles não tardaram a provocar uma intensa polêmica, quando se destacou a diferença entre as suas formulações e o que se conhecia e se reconhecia até então como sendo o marxismo.

Em linhas muito gerais, houve aqueles que os consideraram expressão de uma visão humanista mais tarde abandonada por Marx, caracterizando uma diferença essencial, talvez até uma ruptura entre as duas fases da sua obra. Os partidários desta tese dividiram-se, por sua vez, conforme preferissem o humanismo da primeira fase em detrimento do que seria a visão mais economicista ou cientificista própria da chamada obra de maturidade, ou conforme, por outro lado, acreditassem ser esta última mais representativa do projeto e da realização teórica de Marx.

Como essa era a perspectiva dos partidos comunistas, que afirmavam a cientificidade do marxismo, pode-se imaginar a gravidade do desafio que o humanismo lançava a eles. Todo o significado da crítica marxista à sociedade moderna e das práticas políticas daí decorrentes estava posto em questão.

Mas houve também quem insistisse numa continuidade, mesmo que relativa, entre os Manuscritos e a obra posterior. Isso implicava reinterpretá-los a partir desta segunda, como se eles fossem basicamente uma preparação para ela, ou ainda reinterpretá-la através deles, buscando-se nos textos de O Capital, por exemplo, elementos já configurados desde a juventude do autor.

De fato, também nos Manuscritos, e aliás pela primeira vez, aparece uma crítica à economia política e ao capitalismo, numa forma bastante distinta da desenvolvida na obra de maturidade de Marx: não se trata tanto, como nesta última, de uma reexposição dos conceitos econômicos, para explicitar sua contradição inerente e os limites do desenvolvimento capitalista; mas sim da revelação da alienação profunda do homem moderno, criada pela propriedade privada e pelo regime de trabalho assalariado.

Tal diagnóstico é realizado através de formulações brilhantes, em que o trabalho alienado aparece ‘’concedendo vida ao objeto'’ de sua atividade, que daí ‘’se lhe defronta'’ como poder ‘’hostil e estranho'’. Assim, a relação do trabalhador moderno com seu trabalho se configura ‘’como atividade estranha não pertencente a ele, a atividade como miséria, a força como impotência, a procriação como castração'’.

Como pode o homem realizar-se através de seu trabalho, encontrar-se consigo no produto de suas mãos, se ambos não lhe pertencem? A propriedade privada justamente priva o não proprietário do direito de uso e de venda do produto ou do instrumento de trabalho. Este não só se torna alheio, como constitui o poder social que emprega o assalariado, gerando sua miséria material, ou pelo menos a espiritual.

A partir desta idéia de base, Marx desenvolve uma primeira crítica à ciência econômica de seu tempo, que encobriria o fenômeno da alienação em conceitos nos quais ele aparece como relação contratual perfeitamente justa e normal entre o trabalhador e o capitalista. Marx não se dedica, então, como fará mais tarde, a reelaborar tais conceitos: basta aqui apresentá-los tal como aparecem principalmente na obra de Adam Smith, e apontar sua insuficiência. Do ponto de vista metodológico, faltariam à economia política categorias complexas que pudessem apreender o caráter conflituoso do seu objeto.

Por outro lado, é justamente a tematização desse objeto que permite a Marx se contrapor também aos filósofos alemães que o haviam inspirado com seu método crítico. É o caso claro de Hegel, cuja dialética é recusada em sua dimensão idealista, ou seja, conciliatória dos conflitos reais. Mas é o caso, menos claro, também de Feuerbach, de quem Marx começa já a se afastar na sua dupla crítica a Hegel e aos economistas clássicos.

É no cruzamento destas três contraposições que vai se determinando o objeto do próprio Marx. Não é o simples estudo da sociedade civil-burguesa, mas a sua crítica, que lhe confere uma perspectiva própria diante de Hegel e de Feuerbach; e não é sua formação filosófica, mas a crítica dela, que enseja a sua contraposição aos economistas.

Realizada pelo conceito de alienação, esta última não é, nos Manuscritos, mera aplicação à economia da crítica feuerbachiana à religião; assim como não será, em O Capital, transposição da dialética hegeliana que a virasse de cabeça para cima mas conservasse a forma lógica. A novidade do projeto de Marx se faz sentir, de modo e intensidade diferente, em ambas as fases de sua obra. Entre a alienação dos Manuscritos e o fetichismo de O Capital há uma relação complexa, mas também positiva.

Trata-se aqui certamente de um dos nós mais difíceis na compreensão do sentido dos Manuscritos. Mas é ele justamente que define o sentido desse texto como chave de compreensão de toda a obra de Marx, isto é, de um dos diagnósticos ainda mais poderosos e férteis em significado da sociedade contemporânea.

De qualquer forma, o leitor tem agora em mãos os meios para chegar às suas próprias conclusões. A edição da Boitempo, como dissemos inicialmente, é esmerada: nos rodapés há notas eficientes, comentários valiosos e a importante inclusão das citações de Marx no original. E a tradução em geral é competente, embora às vezes insista em se ater ao significado de palavras em detrimento do nexo mais amplo: devem ser destacadas soluções que considero muito felizes, ao lado de outras de que discordo e que faria de outro modo. Os desacordos, porém, tal como ocorre no contexto da própria polêmica sobre os Manuscritos, são absolutamente inevitáveis.

Comentários

Marx fundamental

O Globo
Leandro Konder

Manuscritos econômico-filosóficos revelam berço do pensamento do autor alemão

O alemão Karl Marx é um autor que todo mundo acha que conhece. Mesmo sem tê-lo lido, as pessoas o associam a comunismo, utopia, revolução, proletariado, União Soviética, Cuba, materialismo, a religião acusada de ser “o ópio do povo” etc.

Algumas dessas associações são procedentes; outras (União Soviética, Cuba) exigiriam uma cuidadosa reconstituição das mediações que ligam o nosso autor a uma História que foi feita por gente que veio muito depois dele.

Outra coisa que deve ser esclarecida desde o começo de qualquer discussão: Marx era filósofo. E era um filósofo indelevelmente marcado pelo pensamento de Hegel, atento aos processos de totalização, que transformavam todas as coisas e todos os seres em momentos históricos.

Em Marx, como em Hegel, os conceitos mais abrangentes interferem dinamicamente uns nos outros, de modo que não se prendem demasiadamente a definições. Quando a gente pensa que a construção do conhecimento terminou, ela, na verdade, está apenas começando.

Havia um ponto crucial, porém, em que Marx divergia radicalmente de Hegel: o Estado. Para o filósofo burguês, o Estado era o nível em que a consciência superava as limitações de sua perspectiva “econômica”, “particularista” e se elevava a um nível universal de racionalidade . Para o pensador socialista, era uma instituição inevitavelmente envolvida na luta de classes.

Um filósofo do trabalho e dos trabalhadores
Do ângulo de Marx, então, nunca caberia ao Estado a direção de um processo revolucionador, capaz de superar o capitalismo. E é nesse momento, quando se casou e foi da Alemanha para Paris, que o autor dos “Manuscritos econômico-filosóficos”, escritos em 1844, defrontou-se com a pergunta: se não é o Estado, quem vai ser o portador material da revolução necessária?

Muitos anos antes de realizar as pesquisas que resultariam no “Capital”, Marx se convenceu de que cabia à classe operária articular em torno da sua liderança a maioria da população e fazer a revolução.

A opção feita exigia que suas razões fossem desenvolvidas e aprofundadas. Marx procurou corresponder a essa exigência, dispondo-se a ser simultaneamente filósofo do trabalho e filósofo dos trabalhadores.

Diz-se que os animais trabalham. A atividade deles, num formigueiro, por exemplo, impressiona. Mas não é trabalho: é uma atividade instintiva, da qual a subjetividade está ausente. Para Marx, o trabalho é a atividade pela qual o ser humano se fez a si mesmo.

O trabalho é uma atividade teleológica, quer dizer, uma atividade que se realiza com a intenção de alcançar um objetivo que não está imediatamente acessível. O trabalho cobra dos homens que eles façam escolhas, tomem decisões, assumam riscos.

E justamente por ter reconhecido no trabalho a matriz da práxis - a autocriação do sujeito humano - Marx se perguntou por que o trabalho, de atividade tão criativa que era, se transformou nessa chatice que a maioria das pessoas atualmente abomina.

Da resposta de Marx à primeira pergunta, relativa ao portador material do revolucionamento imprescindível da sociedade, nasceu a teoria do materialismo histórico, com a indicação do papel decisivo dos trabalhadores.

E da resposta à segunda pergunta derivou toda uma concepção original do ser humano como sujeito da práxis, alguém que, ao transformar o mundo, se transforma. Os “Manuscritos econômico-filosóficos” mostram a filosofia marxista no momento exato em que ela estava nascendo.

