Arquivo de 10 de Julho de 2008

A força da palavra no reino da imagem. Leandro Konder, filósofo

2005-08-07 - O Estado de S. Paulo
Ubiratan Brasil

Para o pensador, ler é uma forma de os homens se encontrarem e de assimilarem algo das experências dos outros

No momento em que a imagem ocupa cada vez mais espaço na cultura mundial, em detrimento da palavra escrita, o filósofo e articulista Leandro Konder tomou o caminho oposto. Ciente de que ler não é mera decifração de letras e de palavras, mas antes uma forma de os homens poderem se encontrar e assimilarem algo das experiências dos outros, ele escreveu As Artes da Palavra, recentemente lançado pela editora Boitempo.

O livro desdobra-se em pequenos capítulos em que Konder, com uma linguagem clara, mas sem ser excessivamente didática, analisa os diversos gêneros literários, como romance, poesia, teatro, ensaio, crônicas e cartas. Ele não pretende elaborar uma nova teoria para esses gêneros. Tampouco propor uma nova poética. “Revisitados alguns dos gêneros mais notáveis da expressão literária, visei reabrir a velha discussão sobre um momento crucial da estética: a do realismo”, escreve ele, no prefácio. Assim, por ser um texto introdutório, Konder busca relembrar algumas das teorias do realismo já existentes e que circulam entre os estudiosos da literatura.

Por fim, Konder se dispõe a analisar o realismo nos romances de Balzac (”Tarefa fácil, porque Balzac é, por assim dizer, um escritor que exibe orgulhosamente suas características realistas”), além de decifrar a poesia de Fernando Pessoa, procurando nela algum resquício que pudesse ser chamado de realista.

Nessa segunda parte, ele também relembra teóricos importantes, mas presta homenagem especial às concepções de Georg Lukács, que escreveu importantes textos sobre Goethe, Balzac, Stendhal, Zola e Nietzsche, ainda que parte de seu arsenal precise ser reavaliado, como Konder comenta na entrevista a seguir, realizada por telefone, desde o Rio de Janeiro.

Andre Gide costumava dizer que com bons sentimentos se faz má literatura. O que o senhor pensa disso?
É uma provocação, mas que não pode ser julgada em si mesma: o conteúdo dela é dado de acordo com as condições históricas. O que Gide faz é encampar uma revolta justa contra o moralismo que empobrece o conteúdo da arte. Afinal, a arte vive das contradições de uma certa experiência humana e, para dar conta disso, não se pode pender para um moralismo.

Gide considerava as Memórias do Subsolo como a “viga mestra” da obra de Dostoievski.
Sim, é uma fraqueza histórica que foi notada por alguns bons críticos de esquerda que, em geral, viam a obra com certo moralismo, mesmo citando Marx. Mas a esquerda reagiu mal diante da novela do Dostoievski e também diante da frase do Gide.

Lukács falava de literatura e de arte com grandeza, sem mesquinharia. O senhor pode comentar essa frase?
Aprendi muito com Lukács, ensinamento que foi realimentado durante toda minha vida. Mas, ao mesmo tempo, tenho a tranqüilidade de dizer que alguns conceitos importantes dele parecem ter envelhecido, o que me obriga a escolher o que deve ser reaproveitado e o que pode ser esquecido. O conceito de realismo dele, por exemplo, tem alguns detalhes que são insuficientes a meu ver: falta a amplitude e a complexidade necessária para enfrentar essa coisa fantástica que é o quadro da posição artística contemporânea.

Por falar em contemporaneidade, o século 20 foi marcado por um clima de ruptura, com muitos acontecimentos trágicos, o que deformou o mundo real aos olhos de muitos escritores, que o vêem hoje como caótico. Como o senhor analisaria a literatura produzida no século passado?
Acho que é possível fazer caracterizações provisórias, interessantes, mas convém se manter no patamar da modéstia. Afinal, como iniciamos agora o novo século, ao falar do anterior, a avaliação se revelaria insuficiente, precária. Uma boa questão seria definir qual seria o perfil do século 20 e quem contribuiu para isso? Acho que tem a cara de Kafka, Thomas Mann, Proust, mas também de romances latino-americanos - e o Brasil comparece com poetas e romancistas de representação condigna.
Mas nossa presença não pode ser superestimada. Antonio Candido ajuda a pensar sobre a posição da literatura brasileira, tanto em relação ao que é produzido aqui como as ligações com o que é produzido lá fora. Segundo ele, somos um galho secundário de um galho que já é secundário da literatura européia.

Mas é possível vislumbrar uma mudança?
Há um movimento de busca de mudança, que é animador. Mas ainda não temos nada amadurecido. A busca é preciosa e os críticos precisam estimular isso e não se desentender com os artistas que estão buscando. Um detalhe que ainda não ficou muito claro nas idéias de política cultural de Lukács era a tentativa de atrelar a busca a um certo limite que era dado pelas lutas de classe, pelas condições políticas. Mas, na verdade, esse limite é fixado por nós, senão haverá uma incapacidade de a própria obra se renovar em conteúdo humano e estético.

E.M. Foster conceituava o romance como uma obra de prosa de ficção de não menos de 50 mil palavras. Com isso, ele não delimitava um compasso narrativo que limita o romance a formas congêneres de menor extensão, como o conto e a novela. Não estaria ele reduzindo demais o espaço do romance?
Acho que sim. Veja um exemplo como Balzac, que se abria como delicadeza para o crítico ao dizer: “Veja como sou realista.” Falar sobre o realismo em Balzac é até covardia, fácil demais. Mas ele é campeão em um certo tipo de romance no qual a discussão sobre as palavras não tem tanta importância. Penso no caso de outros, como Kafka, Proust, Thomas Mann: seria discutir o emprego das palavras na narrativa romanesca. O romance também exige uma atenção especial do crítico em relação à linguagem, que não é tão simples como parece, não se apaga diante da força narrativa. Ao contrário, às vezes ela integra alguma coisa nova à essa força da narração.

E qual seria o papel do romance, segundo Bakhtin, na descentralização da linguagem?
Ele traz um problema interessantíssimo. Não sei até que ponto concordo plenamente com a concepção de linguagem de Bakhtin. Acho que sua visão é, em última análise, um tanto romântica. Esse romantismo se expressa de uma maneira estimulante, se esforçando a enxergar a presença de elementos inovadores da linguagem, como na de Dostoievski, que são preciosos. Acho que um crítico, tal como o escritor, pode aproveitar algumas idéias discutíveis de maneira valorosas. Há críticos que teorizam mal mas criticam bem. Assim, Bakhtin estimula a pensar coisas que só ele formula de maneira conseqüente.
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Raio X dos EUA pós-11 de setembro

2008-04-27 - Diário de Pernambuco
Renato L

No mês passado, uma importante revista cultural brasileira publicou um dossiê sobre a vitalidade do marxismo nos Estados Unidos. Parece que a simbiose crescente entre os discursos (e as práticas) dos partidos Democrata e Republicano em um contexto de crise interna e externa abriu uma brecha inédita para as vozes de pensadores radicais de esquerda. É o caso, por exemplo, de Mike Davis, professor do Departamento de História da Universidade da Califórnia, em San Diego.

Os escritos desse ex-militante estudantil dos anos 60 (e ex-motorista de caminhão) sobre a explosão das favelas das megalópoles (Planeta Favela) e as ligações entre fatores econômicos e desastres climáticos (Holocaustos coloniais) tiveram boa repercussão junto à mídia e ao público - inclusive no Brasil. Não é à toa que a Boitempo acaba de colocar nas livrarias Apologia dos bárbaros - ensaios contra o império, coletânea de artigos publicados em revistas e jornais onde Davis disseca os EUA pós-11 de setembro.

Guardadas as proporções, seus esforços no jornalismo guardam semelhanças com as empreitadas clássicas de Karl Marx no gênero, em especial essa magnífica reportagem que é o 18 Brumário de Luis Bonaparte. Também aqui trata-se de organizar uma contranarrativa capaz de desmontar o discurso oficial e lançar luz sobre a complexidade dos processos históricos. O caráter provocador da obra está sintetizado no título, uma saudação aos que são definidos como “bárbaros” pelos ideólogos de um império que espalha sangue e terror com suas missões “humanitárias”.

Mike Davis organiza os textos em cinco capítulos. O primeiro deles trata da campanha eleitoral que terminou com a reeleição de Bush. O segundo fica reservado para a política externa, em especial a Guerra do Iraque. A eleição de Schwarzenegger para governador da Califórnia, a passagem do furacão Katrina por Nova Orleans e as chamas revolucionárias do passado americano servem de mote aos capítulos restantes. O quadro traçado página a página é desalentador: democratas e republicanos igualados na defesa dos incentivos aos ricos, do corte dos gastos sociais e do “governo mínimo”, racismo onipresente no discurso público, limpeza étnica embutida na reconstrução de Nova Orleans e nos muros erguidos contra os latinos, infraestrutura de transporte e educação aos pedaços e por aí vai.

Apologia dos bárbaros traz, ainda, uma seleção de imagens do cartunista Carlos Latuff, cujos trabalhos já foram publicados no Iraque, Palestina, Estados Unidos, Coréia do Sul, Irã e Turquia. Seus traços carregados de ironia complementam as críticas contundentes de Mike Davis às classes dominantes do “império do Potomac”.
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Contra o fascismo americano

2008-04-23 - Carta Capital
Márcia Mendes de Almeida

Nos Estados Unidos ainda se faz um Mike Davis, intelectual de esquerda, com elã, humor e cabedal histórico. Os artigos reunidos em Apologia dos Bárbaros - Ensaios contra o Império (Boitempo, 352 págs., R$ 49), escritos entre 2001 e 2007 em revistas como a New Left Review, entre outras, desnudam com precisão a sinistra histeria e os métodos fascistas redobrados da direita norte-americana, incluindo a incrustada no establishment democrata.

Circunstanciadas são as denúncias, por exemplo, do sórdido sistema penitenciário da Califórnia (um grande negócio). Da obsessiva corrida da era Bush (ou seja, a guerra contra todos, em toda parte e para sempre). Da sanha de reverter o New Deal e, se possível, o século XX inteiro, privatizando o combalido Bem-Estar Social dos EUA. Da expansão urbana que volta a segregar negros e amplia a xenofobia contra o “perigo pardo” (imigrantes hispânicos, legais ou não). Da política de “limpeza étnica” por inércia, em Nova Orleans, conforme o dogma de que tanto a cultura negra urbana quanto a “parda” são patológicas.

Há uma ótima entrevista na qual Davis resume o essencial para uma história mundial do terrorismo revolucionário (1878-1932). Em 2007, Barack Obama, a seu ver um “misterioso fenômeno”, só era passível de ser reciclado como candidato a vice. O autor procura ser um radical rebelde, eqüidistante de ideologias apocalípticas de direita ou de esquerda.

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Retorno ao pêndulo

2008-04-22 - Revista Carta Capital
Antonio Luiz M. C. Costa

Ante a crise, a hegemonia do neoliberalismo se dissolve a olhos vistos

O colunista Martin Wolf, do jornal britânico Financial Times, não mediu palavras. “Recordem a sexta-feira, 14 de março de 2008: foi o dia em que o sonho de um capitalismo de livre mercado e alcance mundial morreu. Por três décadas avançamos na direção de sistemas financeiros propelidos pelo mercado. Com sua decisão de resgatar o Bear Stearns, o Federal Reserve, instituição responsável pela política monetária dos Estados Unidos e principal defensor do capitalismo de livre mercado, decretou o fim de uma era.”

