Arquivo de 12 de Julho de 2008

Como escrevem os grandes autores

Em Ofícina de escritores, o americano Stephen Koch revela truques e hábitos
profissionais de mestres da literatura

ELIANE LOBATO

O estilo é indissociável do homem, dizia o escritor francês Conde de Bouffon,
definindo assim, na literatura, os traços da personalidade artística. Esse é o caso,
por exemplo, da formação de Gabriel García Márquez. Ainda estudante, ele tomou
emprestado e leu o romance ,i>A metamorfose,/i>, o grande clássico de Franz Kafka.
Foi o estilo de Kafka que o fisgou e deu-se assim, no futuro autor de Cem anos de
solidão, o “estalo” literário. Tempos depois, García Márquez registrou: “A
primeira linha quase me fez cair da cama, tamanha a minha surpresa. Essa linha
dizia: ‘Naquela manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa viu-se na
cama transformado num gigantesco inseto’. Eu não sabia que era permitido escrever
esse tipo de coisa. Se soubesse, teria começado a escrever muito antes.” Esse relato
está no livro Ofícina de escritores (Martins Fontes, 316 págs., R$ 39,80), do
americano Stephen Koch. A obra mostra que não há fórmulas para escrever e que cada
autor tem seu estilo e métodos.

Houve tempo em que John Irving (O mundo segundo Garp) valia-se de um diário.
E afirmava: “Começo contando a verdade sobre pessoas reais.” Depois, os seus textos
ganhavam certos exageros a caminho de se tornarem grandes mentiras, até porque “a
mentira é, sem dúvida, mais interessante”. Pois bem, quando as mentiras entravam em
cena, o diário era fechado, virava livro. Para o ensaísta e historiador Paul
Johnson, um pedaço de papel ou bloco precisam estar sempre por perto. “A regra deve
ser: anote imediatamente. Nunca confie na memória, ponha tudo no papel”, ensina
ele.

A anotação é necessária, se houver uma noite separando a idéia e o ato de
descrevê-la no livro, é o que diz Tom Wolfe (Fogueira das vaidades).
“Tento escrever tudo antes de dormir, porque, à noite, a perda de
memória se dá muito rapidamente”, explica ele. Já a autora de Pássaros da América,
Lorrie Moore, disse certa vez que nunca teve esboços ou “fragmentos que ficassem em
pedaços soltos de papel colados na escrivaninha”. Em Ofícina de escritores,
Koch privilegia a escrita à mão ou, pelo menos, a que nasce dessa forma – e não o
texto digitado já de início no computador. Por que isso? Primeiro, porque alguns dos
autores que cita resistem à idéia de iniciar um livro diretamente no teclado,
enquanto outros morreram antes dessa tecnologia. Koch dá ênfase, assim, à combinação
do estilo com o método na construção de enredos e personagens. Ou, como ensinou
Anton Tchecov, “é a escrita que gera a inspiração, e não o contrário”.

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carne zero

 

Hambúrgueres vegetarianos são mais saudáveis, mas nem sempre menos calóricos do que os tradicionais, dizem nutricionistas; descubra o que oito opções têm a oferecer em termos nutricionais e de sabor

Eduardo Knapp/Folha Imagem

Pão de hambúrguer recheado com abobrinha, pimentões, cogumelo, berinjela, cenoura e rúcula
IARA BIDERMAN
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Parecem com hambúrguer, têm nome de hambúrguer e, às vezes , até têm gosto de hambúrguer. Mas, estritamente, os sanduíches desta reportagem não correspondem à definição clássica da receita.
Segundo o "Pequeno Dicionário de Gastronomia", de Maria Lucia Gomensoro (ed. Objetiva), hambúrgueres são "bifes pequenos, redondos, feitos com carne de vaca moída e temperada com sal e pimenta". Tal definição corresponde também à idéia que -com pequenas variações quanto ao acréscimo de maionese ou ketchup- todos têm da receita.
Com o tempo, o pequeno bife servido na Alemanha desde o século 18 começou a se difundir pelo mundo, levado pelos marinheiros que partiam do porto de Hamburgo. Ao aportar nos EUA, ganhou a versão mais conhecida: a carne servida entre dois pedaços de pão redondo e macio. Daí em diante, somaram-se ingredientes ao sanduíche e foram surgindo suas muitas variações: com queijo, maionese, salada, calabresa, bacon e, na versão que parecia a definitiva, com tudo.
Aparentemente, depois do X-tudo, não havia mais o que inventar. A inovação veio para satisfazer uma parte do público que, por motivos ideológicos ou de saúde, não come carne, mas adoraria cair de boca em um hambúrguer.
Até pouco tempo atrás, a opção para vegetarianos era praticamente um simulacro do hambúrguer de carne, feito de proteína texturizada de soja. Nada que despertasse o interesse das hamburguerias tradicionais e dos não-vegetarianos. "Um ou outro lugar oferecia uma receita mais caprichada sem carne, mas não havia tantas opções como hoje", diz George Guimarães, diretor da Nutriveg Consultoria em Nutrição Vegetariana.
A variedade não é apenas de endereços. Hoje, hamburguerias famosas por seus sanduíches com generosas porções de carne bovina oferecem receitas com hambúrgueres feitos de cogumelos, grão-de-bico, quinua, castanhas, arroz e feijão. As versões "verdes" do X-tudo passam longe do bifinho de soja. Em comum, além da ausência de carne de vaca, um forte apelo gourmet.
Sim, também são mais saudáveis do que o de carne. "Esses hambúrgueres fornecem boa quantidade de proteínas, carboidratos e gorduras. Também são ricos em vitaminas, pois têm verduras e legumes, que, normalmente, não entram na receita do hambúrguer tradicional. Por isso, podem ser considerados mais ricos nutricionalmente", diz Maria Gandini, nutricionista da RG Nutri. Porém, ela alerta que é preciso ficar atento: "Muitos deles são mais calóricos do que o hambúrguer convencional, que tem 296 calorias por porção".
Para averiguar o que essas novas opções no cardápio das hamburguerias oferecem, a Folha pediu que as consultorias em nutrição RG Nutri e Nutriveg fizessem uma avaliação de sua composição -as receitas foram enviadas pelos estabelecimentos. E convidou um apreciador de carnes e uma vegetariana para experimentarem e darem sua opinião sobre oito opções servidas em lanchonetes não-vegetarianas de São Paulo. Eles foram anonimamente aos locais, com as despesas pagas pela Folha.
Nosso degustador carnívoro é André Boccato, 54, editor especializado em livros de arte e gastronomia, autor de, entre outros, "Churrasco, uma Paixão Nacional" e "Receitas Saborosas com Carne" (Boccato Editores). Representando os vegetarianos, a estudante Paola Tripoli, 17, que há um ano e meio parou de comer carne de animais (ela é ovolactovegetariana), por motivos de consciência, mas continua gostando de freqüentar lanchonetes.
Leia a seguir o que eles acharam dos hambúrgueres e a avaliação dos nutricionistas sobre cada um.

Folha de S. Paulo - 26/6/08

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Solidão, que nada

saúde
Minoria entre os afetados pelo câncer, adultos jovens criam grupos em outros países para trocar informações e compartilhar experiências

Filipe Redondo/Folha Imagem

Itaciara Monteiro, 22, e Priscila Araújo, 25, que têm leucemia e ficaram amigas
AMARÍLIS LAGE
JULLIANE SILVEIRA

DA REPORTAGEM LOCAL

Itaciara Monteiro tem 22 anos. Assim como muitos jovens, divide seu tempo entre as demandas da faculdade, as exigências do trabalho e os passeios com o namorado.
Mas sua rotina tem um elemento a mais: diariamente, ela toma cinco comprimidos para controlar o câncer. E, nesse aspecto de sua vida, Itaciara não encontra muita companhia -pessoas que, como ela, saibam o que é enfrentar a doença nessa idade.
Entre os pacientes com câncer, os jovens adultos são a minoria. Justamente por isso, para eles é mais difícil encontrar algo de extrema importância: o apoio de gente que está na mesma situação, seja para trocar dados sobre o tratamento, seja para falar do impacto da doença na carreira ou no namoro, por exemplo.
"Quando eu era criança, me tratava num hospital infantil e essa convivência era mais fácil", conta Itaciara, que foi diagnosticada com leucemia mielóide crônica aos 12 anos. "Mas, na adolescência, passei a ter contato só com pacientes muito mais velhos. E, psicologicamente, foi uma fase muito difícil. Comecei a namorar, meu cabelo caiu, e eu queria esconder a doença do meu namorado. Não ia às festas da turma por vergonha", lembra.
Foi só no ano passado que Itaciara conheceu alguém com quem pôde se identificar: a estudante Priscila Araújo, 25. "Eu me vi nela. E acho essa convivência fundamental. Embora eu troque experiências com gente mais velha, fazia falta falar com alguém que tem o mesmo papo."
Para Priscila, que descobriu a doença aos 16 anos, o encontro também foi incomum. "Quando vou à consulta, é tudo muito rápido e, geralmente, os outros pacientes na sala de espera são idosos. Acabo não tendo contato com ninguém."
Ao que tudo indica, esse isolamento também pode ser tratado. Pelo menos a exemplo do que acontece em outros países: nos últimos anos, uma série de entidades surgiu para mostrar que esses jovens não estão sozinhos -e não são poucos. Estima-se que, nos EUA, sejam registrados anualmente cerca de 70 mil casos de câncer entre pessoas de 19 a 39 anos.
No Brasil, não há dados por faixa etária que mostrem a realidade dos jovens com câncer em todo o país. A Fundação Oncocentro de São Paulo, que reúne registros da doença no Estado, contabilizou 23.138 novos casos em pessoas com 19 a 39 anos de 2000 a 2007, em 63 hospitais estaduais que têm atendimento oncológico. Como o registro é parcial e não considera o setor privado, o número pode ser muito maior.
Apesar disso, não há entidades de suporte voltadas especificamente para essa faixa etária por aqui. "As redes de apoio para adultos são muito poucas. Vêem-se muitas iniciativas para apoiar crianças, mas para adultos quase não existem, o que é uma pena. Acho que uma grande parcela se beneficiaria da troca de experiências", diz a oncologista Maria del Pilar Estevez Diz, coordenadora do ambulatório de oncologia do Instituto do Câncer Octavio Frias de Oliveira.
Suporte de fora
A articulação dos pacientes norte-americanos levou à criação de iniciativas que incluem programas de rádio, projeto de recolocação profissional, uma revista especializada e uma festa para esse público (leia texto na página 8) , além de uma infinidade de sites.
Quase todos os projetos foram fundados por jovens que tiveram câncer e sentiram na pele a dificuldade de conseguir informação para essa faixa etária. "Decidi criar a revista porque vi a falta de suporte para adultos jovens quando tive melanoma, aos 28 anos.
Não havia nada que eu pudesse relacionar com minha história, achava que era a única pessoa naquela idade com câncer", disse à Folha a editora-chefe da revista eletrônica "Waiting Room", Elizabeth Daniels.
A Vital Options, que oferece um programa de rádio semanal sobre câncer, foi fundada por Selma Schimmel quando ela descobriu ter câncer de mama, também aos 28 anos, e sentiu falta de um serviço que a apoiasse. Há cinco anos, a entidade lançou a "National Young Adult Cancer Awareness Week" (semana nacional da consciência do câncer em jovens adultos), voltada para a divulgação das necessidades específicas desses pacientes.
Já o oncologista Leonard Sender criou o site "seventyk.org", que defende direitos especiais para esses pacientes, e é presidente da organização de suporte e pesquisa "I’m Too Young For This", também voltada para a socialização e interação de pacientes jovens. Para ele, os especialistas são mais preparados para tratar crianças ou idosos.
"É preciso trazer à tona a necessidade de mais pesquisas sobre câncer em jovens. É uma fase muito difícil quando se tem a doença: o paciente pode morar sozinho, ter acabado de casar, estar namorando…", diz.
A estudante Roberta Pinto, 24, que foi diagnosticada com leucemia aos 20 anos, conhece bem essas dificuldades. "Meu cabelo caiu, os amigos se afastaram, meu namorado terminou o relacionamento porque achava que eu iria morrer", lembra. E, quando o tratamento acabou, ela encontrou um novo desafio: retomar seu espaço no mercado de trabalho. "Nas entrevistas de emprego, assim que mencionava a doença, era excluída. Após um ano, encontrei uma empresa que tem abertura para receber pessoas que tiveram câncer. Não conheço muitos projetos assim. Espero que iniciativas como a da empresa onde trabalho incentivem outras a fazerem o mesmo."

Folha de S. Paulo - 3/7/08

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SAÚDE: efeito dominó

Pesquisadores da Universidade Harvard, que acompanharam mais de 12 mil pessoas por 32 anos, viram que os fumantes abandonam o cigarro em grupos

FLÁVIA MANTOVANI
DA REPORTAGEM LOCAL

Costuma começar cedo. Para parecer mais velho, fazer tipo ou agradar aos amigos, o adolescente dribla aquele gosto de cinzeiro e disfarça os acessos de tosse até que ganha intimidade com o cigarro e passa a se sentir parte da turma. Com o tempo, a nicotina age, a dependência se instala e ele pode nem se lembrar de como tudo começou. Mas uma volta ao passado provavelmente vai mostrar que as primeiras tragadas foram dadas por influência alheia.
Pois um novo estudo mostra que o mesmo raciocínio vale para parar de fumar: quando alguém abandona o vício, acaba contagiando outros fumantes em volta a largarem o cigarro. Publicado no “New England Journal of Medicine”, o levantamento acompanhou, por 32 anos, 12.067 pessoas, que tinham vínculos -familiares, profissionais ou de amizade. Os pesquisadores, das universidades Harvard e da Califórnia, constataram que as pessoas abandonam o vício em grupos.
Os laços mais fortes detectados foram os de marido e mulher: no caso de cônjuges, o fato de um deles parar diminui em 67% a chance de o outro continuar fumando. Entre dois amigos, a redução é de 43%. Entre irmãos, a influência é menor: 25%. Já entre colegas de trabalho, o que o estudo mostrou é que depende do tamanho da empresa: nas pequenas, o fato de um funcionário parar reduz em 34% a chance de o outro continuar fumando. Nas maiores, não houve essa associação.
“O trabalho mostra que as decisões de parar de fumar não são tomadas só por indivíduos, mas por grupos inteiros”, disse à Folha Nicholas Christakis, um dos autores do estudo.
Segundo o pesquisador, a influência se dá de forma direta e indireta, entre pessoas que se conhecem e não se conhecem. No primeiro caso, é fácil perceber como isso acontece: uma pessoa pára de fumar e outro fumante próximo a ela se sente inspirado a parar também.
“Chamamos de fenômeno da segunda onda. Quando a gente joga uma pedra na água, gera várias ondas e acerta uma superfície muito maior. Da mesma forma, quando se cria um ex-fumante, os outros percebem que ele conquistou algo novo e se estimulam a seguir o mesmo caminho”, compara o pneumologista Sérgio Ricardo Santos, coordenador do PrevFumo (Núcleo de Apoio à Prevenção e Cessação do Tabagismo), da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
Segundo Santos, quanto mais próximo for o ex-fumante, maior costuma ser essa influência. “Dentro do núcleo familiar, é altíssima. Os pais estimulam muito os filhos e vice-versa. A relação entre marido e mulher é a mais forte”, diz.
A auxiliar administrativa Priscila Bezerra, 24, e o gerente de contas Gustavo Sachi, 27, ainda são namorados, mas o exemplo dele foi decisivo para que ela abandonasse o cigarro. Quando eles se conheceram, os dois fumavam. Há dois anos, Gustavo decidiu parar “de um dia para o outro”. “Não traz benefício nenhum. O cheiro é ruim, você gasta dinheiro e faz mal para a saúde”, justifica.
Depois que ele conseguiu, Priscila conta que o namorado, sutilmente, mandava recados. “Ele não chegou a falar para eu parar, mas me ajudou a cortar. Passou a reclamar do cheiro, do gosto, de quando eu ia comprar cigarro. Eu não podia mais fumar no carro dele. Tomei aversão ao cheiro e parei”, diz ela.
Hoje, os dois comemoram. “Sinto mais o cheiro e o gosto da comida, meu condicionamento para os esportes aumentou”, diz Gustavo. Segundo Priscila, além de ser bom para ela, parar ajudou no relacionamento. “Melhorou a sintonia entre nós dois.”