‘Manuscritos’ foram publicados 88 anos depois de escritos
Essas idéias ficaram muito mal conhecidas. As teorias que Marx desenvolveu no plano da crítica política e na crítica da economia tiveram uma difusão bem maior do que a filosofia de Marx. Em parte, porque a leitura de textos filosóficos é, por si mesma, difícil. E em parte também porque as páginas mais importantes que o filósofo dedicou à exposição do seu pensamento filosófico custaram bastante a ser publicadas.

Estes “Manuscritos econômico-filosóficos”, por exemplo, só vieram a ser publicados em 1932, 88 anos depois de terem sido escritos. Causaram perplexidade, entusiasmo, discussões apaixonadas. Por fim, reconhecidos em seu valor, passaram a ser divulgados em escala mundial (nem sempre em traduções confiáveis).

Agora, já se percebe que certas indicações teóricas que Marx fez há 160 anos foram – e ainda estão sendo – mais fecundas do que se supunha. A teoria da alienação tem nos ajudado não só a entender os problemas do mundo do trabalho, mas também os problemas da relação homem/mulher, como se vê no trecho do livro transcrito nesta página.

“Do caráter desta relação segue-se até que ponto o ser humano veio a ser e se apreendeu como ser genérico, como ser humano; a relação do homem com a mulher é a relação mais natural do ser humano com o ser humano. Nessa relação se mostra também até que ponto o comportamento natural do ser humano se tornou humano, ou até que ponto a essência humana se tornou para ele essência natural, até que ponto a sua natureza humana se tornou para ele natureza.”
Trecho de “Manuscritos econômico-filosóficos”, de Karl Marx

Leandro Konder é filósofo.

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Sobre o suicídio

Título Original: Peuchet: vom Selbstmord
Autor(a): Karl Marx
Prefácio: Michael Löwy
Tradutor(a): Rubens Enderle e Francisco Fontanella
Páginas: 84
Ano de publicação: 2006
ISBN: 85-7559-078-2
Preço: R$ 26,00
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Como parte do projeto de traduzir, diretamente do alemão, toda a obra de Karl Marx, a Boitempo Editorial publica um texto inédito no Brasil, com tema e estilo muito diferentes do restante de sua produção. Sobre o suicídio é uma peça “insólita” em meio aos seus trabalhos, como coloca Michael Löwy em ensaio que acompanha o livro. É um Marx que trata da esfera da vida privada, das angústias da existência mediada pela propriedade e pelas relações de classe, e que antecipa temas como o direito ao aborto, o feminismo e a opressão familiar na sociedade capitalista.

Diferente também na sua origem, o texto tem por base uma tradução comentada de passagens de Du suicide et ses causes, um capítulo das memórias de Jacques Peuchet, diretor dos Arquivos da Polícia de Paris durante o período da Restauração, que se torna uma espécie de “co-autor” desta obra.

Publicado uma única vez durante a vida de Marx, em 1846, e com grande parte da escrita feita por outra pessoa, por que ainda considerá-lo um texto de sua autoria? Para Löwy: “Além de havê-lo assinado, Marx imprimiu sua marca ao documento de várias maneiras: na introdução escrita por ele, na seleção dos excertos, nas modificações introduzidas pela tradução e nos comentários com que temperou o documento. Mas a principal razão pela qual essa peça pode ser considerada expressão das idéias de Marx é que ele não introduz qualquer distinção entre seus próprios comentários e os excertos de Peuchet, de modo que o conjunto do documento aparece como um escrito homogêneo, assinado por Karl Marx”.

A partir dos interessantes casos policiais de suicídio relatados por Peuchet, Marx tece as relações entre a vida privada e a estrutura social. Analisa o suicídio como expressão extrema de uma sociedade doente, de um sistema que necessita de uma transformação radical para resolver não só as questões do campo da política e da economia, mas também as opressões nas relações sociais e o mal-estar dos indivíduos.

Embora Peuchet não fosse nem socialista nem revolucionário – ao contrário, defendeu a monarquia durante a Revolução Francesa –, Marx aponta que não é preciso ser socialista para criticar a ordem estabelecida. O que em Peuchet são críticas sociais de inspiração romântica publicadas nas suas memórias, em Marx é apenas o começo da construção de uma análise ampla e sistemática do capitalismo.

Em um dos casos relatados no livro – uma jovem esposa que, trancafiada pelo ciúme doentio do marido, comete suicídio – fica clara a intersecção feita pelo autor entre as relações de posse do mundo da propriedade aplicadas aos relacionamentos.

Com um texto claro, surpreendente e muitas vezes apaixonado em suas argumentações, Sobre o suicídio revela uma faceta ignorada de um dos mais famosos e influentes pensadores da humanidade: suas idéias sobre relações pessoais.

Boitempo

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Manuscritos econômico-filosóficos

Título Original: Ökonomisch-philosophische Manuskripte
Autor(a): Karl Marx
Prefácio: Jesus Ranieri
Tradutor(a): Jesus Ranieri
Páginas: 176
Ano de publicação: 2004
ISBN: 85-7559-002-2
Preço: R$ 36,00
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“Quando estive em Moscou em 1930, Riazanov me mostrou os textos escritos por Marx em Paris, em 1844. A leitura desses Manuscritos mudou toda a minha relação com o marxismo e transformou minha perspectiva filosófica.”
Georg Lukács

“Com a descoberta dos Manuscritos econômicos-filosóficos de Marx surge a seus olhos um substituto para essa filosofia falsamente concreta, um novo Marx que era realmente concreto e que ao mesmo tempo se elevava acima do petrificado e amolecido marxismo teórico e prático dos partidos”
Jürgen Habermas citando Herbert Marcuse

“Quando eu disse a Antônio (Houaiss) que achava os Manuscritos econômico-filosóficos, do jovem Marx, mais importantes que O Capital, ele foi acometido pela ira dos justos e chamou-me de revisionista.”
Sérgio Paulo Rouanet

Com tradução, introdução e notas de Jesus Ranieri e uma cronologia da vida de Karl Marx, a Boitempo Editorial está lançando os Manuscritos econômico-filosóficos, dentro do seu projeto de publicar no Brasil a obra completa de Marx, em novas traduções direto do alemão.

Publicados apenas após sua morte, os Manuscritos foram escritos em 1844, quando Marx tinha apenas 26 anos e antes do seu célebre encontro com Engels. Os Manuscritos econômico-filosóficos ou Manuscritos de Paris apresentam a planta fundamental do pensamento de Marx: a concentração de sua filosofia na crítica da economia nacional de Adam Smith, J.B. Say e David Ricardo. Na obra, Marx expõe a discrepância entre moral e economia, denunciando a radicalidade da exploração do homem pela empresa capitalista. Enquanto a reprodução do capital é o único objetivo da produção, o trabalhador ganha apenas para sustentar suas necessidades mais vitais, ou seja, para não morrer e poder continuar produzindo.

O fundamento da teoria da mais-valia, desenvolvida mais tarde em O Capital, já é antecipado nos Manuscritos. O estranhamento do mesmo trabalhador, fazedor de um produto que não lhe pertence, também é esboçado.

Aqui, Marx dá sinais de sua passagem do idealismo hegeliano ao materialismo dialético e declara a necessidade de “uma ação comunista efetiva” a fim de superar a propriedade privada. Se muitos dos capítulos da obra são apenas esboços, ela não deixa de oferecer um desenvolvimento quase absoluto da compreensão geral de Marx acerca das relações íntimas entre liberdade, economia e sociedade, em ensaios às vezes geniais - e inclusive acabados - como é o caso de “[Dinheiro]”, o último capítulo dos Manuscritos.

Boitempo

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Manifesto Comunista

Autor(a): Karl Marx e Friedrich Engels
Prefácio: Osvaldo Coggiola
Tradutor(a): Álvaro Pina
Páginas: 256
Ano de publicação: 1998
ISBN: 85-85934-23-9
Preço: R$ 36,00
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Osvaldo Coggiola (org.) Ensaios de Antonio Labriola, Jean Jaurès, Leon Trotsky, Harold Laski, Lucien Martin e James Petras. No final de fevereiro de 1848 foi publicado, em Londres, um pequeno panfleto que acabaria por se tornar o documento político mais importante de todos os tempos - o Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels. Passado mais de um século e meio, a atualidade e o vigor deste texto continuam a ser reafirmados por intelectuais das mais diversas correntes de ensamento. Nesta edição, que a Boitempo Editorial preparou, seis especialistas refltetem sobre as múltiplas facetas desta que é, ainda hoje, a obra política mais lida e difundida em todo o mundo.