Pode ser exagero dizer que esse fato isolado marca uma virada de 180 graus. Há, sim, como falar de um sinal de uma gradual mudança de curso, quando os EUA tomam providências para ampliar a autoridade do Fed sobre os bancos de investimento e o diretor-gerente do FMI apela aos países ricos para que não se limitem à política monetária e recorram a políticas fiscais anticíclicas. Mas não é de hoje, nem dos últimos meses, que o pêndulo começou a se voltar na direção de maior intervencionismo.

De Margaret Thatcher e Ronald Reagan ao primeiro governo Bush júnior, e ainda mais nos anos Bill Clinton, tais movimentos seriam inimagináveis. Em todo o mundo capitalista, a ordem era reduzir a presença do Estado na economia, principalmente no sistema financeiro. Mas desde que existe o capitalismo industrial há uma espécie de alternância de gerações. De 30 em 30 anos, mais ou menos, trocam-se as posições quanto a essa questão.

Nos anos 1860, o liberalismo selvagem descrito nos textos mais dramáticos de Karl Marx ainda era o dogma do mundo então dito civilizado. Trinta anos depois, várias grandes nações, inclusive EUA, Alemanha e Japão, cresciam por meio do protecionismo, da ajuda estatal à criação de grandes grupos industriais, da construção de impérios coloniais, da regulamentação do trabalho – ou de todas essas coisas juntas – com amplo sucesso. O britânico William Harcourt, líder do Partido Liberal no coração da mais liberal das metrópoles, disse em 1887: “Agora somos todos socialistas”.

Mais uns 30 anos à frente, na década de 1920, a malfadada tentativa de restaurar a ortodoxia liberal e o padrão-ouro após a Primeira Guerra Mundial deu com os burros n’água e acabou em caos econômico, ascensão do comunismo e do fascismo e nova guerra. Nas palavras do economista britânico John Maynard Keynes, foi preciso salvar o capitalismo de si mesmo por meio de vigorosa intervenção estatal, como foi feito a partir dos acordos de Bretton Woods. “Agora somos todos keynesianos”, admitiu Milton Friedman em 1965.

Era verdade, salvo pela excêntrica seita austríaca de Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek, para os quais toda intervenção estatal na economia era anátema. Mas foi na direção destes que o pêndulo oscilou na década de 70, quando as políticas keynesianas concebidas nos anos 1940 se mostraram insuficientes para lidar com os problemas decorrentes da mudança nas correlações de força política e econômica entre as nações e do crescimento da dependência dos países desenvolvidos em relação ao mercado externo.

“O mercado” era então tido como a resposta para praticamente todos os problemas sociais, enquanto o Estado era inerentemente mau, irresponsável e autoritário. Todas as reformas econômicas pretendiam manietar o Estado, retirar-lhe os instrumentos de ação e fiscalização, reduzir impostos e custos trabalhistas e elevar ao máximo a liberdade de comércio e investimento.

Qual o primeiro sinal de virada da maré? A crise asiática de 1997, talvez. Para muitos analistas da época, era o contrário: seria o fim do “capitalismo de cupinchas” dos Tigres Asiáticos, marcado pela colaboração entre Estado e grupos econômicos selecionados como pontas-de-lança do desenvolvimento industrial e a introdução do verdadeiro capitalismo liberal anglo-saxão.

Ao menos o FMI fazia o possível para levar as coisas nessa direção, exigindo desregulamentação e abertura dos governos asiáticos. Alguns não conseguiram resistir e soçobraram na crise, como a ditadura de Suharto na Indonésia. Outros, como a Malásia, apontaram para outro caminho, impondo controles mais estritos ao fluxo de capitais e acabando com a anarquia financeira que provocara o colapso de várias moedas da região e jogara milhões na pobreza em proveito de uns poucos especuladores ocidentais.

Sem serem muito notados pelos analistas ocidentais, fascinados pela ilusão da “nova economia” e pelo admirável mundo novo das empresas pontocom, os principais países asiáticos passaram a controlar mais estritamente as taxas de câmbio e os preços e a acumular divisas em enorme escala, aplicando-as em estímulo ao consumo no Ocidente, principalmente nos EUA, por meio de financiamentos abundantes. Um keynesianismo tácito em escala global, ainda que ninguém lhe desse esse nome.

As tentativas de radicalizar ainda mais o neoliberalismo em escala global começaram sutilmente a ser engavetadas. Um marco foi o fracasso da tentativa da OCDE de aprovar um Acordo Multilateral sobre Investimentos que pretendia abolir todas as restrições aos investimentos internacionais. A proposta morreu em outubro de 1998, com a retirada do apoio dos governos da França, do Canadá e da Austrália. A onda de radicalização neoliberal chegava a seus limites.

Nem todos perceberam. Em maio de 2000, Grover Norquist, líder do Americans for Tax Reform, principal lobista antiimpostos nos EUA, anunciou que sua meta, “ambiciosa, mas razoável”, era cortar o governo pela metade até 2025. “Não quero abolir o governo”, esclareceu mais tarde, “só reduzi-lo até um tamanho tal que eu possa arrastá-lo para o banheiro e afogá-lo na banheira”.

A maior parte dos deputados e senadores republicanos assumiu o compromisso de “não mais impostos” exigido por Norquist. Atendendo a seu programa, Bush júnior, em junho de 2001, fez aprovar – com apoio de Alan Greenspan – um corte de 1,35 trilhão de dólares nos impostos pagos pelos mais ricos, cerca de 6% da Receita Federal.

Pouco depois, vieram os atentados de 11 de setembro. Foram seguidos de brutais aumentos dos gastos militares e da imposição de medidas sem precedentes de vigilância dos cidadãos estadunidenses, incluindo monitoramento de telefones, internet e consultas a bibliotecas. Ao mesmo tempo, o governo dos EUA impôs a seus aliados o controle de fluxos financeiros internacionais – há muito usados pelo crime organizado –, com o pretexto de evitar seu uso para o financiamento do terrorismo.

Ao menos na margem direita, o discurso da obsolescência do Estado caiu no vazio. Longe de encolher, o Estado, no seu aspecto bélico e repressivo, voltou a crescer para dimensões sem precedentes fora de grandes guerras – situação que não era e não é a dos EUA, por mais que a propaganda oficial e oficiosa martele o tema orwelliano da “Guerra contra o Terror”.

Pela escala das despesas bélicas comprometidas ou propostas a partir da invasão do Iraque, esboçava-se um keynesianismo militar, à maneira de Hitler e Mussolini. Mas, se isso desapontou a seita ultraneoliberal dos libertarians, amiga dos paraísos fiscais e avessa ao Estado em todos os aspectos, não incomodou os neoconservadores. Sua preocupação era a liberdade das mercadorias, dos dólares e de seus proprietários, não das pessoas que não os têm. A metade do Estado que pretendiam destruir era apenas a esquerda, isto é, os programas e serviços sociais e previdenciários. Nada jamais tiveram contra a repressão de pessoas físicas despossuídas. Haja vista o crescimento sem precedentes do encarceramento e das restrições aos imigrantes.

O garoto-propaganda do neoliberalismo tardio deixou isso claro. Em 2004, quando o filósofo britânico Alain de Botton, em um documentário sobre seu livro Desejo de Status, lhe perguntou por que o Estado não deveria ajudar os necessitados, Norquist não hesitou: “Porque, para isso, é preciso roubar dinheiro das pessoas que o mereceram e dá-lo a quem não mereceu e isso faz do Estado um ladrão”. Então, imposto é roubo? – perguntou Botton. “Com certeza, se for além do necessário para suprir justiça.” – tascou Norquist, que de outra feita comparara os impostos sobre propriedade ao Holocausto.

Mas os sinais de virada da maré, ainda ignorados no Hemisfério Norte, já eram visíveis nos elos mais fracos do sistema internacional. Na Argentina do fim de 2001, o colapso da conversibilidade foi também o das idéias neoliberais e monetaristas, seguido pela ruptura com os credores internacionais e vigorosa intervenção do Estado na economia.

Meses depois, o fracasso do golpe contra Hugo Chávez, seguido pela eleição de governos de centro-esquerda no Brasil e em vários outros países, revelou o desgaste dos modelos neoliberais em quase todo o continente. A virada autoritária e nacionalista da Rússia após a eleição de Vladimir Putin em 2000, seguida até 2003 pela queda e prisão de alguns dos maiores oligarcas surgidos da privatização dos 90, também apontou na mesma direção. Na China, a partir de 2002, Hu Jintao reconheceu os efeitos prejudiciais da anarquia do mercado no desenvolvimento de seu país e sutilmente voltou a introduzir controles estatais e direitos sociais e trabalhistas.

Nos EUA, o primeiro sinal de que a onda neoliberal encontrava seus limites também na margem esquerda esteve, talvez, nas seqüelas da catástrofe de New Orleans. Depois da passagem do Katrina, Thomas Friedman, insuspeito colunista do New York Times, denunciou a mentalidade egoísta por trás dos cortes de despesas que resultaram na deterioração do sistema de proteção da cidade e na falta de recursos para as vítimas. Fez questão de assinalar que gostaria que Norquist estivesse afogando o Estado em alguma banheira de New Orleans quando as represas se romperam.

Alguns ultraliberais atreveram-se a escrever que, mesmo neste caso, o papel do Estado deveria ter sido apenas proteger as propriedades de saqueadores e não prover auxílio, ou mesmo resgate ou evacuação às vítimas. A resposta da opinião pública foi glacial. A popularidade do governo republicano, já abalada pelo fiasco no Iraque, caiu a profundidades inauditas e não mais se recuperou.

Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia desde 2004, foi dos primeiros, ao menos no lado republicano, a dar-se conta. Eleito com apoio dos neoconservadores, como um cruzado contra os gastos públicos disposto a proteger os bolsos da elite californiana das necessidades dos imigrantes pobres, mudou da água para o vinho depois de novembro de 2005, como registrou Mike Davis em Apologia dos Bárbaros (Boitempo, R$ 49, 352 págs.).

Uma greve de professores, bombeiros e enfermeiras o assediou por todo o Estado, protestando contra as propostas de corte de gastos que seriam levadas a referendo. E, para surpresa do governador, a noite da apuração foi uma catástrofe: suas quatro iniciativas foram derrotadas e as pesquisas mostraram uma queda de mais de 25 pontos em sua popularidade.

Mudou de lado de maneira tão inesperada quanto seu personagem nas seqüelas de O Exterminador do Futuro. Para horror de Norquist e similares, trocou a chefe de gabinete republicana por uma democrata e lançou títulos públicos para financiar 68 bilhões de dólares em escolas, rodovias, canais e energia alternativa, coisa para Keynes nenhum botar defeito. Desafiando Bush júnior, lançou um programa de combate ao aquecimento global. Recuperado, chega às eleições de 2008 como um dos principais esteios do centro republicano e da campanha de John McCain.

O ex-presidente do Fed Alan Greenspan, em defesa do seu laissez-faire, ainda insiste em que não deveria ter tentado intervir para conter a bolha imobiliária, argumentando que não há meio-termo entre repressão dos mercados e liberdade total. Como diz Martin Wolf, favorável a mercados livres sob regras robustas, se as pessoas tiverem de escolher depois desta crise que se anuncia onerosa, optarão pela primeira alternativa.

Republicanos ou democratas, trabalhistas ou conservadores, políticos e economistas dos EUA e demais países desenvolvidos estão cada vez mais conscientes da necessidade de que terão de atuar em conjunto entre si e com os grandes países emergentes, principalmente a China, para administrar a crise, remediar a falta de regulamentação do setor financeiro que a provocou, conter a deterioração dos ecossistemas globais e buscar a cooperação entre Ocidente e Oriente na redução dos desequilíbrios globais.

