Certidão de Nascimento

Carta Capital
Antonio Luiz M. C. Costa

Em nova edição, o texto que inaugurou o socialismo científico e a parceria entre Marx e Engels.

Com A Sagrada Família, a Boitempo retoma seu projeto de publicar traduções competentes dos clássicos de Karl Marx e Friedrich Engels. De acordo com os planos da editora, seguir-se-ão, em breve, os Manuscritos econômico-filosóficos, o 18º Brumário de Luís Bonaparte e a primeira tradução integral em português de A Ideologia Alemã (as hoje disponíveis limitam-se à primeira parte).

A tradução do original alemão é tão rigorosa, fluente e bem anotada quanto a da edição de 1998 do Manifesto Comunista. O leitor que conta com a manutenção desse padrão de qualidade não ficará decepcionado – e ficará muito agradecido pelos índices de personagens históricos, literários, bíblicos e mitológicos que ajudam a esclarecer citações que ficaram mais do que um pouco obscuras para o leitor moderno que não seja erudito em história da filosofia, letras clássicas e cultura popular do século XIX. Mas talvez sinta a falta de um artigo para situar a obra historicamente e explicar sua importância e sua influência, como os seis que acompanharam o Manifesto.

Se os Manuscritos econômico-filosóficos são a ultrassonografia do marxismo em gestação, o Manifesto é o batismo e O Capital é o atestado de maioridade, então A Sagrada Família é o registro civil de seu nascimento.

Esta obra marca a ruptura de Marx com a esquerda hegeliana com que inicialmente havia se identificado. Não por acaso, é também sua primeira obra em parceria com Engels.

Certos autores do final do século XX, simpáticos ou não ao marxismo, acusaram Engels de deformar o pensamento do amigo com interpretações deterministas, mecanicistas, positivistas e cientificistas que teriam desembocado na social-democracia, no stalinismo ou no que mais possa ter dado errado no movimento.

É difícil entender como tal colaboração poderia ter sobrevivido às graves divergências que tais análises deduzem de variações de ênfase e estilo nas quais os próprios co-autores viam apenas uma divisão de trabalho e de campos de interesses. Ou mesmo perceber como, sem Engels, o marxismo chegaria a existir.

Foi indispensável seu papel nessa síntese arrojada, que procuraria fundar cientificamente a análise da história do movimento social concreto e a possibilidade da concretização do comunismo no mundo real.

A primeira vítima desta nova visão seria seu próprio berço: a esquerda hegeliana alemã, representada pelos irmãos Bruno e Edgar Bauer. Esses antigos mentores de Marx agora editavam um Jornal Literário que pregava, contra a reacionária monarquia prussiana, uma política de reformas liberais a partir de uma elite esclarecida e desinteressadamente motivada por ideais filosóficos.

A “sagrada família” do título deste alentado panfleto polêmico alude ao distanciamento olímpico entre a escola de Bauer e a realidade. “O crítico nem sequer pode ousar misturar-se pessoalmente na sociedade” escrevera o jornal dos irmãos Bauer – “por isso ele forma para si uma sagrada família, assim como o deus solitário aspira a superar através da sagrada família sua separação tediosa da sociedade”, comenta Marx.

Engels escreveu alguns capítulos para mostrar a ignorância dos Bauer sobre as realidades históricas, sociais e até geográficas da Inglaterra liberal sobre a qual peroravam. Depois passou a bola a Marx, que completa o serviço com uma crítica devastadora de suas incoerências e de sua fragilidade filosófica.

Com isto, o conhecimento concreto e prático das realidades da indústria, da economia e da luta de classes na Inglaterra que Engels trouxera a Marx completou a abertura de um caminho arrojado para além das abstrações hegelianas e das utopias socialistas. Uma concepção de história movida pelas realidades materiais das classes e de seus interesses e uma filosofia que se propunha cooperar com o movimento social realmente existente para transformar a realidade. Goste-se ou não ela, é preciso convir que este livro marca o parto de uma idéia e tanto.
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