Boitempo

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Crítica da filosofia do direito de Hegel

Título Original: Zur Kritik der hegelschen Rechtsphilosophie
Autor(a): Karl Marx
Prefácio: Rubens Enderle
Tradutor(a): Rubens Enderle e Leonardo de Deus
Páginas: 168
Ano de publicação: 2005
ISBN: 85-7559-064-2
Preço: R$ 31,00
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No seu projeto de publicar toda a obra de Karl Marx no Brasil, em edições comentadas, com novas traduções direto do alemão, a Boitempo lança Crítica da filosofia do direito de Hegel. Com apresentação de Rubens Enderle, tradutor do livro junto com Leonardo de Deus, e notas de Marcelo Backes, o livro traz ainda uma cronobiografia do autor e a introdução ao livro feita pelo próprio Marx, na qual tece uma crítica à religião e à monarquia constitucional alemã. Publicado originalmente em 1843, a Crítica da filosofia do direito de Hegel é um divisor de águas na obra marxiana: marca a transição da chamada fase “juvenil” para a fase adulta e a consolidação dos pressupostos que irão orientar a produção do seu pensamento até sua maturidade. Ao investigar Hegel, Marx associaria definitivamente a compreensão das relações jurídicas na sociedade com as suas condições materiais; o pensar em função do ser e a alienação do povo, o “Estado real” em relação ao Estado moderno que o segrega e o burocratiza na qualidade de “sociedade civil”. O autor também repensa o papel da teoria crítica, estabelecendo que esta não se completa apenas no campo teórico das filosofias da religião e da ciência, mas tem um indispensável campo prático na política. Se por um lado visava superar os fundamentos estabelecidos por Hegel para o Estado alemão, por outro visava, através da associação entre a reflexão e a prática, ir além do trabalho teórico de crítica da religião de Feuerbach, uma forte influência neste seu trabalho. Marx provoca um salto sobre os debates da época em torno da obra de Hegel, para uma visão mais ampla dos fundamentos do direito na Alemanha, seu anacronismo que não permite concessões e suas relações com as classes sociais e com o estágio de desenvolvimento nacional. Uma defesa radical da verdadeira democracia, da máxima generalização do Estado, com a participação de cada cidadão para superar a divisão entre política e sociedade, para superar a alienação política. No seu próximo trabalho, nos Anais Franco-Alemães, Marx identificaria a origem da alienação na propriedade privada. Como escreve Enderle na apresentação: A gênese da alienação política será detectada no seio da sociedade civil, nas relações materiais fundadas na propriedade privada. Conseqüentemente, não se tratará mais de buscar uma resolução política para além da esfera do Estado abstrato, mas sim uma resolução social para além da esfera abstrata da política. Na Crítica, Marx encontrou seu objeto. Faltava desvendar sua “anatomia”.

Boitempo

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A situação da classe trabalhadora na Inglaterra

Título Original: Die Lage der Arbeitenden Klasse in England
Subtítulo: segundo as observações do autor e fontes autênticas
Autor(a): Friedrich Engels
Prefácio: José Paulo Netto
Tradutor(a): B. A. Schumann
Páginas: 384
Ano de publicação: 2008
ISBN: 978-85-7559-104-8
Preço: R$ 45,00
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A Boitempo Editorial, seguindo seu propósito de publicar todas as obras de Karl Marx e Friedrich Engels em traduções realizadas diretamente do alemão, lança A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, clássico de Engels e referência obrigatória na bibliografia das Ciências Sociais.

Escrita em 1845, essa obra não estava disponível para o público brasileiro havia muito tempo. A nova tradução foi inteiramente cotejada e supervisionada por José Paulo Netto, que assina também o texto de apresentação. A capa, como nos demais volumes da coleção, traz ilustração de Cássio Loredano.

Reconhecido pela extrema originalidade, o texto produzido pelo jovem Engels abordou, pela primeira vez, a revolução industrial como elemento central para a compreensão do controle da produção de mercadorias realizado pelo capital, além de condicionar a solução da “questão social” à supressão do padrão societário representado pela propriedade privada dos meios de produção.

De forma igualmente pioneira, o autor atribui aos trabalhadores urbano-industriais o status de classe, descrevendo a dinâmica criativa que coloca o proletariado na posição de sujeito revolucionário, capaz de promover a própria emancipação.

O volume conta ainda com esclarecedoras notas do editor, índice onomástico, relação das obras do autor publicadas no Brasil e uma detalhada cronologia de Engels e Marx, ressaltando aspectos importantes de suas trajetórias e relacionando-os aos fatos históricos mais relevantes da época em que viveram.

A situação da classe trabalhadora na Inglaterra é o sétimo título da coleção Marx e Engels – na qual já foram publicadas obras como o Manifesto Comunista e A ideologia alemã. Esse clássico de Engels integra também a coleção Mundo do Trabalho, coordenada por Ricardo Antunes.

Boitempo

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A sagrada família

Título Original: Die heilige Familie oder Kritik der Kritischen Kritik
Subtítulo: ou a crítica da Crítica crítica: contra Bruno Bauer e consortes
Autor(a): Karl Marx e Friedrich Engels
Tradutor(a): Marcelo Backes
Páginas: 280
Ano de publicação: 2003
ISBN: 85-7559-032-4
Preço: R$ 40,00

A Boitempo Editorial traz ao público uma edição esmerada da primeira obra escrita em conjunto por Karl Marx e Friedrich Engels, um livro basilar para a compreensão do legado intelectual de Marx. A sagrada família, ou A crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes, foi escrita por dois autores ainda jovens e em gritante desacordo com o pensamento dominante na Berlim da época e analisa as conseqüências políticas do neo-hegelianismo, polemizando ferozmente com Bruno Bauer e seu irmão Edgar, editores da Gazeta Geral Literária, publicada em Charlottemburgo, que preconizava uma política liberal elitista.

Ao mesmo tempo panfletário e com reflexões teóricas densas, o texto revela a unidade interna do pensamento de Marx e Engels, tanto no que diz respeito à política, quanto à filosofia. Diferente de obras anteriores, onde a percepção dialética supera a observação empírica da contradição denunciada, em A sagrada família, essa contradição é apresentada através de recurso metodológico que situa a determinação material nas oposições internas de nossa vida cotidiana, através, inclusive, de exemplos concretos.

A obra foi concebida a partir do segundo encontro entre os dois pensadores, em agosto de 1844, em Paris. A contribuição de Marx, bem maior que a de Engels, reúne suas anotações relativas aos Manuscritos econômico-filosóficos e à Revolução Francesa. É o único escrito filosófico publicado com a intervenção direta dos autores; outras obras escritas em conjunto por Marx e Engels, como Os manuscritos de Paris, Sobre a crítica do Estado hegeliano ou, até mesmo, A ideologia alemã, foram publicadas apenas postumamente.

Engels escreveu os três primeiros capítulos, o primeiro e o segundo parágrafo do capítulo IV e o item 2b do capítulo VII. Marx escreveu o restante da obra, que é composta de um prefácio escrito por ambos e nove capítulos.

A presente edição traz ilustração inédita de Loredano, orelha assinada por Leandro Konder e tradução de Marcelo Backes. Completa o volume um índice onomástico e outro de personagens literárias, bíblicas e mitológicas, além de uma relação de obras citadas e outra de periódicos e artigos e uma cronobiografia resumida.

Boitempo

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As duas faces do gueto

Título Original: The Two Faces of Ghetto and Other Essays
Autor(a): Loïc Wacquant
Tradutor(a): Paulo Cezar Castanheira
Páginas: 160
Ano de publicação: 2008
ISBN: 978-85-7559-109-3
Preço: R$ 35,00
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Em As duas faces do gueto, o sociólogo Loïc Wacquant analisa o aparecimento de um novo regime de marginalidade urbana nas sociedades ocidentais. A partir da implantação da agenda neoliberal, passa-se de uma fase de investimento em políticas de bem-estar social para políticas de penalização da pobreza.

Com rico material de campo, o autor conduz o leitor ao gueto norte-americano, dissecando a estrutura do que chama de “cidade negra dentro da branca”. Não só descreve o espaço de segregação racial como também elabora um conceito relacional de gueto: “instrumento institucional composto de quatro elementos – estigma, restrição, confinamento espacial e enclausuramento organizacional”. Por um lado, o gueto perpetua a exclusão e a exploração econômica e, por outro, garante certa proteção ao permitir alternativas de organização e autonomia cultural – daí suas duas faces.

Wacquant critica o aumento generalizado das populações carcerárias, cujo controle se torna cada vez mais custoso. Diz: o sistema penal se tornou uma forma de conter as mazelas sociais que decorrem da ausência de políticas sociais. Segundo ele, as prisões “se transformaram em aterro sanitário para dejetos humanos de uma sociedade cada vez mais diretamente subjugada pelos ditames materiais do mercado e da compulsão moral da responsabilidade pessoal”.

As duas faces do gueto, primeira obra de Loïc Wacquant publicada pela Boitempo, é fundamental para aqueles que pretendem entender o que está por trás de fenômenos comuns a todas as metrópoles mundiais: segregação da pobreza, aumento da violência e incapacidade de resolver a questão com medidas puramente repressivas. Uma reflexão extremamente necessária para desenvolver o pensamento crítico em tempos de aprofundamento de desigualdades.

