Arquivo de 11 de Julho de 2008

O Teatro perde Paulo Autran

2007-10-13 - Último Segundo
Michel Fernandes

SÃO PAULO – Um homem de teatro, sem fronteiras na arte do palco. Tradutor, adaptador, diretor, produtor, enfim, pela palavra de todos os amigos e aqueles que, de certa forma, se dedicam ao oficio teatral, Paulo Paquet Autran, nascido no dia 7 de setembro de 1922, foi verdadeiro fomentador do fazer teatral.

“Se a gente tiver do teatro uma pequena parte do que o Paulo teve, se dermos ao teatro algo de tanto o que ele deu… Fecha o pano. Abre o pano. Hoje cada metro de tablado desse país range o nome Paulo Autran”, disse emocionado o ator Gustavo Machado, que vivia o filho de Autran em O Avarento, de Molière, direção de Filipe Hirsh, 90º e último trabalho do ator nos palcos.

Apesar de parte do público, e me coloco entre esses, conhecê-lo depois de Pai Herói (de Janete Clair) e Guerra dos Sexos (de Sílvio de Abreu) em que, ao lado de Fernanda Montenegro, realizou um dos melhores desempenhos jamais visto em nossas telenovelas, orgulhava-se de bradar que sua origem eram os palcos teatrais, e, realmente, trabalhou pouquíssimo na televisão e fez alguns – nem por isso pouco relevantes, como Terra em Transe, de Glauber Rocha – trabalhos em cinema.

Generosidade

Adjetivo que apareceu em todos os entrevistados sobre a morte de Paulo Autran, generosidade transparece em sua conduta como artista que, conforme notifica Otávio Martins, “sempre fez questão, e esse é um dos legados que levarei para sempre em minha carreira, de trabalhar com excelentes profissionais, conhecidos pela mídia ou não, importando apenas a excelência de seu trabalho”, e que, conforme toda classe artística presenciou esteve em sua incansável presença em muitos dos espetáculos que podia assistir, mesmo que de artista sem muita experiência.

Para o dramaturgo e jornalista Sérgio Roveri, “o Paulo Autran era um dos artistas mais generosos que já conheci. Se interessou pela minha carreira como dramaturgo, leu todos os meus textos e assistiu a todos os espetáculos que escrevi”.

Otávio Martins disse que, quando fez a leitura de Vestir o Pai para Paulo Autran estava muito nervoso e o “generoso” ator acalmou-o dizendo que não se cobrasse a perfeição já que todos os humanos, ele (Paulo Autran) inclusive, errava. Segundo Martins a “humildade” era a marca mais representativa do ator.

Um Homem de Teatro

Há alguns anos, quando li Paulo Autran, Um Homem no Palco, livro em que Alberto Guzik (Editora Boitempo) faz entrevista minuciosa sobre a carreira de Paulo Autran tive a dimensão da obra desse artista, não apenas no que diz respeito a uma interpretação vibrante e inteligente, daquele que compreende os meandros do papel que interpreta, ou destreza vocal, capaz de dedilhar versos da potência de Fernando Pessoa com a mais singela evolução e incomparável clareza de dicção, percebi que além de um dos nossos melhores atores de todos os tempos, Paulo Autran dignificou-se como Homem de Teatro, levando pelos quatro cantos do país sua arte teatral e deixando a todos que alcançou apaixonados, porque sua paixão extravasava de seus poros e se alastrava em todos nós, pelo Teatro.

Emocionado, depois de dar seu adeus a seu Mestre na Assembléia Legislativa de São Paulo, o ator Otávio Martins confirmou que a característica de ser um Homem de Teatro era sua lição apregoada aos que tinham fome pelas artes cênicas.

“O Paulo me disse para produzir, dirigir, interpretar, escrever e sempre me cercar, ao máximo, de bons profissionais. Disse, também, para eu sempre buscar novos desafios. Desde que trabalhei com ele minha vida profissional mudou”, completou Otávio.

Não Morto, apenas Encantado

A atriz Soraya Saíde, da primeira geração dos Doutores da Alegria, hoje treinadora de novos Doutores, disse que o “Paulo Autran mantinha uma relação com o personagem que interpretava e com o teatro inspiradora”.

E acredita que, haja vista a comoção de toda a classe teatral com sua morte, “ao invés de morto, ele está Encantado”.
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ISTVÁN MÉSZÁROS E SUA ARDOROSA DEFESA DA HUMANIDADE

2007-11-01 - Rveista Cult
Ricardo Antunes

O filósofo marxista István Mészáros é um autor referencial para tantos que lutam contra a lógica destrutiva que preside o mundo contemporâneo. Aluno e colaborador direto do filósofo húngaro G. Lukács, com que trabalhou diretamente na Universidade de Budapesp, na primeira metade dos anos 1950, tornou-se, dentre todos os antigos colaboradores de Lukács, o que mais efetivamente contribuiu para a realização de uma obra original, crítica e devastadora em relação às tantas mistificações hoje presentes.

Mészáros iniciou sua vida como operário na Hungria. Quando chegou à Universidade, destacou-se pelo brilhantismo, competência e radicalidade. Sempre calibrando a atuação na Universidade com as necessidades vitais da humanidade e a busca de sua transformação, tornou-se desde logo um espírito anticapitalista excepcional. Dotado de erudição enciclopédica, domina economia política, filosofia e teoria social como poucos. Sua obra dialoga criticamente com toda a produção relevante neste século, navegando dos clássicos aos contemporâneos, dotado de uma força invejável.

Uma breve passagem por sua ampla produção seria bom exemplo. Mas basta dizer que seus livros Marx’s Theory of Alienation (1970), The Power of Ideology (1989) e Beyond Capital (1995) – todos publicados pela Boitempo – apareceram em diversos países, do Norte ao Sul do mundo, incluindo a China, a Índia, o Japão, Oriente Médio, sendo inúmeras vezes reedidada.

István Mészáros é Professor Emeritus da Universidade de Sussex (Inglaterra). Trabalhou também em universidades na Escócia, Itália, Canadá, México, sendo que sua obra ecoa em várias partes do mundo, despertando sempre crescente interesse. Seria impossível, nesta breve nota sobre sua trajetória, falar de tantas teses e proposições que marcam a empreitada de István Mészáros. Destaco, então, três teses, das mais originais em seu pensamento.

Em Para Além do Capital empreendeu uma crítica devastadora às engrenagens que caracterizam o sistema do capital. Desde logo o autor, fortemente inspirado em Marx, em contraste com a totalidade da literatura sobre o tema, diferencia capital e capitalismo. O primeiro antecede ao capitalismo e é a ele também posterior. O capitalismo é uma das formas de realização do capital, a forma dominante nos últimos três séculos. Mas, assim como existia capital antes do capitalismo, há capital após o capitalismo (o que o autor denomina como capital pós-capitalista), vigente na URSS e demais países do Leste Europeu, durante várias décadas deste século XX. Estes países, embora pós-capitalistas, foram incapazes de romper com o domínio do capital.

Isso porque, para Mészáros, o sistema de metabolismo social do capital tem seu núcleo central formado pelo tripé capital, trabalho assalariado e estado, três dimensões fundamentais e inter-relacionadas, sendo impossível superar o capital sem a eliminação do conjunto dos elementos que compreende este sistema. Não basta, portanto, eliminar um ou mesmo dois dos pólos do sistema do capital, mas é preciso eliminar os seus três pólos. E essa tese tem uma força explicativa que contrasta com tudo que se escreveu até o presente, sobre o desmoronamento da URSS.

Segunda tese: sendo um sistema que não tem limites para a sua expansão, o capital acaba por tornar-se incontrolável e essencialmente destrutivo. A produção e o consumo supérfluos, a destruição ambiental em escala global, o desemprego e a precarização do trabalho, ambos estruturais, para não falar da política bushiana da “guerra permanente”, são exemplares. Expansionista, destrutivo e, no limite, incontrolável, a forma dominante do sistema do capital é, então, a da crise endêmica, cumulativa, crônica e permanente, o que (re)coloca, como imperativo atual, frente ao espectro da destruição global, a alternativa socialista. Mais um claro contraste com quase tudo que conforma a mesmice do pensamento dominante.

Terceira tese: qualquer tentativa de superar este sistema de metabolismo social que se restrinja à esfera institucional e parlamentar está fadada à derrota. Só um vasto movimento de massas, radical e extraparlamentar, pode ser capaz de destruir o sistema de domínio social do capital e sua lógica destrutiva. Os exemplos aqui são abundantes e bastaria lembrar a derrota cabal do PT e seu governo.

Muitas outras teses poderiam ser indicadas, mas o espaço aqui não permite. Fique a sugestão para que os jovens aceitem o convite para ler uma das obras mais originais, instigantes e críticas, elaboradas por um autor assumidamente de esquerda, neste período que (quase) se parece com o tempo das trevas. Até porque, conforme o sugestivo título do novo livro de István Mészáros - O Desafio e o Fardo do Tempo Histórico - a humanidade não tem mais muito tempo pela frente…
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Honestidade e retórica no retrato de uma relação

2007-10-28 - Estado de S. Paulo
Ricardo Lísias

A editora Boitempo acaba de publicar um livro precioso: O Universalismo Europeu - A Retórica do Poder (144 pags.,R$ 27), de Immanuel Wallerstetn. Apesar do assunto difícil, a maneira com que o discurso político justifica o uso da força e as conseqüências que ela pode levar, o texto é claro, agudo e muito direto. Wallerstein elege o termo “universalismo” e seus derivados como centro para a análise e procura, então, compreender quais os significados que ele foi recebendo Ao longo dos anos e pelas diferentes formas de organizar e impor o poder.

Cada um dos capítulos gira em torno de uma hipótese semântica: primeiro, a que discute o discurso em torno da expressão “direitos humanos”, que serve como inspiração para ações incontornavelmente justificadas,como o ideário das grandes organizações não-governamentais (como. a Anistia Internacional e os Médicos Sem Frontéiras) e, ao mesmo tempo, estampa escandalosamente afrontas a honestidade, como as escaladas militares que abateram o mundo nos últimos anos; depois, Wallerstein examina de onde pode ter surgido a hipótese de superioridade do Ocidente sobre outras culturas, utilizando como base a obra de Edward Said para, então, chegar ao debate sobre a chamada “verdade científica” .

Cheio de exemplos contemporâneos,o autor vai direto ao ponto: como justificar diversas intervenções militares que, no discurso, pretendiam restabelecer o que chamam de “direitos humanos” se elas mesmas desrespeitam a carta da ONU? O caso da invasão do Iraque, ainda em curso, é notável. Wallerstein, obviamente, aponta para o sentido catastrófico do governo de Sactdam Hussein, mas do mesmo jeito nota que, para a população, a vida depois da chegada do exército da “coalizão” piorou muito.

O Universalismo Europeu, além das qualidades que já apontei, tem também o enorme diferencial de oferecer caminhos. Um deles seria a “inspiração” oferecida pelo magnífico estudos sobre orientalismo de Edward Said. Mostrando a maneira como o Ocidente construiu o sentido que lhe interessava para enxergar algumas sociedades orientais, sem ter o menor conhecimento sobre elas, Said pratica o saudável exercício de desmistificar discursos que parecem certeiros como os mísseis que matam milhares de civis pelo mundo afora. A essa altura do livro, já sabemos que o significado de “universal” aparece colado a interesses os mais diversos, normalmente voltados para a força impositiva do poder político.

O terceiro capítulo, o mais intrigante dos três analisa como a chamada “verdade científica” foi aos poucos dominando o imaginário e se afirmando como o único discurso realmente decodificador do mundo. O senso comum parece hoje verdadeiramente convencido da possibilidade de expressar a “verdade” da ciência, sem observar que, de fato, a atividade científica contemporânea, voltada quase exclusivamente para o desenvolvimento tecnológico, está bastante de acordo como mais nítido neoliberalismo - ou capitalismo hiperselvagem, para ser mais claro. Wallerstein não cita, mas um evento contemporâneo derruba qualquer pretensão à verdade do discurso científico: há poucos meses,umgrupo de astrônomos notáveis se reuniu para discutir o estatuto de Plutão. A decisão final foi tomada por votação. Ora, se a questão resolveu-se (e eu aposto que provisoriamente, pois tudo no discurso científico é provisório) através de uma eleição, é fácil ver que se trata de um fato político. Ciência é política, sejamos diretos. A conclusão do livro é imediata: o uso da força bruta não funciona. Wallerstein propõe uma alternativa aos sentidos desgastados do universalismo contemporâneo. Para ele, é preciso resgatar o termo ligando-o a uma possível “multiplicidade de universalismos”.em que diferenças não apenas sejam respeitadas, mas possam conviver.