Sociedade não-fumante
A pesquisa também mostrou o impacto indireto que uma pessoa que pára de fumar exerce sobre o grupo social de fumantes, mesmo que esses indivíduos não se conheçam. É como um efeito dominó: quanto mais gente abandona o vício, mais a sociedade vai se tornando hostil ao tabagismo, e isso desfavorece o hábito de fumar.
Para Tânia Cavalcante, chefe da divisão de controle de tabagismo do Inca (Instituto Nacional de Câncer), o tabagismo é uma doença “transmissível socialmente”. “Numa sociedade em que todos fumam, a tendência é que esse comportamento cresça, ainda mais sendo uma dependência. O mesmo vale para o inverso.”
Segundo Sérgio Santos, o estudo de Harvard é o maior já feito e introduz um conceito novo: o da contagiosidade de parar de fumar. “Com a maior educação sobre o risco de fumar, diminui o número de fumantes, e cria-se um ambiente favorável a parar. É uma tendência em vários países. O fumante se sente acuado.”
Ao analisarem as relações nos círculos familiares e de amizades, os pesquisadores detectaram essa marginalização do fumante. O estudo mostra que, de 1971, início do levantamento, até 2000, último ano avaliado, eles foram se tornando mais periféricos nas redes sociais.
Para o pneumologista pediátrico João Paulo Lotufo, responsável pelo Projeto Antitabágico do Hospital Universitário da USP (Universidade de São Paulo), a aprovação de leis antifumo em ambientes fechados em vários países contribui para desencorajar o tabagismo. “Mudou o enfoque por causa do tabagismo passivo. Se eu não fumo, estar perto de um fumante é ruim para mim. Não-fumantes que moram com fumantes têm 25% a mais de chance de terem infarto e câncer de pulmão”, exemplifica.
A secretária Lindaci Maria Soares, 48, conta que esse foi um dos motivos pelos quais ela resolveu parar, após quase 40 anos fumando. “Mesmo quem fumava há muitos anos está parando. Quase não há ambiente para o fumante. Só se pode ir a áreas abertas e, mesmo assim, as pessoas reclamam.”
Outro fator que pesou muito foi ter descoberto uma bronquite crônica. Ela diz que adorava fumar e que era uma “referência” para os outros fumantes. Inclusive para as três filhas, Josiene, 21, Luciene, 26, e Cristiene, 27, que fumam desde a adolescência. “Elas me vêem como exemplo até nesse vício horroroso. Se eu não parar, elas não param”, diz. A mãe de Lindaci também fumava.
Agora que ela decidiu parar, as três filhas também se animaram. A do meio, Luciene Soares Luiz, fumante desde os 12, acompanha a mãe ao programa especializado que ela freqüenta. “Só fui [ao programa] porque ela estava indo. Perdi minha avó para o cigarro e fiquei assustada quando vi que minha mãe está doente”, conta.

Tratamento
Para Jônatas Reichert, presidente da comissão de tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia, outro fator que contribui para que parar de fumar se torne contagioso é o avanço nos tratamentos. “Antes, as pessoas não passavam muito a experiência para as outras porque, ao tentarem e falharem, sentiam-se impotentes. Hoje, com mais possibilidades de tratamento, aumentou o índice de sucesso e elas têm mais contato com casos bem-sucedidos”, diz.
Segundo Reichert, apenas 5% das pessoas conseguem abandonar o vício sozinhas. Ao sentir falta de ar e outros efeitos de 35 anos de dependência do cigarro, a consultora de treinamento Leila Cinelli Silveira, 56, decidiu procurar auxílio. Recebeu a indicação de adesivos de reposição de nicotina. Inspiradas no seu exemplo, a filha, a cunhada e a irmã também resolveram parar. “Até senti uma responsabilidade maior para não ter recaídas, pois sei que tenho três pessoas atrás de mim. Foi um incentivo”, diz.
Entre as estratégias inventadas por ela para driblar a abstinência, estava um “kit de sobrevivência” com cenouras, pepinos e ervas-doces cortados no tamanho de cigarros. Ela também guardou os R$ 3 diários que economizava deixando de comprar cigarros. “No fim do mês, comprei uma calça para me recompensar.”
Leila diz que se sente vitoriosa. “O fôlego é outro, a diferença na voz é incrível, a pele muda, os dentes ficam brancos, lisinhos. Achava que nunca iria conseguir, mas estou muito alegre comigo.”

Folha de S. Paulo - 10/7/08

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O ’rastro de sujeira’ chinês

“Bons ares” para setores da esquerda, centro e direita, o crescimento da economia chinesa é proporcional à degradação ambiental do país, cuja situação serve de alerta para outras nações emergentes.

João Reis (*)

A China enfrenta hoje uma grave crise ambiental. Seus dois principais rios - o Azul e o Amarelo -, que cortam boa parte do vasto território chinês, estão poluídos, assim como o ar do país, que chega a afetar nações vizinhas, como as Coréias do Sul e do Norte.

Tais condições vêm provocando uma série de problemas à sociedade chinesa, traduzindo-se em perdas à economia - em 2007, foram gastos 64 bilhões de dólares com problemas decorrentes da degradação de seu meio ambiente, o equivalente a 3% de seu PIB - conseqüentemente, num empecilho ao próprio desenvolvimento da China.

Desde a eclosão do “boom” econômico chinês, há aproximadamente 10 anos, políticos, ambientalistas, entre outros, não deixam calar a pergunta: e se os chineses começarem a consumir na proporção em que crescem? Preocupam-se porque sabem que o mundo não suportaria um novo Estados Unidos. Não há “infra-estrutura natural” para dar conta de mais de 1 bilhão de indivíduos, em apenas um das centenas de países, vivendo como o american way of life designa.

As autoridades chinesas, aparentemente, já tomam providências, ainda que tais ações reflitam a iminência das olimpíadas de Pequim, em 2008, podendo ser apenas provisórias, sem projeções a longo prazo. Se for o caso, a preocupação persiste: se as atividades chinesas já prejudicam países próximos, dentro de alguns anos poderão ter implicações em todo o ecossistema terrestre.

A situação vivida pela China serve de lição a outros países emergentes, incluindo o Brasil. Regidos ainda por um modelo de desenvolvimento insustentável, por serem utilizados pelas nações mais desenvolvidas como zonas industriais, fazendas, plantações e, atualmente, até como reservas de oxigênio, esses países gabam-se por seus superávits e pelo crescimento na produção e exportação, enquanto superexploram seus recursos naturais. Ao invés de perpetuarem tais condições - quase que de subserviência - os países emergentes deveriam investir em educação, em pesquisas, formalizar patentes e, principalmente, planejar seu desenvolvimento com responsabilidade socioambiental.

Caso não haja uma mudança de paradigma, com a aplicação de modelos que conciliem as necessidades humanas e a preservação ambiental, tanto a China como o Brasil e a Índia poderão seguir o mesmo caminho que os países desenvolvidos já vem trilhando há algum tempo, deixando um ’rastro de sujeira’ que é responsável pelas atuais condições do meio ambiente terrestre.

É preciso, portanto, que os países emergentes se unam para pressionar o resto do mundo a adotar práticas sustentáveis, principalmente os países desenvolvidos. Afinal, num mundo globalizado, em que o fluxo internacional de capitais dita o ritmo de desenvolvimento de países em todo o planeta, aqueles que não adotam estratégias de crescimento agressivas, quase sempre prejudiciais ao meio ambiente, saem perdendo (recebem menos investimentos; são considerados rústicos e obsoletos). Daí a importância de se promover uma transformação radical nos modelos que regem as relações produtivas em escala planetária, a começar pelas principais potências mundiais.

(*) João Reis é estudante de jornalismo e colaborador da Revista Consciência.Net

“NovaE”

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Cinco pães e dois peixes

Como essa pediatra conseguiu multiplicar informação e solidariedade entre os mais pobres dos pobres

Mônica Manir

Nesta semana, Zilda Arns subiu duas vezes ao palco: para receber o prêmio ‘Mulheres Mais Influentes do Brasil’, da Revista Forbes, em nome da ministra Marina Silva, que lá não pôde estar. E para receber a mesma estatueta em nome de si própria. Num vestido verde-água e branco, ela pediu no mesmo tom brando que a sociedade se mostre mais solidária, que todos os pobres sejam incluídos, que cuidemos de nossas crianças e adolescentes e que Deus nos acompanhe a todos.

Nesta mesma semana, a pediatra e sanitarista anunciou que descerá da coordenação da Pastoral da Criança em 2007.

Há 23 anos, ela aceitou a encomenda de Dom Paulo Evaristo, seu irmão, para tocar um projeto da Igreja que guilhotinasse as altíssimas taxas de mortalidade infantil do País. A proposta-piloto nasceu em Florestópolis, no Paraná, onde morriam 127 crianças para cada mil nascidas vivas. Depois de um ano, a Pastoral da Criança derrubava o índice para 28 mortes.

Inspirada na multiplicação de peixes e pães do Evangelho, a Pastoral se proliferou em mais de 42 mil comunidades (as mais pobres das pobres), onde mais de 270 mil voluntários (a maioria tão pobre quanto) orientam gestantes e tiram crianças com menos de 6 anos da desnutrição, da pneumonia, da diarréia. É o maior programa do gênero no mundo - mundo aliás que requisita seus serviços como uma franquia de solidariedade. A Pastoral já atua em 14 países na América Latina, Ásia e África. O próximo na lista de espera é o Haiti.

Antes que alguém peça pelo amor de Deus que ela fique, Zilda Arns avisa que não vai embora de vez. Apenas quer aproveitar, enquanto desfruta de ótima saúde aos 72 anos, para olhar de perto o trabalho da Pastoral da Criança nos bolsões de pobreza e alimentar com sustância a Pastoral da Pessoa Idosa, criada há dois anos. ‘A criança e o idoso são as pontas mais frágeis da sociedade’, diz. No bolsão de riqueza da Daslu, onde ocorreu a entrega dos prêmios das mulheres mais influentes, a médica fez um retrato da obra que marca sua vida e a de milhões de crianças.

Porqueasenhoradeixaráacoordenação da Pastoral da Criança no ano que vem?
Coordeno há 23 anos a Pastoral. Ela já está consolidada, muito organizada. Quero dar oportunidade para outros conduzirem os trabalhos. Além disso, penso em passar o bastão enquanto estiver com força, bem de saúde, para poder visitar as comunidades. Faz um mês fui ao Piauí. Estive em Teresina, Picos, Parnaíba e São Raimundo Nonato. Encontrei as lideranças lá, elas vêm me abraçar, isso anima a pastoral.
Há dois anos também coordeno a Pastoral da Pessoa Idosa, que acompanha 54 mil idosos por mês. Quero que ela se desenvolva tão bem como a Pastoral da Criança.

A Pastoral da Criança já alcançou todos os seus objetivos?
A Pastoral precisa ser aperfeiçoada porque nosso lema é atender os mais pobres dos pobres, entre os quais encontramos todo tipo de problema social. Uma das nossas prioridades é, em 2007 e 2008, concentrar esforços para reduzir ainda mais a mortalidade das crianças abaixo de 28 dias. No Brasil, 50% ou mais vão a óbito antes de completar esse tempo de vida. Entre as crianças atendidas pela Pastoral, a porcentagem é de 36%. Lembro que no começo do nosso trabalho, em 1983, eram 80 mortes por mil. Agora estamos com 15 em mil.

Quais as causas principais de mortalidade entre as crianças atendidas pelo programa?
Várias ainda nascem com traumatismos de parto ou com problemas não tratados durante o pré-natal, pois muitas mães escondem a gravidez ou dão pouca importância aos cuidados durante a gestação. Os bebês nascem prematuros ou com baixo peso. A segunda maior causa de mortalidade, especialmente antes de 1 ano de vida e entre crianças desnutridas, é a pneumonia. As mães nem sempre identificam a doença a tempo e, às vezes, falta penicilina para o tratamento. A terceira causa são as diarréias, que afetam mais a população da Amazônia. Nesse sentido, precisamos implementar a utilização do soro caseiro.

A multimistura continua sendo o carro-chefe da pastoral no combate à desnutrição?
Em 2005, foi realizada uma pesquisa sobre o farelo ‘multimistura’. Ela demonstrou que a alimentação enriquecida com alimentos regionais e frescos é mais nutritiva do que o farelo usado como complemento alimentar. É importante resgatar que, na origem, a multimistura se propunha a ser uma combinação de alimentos com alto valor nutritivo, baixo custo, bom paladar e produção regionalizada. Mas, no paralelo, um grupo se entusiasmou com quatro ingredientes - farelo de arroz, farelo de trigo, pó da casca de ovo e folhas de mandioca - e começou a padronizar a produção. Essa tetramistura não era a ideal e ainda poderia prejudicar a saúde por uma possível contaminação na elaboração do produto. Também não se pôde afirmar que funcionava contra a desnutrição ou contra a anemia.

Há algum trabalho da Pastoral quanto à obesidade?
Estamos estudando o problema, ainda não informatizamos a informação.