Sobre o autor
Loïc Wacquant é professor de sociologia e pesquisador associado do Institute for Legal Research, da Universidade da Califórnia, em Berkeley. É também pesquisador do Centre de Sociologie Européenne em Paris. Nascido e criado no sul da França, estudou em Montpellier, Paris e Chicago. Dedica-se ao estudo de temas como desigualdade urbana, marginalidade, instituições carcerárias e políticas penais.

Trecho
“O gueto não é uma “área natural” que serve para separar populações e atividades, co-extensivo à “história da migração”, como sabidamente afirmou Louis Wirth em seu livro clássico The Ghetto e, depois dele, legiões de sociólogos e urbanologistas, que, caindo na armadilha ecológica montada pelos pioneiros da Escola de Chicago, confundiram gueto com cortiço e bairro étnico. Trata-se, pelo contrário, de um tipo especial de violência coletiva, concretizada no espaço urbano, que se aplica a um subconjunto limitado de categorias étnicas, na era moderna.”

Boitempo

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Saúde: propagandas de alimentos vendem más opções

Uma pesquisa realizada na Universidade de Brasília revela que 72% das propagandas de alimentos veiculam mensagens para o consumo de produtos com altos teores de gorduras, açúcares e sal. Essa “dieta” contribuiu para o aumento de doenças crônicas como obesidade, hipertensão e diabetes.

Uma pesquisa feita pelo Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição (Opsan) da Universidade de Brasília (UnB) revela que as propagandas sobre alimentos no Brasil sugerem opções que fazem mal à saúde dos consumidores. Os dados preliminares do estudo foram divulgados no dia 26 de junho. O levantamento, intitulado Pesquisa de monitoração de propaganda de alimentos visando à prática da alimentação saudável, foi feito entre 2006 e 2007 com recursos do Ministério da Saúde/CNPq.

Para fazer análise das peças publicitárias, professores, alunos e recém-formados do Departamento de Nutrição gravaram durante 52 semanas 20 horas diárias da programação de canais televisivos abertos e fechados. Também foram arquivados nesse período revistas voltadas tanto para o público adulto em geral, feminino e infantil. Os resultados constados pelos pesquisadores assustam. 72% do total das peças publicitárias de alimentos, veiculam mensagens para o consumo de alimentos com altos teores de gorduras, açúcares e sal.

Este valor é alcançado com a publicidade de apenas cinco categorias de alimentos: na ordem, os campeões são fast food; guloseimas (balas, chicletes) e sorvetes; refrigerantes e sucos artificiais; salgadinhos de pacote, e biscoitos (doces e recheados) e bolo. “Isso contribui para o aumento crescente e assustador da prevalência das doenças crônicas não transmissíveis como obesidade, hipertensão e diabetes”, declara a professora Elisabetta Recine, uma das coordenadoras da pesquisa. “E subsidia a discussão sobre a urgência de se regulamentar a publicidade de alimentos.”.

Público infantil

Nos canais de TV a cabo destinados preferencialmente ao público infantil a pesquisa chegou a verificar que 50% das peças publicitárias nessas redes são de alimentos. “Isso mostra nitidamente o direcionamento da publicidade para esse público, no sentido de estimular consumo e formar hábitos alimentares não saudáveis”, analisa a professora. Reunindo canais abertos e fechados, 44% do total desse tipo de propaganda é direcionada às crianças. “O dado é incontestável, porque praticamente metade da publicidade de alimentos na mídia televisiva e dirigida ao público infantil. Por isso identificamos atualmente casos de obesidade, hipertensão e colesterol alto em crianças e com prevalência cada vez mais altas”, avalia.

Quando se trata da análise do conteúdo publicitário destinado à criança, é alta a ocorrência de peças publicitárias com promoções de estímulo à compra, como, por exemplo, a inclusão de bonecos e figurinhas nas embalagens. “Em torno de 20% das propagandas contêm algum tipo de promoção”, afirma Elisabetta.

Mídia impressa

A realidade da publicidade alimentícia em revistas não é diferente. Cerca de 15% do total de peças nesses veículos relacionam-se a produtos alimentícios. Em revistas infantis, como as de história em quadrinhos, esse número é um pouco maior, fica em torno de 18%.

Esses são apenas alguns dos dados preliminares da pesquisa, que tem a intenção de entrar a fundo no mundo publicitário para desvendar elementos persuasivos não tão perceptíveis à primeira vista. “Vamos analisar o tipo de mensagem que é enviada a cada público, os recursos para chamar a atenção, os valores estimulados”, explica Elisabetta. “A meta é entrar nessas estruturas para detalhar quais são os mecanismos utilizados para conquistar o consumidor”, afirma.

Financiada pelo Ministério da Saúde/CNPq, a pesquisa tem o objetivo de contribuir para a discussão sobre a regulamentação da publicidade de alimentos e apontar estratégias para produção de uma futura regulamentação. “Muitos países controlam e até mesmo proibiram a publicidade de alimentos na TV. Há outros que controlam essas propagandas em determinados horários, como o de programação infantil”, afirma a pesquisadora.

Quadro

- 20% da programação das TVs são ocupadas por publicidade. Desse total, 10% é sobre alimentos;

- Foram analisados quatro canais de TV, sendo dois abertos e dois fechados;

- Nos canais fechados, 50% da publicidade é voltada para o público infantil;

- A gravação foi feita durante 20 horas durante sete dias de 52 semanas (entre agosto de 2006 e agosto de 2007), totalizando 4.160 horas de material coletado;

- Neste mesmo período foram analisadas 18 revistas, sendo 3 destinadas ao público adulto, 8 para o feminino, duas para adolescentes e seis para
crianças;

- Cinco categorias de produtos (fast food; guloseimas e sorvetes; refrigerantes e sucos artificiais; salgadinhos de pacote, e biscoitos e bolo) são responsáveis por 72% das propagandas de alimentos;

- Reunindo canais abertos e fechados, 44% do total de propagandas de alimentos é direcionado às crianças;

- Na mídia impressa, cerca de 15% do total de peças publicitárias são de alimentos;

- Em revistas infantis, esse número é um pouco maior, fica em torno de 18%;

Integram a equipe de coordenação da pesquisa, Elisabetta Recine, Janine Coutinho e Renata Monteiro, do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição, da Universidade de Brasília.

Fonte: Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição / UNB. Reproduzido da Agência Carta Maior

Agência Carta Maior

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Teologia da Libertação: um olhar pastoral. Uma reação ao artigo de Clodovis Boff

Roberto Malvezzi, o Gogó da Comissão Pastoral da Terra (CPT) comenta a entusiasmada avaliação de Clodovis Boff sobre o Documento de Aparecida. O artigo de Gogó foi publicado na sítio da CPT, 07-07-2008.

Eis o artigo.

1. Esses tempos um texto de Clodovis Boff suscitou um intenso debate sobre a Teologia da Libertação. Suas afirmações, entretanto, também abrangem o campo pastoral, inclusive das Pastorais Sociais. Extremamente contundentes, não deixam de provocar pessoas – que como eu – há décadas trilham os caminhos das Comunidades Eclesiais de Base e Pastorais Sociais. Imagino que devem ter impactado muitos outros que também fazem esse percurso. Quero comentar apenas alguns aspectos que me parecem mais chaves, utilizando suas frases de forma aproximada, não exatamente literal.

De Clodovis, além dos livros e textos, guardo a imagem de muitos anos atrás, quando ele esteve várias vezes aqui na Diocese de Juazeiro para nos assessorar. Duas frases suas são inesquecíveis para mim: “o pobre é o único sacramento realmente universal”. A segunda, dita em uma das palestras: “temos que ser bons de luta e bons de oração”.

O texto de Clodovis causou polêmica por uma afirmação central: “há um erro fundamental – quiçá mortal - na Teologia da Libertação que deriva para uma pastoral também errônea”. O erro teológico fundamental seria: “o centro da fé cristã é o Cristo, não o pobre”. Por conseqüência, a pastoral tem que partir do Cristo, não do pobre. Afirma ainda que “o ser cristão implica em ir ao pobre, mas ir ao pobre não implica necessariamente em ir ao Cristo”.

2. Como experimentamos essas afirmações na prática pastoral? Não há dúvida que para um cristão, que fez a experiência do “encontro com o Cristo”, o Cristo vem em primeiro. Para quem recebeu o privilégio da experiência pessoal das mãos de Deus esse é o ponto fundamental de partida. Mas não é verdade pastoral que ao “encontrar o Cristo os cristãos irão automaticamente ao pobre”. A América Latina, com seus milhões de pobres e oprimidos, é a prova dos nove que muita gente – se não estiver mentindo -, faz a experiência do Cristo, mas nem por isso vai ao pobre. Muito menos vão às raízes das injustiças estruturadas e estruturantes, foco principal da reflexão teológica e da prática pastoral de libertação.

Por outro lado, fazemos pastoralmente a experiência concreta que, muitas pessoas distantes da religião, do cristianismo, encontraram ou reencontraram sua fé a partir do engajamento prático junto aos pobres. Foi a partir dos pobres, do testemunho de cristãos engajados junto a eles, que conseguiram ver o rosto do Cristo.