Por fim, vale observar que, indiretamente, diversas observações do livro servem para pensar também a posição brasileira no cenário internacional. Totalmente corroídos pelo trator do capitalismo mais violento e explorador possível-e já mergulhando no bu~ raco que essa mesma exploração cava - seria algo inteligente observar se de fato ocupamos algum tipo de lugar privilegiado, como a classe política defende, mesmo no contexto regional, para almejar liderar qualquer coisa, desde blocos econômicos até tropas armadas. Não deixa de ser meio bizarro que o Brasil, ocupando um lugar notavelmente baixo em qualquer tabela de desenvolvimento ou distribuição de renda, queira reproduzir a exploração que sofre das nações poderosas.

O livro de Wallerstein está empenhado em encontrar possíveis caminhos. O bom leitor logo observará que existe um sentido oculto no texto. Não vou revelá-los, mas posso dar uma pista:quem distribuir exemplares desse livro para os amigos, estará colaborando para tornar os sentidos do mundo um pouco mais humanos e, de resto, provará ser um leitor empenhado. É desse tipo de intervenção que precisamos.
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Para reunir filosofia e ciência

2007-08-25 - Zero Hora

O sociólogo americano Immanuel Wallerstein é o próximo conferencista do ciclo Fronteiras do Pensamento, promoção da Copesul Cultural, em Porto Alegre. Pesquisador da Universidade de Yale e um dos destacados críticos da globalização capitalista e da política internacional dos Estados Unidos, Wallerstein discute nesta entrevista, concedida por telefone, em inglês, alguns de seus temas de pesquisa, como a divisão das ciências e o legado de Marx. Não haverá conferência do Fronteiras do Pensamento na próxima semana. O encontro com Wallerstein ocorre em 4 de setembro, no Salão de Atos da PUCRS, às 20h, com a participação do professor de Filosofia Nelson Boeira, da UFRGS. Os ingressos já estão esgotados.

Cultura - Em um artigo cujo título faz a pergunta “A Índia Existe?”, o senhor afirma que a História é uma construção: “O historiador inventa a história assim como um artista inventa um quadro”. A partir dessa perspectiva, qual a importância do fato?

Wallerstein - Claro que o fato é uma construção. E a principal questão aqui é: o que é o fato real? Esse é o problema: o fato real não existe. Existe um número infinito de fatos, nós selecionamos alguns e dizemos que são fatos. Quem faz essa seleção? Como faz? Sabemos que mesmo historiadores muito competentes discordam profundamente sobre alguns fatos. Os fatos estão lá, eles são também criações. Nós não abordamos toda a história do universo quando escrevemos História, selecionamos o que nos parece fazer sentido. E chamamos isso de fatos. Pegue alguns livros de História do Brasil e verá que esses livros discordam sobre como determinados fatos ocorreram.

Cultura - O senhor afirma que nenhum pensador pode manter um pensamento intacto cem anos depois, e que, em 1948, Marx teria escrito O Manifesto Comunista de forma diferente daquela feita em 1848. Marx é ainda visto por muitos pesquisadores como um tipo de profeta que prenunciou o futuro. Qual o valor de Marx hoje?

Wallerstein - Marx, obviamente, sendo um homem inteligente, escreveria de forma diferente 150 anos depois. Marx foi um pensador significativo, que teve enorme influência, e muitas de suas análises ainda hoje se mantêm. Não todas. Eu mesmo escrevi vários artigos sobre como se lê Marx. Muitas das pessoas que o vêem como profeta na realidade não o leram. Quando você o lê de perto, entende melhor o que ele pensava, e não o que dizem que ele pensava. Marx é muito importante ainda hoje, mas o que temos de pensar dele é que ele era alguém que sabia o que sabia no século 18, teve pensamentos importantes, mas não sabia o que aconteceria nos séculos 20 e 21.

Cultura - Qual o papel do nacionalismo e das religiões no fortalecimento das instituições democráticas contemporâneas?

Wallerstein - O nacionalismo é muito forte atualmente em todo o mundo. Mas sua relação com o fortalecimento da democracia depende muito das circunstâncias. Democracia é um conceito escorregadio, mais ainda do que nacionalismo. A religião é um modo de expressão política em vários países, mas não em todos. Por exemplo, não creio que a religião tenha o papel de uma força significativa na França atualmente. Não conseguimos explicar a vida na França a partir das instituições religiosas. Não estou certo sobre o quanto a religião é forte no Brasil, historicamente um grande país católico. Há movimentos católicos importantes no Brasil, mas as igrejas protestantes, e esse é um fenômeno importante, é preciso analisar por que cresce, qual seu impacto. Se olhar para o Estado brasileiro, vejo os partidos disputando poder, em sucessivos regimes, e o papel da religião me parece bastante limitado para explicar o que ocorreu nos últimos 50 anos. Então, não diria que é uma força política forte, embora tenha importância por influenciar a vida de milhões de pessoas.

Cultura - Qual o maior desafio para a ciência social na atualidade?

Wallerstein - Acredito que o mais importante para o mundo do conhecimento hoje é superar a separação entre a chamada filosofia e a ciência. Temos de reunificar o conhecimento, conceitualmente e epistemologicamente. É um enorme desafio, mas é o mais essencial para o desenvolvimento das Ciências Sociais, Ciências Naturais e as chamadas Humanidades.

Cultura - Com isso, o senhor quer dizer que as ciências devem dialogar entre si?

Wallerstein - Antes do início do século 19, ninguém acreditava que havia uma significativa diferença entre o que hoje chamamos de filosofia e o que hoje chamamos de ciência. A distinção entre as duas formas de compreender o mundo, filosoficamente e cientificamente, é uma criação do início do século 19, e não é muito saudável. Nos legou danos enormes, mas foi institucionalizada nas universidades. E o grande desafio atualmente da filosofia e da ciência é superar essa separação.

Cultura - Qual a vantagem?

Wallerstein - A vantagem é a realidade. Essa distinção é artificial.

Para não ficar boiando No mesmo dia de sua conferência em Porto Alegre, o sociólogo americano Immanuel Wallerstein participa de uma sessão de autógrafos também no Salão de Atos da PUCRS, às 22h. O Universalismo Europeu - A Retórica do Poder é a obra do pensador que está saindo pela Boitempo Editorial. Em 144 páginas, o autor discute o discurso dos poderosos para justificar ataques a outros países e as contradições das chamadas intervenções humanitárias - entre elas, a missão do Brasil no Haiti. A apresentação é de Luiz Alberto Moniz Bandeira. Wallerstein é autor também de Impensar a Ciência Social - Os Limites dos Paradigmas do Século XIX (Editora Idéias e Letras). Neste volume, ele reúne uma série de textos, debatendo, entre outros temas, o pensamento de Karl Marx, os conceitos de tempo e espaço e o legado do historiador Fernand Braudel. “Impensar”, segundo o sociólogo, equivale a submeter a uma revisão radical a maioria dos pressupostos que hoje constituem a base das perspectivas dominantes. Wallerstein rejeita, aí, a idéia de progresso como um movimento irreversível e linear.

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Em busca do genuíno universalismo

2007-08-18 - O Globo
Rachel Bertol

Immanuel Wallerstein (1930) é professor de sociologia da Universidade de Yale e lança no Brasil “O universalismo europeu – A retórica do poder” (Boitempo). O autor irá a Porto Alegre em setembro para participar, no dia 4, do ciclo de palestras “Fronteiras do Pensamento”. Não será sua primeira vez na capital gaúcha, onde já participou do Fórum Social Mundial, ao qual faz referência nesta entrevista exclusiva. O americano tem muitos outros livros publicados no Brasil, como “O fim do mundo como o conhecemos” (Revan) e “Capitalismo histórico e civilização capitalista” (Contraponto). Ele conversou com o GLOBO por telefone, de sua casa nos EUA

GLOBO: Não acha que há excesso de teorias, hoje, que soam apocalípticas?

IMMANUEL WALLERSTEIN: Digo, em diferentes livros, que o sistema mundial hoje existente está terminando, não que é o fim do mundo. Estamos num período de transição do qual sairemos em 30 ou 50 anos num tipo muito diferente de mundo. Não se trata de apocalipse. Até pode ser, nunca se sabe. Em todo caso, não tenho como objetivo ser apocalíptico, mas analítico. O sistema atual vive uma crise estrutural, e as pessoas se perguntam o que vai substituí-lo. Agora, temos de tomar grandes decisões. Vivemos numa economia capitalista por 500 anos, algo que começou numa parte do mundo e se estendeu para todo o globo e funciona muito bem segundo seus próprios critérios, mas atingiu seu limite de funcionalidade. Em “Utopística - Ou as decisões históricas do século XXI” (Vozes) trato da questão. Podemos substituir o atual sistema por outro com alguns de seus elementos básicos - como desigualdade, polarização, exploração - ou por outro relativamente democrático e igualitário. Depende de nós. A decisão será o resultado da ações de todas as pessoas em todos os lugares nos próximos anos. De forma simplificada, chamo isso de luta entre o espírito de Davos e o de Porto Alegre, em referência aos fóruns mundiais. Há duas visões terrivelmente diferentes do tipo de mundo a construir. Enquanto isso, há uma situação caótica difícil de se viver, com desastres militares, ecológicos, econômicos. Tudo é terrivelmente incerto e flutua muito mais.

O GLOBO: Essas duas visões de mundo não seriam, ainda assim, um tipo de universa/ismo europeu?

WALLERSTEIN: Fui muito especifico no livro ao apontar o universalismo europeu em contraste com o universalismo universal. Não sugiro que o universalismo não seja possível, mas até agora não atingimos nenhum universalismo. O universalismo europeu é uma retórica dos poderosos no mundo, não um genuíno universalismo. Foi isso que tentei ilustrar, no livro, ao retomar o clássico debate entre Bartolomé de Las Casas e (Juan Ginés de) Sepúlveda, no século XVI. Foi lá que se estabeleceram as linhas de visão entre os dois pontos de vista. Desde então, nada houve de novo sobre a questão. Os argumentos de 2007 ainda refletem exatamente essas duas visões de mundo. É óbvio, todo mundo tenta falar em tom universalista. Mas, por que algumas pessoas, em alguns países, ou alguns governos têm o direito moral político de intervir em outros países por causa de terríveis coisas que alegadamente lá acontecem? Mais do que o direito moral, eles têm a obrigação moral de intervir. Esta é a posição de Sepúlveda. Para isso, ele dá quatro argumentos: que os outros são, de alguma forma, bárbaros; que violam os chamados valores universais; que é preciso proteger os inocentes que lá moram; e, finalmente, que é preciso difundir os valores universais. É exatamente o que diz George W. Bush. Las Casas responde a isso. Em primeiro lugar, diz que é preciso investigar cada uma das decisões, a fim de não provocar mais mal que bem com a intervenção. Diz para ser cuidadoso, prudente, auto-analítico. Estão sendo menos bárbaro que os ditos bárbaros? Vidas de inocentes serão salvas de fato? Estamos discutindo isso hoje. No livro, busco mostrar como essa retórica de poder foi usada ao longo dos séculos.

O GLOBO: Há poucos dias anunciou-se, para o Sudão, a maior missão de paz da história da ONU. O que acha?

WALLERSTEIN: É difícil. Toda solução política é difícil. Foram 40 ou 50 anos para dar mais ou menos jeito na Irlanda do Norte. Não houve solução para o conflito entre israelenses e palestinos, que dura muito mais tempo e causou bem mais dor que Darfur A razão que alegam para enviar tropas é que o governo sudanês é tido como fraco. O governo resistiu, com medo de que se repetisse lá o caso do Iraque, mas, finalmente, houve um compromisso político de enviar, num primeiro momento, uma quantidade limitada de tropas, sob certas condições. A resolução do Conselho de Segurança parece-me razoável. Há incertezas, mas não sou contra pois tentam uma solução política.