Os serviços de saúde são bons parceiros do programa?
Apesar das críticas, o SUS é o melhor serviço de saúde pública do mundo. Ele é universal, está bastante descentralizado.
Só 4% das nossas gestantes encaminhadas ao Sistema não foram atendidas. Mas existem locais, como o Amapá e alguns pontos da Amazônia, em que não há luz elétrica, vacina ou médico. No próximo ano, a Campanha da Fraternidade será sobre a Amazônia. Já estou programando para agosto e setembro visitar os Estados da região. Planejo escutar e abraçar os líderes e os os voluntários, mas também quero encontrar os religiosos e os políticos.

Qual é o perfil dos voluntários?
Contamos com mais de 270 mil voluntários. A maioria (48,5%) tem entre 19 e 39 anos e aproximadamente 90 mil possuem primeiro grau incompleto. São pessoas simples, das próprias comunidades. Só pedimos que tenham o mínimo de tempo disponível, 24 horas por mês, para o trabalho. Cerca de 92% são mulheres, a maioria católica.

Para ser um bom voluntário é preciso ter fé?
Não precisa ter fé, mas boa vontade para melhorar a condição da criança e da pobreza no Brasil. Precisa ter um ideal. O fato de a maioria ser católica se deve ao fato de a Pastoral da Criança ser um organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Utilizamos toda a infra-estrutura da Igreja, a paróquia, as capelas, as comunidades. E não temos propriedades - a não ser que nos doem.

De onde vêm os recursos?
Nossos maiores parceiros são os voluntários. Eles não contribuem com dinheiro, mas, se fôssemos contabilizar seu trabalho com base no salário mínimo e em cima de 24 horas mensais, o valor seria de R$ 78 milhões.
Isso significa mais do que o dobro do total de recursos financeiros recebidos de parcerias e convênios com empresas e outras instituições, que, no último ano fiscal, foi de R$ 33 milhões.

Isso é suficiente?
Gastamos cerca de R$ 1,50 por criança ao mês, isso de outubro do ano passado a setembro deste ano. Despendemos pouco em administração e mais em atividades-fim, como capacitação de líderes, visita a famílias, recuperação de desnutridos, transporte de voluntários. Precisamos, na verdade, é de mais voluntários de todas as classes sociais, que possam dar apoio, por exemplo, no Dia da Celebração da Vida, realizado em 42 mil comunidades por mês. É o dia em que pesamos as crianças.

Há entraves culturais ao trabalho da Pastoral?
Muitas vezes o povo se conforma com que as coisas andem mal. Alguns maridos também não permitem que as voluntárias visitem as famílias. Mas, no geral, a diversidade cultural é uma riqueza. No Dia da Celebração da Vida, por exemplo, os índios têm o costume de acompanhar a pesagem. Então, quando se esperam 50 pessoas, aparecem 200 delas, famílias inteiras. Eu acho bonito, mas precisamos estar preparados porque distribuímos um lanche nesse dia, eles vão até lá também esperando comer.

Qualéopapeldaeducaçãona metodologia do programa?
A nossa metodologia é baseada no milagre dos pães e dos peixes, presente no Evangelho de São João. Com dois peixes e cinco pães, ele alimentou mais de 5 mil homens, fora mulheres e crianças. Nosso maior alimento é a informação e a solidariedade. Isso gera autonomia para que os pais possam cuidar dos filhos sem depender do posto de saúde ou de outros recursos. O melhor é atuar na educação para que se possa prevenir a doença. Para isso, a Pastoral visita mais de 1 milhão e 450 mil famílias por mês, famílias com gestantes e crianças menores de 6 anos.

É alto o índice de analfabetos?
Já foi muito maior. Quando comecei a pastoral, o número de analfabetos em certas comunidades era de 80%, 90%. Por isso a Irmã Maria Helena, minha irmã, uma grande pedagoga, criou o curso de alfabetização para jovens e adultos na Pastoral. Eu me lembro de uma comunidade no Pará em que apenas um líder de um grupo de 20 sabia ler, os outros ficavam de olhos fechados quando a gente falava. Perguntei por que não olhavam para mim. ‘É porque, assim, guardam melhor sua fala na memória’, disseram. Os filhos deles, aqueles que já sabiam ler e escrever, pegavam o material que distribuímos - O Guia do Líder, por exemplo - e iam narrando para os pais. Se analisar esse material, verá que tem muita fotografia e textos em letras grandes porque o nosso pessoal também tem dificuldade para comprar óculos.

APastoralsepreocupacom oplanejamento familiar?
A Pastoral ensina os métodos naturais, mas encaminhamos a mulher ou o casal ao posto de saúde para obter mais informação sobre outras possibilidades. Respeitamos a decisão do casal. Agora, o melhor método de planejamento familiar no mundo é a educação. Quanto mais baixa a educação, maior o número de filhos. Na Pastoral, a média de crianças com menos de 6 anos é menor do que a média nacional, que inclui todas as classes sociais. Por quê? Porque as mães são orientadas desde cedo a cuidar dos filhos, vêem que precisam amamentar mais tempo, dar educação e tal. O que se pode esperar de analfabetos sem perspectiva alguma, que vivem amontoados como animais?

Por que focar o trabalho em crianças com menos de 6 anos?
Quando comecei com a Pastoral, as crianças normalmente iam para a escola depois dessa idade. A partir de então, havia uma estrutura social que as acompanhava. Por causa do ensino público de baixa qualidade, as mães pedem para que seus filhos de 7, 8 anos continuem ou entrem para a Pastoral. A gente não proíbe, mas eles não entram na nossa estatística. Temos, no Brasil, 9 milhões de crianças menores de 6 anos que são pobres. Atendemos perto de 2 milhões delas, apenas. Precisamos alcançar os 9 milhões.

Menoresderuafazempartedaestatística da pastoral?
Trabalhamos com prevenção, não com meninos de rua. Não temos uma pesquisa sobre isso, mas sabemos que, nas CPIs que investigaram a prostituição infantil em São Paulo, Brasília e Fortaleza, não constou o nome de nenhuma criança ou adolescente prostituída que fosse ou tivesse sido da Pastoral. O padre Júlio Lancellotti, que cuida da Pastoral do Menor, sempre diz que a melhor prevenção contra a exploração de meninos na rua é a Pastoral da Criança.

A Pastoral da Pessoa Idosa também vai atrás dos mais pobres ?
A metodologia é inspirada no milagre da multiplicação, organizam-se redes comunitárias e de voluntários. Mas também queremos acompanhar idosos de classe média e alta porque abandono e sofrimento não faltam. Crianças e idosos são as pontas mais frágeis da sociedade. Muitos idosos são explorados, quase não ficam com nada do que ganham de aposentadoria ou pensão. Quando a gente visita a família, vê que estão largados, sem banho há uma semana, às vezes com a urina solta, a auto-estima em baixa.

A Pastoral da Criança está presente em 14 países. Pretende expandir mais seus braços?
Em 2007 vamos para o Haiti, que vem pedindo nosso trabalho há três anos. Já estamos na Angola, em Guiné-Bissau, Moçambique, nas Filipinas, no Timor Leste, no Paraguai, na Argentina, no Uruguai, na Bolívia, na Colômbia, na Venezuela, no México, na República Dominicana e no Panamá. No Timor, encontrei assustadoramente mais desnutridos que nutridos. Queremos implantar lá um sistema de informação, já que temos o melhor do mundo nesse sentido. Sabemos a cada mês como estão as crianças e devolvemos a avaliação para as comunidades a cada três meses.

O Bolsa-Família fez diferença no combate à pobreza?
Ainda é cedo para avaliar, mas uma coisa tenho notado: as famílias, tendo dinheiro, movimentam o desenvolvimento comunitário. Só que não pode ficar nisso. Tem que abrir portas de saída. É preciso diminuir um pouco a burocracia e fomentar projetos de geração de emprego. O Bolsa-Família quer que a criança vá para a escola, mas a qualidade do ensino tem de melhorar muito. Vale pagar para isso acontecer.