Logo, logo, alguém dirá: “Agora, somos todos pós-keynesianos”. Ou coisa que o valha. Já em janeiro, Ben Bernanke, presidente do Fed, explicitou que acharia uma boa idéia um pacote temporário de estímulo fiscal. No mês seguinte, aprovou-se um pacote de 168 bilhões em tempo recorde – não outro corte nos impostos dos ricos, mas uma restituição a contribuintes com renda até 75 mil dólares anuais e um subsídio aos isentos. Enquanto isso, nos jornais de negócios, os fundos estatais da China, dos Emirados Árabes e Tigres Asiáticos, antes pintados como conspiradores contra o livre mercado e a segurança do Ocidente, viraram cavaleiros de armadura brilhante prontos a salvar os grandes bancos privados, incapazes de administrar seus próprios riscos.

Mais recentemente, o francês Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do FMI, apelou aos demais governos com recursos para tanto para que não se limitem à política monetária e recorram a políticas fiscais anticíclicas: “A necessidade de intervenção pública na economia está ficando mais evidente”, disse ele ao jornal Financial Times em 7 de abril. Já em setembro de 2007, aliás, quando se apresentou como candidato ao conselho executivo da instituição, citara Keynes na primeira reunião do Fundo, em Bretton Woods, em 1944: “Todas as crianças deveriam receber três presentes ao nascer, um dos quais um casaco multicolorido, como lembrança perpétua de que pertencem ao mundo todo”.

Robert Zoellick, paladino do livre-comércio e da finada Área de Livre Comércio das Américas no primeiro governo Bush júnior, tem agora outra prioridade: como presidente do Banco Mundial, apela aos países desenvolvidos por uma ajuda de 500 milhões de dólares para financiar a compra de sementes em países ameaçados de fome. Strauss-Kahn lembra aos ricos que “não é só uma questão humanitária”. Os desequilíbrios comerciais os afetarão (vários países, da Argentina à China, passando por Egito e Índia, já restringem a exportação de grãos) e “esse tipo de problema às vezes acaba em guerra”.

Já a direita brasileira, embora inclua alguns luminares cuja proporção entre músculos e cérebro é supostamente menos desfavorável que a de Arnie, foi menos perceptiva. Mesmo depois que o governador da Califórnia completara sua pirueta política, continuou a bater nas mesmas teclas e nada aprendeu com a segunda derrota. Pelo contrário, seus porta-vozes acadêmicos esbravejam contra qualquer possibilidade de o Banco Central olhar para além das metas de inflação e seus políticos e comunicadores relançaram o discurso do “Estado mínimo”, no exato momento em que os próprios EUA já lhe encomendavam o caixão.

Mínimo inclusive na grafia, pois a revista que melhor expressa suas posições, além de fazer de cada página um editorial em favor do livre mercado – quando não teorias da conspiração dignas de tablóides mais especializados –, chegou ao preciosismo de passar a grafar “estado” com minúscula, acreditando que com isso “demolirá a noção disfuncional de que se pode esperar tudo de um centralismo provedor”. É um discurso que, para usar uma palavra que lhes é muito querida, já começa a soar, digamos assim, jurássico.

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Pentágono monitora cartunista brasilleiro

2008-04-10 - Blog do Fazendo Média
Marcelo Salles

Escrevo porque precisamos repercutir essa vigilância contra o cartunista Carlos Latuff*. Seus desenhos têm sido cada vez mais utilizados pelas resistências iraquiana, palestina, zapatista e outras que enfrentam o imperialismo estadunidense. Depois de ser ameaçado de morte por um grupo ligado ao Likud, partido israelense de extrema-direita, agora agentes dos Pentágono e do Departamento de Defesa dos EUA estão monitorando seu blog.

É compreensível que Carlos Latuff seja uma preocupação para os espiões de Bush. Sua arte está a serviço da luta antiimperialista e seus traços são capazes de mover exércitos. Não é à toa que o agente do Pentágono tenha acessado diretamente uma determinada charge que incentiva os iraquianos a não obedecer às ordens das tropas ianques – o desenho vem sendo espalhado nos muros de Bagdá (veja aqui a imagem ampliada - o título, em árabe, quer dizer algo como “Não seja um cachorro dos ianques”). Sua imagem de Che Guevara com trajes árabes tem sido sistematicamente espalhada pelas ruas da Palestina; um membro do Exército Zapatista de Libertação Nacional o encontrou na UERJ, no Rio, e agradeceu pelas ilustrações exaltando a guerrilha.

Carlos Latuff, desta forma, globaliza a resistência. Exatamente como previram Milton Santos e Dênis de Moraes: se a opressão é globalizada, o enfrentamento só pode ser globalizado. Assim é que o rabisco de um carioca suburbano vai parar no Oriente Médio. Em entrevista concedida ao Fazendo Media, Latuff garante que não vai se deixar abater pelas ameaças. “Eu dei a minha palavra para um palestino que conheci em Ebrom, seu Adris, eu sempre cito isso. O meu compromisso é com os palestinos, eu não estou preocupado com o que vai acontecer comigo. Não vou mudar em nada a minha rotina, o que eu penso, o que eu faço, vou continuar defendendo, seja no tribunal, seja numa entrevista, sempre estarei defendendo o povo palestino. É mais fácil me matarem do que eu mudar de idéia. Agora, uma coisa que eu acho genial é que não faz diferença eu estar vivo ou morto. Porque os meus trabalhos estão espalhados pelo mundo inteiro, eles não dependem da minha existência”.

O desprendimento do Latuff é comovente, mas nós podemos fazer alguma coisa para protegê-lo. Divulgar as ameaças para nossas listas de contato. Informar a cada conhecido sobre a mobilização da espionagem ianque contra este artista brasileiro. Esta noite entrei em contato com o diretor da Telesul no Brasil, Beto Almeida, que se interessou em divulgar uma reportagem sobre o assunto. Espera-se também que a TV Educativa do Paraná entre na pauta. Se cada um aqui repercutir nos veículos a que tiver acesso e em seus próprios blogs, com certeza Carlos Latuff estará mais protegido. E a resistência, fortalecida!

*O cartunista Carlos Latuff é autor das charges que ilustram a edição brasileira de Apologia dos bárbaros.

Escrevo porque precisamos repercutir essa vigilância contra o cartunista Carlos Latuff*. Seus desenhos têm sido cada vez mais utilizados pelas resistências iraquiana, palestina, zapatista e outras que enfrentam o imperialismo estadunidense. Depois de ser ameaçado de morte por um grupo ligado ao Likud, partido israelense de extrema-direita, agora agentes dos Pentágono e do Departamento de Defesa dos EUA estão monitorando seu blog.

É compreensível que Carlos Latuff seja uma preocupação para os espiões de Bush. Sua arte está a serviço da luta antiimperialista e seus traços são capazes de mover exércitos. Não é à toa que o agente do Pentágono tenha acessado diretamente uma determinada charge que incentiva os iraquianos a não obedecer às ordens das tropas ianques – o desenho vem sendo espalhado nos muros de Bagdá (veja aqui a imagem ampliada - o título, em árabe, quer dizer algo como “Não seja um cachorro dos ianques”). Sua imagem de Che Guevara com trajes árabes tem sido sistematicamente espalhada pelas ruas da Palestina; um membro do Exército Zapatista de Libertação Nacional o encontrou na UERJ, no Rio, e agradeceu pelas ilustrações exaltando a guerrilha.

Carlos Latuff, desta forma, globaliza a resistência. Exatamente como previram Milton Santos e Dênis de Moraes: se a opressão é globalizada, o enfrentamento só pode ser globalizado. Assim é que o rabisco de um carioca suburbano vai parar no Oriente Médio. Em entrevista concedida ao Fazendo Media, Latuff garante que não vai se deixar abater pelas ameaças. “Eu dei a minha palavra para um palestino que conheci em Ebrom, seu Adris, eu sempre cito isso. O meu compromisso é com os palestinos, eu não estou preocupado com o que vai acontecer comigo. Não vou mudar em nada a minha rotina, o que eu penso, o que eu faço, vou continuar defendendo, seja no tribunal, seja numa entrevista, sempre estarei defendendo o povo palestino. É mais fácil me matarem do que eu mudar de idéia. Agora, uma coisa que eu acho genial é que não faz diferença eu estar vivo ou morto. Porque os meus trabalhos estão espalhados pelo mundo inteiro, eles não dependem da minha existência”.

O desprendimento do Latuff é comovente, mas nós podemos fazer alguma coisa para protegê-lo. Divulgar as ameaças para nossas listas de contato. Informar a cada conhecido sobre a mobilização da espionagem ianque contra este artista brasileiro. Esta noite entrei em contato com o diretor da Telesul no Brasil, Beto Almeida, que se interessou em divulgar uma reportagem sobre o assunto. Espera-se também que a TV Educativa do Paraná entre na pauta. Se cada um aqui repercutir nos veículos a que tiver acesso e em seus próprios blogs, com certeza Carlos Latuff estará mais protegido. E a resistência, fortalecida!

*O cartunista Carlos Latuff é autor das charges que ilustram a edição brasileira de Apologia dos bárbaros.

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Abaixo o império americano

2008-04-04 - Valor Econômico
Luiza Mendes Furia

Historiador ataca políticas do seu país.

Neste ano de disputa eleitoral nos Estados Unidos, assim como de crise econômica, é muito esclarecedor este ‘’Apologia dos Bárbaros - Ensaios contra o Império”, do historiador e ensaísta americano Mike Davis, para quem deseja saber a fundo o que ocorre no país cujos governantes, há tempos, tentam submeter o restante do planeta às suas diretrizes.

Partindo do tenivel atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 às torres gêmeas do World Trade Center, o autor, antiimperialista ferrenho, critica tanto a política interna adotada por seu país quanto a externa. São 47 textos escritos de 2001,a 2007, entre ensaios, alguns já publicados na imprensa, e conferências. O livro traz também uma entrevista que Davis concedeu à revista “Radical History”. A edição brasileira tem um bônus: as charges do carioca Carlos Latuff, ele também um critico do imperialismo americano.

O livro “se propõe a celebrar a contranarrativa dos que não pertencem à autoproclamada ‘civilização’ hegemômca (os quais, portanto, inserem-se automaticamente na categoria amorfa da barbárie), os excluídos da nova Roma do Potomac, nas palavras de Mike Davis”, explica Paulo Daniel Farah, professor da Universidade de São Paulo, na apresentação, em que também ressalta: “Nos ensaios, acompanhados de atualizações e comentários reformulados acerca do tema abordado, Davis lança um alerta contra o perigo do popular chavão ‘qualquer um, menos Bush’ e não poupa criticas a republicanos e democratas.”

Assim, a “guerra contra o terror” empreendida por George W. Bush e as intervenções no Afeganistão e no Iraque são alvo do historiador, em especial na parte inicial de “Apologia dos Bárbaros”. Já no primeiro ensaio, a respeito da idéia de que com o 11 de Setembro os EUA “colheram o que semearam” lemos: “As vítimas do massacre do WTC - secretárias, contadores, entregadores de lojas de conveniência,lavadores de janelas, corretores da bolsa e bombeiros - não conceberam ou implementaram nossas políticas secretas, antidemocráticas e criminosas no mundo muçulmano.”