O GLOBO: Não foi o caso do Iraque…

WALLERSTEIN: O Iraque foi um desastre, um absoluto desastre, para o país, para o Oriente Médio e os EUA. Fui contra a entrada das tropas e acho que devem deixar o país amanhã, porque sua presença torna as coisas piores. Estragos foram feitos: a infra-estrutura iraquiana foi destruí da; a estrutura política precisa ser reconstruída do nada. Tínhamos um país relativamente seguro, com economia relativamente saudável, e havia um ditador, Saddam Hussein era terrível, mas não é a única pessoa terrível do mundo. Não tornamos as coisas melhores tirando-o do poder.

O GLOBO:Como vai acabar?

WALLERSTEIN: Com as tropas americanas sendo expulsas pelos iraquianos. Até lá, mais gente vai morrer. Pode-se dizer que a violência aumentará quando os americanos deixarem o país, mas não está diminuindo com nossa presença.

O GLOBO: Que comparação pode-se fazer com o Vietnã?

WALLERSTEIN: É muito simples. Quando quando as tropas americanas foram derrotadas no Vietnã havia um vencedor, uma organização forte. Agora, não há um único grupo que controla a situação. É muito pior para os americanos, muito, muito pior. Há uma resistência múltipla, com muitas facções. Já o Partido Comunista vietnamita controlava a situação. Davam ordens que eram obedecidas.

O GLOBO: O lraque é simbólico da nova era em que vivemos?

WALLERSTEIN: Certamente simbólico, e também uma grande virada. Se os americanos foram ao Iraque com a expectativa de restabelecer sua hegemonia mundial, estavam totalmente errados. O poder político americano no mundo diminuiu enormemente. Trata-se de uma importante virada, porque os EUA não estão em posição de restabelecer seu poder, isso é uma ilusão absoluta. Os EUA encontram-se em sérias dificuldades, de ordem econômica, política, cultural, em termos da opinião pública mundial, e mesmo em dificuldade militar. A guerra no Iraque demonstrou que mesmo tendo um incrível arsenal de armas, que supera o de todas as potências, trata-se de algo inútil. O Iraque é relativamente pequeno e está dividido entre si, mas não se consegue controlar a situação, nem fazer uma ocupação bem-sucedida, não se consegue vencer. Não basta ter aviões, tanques, bombas. Deve-se ser capaz de enviar as tropas, vencer politicamente e ter apoio em casa. O que não acontece. Os americanos ficam felizes ao aplaudir a vitória, mas não de ver vidas irem para o ralo. Retiraram o apoio ao governo nessa questão, de forma dramática. Os EUA têm suas mãos amarradas porque tentaram fazer algo impossível, que piorou a situação. E voltamos ao universalismo europeu, porque o Iraque é um exemplo perfeito. Achamos que Saddam e seu povo eram bárbaros, que havia inocentes sendo prejudicados e queríamos difundir democracia, ou seja, os valores universais estavam em xeque. Então, fomos lá melhorar a situação. Mas, como Las Casas teria observado, fomos lá e pioramos as coisas.

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O capitalismo como escola da expansão

2007-08-04 - Jornal do Brasil
Luiz Alberto Moniz Bandeira

Ao lado de Noam Chomsky e Pierre Bourdieu (1930-2002), Immanuel Wallerstein destaca-se, como um dos maiores críticos da globalização capitalista e da política internacional dos Estados Unidos. Após começar com pesquisas sobre a África, ele se voltou, desde os anos 1970, para o estudo da macro-economia mundial. Em sua importante obra - The Modern World-System (1990), publicada originalmente em três volumes em 1974, 1980 e 1989, Immanuel Wallerstein defendeu a tese de que não existe Terceiro Mundo, pois há uma unidade no sistema capitalista mundial, caracterizado pela contradição entre o trabalho e o capital, cuja acumulação se processa principalmente entre os Estados-nacionais e no qual a força de trabalho, recursos naturais, terra etc. perdem seu próprio valor intrínseco e se convertem em mercadorias, cujo valor de troca é o mercado que determina.

O sistema capitalista mundial, segundo Wallerstein, tem suas raízes na Europa e na América do século XVI, quando começou a formar-se o mercado mundial e se estabeleceu a divisão internacional do trabalho. A capacidade de acumulação de capital na Inglaterra e França então possibilitou a expansão global das relações de intercâmbio econômico e, no século XIX, tanto a potências industriais quanto as nações e regiões agrícolas, as economias naturais e pré-capitalistas, já estavam virtualmente integradas nesse sistema. Esta concepção, defendida por Wallerstein e fundamentada essencialmente na teoria de Karl Marx, coincide com a de Rosa Luxemburg e León Trotsky, para os quais a economia mundial é um todo, uma realidade viva, poderosa, razão pela qual o socialismo, como conseqüência do desenvolvimento capitalista, só é possível como ordem econômica internacional.

Decerto, o sistema capitalista mundial, tanto em termos econômicos, sociais, políticos e culturais, é muito heterogêneo e nele coexistem os diversos estágios da civilização, acumulação de capital e poder político. E Wallerstein sustenta que tais diferenças não decorrem do atraso de certas regiões em relação a outras, mas do próprio caráter do sistema mundial, ao qual é inerente a desigualdade entre centro, periferia e semi-periferia, em virtude da divisão do internacional trabalho, que se processou ao mesmo tempo em que formava o mercado mundial. O centro caracteriza-se pelo seu progresso tecnológico e a periferia é região que fornece matérias-primas, produtos agrícolas e força de trabalho barata para os investimentos de capital. O intercâmbio econômico entre periferia e centro é, por conseguinte, desigual, uma vez que a periferia tem de vender barato suas matérias primas e produtos agrícolas e comprar caro as mercadorias produzidas pelo centro do sistema, desequilíbrio este que tende a reproduzir-se, embora mutações históricas possam geralmente ocorrer. A semi-periferia é constituída por uma região de desenvolvimento intermédio, que configura uma periferia para o centro, mas um centro para a periferia. Em outra de suas obras – The Decline of American Power – Immanuel Wallerstein salienta que o centro (o Norte) não é um bloco unificado, que a Europa e o Japão não mais podem ser considerados vassalos dos Estados Unidos, nem também a periferia e a semi-periferia, porque há muitos grandes Estados, como Rússia, China, Índia, Brasil, Indonésia, Coréia e outros que possuem poder geopolítico potencial. Ele prevê ainda que a habilidade de manter-se o dólar como única real moeda de reserva pode subitamente chegar a um fim, mas dada a enormidade da dívida dos Estados Unidos, qualquer colapso da crença na estabilidade de sua economia pode provocar a rápida retirada do dinheiro estrangeiro dos investimentos naquele país e criar em uma simples ação um tri-monetário sistema de reserva mundial. Este sistema tri-monetário seria provavelmente formado pelo dólar, euro e yen.

Immanuel Wallerstein, em O universalismo europeu: A retórica do poder (obra que a Boitempo lança no Brasil, com a presença do autor) desdobra, em outro nível, sua concepção do sistema capitalista mundial, mostrando que o universalismo das potências industriais dominantes, por ele caracterizado como “universalismo europeu”, sempre foi parcial e distorcido, promovido por líderes intelectuais pan-europeus, que buscam defender os interesses de suas classes dirigentes. E sustenta, com razão, que a história do moderno sistema capitalista mundial tem sido, em grande parte, a história da expansão dos povos e dos Estados europeus pelo resto planeta, por meio da conquista militar, exploração econômica e injustiças em massa, sob o argumento mais comum de que tal expansão disseminou ou dissemina “algo invariavelmente chamado de civilização, crescimento e desenvolvimento econômico ou progresso”. Esta sua observação faz lembrar a famosa obra de Domingo F. Sarmiento – Facundo – Civilización y Barbárie – em que ele caracteriza a guerra civil na Argentina entre unitários e federalistas, após sua independência, como a luta da civilização contra a barbárie. Civilização era o código ideológico, que significava, no século XIX, a expansão do capitalismo, destruindo as economias não-capitalistas e pré-capitalistas ainda existentes na Argentina e em outras regiões da América do Sul.

Em meio ao processo de globalização, as grandes potências tratam de redimensionar o papel do Estado e outra vez desenvolver no Direito Internacional novo conceito de soberania, e justificar o direito de ingerência, não mais com base nas fronteiras ideológicas, mas a pretexto de defender a democracia, o Estado de direito, direitos humanos etc.. A tese da soberania limitada assim se conjuga com a teoria do direito de ingerência, sustentada por alguns professores e políticos europeus e americanos. O próprio secretário-geral da ONU, Kofi Annan, defendeu, em 1999, a limitação da soberania em favor dos direitos humanos. E, em janeiro de 2003, o embaixador Richard N. Haass, diretor do Policy Planning Staff, do Departamento de Estados, declarou que um dos mais significativos desenvolvimentos das décadas passadas foi a emergência de um consenso global (consenso naturalmente entre os Estados Unidos e as grandes potências industriais da Europa) de que a soberania nacional “is not a blank check”. Conforme acentuou, “soberania não é absoluta, é condicional”, e quando Estados violam os mínimos padrões da civilização, cometendo, permitindo ou ameaçando intoleráveis atitudes contra eu próprio povo ou nações, “alguns dos privilégios da soberania são confiscados”3. Também Dominique de Villepin, em março de 2003, no Instituto de Estudos Estratégicos, em Londres. assinalou que a Guerra do Golfo teria aberto caminho à consolidação do droit d´ingérence humanitaire, que teria motivado as operações de paz da ONU na Somália, Haiti, Ruanda, Bósnia, Timor Leste e Serra Leoa. Entretanto, o próprio Villepin reconhece que os limites do conceito de ingerência humanitária foram “progressivamente aparecendo”, em função das críticas sobre sua “parcialidade” formuladas por “potências emergentes”. E um relatório publicado apresentado à ONU pelo Canadá, em fins de 2001, vestiu o direito de ingerência com a doutrina da “responsabilidade de proteger”, i. e., o Estado estrangeiro deve proteger outra nação e o princípio da não-intervenção cessa, sobre-passado pelo princípio da responsabilidade coletiva da comunidade internacional, quando o outro Estado colapsa (”state failure”) mostrando-se incapaz de evitar que nação sofra “serious harm”, em caso de guerra civil, insurgência e repressão.
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Comentários

É possível ser não-orientalista?

2006-12-11 - Correio Icarabe
Arlene Clemesha

Immanuel Wallerstein, sem dúvida um dos principais autores da ciência da história-mundo, foi alvo de críticas de Edward Said, junto com Braudel e Perry Anderson, devido àquilo que seria a tendência desses autores “evitar a relação entre o imperialismo europeu e seus conhecimentos relacionados”, notadamente o Orientalismo. Especificamente, Said diria que “nas premissas metodológicas e na prática da história mundo – ideologicamente antiimperialista – pouca ou nenhuma atenção é dada às práticas culturais, como o Orientalismo ou a etnografia, afiliadas ao imperialismo” (veja “O Orientalismo reconsiderado” de E. Said).

Dialogando ou não com Said (impossível determinar), Wallerstein, em O Universalismo Europeu: a retórica do poder , livro lançado recentemente pela Boitempo, desenvolve sua visão do sistema capitalista no nível, justamente, das idéias que acompanharam e justificaram a sua expansão mundial. Ao fazê-lo, analisa a relação entre o universalismo parcial e distorcido das potências dominantes, que ele chama de Universalismo Europeu, e a relação deste com o Orientalismo; preenche a lacuna apontada por Said, e, mais do que isso, aponta para o problema da superação do Orientalismo, rumo a um “universalismo mais universal”.

Na análise de Wallerstein do discurso da dominação, encontra-se que no cerne da relação entre o poder dominador e sua retórica justificadora estaria o que o autor chama de orientalismo em seu sentido amplo: a tendência a essencializar certas características particulares dos “outros”, descritos em seus moldes “civilizacionais” (acompanhada, se quisermos, da universalização dos valores das camadas dominantes dos interventores, justificando sua dominação).

Isso ajuda a entender a construção das inúmeras justificativas morais da intervenção, que na prática sempre foi um direito apropriado pelos fortes: a lei natural e o cristianismo no século XVI, a missão civilizadora no século XIX e os direitos humanos e a democracia no final do século XX e início do século XXI. Com efeito, enquanto no século XVI a principal consideração era se o país ou povo era cristão, hoje a principal consideração é se eles são ou não “democráticos”. Os argumentos básicos, em todos os casos, são os mesmos: a barbárie dos outros, o fim de práticas que violam os valores universais, a defesa de inocentes em meio aos cruéis e a possibilidade de disseminar valores universais.