Estado de S. Paulo

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Elogio ao Ócio

Bertrand Russell
1932

Como a maior parte das pessoas de minha geração, eu cresci ouvindo que o ócio é o pai de todos os vícios. Sendo uma criança bastante virtuosa, acreditava em tudo o que me diziam, e minha consciência tem me mantido trabalhando duro até hoje. Mas ainda que a minha consciência tenha controlado as minhas ações, minhas opiniões passaram por uma revolução. Penso que se trabalha demais atualmente, que danos imensos são causados pela crença de que o trabalho é uma virtude, e que nas modernas sociedades industriais devemos defender algo totalmente diferente do que sempre se apregoou. Todos conhecem a estória do viajante que em Nápoles viu doze indigentes deitados ao sol (isto foi antes de Mussolini), e ofereceu uma lira ao mais preguiçoso. Onze deles se levantaram para reivindicá-la, e então ele a dou para o décimo segundo. Foi uma decisão correta. Mas em países que não gozam do do Mediterrâneo o ócio é mais difícil, e uma grande campanha seria necessária para fazê-lo vingar. Espero que, depois de lerem as próximas páginas, os líderes da YMCA comecem uma façam para convencer jovens de bom caráter a não fazer nada. Se isto acontecer, vinha vida não terá sido em vão.
Antes de avançar em minha argumentação a favor da preguiça, devo me desfazer de uma que não posso aceitar. Sempre que uma pessoa que já tem o suficiente para viver dedica-se a um trabalho comum, como dar aulas ou datilografar, dizem-na que esta conduta tira o pão da boca de outras pessoas, e portanto ela é má. Se este argumento fosse válido, seria necessário somento que todos nós não fizéssemos nada para que todas as bocas tivessem pão à disposição. O que pessoas que dizem estas coisas esquecem é que o que um homem ganha ele geralmente gasta, e ao gastar gera empregos. Desde que um homem gaste a sua renda, ele coloca tanto pão na boca das pessoas ao gastar quanto tira ao ganhar. O verdadeiro vilão, deste ponto de vista, é o poupador. Se ele apenas junta o seu dinheiro, é óbvio que não gerará empregos. Se ele investe sua poupança, o caso é menos óbvio, e surgem casos diferentes.
Uma das coisas mais comuns que se faz com a poupança é emprestá-la a algum governo. Considerando-se o fato de que a maior parte das despesas públicas de quase todos os governos civilizados consiste nas dívidas das guerras passadas ou na preparação de guerras futuras, quem empresta seu dinheiro ao governo acha-se na mesma posição do vilão que aluga assassinos de Shakespeare. O resultado líquido de seus hábitos econômicos é aumentar as forças armadas do Estado ao qual ele empresta sua poupança. Obviamente, seria melhor gastar o dinheiro, mesmo que fosse com bebida ou no jogo.
Mas devo dizer que o caso é bastante diferente quando a poupança é investida em empresas industriais. Quando estas empresas prosperam e produzem algo útil, isto pode ser admitido. Mas, atualmente, ninguém negará que a maioria das empresas estão falindo. Isto significa que uma grande quantidade de trabalho humano, que deveria ter sido devotado a produzir algo que pudesse ser aproveitado, foi gasto ao produzir máquinas que, quando produzidas, ficam ociosas e não beneficiam ninguém. Quem investe sua poupança em negócios fracassados está portanto prejudicando a outros tanto quanto a si mesmo. Se ele tivesse gasto o dinheiro, por exemplo, para fazer festas com seus amigos, eles (podemos esperar) teriam prazer, e também todos aqueles com os quais gastamos dinheiro, como o açouguiro, o padeiro e o fornecedor de bebidas. Mas se ele gasta a poupança (digamos) na construção de ferrovias em lugares onde trens não são desejáveis, ele desviou uma massa de trabalho para canais onde não traz benfícios a ninguém. No entanto, quando se trona pobre devido às falhas de seus investimentos será considerado uma vítima de desmerecida má-sorte, enquanto o alegre esbanjador, que gastou o seu dinheiro filantropicamente, será menosprezado como uma pessoa tola e frívola.
Tudo isto é preliminar. Quero dizer, com toda a seriedade, que muitos males estão sendo causados ao mundo moderno pela crença na virtude do trabalho, e que o caminho para a felicidade e prosperidade está em uma diminuição organizada do trabalho.
Antes de mais nada: o que é trabalho? Há dois tipos de trabalho: o primeiro, alterar a posição de um corpo na ou próximo à superfície da Terra relativamente a outro corpo; o segundo, mandar outra pessoa fazê-lo. O primeiro tipo é desagradável e mal pago; o segundo é agradável e muito bem pago. O segundo tipo é capaz de extensão indefinida: há não somente aqueles que dão ordens, mas aqueles que dão conselhos sobre que ordens deveriam ser dadas. Geralmente dois tipos opostos de conselhos são dados simultaneamente por dois grupos organizados; a isto se chama política. A habilidade necessária a este tipo de trabalho não é conhecimento dos assuntos sobre os quais são dados conselhos, mas conhecimento da arte da fala e da escrita persuasiva, isto é, da propaganda.
Na Europa, mas não na América, há uma terceira classe de homens, mais respeitada do que qualquer uma das outras classes de trabalhadores. Há homens que, pela propriedade da terra, podem fazer outros pagarem pelo privilégio de poderem existir e trabalhar. Estes proprietários de terras são ociosos, e portanto se esperaria que eu os elogiasse. Infelizmente, a sua ociosidade se torna possível pelo trabalho de outros; de fato, seu desejo pelo ócio confortável é historicamente a fonte de todo evangelho do trabalho. A última coisa que eles desejariam é que outros seguissem o seu exemplo.
Desde o início da civilização até a Revolução Industrial, um homem podia, como regra geral, produzir com trabalho duro um pouco mais do que o necessário para a subsistência de si próprio e de sua família, ainda que sua mulher trabalhasse pelo menos tanto quanto ele, e seus filhos colaborem assim que tem idade suficiente. O pequeno excedente acima das necessidades básicas não era deixada para aqueles que o produziram, mas era apropriado por guerreiros e sacerdotes. Em tempos de fome não havia excedente; os guerreiros e sacerdotes, entretanto, ainda tinham tanto quanto em outros tempos, e como resultado muitos dos trabalhadores morriam de fome. Este sistema persistiu na Rússia até 1917 [1], e ainda persiste no oriente; na Inglaterra, apesar da Revolução Industrial, ele sobreviveu com pleno vigor através das guerras napoleônicas, e até cem anos atrás, quando a nova classe de manufatureiros chegou ao poder. Na América, o sistema acabou com a revolução, exceto no sul, onde ele persistiu até a Guerra Civil. Um sistema que durou por tanto tempo e acabou tão recentemente naturalmente deixou impressões produndas nas opiniões e mentes dos homens. Muito do que tomamos por certo sobre a desejabilidade do trabalho é derivado deste sistema, que, sendo pré-industrial, não se adeqüa ao mundo moderno. A técnica moderna tornou possível que o lazer, dentro de certos limites, não seja uma prerrogativa de uma pequena classe privilegiada, mas um direito distribuído eqüanimemente pela comunidade. A moral do trabalho é a moral de escravos, e o mundo moderno não precisa da escravidão.
É óbvio que, nas comunidade primitivas, os camponenes, se dependesse de sua vontado, não entregariam o pequeno excedente para a subsistência de guerreiros e sacerdotes, mas teriam produzido menos ou consumido mais. No início, eles eram forçados a produzir mais e entregar o excedente. Gradualmente, entretanto, descobriu-se que era possível induzir muitos deles a aceitar uma ética segundo a qual era sua obrigação trabalhar duro, ainda que parte de seu trabalho fosse para sustentar o ócio de outros. Deste modo, diminuíram a necessidade de coerção e as despesas do governo. Ainda hoje, 99 por cento dos assalariados britânicos ficariam genuinamente chocados se lhes fosse dito que o rei não deveria ter uma renda maior do que a de um trabalhador. A concepção do dever, historicamente falando, foi um meio usado pelos donos do poder para induzir outros a viver pelos interesses de seus senhores e não pelos seus próprios. Claro que os donos do poder escondem isto de si mesmos ao acreditar que seus interesses coincidem com os interesses maiores da humanidade. Às vezes isto é verdae; donos de escravos atenienses, por exemplo, empregaram parte de seu lazer dando contribuições permanentes à civilização que teriam sido impossíveis sob um sistema econômico justo. O lazer é essencial à civilização, e em outros tempos o lazer para uns poucos somente era possível pelo trabalho de muitos. Mas seu trabalho era valioso não porque o trabalho seja bom, mas porque o lazer é bom. E com a técnica moderna seria possível distribuir o lazer de forma justa, sem prejuízos à civilização. A técnica moderna tornou possível diminuir enormemente a quantidade de trabalho necessário para assegurar as necessidades vitais para todos. Isto se tornou óbvio durante a Primeira Guerra Mundial. Naquele tempo todos os homens nas forças armadas, e todos os homens e mulheres envolvidos na produção de munição, e todos os homens e mulheres envolvidos com espionagem, propaganda de guerra ou escritórios governamentais relacionados com a guerra foram tirados de ocupações produtivas. Apesar disto, o nível geral de bem-estar entre assalariados não-qualificados do lado dos aliados era mais alto do que antes ou mesmo depois da Guerra. O significado deste fato era escondido pelas finanças: empréstimos fizeram parecer que o futuro estava nutrindo o presente. Mas isto, é claro, seria impossível; um homem não pode comer um pão que não existe. A guerra mostrou conclusivamente que, através da organização científica da produção, é possível manter as populações modernas em razoável conforto com uma pequena parte da capacidade de trabalho do mundo moderno. Se, ao final da guerra, a organização científica que foi criada para liberar homens para as guerras e produção de munição fosse preservada, e as jornada de trabalho fosse reduzida para quatro horas, tudo teria ficado bem. Aos invés disto, o antigo caos foi restaurado, aqueles cujo trabalho era necessário voltaram às longas horas de trabalho, e o restante foi deixado à mingua no desemprego. Por quê? Porque o trabalho é um dever, e um homem não deveria receber salários proporcionalmente ao que produz, mas proporcionalmente à virtude demonstrada em seu esforço.
Esta é a moral do Estado escravista, aplicada em circunstâncias totalmente diferentes daqueles na qual surgiu. Não é surpresa que o resultado tenha sido desastroso. Façamos uma ilustração. Suponha-se que em um dado momento um certo número de pessoas estajam envolvidas na produção de alfinetes. Elas fazem tantos alfinetes quanto o mundo precisa, trabalhando (digamos) oito horas por dia. Alguém faz uma invenção através da qual o mesmo número de pessoas pode fazer duas vezes o número original de alfinetes. Mas o mundo não precisa mais de alfinetes, dificilmente algum seria comprado por um preço menor. Em um mundo sensato, todos os envolvidos na fabricação de alfinetes passariam a trabalhar quatro horas ao invés de oito, e tudo continuaria como antes. Mas no mundo real, isto seria considerado desmoralizante. Os homens ainda trabalham oito horas, há excesso de alfinetes, alguns empregadores quebram, e metade dos homens previamente ocupados em fabricar alfinetes são despedidos. Há, ao final, exatamente a mesma quantidade de lazer do outro plano, mas a metado dos homens fica totalmente ociosa enquanto a outra metade ainda está sobrecarregada. Deste modo, é assegurado que o lazer inevitável deva causar misério no mundo inteiro ao invés de ser uma fonte universal de felicidade. Pode ser imaginado algo mais insano?
A idéia de que os pobres devam ter lazer sempre foi chocante para os ricos. Na Inglaterra, no início do século dezenove, quinze horas era a jornada comum para um homem; algumas vezes crianças trabalhavam tanto quanto, e muito comumente trabalhavam doze horas por dia. Quando alguns intrometidos sugeriram que talvez estas horas fossem exageradas, foi-lhes dito que o trabalho afastava os adultos da bebida e as crianças da marginalidade. Quando eu era criança, pouco depois de os trabalhadores urbanos conquistarem o direito ao voto, certos feriados foram estabelecido por lei, para a grande indignação das classes superiores. Lembro ter ouvido uma velha duquesa dizer: “O que os pobres querem com feriados? Eles tem que trabalhar”. Hoje em dia as pessoas não são tão francas, mas o sentimento persiste, e é a fonte de boa parte de nossa confusão econômica.
Vamos, por um momento, considerar a ética do trabalho francamente, sem superstição. Todo ser humano, por necessidade, consome, durante sua vida, uma certa quantidade de produtos do trabalho humano. Assumindo, como podemos, que o trabalho é como um todo desagradável, é injusto que um homem consuma mais do que produza. Claro que ele pode fornecer outros serviços que não commodities, como um médico, por exemplo; mas ele deveria fornecer algo em troca de seu sustento. Até este ponto, o dever do trabalho deve ser admitido, mas somente até este ponto.
Não pretendo insistir no fato de que, em todas as sociedades fora da URSS, muitas pessoas escaparam mesmo desta quantidade mínima de trabalho, a saber aqueles que herdam dinheiro e todos aqueles que se casam por dinheiro. Não penso que o fato de a estas pessoas ser permitido ser ociosas seja tão perigoso quanto o fato de que se exija dos assalariados a escolha entre a sobrecarga e a privação.
Se o trabalhador comum trabalhasse quatro horas por dia, haveria o suficiente para todos e não haveria desemprego - assumindo um moderado senso de organização. Essa idéia choca os abastados, porque eles estão convendicos de que os pobres não saberiam como usar tanto lazer. Nos Estados Unidos, os homens freqüentemente trabalham longas horas emsmo quando estão bem financeiramente; tais homens, naturalmente, se idignam com a idéia do lazer para assalariados, exceto na forma do cruel castigo do desemprego; de fato, eles não gostam de lazer nem mesmo para seus filhos. Estranhamente, enquanto querem que seus filhos trabalhem tão duro que não tenham tempo para serem civilizados, eles não se importam que suas esposas e filhas não tenham absolutamente nenhum trabalho. A inutilidade esnobe, que em uma sociedade aristocrática se estende a ambos os sexos, é, sob uma plutocracia, confinada às mulheres; isto, entretanto, não a torna mais sensata.
O uso sábio do lazer, deve-se conceder, é produto de civilização e educação. Um homem que tenha trabalhado longas horas a vida inteira fica entendiado se se torna subitamente ocioso. Mas sem considerável quantidade de lazer um homem é privado de muitas das melhores coisas. Não há mais nenhuma razão para que a maior parte da população sofra dessa privação; somente um ascetismo tolo, geralmente paroquiano, nos faz continuar a insistir em excessivas quantidades de trabalho agora que não há mais necessidade.
No novo credo que controla o governo da Rússia, ainda que haja muitas diferenças com os ensinamentos tradicionais do ocidente, há algumas coisas que são bastante inalteradas. A atitude das classes governantes, e especialmente daquelas que conduzem a propaganda educacional, sobre a dignidade do trabalho, é quase exatamente o que as classes governantes do mundo sempre tem defendido para o que eles chamaram de “pobres honestos”. Trabalho duro, sobriedade, força de vontade para trabalhar longas horas por vantagens pequenas, e mesmo submissão à autoridade, tudo isto reaparece; além disso, a autoridade ainda representa a vontade do Juiz do Universo, que, entretanto, é agora chamado por um novo nome, Materialismo Dialético.
A vitória do proletariado na Rússia tem alguns pontos em comum com a vitória das feministas em alguns outros países. Por séculos os homens concederam a santidade superiror às mulheres, e as consolou for sua inferioridade argüindo que a santidade é mais desejável do que o poder. Finalmente as feministas decidiram que elas teriam ambos, uma vez que as pioneiras entre elas acreditavam em tudo que os homens lhe falavam sobre a desejabilidade da virtude, mas não o que eles lhes falaram sobre a falta de valor do poder político. Algo similar aconteceu na Rússia em relação ao trabalho manual. Por séculos, os ricos e seus sicofantas escreveram elogios ao “trabalho duro honesto”, elogiaram a vida simples, professaram a religião que ensina que os pobres tem muito mais chances de ir para o céu do que os ricos, e em geral tentaram fazer trabalhadores manuais acreditar que há uma nobreza especial em alterar-se a posição de corpos no espaço, da mesma forma que os homens tentaram fazer as mulheres acreditarem que elas extraíam uma nobreza especial de sua escravatura sexual. Na Rússia, todos estes ensinamentos sobre o trabalho manual foi levado a sério, com o resultado de que o trabalhador manual é mais honrado do que qualquer outro. Ou seja, em essência, são feitos apelos revivalistas, mas não para os velhos propósitos: eles são feitos para assegurar trabalhadores brutos para tarefas especiais. O trabalho manual é o ideal que é mantido perante os jovens, e é a base de todo ensinamento ético.
No presente, possivelmente, isto é para o bem. Um país grande, cheio de recursos naturais, aguarde desenvolvimento, e tem que ser desenvolvido com muito pouco uso de crédito. Nestas circunstâncias, o trabalho duro é necessário, e provavelmente traga uma grande recompensa. Mas o que acontecerá quando chegarmos ao ponto em que todos possam viver confortavelmente sem trabalhar longas horas?
No ocidente, temos várias maneiras de lidar com este problema. Não tentamos fazer justiça econômica, de forma que uma grande proporção da produção total vai para uma pequena minoria da população, e boa parte dela simplesmente não trabalha. Devido à ausência de qualquer controle central sobre a produção, produzimos grande quantidade de coisas que não precisamos. Mantemos uma grande percentagem da população trabalhadora ociosa, porque podemos dispensar seu trabalho dando sobretrabalho a outros. Quando todos estes métodos se provarem inadeqüados, temos a guerra: colocamos muitas pessoas a fabricar explosivos, e muitas outras para explodi-los, como se fôssemos crianças que recém descobriram os fogos de artifício. Combinando estes mecanismo, somos capazes, com dificuldade, de manter viva a noção de que uma grande quantidade de trabalho manual intenso é o quinhão inevitável do homem comum.
Na Rússia, devido à maior justiça econômica e ao controle central sobre a produção, o problema terá que ser resolvido de forma diferente. A solução racional seria, tão logo as necessidades e confortos elementares possam ser fornecidos a todos, reduzir as horas de trabalho gradualmente, permtindo o voto popular para decidir, a cada estágio, se mais lazer ou mais bens seriam preferíveis. Mas, tendo ensinado a virtude suprema do trabalho duro, é difícil vislumbrar como as autoridades poderiam apontar para o paraíso no qual haverá muito lazer e pouco trabalho. Parece mais provável que eles continuamente achem sistemas novos, pelos quais apresentem que o lazer deve ser sacrificado pela produtividade futura. Eu li recentemente sobre um plano engenhoso elaborado por engenheiros russos, para aquecer o Mar Branco e a costa do norte da Sibéria, colocando uma barragem no Mar Kara. Um projeto admirável, mas sujeito a adiar o conforto dos proletarios por uma geração, enquanto a nobreza do trabalho duro é posto em evidência no meio das geleiras e nevascas do Oceano Ártico. Este tipo de coisa, se acontecer, será o resultado de considerar a virtude do trabalho duro como um fim em si mesmo, ao invés de um meio para um estado de coisas no qual ele não é mais necessário.
O fato é que mudar corpos de lugar, ainda que em certa quantidade seja necessário à nossa existência, não é, em absoluto, um dos objetivos da vida humana. Se fosse, teríamos que considerar todo operador de britadeira superior a Shakespeare. Temos sido enganados neste aspecto por duas razões. Uma é a necessidade de manter os pobres aplacados, o que levou os ricos, for milhares de anos, a defender a dignidade do trabalho, enquanto cuidavam eles mesmos de se manterem indignos a este respeito. A outra é o novo prazer no maquinismo, que nos delicia com as espantosas transformações que podemos causar na superfície da Terra. Nenhum destes motivos tem grande apelo ao trabalhador real. Se se pergunta a ele o qual ele acha a melhor parte de sua vida, não é provável que ele dia: “Eu gosto do trabalho manual porque ele me faz sentir que estou fazendo a tarefa mais nobre do homem, e porque eu gosto de pensar o quanto o homem pode transformar o planeta. É verdade que o meu corpo necessitam períodos de descanso, que devo preencher da melhor forma possível, mas eu nunca fico tão feliz quanto quando chega a manhã e eu posso retornar ao trabalho duro do qual provém o meu contentamento”. Eu nunca ouvi trabalhadores dizerem este tipo de coisa. Eles consideram o trabalho como ele deve ser considerado, um meio necessário à sobrevivência, e é de seu lazer que eles obtém qualquer felicidade que possam ter.
Há quem diaga que, enquanto um pouco de lazer é prazeroso, os homens não saberiam como preencher seus dias se tivessem somente quatro horas de trabalho nas suas vinte e quatro horas do dia. Considerar isto uma verdade no mundo moderno é uma condenação de nossa civilização; as coisas nunca foram assim. Havia anteriormente uma capacidade de despreocupação e divertimento que foi de certo modo inibido pelo culto à eficiência. O homem moderno pensa que tudo deve ser feito pelo bem de alguma outra coisa, e nunca por seu próprio bem. Pessoas sisudas, por exemplo, continuamente condenam o hábito de ir ao cinema, e nos dizem que isto leva a juventude ao crime. Mas todo o trabalho que se tem para fazer cinema é respeitável, porque é trabalho, e porque traz uma recompensa em dinheiro. A noção de que as atividades desejáveis são aquelas que trazem lucro é uma inversão da ordem das coisas. O açougueiro que lhe fornece carne e o padeiro que lhe fornece pão são dignos de louvor, porque estão ganhando dinheiro; mas quando se saboreia a comida que eles forneceram, se é frívolo, a não ser que se coma somente para ficar forte para o seu trabalho. Falando de maneira geral, diz-se que ganhar dinheiro é bom e gastar dinheiro é ruim. Vendo que são dois lado de uma transação, isto é absurdo; poderia se dizer que chaves são boas, mas fechaduras são ruins. Qualquer mérito que haja na produção de bens deve ser inteiramente retirado da vantagem a ser obtida consumindo-os. O indivíduo, em nossa sociedade, trabalho pelo lucro; mas a finalidade social do trabalho se baseia no consumo do que ele produz. É este divórcio entre o indivíduo e a finalidade social da produção que torna tão difícil aos homens pensar claramente em um mundo no qual fazer lucro é o incentivo da indústria. Pensamos demais na produção, e de menos no consumo. Um resultado é que atribuímos muito pouca importância ao divertimento e à simples felicidade, e que não julgamos a produção pelo prazer que ela proporciona ao consumidor.
Quando sugiro que a jornada de trabalho deveria ser reduzida para quatro horas, nãoquero dizer que todo o tempo restante deveria necessariamente ser gasto em frivolidade pura. Quero dizer que um dia de trabalho de quatro horas deveriam ser suficientes para as necessidades e confortos elementare da vida, e que o resto de seu tempo deveria ser seu para usá-lo como achasse conveniente. É uma parte essencial em qualquer sistema social que a educação deva ser levada além do que normalmente é no presente e deveria por objetivo, em parte, prover gosto que iriam tornar um homem apto a usar o lazer inteligentemente. Não estou pensando aqui no tipo de coisa que seria considerada “intelectualizada”. Danças camponesas desapareceram exceto em remotas áreas rurais, mas os impulsos que levaram ao seu cultivo ainda devem existir na natureza humana. Os prazeres das populações urbanas se tornaram na maior parte passivos: ver filmes no cinema, assistir jogos de futebol, escutar rádio, e assim por diante. Isto resulta do fato de que suas energias ativas são totalmente gastas com o trabalho; se tivessem mais lazer, iriam aproveitar novamente os prazeres nos quais tem um papel ativo.
No passado havia uma pequena classe ociosa e uma grande classe trabalhadora. A classe ociosa desfrutava de vantagens para as quais não havia base em justiça social; isto necessariamente as fez opressivas, limitou sua simpatia, e levou à invenção de teorias para justificar seus privilégios. Isto fez diminuir enormemente a sua excelência, mas apesar disto elas contribuíram com quase tudo do que chamamos de civilização. Ela cultivou as artes e descobriu as ciências; escreveu os livros, inventou as filosofias, e refinou as relações sociais. Mesmo a libertação dos oprimidos foi geralmente iniciada de cima. Sem a classe ociosa, a humanidade nunca teria emergido da barbárie.
O método da classe ociosa sem deveres, entretanto, gerou enormes desperdícios. Nenhum de seus membros tinha que apreder a ser trabalhador, e a classe como um todo não era excepcionalmente inteligente. A classe podia produzir um Darwin, mas a ele se opunham dezenas de milhares de proprietários rurais que nunca pensavem em nada mais inteligente do que caçar à raposa e punir invasores de propriedades. No presente, espera-se que as universidades forneçam, de forma mais sistemática, o que a classe ociosa fornecia acidentalmente e como um subproduto. Isto é um grande avanço, mas tem certas desvantagens. A vida universitária é tão diferente da vida do mundo exterior que os homens que vivem no meio acadêmico tendem a ficar alheios das preocupações e problemas de homens e mulheres comuns; além disso, suas formas de se expressar é geralmente tal que rouba de suas opiniões a influência que elas deveriam ter no público em geral. Outra desvantagem é que nas universidades os estudos são organizados, e o homem que pensa sobre alguma pesquisa original provavelmente será desencorajado. As instituições acadêmicas, portanto, úteis como são, não são guardiãs adequadas para os interesses da civilização em um mundo onde todos fora de seus muros estão ocupados demais para objetivos não-utilitários.
Em um mundo em que ninguém seja compelido a trabalhar mais do que quatro horas por dia, todas as pessoas que possuíssem curiosidade científica seriam capazes de satisfazê-la, e todo pintor seria capaz de pintar sem passar por privações, qualquer que seja a qualidade de suas pinturas. Jovens escritores não precisarão procurar a independência econômica indispensável às grandes obras, para as quais, quando a hora finalmente chega, terão perdido o gosto e a capacidade. Homens que, em seu trabalho profissional, tenham se interessado em alguma fase da economia ou governo, serão capazes de desenvolver suas idéias sem a distância acadêmica que faz o trabalho de economistas universitários freqüentemente parecer fora da realidade. Médicos terão tempo para aprender sobre o progresso da medicina, professores não estarão lutando exasperadamente para ensinar por métodos rotineiros coisas que aprenderam na juventude, que podem, no intervalo, terem se revelado falsas.
Acima de tudo, haverá felicidade e alegria de viver, ao invés de nervos em frangalhos, fadiga e má digestão. O trabalho exigido será suficiente para tornar o lazer agradável, mas não suficiente para causar exaustão. Uma vez que os homens não ficarão cansados em seu tempo livre, eles não exigirão somente diversões passivas e monótonas. Ao menos um por cento provavelmente devotará o tempo não gasto no trabalho profissional para objetivos de alguma impotância pública e, como não dependerão destes objetivos para viver, sua originalidade não será tolhida, e não haverá necessidade de adaptar-se aos padrões estabelecidos pelos velhos mestres.
Mas não é somente nestes casos excepcionais que as vantagens do lazer aparecerão. Homens e mulheres comuns, tendo a oportunidade de uma vida feliz, se tornarão mais gentis, menos persecutórios e menos inclinados a ver os outros com desconfiança. O gosto pela guerra desaparecerá, parcialmente por esta razão, e parcialmente porque ele envolverá trabalho longo e severo para todos. A boa índole é, de todas as qualidades, a que o mundo mais precisa, e boa índole é o resultado de segurança e bem-estar, não de uma vida de árdua luta. Os métodos modernos de produção nos deram a possibilidade de bem-estar e segurança para todos; escolhemos, ao invés disso, ter sobretrabalho para alguns e privação para outros. Ainda somos tão energéticos quanto éramos antes do surgimento das máquinas; neste aspecto temos sido tolos, mas não há razão para continuarmos sendo tolos para sempre.
[1] Desde então, os membros do Partido Comunista conseguiram o privilégio dos guerreiros e sacerdotes.
Traduzido por Daniel Cunha
Traduzido a partir de: http://www.zpub.com/notes/idle.html