Na seqüência, ele relaciona uma série de arbitrariedades do governo americano no Oriente Médio. ‘'’Made in USA’ é a marca que se vê em alguns dos episódios mais sinistros da história recente nessas terras ancestrais”, constata, mas não atribui toda a culpa ao país. Por isso pergunta: “Quem pode negar que o principal obstáculo estrutural a qualquer tipo de mudança socioeconômica duradoura nessa região é a profana e inexpugnável aliança entre as companhias de petróleo, os fabricantes de armas americanos, o sionismo de direita e as abastadas classes dominantes da península árabe?”

Na segunda parte, Davis, que é professor de História da Universidade da Califórnia, em Irvine, faz um relato impressionante sobre os instrumentos de que a humanidade já dispõe para uma guerra tecnológica, publicado originalmente em 2004 na “Socialist Review” sob o título “War-Mart”: “Os noticiários sem dúvida se concentrarão na parafernália de ficção científica [a ser usada em breve] envolvida -bombas termobáricas, armamento de microondas, veículos aéreos que dispensam controle humano (UAVs), robôs PackBot, veículos de combate Stryker, e assim por diante.”

A guerra, porém, não é tudo. Estudioso também de urbanismo e ecologia, aborda, ainda, a questão do aquecimento global, dos desastres “naturais” - com destaque para a negligência do governo em relação à Nova Orleans destruída pela tempestade Katrina em 2004-, das pandemias, como a de gripe aviária, dos problemas urbanos, do sistema penitenciário - em suma, nada do que é importante escapa de sua análise acurada nem de sua potente metralhadora verbal.

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Todos atrás do dinheiro…sujo

2008-03-23 - O Estado de S. Paulo
Ricardo Lísias

Apologia dos Bárbaros reúne textos de Mike Davis que evidenciam o lado sórdido da política dos EUA.

Depois do indispensável Planeta Favela, a editora Boitempo coloca nas livrarias Apologia dos Bárbaros, reunião de textos combativos do singular sociólogo norte-americano Mike Davis, numa tradução de Francisco Raul Cornejo. São artigos, na maior parte das vezes, curtos, principalmente sobre a vida política norte-americana, evidenciando tudo o que ela tem de mais sórdido e cínico, aliás bastante coisa. Depois da morte de Edward Said, talvez o único par de Davis no campo das idéias seja o do também singular acadêmico Noam Chomsky. Vida longa aos dois!

O primeiro ensaio, para não deixar dúvida do que virá depois, expõe de imediato a honestidade intelectual do autor: “Crimes contra a humanidade não são menos ou mais terríveis quando ocorrem em um arranha-céu de Nova York, em um campo de refugiados palestinos ou em um vilarejo curdo.” O tom do livro é necessariamente indignado, certeiro no alvo e, sempre, cheio de dados e de detalhes constrangedores. A passagem seguinte, muito correta, não deixa dúvidas: “Mas quem pode negar que o principal obstáculo estrutural a qualquer tipo de mudançasocioeconômica duradoura nessa região é a profana e inexpugnável aliança entre as companhias de petróleo, os fabricantes de armas,norte-americanos, o sionismo de direita e as abastadas classes dominantes da península árabe?” Todo mundo atrás de dinheiro, eu complemento, muito sujo.

Entre os tantos, um dos meus textos preferidos é o debate com Tom Frank, cujo assunto principal é a vida eleitoral norte-americana. Com o contexto atual de uma nova eleição, a conversa entre os dois se torna esclarecedora. O desastre de New Orleans, ou talvez seja melhor dizer o crime contra a humanidade, recebe uma análise ácida e solidária. A propósito, um dos charmes dos ensaios é a combinação entre o tratamento cáustico das questões e uma evidente disposição política de expor as estruturas hipócritas que mantêm a ordem dominadora contemporânea. Davis, portanto, transbordasolidariedade ao mesmo tempo em que não esconde a acidez. Ele está em guerra contra o império, não pode diminuir o tom.

Sem dúvida, a melhor parte é a quinta, Velhas Chamas. São textos voltados sobretudo para questões históricas da contracultura norte-americana, a indústria do entretenimento, os movimentos civis e a atividade política do próprio autor. Como abertura, a entrevista Artífices do Terror, sem moralismo, analisa os primeiros atos que vieram a desembocar no que se conhece hoje, dramaticamente, por “terrorismo”. Ninguém gosta muito de falar, mas vamos sublinhar aqui que o de Estado também existe, já que bombas explodem e matam se lançadas das mãos de civis ou de militares. Elas não fazem distinções burocráticas.

Esse trecho do livro talvez tenha me encantado também porque traz visíveis paralelos literários. Artífices do Terror, por exemplo, lembra o fantástico romance Os Demônios, de Dostoiévski. Mais para o final, o ensaio Noites de Tumulto na Sunset Strip, de tom memorialístico, relembra os primeiros anos de militância de Mike Davis na luta pelos direitos civis e pode ser caracterizado, sem medo, como uma excelente peça literária. Um paralelo possível, no caso, é com o romance Os Exércitos da Noite, um dos pontos altos de Norman Mailer, que descreve uma das marlifestações de protesto contra a Guerra do Vietnã no final da década de 1960.

Não estou fazendo comparações à toa: o livro, repito, tem um sentido de solidariedade, o que exige alinhamento de forças. Aqui, vale destacar: Mike Davis está muito bem acompanhado.

Atenta à opção estrutural do autor, a Boitempo tomou uma opção editorial muito feliz e somou aos ensaios do livro um conjunto de cartuns, do artista Latuff. Nos desenhos, a disposição de denúncia de Latuff encontra tradução perfeita em traços firmes e bem definidos, próximos do jornalismo em quadrinhos de, por exemplo, Joe Sacco. Minha charge preferida é a que mostra, no primeiro quadro, uma senhora norte-americana abraçando o caixão do filho enquanto abaixo a mãe iraquiana chora a morte do seu também e, por fim, o filho da mãe responsável pelas outras duas mortes abraça não um caixão, mas um barril de petróleo.

Não faz meu estilo, e muito menos o grau de cinismo contemporâneo o permite, fazer uma apreciação chapa branca. Semanas atrás, para ajustificar sua “santa luta”, esse filho do presidente norte-americano defendeu o uso de “técnicas alternativas” de interrogatório. A gente sabe que o nome mais apropriado disso é tortura. Pois bem, essa resenha se alinha solidariamente aos prinípios de dignidade humana básicos e, portanto, a Mike Davis e coloca Apologia dos Bárbaros na cabeceira.

Ricardo Lísias- é ficcionista, autor de, entre outros, Anna O e Outras Novelas

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Ecologia do medo e epistemologia da catástrofe

2008-03-10 - Revista Cult
Henrique Carneiro

Os três últimos livros de um dos mais importantes marxistas norte-americanos, o urbanista e historiador Mike Davis, traduzidos recentemente no Brasil (Cidades mortas, Record, 2007; O monstro bate à nossa porta: A ameaça global da gripe aviária, Record, 2006; e Planeta favela, Boitempo, 2006), assim como a publicação de um novo, Apologia dos bárbaros: Ensaios contra o império, a sair neste ano também pela Boitempo (com apresentação de Paulo Daniel Farah), mais a reedição prometida para 2008, pela mesma editora, de Cidade de quartzo, são expressões de análises lúcidas e precisas das condições sociais e ambientais que nos esperam no futuro das próximas décadas.

Davis, membro da revista New Left Review, que lecionou planejamento urbano no Instituto de Arquitetura do Sul da Califórnia, e atualmente é professor de História na Universidade da Califórnia, em Irvine, vem tratando nessas notáveis obras de uma análise crítica das condições urbanas contemporâneas. Em Cidade de quartzo (Scritta, 1993), contou a história de Los Angeles, metrópole pósmoderna por excelência, nascida do nada, no deserto, para tornar-se uma cidade para automóveis, espalhada como a mais extensa mancha urbana do mundo. Em Holocaustos coloniais (Record, 2002), analisou as ondas de fome do século 19 e suas relações com o clima, o mercado mundial e as expansões dos impérios europeus na Ásia e África. Em O monstro bate à nossa porta (Record, 2006) e Planeta favela (Boitempo, 2006), se debruçou sobre dois dos mais terríveis cavaleiros do apocalipse: a pobreza e a peste.

É difícil não sentir um arrepio apocalíptico diante dos cenários catastróficos que se combinam: explosão de hiper-urbanização favelizada em megacidades, aquecimento global e pandemia. A fome, a doença, a guerra e a pobreza potencializam-se num complexo espantoso de desastres e tragédias anunciadas.

Ler Mike Davis é uma tarefa indispensável, mas extremamente sombria. O futuro que nos espera será terrível. Um “futuro exaurido”, em que bilhões de seres humanos vão viver amontoados nas maiores cidades que já existiram em um planeta no qual o aquecimento global, a poluição, o extermínio da biodiversidade e demais processos de decadência do século 21 serão anunciados na forma de ondas de calor, incêndios, inundações, pandemias, além, é claro, da violência e da guerra onipresentes.

Um profeta do apocalipse, dir-se-á. E não é para menos, pois como este crítico implacável do capitalismo e do imperialismo analisa em suas muitas obras, “tempos estranhos começam”.

Na turbulência do movimento juvenil dos anos 1960 na Califórnia, Mike Davis, nascido em 1946, tornou-se um jovem ativista da Students for a Democratic Society, a principal organização de política estudantil contestadora, e começou sua trajetória como um dos críticos mais radicais das condições da sociedade contemporânea. Mas, diferentemente da maioria dos jovens rebeldes brancos, que eram de classes médias e abastadas, Mike Davis foi aprendiz de açougueiro e caminhoneiro, antes de tornar-se um professor de planejamento urbano no Instituto de Arquitetura do Sul da Califórnia.

Sua obra já vasta começou com a análise de Los Angeles como a cidade síntese da civilização do automóvel, da especulação imobiliária, da mercantilização da água, da indústria armamentista, do entretenimento e da alta tecnologia, cujo presídio high tech em pleno centro da cidade num edifício de vidro e aço é um símbolo mais significativo que o letreiro de Hollywood. Mais tarde, abordou o fenômeno da cidade contemporânea, em que as megalópoles tornam-se pela primeira vez na história da humanidade o lugar de moradia da maioria da população e a área rural uma zona despovoada em todo o planeta. Essa expansão caótica é um sintoma mais profundo de uma ruptura da civilização humana com a sua interdependência da natureza.

O ponto de convergência da crítica de Davis é a noção de cidade, originalmente vista como um refúgio diante dos perigos da natureza selvagem e que se tornou hoje em dia o centro de todos os pavores e inquietações. A “ecologia do medo” visa compreender como a vida urbana tornou-se tão monstruosa. E não é para menos, já que diante do apocalipse anunciado é preciso cada vez mais pensar uma “epistemologia neocatastrofista para reinterpretar a história ocidental”.

Na tradição do pensamento marxista, a análise das condições habitacionais dos pobres das cidades inglesas foi o ponto de partida de Friedrich Engels, em A condição da classe trabalhadora na Inglaterra (1845). Nos dias de hoje, essa tradição crítica do marxismo em relação à crise urbana refloresce na obra de Mike Davis. Sua perspectiva ambiciosa aponta para a necessidade de uma “ciência urbana realmente unificada”, a qual ainda mal podemos vislumbrar, mas que deveria tentar compreender a dialética entre a “cidade e a natureza”.