Ainda mais, se para os cristãos o Cristo é o ponto de partida, não o é para a grande maioria da humanidade. Para esses, segundo a revelação bíblica, o Cristo, mais que “ponto de partida”, é o “ponto de chegada”. A revelação bíblica nos ensina, sobretudo a partir do capítulo 25 de Mateus, que pessoas podem fazer seu percurso histórico “sem nunca terem ouvido falar do Cristo”, mas podem encontrá-lo no “momento decisivo”. Vão se surpreender em tê-lo conhecido, mesmo sem o conhecer. Um texto tão chave não pode ser acusado simplesmente de “garimpagem bíblica”.

Clodovis, ao determinar um ponto único de partida, o Cristo, fecha portas que o próprio Deus nos abriu pela revelação bíblica. O Deus bíblico parece muito mais generoso, muito mais ecumênico, muito mais misericordioso que o Deus desse raciocínio teológico.

3. Segundo ele, um erro pastoral derivado do erro teológico se materializa nas pastorais sociais. Fala em sua onguisação. O risco é real. Uma pastoral social que não cultiva “a luta e a oração”, corre mesmo o risco de se tornar uma Ong. Mas, quando ele generaliza, se torna injusto. Há multidões de agentes pastorais suportando o peso duro da cruz de cada dia para estar a serviço dos pobres, alimentados pela fé no Cristo, pela oração e pela opção real de vida que fizeram. As próprias comunidades, as que restaram, prosseguem suas lutas por melhores condições de vida fundadas e alimentadas por sua fé. Muitos morreram por sua opção. Portanto, temos muitos erros e falhas, mas é bom lembrar que, em nenhum momento da Igreja, ela foi totalmente fiel ao seu fundador. Não pode cobrar de nós o perfeccionismo que jamais existiu.

4. Há uma crítica ao catolicismo popular, devocional, como inconsistente. Oras, a região onde esse catolicismo é mais enraizado é exatamente no Nordeste. Exatamente aqui o catolicismo permanece menos vulnerável, estatisticamente mais numeroso. E não falta TV de todas as matizes religiosas para fustigar a fé do povo. O esvaziamento católico se deu nos grandes centros, onde a Igreja não soube estar no meio das multidões perdidas nas periferias. Os evangélicos pentecostais souberam.

No Nordeste, a evangelização de Ibiapina, Pe. Cícero é o que de melhor ficou na região. Basta se aproximar dos quase 600 mil romeiros que vão ao Juazeiro do Norte na festa de Pe. Cícero para ver que ali está apenas o catolicismo que o povo moldou para si. Ele não é nem melhor, nem pior que o catolicismo vivido dentro dos muros do Vaticano ou dos conventos religiosos. O fato de ser devocional não anula que seja de convicção e fidelidade.

5. O texto é extremamente entusiasta do documento de Aparecida. Pessoalmente estive presente em alguns encontros preparatórios, sobretudo eventos que preparam a questão ecológica e social do documento, a convite do Cardeal Maradiaga, de Honduras, então responsável pelo setor no CELAM. O resultado final, nesse sentido, é discreto. Medellín e Puebla foram muito mais contundentes e proféticos.

O texto traz a novidade da insistência missionária. A dúvida é qual realidade pastoral de fato pode existir por detrás dessa intencionalidade. Não há grande entusiasmo sem uma grande causa. O grande entusiasmo pastoral conhecido na América Latina foi quando a Igreja fez a opção pelos pobres e muita gente saiu de seu conforto pessoal, da vida estabelecida e foi lá onde os pobres estavam. Esses, uma vez mais organizados e conscientes de sua cidadania social e eclesial, assumiram sua fé, suas comunidades, suas lutas pela justiça. As poucas melhorias que tivemos aqui pelo Nordeste, como a consciência política, acesso à água, o salário mínimo dos rurais, etc., teve intensa participação dos pobres das CEBs. Por isso, foi cruel, quando da volta da grande disciplina, ver gente do povo, agentes pastorais, etc., simplesmente serem afastados, quase que excomungados da participação eclesial, como “pessoas não gratas” ao novo contexto eclesial.

O texto de Aparecia é moderado, não provoca grande entusiasmo e não será um texto que irá suscitar uma nova onda missionária na Igreja. Os tempos são outros, mais ecumênicos, mais plurais e nós católicos já não teremos hegemonia na sociedade brasileira.

6. Surge o terrível desafio ecológico que teremos que enfrentar – já estamos enfrentando – a partir de nossa fé. São questões que interessam a toda a humanidade, a toda a comunidade da vida. Só poderemos estar abertos à totalidade se olharmos as pessoas, a comunidade da vida, a história, a Terra, o Universo, a partir do princípio teológico do “Reino de Deus e sua justiça”. Nosso Deus é e sempre será infinita beleza e infinita sedução.

Embora cause tanto desconforto nos nossos meios católicos, o princípio teológico do Reino de Deus se fez princípio pastoral. Ou nós que trabalhamos pastoralmente olhamos o mundo assim, ou praticamente ficaremos ilhados.

É uma época de mudanças e, sem dúvida, também precisamos mudar. Essa é uma exigência permanente da metanóia cristã. Mas é sempre preciso perguntar: para onde?

Termino com um Hay Kay de D. Hélder Câmara, fiel ao Cristo e aos pobres até o fim:

“Feliz de quem entende
Que é preciso mudar muito
Para ser sempre o mesmo”.

IHU On-line

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Hélio Pellegrino

“Quanto você faz 20 anos está de manhã olhando o sol do meio dia. Aos 60 são seis e meia da tarde e você olha a boca da noite. Mas a noite também tem seus direitos. Esses 60 anos valeram a pena. Investi na amizade, no capital erótico, e não me arrependo. A salvação está em você se dar, se aplicar aos outros. A única coisa não perdoável é não fazer. É preciso vencer esse encaramujamento narcísico, essa tendência à uteração, ao suicídio. Ser curioso. Você só se conhece conhecendo o mundo. Somos um fio nesse imenso tapete cósmico. Mas haja saco!”

(Carta a Fernando Sabino, revista pelo autor ao fazer 60 anos).

1924

Hélio Pellegrino nasce em Belo Horizonte (MG) no dia 05 de janeiro, filho de Braz Pellegrino, médico ilustre, e Assunta Magaldi Pellegrino, nascida no Sul da Itália.

1928

Conhece Fernando Sabino, seu colega de jardim-de-infância, de quem se tornaria amigo por toda a vida.

1939

Demonstrando seu interesse pela literatura, dedica-se à leitura de Drummond e escreve seus primeiros poemas.

1940

Uma geração de mineiros, que viriam a ser grandes escritores nacionais, circula por Belo Horizonte: Emílio Moura, João Ethienne Filho, Francisco Iglésias, Wilson Figueiredo, Carlos Castello Branco, Autran Dourado, Sábato Magaldi, entre outros. Hélio estreita sua amizade com Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Fernando Sabino. Formou-se, assim, o grupo que ficou conhecido como “Os 4 mineiros”. Publica, pela primeira vez, um poema no jornal “O Diário”.

1942

Face à pressão da família, ingressa na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Dizia, depois, aos amigos: “Eu queria mesmo era fazer filosofia, mas naquela época, não tinha Faculdade de Filosofia em Minas”. E acrescentava: “Na verdade eu fazia era medicina, boemia e política”.

“Deixai-o”, considerado seu primeiro poema significativo, é publicado na revista católica “A Ordem”. Conhece em Belo Horizonte o poeta Vinicius de Moraes.

1943

Decide-se pela área da medicina psiquiátrica. Em sua “Autobiografia” ele fala do incidente que motivou essa decisão:

“…Lembro-me de uma aula de fisiologia nervosa, no segundo ano. O doente, com tabes dorsal, ao centro do anfiteatro escolar, era um velhinho miúdo, ex-marinheiro, vestido com o uniforme da Santa Casa, onde estava internado. Suas pernas, hipotônicas, atrofiadas, pendiam da mesa de exame como molambos inertes. Jamais me sairá da memória o antigo lobo-do-mar, exilado das vastidões marítimas, feito coisa, diante de nós. Suas andanças pelo mundo, seus amores em cada porto ficavam reduzidos, em termo de anamnese, a um contágio venéreo ocorrido décadas atrás. O velhinho, contrafeito, engrolava o seu depoimento, fustigado pelos gritos de — “fala mais alto!” —com que buscávamos saciar nosso zelo científico. De repente, o desastre. Sem controle esfincteriano, o velho urinou-se na roupa, em pleno centro do mundo. Vejo-o, pequenino, curvado para a frente, tentando esconder com as mãos a umidade ultrajante. Seu pudor, entretanto, nada tinha a ver com a ciência neurológica. Esta lavrara um tento de gala, e o sintoma foi saudado com ruidosa alegria, como um goal decisivo na partida que ali se travava contra a sífilis nervosa.