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Chile vive dilema com lucro do cobre e pressão das ruas

Principal produto chileno enche cofres públicos, mas Bachelet teme elevar gastos

Volta a debate lei do regime Pinochet que destina 10% do faturamento da Codelco a militares; no 1º trimestre, repasse foi de US$ 422 mil

FLÁVIA MARREIRO

Com os cofres abarrotados de dinheiro por conta do “boom” do cobre e com vários setores de olho na bonança, o governo da presidente Michelle Bachelet enfrenta um dilema no Chile: seguir aumentando o gasto público, com o risco de estimular a inflação que já alcança 8,9%, ou fechar as torneiras e sofrer desgaste popular na reta final do governo.
Os preços do metal, que já haviam dobrado de 2005 para cá, bateram recorde de novo nesta semana. A principal exportadora do cobre, com 20% do negócio, é a estatal Codelco, cuja obrigação de repassar 10% do que obtém com as vendas aos militares voltou ao centro do debate político.
É tanto dinheiro em caixa por conta do cobre que, em nome da austera política econômica, nem o governo nem os militares mantêm todo o dinheiro no Chile. A estimativa da renda do metal é puxada para baixo no Orçamento, e a diferença vai a dois fundos no exterior, a serem resgatados em tempos de vacas magras.
Segundo o Ministério da Fazenda chileno, a bonança permitiu um superávit de 8,7% do Produto Interno Bruto em 2007. Os fundos também servem para tentar evitar a hipervalorização da moeda local, ao manter os dólares fora do mercado. Mas setores sociais alertam para problemas urgentes no Chile -a desigualdade, pelo índice Gini, é a segunda maior da região, só menor que a do Brasil- , enquanto o dinheiro rende lá fora.
E há pressões setoriais. Na última sexta, funcionários do Instituto de Previdência, em greve, faziam piquete, com direito a sucessos de Xuxa em espanhol, pedindo plano de carreira às vesperas da estréia no novo sistema de pensões. Já os caminhoneiros fizeram greve neste mês para exigir que o governo reduza um imposto sobre os combustíveis, também em escalada. A justificativa é sempre que La Moneda -a sede do governo- pode pagar por causa do cobre.
“Não podemos baixar impostos contando com uma renda que não é para sempre”, justificou-se anteontem Bachelet.
Antes, com inflação menor, o governo tinha segurado parte das pressões sociais porque havia aumentado o gasto público em 8% em média ao ano. “Ela fez o que havia prometido. Aumentou gastos com saúde, atenção à infância. Fez a reforma da Previdência, que é sua obra mais importante”, aponta o analista Raúl Sohr.
Mas, com a inflação em alta, consultorias econômicas pedem a Bachelet que reduza a marcha dos gastos em 2009. O problema é que esse é o último ano de governo -as eleições são em dezembro de 2009. “Este é o Orçamento no qual Bachelet pode impor um selo”, disse ao “Diario Financiero” o economista da Universidade do Chile Joseph Ramos.
Ele acha, em termos políticos, ser “pouco realista” pedir ao governo que poupe ainda mais para entregar o caixa cheio ao sucessor. Em termos econômicos, argumenta, essa é uma inflação provocada pelo choque de oferta de energia e alimentos, e seria importante acelerar o crescimento.

Militares e gestão
A alta do metal também renovou as discussões sobre o futuro da Codelco. Há um projeto no Congresso para reformar a direção da companhia -os analistas do setor citam como modelo de profissionalismo a Petrobras, não sem insinuar que a companhia deveria abrir parte do capital na Bolsa.
Está de volta também a grita para que Bachelet envie ao Legislativo, onde não tem maioria, projeto para acabar com uma das principais heranças da ditadura. Por uma lei do regime Pinochet (1973-1990), a Codelco, maior empresa do Chile e maior mineradora de cobre do mundo, responsável por US$ 1 de cada US$ 5 de exportações que entram nos cofres públicos, repassa 10% do que obtém com suas vendas aos militares, que só podem usar o dinheiro para comprar armamento.
Só no primeiro trimestre de 2008 a Codelco destinou US$ 822 milhões ao Fisco e outros US$ 422 milhões aos militares.
Na semana passada, o presidente da estatal, José Pablo Arellano, relançou a controvérsia, dizendo que os 10% engessam a companhia. Com cautela, La Moneda disse que o tema está em estudo, mas que era uma opinião pessoal de Arellano.
Um general da reserva chiou, dizendo que o assunto é de “segurança nacional”, enquanto o comando da ativa também foi conciliador: discutirá, desde que o governo encontre uma alternativa de financiamento a longo prazo para os militares.
“O governo fica com esse blablablá da lei do cobre, mas ele mesmo não quer mexer. E não é para nos agradar, porque podemos nos sublevar. Estamos respeitando a democracia no Chile. O problema é criar mais uma frente de discussão do Orçamento no Parlamento. Para eles, também é melhor deixar como está”, disse um militar de alta patente da Força Aérea sob condição de anonimato.
Mas Raúl Sohr diz que desta vez o projeto pode sair. “Há um consenso. Há gente linha dura no Congresso que se mostra flexível. Os militares não têm mais como justificar essa lei.”

“Folha de S. Paulo mundo”

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Governo reprime nova revolta contra uso de verba pública para educação privada

Folha de S. Paulo mundo

Tarde de Santiago na última quinta-feira. Enquanto no Palácio La Moneda preparavam a abertura da exposição em homenagem ao centenário de Salvador Allende (1908-1973), ouviam-se sirenes de carros da polícia ali perto, onde ficam algumas das principais faculdades e colégios públicos.
Era mais um round dos confrontos entre estudantes universitários e secundaristas contra a lei de reforma educacional proposta pelo governo -e já aprovada na Câmara-, que consideram uma maquiagem na legislação da ditadura.
Os enfrentamentos aconteciam um dia após 4.500 estudantes marcharem na capital, reprimidos pelos truculentos carabineiros, a polícia militarizada, que os dispersava com jato de água e gás lacrimogêneo.
No fim de maio de 2006, menos de dois meses depois do início do governo Bachelet, os secundaristas protagonizaram a maior mobilização desde o fim da ditadura em 1990, imediatamente batizada com simpatia de “rebelião dos pingüins”, por causa da gravata do uniforme.
O governo criou uma comissão, com participação dos alunos, para discutir a nova LGE (Lei Geral de Educação). Os estudantes deixaram a instância alegando não serem ouvidos.
O tema de fundo é o repasse de recursos estatais a administradores privados de colégios, que podem cobrar uma pequena soma ou nada dos alunos que acolhem. Além disso, os colégios possuem critérios próprios de seleção.
Os estudantes, apoiados pelo sindicatos dos professores, exigem que a subvenção seja eliminada e que o país priorize a educação pública.
Com divisões na própria base e sem maioria no Congresso, o governo negociou com a direita, defensora das subvenções, e passou a lei na Câmara. Falta ainda o Senado.
A nova LGE não elimina o repasse, mas aumenta a fiscalização da educação sob gerência privada e acaba com ao processo de seleção nesses colégios.
Segundo o jornal “La Nación”, o governo repassa anualmente US$ 3 bilhões à rede de ensino, US$ 1,1 bilhão às escolas públicas e US$ 1,6 bilhão à rede subvencionada, que atende 500 mil alunos a mais do que a primeira. A diferença equivale a 34% a mais.
“Sabemos que no sistema neoliberal é impossível que a educação seja só pública. Mas o que não aceitamos é dar dinheiro aos privados”, diz Rubén Azócar, 18, que a Folha reencontrou depois depois de dois anos, igualmente participando de uma assembléia estudantil.
Já fora da escola secundária pública e fazendo cursinho pago -”faltaram só cinco pontos para eu entrar em direito”-, cabelo crescido, Azócar tinha aparência abatida.
“Não nos resta opção a não ser continuar mobilizados. O governo fala de melhora do índice de pobreza, do analfabetismo. Mas é só massificação. Queremos qualidade.”