A conexão da crítica ao crescente caos urbano com a denúncia da escala gigantesca do ecocídio que está em curso, aliada a uma arguta análise da política interna norte-americana, assim como das relações internacionais, leva Davis a mostrar como a catástrofe da natureza não se separa das condições da exploração capitalista e da dominação imperialista mundial, cujo fundamento é uma doutrina de terror militar.

Para isso, uma boa data a ser lembrada é 10 de março de 1945. O dia do maior morticínio que a humanidade já conheceu no “mais devastador ataque aéreo na história mundial”, quando duas mil toneladas de napalm e magnésio incineraram cerca de um milhão de habitantes de Tóquio.

Esse foi o coroamento (seguido, é claro, alguns meses depois, das bombas atômicas) de uma doutrina militar nascida na GrãBretanha, na década de 1920, quando Churchill era o secretário da guerra. Essa “doutrina Churchill” é a do “bombardeio moral”, ou seja, do terror aéreo contra populações civis. Ele começou a ser praticado no Iraque em 1920, quando a RAF (Royal Air Force) usou, além de bombas, gás mostarda. As populações coloniais foram as cobaias para o aperfeiçoamento do bombardeio terrorista contra civis, “a trajetória até Guernica, Varsóvia, Dresden e Hiroshima começou nas margens do Tigre e nas encostas do Atlas”.

O modelo da guerra pós-moderna, além da supremacia absoluta do poderio bélico e dos bombardeios com “armas inteligentes”, enfrentará a resistência na forma não de exércitos convencionais, mas de milícias travando “operações militares em territórios urbanos”. A insurgência do século 21 também terá como cenário as cidades. A “israelização” das táticas de combate “assimétrico” às milícias insurgentes se aplicará não só ao Iraque ou à Palestina, mas a qualquer rebelião potencial do futuro, com a visão panóptica dos satélites e aviões espiões, com armas eletromagnéticas e de microondas, além das já tradicionais armas nucleares, químicas e biológicas de destruição em massa. Esse cenário sombrio é definido por Mike Davis como “o estado de terror puro e simples: uma Assíria do século 21 com laptops e modems”.

Henrique Carneiro é professor do Departamento de História da USP.

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Ao vencedor, as “fritas da liberdade”

2008-03-10 - Le Monde Diplomatique
José Arbex Jr.

“O Anti-Bush definitivo será inevitavelmente um clone de Bill Clinton, que prometerá a rápida (mas não imediata) retirada do Iraque e a revogação parcial dos egrégios donativos fiscais de Bush para os super-ricos. Além disso, as ‘fritas da liberdade’ poderão voltar a ser francesas, e os aliados poderão ser consultados ocasionalmente a respeito dos alvos a serem bombardeados. O que se afigura até novembro, então, é a desestimulante opção entre o ’superimperialismo’ bushista e o ‘imperialismo normal’ do status quo democrata.”

A análise, feita em 2004 pelo historiador e militante socialista Mike Davis, bem poderia ser aplicada ao atual processo eleitoral estadunidense. Embora o “fator Obama” tenha acrescentado algum suspense à disputa, no essencial é isso mesmo. Tanto Obama quanto Hillary preconizam a volta aos bons tempos de Bill, quando os Estados Unidos podiam bombardear instalações farmacêuticas de países miseráveis como o Sudão, em agosto de 1998, mas mantendo o cândido sorriso de um colegial em paz com a própria consciência.

Se a análise feita por Davis se mantém tão atual e exata quatro anos depois, não é simplesmente porque a medíocre mesmice tomou conta do jogo partidário estadunidense. É, sobretudo, porque Davis tem uma compreensão profunda da história, da política e da cultura de seu país, como pode ser facilmente notado logo no início da leitura dos 47 artigos e ensaios escritos por ele, entre 2001 e 2007, agora reunidos neste livro.

Racismo, desemprego, movimentos da juventude pobre, decadência cultural de uma sociedade corrompida, instituições públicas destruídas pelo neoliberalismo - o texto ácido e muito bem articulado de Davis revela um EUA monstruoso (razão pelo qual, aliás, seus adversários costumam qualificá-lo como “apocalíptico”).

E o leitor ganha uma série e charges feitas pelo premiado Carlos Latuff, sobre os temas abordados por Davis, além de ser esclarecido, em nota de rodapé, sobre o significado da misteriosa expressão “fritas da liberdade”.

José Arbex Jr.
Jornalista, doutor em história social pela USP, professor da PUC-SP

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Afinidades seletivas

Autor(a): Perry Anderson
Prefácio: Emir Sader
Tradutor(a): Paulo Cesar Castanheira
Páginas: 384
Ano de publicação: 2002
ISBN: 85-85934-88-3
Preço: R$ 46,00
Indique para um amigo

Nos textos escolhidos pelo cientista político e escritor brasileiro Emir Sader para compor este Afinidades seletivas, produzidos no período de pouco mais de uma década, Anderson polemiza com as posições de autores tão distintos como Isaiah Berlin (no artigo “O Pluralismo de Berlin”), John Rawls (“Uma Teoria da Injustiça”), Marshall Berman (“Modernidade e Revolução”) e Isaac Deutscher (“O Legado de Deutscher”).

Além destes, ele também ilumina as teorias de Antonio Gramsci (“As Antinomias de Gramsci”), Michael Mann (“A Sociologia do Poder”) e Roberto Mangabeira Unger (“A Política de Engrandecimento”). Anderson nunca evitou enfrentar intelectuais conservadores e, em “A Direita Intransigente no Fim do Século”, polemiza com Friedrick von Hayek, um dos papas do neoliberalismo.

Um dos pontos altos de Afinidades seletivas é o diálogo crítico estabelecido entre Anderson e Norberto Bobbio, incluindo a instigante troca de correspondência entre eles, o que constitui um pequeno “dossiê Norberto Bobbio” dentro do livro. O primeiro texto, “As Afinidades de Bobbio”, foi escrito em 1988 a partir da constatação de que a obra do filósofo italiano era pouco conhecida no mundo anglo-saxão. Anderson também foi motivado pela tradução para o inglês, em 1987, dos dois principais livros de Bobbio: Que Socialismo? (1976) e O Futuro da Democracia (1983).

Também selecionado por Emir Sader para Afinidades seletivas, “O Sentido da Esquerda”, publicado em 1996 por Anderson, é a crítica de uma das mais célebres teses defendidas por Bobbio: Direita e Esquerda - Razões e Significados de uma Distinção Política, lançado durante a campanha eleitoral italiana de 1994, em que ele discute o alegado fim da dicotomia direita x esquerda. O texto provocou um réplica de Bobbio (“No Começo da História”), publicada em 1998, e dois meses depois um tréplica de Anderson, debate incluído na íntegra neste livro.

Em sua apresentação para o livro, Emir Sader lembra que Anderson é herdeiro da riqueza e do rigor da historiografia inglesa. “Aquela de Hobsbawn, de Thompson, de Carr, de Isaac Deutscher, de Maurice Dobb, entre outros, ela mesma a corrente de mais peso dentro do marxismo na segunda metade do século”, escreve ele. “Herdou também a capacidade analítica e crítica do melhor marxismo – de Marx a Gramsci, passando por Lênin, Trotsky, Lukács e Sartre. Soube assim aliar a história à política, a economia à crítica cultural. E este é justamente o filão mais rico do marxismo, como método de desvendamento e de transformação da realidade.”

Sobre o autor
Perry Anderson, nascido em 1938, é um dos mais influentes pensadores socialistas da atualidade, integrante da Nova Esquerda inglesa, no final dos anos 50. Começou a colaborar com a revista New Left Review em 1961, tornando-se seu editor no ano seguinte, cargo que ocupou por duas décadas. A publicação – que rompia com as tradições stalinistas adotadas por grande parte da esquerda na época – não tratava apenas de política, mas editava ensaios sobre cinema, literatura, filosofia e cultura, uma visão pluralista que sempre marcou a carreira de Perry Anderson.

Depois de quase 20 anos afastado, Anderson reassumiu a direção da revista no início de 2000, publicando o editorial “Retomadas”, sobre o neoliberalismo e nova correlação de forças no mundo sob a consolidada hegemonia norte-americana.

As principais obras de Anderson são Passages from Antiquity to Feudalism (1974), Lineages of the Absolutist State (1974),Considerations on Western Marxism (1976), Arguments within English Marxism (1980) e Zona de Conflito (1992), que inclui o célebre ensaio “O Fim da História - De Hegel a Fukuyama”.

Em recente entrevista ao professor Harry Kreisler, da Universidade de Berkeley, parte da série “Conversas com a História”, Anderson falou sobre sua formação intelectual e se referiu aos dois componentes principais do ambiente intelectual em que foi criado: o cultural e o econômico: “Eu tinha uma preferência pela política num sentido um pouco mais tradicional. Os marxistas não eram tão competentes na discussão da vida política em si, não a cultura, não a economia, mas a história do Estado e a das idéias políticas. Eu sentia que faltava alguma coisa nessas duas áreas. E foi nelas que fundamentalmente eu me concentrei”, disse Anderson.

“Se você me perguntar qual a ênfase da minha obra, eu diria que foram as transformações da autoridade política, de um lado as estruturas de Estado, e uma tentativa de vê-las de uma ampla perspectiva internacional e comparativa. E de outro, quais foram os grandes momentos, aventuras e desventuras dos diferentes corpos de idéias políticas que acompanharam essas transformações históricas”, disse o autor.

Em sua trajetória, Anderson nunca deixou de marcar suas posições frente às questões atuais. Nos movimentos antiglobalização ele vê uma forte reação popular às forças economicamente dominantes neste início de século. “As ações em Seattle, em Praga e em Quebec marcam o provável início de uma tentativa, uma tentativa muito consciente dos jovens, dos sindicalistas e outros, dos cidadãos interessados em muitas partes do mundo, de se reunir para tentar dar um basta às operações incontroladas do capitalismo”, afirma Anderson.

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Adoniran

Subtítulo: se o senhor não tá lembrado
Autor(a): Flávio Moura e André Nigri
Páginas: 168
Ano de publicação: 2002
ISBN: 85-7559-018-9
Preço: R$ 30,00
Indique para um amigo

João Rubinato, filho de imigrantes italianos que trocaram o Vêneto pela cidade de Valinhos, poderia ser apenas mais um dos oriundi que ajudaram a formar o perfil da cidade e do estado de São Paulo. Mas por trás desse nome de batismo está a figura de Adoniran Barbosa, talvez o maior sambista e poeta popular da cidade de São Paulo. Compositor de sucessos inesquecíveis como Saudosa maloca, Trem das onze e Samba do Ernesto, Adoniran percorreu uma trajetória que se confunde com a própria história de São Paulo e de seus tipos.

Nas palavras do professor Antonio Candido, em artigo apresentado ao final deste livro, João Rubinato fez muito bem em adotar um pseudônimo, “porque um artista inventa antes de mais nada a sua própria personalidade; e porque, ao fazer isto, ele exprimiu a realidade tão paulista do italiano recoberto pela terra e do brasileiro das raízes européias. Adoniran Barbosa é um paulista de cerne que exprime a sua terra com a força da imaginação alimentada pelas heranças necessárias de fora”.

“A fidelidade à música e à fala do povo permitiram a Adoniran exprimir a sua cidade de modo completo e perfeito”.

Qualquer tentativa de se descrever ou de se entender aquilo que ficou conhecido como a fisionomia paulistana passa necessariamente pela figura de Adoniran. Foi essa tentativa que norteou os dois jovens autores desse perfil. Por trás da história familiar desse filho de imigrantes italianos, das relações de sua obra com o humorismo macarrônico de Juó Bananere e Cornélio Pires, das atividades que desempenhou em trinta anos no rádio, no circo, no cinema e na tevê, reconstroem-se as metamorfoses da cidade de São Paulo.