Como demonstra Wallerstein nesse livro, a disciplina acadêmica do Orientalismo, especificamente, trouxe versões mais sutis das velhas assertivas do colonialismo espanhol e português. Seus estudos de caso não seriam mais os chamados povos primitivos, mas “civilizações” que, no entanto, não pertenciam ao cristianismo ocidental. O Orientalismo apresentaria a noção de que as “civilizações orientais”, apesar de culturalmente ricas e sofisticadas -portanto, em certo sentido, iguais à “civilização cristã ocidental”- continham um defeito pequeno mas importantíssimo: algo que as tornava incapazes de avançar para a “modernidade”. A decorrência lógica disso seria a disseminação da idéia de que apenas com a ajuda do mundo ocidental, o Oriente poderia romper os limites que sua própria civilização lhe impusera, cultural e tecnologicamente. A dominação ocidental, não obstante temporária e transitória, seria essencial para o progresso do mundo.

Mas se os valores dos interventores, tidos como universais, não passam de criação social dos estratos dominantes do sistema-mundo específico em que vivemos, então, nas palavras do autor, não há nada tão etnocêntrico, tão particularista quanto a pretensão ao universalismo, o qual teríamos que ultrapassar rumo a uma coisa muito mais difícil de obter: o “universalismo universal” que depende, em primeiro lugar, da recusa das caracterizações essencialistas da realidade social, da capacidade de ver “com olhos extremamente clínicos e bastante céticos todas as justificativas de ‘intervenção’ dos poderosos contra os fracos”. Segundo Wallerstein, estamos em uma época de transição, em que “a luta entre o universalismo europeu e o universalismo universal é a luta ideológica central do mundo contemporâneo e o resultado será fator importantíssimo para determinar como será estruturado o sistema-mundo futuro”. Com isso, Wallerstein lança ao leitor o desafio, qual seja, a necessidade de chegar a um ponto de encontro entre o dar e o receber (de percepções, análises, declarações de valor). Em outras palavras, fica a indagação central do livro “é possível ser não-orientalista?”.

Arlene Clemesha, historiadora e autora de “Marxismo e Judaísmo”. Traduziu para o português o livro “Freud e os Não-Europeus”, de Edward Said.

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O fim da hegemonia americana?

2008-01-05 - Jornal do Brasil
Rodrigo de Almeida

Os Estados Unidos fracassam no Iraque, vêem ruir muito de sua credibilidade, enfrentam dificuldades políticas e econômicas crescentes, têm perdido a capacidade de intervenção unilateral e assistem, inquietos, a um retorno da geopolítica das nações, com focos claros de resistência, nacionalismos e disputas hegemônicas em quase todas as regiões do planeta.

Um espanto. Fim da hegemonia americana? Não. Um não categórico, segundo expressa o cientista político José Luis Fiori no livro O poder global e a nova geopolítica das nações, um lançamento da Boitempo. Na soma dos 50 artigos sobre conjuntura internacional que Fiori reúne - todos publicados nos últimos oito anos em jornais e revistas - resta o balanço de que os Estados Unidos seguem em frente, e de maneira expansiva, com uma estratégia imperial, anterior a eleição de George Bush e reiterada nos programas de todos os candidatos à sucessão americana. Apesar das dificuldades.

Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e respeitado analista internacional, Fiori põe lentes críticas não só sobre essa estratégia, mas sobre as idéias, vindas da esquerda, de que no século 21 estaríamos nos deparando com o fim da hegemonia americana. Trata-se de uma divergência - teórica, não conjuntural, ele trata de esclarecer - com os sociólogos Giovanni Arrighi e Immanuel Wallerstein, dois dos mais badalados pensadores de certa esquerda mundial. Ambos sustentam a hipótese de que o sistema mundial moderno requer a existência de potências hegemônicas, capazes de manter a ordem política e o bom funcionamento da economia internacional.

Estados soberanos

Segundo tal teoria, o líder surge na história como uma resposta funcional ao problema da ingovernabilidade do sistema - anárquico por si, uma vez que é formado por Estados nacionais soberanos. Para Fiori, essa teoria não consegue dar conta do movimento contínuo de competição e expansão dos Estados e economias nacionais que já conquistaram a condição de grandes potências e fazem parte do núcleo central de todo o sistema, mas seguem competindo entre si. Da crítica à teoria, Fiori chega ao conceito de “poder global”, o eixo condutor do livro.

Poder global, entenda-se, significa não uma entidade ou uma instância mundial particular, mas o movimento e as contradições que movem o sistema. Esse poder global impede qualquer governança global ou paz perpétua, imaginadas por alguns. Um universo em contínua expansão, que cria, simultaneamente, ordem e desordem, paz e guerra. Se impossibilitou a existência de um império mundial, lembra ele, não impediu a oligopolização do poder e da riqueza internacional nas mãos de um pequeno núcleo de grandes potências.

Desordem e guerra

Na definição de Fiori, o que ordena e estabiliza esse sistema não são os hegemons mas a existência de “eixos conflitivos crônicos” e a possibilidade permanente de guerra. O sistema, escreve, não acumula poder e riqueza sem a competição das nações e não se estabiliza sem as guerras. Desordem, guerras e crises são, portanto, não um anúncio do fim, mas uma parte necessária do movimento de expansão do sistema mundial.

A saber. No Oriente Médio, a intervenção no Iraque criou um novo eixo de poder xiita e deu força à pretensão hegemônica regional iraniana. Na Europa, a situação é menos conflitiva mas, segundo Fiori, é “indisfarçável” o aumento da resistência ao unilateralismo americano.

Resistência global

Da América Latina, embora não haja na região nenhuma disputa hegemônica clara entre os seus Estados nacionais, vêm alguns dos principais focos de resistência global, inclusive mostrando uma notável multiplicidade de caminhos - o new deal keynesiano de Kirchner, na Argentina, o capitalismo desenvolvimentista com inclusão social, de Lula, no Brasil, e o “socialismo do século 21″, de Chávez, Morales e Correa, na Venezuela, Bolívia e Equador. No Leste Asiático, há uma competição explícita pela hegemonia regional, envolvendo China, Japão e Coréia.

Com evidências extraídas dessas regiões, Fiori afirma que está cada vez mais difícil para os Estados Unidos manterem a ordem e impor suas posições dentro dos territórios periféricos. Mais: foi a estratégia expansiva americana que incentivou, por exemplo, a transformação asiática que hoje lhe escapa ao controle. Sempre com um olho no presente e outro no passado, Fiori faz também suas projeções para o futuro. Uma delas diz que o “centro nevrálgico da nova competição geopolítica mundial envolve pelo menos duas potências”, Estados Unidos e China, ambas “cada vez mais complementares do ponto de vista econômico e financeiro” e “indispensáveis para o funcionamento expansivo da economia mundial”. Apesar da complementaridade, ressalva, trata-se de uma relação que envolve a preparação permanente para a guerra. Riscos à vista. Sempre.

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Não basta louvar

2008-01-11 - Folha de S. Paulo
Oscar Niemeyer

O projeto que fiz do memorial de Luís Carlos Prestes é, a meu ver, obra tão especial que vale a pena explicá-la um pouco

Hoje, lembrado os dias de folga que o fim de ano nos assegura, sinto que alguma coisa me foi possível realizar.

Não tinha nenhum programa preestabelecido. O meu aniversário, uma semana antes, havia sido muito movimentado, e centenas de amigos me procuraram para me abraçar na casa das Canoas. O meu desejo era evitar tudo isso, e festejar um centenário me parecia pesado demais. Não que o passado me entristecesse, mas como me revolta lembrar as velhas amizades perdidas para sempre…

Como eu esperava, os amigos insistiram e acabei ficando o dia todo por lá, onde, sem festa nem música, atenderia os que aparecessem. E, passado tudo isso, foi no meu apartamento de Ipanema que me deixei ficar, um pouco cansado do que ocorrera, mas surpreso ao constatar que, como se tivesse estado no escritório, havia projetado o memorial de Prestes e lera dois livros extraordinários.

O primeiro é uma novela do poeta português Manuel Alegre, “Cão como Nós”, que muito me comoveu. Uma história simples de um cachorro que acompanhou o seu narrador por muitos anos e que com ele se entendia tão bem que só faltava falar. É nessa procura de comunicação, de se compreenderem melhor, que o texto se desenvolve -em linguagem de qualidade literária tal que não raro pedia a Vera, minha mulher, para repetir trechos pelo prazer de os ouvir outra vez.

O outro livro, que recebi de presente do meu amigo Fernando Balbi, é uma coletânea de artigos de José Luís Fiori (”O Poder Global”), tão atualizados e esclarecedores que todo jovem brasileiro deveria conhecê-los. Fiori expõe sua posição progressista sobre as contradições do mundo globalizado e a onda neoconservadora que cresce por toda parte, com forte apoio do governo norte-americano.

Mas não foi só a leitura que me ocupou, mas principalmente o projeto que fiz do memorial de Luís Carlos Prestes, a ser construído no Sul do país. É, a meu ver, obra tão especial que vale a pena explicá-la um pouco.

Um trabalho que não se baseou, como de costume, num programa construtivo, mas na idéia de criar um elemento principal e único: uma parede que, cheia de curvas e retas inesperadas, atravessando em diagonal um retângulo de vidro do edifício (de lado a lado), possa lembrar aos visitantes as etapas fundamentais da vida desse grande brasileiro. A fachada simples e retilínea de vidro do edifício marcaria, com a parede interna tão movimentada, o contraste que a boa arquitetura procura muitas vezes exibir. Junto da entrada, a parede com textos e imagens começa a mostrar aos visitantes os inícios da vida de Prestes, quando, oficial do Exército, era incumbido de acompanhar obras em construção no Rio Grande do Sul -aí surge, já com 26 anos, severo como sempre foi, Prestes a reclamar da maneira pouco correta com que os trabalhos estavam sendo desenvolvidos.

Não recebendo resposta às denúncias que fazia, foi pouco a pouco sentindo que uma solução burocrática a nada conduzia, mas que os problemas do país tinham de ser resolvidos por meio de uma revolução. E a Coluna Prestes apareceu naturalmente como a única maneira de enfrentar as questões políticas e sociais existentes.

Passo a passo, os visitantes vão tomando conhecimento dessa marcha extraordinária, da coragem desse grupo de patriotas a resistir por tanto tempo às forças repressivas. Logo em seguida, Prestes é obrigado a se exilar -na Bolívia e, depois, na Argentina, seguindo mais tarde para a União Soviética, quando, já sintonizado com o pensamento de Marx, dá à revolução um sentido mais amplo e universal.

A parede vai se escurecendo e, num ambiente mais fechado e sombrio, aparece o período da prisão, em que ele permanece nove anos incomunicável. E, como para agravar tanta tristeza, em 1936, sua mulher, Olga Benário, presa e grávida, é enviada criminosamente a um campo de concentração na Alemanha, onde seria morta numa câmara de gás em 1942; sua filha, Anita, após grande campanha internacional desencadeada pela mãe de Prestes, é afinal entregue à avó. Quanta maldade! Impressionados com tanta violência, os visitantes param consternados; é a luta política com seus momentos de glória e horror. A guerra acabara. Vitoriosos, os soviéticos entram em Berlim. Um clima de otimismo se espalha. No Brasil, Prestes é anistiado, e o Partido Comunista Brasileiro conquista a legalidade. É a época dos grandes comícios, da campanha pela Constituinte.

A parede vermelha, que, de acordo com os acontecimentos, vai mudando de cor, escurece outra vez. Diante dela, comovidos, os visitantes constatam que o momento de euforia passara. Em 1947, o TSE cancela o registro do PCB e, a seguir, cassa os mandatos dos parlamentares comunistas -entre eles, Prestes. Era a reação anticomunista que recomeçava, implacável. Prestes passa a atuar na clandestinidade. Com o golpe militar de 1964, seus direitos políticos são cassados. A história caminha para o fim. Atentos, os visitantes seguem o relato emocionante. Começa um novo exílio, que se estende até 1979; de volta, apóia as Diretas-Já, solidarizando-se com a candidatura de Tancredo Neves. O tempo passa e, altivo e corajoso como sempre, vem a morrer em 1990; postumamente, Prestes é anistiado pelo Exército e promovido a coronel.