Plebiscito
Alunos e professores preparam um plebiscito como última tentativa de pressionar e parar a tramitação do projeto, já que a volta dos “pingüins” às ruas não tem tanto apelo midiático como ocorreu em 2006.
O senador Juan Pablo Letelier, que pertence à ala à esquerda do Partido Socialista, parou na última quinta-feira para falar com estudantes que protestavam. Depois, falou à Folha. “A lei da ditadura me causa um mal-estar físico. É uma aberração. Mas o que os estudantes não entendem é matemática. Não temos os votos para fazer uma mudança profunda.”
O senador é filho do diplomata Orlando Letelier, assassinado em Washington em 1976 pela polícia política do regime de Augusto Pinochet. (FM)

“Folha De S. Paulo mundo”

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O nó da terra

Escrito por Ermínia Maricato
11-Jul-2008

Seja no campo ou na cidade, a propriedade da terra continua a ser um nó na sociedade brasileira. Com a globalização, a partir dos anos 80, o problema da terra se agravou e tende a se tornar explosivo no mundo todo. Com o incremento do agronegócio baseado no latifúndio, produtos primários como minérios, celulose, grãos, carne, petróleo e etanol ganharam importância estratégica nos mercados globais, e hoje eles promovem a expulsão de camponeses do meio rural numa escala que virá a ser contabilizada na casa dos bilhões de pessoas. Na década atual, a população mundial passou de majoritariamente rural para preponderantemente urbana. E os países pobres, que ainda têm a maior parte de sua população no campo, são os que mais contribuem com a marcha para as cidades. A marcha é acelerada pela construção de barragens hidrelétricas, que motivaram um movimento no mundo todo de despejados do território onde moravam. Tocados do campo, e excluídos do acesso à terra urbanizada ou a moradias formais, essa população migrante (e em alguns casos imigrante) se amontoa em favelas sem água, sem esgotos, sem transporte, sem emprego, sem escolas e hospitais. São pessoas que vivem num cenário dantesco, sobretudo nas metrópoles da África ou da Ásia do Pacífico, mas também na Índia emergente e em toda a América Latina.

Com isso, no Brasil, a nona economia do mundo, a questão da terra continua a se situar, mas de forma renovada, no centro do conflito social. Ela alimenta a profunda desigualdade (em que pese a recente pequena distribuição de renda) e a tradicional relação entre propriedade, poder político e poder econômico.

A questão da terra está no centro do conflito sobre combustíveis e, portanto, também influi no aumento de preços dos alimentos. Ela é o cerne do conflito sobre a reserva indígena Raposa Serra do Sol e de quase todas as reservas indígenas e áreas de quilombos. Ela tem forte ligação com o desmatamento da Amazônia para avanço do agronegócio. Nas cidades, a dificuldade de acesso à terra regular para habitação é uma das maiores responsáveis pelo explosivo crescimento de favelas e loteamentos ilegais nas periferias. Na década de 80, quando o investimento em habitação social foi quase nulo, a taxa de crescimento da população que mora em favelas triplicou em relação à população urbana em seu conjunto.

Nos anos 90, a taxa duplicou. Perto de 12% da população de São Paulo e Curitiba moram em favelas. Em Belo Horizonte e Porto Alegre, até 20%. No Rio de Janeiro, 25%. Em Salvador, Recife, Fortaleza, São Luiz e Belém, mais de 30% das pessoas vivem em favelas. Somando as moradias ilegais, encontramos aproximadamente 40% dos domicílios de São Paulo, e 50% no Rio de Janeiro, em situação irregular. Os moradores dessas casas se encontram em condições de insegurança permanente.

Como evidenciam diversas teses acadêmicas, a confusão no sistema de registro de terras é notável: cercas se movem, ampliando largamente ou superpondo propriedades. Esse fato não se limita aos confins do Brasil, mas pode ser observado com freqüência mesmo na metrópole paulistana. Vários registros sobre o mesmo pedaço de terra (configurando alguns andares de títulos sobre a mesma gleba) obrigam governos a pagar diversas indenizações pelo mesmo objeto. Foi o que aconteceu, por exemplo, nos parques estaduais paulistas.

Propriedades podem se deslocar de um local para outro. Precatórios sobre terras desapropriadas podem resultar, findo o processo judicial, em “superindenizações” com valores dez vezes acima do preço corrente de mercado. Segundo o próprio Incra, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, apenas 4% do território da Amazônia legal são regularizados – o que alimenta toda sorte de invasões e fraudes.

O mercado residencial legal do Brasil atende perto de 30% da população. Ele deixa de fora, em muitas cidades, até mesmo parte da classe média que ganha entre cinco e sete salários mínimos. Essas pessoas, legalmente empregadas, podem ser encontradas morando ilegalmente em favelas de São Paulo e do Rio. Grande parte da população urbana, sem qualquer alternativa legal, invade terra para morar. As terras que não interessam ao mercado imobiliário e são ocupadas pela população de baixa renda são exatamente as áreas de ecossistema frágil, sobre as quais incide a legislação de proteção ambiental. Áreas de proteção de mananciais, mangues, dunas, beira de córregos, várzeas, encostas íngremes e espaços cobertos por matas são as que “sobram” para a maioria da população. Ao sul da metrópole paulista, por exemplo, em apenas duas bacias dos reservatórios Billings e Guarapiranga, moram mais de 1,5 milhão de pessoas. Nenhuma grande cidade brasileira, nem mesmo a região metropolitana de Curitiba, escapa a esse destino de exclusão, segregação e predação ambiental.

A ilegalidade da propriedade da terra urbana não diz respeito só aos pobres. Os loteamentos fechados que se multiplicam nos arredores das grandes cidades são ilegais, já que o parcelamento da terra nua é regido pela lei federal 6766, de 1979, e não pela que rege os condomínios, a lei 4591, de 1964. O primeiro e mais famoso dos condomínios – o de Alphaville, em São Paulo – tem parte de suas mansões sobre terras da União. Moram em loteamentos fechados juízes, promotores do Ministério Público, autoridades de todos os níveis de governo. Eles usufruem privadamente de áreas verdes públicas e também vias de trânsito que são fechadas intramuros. Para viabilizar a privatização do patrimônio público, na forma de um produto irresistível ao mercado de alta renda, há casos de prefeituras e câmaras municipais que não titubearam em se mancomunar para aprovar leis locais que contrariam a lei federal. Ou seja, aprova-se uma legislação ilegal, bem de acordo com a tradição nacional de aplicação da lei de acordo com as circunstâncias e o interesse dos donos do poder.

Não é por falta de planos e nem de leis que se criou essa verdadeira terra de ninguém. O Estatuto da Terra, de 1964, relaciona a reforma agrária à “melhor distribuição de terra” e à “justiça social”. Ele menciona ainda que “é dever do poder público: promover e criar condições de acesso do trabalhador rural à propriedade da terra”. O Estatuto da Cidade, de 2001, é tido como um exemplo para o mundo, sendo objeto de cursos para urbanistas até na Holanda. Ele restringe e limita o direito de propriedade, subordinando-o ao “bem coletivo” e ao “interesse social”. A função social da propriedade e o direito à moradia estão previstos na Constituição Federal, mas entre a retórica e a prática vai um abismo. É comum que a aplicação da lei ocorra de forma inversa ao motivo que a inspirou – isto é, na prática, se afirma a concentração da propriedade e a exclusão ou despejo dos pobres.

A Lei de Terras de 1850, que pretendia fazer retornar ao Estado as terras devolutas ou públicas, ainda espera para ser concretizada. Durante mais de 150 anos, um incrível número de iniciativas, decretos, comissões, portarias, cadastros e leis complementares se sucederam e se repetiram sem jamais serem aplicados. Enquanto isso, as terras devolutas vão sendo ocupadas, configurando uma gigantesca fraude que avança há mais de um século pelo território nacional e atualmente tem sua fronteira de expansão na Amazônia. A última iniciativa que alimenta a indústria da legalização da grilagem é a medida provisória 422, de março deste ano. Ela dispensa a licitação para a compra de terras públicas. Quem tem a titulação, ou simplesmente a posse de terras (e pela medida provisória a extensão pode chegar a até 1500 hectares), e quer regularizá-las, deve levar a documentação solicitada ao Incra. Evidentemente, pequenos posseiros e ribeirinhos não têm essa informação nem recursos para providenciar os documentos. Segundo um estudo do professor Ariovaldo Umbelino, da Universidade de São Paulo, só com base nessa medida provisória 60 milhões de hectares de terras públicas poderão ser privatizados.

Nesse cenário de caos, no qual a ilegalidade é mais regra do que exceção, é impressionante a criminalização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, por parte do judiciário e da polícia, além de grande parte da mídia. Os arrozeiros da reserva de Roraima são apenas um exemplo, entre milhares, de formação ilegal do latifúndio no Brasil, para o qual converge agora o interesse das poderosas corporações transnacionais ligadas ao agronegócio, à mineração e à produção de energia. A construção ideológica que cerca o conceito de propriedade privada é tão forte que, numa inversão completa de papéis, homens e mulheres que deveriam se beneficiar da aplicação das leis, e em nome dos quais elas são aprovadas, são acusados de se insurgir contra elas. Aqueles que foram objetos de tantas leis ignoradas, os desterrados, os acampados, as vítimas da violência das milícias privadas ou mesmo públicas, aqueles que não possuem nada além da roupa do corpo e os instrumentos do trabalho, são acusados de violência porque não aceitam o destino das favelas, do tráfico, das marquises nas ruas. Insistem no direito a um pedaço desse imenso território para plantar, principalmente alimentos. Vale lembrar que a maior parte dos alimentos consumidos no Brasil vem da agricultura familiar e, portanto, da pequena propriedade.

Comparada com a monocultura, a pequena propriedade tem uma relação diferente, menos danosa, com os fertilizantes químicos e com o uso da água. Por isso, ela é fundamental para a manutenção da biodiversidade. Assim, a pequena propriedade desempenha um papel importante na sustentabilidade ambiental, além de reter parte da população no campo. No entanto, mais uma vez, confirmando o evento da libertação (ou “libertação”) dos escravos, os pobres são impedidos do acesso à terra.

Entre 2000 e 2005, foram assassinados 223 camponeses, religiosos ou advogados em disputas de terra. A criminalidade está, definitivamente, associada à pobreza no Brasil. Mas como a ilegalidade e a violência dos poderosos não têm a “aparência” de crime, ela continua vergonhosamente impune.

Originalmente publicado na Revista Piauí, edição 21, de junho de 2008.

Ermínia Maricato é arquiteta e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP

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Eike Batista é alvo de operação da Polícia Federal

A Polícia Federal realizou ontem operação de busca e apreensão em empresa e casa do empresário Eike Batista, no Rio de Janeiro, em investigação sobre suposto direcionamento de licitação na concessão da Estrada de Ferro do Amapá. A empresa MMX, que pertence a Eike, obteve a concessão em 2006. A ferrovia liga a região mineradora da Serra do Navio até o porto de Santana. Ambos ficam no Amapá e são explorados pela MMX. A reportagem é dos jornalistas Pablo Solano e Breno Costa para o jornal Folha de S.Paulo, 12-07-2008.

A Operação Toque de Midas da PF começou por volta das 9h. O primeiro endereço foi a casa do próprio Eike, localizada no Jardim Botânico, zona sul. Quase ao mesmo tempo, policiais chegavam à residência de Flávio Godinho, principal executivo da MMX e considerado o braço-direito de Eike. Eles moram na mesma rua. Eike é vizinho também de Luma de Oliveira, com quem foi casado.

Pouco depois, por volta das 9h30, outra equipe da PF chegava à sede das empresas de Eike, em um prédio do bairro do Flamengo, também na zona sul. À tarde, um segundo grupo, formado por dez policiais federais, reforçou a operação. Às 15h30, 20 policiais saíram do prédio com um malote com documentos e discos rígidos (que armazena dados) de computadores do escritório. Os policiais informaram que cumpriram três mandados de busca e apreensão no local. Não foram solicitadas prisões à Justiça Federal. No total, 84 policiais participaram da operação.

A revista norte-americana Forbes aponta Eike como o 142º homem mais rico do mundo, com uma fortuna estimada em US$ 6,6 bilhões. Neste ano, após a obtenção da concessão da Estrada de Ferro do Amapá, os projeto da MMX Amapá e Minas-Rio foram comprados pela mineradora Anglo American por US$ 5,5 bilhões.

A PF obteve autorização para realizar outros nove mandados de busca e apreensão em Belém (PA) e Macapá, Santana e Pedra Branca do Amapari (AP), incluindo na Seplan (Secretaria de Planejamento, Orçamento e Tesouro do Amapá). A Estrada de Ferro Amapá passou a ser controlada pelo governo estadual em maio de 2005 e foi cedida à MMX em março de 2006. A concessão foi obtida pela Acará Empreendimentos e depois repassada para a MMX. As duas empresas pertencem a Eike.

O valor do contrato de concessão foi de R$ 157,9 milhões. O prazo de concessão da ferrovia é de 20 anos, prorrogáveis pelo mesmo período. As investigações que deflagraram a Toque de Midas começaram em 2005, a partir da apuração da PF no Amapá sobre irregularidades em licitações para compra de medicamentos pela Secretaria de Estado da Saúde. Segundo a PF, o principal operador é o auditor-fiscal Braz Martial Josaphat, que já foi indiciado pelo Ministério Público Federal após a Operação Antídoto.

Segundo a PF, Josaphat negociou com José Carlos Frederico, representante da MMX, o direcionamento da licitação, que estava sob responsabilidade da Seplan, então chefiada pelo hoje deputado federal Jurandil Juarez (PMDB-AP). A PF sustenta que foram incluídas cláusulas no processo licitatório que só a MMX teria condições de atender.

As negociações entre o governo estadual e a MMX, afirma a PF, envolveram a inclusão da Conterra Ltda. dentre as prestadoras de serviço da empresa no Estado. É apurado se a Conterra pertence a laranjas ligados ao governo do Amapá.

A operação investiga ainda suposto desvio de ouro extraído em minas em Pedra Branca do Amapari (173 km de Macapá). A PF suspeita que o minério da Mineradora Pedra Branca do Amapari não esteja sendo totalmente à Receita. A PF não sabe o nome da empresa que controla a extração de ouro na cidade, mas diz que em 1996 era a MPBA, na qual a MMX tinha participação minoritária.