Tema privilegiado das músicas do sambista, a cidade divide com Adoniran o cenário deste delicioso perfil biográfico que inaugura a coleção Paulicéia. Vinte anos após a sua morte, recompor passagens da vida de Adoniran é uma maneira não apenas de prestar-lhe merecido tributo, mas também de reconstituir um sentido para o anonimato de cada um de nós.

Adoniran: se o senhor não tá lembrado apresenta fotos, caricaturas e imagens da vida e da carreira de Adoniran, além de detalhada discografia do compositor.

Sobre os autores
Flávio Moura nasceu em São Paulo, em 1978. Jornalista e mestre em Letras, colabora em várias editoras de livros, no jornal Valor Econômico e na revista eletrônica Trópico.

André Nigri nasceu em Belo Horizonte, em 1968. Foi subeditor do Suplemento Cultural do jornal O Tempo, de Minas Gerais, e trabalhou no Jornal da Tarde.

Boitempo

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A História vingativa

2003-07-01 - Revista Brasil de Cultura
Danilo Janúncio

Mergulhando fundo no grande número de acontecimentos dos últimos 50 anos, o filósofo Emir Sader, de 59 anos, olhou para a História como sujeito e analisou suas ações e trejeitos mundo afora. Se, por um lado, reconhece-se a hegemonia unipolar do Estados Unidos, por outro, pode-se ver claramente os absurdos que o capitalismo exibe ao explorar em demasia o meio ambiente, a força de trabalho e fazer guerras.

Em seu livro, “A vingança da História”, que está sendo lançado pela Boitempo Editorial, Sader analisa a “desforra” da história, mostrando a falência de determinismos, seja por meio da ação humana, ou em decorrência de fatores distante das mãos do Homem. Pensando o Brasil e o mundo, o filósofo viu que previsões geraram apenas expectativas e frustrações, e sugere que o agente mais importante de mudança no mundo seriam realmente os homens e suas atitudes.

Professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Usp (Universidade de São Paulo) e coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), Sader acredita que, no atual governo Lula, a História vai se vingar daqueles que acham que a continuidade das políticas anteriores vai permitir mudá-las.

Em entrevista à Revista Brasil de Cultura, Sader afirma que o povo votou foi pela mudança e pelo privilégio do social. Para ele, ou o desejo do povo vai acabar se impondo, ou vai levar ao fracasso do governo atual.

Revista Brasil de Cultura - A que se propõe ´A vingança da História´?
Emir Sader - Ele faz um balanço de como anda a História nesse começo de século, partindo das previsões do século passado. A rigor, todas elas deram errado, todas achavam que a História tinha um rumo pré-determinado, pré-definido. Nesse sentido, esse foi o século mais “histórico” de todos, reunindo a maior quantidade de guinadas, especialmente em sua segunda metade. As gerações como a minha, que viveu nesse período em especial, viveu as maiores transformações e reviravoltas de um lado e de outro da História.
Na verdade, a idéia é mostrar que a História não é pré-determinada. Os homens que a definem, junto com fatores externos, através da luta social, política, organizativa, cultural. A História é um processo aberto, a “vingança da História” diz respeito à ação humana, a capacidade de liberdade humana, contra os determinismos.

Como o livro foi organizado?
Emir Sader - A primeira parte trata do período histórico em que vivemos, passando por duas grandes novidades: a nova modalidade de hegemonia imperial americana e o Fórum Social de Porto Alegre, e todo seu processo alternativo. A segunda parte é sobre a América Latina, no começo do século XXI. A terceira, sobre os dilemas do Brasil contemporâneo.

Você poderia citar alguma “vingança” da História contra Brasil nos últimos 50 anos?
Emir Sader - Eu acho que sim, quando se pensou que o desenvolvimento econômico brasileiro levaria ao primeiro mundo e, na verdade, não foi assim. Quando se imaginou que o Brasil ia estabilizar a moeda e com isso ia trazer a felicidade, o progresso, isso deu errado. Eu arriscaria dizer que, agora também, quando se acha que contentar os mercados, que é um comportamento continuísta, do ponto de vista econômico-financeiro, vai trazer resultados positivos para a democracia, para o privilégio do social no Brasil, também vai dar errado. As decisões dos homens, nesse caso através dos governos, é que pode mudar os rumos da História.

Seria uma vingança da História o atual governo?
Emir Sader - Acho que a História vai se vingar daqueles que acham que a continuidade das políticas anteriores vai permitir mudá-las. O povo votou pela mudança, votou pela mudança e pelo privilégio do social, e acho que isso vai acabar se impondo, ou vai levar ao fracasso do governo atual.

Mergulhando fundo no grande número de acontecimentos dos últimos 50 anos, o filósofo Emir Sader, de 59 anos, olhou para a História como sujeito e analisou suas ações e trejeitos mundo afora. Se, por um lado, reconhece-se a hegemonia unipolar do Estados Unidos, por outro, pode-se ver claramente os absurdos que o capitalismo exibe ao explorar em demasia o meio ambiente, a força de trabalho e fazer guerras.

Em seu livro, “A vingança da História”, que está sendo lançado pela Boitempo Editorial, Sader analisa a “desforra” da história, mostrando a falência de determinismos, seja por meio da ação humana, ou em decorrência de fatores distante das mãos do Homem. Pensando o Brasil e o mundo, o filósofo viu que previsões geraram apenas expectativas e frustrações, e sugere que o agente mais importante de mudança no mundo seriam realmente os homens e suas atitudes.

Professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Usp (Universidade de São Paulo) e coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), Sader acredita que, no atual governo Lula, a História vai se vingar daqueles que acham que a continuidade das políticas anteriores vai permitir mudá-las.

Em entrevista à Revista Brasil de Cultura, Sader afirma que o povo votou foi pela mudança e pelo privilégio do social. Para ele, ou o desejo do povo vai acabar se impondo, ou vai levar ao fracasso do governo atual.

Revista Brasil de Cultura - A que se propõe ´A vingança da História´?
Emir Sader - Ele faz um balanço de como anda a História nesse começo de século, partindo das previsões do século passado. A rigor, todas elas deram errado, todas achavam que a História tinha um rumo pré-determinado, pré-definido. Nesse sentido, esse foi o século mais “histórico” de todos, reunindo a maior quantidade de guinadas, especialmente em sua segunda metade. As gerações como a minha, que viveu nesse período em especial, viveu as maiores transformações e reviravoltas de um lado e de outro da História.
Na verdade, a idéia é mostrar que a História não é pré-determinada. Os homens que a definem, junto com fatores externos, através da luta social, política, organizativa, cultural. A História é um processo aberto, a “vingança da História” diz respeito à ação humana, a capacidade de liberdade humana, contra os determinismos.

Como o livro foi organizado?
Emir Sader - A primeira parte trata do período histórico em que vivemos, passando por duas grandes novidades: a nova modalidade de hegemonia imperial americana e o Fórum Social de Porto Alegre, e todo seu processo alternativo. A segunda parte é sobre a América Latina, no começo do século XXI. A terceira, sobre os dilemas do Brasil contemporâneo.

Você poderia citar alguma “vingança” da História contra Brasil nos últimos 50 anos?
Emir Sader - Eu acho que sim, quando se pensou que o desenvolvimento econômico brasileiro levaria ao primeiro mundo e, na verdade, não foi assim. Quando se imaginou que o Brasil ia estabilizar a moeda e com isso ia trazer a felicidade, o progresso, isso deu errado. Eu arriscaria dizer que, agora também, quando se acha que contentar os mercados, que é um comportamento continuísta, do ponto de vista econômico-financeiro, vai trazer resultados positivos para a democracia, para o privilégio do social no Brasil, também vai dar errado. As decisões dos homens, nesse caso através dos governos, é que pode mudar os rumos da História.

Seria uma vingança da História o atual governo?
Emir Sader - Acho que a História vai se vingar daqueles que acham que a continuidade das políticas anteriores vai permitir mudá-las. O povo votou pela mudança, votou pela mudança e pelo privilégio do social, e acho que isso vai acabar se impondo, ou vai levar ao fracasso do governo atual.

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Perplexo mas não resignado

2003-07-01 - Carta Capital
Antonio Luiz M. C. Costa

Como o PT chegou lá sem saber sair do neoliberalismo e construir uma alternativa

O militante, filósofo e cientista político Emir Sader reconhece, na eleição de Lula, a primeira tentativa concreta de ruptura, ainda que gradual, com o neoliberalismo. Ao apontar suas incoerências e a necessidade de novas práticas políticas e teóricas, A Vingança da História tenta evitar que ela seja desperdiçada.

Analisa duas décadas de hegemonia neoliberal e crise do pensamento crítico para apontar, por quê, mesmo na oposição, o PT pareceu aceitar implicitamente o “fim da história” anunciado pelo filósofo norte-americano Francis Fukuyama, a imposição definitiva do liberalismo e a impossibilidade das “grandes narrativas” denunciadas pelo pensamento pós-moderno.

Por falta de uma construção teórica e política global, o partido deixou abrir-se um abismo entre uma visão de resgate social tão ambiciosa quanto alheia à realidade material e uma temática econômica incapaz de ousar ir além das questões conjunturais postas pelo establishment. Varreu para baixo do tapete os conflitos internos que uma estratégia mais coerente poderia explicitar, mas ao custo de uma esquizofrenia que agora cobra seu preço.

Ao mesmo tempo, não se viu, como em outras crises do passado, a vitória eleitoral da esquerda associar-se à mobilização popular, como nos governos de Frente Popular na França, Espanha e Chile que se seguiram à crise de 1929, o que Sader atribui às políticas neoliberais de precarização do trabalho e seu impacto sobre a economia, sociedade, política e cultura.

Viu-se pouca mobilização na última década, salvo pelo MST e algumas lutas reivindicativas dos funcionários públicos. Mesmo estes movimentos decresceram nos anos anteriores à eleição de 2002. Seus vencedores conquistam apenas um frágil consenso passivo.

O PT, já encaminhado a uma linha mais institucional desde o balanço de sua derrota de 1994, só pôde superar o patamar de 30% e absorver os votos liberados pelo desgaste da candidatura de Ciro Gomes, identificada com a “terceira via”, com uma promessa mista entre mudança do governo FHC e continuidade dos seus compromissos econômico-financeiros.

Os elementos de continuidade, não especificados, eram considerados transitórios, mas levaram o governo Lula a privilegiar a defesa contra a fuga de capitais e a inflação e priorizar as reformas previdenciária e tributária, que agradam ao capital financeiro, em detrimento do aprofundamento da democracia e da justiça social. Um sacrifício difícil e que não terá o condão de diminuir o risco Brasil e baixar as taxas de juros por si só, ao contrário do que o governo parece acreditar.

A alternativa seria sair já do modelo econômico atual com medidas como as propostas pela chamada “Agenda Interditada” – baixa dos juros com controle de câmbio –, centralizar as políticas sociais no Ministério do Planejamento e subordinar a política econômica à sua dinâmica. O Conselho Econômico e Social seria o espaço de definição de um projeto nacional e democrático de desenvolvimento e o BNDES o principal instrumento de sua realização, acompanhada de políticas de incentivo, regulação, distribuição de renda e da reconstrução política do Mercosul.

Sader vê como possibilidade o atual quadro do Equador – um presidente eleito, quase simultaneamente a Lula, também com apoio popular e a promessa de ruptura, mas que já coloca em risco a aliança popular que havia estabelecido ao por em prática a continuação e o aprofundamento dos programas existentes – o chamado “efeito Menem”.