Como arquiteto, vejo, satisfeito, que meu projeto vai contribuir para manter viva a memória de Luís Carlos Prestes, um brasileiro que lutou em favor de seu povo, contra a miséria e a desigualdade social que, infelizmente, ainda persistem em nosso país.

Reli este texto e sinto que não basta louvar o passado. O importante é continuar essa luta por um mundo melhor que o império de Bush procura em vão obstruir.

Oscar Niemeyer, 100, arquiteto, é um dos criadores de Brasília (DF). Tem obras edificadas na Alemanha, Argélia, EUA, França, Israel, Itália e Portugal, entre outros países.
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O novo mosaico global, visto por Fiori

2007-10-19 - Le Monde Diplomatique
Antonio Martins

Estará nas livrarias a partir de 24 de outubro Poder Global [1], livro mais recente do cientista político José Luís Fiori. Coletânea de cinqüenta artigos produzidos desde 2001, a obra traz também um prefácio inédito, que condensa, em pouco mais de vinte páginas, pontos teóricos que estão por trás de todas as análises, mas foram sistematizados nos últimos anos. Poder Global mergulha o leitor nos grandes movimentos geopolíticos que já marcam este século, e o estimula a refletir sobre eles. De quebra, ajuda a combater dois raciocínios igualmente esquemáticos: por um lado, a crença num declínio inevitável do papel dos Estados Unidos. Por outro, a idéia de que hegemonia – norte-americana ou de qualquer outra potência — significa poder quase-absoluto. Em importante aporte teórico, expresso no prefácio, Fiori demonstra que, no chamado “sistema mundial moderno”, a existência de um hegemon não é o mais importante, para a manutenção da ordem política e o funcionamento da economia internacional. O decisivo é a disputa contínua, que leva tanto à concentração de poder quanto… ao seu contrário. Em todos os momentos, a potência hegemônica é obrigada a continuar se expandindo – mas também a gerar e estimular seus próprios concorrentes. Como se não bastasse, o próprio processo de expansão internacional do capital e do poder político fomenta o surgimento de poderes e economias nacionais. O sistema depende, permanentemente, de competição, conflito e, em muitos casos, guerra. Sem eles, entra em colapso. Além disso, prossegue Fiori, quem enxerga na conjuntura atual apenas um mundo dominado pelos EUA não vê a nova reviravolta dos últimos anos. Apesar de terem recuperado terreno de forma impressionante, nas décadas neoliberais, eles passaram a enfrentar, desde que atolaram no Iraque, dificuldades e adversários em todos os cenários para onde procuram estender seu poder. No Oriente Médio, deparam com a influência crescente do Irã e dos xiitas. Foram incapazes de impor a ALCA à América Latina, onde – ainda mais importante – surgem pela primeira vez iniciativas consistentes de integração regional. Na Europa, a Alemanha busca novamente vôo próprio, projetando-se para o leste e… a Rússia. Sob o governo de Putin, e estimulada por seu poderio militar, esta última procura recuperar rapidamente papel de potência internacional destacada. Na Ásia, há a zona econômica mais dinâmica do planeta, a ascensão da China (que não busca desafiar Washington, mas também não aceita submeter-se) e a afirmação simultânea dos interesses japoneses e coreanos. Em todo o mundo, a crise energética desponta como um acelerador das rivalidades e tensões Poder Global percorre todos estes movimentos em textos sempre densos, porém claros e fluidos. Sugerir a leitura do livro não significa, é claro, estar de acordo com ele. Fiori não parece considerar muito relevantes nem o surgimento da sociedade civil global, nem os Fóruns Sociais Mundiais (FSMs), nem a emergência de uma nova cultura política pós-capitalista, que já não vê nos Estados o motor das transformações sociais. Num artigo escrito logo após o I FSM, o autor afirmava: “a política só pode ser eficiente onde exista algum poder a ser conquistado, e cujas diretrizes possam ser alteradas”. O novo livro persiste neste ponto de vista, inclusive com textos dedicados à polêmica com autores próximos ao altermundismo, como Toni Negri, Giovanni Arrighi e Immanuel Wallerstein. Nada disso torna a obra menos interessante e necessária. Ao contrário: Poder Global vale também pela capacidade de provocar. Fique com o depoimento especial de Fiori. E aguarde, no Caderno Brasil, a continuação deste debate. (A.M.) Um mundo hierarquizado, mas em constante conflito e movimento Meu livro intitula-se “poder global”. expressão não se refere a uma entidade ou a uma instância particular do poder político mundial, nem tampouco à quantidade relativa de poder de algum estado ou organismo multilateral. Expressa um campo de pesquisa e um modo de analisar o funcionamento e as tendências de longo prazo do sistema mundial que se formou a partir século 16, da expansão conquistadora de alguns estados europeus e de suas economias nacionais. O conceito de “poder global” não é sinônimo, nem é equivalente aos conceitos de “hegemonia” e “governança” mundial. Pelo contrário, trata-se de um modo de olhar e analisar o sistema político e econômico mundial, que privilegia o movimento, o conflito e as contradições que movem este sistema, impedindo sua estabilização, e qualquer tipo de “paz perpétua” ou de “governança estável”. Exatamente porque se trata de um “universo” em permanente expansão movido pela competição e pelas lutas entre alguns estados e economias nacionais conquistadores que estão obrigados a se expandir permanentemente para seguir acumulando seu próprio poder e riqueza. Por isto, o “sistema mundial moderno”, desde o século 16, e até hoje, foi sempre hierárquico e oligopólico. Mas atenção, porque ao contrário do que se poderia concluir apressadamente, estas grandes potencias que lideraram e lideram a acumulação do poder e da riqueza dentro deste sistema, foram e seguem sendo complementares e competitivas, a um só tempo, sem que jamais possam se destruir mutuamente sem destruir, ao mesmo tempo, o próprio sistema e sua força propulsora. A competição e a luta ente estes estados apontam na direção da monopolização completa do poder e da riqueza, ou seja, para o nascimento de um “poder global”, mas esta monopolização nunca se realizou nem jamais se realizará deste sistema mundial em que vivemos. Os centros de acumulação de poder e riqueza se deslocam no tempo e no espaço, mas jamais se concentram num só lugar. Se isto acontecesse, o sistema entraria em estado de decomposição anárquica, ou de entropia. Neste sentido, do nosso ponto de vista, não são os “hegemons” que estabilizam este sistema mundial criado pelos europeus; o que ordena e estabiliza este sistema – sempre de forma transitória - é a existência permanente do conflito e da possibilidade de uma nova guerra. Por isto, “no universo em expansão dos “estados-economias nacionais” não há possibilidade lógica de uma paz perpétua, nem tampouco de mercados equilibrados e estáveis”. Estados Unidos e China: por trás das tensões, papéis complementares Eu diria que o ponto de partida e objeto central da minha análise é a indissolubilidade da relação entre, por um lado, o processo de acumulação e internacionalização do capital e, por outro, a força propulsora que empurra o processo de concentração e globalização imperial, do poder político dos estados nacionais ganhadores. O motor que move em conjunto estes dois processos, é o mesmo: a competição e a luta entre estas organizações políticas e econômicas nacionais, que surgiram inicialmente, na Europa, nos século 16 e 17, e que só se universalizaram, como forma de organização territorial do poder e da economia, na segunda metade do Século 20. Mas esta relação ou inter-relação não é apenas sincrônica e “virtuosa” para o mundo do poder e da acumulação do capital. Ela contém dentro de si uma contradição fundamental. Desde sempre, e ainda hoje, o movimento da internacionalização política e econômica reforça, a cada nova etapa, o movimento contrário da nacionalização e fortalecimento dos poderes e capitais nacionais. Por isto, do nosso ponto de vista, os grandes “surtos” de “globalização” econômica – como os que ocorreram, no fim do século 19 e 20 – provocam sempre, ao mesmo tempo, grandes movimentos de fortalecimento da competição e do conflito entre as nações. Em momentos de aceleração da internacionalização capitalista, a tendência simultânea foi sempre de aprofundamento do conflito entre os interesses comerciais e financeiros das economias nacionais do sistema. Por isto, em algum momento do livro, dizemos que a “globalização econômica” é um traço originário e constitutivo do sistema capitalista, mas não é uma obra exclusiva do capital, nem representa o fim das economias nacionais. Muito pelo contrário, é o resultado da expansão vitoriosa dos “estados-economias nacionais” que conseguiram impor seu poder de comando sobre um território econômico supranacional cada vez mais amplo”. Da mesma forma que o “poder global” não é uma obra exclusiva do poder político, cada vez mais cosmopolita ou multilateral, é sempre o resultado de uma luta entre poderes nacionais conseguem impor transitoriamente ao resto do mundo suas regras e instituições de gestão da guerra e da paz. Vencedores que nunca deixam de seguir expandindo, de forma cada vez mais rápida e permanente, seus recursos de poder econômico e político, mesmo quando pareça que já não tem concorrentes. No caso das relações contemporâneas entre EUA e China, o que está acontecendo é o que sempre aconteceu nas relações entre as grandes potencias do sistema mundial. Neste momento, a complementaridade econômica entre China e EUA, é cada vez mais importante paras suas duas economias nacionais e para toda a economia mundial. Hoje, já não seria mais possível, pensar numa separação, ou numa tentativa unilateral de destruir ou bloquear o desenvolvimento uma da outra. A relação entre EUA e China transformou-se numa relação virtuosa, e quase num casamento econômico indissolúvel. É ingênuo propor, como alguns analistas norte-americanos, que os EUA bloqueiem o crescimento da China para impedir que se transforme algum dia, numa grande potencia global. Como é absurdo pensar que a China possa utilizar suas reservas em dólar, para jogar contra o próprio dólar, e portanto contra suas próprias reservas. Os chineses têm várias caraterísticas exóticas, do ponto de vista ocidental, mas certamente não são burros, nem têm uma tradição de auto-destruição. Esta complementaridade econômica não exclui o fato de que os dois se considerem inimigos estratégicos e calculem seus movimentos e iniciativas tecnológico-militares, em função de um confronto militar futuro entre as duas potencias. Como já dissemos, esta dualidade faz parte do sistema e dos seus “jogos” básicos: das trocas e das guerras. É possível que nunca ocorra nenhuma guerra entre os EUA e a China, ela é dispensável. O que é importante para a acumulação do poder e do capital, na China como nos Estados Unidos, é a existência da possibilidade tendencial, de uma ou várias guerras, que funcionam como principio de organização estratégica do próprio desenvolvimento tecnológico e econômico dos dois países, e de todos os demais países que orientem seu cálculo estratégico político e econômico, pela disputa do poder global. O fim da crença no fim das fronteiras e num comércio mundial “estável” Utopias não se enterram. Por definição, elas são eternas, não foram feitas para serem realizadas. Por isto elas permanecem através do séculos, como um desafio e como um objetivo inalcançável, como no caso do sonho liberal com o desaparecimento das fronteiras econômicas nacionais, e com a possibilidade de uma “paz perpétua” e cosmopolita, que se mantém vivos desde pelo menos o século 17. Um sonho, portanto que acompanhou toda a formação e expansão colonial do sistema político e econômico europeu. Uma coisa diferente é a ideologia da globalização que confunde, intencionalmente, a existência de uma força internacionalizante, dentro do sistema capitalista, com a possibilidade e a defesa do desaparecimento das fronteiras econômicas nacionais. Uma ideologia que sempre foi esgrimida, através da história, pelas potencias ganhadoras, e que sempre serviu de chave de entrada nas economias mais fracas e periféricas dentro do sistema econômico mundial. O que é fundamental ter claro, de um ponto de vista realista, é que a globalização, definida como um sistema ou ponto de chagada, em que desaparecessem a competição e a luta entre os estados e economias nacionais, onde desaparecessem as fronteiras e as guerras políticas e econômicas, seria a negação do sistema política moderno e a entropia do sistema capitalista, porque significaria o desaparecimento do próprio motor que alimenta a expansão do poder e da riqueza do sistema. Um sistema que necessita do conflito, para não entrar em colapso O importante não é que os Estados Unidos encontram resistência ao exercício de um poder imperial mundial ou global. Isto é perfeitamente natural e esperável. O importante, do ponto de vista da nossa discussão teórica sobre o funcionamento e tendências de transformação do sistema mundial, é que a potência que lidera o processo expansivo do sistema como um todo necessita de concorrentes e adversários para seguir se movendo, para seguir acumulando seu próprio poder e riqueza. Na sua ausência, esta potência líder perderia força, e o sistema mundial, como um todo, entraria em estado de desorganização. Por isto, dizemos numa passagem do livro que “dentro do sistema mundial, formado pelos estados nacionais, todo e qualquer “super-poder” ou “potência hegemônica”, estará sempre condenado a expandir seu poder de forma contínua, para manter sua posição relativa dentro do sistema. Esta expansão, ou acumulação de poder, se faz através da competição e da luta com os demais estados, e da preparação permanente da guerra contra algum adversário que deverá existir “a bem do sistema”. Por isto mesmo, a competição e a luta entre as grandes potencias se reproduz de forma permanente, e nenhum “super-poder” será jamais capaz de estabilizar o sistema mundial, porque ele mesmo precisa da competição e da “guerra virtual crônica”, para poder seguir se expandindo. Por isto, muitas vezes é a própria potência ganhadora que desestrutura sua “situação hegemônica”. Só ela tem condições de se desfazer das regras e instituições que construiu em algum momento – como no caso das Nações Unidas e de Bretton Woods —, toda vez que estas regras e instituições obstaculizem seu caminho expansivo. E, mais do que isto, muitas vezes é o próprio “poder expansivo” ou hegemônico que cria ou inventa os seus competidores e adversários, porque não pode crescer e se expandir sem ter concorrentes, mesmo quando seu poder pareça absoluto e incontestável. Europa sem rumo claro, e pressionada pelos movimentos da Alemanha Os EUA definiram uma estratégia muito clara, desde o fim da Guerra Fria. E neste sentido, considero que existiu um denominador comum entre as administrações Bush e Clinton. A radicalização militarizada desta estratégia imperial, depois de 2001, é que vem enfrentando dificuldades crescentes, sobretudo no Oriente Médio – e neste momento se pode dizer que os EUA estão com sua liderança mundial fragilizada. Mas isto não significa que os EUA tenham perdido seu poder global, ou que estejam vivendo uma “crise hegemônica terminal” como acreditam muitos pensadores importantes do mundo anglo-saxão. No caso da Europa, entretanto, acredito que de fato não exista no momento uma estratégia política internacional unificada e eficaz. Mas, do meu ponto de vista, esta paralisia ou impotência internacional tem raízes mais profundas e complicadas. Dificuldades que só aumentaram com o fim da Guerra Fria e o aumento do numero dos membros da União Européia (UE) e da OTAN A ausência de um inimigo claro e o excesso de sócios pouco alinhados vêm deixando cada vez mais claro a causa da paralisia estratégica e decisória da UE: ela não dispõe de um poder central unificado e homogêneo, capaz de definir e impor objetivos e prioridades estratégicas ao conjunto dos estados associados. Pelo contrário, está cada vez mais dividida entre os projetos europeus de seus membros mais importantes, a França, a Grã Bretanha e a Alemanha. São uma divergência e uma competição muito antigas entre estes três países, que só ficaram adormecidas, logo depois da II Guerra Mundial, mas que estão reaparecendo cada vez com mais força, depois do fim da Guerra Fria, graças à reunificação da Alemanha e ao retorno da Rússia ao núcleo central das “grandes potências”. É indisfarçável o temor atual da França e da Grã Bretanha, frente ao fortalecimento da Alemanha, no centro da Europa. E não há dúvida que a reunificação da Alemanha, e o reaparecimento da velha Rússia atingiram fortemente o processo da unificação européia. A Alemanha fortaleceu sua posição como a maior potência demográfica e econômica do continente, e passou a ter uma política externa mais autônoma, centrada nos seus próprios interesses nacionais. Depois da sua reunificação, a Alemanha vem aprofundando a sua Ostpolitik dos anos 60, e vem promovendo uma forte expansão econômico-financeira, na direção da Europa Central e da Rússia. Uma estratégia que recolocou a Alemanha no epicentro da luta pela hegemonia dentro de toda a Europa, e dentro da própria União Européia, ofuscando o papel da França e desafiando o “americanismo” da Grã Bretanha. Se apesar do governo conservador, esta aproximação entre a Alemanha e a Rússia seguir em frente, mesmo que seja apenas no plano econômico, não é improvável que ela traga de volta a velha competição geopolítica dos estados europeus que foram os fundadores do atual sistema mundial. Mas neste caso, o projeto da EU terá chegado ao limite de suas possibilidades, e o mais provável é que comece a recuar em direção a formas menos “envolventes” e “comprometedoras” de integração. Na Ásia, Rússia e Oriente Médio, sinais de uma “nova geopolítica das nações” As mudanças tem sido muito rápidas, nestes últimos 15 anos. Na década de 90, muitos acreditaram na utopia da globalização, do multilateralismo e da paz. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, a guerra voltou ao epicentro do sistema, e os Estados Unidos assumiram um projeto explicito de poder global, unipolar e quase-imperial. Seis anos mais tarde, entretanto, o mundo está mudando de direção, uma vez mais: o projeto imperial norte-americano enfrenta dificuldades crescentes, os Estados Unidos perderam capacidade de intervenção unilateral através do mundo, e está se assistindo, por todo lado, um retorno da “geopolítica das nações”, com corrida armamentista, políticas nacionalistas e disputas hegemônicas, em quase todas as regiões geopolíticas do globo. No leste asiático, a corrida armamentista lembra, cada vez mais, o velho modelo europeu de acumulação de poder e riqueza, que está na origem do atual sistema mundial. É a região de maior dinamismo econômico, dentro do sistema mundial, e, ao mesmo tempo, é onde está em curso a competição mais intensa e explícita, pela hegemonia regional, envolvendo suas velhas potências imperiais – a China, o Japão e a Coréia – mas também a Rússia, e os Estados Unidos. No fim do século 20 e no início do século 21, o crescente envolvimento militar dos Estados Unidos com o Oriente Médio, e com sua “guerra global” ao terrorismo, diminuíram sensivelmente sua capacidade de intervenção direta nos assuntos do leste asiático. E está cada vez mais claro que, se aumentar o distanciamento militar norte-americano da região, haverá um rápido rearmamento japonês, com forte conotação nacionalista. Um quadro que pode complicar-se ainda mais, se a Índia for obrigada a envolver-se nesta disputa hegemônica, por sua própria decisão, ou por conta de uma eventual aliança com os Estados Unidos. De qualquer maneira, a grande novidade geopolítica do Leste Asiático e de todo o sistema mundial, e a grande incógnita sobre seu futuro, está ligada à nova expansão global da China. Até o momento, ela tem se mantido fiel ao modelo original da expansão chinesa, do século 15, que foi basicamente diplomática e mercantil, à diferença da expansão bélica e mercantil — e depois capitalista — dos europeus. Do ponto de vista geopolítico, o mais provável é que a China se restrinja à luta pela hegemonia no sudeste asiático, e à sua região próxima do Pacífico, mantendo-se fiel à sua estratégia de não provocar, nem aceitar nenhum tipo de confronto, fora de sua “zona de influência asiática”. Mas se a China seguir o caminho passado de todas as grandes potências que existiram dentro deste sistema mundial “moderno”, será inevitável que, em algum momento, tenha que combinar sua expansão econômica, com uma expansão político-militar global. Com relação à Rússia, durante a década de 1990, muitos analistas vaticinaram o fim da grande potência, que ingressou no cenário europeu no século 18, com as guerras de conquista de Pedro, o Grande. Em 1994, Henry Kissinger chegou a afirmar, no seu livro Diplomacy [2], que os Estados Unidos e a Europa teriam que enfrentar um problema novo e inesperado: a administração da desmontagem do império russo. Talvez por isso, os Estados Unidos lideraram a expansão imediata das fronteiras da OTAN, tomando posição militar em quase todo o território da Europa Central, já na década de 90. Mas, ao mesmo tempo, esta expansão apressada da OTAN e da União Européia, e sua intervenção militar nos Balcãs, acabaram tendo um papel decisivo na vitória política de Vladimir Putin, responsável pelo redesenho da política externa e da estratégia militar da Rússia, a partir do ano 2000. A Rússia seguia sendo detentora do segundo maior arsenal atômico do mundo, e exatamente no ano 2000, o governo russo aprovou a nova doutrina militar proposta pelo Conselho de Segurança Nacional, que autorizou a utilização preventiva de armamento nuclear em caso de ataque ao país, mesmo que seja um ataque convencional maciço, e caso fracassem todos os demais esforços para repelir o agressor. Possibilidade que voltou a se colocar, com a insistência norte-americana em instalar seu sistema anti-mísseis na Europa Central. Uma decisão que provocou a retomada do programa russo de modernização de seu sistema balístico e nuclear. Tudo isto ocorre no momento em que a Rússia obtém ganhos crescentes – econômicos e geopolíticos — com suas fontes energéticas, e no momento também em que retomou, no início de 2007, seu nível de atividade econômica anterior à grande crise dos 90. Uma expansão econômica e militar que já recolocou a Rússia, entre as grandes potências, com uma intervenção crescente nos conflitos da Ásia Central e do Oriente Médio, e com a posição de grande fornecedor de armamento e tecnologia militar para a China, a Índia e o Irã, e vários outros países ao redor do mundo, incluindo recentemente a Argentina e a Venezuela. De tal maneira que, apenas quinze anos depois do fim da União Soviética, todos os sinais indicam uma nova onda de modernização da economia russa estreitamente associada com os desafios militares e os objetivos estratégicos do país, como aconteceu em vários outros momentos da história da Rússia, e da própria União Soviética. Por fim, é verdade que a intervenção dos EUA no Oriente Médio produziu um efeito bumerangue, que surprendeu os norte-americanos. Seu insucesso corroeu a credibilidade das ameaças de intervenção no Irã, na Coréia do Norte, ou em qualquer outro estado com alguma força militar e apoio internacional. Mas muito mais grave do que isto, foi a inversão da correlação de forças que produziu dentro do próprio Oriente Médio. Uma verdadeira reviravolta, que acabou fortalecendo o eixo de poder xiita dentro de toda a região, agora liderado pelo Irã, que se transformou no grande desafiante da hegemonia norte-americana no Oriente Médio. Com o aumento do poder dos xiitas na região, o Irã exerce hoje uma influência cada vez maior no próprio Iraque, no Líbano, na Palestina e no seio de todos os grupos islâmicos mais resistentes ao poder de Israel e dos Estados Unidos, dentro da região. Esse aumento da influência iraniana acirrou a competição regional com Israel, mas também com o Egito, Arábia Saudita, Jordânia, e pode ter desdobramentos muito complicados, se desencadear uma corrida atômica na região. Mas alem disto, mais recentemente, a intervenção norte-americana no Iraque, acabou também ressuscitando o “leão adormecido” da Turquia, uma espécie de protetorado militar ou cabeça de ponte americana na região, cujo governo sempre esteve sob tutela das estruturas militares anti-islâmicas. Depois de longas décadas de inatividade reaparece a velha cabeça do império otomano, movido contra os curdos, agora também sob proteção americana. Mesmo que Israel ou os Estados Unidos façam um ataque “cirúrgico” às instalações atômicas do Irã, o quadro tende a ficar cada vez mais complexo, e apesar de que os Estados Unidos venham a manter influência no Oriente Médio, devem perder sua posição arbitral, e daqui para frente terão que conviver com a presença ativa da Rússia, da China e de outros países com interesses nos recursos energéticos do Oriente Médio. E, sobretudo, com o desafio e a competição hegemônica com o Irã, dentro da própria região. Disputa por fontes (escassas) de energia: um grande acelerador da competição global Não existe, na história do sistema mundial, uma convergência necessária entre a dinâmica geopolítica e a acumulação do capital. Mas não há dúvida que a geopolítica e a economia andam quase sempre juntas, quando se trata da competição e da luta por recursos naturais escassos e estratégicos, tanto para os estados como para os capitais privados. Exatamente o que está ocorrendo neste início do século 21. Há um rápido aumento da intensidade da disputa em torno dos territórios e regiões que dispõem dos excedentes energéticos para mover a nova “locomotiva” do crescimento mundial — puxada pelos Estados Unidos e a China, com efeitos imediatos sobre a Índia. Basta olhar para as duas pontas deste novo eixo – Ásia e EUA – e para suas necessidades energéticas atuais e futuras, para visualizar o mapa das disputas e das suas sinergias positivas, através do mundo. Em conjunto, a China e a Índia detêm um terço da população mundial e vêm crescendo, nas duas últimas décadas, a uma taxa média entre 6% e 10% ao ano. Por isso mesmo, ao fazer seu Mapa do Futuro Global, em 2005, o Conselho de Inteligência Nacional dos Estados Unidos previu que, se forem mantidas as atuais taxas de crescimento das duas economias nacionais, a China deverá aumentar em 150% o seu consumo energético e a Índia em 100%, até 2020. Mas nenhum dos dois países tem condições de atender suas necessidades através do aumento da produção doméstica, de petróleo ou de gás. A China já foi exportadora de petróleo, mas hoje é o segundo maior importador de óleo do mundo. E essas importações atendem apenas um terço de suas necessidades internas. No caso da Índia, sua dependência do fornecimento externo de petróleo é ainda maior: nestes últimos quinze anos, essa dependência aumentou de 70% para 85% do seu consumo interno. Para complicar ainda mais o quadro da competição econômica e geopolítica na Ásia, o Japão e a Coréia também dependem de suas importações de petróleo e de gás, para sustentar suas econômicas domésticas. Esta situação de carência coletiva e competitiva é que explica a o fato de todos estes países asiáticos terem se aproximado recentemente do Irã, a despeito da forte oposição dos Estados Unidos. E explica também a ofensiva diplomática e econômica da China e da Índia, na Ásia Central, na África e na América Latina, como também, no Vietnã e na Rússia. Além da participação conjunta da China e da Índia, na disputa com os Estados Unidos e com a Rússia, pelo petróleo do Mar Cáspio, e pelos seus oleodutos alternativos de escoamento. A estratégia de competição e expansão é seguida, também, pelas grandes corporações privadas chinesas e indianas, que já saíram de sua zona tradicional de atuação e hoje operam no Irã, na Rússia e até nos Estados Unidos. Com impactos militares quase imediatos, como diagnostica o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres, que atribui a essa disputa energética a recente reestruturação da marinha militar da China e da Índia, e sua presença cada vez maior no Mar da Índia, e no Oriente Médio. Na outra ponta deste novo eixo dinâmico da economia mundial estão os Estados Unidos. Continuam sendo os maiores consumidores de energia do mundo e, além disto, estão empenhados em diversificar suas fontes de fornecimento, para diminuir sua dependência em relação aos países do Oriente Médio. Hoje, a Arábia Saudita só atende a 16% da demanda interna dos Estados Unidos, que já conseguiram deslocar a maior parte do seu fornecimento de energia para dentro de sua zona imediata de segurança estratégica, situada no México e no Canadá, seguidos pela Venezuela que é seu quarto principal fornecedor de petróleo. Além disto, os Estados Unidos vêm trabalhando ativamente para obter um acordo estratégico de longo prazo com a Rússia e têm avançado de forma agressiva e competitiva sobre os novos territórios petrolíferos situados na África Sub-Sahariana, na Ásia Central, na região do Mar Cáspio. Portanto, os Estados Unidos estão disputando com a China e com a Índia todos os territórios com excedentes energéticos atuais ou potenciais. E esta competição está se transformando num novo triângulo econômico, complementar e competitivo a um só tempo, que está cumprindo uma função organizadora e dinamizadora de várias regiões e economias nacionais, através de todo o mundo, incluindo a América do Sul e a África. América Latina: novas relações com os EUA e consigo mesma O lugar da América Latina na nova geopolítica das nações é muito particular e tem muito a ver com a história da inserção mundial do continente, desde o século 19. A América foi o único continente do sistema mundial, onde nunca existiu uma disputa hegemônica entre os seus próprios estados nacionais. Primeiro, ela foi colônia, e em seguida, “fronteira de expansão” ou “periferia” da economia européia. Mas depois da sua independência, esteve sempre sob a égide anglo-saxônica: da Grã Bretanha, até o fim do século 19, e dos Estados Unidos, até o início do século 21. Por outro lado, nestes quase dois séculos de vida independente, as lutas políticas e territoriais abaixo do Rio Grande nunca atingiram a intensidade, nem tiveram os mesmos efeitos que na Europa. E tampouco se formou na América Latina um sistema integrado e competitivo, de estados e economias nacionais, como viria a ocorrer na Ásia, depois da sua descolonização. Como conseqüência, os estados latino-americanos nunca ocuparam posição importante nas grandes disputas geopolíticas do sistema mundial, e funcionoram durante todo o século 19, como uma espécie de laboratório de experimentação do “imperialismo de livre comércio”. Depois da II Guerra Mundial, e durante a Guerra Fria, os governos sul-americanos alinharam-se ao lado dos Estados Unidos, com exceção de Cuba. Depois da Guerra Fria, durante a década de 1990, a maioria dos governos da região aderiu às políticas e reformas neoliberais, preconizadas pelos Estados Unidos. Mas agora, no início do século 21, é inegável que está em curso uma mudança na América Latina, e em particular, uma mudança no relacionamento da América do Sul com os Estados Unidos. Sobretudo depois da moratória da Argentina, em 2001, do fracasso do golpe de estado na Venezuela, que contou com a simpatia norte-americana, em 2002, e da rejeição do projeto norte-americano da ALCA, na reunião de Punta del Este, em 2005. Mas há também sinais do aparecimento de uma incipiente disputa dentro da própria América Latina, entre estados e economias nacionais complementares, em alguma medida, mas que são ao mesmo tempo, cada vez mais competitivas. Uma novidade absoluta no nosso continente. BRICS: um grupo heterogêneo de países, com agendas dificilmente conciliáveis Na geopolítica das nações, não há lugar para alianças baseadas apenas em médias estatísticas, semelhanças sociológicas ou analogias históricas. E as coincidências ideológicas só operam com eficácia quando coincidem com as necessidades dos países, do ponto de vista do seu desenvolvimento e segurança. Por isto, a construção de uma agenda comum, entre Rússia, China, Índia, Brasil e África do Sul, deve partir do reconhecimento das diferenças existentes entre suas distintas inserções e interesses, dentro do sistema mundial. São cinco países que ocupam posição de destaque, nas suas respectivas regiões, devido ao tamanho de seu território, de sua população, e de sua economia. Mas são, ao mesmo tempo, cinco países completamente diferentes, do ponto de vista de sua inserção internacional, dos seus interesses geopolíticos, e de sua capacidade de implementação autônoma de decisões estratégicas. Depois do fim da União Soviética, a Rússia manteve seu arsenal militar e sua cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidas, e foi rapidamente incorporada ao G 8, apesar de sua crise econômica da década de 90. Depois de 2000, o governo de Vladimir Putin, recentralizou o poder interno, retomou o crescimento econômico acelerado e vem perseguindo com tenacidade e rapidez o restabelecimento da Rússia na condição de grande potencia mundial. Por sua vez, a China e a Índia, depois dos anos 90, projetaram-se dentro do sistema mundial como potências econômicas e militares. Têm claras pretensões hegemônicas nas suas respectivas regiões e ocupam hoje uma posição geopolítica e geo-econômica global absolutamente assimétrica, com relação ao Brasil e à África do Sul. Apesar disto, o Brasil, a África do Sul e a Índia – e mesmo a China, diferente da Russia – ainda ocupam a posição comum dos “países ascendentes”, que sempre reivindicam mudanças nas regras de “gestão” do sistema mundial, e na sua distribuição hierárquica e desigual do poder e da riqueza. Por isto, neste momento, compartilham alguns pontos em comum de uma agenda reformista com relação ao sistema das Nações Unidas e à formação do seu Conselho de Segurança. Da mesma forma como compartem posições multilaterais e liberalizantes, em matéria de comércio internacional, na Rodada de Doha, formando o G20, dentro da Organização Mundial do Comércio. Mas a partir de agora, dentro desta “nova geopolítica das nações” que vai se desenhando no início do século 21, pode-se prever um distanciamento progressivo da China com relação a qualquer grupo ou aliança que restrinja seus graus de liberdade, uma vez que já vem atuando, em vários contextos, com a postura de quem comparte, e não de quem questiona a atual “gestão” do poder mundial. Daqui para frente, a China deve seguir os passos de todas as grandes potências que fazem, ou já fizeram, parte do “círculo dirigente” do sistema mundial. E mesmo com relação à Índia, os pontos de convergência serão cada vez mais tópicos, porque o Brasil e a África do Sul devem se manter fiéis ao “idealismo pragmático” de sua atual política externa, sem contar com as ferramentas de poder e com os desafios externos indispensáveis ao exercício da realpolitik, como no caso da Rússia, da China e também da Índia. Por isto, dentro deste grupo, o mais provável é que nos próximos anos o Brasil – assim como a África do Sul – mantenha-se na condição de um “estado relevante” mas não expansivo, dentro do sistema mundial. Organizações internacionais esvaziadas e sem perspectiva de recuperação imediata Quase todas as atuais organizações internacionais – como a ONU e o FMI – foram criadas logo depois da II Guerra Mundial, e correspondiam ao projeto de “governança mundial” regulada e institucionalizada, concebido pelos Estados Unidos e seus principais aliados. O mundo mudou radicalmente de lá para cá, sobretudo depois do fim da Guerra Fria e da recente volta da “geopolítica das nações”. As antigas instituições do pós-guerra não estão propriamente desacreditadas – estão cada vez mais esvaziadas, e o foram pela vontade das principais potências que contribuíram para sua constituição. A principal dificuldade em reverter este quadro não vem da falta de idéias e propostas, mas do fato de que nenhuma potência que esteja em posição dominante ou vitoriosa costuma abrir mão do status quo lhe é favorável – a menos de alguma ameaça radical ou de uma guerra. E nesse caso o estado atual de esvaziamento dessas instituições foi provocado exatamente por essas potências dominantes ou vitoriosas, e em particular, pelo seu hegemon, os Estados Unidos. [1] O Poder Global e a nova geopolítica das nações. José Luís Fiori, 2007. Boitempo Editorial. São Paulo [2] Kissinger, H. (1994), Diplomacy, Simon &Schuster, New York
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A “grande novidade” da reação latino-americana