IHU On-line

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A infância de um chefe

Em “O Jovem Stálin”, que sai nesta semana, Simon Montefiore mostra os anos de formação do futuro líder soviético, marcados pelo domínio do grego clássico e o interesse por história e literatura

RUY FAUSTO

Simon Sebag Montefiore que, com “A Corte do Czar Vermelho” [Cia. das Letras], espécie de análise histórico-etnológica de Stálin, havia provocado uma pequena revolução na “stalinologia” e, em certa medida, na sovietologia em geral, lança agora este “Jovem Stálin”, que se ocupa da vida do “pai dos povos” até a sua participação no primeiro governo bolchevique, em novembro de 1917.
Como o livro anterior, este é o resultado de um longo trabalho: quase dez anos de investigação em 23 cidades e nove países, incluindo pesquisas em arquivos recém-abertos em Moscou e nas cidades georgianas de Tbilisi e Batumi, além da utilização de memórias, em boa parte inéditas, de contemporâneos mais ou menos obscuros.
A primeira reação diante de tal tipo de trabalho é de ceticismo. Esse mergulho na vida do tirano poderia levar a resultados históricos de alguma relevância? Na realidade, o livro é importante.
Sem dúvida, pode-se dizer que ele não inova propriamente, “apenas” radicaliza o que já fora revelado pelo livro anterior e por textos de outros autores. Só que essa radicalização vai longe. Há nele três elementos, de interesse crescente.
Em primeiro lugar, para além do que já se sabia por meio de “A Corte do Czar Vermelho”, o leitor descobre um Stálin com qualidades intelectuais-artísticas bem superiores às que poderia sugerir o retrato que dele faz Trótski.
O jovem Stálin não só canta bem e é um grande leitor, principalmente de literatura e história, mas é um poeta georgiano de qualidade apreciável (os poemas em tradução, que o volume traz, parecem confirmar esse julgamento).
O Stálin poeta foi incluído em antologias da poesia georgiana do início do século e, segundo Montefiore, ele é um “clássico georgiano menor”. O futuro “pai dos povos” “foi admirado na Geórgia como poeta antes de ser conhecido como revolucionário”.
Montefiore diz também, “en passant”, que Stálin lia Platão no original grego (língua que deve ter aprendido no seminário). Ele não foi um indivíduo inculto; mesmo o epíteto de semiculto talvez seja insuficiente. Stálin foi um intelectual de estilo provinciano (não conseguiu dominar as línguas modernas fora o russo, tinha gostos muito convencionais em arte etc.).
Porém, se Stálin foi mais intelectual do que se supunha, ele também foi mais bandido… Suas atividades de “expropriador” são conhecidas, principalmente o famoso ataque às “carruagens pagadoras” do Banco do Estado em Tiflis, em junho de 1907, fato noticiado com destaque pela imprensa mundial da época.
O assalto de Tiflis, planejado por Stálin, mas do qual ele provavelmente não participou de forma direta, foi executada por um grupo de homens e mulheres dirigido por Kamo, um bandido sanguinário e psicopata, totalmente fiel a Stálin. Segundo os arquivos da polícia secreta czarista, nele morreram mais ou menos 40 pessoas.
Stálin se comportava como um verdadeiro chefe de bando, mesmo se só guardasse para si a glória e o poder (que sempre foram seus maiores objetivos): o dinheiro ia para os cofres da organização bolchevista.
Stálin planejou e dirigiu outras ações violentas, incluindo talvez um ato de pirataria contra um navio no mar Negro, arrancou dinheiro de comerciantes e industriais, sob ameaça de morte ou de incêndio de propriedades, e mandou matar espiões (segundo alguns, liqüidou também gente que simplesmente não lhe inspirava confiança). Assim, nas palavras do autor, “Stálin era uma rara combinação: ao mesmo tempo intelectual e assassino”.
É por causa dessa dupla condição -esse é o ponto importante- que ele caiu nas boas graças de Lênin. Também aqui os fatos, em grande parte pelo menos, já eram conhecidos, mas Montefiore mostra bem o quanto Lênin apreciava Stálin, e como iria promover sua ascensão na hierarquia, depois da cisão formal do partido bolchevique (1912).
“Esse é exatamente o tipo de pessoa de que necessitamos”, diz Lênin sobre Stálin, nos anos 1910, respondendo às objeções de um menchevique. Numa carta a Gorki -esta bem conhecida-, Lênin se refere a Stálin como o seu “maravilhoso georgiano”. Às vésperas do quinto Congresso da Social-Democracia russa, em Londres, em abril-maio de 1907, Lênin encontra Stálin em Berlim.
Lá, eles conversam sobre a iminente operação de Tiflis (!) e sobre os meios para remeter o dinheiro. No congresso, onde, por proposta dos mencheviques, as expropriações são proibidas pelo partido, sob pena de expulsão, Lênin afirma não conhecer Stálin.
Em 1912, junto com Zinoviev, Lênin propõe que Stálin seja cooptado para o Comitê Central bolchevique. E, em 1922, assegura, com Kamenev, a nomeação de Stálin como secretário-geral do Comitê Central.
Se as coisas se passaram assim, é preciso concluir -não, como pretende o autor, que o stalinismo é simples continuação do leninismo: as diferenças entre os dois não desaparecem apesar de tudo isso- que o leninismo “preparou a cama” para o stalinismo.

Meios e fins
Lênin sempre deixou claro que não tinha maiores problemas com o uso dos meios, desde que os objetivos fossem revolucionários. E, assim, não hesitou em apelar para o banditismo como força auxiliar. E, até mais do que isso, a serviço do grupo e, depois, do partido bolchevique.
Quando se tenta idealizar “o último combate de Lênin” -a ruptura com Stálin, em 1923, e a tentativa de afastá-lo da Secretaria Geral-, é impossível não comentar: pois fora ele mesmo, Lênin, que introduzira o lobo (não propriamente entre “cordeiros”, mas…).
A refletir. Quando jovem, Fidel Castro foi uma espécie de gângster, e a última biografia de Mao Tse-tung revela um personagem que tem muito a ver com o banditismo. Que o stalinismo tenha certa afinidade com o gangsterismo não é muito surpreendente nem representa, a rigor, uma informação nova, nos dias de hoje.
Mas o que, sim, deveria ser matéria de reflexão é o uso que o leninismo fez das práticas do gangsterismo. Essa atitude não foi acidental. Ela estava enraizada nessa mistura de neojacobinismo, neonarodnikismo e fria racionalidade capitalista, que é o leninismo. Os resultados, conhecemos.
Infelizmente, como os stalinistas outrora, os nossos neoleninistas preferem não enxergar o que é desagradável. A confusão teórica é o preço dessa política de avestruz.

RUY FAUSTO é filósofo, professor emérito da USP e lecionou na Universidade de Paris 8. É autor de “Marx - Lógica e Política” (ed. 34).

“Folha de S. Paulo”

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Assassinatos de povos indígenas aumentam

TERRA Bispo de Xingu critica decisão do STF de paralisar retirada de fazendeiros de terras indígenas

Dafne Melo

“ENQUANTO EU falo aqui com você, tem três seguranças lá fora”, conta dom Erwim Kräutler ao Brasil de Fato. Nas palavras do bispo de Xingu (PA), o motivo das ameaças de morte que recebe são claros: “há muitas pessoas que não gostam de ouvir isso que eu falei aqui, pois há grandes fortunas em jogo”. Defensor dos direitos dos povos indígenas, Kräutler afirma que o aumento da violência está vinculado à falta de vontade política do governo – em todas suas esferas de poder – de regularizar as terras indígenas. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista com o bispo que trabalhou ao lado da Irmã Dorothy Stang, assassinada em 2005, a mando de um grileiro.

Por que o número de assassinatos de indígenas subiu tanto em todo o país? No Mato Grosso do Sul, por exemplo, ele dobrou.
O Mato Grosso do Sul é emblemático, pois ali podemos provar que os assassinatos, conflitos e suicídios dos índios estão relacionados à falta de acesso à terra. Onde a regularização de terras indígenas não caminha, é onde temos mais mortes. No caso desse Estado, os índios estão encurralados, cercados por fazendeiros e não têm condição de sobreviver física e culturalmente. Isso gera os assassinatos, manifestações racistas, agressões e despejos. Muitos índios que se vêem nessa situação optam pelo suicídio, especialmente os mais jovens. Segundo os antropólogos, os índios guarani- kaiowá têm uma fé profunda na vida após a morte e entendem que depois de mortos poderão viver realmente como guarani, uma vez que, infelizmente, aqui nesta Terra são impedidos de viver como tal.

Os suicídios mostram que as condições de vida são difíceis. Como são essas condições?
Devemos distinguir indígenas aldeados ou não. Os que estão em aldeia têm sua formação comunitária, seguem suas tradições, mantêm sua língua – é bom lembrar que não existe apenas o português no Brasil, temos em torno de 160 línguas distintas aqui. Quando estão na aldeia, continuam com seus ritos e danças religiosas. Os que moram fora delas estão em uma posição mais delicada: vivem nas periferias das grandes cidades e não têm mais esse relacionamento com seu povo. São indígenas, mas não sobra muita coisa de sua cultura. Vivem marginalizados e descaracterizados. A luta é essa: respeitar os direitos indígenas, suas terras, cultura e língua.

Para isso, qual a importância do reconhecimento de suas terras?
Não se pode questionar uma terra que desde os tempos mais remotos já pertencia a esses povos. A mídia e a sociedade não são favoráveis à regularização dos territórios a que os índios têm direito. Fazem comparações descabidas com Estados europeus, como “tal povo tem área equivalente à da Bélgica”, e por aí vai…

Como funcionam as demarcações?
São quatro etapas: a identificação, feita por estudos científicos; a delimitação da área habitada pelos povos; a demarcação, que é feita inclusive com placas e sinais que informam que aquela área pertence a determinado povo; e, finalmente, a homologação, assinada pelo presidente. A partir daí, o povo tem todos os direitos garantidos. Se alguém invade e se estabelece, deve ser expulso. Mas as demarcações nunca ocorreram como deveriam. Já em 1972, foi estabelecido um prazo de cinco anos para demarcar todas as áreas. Até hoje isso não aconteceu. Nossa última Constituição, de 1988, nas disposições transitórias, prevê um prazo de mais cinco anos. Já se passaram 20. Essa situação é que abre espaço para invasões e conflitos. Não só os índios são prejudicados, mas o meio ambiente também. Os povos originários têm uma relação de preservação que o agronegócio não tem.

Como o senhor avalia o conflito na Raposa Serra do Sol?
Nesse caso, foram cumpridos todos os quatro passos: identificação, delimitação, demarcação e homologação. Esta última ocorreu há três anos. Os rizicultores que estão lá são invasores. O Estado, esgotada todas as possibilidades, deve usar a força coercitiva para retirá-los de lá. Se o Estado tiver assentado algum camponês, por engano, em terras indígenas, deve indenizar esse agricultor. Mas não é esse o caso de Raposa Serra do Sol. Lá, os arrozeiros querem se manter nas terras como proprietários. E o maior absurdo é que o Supremo Tribunal Federal se tornou “coresponsável”, como disse o próprio ministro da Justiça (Tarso Genro), da ilegalidade que se criou. Não posso conceber que seis rizicultores de grande porte se coloquem acima da Constituição.

Quando são os semterra ou povos indígenas que ocupam, as forças repressivas agem rapidamente e, não raro, de forma violenta…
Fico pensando que existem dois pesos e duas medidas. Se os índios tivessem entrado em uma área urbana, por exemplo, as forças reagiriam na hora. Quando o MST ocupa uma fazenda, é retirado à força. E agora o STF solta essa liminar suspendendo todo processo de regularização. Na minha opinião, é uma Justiça classista, que favorece aos ricos.

Como a ação do agronegócio e das transnacionais atinge a regularização de terras indígenas? O Governo Lula editou no fim de março uma medida provisória que legaliza a grilagem na Amazônia, por exemplo. Como isso afeta esse processo?
Essa MP é outro absurdo, vai ser um golpe fatal para a Amazônia. Prejudica a reforma agrária e o pequeno agricultor. Agora tudo é soja e etanol. Vemos que a proposta de desenvolvimento deles, a exemplo do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), visa o desenvolvimento do capital, do agronegócio. Historicamente, pouco mudou: nunca se olha para o povo. Estou aqui no Pará, por exemplo. Tenho segurança ao afirmar que é o Estado mais rico em recursos naturais e em biodiversidade do país. Carajás tem tanto ferro que já se fala em uma anomalia geológica. Quantos vagões de ferro são levados diariamente para São Luís (MA) para exportação? E qual é a situação do povo daqui? Onde estão os investimentos em saúde, segurança e educação? O governo só visa a economia e esquece do social. O povo paraense deveria estar no centro, mas nem é lembrado.

O senhor é ameaçado de morte há anos, assim como outros bispos e lideranças no Pará. O que o senhor defende para a região?
Enquanto estou falando aqui, tem três seguranças na porta. Há muitas pessoas que não gostam de ouvir o que eu falei, pois há grandes fortunas em jogo. Quando você se coloca ao lado dos indígenas, colonos, sem-terra e outros setores marginalizados, você se coloca imediatamente contra quem tem poder econômico e político: madeireiros, grandes mineradoras, grileiros e grandes produtores. E aí eles mostram suas presas. Primeiro, é velado, mais uma vez que insistimos em nosso posicionamento, partem para a irracionalidade, ameaças. Porque ninguém pode vencer nossos argumentos. Qualquer pessoa em sã consciência nos apóia, pois colocamos o povo e a família no centro da atenção, e não o capital estrangeiro.

STF reforça ilegalidade na Raposa Serra do Sol

No início deste mês, o Supremo Tribunal Federal decidiu suspender a operação da Polícia Federal, batizada de Upatakon 3, que faria a retirada dos arrozeiros da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. O ministro da Justiça, Tarso Genro, criticou a decisão do STF e afi rmou que o Poder Judiciário se tornou “co-responsável” pela resolução do impasse. “Há mais de 30 anos, sofremos com um doloroso processo de reconquista das nossas terras, que acreditávamos seria concretizado pelo Estado Brasileiro”, manifestaram os povos indígenas em nota ofi cial, emitida no dia 9. A terra foi homologada pelo presidente Lula há três anos, mas os fazendeiros se recusam a sair do local.

“Brasil De Fato”

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Como nos afeta a crise alimentaria mundial?

Esther Vivas*

Adital- As conseqüências da crise alimentar mundial, com revoltas e protestos em todo o mundo, também se deixaram escutar nos países do Norte. No dia 30 de maio passado, cerca de sete mil pescadores se concentraram diante da sede do Ministério do Meio Ambiente e Meio Rural e Marinho em Madrid em protesto pela crise que vive o setor devido ao aumento dos preços dos combustíveis e pela falta de ajudas (o preço do petróleo aumentou mais de 320% em cinco anos e o preço do pescado se mantém igual há 20 anos). Os transportadores também aderiram aos protestos, bloqueando as estradas, devido à subida do preço da gasolina, que já se supõe uns 50% de seus custos.
No começo de maio, milhares de criadores de gado se manifestaram em Madrid para exigir do Governo uma nova lei de margens comerciais que limitasse a diferença entre o preço pago na origem e o preço de venda ao público, que chega hoje há 400% em média. A grande distribuição: supermercados, grandes superfícies, cadernos de desconto são quem mais se beneficiam a custa do produtor e do consumidor.