O velho ficou esquecido como um atropelado na noite. A aula prosseguiu, brilhantemente ilustrada. Os reflexos e a sensibilidade cutânea do paciente foram pesquisado com maestria. Agulhas e martelos tocavam sua carne — esta carne revestida de infinita dignidade, que um dia ressurgirá na Hora do Juízo. Meu colega Elói Lima percebeu, juntamente comigo, o acontecimento espantoso. “O marinheiro está chorando” — me disse. Fomos três a chorar.

Entre lágrima e urina, nasceu-me o desejo de me dedicar à psiquiatria. O choro do velho, seu desamparo, sua figura engrouvinhada sobre a qual parecia ter-se abatido todo o inverno do mundo, tudo me surgiu de repente como o grande tema de meditação, a partir de cuja importância poderia eu, quem sabe, encontrar um caminho. …”.

Ainda nesse ano, viaja a São Paulo com Fernando Sabino, onde conhece Mário de Andrade. Começam uma correspondência que durou até a morte de Mário, em fevereiro de 1945.

1944

Com Wilson Figueiredo, Simão Vianna da Cunha Pereira, Otto Lara Resende, Francisco Iglésias e Darci Ribeiro, edita o combativo jornal clandestino “Liberdade”. É um dos fundadores da União Democrática Nacional - UDN. Conhece o escritor francês católico George Bernanos.

1945

Participa do Primeiro Congresso de Escritores, realizado no Teatro Municipal de São Paulo. Colabora regularmente no suplemento literário de “O Jornal” ,no Rio de Janeiro. Concorre, pela UDN, ao cargo de deputado federal.

1946

Se desliga da UDN e funda a Esquerda Democrática, ligada ao Partido Comunista. Conhece, no Rio de Janeiro, Mário Pedrosa, o responsável, anos mais tarde, por sua presença na fundação do Partido dos Trabalhadores - PT.

1947

Inicia a prática psiquiátrica no Raul Soares, manicômio do Estado. Conhece o poeta Murilo Mendes. Capitaneia uma iniciativa editorial, a revista “Nenhum”, que teve um único e sensacional exemplar. Publica pelo grupo literário “Edifício”, formado por Wilson Figueiredo, Autran Dourado e Sábato Magaldi, um livreto com dois poemas: “Poema do príncipe exilado” e “Deixe que eu te ame”.

1948

Em 11 de dezembro, casa-se na Igreja de Nossa Senhora de Lourdes com Maria Urbana Pentagna Guimarães, companheira nos próximos quarenta anos, com quem terá sete filhos.

1949

Nasce a primeira filha, Maria Clara Guimarães Pellegrino.

1950

Abre consultório particular, transfere-se do manicômio Raul Soares para o Hospital de Neuropsiquiatria Infantil. Nasce o segundo filho, Pedro Guimarães Pellegrino.

1952

Nasce Hélio Guimarães Pellegrino. A família Guimarães Pellegrino se muda para o Rio de Janeiro. Hélio inicia análise didática com Iracy Doyle e trabalha como redator no jornal “O Globo”.

1953

Colabora no semanário “Flan”, onde conhece o escritor Nelson Rodrigues. Abre consultório psicanalítico com Hélio Tolipan e Ivan Ribeiro.

1954

Nasce Clarice Guimarães Pellegrino.

1956

Morre Iracy Doyle. Hélio interrompe a análise didática.

Fernando Sabino lança “O encontro marcado”, romance no qual o médico Mauro Lombardi é inspirado na pessoa do biografado.

1957

Nasce Tereza Guimarães Pellegrino. Mudam-se para a rua Nascimento Bittencourt, 85,Jardim Botânico, local que logo se torna ponto de encontro de intelectuais e artistas.

1958

Reinicia o processo de análise didática, agora com D. Catarina Kemper, com o propósito de se formar psicanalista, o que ocorre em 1963.

1960

Nasce Dora Guimarães Pellegrino.

1964

O escritor sofre uma isquemia coronária.

1965

Nasce seu sétimo e último filho, João Guimarães Pellegrino.

1966

Hélio colabora, até fins de 1968, no jornal “Correio da Manhã”. Participa de congresso na cidade de Santiago do Chile, onde apresenta a tese “O pacto edípico e o pacto social”, de grande repercussão no meio psicanalítico.

1968

Sua participação na política o faz ser respeitado pelos estudantes, líderes da movimentação política libertária desses anos, tornando-se porta-voz dos intelectuais. Discursa na “Passeata dos Cem Mil”, e participa da Comissão dos Cem Mil. No dia 13 de dezembro é decretado o Ato Institucional Número 5.

1969

É mantido preso por dois meses — divididos entre o Regimento Caetano de Farias e o Primeiro Batalhão de Guerra. É processado sob a acusação de líder comunista. Morre aos 63 anos seu pai, Braz Pellegrino.

1970

A tensão em que todos viviam também o atinge. Sofre um enfarte no miocárdio.

1971

A idéia da Clínica Social de Psicanálise surge das conversas que mantinha com D. Catarina Kemper. Visando sua realização, iniciam-se na Faculdade Cândido Mendes os “Encontros Psicodinâmicos”, que coordenavam.

1973

Inaugura, com um grupo de psicanalistas, a Clínica Social de Psicanálise, instituição pioneira de atendimento gratuito que visava a integração entre psicanálise e sociedade

1974

Casa-se com a física Sarah de Castro Barbosa, com quem ficará por sete anos.

1977

Morre José Pellegrino, seu irmão mais velho.

1978

Com João Batista Ferreira e Jochen Kemper, assumem, por quatro anos, a direção da Clínica Social. Publica nos “Ensaios de Opinião”, volume 7 da editora Paz e Terra, “A dialética da tortura: direito versus direita”. Inicia colaboração, por dois anos, em “O Pasquim”.

1979

Colabora por cinco meses no “Jornal da República”. Desenvolve um trabalho de integração entre a Clínica Social e a comunidade da favela do Morro dos Cabritos.

1980

Adere, com Mário Pedrosa, Lula, Antonio Candido, Apolônio de Carvalho, Sérgio Buarque de Hollanda, ao manifesto de fundação do Partido dos Trabalhadores - PT. Tem início nos auditórios da PUC-Rio, durante o seminário “A psicanálise e sua inserção no modelo capitalista”, a crise de Hélio e Eduardo Mascarenhas com a Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro. Motivada pela denúncia do apoliticismo da instituição e pelo fato de ela ter, entre seus quadros de candidatos a analistas didatas o médico e, revelado, torturador Amílcar Lobo. Tal crise se estende por dois anos, culminando na expulsão de Mascarenhas e Pellegrino, reintegrados somente por decreto judicial.

1981

Forma, com Carlos Alberto Barreto, um núcleo antiburocrático do PT, o Clube Mário Pedrosa, freqüentado por diversos intelectuais e artistas. Retoma o casamento com Maria Urbana. Lança, em parceria com Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, o disco-recital “Os 4 mineiros”.

1982

Inicia colaboração por três anos e meio no jornal “Folha de S.Paulo”.

1983

Integra a Comissão Teotônio Vilela para as Prisões, do grupo Tortura Nunca Mais.

1985

Colabora quinzenalmente na página 11 do “Jornal do Brasil”. Juntamente com Frei Betto e Fábio Lacombe, cria o “MIRE, Mística e Revolução”, grupo de estudos e orações.

Lya Luft e Hélio Pellegrino se encontraram num congresso de escritores em São Paulo. Conheciam-se apenas de nome; depois, por cartas. Nove meses mais tarde, iniciava-se o casamento entre os dois mitos. Uma mulher disposta a começar tudo de novo. Um homem “em sua melhor fase; fascinado pelo mistério: de Deus, da vida, das pessoas, da natureza”.

1986

Casa-se com a escritora Lya Luft.

1988

Na madrugada de 23 de março, morre Hélio Pellegrino, vítima do coração.

“Nunca vi tanta mulher bonita”, escreveu Rubem Braga, impressionado com a enorme quantidade de mulheres chorando, algumas quase desfiguradas, outras ocultas por grandes óculos escuros, entre as mais de 500 pessoas que foram ao cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

Conclui o “velho” Braga: “Eu gostaria de conversar sobre isso e outras questões de amor com uma pessoa, ao mesmo tempo imaginosa e lúcida, mas esta pessoa estava metida num caixão em uma capela onde sequer cheguei a entrar, e se chamava Hélio Pellegrino”.

A editora Rocco lança a coletânea de artigos “Burrice do demônio”, organizada pelo autor.

1992

A família Pellegrino doa o arquivo do escritor para a Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

1993

É publicada a seleção de poemas “Minérios domados”, editora Rocco, organizada por Humberto Werneck.

1998

A coleção “Perfis do Rio”, editora Relume Dumará, lança “Hélio Pellegrino, a paixão indignada”, de Paulo Roberto Pires.