2007-10-18 - Valor
Cyro Andrade

Na índia, apenas 35 milhões do total de 1,1 bilhão de habitantes têm alguma noção do que seja emprego formal. Desse total, 20 milhões trabalham para o governo. Os 435 milhões que fazem o restante da população economicamente ativa estão na lavoura, dirigem táxis, servem chá. sob as tendas dos “chai stalls”, são empregados domésticos. Globalização, essa de que muito se fala como se fosse um novo processo civilizatório, é isso?

Certamente, os rumos que as relações internacionais tomaram nos últimos tempos não têm a ver com o essencial das razões que trouxeram a índia à situação de hoje, descrita por Randeep Ramesh, correspondente do “Guardian” no Sul da Asia em artigo recente. A globalização, neste ciclo de agora, até contribuiu para amenizar as vicissitudes do país que tem bomba atômica, criou (na época de Jawaharlal Nehru, lembra Ramesh) centros universitários de classe mundial, mas se embrenhou numa estratégia de ambições tecnológicas que não fez um bom casamento com a criação de empregos. Serviços respondem hoje por mais de metade do valor adicionado à economia indiana (empregando, se tanto, 1,5 milhão de pessoas), enquanto a indústria, que é atividade mais propícia à geração de postos de trabalho, entra com cerca de 28% e a agricultura, com 17,5%. O crescimento do se tor de serviços, que em outros pálSes ( como no Brasil, onde responde por 67% do PIBi) é considerado sinônimo de reestruturação típica de economias em desenvolvimento, na índia representa uma espécie de anomalia.

Neste novo livro de Fiori, professor titular de economia política internacional no Instituto de Economia da UFRl, a Índia, ela mesma e como representação de um grupo de países ditos emergentes, incluído o Brasil, aparece em vários lugares; muitas vezes de forma implícita. Reúnem-se ali 50 artigos que Fiori escreveu, nos últimos oito anos, procurando destrinchar, com rigor analítico, o processo de expansão do capitalismohegemônico e seu papel na definição de rumos do sistema de poder mundial.