Nos últimos anos, os preços dos produtos que fazem parte de nossa dieta alimentar não têm parado de crescer. No percurso de 2007, o preço do leite aumentou cerca de 26%, as cebolas 20%, o azeite de girassol 34%, a carne de frango 16%. E esta tem sido a tendência da maioria dos alimentos, segundo dados divulgados pelo Ministério de Industria, Turismo e Comércio ao final de 2007, mesmo que o Índice de Preços ao Consumo (IPC) tenha somente refletido uma subida de 4,1% naquele mesmo ano.

Pelo contrário e segundo indicava a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), no período 1995-2005, o Estado espanhol havia sido o único país da União Européia com uma queda salarial de média, evidenciando uma crescente medida de poder aquisitivo dos trabalhadores e das trabalhadoras. Uma situação que contrastava com as ganâncias das empresas espanholas, neste mesmo período, com um aumento de 73%, mais do que o dobro que a média da União Européia.

É obvio que os efeitos da crise alimentar em ambos extremos do planeta são dificilmente comparados. No Norte, tem somente destinado entre 10 e 20% da renda à compra de alimentos, mesmo que no Sul esta cifra se eleva a 50-60% e pode chegar inclusive a 80%. Porém, isso não retira a importância de ressaltar também o impacto desta subida dos preços entre as populações daqui, mesmo que os lucros das multinacionais sigam aumentando e os governos defendam uma maior liberação econômica.

Causas estruturais

Podemos indicar uma série de razões conjunturais que tem produzido esta subida espetacular dos preços dos alimentos, como o aumento das importações de cereais por parte de países até pouco auto-suficientes, a perda de colheitas devido a fenômenos meteorológicos, o aumento do consumo de carne em países como América Latina e Ásia e principalmente a subida do preço do petróleo, o aumento da produção de agrocombustiveis e as crescentes inversões especulativas em matérias-primas, não podemos esquecer as causas estruturais desta crise. As políticas neoliberais aplicadas indiscriminadamente no transcurso dos últimos trinta anos em escala planetária são as responsáveis pela situação atual.

Instituições como a Organização Mundial do Comercio (OMC), no Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, com os Estados Unidos e a União Européia à frente, têm sido seus maiores promotores. A aplicação sistemática nos países do Sul de políticas de ajuste estrutural, a cobrança da dívida externa e a privatização dos serviços e bens públicos têm sido uma constante neste período, junto com a liberação comercial, fruto das negociações na OMC e os tratados de livre comércio com Estados Unidos e a União Européia.

Agricultura e alimentação monocolor

Estas políticas neoliberais têm tido uma dimensão global e têm generalizado um modelo de agricultura e de alimentação, tanto no Sul como no Norte, a serviço dos interesses do capital. A função primordial dos alimentos, alimentar as pessoas, tem ficado sujeita aos objetivos econômicos de umas poucas empresas multinacionais que monopolizam a cadeia de produção, desde as sementes, e têm sido estas as maiores beneficiárias da situação de crise.

Olhando as cifras: o final de 2007, quando começavam as crises mundiais de alimentos, corporações como Monsanto e Cargill, que controlam o mercado dos cereais, aumentaram seus lucros em 45 e 60% respectivamente. As principais empresas de fertilizantes químicos como Mosaic Corporation, pertencente a Cargill, dobrou seus lucros em apenas um ano. E assim poderíamos colocar exemplos de outras multinacionais que monopolizam cada um dos trechos da cadeia alimentar desde as processadoras até as grandes cadeias de distribuição, todas elas com ambições crescentes ano a ano.

No campo, a situação também é difícil. Na Catalunha, somente 1,2% da população ativa se dedica à agricultura e a maior parte desta se conformam por pessoas idosas. No Estado espanhol, esta cifra sobe para 5,6%. A renda agrária dos camponeses diminui anualmente e hoje se situa somente 58% da renda geral. Já as grandes exportações são as que recebem a maior parte das subvenções dadas à agricultura. Como dado: no ano de 2005 seis famílias da oligarquia andaluza receberam quase 12 milhões de euros em ajudas ao setor.

A globalização capitalista tem posto fim à agricultura familiar, vital para o cuidado do território e a alimentação das comunidades; tem aniquilado o comércio local, causando graves danos as economias locais; tem deslocado a produção de alimentos, gerando uma crescente insegurança alimentar com uma dieta que se baseia em uma comida que percorre milhares de quilômetros antes de chegar a nossa mesa; e tem promovido uma agricultura e um rebanho industrial, intensivo, baseada no uso de pesticidas e produtos químicos. Este é o modelo de agricultura e de alimentação global existente, as pessoas e o meio ambiente temos ficado em segundo plano.

*Red de Consumo Solidario

“Adital”

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Gastronomia, direito humano

O fundador do movimento internacional slow food sustenta: buscar uma alimentação prazerosa e em equilíbrio com a natureza é uma atitude política. O problema é que a velha tradição militante ainda despreza a complexidade e beleza do ato de comer

Carlo Petrini

Minha tese é simples: a gastronomia pertence ao domínio das ciências, da política e da cultura. Contrariamente ao que se acredita, ela pode constituir uma ferramenta política de afirmação das identidades culturais e um projeto virtuoso de confronto com a globalização em curso.

Porque não há nada de mau em apreciar os prazeres da boca, base fundamental do saber gastronômico e elemento essencial da qualidade de vida. O movimento Slow Food foi criado “pela defesa e pelo o direito ao prazer de se alimentar-se. Alguns militantes, freqüentemente os de esquerda, ficam chocados com tais afirmações, que eles associam à “decadência burguesa” ou ao “epicurismo degenerado”. Alguns esclarecimentos são, portanto, necessários.

Primeiro, quando falamos de gastronomia, não há apenas o prazer. Segundo seu principal teórico, Jean-Antelme Brillat-Savarin (1755-1826), autor de La Physiologie du Goût (1826), a gastronomia é o “conhecimento racional de tudo o que é relativo ao homem enquanto ser que se nutre”. A partir desta simples definição, com um pequeno esforço intelectual, podemos compreender que a gastronomia reposiciona a nutrição no centro de interesse de todos.

Brillat-Savarin queria, recorrendo às causas e efeitos, fazer da arte culinária uma ciência exata. Ele se dedicou a uma análise bastante criteriosa do mecanismo do gosto. Analisou a magreza e a obesidade, a influência da dieta sobre o sono, a juventude, o envelhecimento e a morte.
Um saber interdisciplinar

A gastronomia nos conduz a um saber interdisciplinar e complexo. Interessar-se por “tudo aquilo que é relativo ao homem enquanto ser que se nutre” exige conhecimentos nos domínios da antropologia, da sociologia, da economia, a química, a agricultura, a ecologia, a medicina, os saberes tradicionais e as tecnologias modernas.

Tal corpus científico amplia enormemente o papel reservado aos gastrônomos. Ao mesmo tempo, aumenta o círculo de pessoas que deveriam estudá-lo para melhor governar, melhor confrontar os problemas atuais ou, ainda mais simplesmente, melhor compreender nosso mundo. Como defende Wendell Berry, o poeta-camponês do Kentucky, “comer é um ato agrícola”.

Não por acaso que, o movimento altermundialista teve, desde as manifestações de Seattle, contra a Organização Mundial do Comércio (OMC) participação decisiva dos camponeses, e alguns de seus expoentes mais conhecidos (José Bové, Rafael Alegría, Evo Morales etc.) vêm do mundo rural. Também não é por acaso que a qualidade da alimentação industrializada suscita, em várias cidades, uma grande preocupação. E não é à toa que, segundo o relatório das Nações Unidas, Millenium Ecosystem Assestement (2005), a maioria dos problemas ambientais são conseqüência dos métodos aberrantes de produção de alimentos.

Mais da metade da população mundial vive ainda em zonas rurais. Se somarmos a eles as pessoas que cuidam da produção ou da elaboração da alimentação nas zonas urbanas, podemos nos arriscar a dizer que a maioria dos habitantes da Terra estão envolvidos no setor da alimentação. Infelizmente, a maioria das técnicas utilizadas não são sustentáveis. O desperdício é enorme, devido aos métodos intensivos e produtivistas, que consomem mais recursos do que produzem.

Em alguns países desenvolvidos, os agricultores e operários das fábricas de alimentos representam apenas 2% da população ativa. Tudo foi industrializado. Fabrica-se em série uma alimentação sem sabor, padronizada, anti-ecológica e freqüentemente perigosa para a saúde pública (vários escândalos o provam, entre os quais o da “vaca louca”).
Pesquisar o bom produto, não o que vende mais

O futuro estará garantido apenas para homens e mulheres que produzam a comida por meio de técnicas compatíveis com os ritmos do planeta, revalorizando as técnicas antigas, respeitando a biodiversidade e as tradições gastronômicas estritamente ligadas à cultura e à economia de cada lugar do mundo. A ciência gastronômica – com seu conhecimento, seu respeito pela qualidade de vida e as diferenças culturais – deveria voltar-se a domínios compatíveis com as novas exigências ecológicas.

Colocar a ciência do prazer alimentar ao serviço de uma natureza preservada conduzirá o homem à produção da melhor alimentação possível. É uma aspiração tão legítima quanto natural. Mas não é levada em conta. Criamos uma produção que não pesquisa mais o bom produto, mas o mais comercializável. As características organolépticas dos alimentos foram degradadas, a variedade e a biodiversidade foram reduzidas. Emporcalhamos tudo, matando o solo, poluindo o ar, recorrendo demais aos transportes poluentes. Em lugar de acabar com o drama da fome no mundo, instalamos um sistema global desrespeitoso do trabalho de milhares de pessoas e socialmente criminoso.

Restabelecer os critérios de uma agricultura camponesa, a mais local possível, sazonal, natural, tradicional, constitui o começo de uma solução. Os seres humanos certamente devem nutrir-se, mas não às custas do equilíbrio do planeta. O gastrônomo e o consumidor não podem mais ignorar: mesmo que isso pareça engraçado, a escolha do que comemos orienta o mundo.

O movimento Slow Food baseou suas convicções na filosofia e abriu caminho para a construção de uma nova gastronomia. Propôs um programa de reeducação alimentar do gosto, com novos métodos, adaptados a todas as idades, na escola e no lazer. Organizou manifestações internacionais como o Salão do Gosto [1] de Turim, que luta contra a uniformização da alimentação e apresenta produtores de qualidade. Elaborou cerca de 300 projetos particulares de proteção à biodiversidade e às antigas tradições de produção pelo mundo. Contribuiu, em 2004, na criação da primeira Universidade das Ciências Gastronômicas, situada em Pollenzo e Colorno, na Itália.

Esta nova concepção da gastronomia não é apenas uma idéia. Tornou-se um movimento social, que se associa ao protesto universal contra todas as formas de uniformização induzidas pela globalização e participa de todas as “reivindicações verdes” em prol de um meio-ambiente e uma ecologia preservados.

O verdadeiro motor do movimento são os quase 100 mil adeptos da Slow Food ligados aos produtores, camponeses, artesãos e pescadores que partilham dessas idéias e que trabalham e trocam conhecimentos por um futuro melhor.
Parte de uma nova cultura política

Muitos militantes políticos continuam até agora insensíveis aos conceitos da nova gastronomia. Exceto em eventos como o Fórum Social Mundial, onde os camponeses desempenham um papel crucial, a política em geral insiste em ignorar a complexidade do ato de comer. No entanto, por trás de cada alimento tradicional, saboroso e ecologicamente sustentável, há séculos de saber, de inteligência e de criatividade. Por que correr o risco de apagar tudo isso em nome do produtivismo?

Felizmente, a esperança vem das campanhas. Essa foi a razão da criação da “Terra Madre – encontro mundial de comunidades de alimentação”, uma reunião que aconteceu pela primeira vez em Turim em outubro de 2004. Mais de 5 mil pessoas – entre camponeses, pescadores, nômades e artesãos – participaram, representando 1200 comunidades de alimentação de 130 países do mundo [2]. Uma nova reunião acontecerá de 24 a 26 de outubro de 2006, novamente em Turim.

As comunidades de alimentação são grupos de indivíduos que trabalham em conjunto para produzir comida boa, ecologicamente limpa e respeitosa da justiça social. Sem “militantismo” ou apoio sindical ou partidário: os trabalhadores, portadores de uma experiência de lutas quotidianas, cooperam para sobreviver. A maioria pagou sua própria viagem, e o Slow Food garantiu a hospedagem dos “intelectuais da terra”, que dão um senso novo à produção de comida. Sua reivindicação é extremamente política uma vez que ela remete ao mesmo tempo à dignidade, ao direito à soberania alimentar, e à liberdade de fazer seu próprio trabalho.

O projeto, para outubro de 2006, é de reafirmar estes objetivos. Os “intelectuais da terra” se reunirão com chefs de cozinha, homens e mulheres vindos dos quatro cantos do mundo, decididos a adotar produtos das comunidades de alimentação. Professores e universidades que tratam de assuntos ligados à alimentação, à revalorização dos saberes ancestrais, estarão amplamente representados, numa perspectiva de diálogo com os conhecimentos científicos modernos. A finalidade é valorizar todos os conhecimentos gastronômicos, no seu sentido mais amplo.

Uma vasta rede de produtores, pesquisadores, comerciantes, chefs de cozinha, camponeses e consumidores está prestes a nascer, graças a esta nova gastronomia, que concebe o ato de se alimentar como parte da produção. O consumidor torna-se um co-produtor. Porque de sua exigência gastronômica depende a qualidade do produto camponês.

Com “Terra Madre 2006″, será criado um grupo transversal formado por “gastrônomos de um novo tipo”, vindos de grandes e pequenas comunidades de alimentação, que se situam à margem das organizações políticas tradicionais. Trata-se de uma democracia dos humildes, afirmando-se pela maneira pela qual se alimentam, e que também pensam que um novo desenvolvimento é possível.

Longe de continuar sendo uma prática elitista, a gastronomia pode tornar-se uma ciência mais democrática. Por que a possibilidade de nutrir-se com produtos de qualidade, o prazer de saborear uma boa comida e a defesa da soberania alimentar devem ser direitos de todos.

Tradução: Patrícia Andrade

Jornal Le Monde
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