Um contra-exemplo é o movimento social boliviano que, organizado no Estado-Maior do Povo, aparece como força eficaz de oposição ao neoliberalismo. Mas o governo brasileiro não conta com um movimento social forte e organizado que, além de pressionar pela ruptura com o modelo herdado, também proporcione o apoio necessário à mudança. São apenas suas próprias dinâmicas contraditórias, a financeira, atualmente predominante, e a social, hoje subordinada, que disputam a definição de seu futuro e caráter.

Como o PT chegou lá sem saber sair do neoliberalismo e construir uma alternativa

O militante, filósofo e cientista político Emir Sader reconhece, na eleição de Lula, a primeira tentativa concreta de ruptura, ainda que gradual, com o neoliberalismo. Ao apontar suas incoerências e a necessidade de novas práticas políticas e teóricas, A Vingança da História tenta evitar que ela seja desperdiçada.

Analisa duas décadas de hegemonia neoliberal e crise do pensamento crítico para apontar, por quê, mesmo na oposição, o PT pareceu aceitar implicitamente o “fim da história” anunciado pelo filósofo norte-americano Francis Fukuyama, a imposição definitiva do liberalismo e a impossibilidade das “grandes narrativas” denunciadas pelo pensamento pós-moderno.

Por falta de uma construção teórica e política global, o partido deixou abrir-se um abismo entre uma visão de resgate social tão ambiciosa quanto alheia à realidade material e uma temática econômica incapaz de ousar ir além das questões conjunturais postas pelo establishment. Varreu para baixo do tapete os conflitos internos que uma estratégia mais coerente poderia explicitar, mas ao custo de uma esquizofrenia que agora cobra seu preço.

Ao mesmo tempo, não se viu, como em outras crises do passado, a vitória eleitoral da esquerda associar-se à mobilização popular, como nos governos de Frente Popular na França, Espanha e Chile que se seguiram à crise de 1929, o que Sader atribui às políticas neoliberais de precarização do trabalho e seu impacto sobre a economia, sociedade, política e cultura.

Viu-se pouca mobilização na última década, salvo pelo MST e algumas lutas reivindicativas dos funcionários públicos. Mesmo estes movimentos decresceram nos anos anteriores à eleição de 2002. Seus vencedores conquistam apenas um frágil consenso passivo.

O PT, já encaminhado a uma linha mais institucional desde o balanço de sua derrota de 1994, só pôde superar o patamar de 30% e absorver os votos liberados pelo desgaste da candidatura de Ciro Gomes, identificada com a “terceira via”, com uma promessa mista entre mudança do governo FHC e continuidade dos seus compromissos econômico-financeiros.

Os elementos de continuidade, não especificados, eram considerados transitórios, mas levaram o governo Lula a privilegiar a defesa contra a fuga de capitais e a inflação e priorizar as reformas previdenciária e tributária, que agradam ao capital financeiro, em detrimento do aprofundamento da democracia e da justiça social. Um sacrifício difícil e que não terá o condão de diminuir o risco Brasil e baixar as taxas de juros por si só, ao contrário do que o governo parece acreditar.

A alternativa seria sair já do modelo econômico atual com medidas como as propostas pela chamada “Agenda Interditada” – baixa dos juros com controle de câmbio –, centralizar as políticas sociais no Ministério do Planejamento e subordinar a política econômica à sua dinâmica. O Conselho Econômico e Social seria o espaço de definição de um projeto nacional e democrático de desenvolvimento e o BNDES o principal instrumento de sua realização, acompanhada de políticas de incentivo, regulação, distribuição de renda e da reconstrução política do Mercosul.

Sader vê como possibilidade o atual quadro do Equador – um presidente eleito, quase simultaneamente a Lula, também com apoio popular e a promessa de ruptura, mas que já coloca em risco a aliança popular que havia estabelecido ao por em prática a continuação e o aprofundamento dos programas existentes – o chamado “efeito Menem”.

Um contra-exemplo é o movimento social boliviano que, organizado no Estado-Maior do Povo, aparece como força eficaz de oposição ao neoliberalismo. Mas o governo brasileiro não conta com um movimento social forte e organizado que, além de pressionar pela ruptura com o modelo herdado, também proporcione o apoio necessário à mudança. São apenas suas próprias dinâmicas contraditórias, a financeira, atualmente predominante, e a social, hoje subordinada, que disputam a definição de seu futuro e caráter.

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A teoria da alienação em Marx

Título Original: Marx´s theory of alienation
Autor(a): István Mészáros
Prefácio: Maria Orlanda Pinassi
Tradutor(a): Isa Tavares
Páginas: 296
Ano de publicação: 2006
ISBN: 85-7559-080-4
Preço: R$ 36,00
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Escrito por István Mészáros na Inglaterra, em 1970, A teoria da alienação em Marx é um profundo estudo sobre os Manuscritos econômico-filosóficos do pensador alemão. Nele, Mészáros analisa com rigor a obra onde o então jovem Marx estabeleceu as bases do seu sistema filosófico.

Nesse sentido, as conclusões do autor vão contra aqueles que dividem Marx entre o “jovem” e o “velho”, mostrando a unidade da sua reflexão e seu projeto intelectual, que une a economia política e filosofia na sua crítica e a necessidade de aliar-se análise e prática política para a superação do capital. Para este objetivo, o autor analisa um conceito fundamental do pensamento marxista: a alienação.

Como coloca Maria Orlanda Pinassi na apresentação do livro: “De modo geral, os que desejam fugir dos problemas filosóficos vitais - e nada especulativos - da liberdade e do indivíduo, se colocam ao lado do Marx `científico`, ou `economista político maduro`, enquanto os que não desejam assumir a implicação prática do marxismo (que é inseparável de sua desmistificação da economia capitalista) exaltam o `jovem filosófico Marx`.”

Mészáros, no seu trabalho, retoma e desdobra os vários tipos de alienação do sistema capitalista. Seus aspectos econômicos, políticos, ontológicos, morais e estéticos, nas relações com o trabalho, na separação entre teoria e prática, entre o homem e a natureza, e considerações sobre a sua superação, além do que o autor chama de ordem sócio-metábolica do capital. O livro traz ainda um capítulo que trata especificamente da crise da educação e sua relação com a alienação.

Vencedora do prêmio Issac Deustcher, escolhida por um júri integrado por Perry Anderson, E.H. Carr, Eric Hobsbawm, Ralph Miliband e Monty Johnstone, esta é a quinta obra de István Mészáros publicada pela Boitempo no Brasil. Como seus outros livros, entre eles O século XXI: socialismo ou barbárie? e O poder da ideologia, traz o trabalho do autor em compreender tanto a essência como a abrangência da dialética, acima de uma concepção rasa e instrumental do marxismo.

Nesse sentido, hoje se percebe como muito mais do que um trabalho de pesquisa isolado, mas como o início de um projeto mais amplo de crítica social desenvolvido por Mészáros, que culminou e se completa em Para além do capital: rumo a uma teoria da transição (Boitempo, 2000). O começo da ampla obra intelectual de Mészáros em analisar, complementar e atualizar a obra e herança de Marx.

Sobre o autor
István Mészáros nasceu em Budapeste, em 1930. Começou a trabalhar aos 12 anos, como operário.Graduou-se em Filosofia na Universidade de Budapeste, onde foi assistente de Georg Lukács no Instituto de Estética em 1951, e onde defendeu sua tese de doutorado em 1954. Com a invasão soviética da Hungria em 1956 exilou-se na Itália, posteriormente trabalhando nas Universidades de St. Andrews (Escócia), York (Canadá) e finalmente em Sussex (Inglaterra), onde em 1991 recebeu o título de Professor Emérito.

Boitempo

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A Revolução de Outubro

Título Original: Oktiabrskaia Revoliutsia
Autor(a): Leon Trotski
Prefácio: Edison Salles
Posfácio: John Reed
Tradutor(a): Daniela Jinkings
Páginas: 152
Ano de publicação: 2007
ISBN: 978-85-7559-103-1
Preço: R$ 29,00
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“A Rússia, ainda nos dois primeiros meses de 1917, era a monarquia dos Romanov. Oito meses mais tarde os bolcheviques apoderaram-se do leme; eles que, no princípio do ano, eram desconhecidos e cujos líderes, no momento mesmo do acesso ao poder, foram acusados de alta traição. Não encontramos na História outro exemplo de uma reviravolta tão brusca, sobretudo se nos lembrarmos de que se trata de uma nação com 150 milhões de habitantes. Claro está que os acontecimentos de 1917 – de qualquer prisma que os consideremos – merecem ser estudados.

Assim Trotski abriu sua monumental História da Revolução Russa, em três volumes, escrita em 1930, quando já não estava no poder. Antes desse grande e completo relato, fez um primeiro esboço – cujo resultado é o precioso livro que as editoras Boitempo e Iskra trazem ao leitor brasileiro no 90º aniversário da Revolução Russa –como introdução ao processo a que Eric Hobsbawm se referiu com estas contundentes palavras: ‘A Revolução de Outubro teve repercussões muito mais profundas e globais que a Revolução Francesa (1789) e produziu, de longe, o mais formidável movimento revolucionário organizado da história moderna.’

Trotski, com a maestria de quem capta a essência do processo histórico, explica esse momento único em que o ‘assalto ao céu’ de que falava Marx se produziu – ou melhor, foi produzido pela combinação das condições concretas e da audácia e do espírito de vanguarda de Lenin e seus companheiros – pela primeira vez como poder proletário. A tomada do poder pelos bolcheviques é descrita por Trotski com perspicácia incomum, no foi condutor que promoveu a ‘atualidade da revolução’ no século XX.

Noventa anos depois da primeira revolta proletária vitoriosa da história da humanidade, quando a própria palavra revolução vem sendo excluída do vocabulário ou se banalizando, a leitura desta obra representa uma excelente contribuição à luta contra o capitalismo – ainda hoje o inimigo central, não apenas do socialismo, mas de toda e qualquer forma de humanismo no planeta.”
Texto de orelha: Emir Sader

A edição conta ainda com uma cronologia sobre a Revolução Russa e a constituição da república soviética, além de um artigo inédito de John Reed, “Os sovietes em ação”, publicado originalmente em 1918 no The Liberator, dirigido por Max Eastman, e traduzido por Beatriz Medina a partir do original em inglês.

Sobre o autor
Leon Trotski nasceu Liev Davidovitch Bronstein, na Ucrânia, em 1879. Foi, depois de Lenin, o dirigente mais importante da Revolução de Outubro. Presidente do Soviete de Petrogrado, em 1917; comissário do povo para Negócios Estrangeiros após a vitória da revolução. Principal organizador e dirigente do Exército Vermelho na guerra civil. Na luta pelos rumos do partido e da União Soviética, Trotski acabou expulso do partido, em 1927, e da União Soviética, em 1929. A mando de Stalin, foi assassinado, em agosto de 1940, em seu exílio no México, dois anos depois de ter fundado a IV Internacional.