Em “O mito da morte dos Estados nacionais”, por exemplo, Fiori põe a descoberto o que há de fundamental para se compreender o sentido disso que se chama de globalização, “idéia mágica que atravessa o debate políticoeconômico da década de 1990 como ‘abre-alas’ do discurso neoliberal e ‘como uma exigência de renovação do pensamento de esquerda’, segundo muitos intelectuais marxistas”. Manejando alguns dos fios com que irá tecer conexões entre os vários assuntos tratados ao longo do livro; Fiori propõe-se, e consegue, acrescentar luzes à discussão daquilo “que se tomou um verdadeiro senso comum entre gregos e troianos: a globalização é o produto material, necessário e irrecusável da terceira revolução tecnológica - microeletrônica e informacional- e das novas formas de competição econômica em escaia global; e a globalização vem promovendo a progressiva eliminação das fronteiras e dos egoísmos nacionais”.

A globalização não é, porém, um fenômeno só econômico, muito menos tecnológico. Sua melhor explicação - e seus efeitos na índia ou no Brasil- passará sempre pela referência à criação de um mercado financeiro mundial construído como “obra do poder e de decisões políticas” e que teve conseqüências “que vão muito além da própria economia”. Na verdade, diz Fiori, “o que a história nos conta é que a globalização financeira foi a contraface econômica de uma estratégia política conservadora, de resposta à crise dos anos 1970 [a partir da quebra do padrão-ouro nos Estados Unidos] e de reafirmação mundial, na década seguinte, da hegemonia norte-americana”. Então, “se a globalização dos mercados financeiros foi facilitada pelas novas tecnologias, sua verdadeira direção e seu significado foram dados pelas opções estratégicas e econômicas de algumas poucas potências mundiais”.

No processo - radicado em disputas de hegemonia no centro do mundo, o grande naco sendo empalmado pelos EUA -, difundiu-se “o mito do fim das fronteiras e do nascimento de um novo mundo único, integrado, cosmopolita e pacífco, capaz de ‘absorver toda a raça humana nas fileiras das populações desenvolvidas’, como disse o economista John Hicks”, comenta Fiori.

Nada disso aconteceu, incluída a idéia, implícita, de que os Estados nacionais estavam mortos. Bem ao contrário. O que ocorreu no século XX, afirma Fiori, foi a universalização dos Estados nacionais - em várias fases, incluída aquela, depois da Segunda Guerra Mundial, em que se dissolveram os impérios europeus na Ásia e na África (surge aí a Índia das contradições irresolvidas, do domínio da tecnologia nuclear e da pobreza profunda).

O que acontece hoje, particularmente na América Latina, é que os Estados “perderam o poder de definir os próprios objetivos nacionais e as políticas públicas passaram a ser administradas ou controladas, direta ou indiretamente, pelo FMI e pelo Tesouro do governo norte-americano”.

Fiori admite, de certo modo, que restam aos Estados nacionais meios para buscar um outro tipo de inserção nessa ordem global totalizante. Pode-se prever, no entanto, que no “universo em expansão” dos “Estados-economias nacionais” não há a possibilidade lógica de uma “paz perpétua”, nem de mercados equilibrados e estáveis. De todo modo, há uma “grande novidade”: a reação social e nacional que está começando pela América Latina, [num] movimento de autoproteção [ que] vem do social para o nacionale de ‘baixo’ para ‘cima’- “um gigantesco movimento democrático, a favor de mais justiça social na distribuição nacional e internacional dos direitos, do poder e da riqueza”, nascido, talvez, observa Fiori - e surpreendentemente -, da globalização.

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Comentários

Hegemonia em xeque

2007-10-17 - Carta Capital
Márcia Pinheiro

Mudança? Novas análises indicam que os EUA perderão o posto de líder global, com o surgimento de pólos alternativos de poder

A república, na origem, foi idealizada cuidadosa e abertamente nos Documentos Federalistas: Nós não seremos uma monarquia e não teremos uma democracia. Não tivemos nada, portanto. Por 200 anos, vivemos um sistema oligárquico, no qual os homens ricos se dão bem e os outros são deixados à própria sorte.
Gore Vidal, The Decline and Fali of the American Empire, 1992

Um alerta de um observador insuspeito pode ter abalado setores do establishment americano: “Há similaridades fortes entre a situação atual dos Estados Unidos e de outro grande centro de poder do passado: Roma. O Império Romano durou mil anos, mas apenas metade deste tempo como república. A República Romana caiu por muitas razões, mas três merecem ser lembradas: o declínio dos valores morais e políticos, o excesso de confiança, a ostensiva invasão de terras estrangeiras e a irresponsabilidade fiscal do governo. Isso soa familiar? Em minha opinião, é hora de aprender com a história e tomar medidas para que os EUA passem pelo teste do tempo”.

Apesar do amargo diagnóstico, o texto acima não é de um pensador heterodoxo, antiglobalização ou esquerdista. Os neomacarthistas deveriam pôr as barbas de molho. Trata-se de um trecho da apresentação ao Federal Reserve de David M. Walker, controlador-geral dos Estados Unidos, uma espécie de braço investigativo do Congresso. Como o próprio site do órgão se define, “um cão de guarda das atividades dos parlamentares”. Entre as funções, estão supervisionar os programas federais, sugerir formas de tornar o governo mais eficiente e ético, além de prever tendências e desafios de longo prazo.

Walker diz que os EUA estão à beira de uma situação insustentável. Ele destaca como principais desafios o forte desequilíbrio fiscal, a deterioração da saúde pública, o nível educacional em declínio, a sofrível condição do meio ambiente, a guerra desastrada com o Iraque e a política errática de imigração. Segundo disse à Carta Capital, “o país está atado a valores velhos, dos tempos da Guerra Fria, e perdeu-se por completo no processo de globalização”.

O controlador-geral americano é mais uma voz respeitável a integrar o coro dos críticos da hegemonia dos EUA e dos que prevêem o fim do império, hoje comandado por George W Bush. Recentemente, o sociólogo Immanuel Wallerstein, professor da Universidade Yale (Boston), lançou O Universalismo Europeu, no qual aponta o desgaste da retórica ocidental. Em textos complementares, Wallerstein afirma que, em uma década, novos pólos de poder no mundo estarão sólidos o suficiente para fazer frente à onipresença dos EUA, entre os quais, Europa, China e Rússia. Tanto o sociólogo como o funcionário público destacam a perda de dinamismo da economia americana como um dos sinais de que o império vive, se não os últimos dias, um inequívoco ocaso.

Para Walker, infelizmente, apesar dos desafios da nova ordem mundial que põem em xeque inclusive a superioridade americana na expertise tecnológica, “a maioria dos órgãos governamentais mantêm-se superburocratizados, míopes, com erro de foco e com o olhar para o passado”, quando existia a Cortina de Ferro. O fiasco dos EUA no Iraque foi apenas uma amostra de que até mesmo o poder de polícia do mundo foi desmoralizado, diz. Para contextualizar os dizeres de Walker: o último imperador romano do Ocidente, Romulus Augustus, foi destituído do poder no ano 476, marcando o fim de uma hegemonia de quase um milênio. Bush precipitou a decadência da supremacia americana.

Wallerstein afirma que três forças empurraram o país para a atual crise, todas engendradas entre 1960 e 1970. Primeiro, houve uma acirrada concorrência econômica entre o Japão e a Europa, que afetou a produção americana. Em segundo lugar, completou-se o ciclo de descolonização do Terceiro Mundo com a conseqüente rejeição ao status quo imposto pela ordem americano-soviética. Por fim, proliferaram organizações civis de reação ao liberalismo e ao American Way of Life.

A consultaria nova-iorquina MD SASS mostra, em números, o que ocorre na sociedade americana. Há seis anos, o dólar representava 72,6% das reservas globais internacionais. Hoje, a participação caiu a 64,7%. O euro já responde por 25,8%. Cerca de 80% dos títulos públicos dos EUA estão em mãos de estrangeiros. Mas nada assegura que os papéis americanos sejam para sempre o porto seguro global. A MD lembra que o dólar perdeu 35% do valor em relação ao euro nos últimos cinco anos. Os títulos americanos renderam 20% no período. Prejuízo ao investidor, que uma hora se cansa do discurso da suposta solidez nórte-americana.

Há 77 milhões de cidadãos americanos entre 50 e 60 anos que se aposentarão em breve. De acordo com o Wall Street Journal, a típica família americana com chefe de família entre 55 e 64 anos tem cerca de 90 mil dólares em economias. Claro que há uma pequena complementação da Seguridade Social, mas a consultoria antevê pesadelos políticos e econômicos para breve, porque os EUA têm déficits gêmeos (interno e externo) na casa de 1 trilhão de dólares. Um buraco financeiro cavado por Bush, que reduziu os impostos e aumentou os gastos militares a níveis alarmantes.

De acordo com o Center on Budget and Policy Priorities, a participação dos salários na renda nacional dos EUA caiu ao menor nível desde a grande crise de 1929, e a dos lucros empresariais atingiu recordes de alta. Entre novembro de 2001 e dezembro de 2006, os salários cresceram à média anual de 1,9%, enquanto os resultados corporativos avançaram 12,8% anuais. Esse fenômeno está diretamente ligado aos modismos economicistas da globalização, como offshoring e outsourcing, que tiraram o emprego dos americanos.

Houve um sensível aumento também no abismo da desigualdade entre a população. Os últimos dados disponíveis, do censo de 2005, mostram que 16 milhões de cidadãos vivem “em profunda pobreza ou miséria”. O critério é a renda de menos de 9,9 mil dólares anuais para uma família de dois adultos e duas crianças. Os miseráveis são as famílias com proventos menores que 5 mil dólares/ano. Segundo a pesquisa, o número de pobres americanos cresceu 26% entre 2000 e 2005. A população americana é composta de 301 milhões de indivíduos, 45 milhões dos quais sem direito a nenhuma assistência médica pública.

Até os supostos avanços na regulação do livre mercado e nas garantias de concorrência, que levaram os EUA a se transformar na maior potência mundial, estão sob suspeita. Como relata Antonio Luiz M. C. Costa, a Europa, por ser mais rigorosa, tem ditado padrões superiores de qualidade.

Na questão política stricto sensu, o lingüista Noam Chomsky é taxativo. Em entrevista concedida em julho à TV Al-Jazira (disponível no YouTube), o intelectual diz existirem características de que os EUA estão em estado de falência. A falácia do slogan bushiano, de que a meta da guerra era provar que o país muçulmano produzia armas de destruição em massa, desmoronou. Tampouco o presidente convenceu a população de que o objetivo era promover a democracia na região. Atitudes como essa apenas reforçaram o ódio do mundo, não só o islâmico, contra a prepotência dos EUA, afirmou Chomsky.

Não fossem apenas as dificuldades internas, há os enormes desafios externos. A começar pelo front econômico. Nos dizeres de José Luis Fiori, professor de Economia Política do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), “o que está em curso não é propriamente uma crise. É uma transformação ou mudança profunda e lenta do eixo geopolítico e geoeconômico mundial”. A análise faz parte do livro O Poder Global, a ser lançado em breve pela editora Boitempo. Fiori opina ainda que a recente crise do crédito imobiliário de qualidade duvidosa (subprime) gerou um tabuleiro de xadrez perigoso para a estabilidade global. “O maior medo que ronda o mundo é que a decisão americana (de proteger o sistema financeiro) desencadeie uma guerra de moedas” em que o dólar, eventualmente, possa perder a hegemonia de ser a reserva de valor global. Com conseqüências impossíveis de ser dimensionadas.

Um contraponto eminentemente econômico é feito por Mariano Laplane, do Centro de Estudos de Relações Econômicas Internacionais da Unicamp. Segundo ele, para o capital, a questão de Estados nacionais tem pouca ou nenhuma relevância. A partir dos anos 90, com a desregulamentação dos mercados financeiros e a queda do Muro de Berlim, surgiu um paradoxo. As instituições multilaterais criadas sob a égide dos EUA fragilizaram-se, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. No entanto, não significa que os capitalistas americanos estejam mais pobres. Simplesmente eles operam em todo o mundo, assim como os investidores asiáticos ou latino-americanos.

De todo modo, pondera, a desvalorização do dólar e a dependência simbiótica que têm os EUA e a China, por exemplo, em algum grau revela a perda do poder americano. “Talvez, estejamos