2003

A editora Planeta publica o livro “Meditação de Natal”.

2004

A editora Bem-Te-Vi publica “Arquivinho de Hélio Pellegrino”.

Sai, pela editora Planeta, “Lucidez Embriagada”, organização de Antônia Pellegrino, neta do autor.

Foi pensando na morte de Hélio que a escritora Lya Luft escreveu esses versos, logo após sua morte. Segundo ela, para reviver um grande amor entre dois pássaros “varados em pleno vôo”.

(…)

V

Insensato eu estar aqui, e viva.
O rosto dele me contempla
vincado e triste no retrato sobre minha mesa;
em outros, sorri para mim, apaixonado e feliz.
Insensato, isso de sobreviver:
mas cá estou, na aparência inteira.

Vou à janela esperando que ele apareça
e me acene com aquele seu gesto largo e generoso,
que ao acordar esteja ao meu lado
e que ao telefone seja sempre a sua voz.

Sei e não sei que tudo isso é impossível,
que a morte é um abismo sem pontes
(ao menos por algum tempo).

Sobrevivo, mas pela insensatez. (…)

(”O lado fatal”, Editora Siciliano - São Paulo, 1988).

Dados extraídos dos livros “Hélio Pellegrino”, Perfis do Rio, de Paulo Roberto Pires, Relume Dumara, 1998; “Lucidez Embriagada”, Editora Planeta - 2004, organização de Antonia Pellegrino, e sites da internet

Releituras

Comentários

Gilberto Freyre

As mangueiras
o telhado velho
o pátio branco
as sombras da tarde cansada
até o fantasma da judia rica
tudo esta à espera do romance começado

um dia sobre os tijolos soltos
a cadeira de balanço será o principal ruído
as mangueiras
o telhado
o pátio
as sombras
o fantasma da moça
tudo ouvirá em silêncio o ruído pequeno.”

Nasce no Recife, em 15 de março de 1900, Gilberto Freyre, filho do Dr. Alfredo Freyre — educador, Juiz de Direito e catedrático de Economia Política da Faculdade de Direito do Recife — e de D. Francisca de Mello Freyre.

Aos seis anos de idade tenta fugir de casa, escondendo-se em Olinda, cidade à qual devotou grande amor e da qual escreveria, em 1939, o 2° Guia Prático, Histórico e Sentimental.

Inicia seus estudos freqüentando o Jardim da Infância do Colégio Americano Gilreath, em 1908. Faz seu primeiro contato com a literatura através das Viagens de Gulliver. Mas, apesar de seu interesse, não consegue aprender a escrever, fazendo-se notar pelos desenhos. Toma aulas particulares com o pintor Telles Júnior, que reclama contra sua insistência em deformar os modelos. Começa a aprender a ler e escrever em inglês com Mr. Williams, que elogia seus desenhos.

Em 1909 falece sua avó materna, que viva a mimá-lo por supor ser o neto retardado, pela dificuldade em aprender a escrever. Ocorrem suas primeiras experiências rurais de menino de engenho, nessa época, quando passa temporada no Engenho São Severino do Ramo, pertencente a parentes seus. Mais tarde escreverá sobre essa primeira experiência numa de suas melhores páginas, incluída em Pessoas, Coisas & Animais.

Nas férias de 1911 passa seu primeiro verão na praia de Boa Viagem, onde escreve um soneto camoniano e enche muitos cadernos com desenhos e caricaturas.

Dá as primeiras aulas no Colégio, em 1913.

Em 1914, ensina Latim, que aprendeu com o próprio pai, conhecido humanista recifense. Toma parte ativa nos trabalhos da sociedade literária do colégio. Torna-se redator-chefe do jornal impresso do colégio: O Lábaro.

Em 1915, tem lições particulares de Francês com Madamme Meunieur.

Corresponde-se, em 1916, com o jornalista paraibano Carlos Dias Fernandes, que o convida a proferir palestra na capital do Estado, João Pessoa. Seu pai não apreciava Carlos Dias Fernandes, pela vida boêmia que levava. Mesmo assim Gilberto Freyre viaja autorizado pela mãe e lê no Cine-Teatro Pathé sua primeira conferência pública, dissertando sobre Spencer e o problema da educação no Brasil. O texto foi publicado no jornal O Norte, com elogios de Carlos Dias Fernandes.

Influenciado pelos mestres do colégio, tanto quanto pela leitura do Peregrino de Bunyan e de uma biografia do Dr. Livingstone, toma parte em atividades evangélicas e visita a gente miserável dos mocambos recifenses. Interessa-se pelo socialismo cristão, mas lê como uma espécie de antídoto a seu misticismo, autores como Spencer e Comte.

Eleito presidente do Clube de Informações Mundiais, fundado pela Associação Cristã de Moços do Recife.

Em 1917, conclui o curso de Bacharel em Ciências e Letras do Colégio Americano Gilreath. Eleito orador da turma, cujo paraninfo é o historiador Oliveira Lima, desde então seu amigo, faz-se notar pelo discurso que profere. Começa a estudar grego. Torna-se membro da Igreja Evangélica, desagradando a mãe e a família católica.

Segue, no início do ano de 1918, para os Estados Unidos, fixando-se em Waco (Texas) para matricular-se na Universidade de Baylor. Inicia sua colaboração no Diário de Pernambuco, com uma série de cartas intituladas “Da outra América”.

No ano de 1919, naquela Universidade, auxilia o geólogo John Casper Branner no preparo do texto português da “Geologia do Brasil”. Ensina francês a jovens oficiais norte-americanos convocados para a guerra. Estuda Literatura com A. J. Armstrong, professor de literatura e crítico literário especializado na filosofia e na poesia de Robert Browning. Escreve os primeiros artigos em inglês publicados por um jornal de Waco. Divulga suas primeiras caricaturas.

Conhece pessoalmente, em 1920, por intermédio do professor Armstrong, o poeta irlandês William Butler Yates, os “poetas novos” dos Estados Unidos: Vachel Lindsay, Amy Lowell e outros. Escreve em inglês um estudo sobre Amy Lowell. Como estudante de Sociologia, faz pesquisas sobre a vida dos negros de Waco e dos mexicanos marginais do Texas. Conclui, na Universidade de Baylor, o curso de Bacharel em Artes, mas não comparece à solenidade da formatura: contra as praxes acadêmicas, a Universidade envia-lhe o diploma por intermédio de um portador. Segue para Nova Iorque e ingressa na Universidade de Colúmbia. A Academia Pernambucana de Letras, por proposta de França Pereira, elege-o sócio-correspondente, em 05 de junho desse ano.

Segue, em 1921, na Faculdade de Ciências Políticas (inclusive as Ciências Sociais Judiciais) da Universidade de Colúmbia, cursos de graduação e pós-graduação. Conhece pessoalmente Rabindranath Tagore e o Príncipe de Mônaco. A convite de Amy Lowell, visita-a em Boston. Segue, na Universidade de Colúmbia, o curso do Professor Zimmern, da Universidade de Oxford, sobre a escravidão na Grécia. Visita a Universidade de Harvard e o Canadá. É hóspede da Universidade de Princeton, como representante dos estudantes da América Latina que ali se reúnem em congresso. Torna-se editor-associado da revista El Estudiante Latino-Americano, publicada mensalmente em Nova Iorque pelo Comitê de Relações Fraternais entre Estudantes Estrangeiros. Publica diversos artigos no referido periódico.

Defende, em 1922, tese para o grau de M.A. (Magister Artium ou Master of Arts) na Universidade de Colúmbia intitulada Social life in Brazil in the middle of the 19th Century, publicada em Baltimore pela Hispanic American Historical Review e recebida com elogios pelos professores Haring Shepherd, Robertson, Martin, por Oliveira Lima e H. L. Mencken, que aconselha o autor a expandir o trabalho em livro. Deixa de comparecer à cerimônia de formatura, seguindo imediatamente para a Europa, onde recebe o diploma, enviado pelo Reitor Nicholas Murray Butler. Visita a França, a Alemanha, a Bélgica, tendo antes estado na Inglaterra. Visista, também, a Espanha e conhece Portugal. Convive com Vicente do Rego Monteiro e com outros artistas modernistas brasileiros como Tarsila do Amaral e Brecheret. Na Alemanha conhece o Expressionismo, na Inglaterra, o ramo inglês do Imagismo, já seu conhecido nos Estados Unidos. Na França, o anarco-sindicalismo de Sorel e o federalismo monárquico de Maurras.

Vem o ano de 1923 e ele continua em Portugal, onde conhece João Lúcio de Azevedo, o Conde de Sabugosa, Fidelino de Figueiredo, Joaquim de Carvalho, Silva Gaio. Regressa ao Brasil e volta a colaborar no Diário de Pernambuco. Da Europa escreve artigos para a Revista do Brasil (São Paulo), a pedido de Monteiro Lobato.

