A “grande novidade” da reação latino-americana

2007-10-18 - Valor
Cyro Andrade

Na índia, apenas 35 milhões do total de 1,1 bilhão de habitantes têm alguma noção do que seja emprego formal. Desse total, 20 milhões trabalham para o governo. Os 435 milhões que fazem o restante da população economicamente ativa estão na lavoura, dirigem táxis, servem chá. sob as tendas dos “chai stalls”, são empregados domésticos. Globalização, essa de que muito se fala como se fosse um novo processo civilizatório, é isso?

Certamente, os rumos que as relações internacionais tomaram nos últimos tempos não têm a ver com o essencial das razões que trouxeram a índia à situação de hoje, descrita por Randeep Ramesh, correspondente do “Guardian” no Sul da Asia em artigo recente. A globalização, neste ciclo de agora, até contribuiu para amenizar as vicissitudes do país que tem bomba atômica, criou (na época de Jawaharlal Nehru, lembra Ramesh) centros universitários de classe mundial, mas se embrenhou numa estratégia de ambições tecnológicas que não fez um bom casamento com a criação de empregos. Serviços respondem hoje por mais de metade do valor adicionado à economia indiana (empregando, se tanto, 1,5 milhão de pessoas), enquanto a indústria, que é atividade mais propícia à geração de postos de trabalho, entra com cerca de 28% e a agricultura, com 17,5%. O crescimento do se tor de serviços, que em outros pálSes ( como no Brasil, onde responde por 67% do PIBi) é considerado sinônimo de reestruturação típica de economias em desenvolvimento, na índia representa uma espécie de anomalia.

Neste novo livro de Fiori, professor titular de economia política internacional no Instituto de Economia da UFRl, a Índia, ela mesma e como representação de um grupo de países ditos emergentes, incluído o Brasil, aparece em vários lugares; muitas vezes de forma implícita. Reúnem-se ali 50 artigos que Fiori escreveu, nos últimos oito anos, procurando destrinchar, com rigor analítico, o processo de expansão do capitalismohegemônico e seu papel na definição de rumos do sistema de poder mundial.

Em “O mito da morte dos Estados nacionais”, por exemplo, Fiori põe a descoberto o que há de fundamental para se compreender o sentido disso que se chama de globalização, “idéia mágica que atravessa o debate políticoeconômico da década de 1990 como ‘abre-alas’ do discurso neoliberal e ‘como uma exigência de renovação do pensamento de esquerda’, segundo muitos intelectuais marxistas”. Manejando alguns dos fios com que irá tecer conexões entre os vários assuntos tratados ao longo do livro; Fiori propõe-se, e consegue, acrescentar luzes à discussão daquilo “que se tomou um verdadeiro senso comum entre gregos e troianos: a globalização é o produto material, necessário e irrecusável da terceira revolução tecnológica - microeletrônica e informacional- e das novas formas de competição econômica em escaia global; e a globalização vem promovendo a progressiva eliminação das fronteiras e dos egoísmos nacionais”.

A globalização não é, porém, um fenômeno só econômico, muito menos tecnológico. Sua melhor explicação - e seus efeitos na índia ou no Brasil- passará sempre pela referência à criação de um mercado financeiro mundial construído como “obra do poder e de decisões políticas” e que teve conseqüências “que vão muito além da própria economia”. Na verdade, diz Fiori, “o que a história nos conta é que a globalização financeira foi a contraface econômica de uma estratégia política conservadora, de resposta à crise dos anos 1970 [a partir da quebra do padrão-ouro nos Estados Unidos] e de reafirmação mundial, na década seguinte, da hegemonia norte-americana”. Então, “se a globalização dos mercados financeiros foi facilitada pelas novas tecnologias, sua verdadeira direção e seu significado foram dados pelas opções estratégicas e econômicas de algumas poucas potências mundiais”.

No processo - radicado em disputas de hegemonia no centro do mundo, o grande naco sendo empalmado pelos EUA -, difundiu-se “o mito do fim das fronteiras e do nascimento de um novo mundo único, integrado, cosmopolita e pacífco, capaz de ‘absorver toda a raça humana nas fileiras das populações desenvolvidas’, como disse o economista John Hicks”, comenta Fiori.

Nada disso aconteceu, incluída a idéia, implícita, de que os Estados nacionais estavam mortos. Bem ao contrário. O que ocorreu no século XX, afirma Fiori, foi a universalização dos Estados nacionais - em várias fases, incluída aquela, depois da Segunda Guerra Mundial, em que se dissolveram os impérios europeus na Ásia e na África (surge aí a Índia das contradições irresolvidas, do domínio da tecnologia nuclear e da pobreza profunda).

O que acontece hoje, particularmente na América Latina, é que os Estados “perderam o poder de definir os próprios objetivos nacionais e as políticas públicas passaram a ser administradas ou controladas, direta ou indiretamente, pelo FMI e pelo Tesouro do governo norte-americano”.

Fiori admite, de certo modo, que restam aos Estados nacionais meios para buscar um outro tipo de inserção nessa ordem global totalizante. Pode-se prever, no entanto, que no “universo em expansão” dos “Estados-economias nacionais” não há a possibilidade lógica de uma “paz perpétua”, nem de mercados equilibrados e estáveis. De todo modo, há uma “grande novidade”: a reação social e nacional que está começando pela América Latina, [num] movimento de autoproteção [ que] vem do social para o nacionale de ‘baixo’ para ‘cima’- “um gigantesco movimento democrático, a favor de mais justiça social na distribuição nacional e internacional dos direitos, do poder e da riqueza”, nascido, talvez, observa Fiori - e surpreendentemente -, da globalização.

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