Boitempo

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Homem de Idéias 2003

2003-12-27 - Jornal do Brasil
Cristiane Costa e Alexandre Martins

Fundador do PT e atualmente um de seus maiores críticos, o sociólogo Francisco de Oliveira foi eleito porta-voz da frustração que já toma conta do meio intelectual

Polêmico. Assim poderia ser definido o Homem de Idéias 2003. Ele foi um dos intelectuais mais discutidos este ano, quando boa parte da esquerda brasileira se deu conta de que seu projeto político foi para o espaço, justamente no momento em que parecia pronto para se concretizar, com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência e a ampla votação no Partido dos Trabalhadores nas últimas eleições. Revoltado com o que considera uma adesão aos princípios neoliberais e um continuísmo do governo Fernando Henrique, o sociólogo Francisco de Oliveira não se furtou de críticas ao governo e terminou o ano rompido com o partido que ajudou a fundar, em carta aberta que o tornou porta-voz de uma frustração cada vez mais generalizada. ‘’Tenho o direito de cobrar do Partido dos Trabalhadores, pelo governo que ele realiza, pela minha condição de militante e de cidadão. E, daqui por diante, exclusivamente pela minha condição de cidadão. Pois muito além do que imagina e pensa a direção partidária, o PT tem que dar satisfações à cidadania, que lhe deu as condições para disputar democraticamente e chegar ao governo. Falta a essa liderança consciência democrática e republicana, enquanto lhe sobram arrogância, prepotência e maneirismos caboclos de péssima fatura.'’

A polêmica foi também premiada na escolha do Homem de Idéias por um júri formado pelos escolhidos de anos anteriores, como os críticos literários Alfredo Bosi, Antonio Candido e Roberto Schwarz, o arquiteto Oscar Niemeyer, os cientistas sociais Luís Eduardo Soares, José Luís Fiori e Rubem César Fernandes, o psicanalista Jurandir Freire Costa, o filósofo Leandro Konder e o escritor Luiz Fernando Verissimo, entre outros. Se Veríssimo parece concordar com as idéias de Chico Oliveira, destacando sua coerência política e seu posicionamento crítico, outros votantes escolheram o Homem de Idéias 2003 apesar da discordância, como José Luís Fiori, que destaca o papel político desempenhado pelo sociólogo, para depois ressalvar:

- Embora não concorde com todos seus posicionamentos, sua militância, presença intelectual e luta política são inegáveis.
Postura semelhante à do historiador José Murilo de Carvalho, que também votou no sociólogo.
- Pela batalha que está conduzindo pelas mudanças no PT, o Chico de Oliveira merece o título de Homem de Idéias 2003. Isso não implica que concorde pessoalmente com o pensamento dele. Mas sua coragem intelectual e física de criticar o partido intensifica a importância do seu papel na vida pública - afirma.

Pernambucano radicado em São Paulo, Francisco de Oliveira é coordenador do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da USP, onde se aposentou como professor titular de sociologia. Aos 70 anos, Chico conserva o bom humor de um menino. E a capacidade de arrumar briga até com os amigos, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com quem trabalhou no Cebrap, ao lado de outros nomes importantes, como Otávio Ianni e Paul Singer. Fernando Henrique é definido como ‘’ex-sociólogo, hoje ex-presidente e eterno candidato ao Planalto'’ em O ornitorrinco, ensaio publicado este ano pela Boitempo em edição conjunta com Crítica à razão dualista, texto lançado originalmente em 1972.

As críticas que levaram à ruptura com o PT já renderam a Chico vários aborrecimentos, como uma ameaça do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, de processá-lo; a retirada, a pedido da Presidência, de um artigo assinado por ele numa coletânea sobre reforma política e cidadania e o boicote do PT local, que teria chegado a rasgar os cartazes anunciando sua conferência este mês, em Londrina.
- Não sou nenhum herói - avisa Chico. - Mas vejo à minha volta muita decepção e desgosto. Parte da intelectualidade está insatisfeita e gostaria de fazer mais críticas do que tem feito.
Cansado de ser ‘’o chato do PT'’ e com as restrições cada vez maiores ao espaço de discussão nas reuniões, Chico preferiu exercitar a crítica fora do partido a ficar calado.
- A meu modo de ver, o papel do intelectual hoje é o de um crítico. Não devemos fazer concessões nem baixar a guarda. O histórico do século 20 não autoriza nenhum otimismo. Vários partidos de esquerda mudaram de posição quando chegaram ao poder.
Chico já não tem mais as ilusões do rapaz que, em 1979, foi um dos 100 pré-fundadores do Partido dos Trabalhadores, em São Bernardo do Campo. Hoje, vê dificuldades na criação de um novo partido, formado por dissidentes do PT.
- Criar um novo partido não é fácil nem é algo que se faça da noite para o dia. As velhas bases estão em processo de erosão. O movimento sindical está paralisado pelo desemprego. O funcionalismo vem sofrendo um ataque cerrado desde o governo Collor. A reação ainda é fraca. Num cenário como esse, é muito difícil um partido clássico se firmar.
O passado de Chico de Oliveira é o de um típico militante da esquerda. Cursou ciências sociais na Universidade do Recife, trabalhou na Sudene com Celso Furtado (personagem do livro A navegação venturosa, lançado este ano também pela editora Boitempo), foi preso após o golpe de 1964 e amargou um exílio voluntário na Guatemala e no México. Voltou ao Brasil e escreveu vários livros analisando os problemas estruturais do país, como A economia da dependência imperfeita, Os direitos do antivalor, A falsificação da ira, Elegia para uma re(li)gião e O elo perdido, entre outros.
Escritos com 30 anos de intervalo, Crítica à razão dualista (1972) e O ornitorrinco (2003) foram reunidos num único livro por uma razão muito simples: se o primeiro identifica o subdesenvolvimento como produto da evolução capitalista, mostrando que opulência e miséria não eram mais do que frutos do mesmo processo, o segundo mostra o resultado darwiniano dessa combinação de setores altamente desenvolvidos com uma pobreza extrema. Na figura do ornitorrinco, um animal improvável na escala da evolução, meio ave, meio mamífero, Chico retratou o país em que vivemos.
Na escala de evolução do PT, Chico também identifica o surgimento de personagens híbridos, nem lá nem cá.
- Eles são responsáveis pelo partido ter se voltado contra seus eleitores, como no caso da reforma da Previdência. Arrisco dizer que representam uma mudança de classe, que não se enquadra propriamente na dicotomia clássica entre burguesia e proletariado, responsável pelo deslocamento da base petista e pela mudança estrutural das forças que formam o partido.
Sua face mais visível, segundo Chico, seriam os ex-sindicalistas que hoje gerem os fundos de pensão. Numericamente poucos, teriam uma força enorme no governo Lula.
- São os fundos que financiam a acumulação, circulação e distribuição de capitais no país. Mas, ao defender os interesses e promover a rentabilidade desses fundos, estas pessoas passam a exigir coisas que conflitam diretamente com os interesses dos trabalhadores, da base petista, que clama por mudanças - explica o sociólogo.

Já é hora, acredita, de o partido ser cobrado pelo abandono de suas promessas de campanha. Segundo Chico, o PT está escondendo, sob o manto de problemas estruturais do país, escolhas econômicas e políticas que são feitas conscientemente pelo governo. O paradoxo é que a própria vitória da esquerda teria desmobilizado os movimentos sociais que poderiam exigir mudanças.
- O governo operou um seqüestro da sociedade civil. O PT era o centro de referência dos movimentos sociais. Como foi criado a partir deles, quase se confundiam. Por isso o abandono de suas antigas propostas é tão grave.

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Dúbia celebração

2003-10-29 - Jornal do Brasil online
Milton Temer

Bizarra coincidência. Segunda-feira, 27, terminei a leitura de um livro fundamental para o entendimento do pensamento político brasileiro. Para mim, razão de celebração. Mesma data em que, há um ano, Luis Inácio Lula da Silva, também aniversariante do dia, vencia o segundo turno das eleições presidenciais, em sua quarta tentativa. E que deveria, também, ser objeto de celebração.

O livro é “A navegação venturosa”, mais uma tacada da Boitempo, editora paulista que, assim como a Contraponto, do Rio, garante excelência. Trata-se de uma coletânea de ensaios do mestre Chico de Oliveira sobre outro mestre, Celso Furtado, “a quem devemos tudo”, segundo o próprio autor. Não vou comentá-lo em detalhes, porque não é esse o espaço. Mas é importante ressaltar que, longe de apologia incondicional, nos deparamos com uma avaliação também crítica da obra do grande economista e cientista social. E, por isso, a homenagem é insuperável, para além de se constituir em base de reflexão e de imenso aprendizado, para nós todos, simples mortais.

Mas por que me refiro à coincidência de celebrações como bizarra? Por uma razão simples. Tanto Chico quanto Celso, assim como Antonio Candido, foram ícones teóricos do Partido dos Trabalhadores até a vitória eleitoral. Ambos tiveram participação destacada na discussão sobre as prioridades de um governo popular e democrático, e desempenharam papel essencial na mobilização da intelectualidade para o apoio a Lula. O então simples candidato os tinha ao lado sempre que podia.

Hoje, como marca maior deste primeiro ano de governo, estão largados na dispensa das inutilidades. Não são consultados nas tertúlias do Ministério da Fazenda ou do Banco Central. Pelo contrário. São até alvo de desprezo e desconsideração por parte dos burocratas gerados no neoliberalismo predatório dos anos 90, e que lamentavelmente continuam a dar as cartas no governo do agora Presidente Luis Inácio Lula da Silva. Burocratas que, pelas obras de Chico e Celso, certamente passearam muito pouco. O que não surpreende. Pois o que priorizam são os parâmetros determinados pelos famigerados “mercados”, esses espaços privados de operação especulativa dos grandes agiotas, daqui e de fora. E é natural que assim seja. Vindos de onde vieram, e para onde certamente voltarão tão logo terminem o “dever de casa” que trazem do FMI e demais agências internacionais, eles têm outros paradigmas para orientar a determinação de taxa de juros e metas de inflação. Os paradigmas dos estrategistas dos banqueiros, daqui e de fora.

Como conseqüência natural, veneram o “baixo risco Brasil” e a “estabilidade” da financeirização virtual, com a mesma intensidade com que se lixam para os recordes, sempre simultâneos, de desemprego e perda de valor dos salários, na balanço econômico da vida real. São os futuros donos de “consultorias”, os oráculos modernos dos “bons caminhos” de governo, sempre desenhados no rumo exato dos interesses de suas seletas clientelas.

Nesse espaço de formulações sinistras, certamente não há cadeiras para Chico de Oliveira e Celso Furtado. Estes são intelectuais com projeto de nação fundado na valorização da cidadania, na justiça social e na radicalização democrática. Produzem heresias contra todos os dogmas. Ora é Chico, não hesitando em desmistificar o charme dos sindicalistas transformados em banqueiros, e agindo como grandes capitalistas, através do controle dos fundos de pensão; ora é Celso, não temendo pregar a ameaça de moratória como forma mais eficaz de pressionar os que se locupletam com os pornográficos juros e serviços de uma dívida externa nunca auditada.

Evidentemente, para que tais predadores estejam vivendo momentos de gáudio, enquanto grande parte dos eleitores da esperança manifestam crescente perplexidade, há um responsável do lado de cá da cerca. É o presidente Luis Inácio Lula da Silva. É ele quem determina os rumos e opções da macroeconomia, e que mantém esta já insustentável submissão ao continuísmo de um projeto rejeitado. E só ele, portanto, pode ser o agente da mudança. Se é que isso ainda é possível, não seria mal que alguém com influência no Palácio viesse a sugerir convite a Chico de Oliveira e Celso Furtado para um desses cineminhas no Planalto. Ou trazer Lula para o lançamento do livro, que une os dois dia 4, aqui no Rio. O contágio virtuoso só traria benefícios.
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Estado de exceção permanente

2007-12-01 - Le Monde Diplomatique
Plínio