Retorna ao Brasil em 1924 e reintegra-se no Recife, onde conhece José Lins do Rego, incitando-o a escrever romances, em vez de artigos políticos. Funda-se no Recife, a 28 de abril o “Centro Regionalista do Nordeste”, com Odilon Nestor, Amaury de Medeiros, Alfredo Freyre, Antônio Inácio, Morais Coutinho, Carlos Lyra Filho, Pedro Paranhos, Júlio Bello e outros. Excursões pelo interior do Estado de Pernambuco e pelo Nordeste com Pedro Paranhos, Júlio Bello (que a seu pedido escreveria as Memórias de um senhor de engenho) e seu irmão Ulysses Freyre. Lê, na capital do Estado da Paraíba conferência publicada no mesmo ano: “Apologia pro generatione sua”.

Encarregado pela direção do Diário de Pernambuco, em 1925, organiza o livro comemorativo do primeiro centenário de fundação do referido jornal: Livro do Nordeste, onde foi publicado pela primeira vez o poema modernista de Manuel Bandeira “Evocação do Recife”, escrito a seu pedido. O Livro do Nordeste consagrou, ainda, o até então desconhecido pintor Manoel Bandeira e publica desenhos modernistas de Joaquim Cardozo e Joaquim do Rego Monteiro. Lê na Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco uma conferência sobre Dom Pedro II, publicada no ano seguinte.

Conhece, em 1926, a Bahia e o Rio de Janeiro, onde faz amizade com o poeta Manuel Bandeira, os escritores Prudente de Morais Neto (Pedro Dantas), Rodrigo M. F. de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, o compositor Villa-Lobos. Por intermédio de Prudente, conhece Pixinguinha, Donga e Patrício e se inicia na nova música popular brasileira em noitadas boêmias. Escreve um poema longo, modernista ou imagista e ao mesmo tempo regionalista e tradicionalista, do qual Manuel Bandeira dirá depois que é um dos mais saborosos do ciclo das cidades brasileiras: “Bahia de todos os santos e de quase todos os pecados” (publicado no Recife, no mesmo ano, em edição da Revista do Norte, reeditado, em 20 de junho de 1942, na revista O Cruzeiro e incluído no livro Talvez poesia). Segue para os Estados Unidos como delegado do Diário de Pernambuco ao Congresso Pan-Americano de Jornalistas. É convidado para redator-chefe do mesmo jornal e para oficial de gabinete do Governador eleito de Pernambuco, então vice-presidente da República. Colabora (artigos humorísticos) na Revista do Brasil com o pseudônimo de J. J. Gomes Sampaio. Publica-se no Recife a conferência lida, no ano anterior, na Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco: “A propósito de Dom Pedro II” (edição da Revista do Norte; incluída, em 1944, no livro Perfil de Euclydes e outros perfis). Promove no Recife o 1º Congresso Brasileiro de Regionalismo.

Em 1927, assume o cargo de oficial de gabinete do novo Governador de Pernambuco, Estácio de Albuquerque Coimbra, casado com a prima de Alfredo Freyre, Joana Castelo Branco de Albuquerque Coimbra.

Dirige, em 1928,a pedido de Estácio Coimbra, o jornal A Província, onde passam a colaborar os escritores novos do Brasil. Publica no mesmo jornal artigos e caricaturas com diferentes pseudônimos: Esmeraldino Olímpio, Antônio Ricardo, Le Moine, J. Rialto e outros. Nomeado pelo Governador Estácio Coimbra, por indicação do diretor A. Carneiro Leão, torna-se professor da Escola Normal do Estado de Pernambuco: primeira cadeira de Sociologia que se estabelece no Brasil com moderna orientação antropológica e pesquisas de campo.

Acompanhando Estácio Coimbra ao exílio, em 1930, em viagem por mar que começou na Bahia, conhece parte do continente africano (Dacar, Senegal) e inicia, em Lisboa, as pesquisas e estudos em que se basearia Casa-grande & senzala (”Em outubro de 1930 ocorreu-me a aventura do exílio. Levou-me primeiro à Bahia: depois a Portugal, com escala pela África. O tipo de viagem ideal para os estudos e as preocupações que este ensaio reflete”, como escreverá no prefácio do mesmo livro)

A convite da Universidade de Stanford, em 1931, segue para os Estados Unidos, como professor extraordinário daquela Universidade. Volta, no fim do ano, para a Europa, demorando-se na Alemanha, em novos contatos com seus museus de antropologia, de onde regressa ao Brasil.

Continua, no Rio de Janeiro, em 1932, as pesquisas para a elaboração de Casa-grande & senzala, em bibliotecas e arquivos. Recusando convites para empregos que lhe foram feitos pelos membros do novo governo brasileiro — um deles José Américo de Almeida — vive, então, com grandes dificuldades financeiras, hospedando-se em casas de amigos e em pensões baratas do então Distrito Federal. Estimulado pelo seu amigo Rodrigo M. F. de Andrade, contrata com o poeta Augusto Frederico Schmidt — editor à época — a publicação do livro por 500 mil reis mensais, que recebe com irregularidades constantes. Regressa ao Recife, onde continua a escrever Casa-grande & senzala, na casa do seu irmão Ulysses Freyre.

Em 1933, conclui o livro, enviando os originais ao editor Schmidt, que o publica em dezembro.

Aparecem, em princípios de 1934, nos jornais do Rio de Janeiro os primeiros artigos sobre Casa-grande & senzala, escritos por Yan de Almeida Prado, Roquette Pinto, João Ribeiro e Agrippino Grieco, todos elogiosos. Organiza no Recife o 1º Congresso de Estudos Afro-Brasileiros. Recebe o prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira pela publicação Casa-grande & senzala. Lê na mesma Sociedade conferência sobre “O escravo nos anúncios de jornal do tempo do Império”, publicada na revista Lanterna Verde. Regressa ao Recife e lê, no dia 24 de maio, na Faculdade de Direito e a convite de seus estudantes, conferência publicada, no mesmo ano, pela Editora Momento: “O estudo das ciências sociais nas universidades americanas”. Publica-se no Recife (Oficinas Gráficas The Propagandist, edição de amigos do autor, tiragem de apenas 105 exemplares em papel especial e coloridos a mão por Luís Jardim) o Guia prático, histórico e sentimental da cidade do Recife, inaugurando, em todo o mundo, um novo estilo de guia de cidade, ao mesmo tempo lírico e informativo e um dos primeiros livros para bibliófilos publicados no Brasil.

A pedido dos alunos da Faculdade de Direito do Recife, em 1935, e por designação do Ministro da Educação, inicia na referida escola superior um curso de Sociologia com orientação antropológica e ecológica. Segue, em setembro, para o Rio de Janeiro, onde, a convite de Anísio Teixeira, dirige na Universidade do Distrito Federal o primeiro curso de Antropologia Social e Cultural da América Latina. Publica-se no Recife (Edições Mozart) o livro Artigos de jornal. Profere, a convite de estudantes paulistas de Direito, no Centro XI de Agosto, da Faculdade de Direito de São Paulo, a Conferência “Menos Doutrina mais Análise”, tendo sido saudado pelo estudante Osmar Pimentel.

Publica-se no Rio de Janeiro (Companhia Editora Nacional, volume 64 da coleção Brasiliana), em 1936, o livro que é uma continuação da série iniciada com Casa-grande & senzala: Sobrados e mocambos. Viaja à Europa, visitando a França e Portugal.

Em 1937 retorna à Europa, desta vez como delegado do Brasil ao Congresso de Expansão Portuguesa no Mundo, reunido em Lisboa. Lê conferências nas Universidades de Lisboa, Coimbra e Porto e na de Londres (King’s College), publicadas no Rio de Janeiro no ano seguinte. Regressa ao Recife e lê conferência política no Teatro Santa Isabel, a favor da candidatura de José Américo de Almeida à presidência da República. A convite de Paulo Bittencourt, inicia colaboração semanal no Correio da Manhã. Publica-se no Rio de Janeiro (José Olympio) o livro Nordeste (aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil).

É nomeado, em 1938, membro da Academia Portuguesa de História pelo presidente Oliveira Salazar. Segue para os Estados Unidos como lente extraordinário da Universidade de Colúmbia, onde dirige seminário sobre Sociologia e História da Escravidão. Publica-se no Rio de Janeiro (Serviço Gráfico do Ministério da Educação e Saúde) o livro Conferência na Europa.

Em 1939 faz sua primeira viagem ao Rio Grande do Sul. Segue, depois para os Estados Unidos, como professor extraordinário da Universidade de Michigan. Publica-se no Rio de Janeiro (José Olympio) a primeira edição do livro Açúcar (um livro de receitas) e, no Recife (edição do autor, para bibliófilos), Olinda, 2º guia prático, histórico e sentimental da cidade brasileira. Publica-se em Nova Iorque (Instituto de las Españas en los Estados Unidos) O Escritor Gilberto Freyre, vida y obra., do historiador Lewis Hanke.

A convite do Governo português, lê no Gabinete Português de Leitura do Reci