Cinco pães e dois peixes

Como essa pediatra conseguiu multiplicar informação e solidariedade entre os mais pobres dos pobres

Mônica Manir

Nesta semana, Zilda Arns subiu duas vezes ao palco: para receber o prêmio ‘Mulheres Mais Influentes do Brasil’, da Revista Forbes, em nome da ministra Marina Silva, que lá não pôde estar. E para receber a mesma estatueta em nome de si própria. Num vestido verde-água e branco, ela pediu no mesmo tom brando que a sociedade se mostre mais solidária, que todos os pobres sejam incluídos, que cuidemos de nossas crianças e adolescentes e que Deus nos acompanhe a todos.

Nesta mesma semana, a pediatra e sanitarista anunciou que descerá da coordenação da Pastoral da Criança em 2007.

Há 23 anos, ela aceitou a encomenda de Dom Paulo Evaristo, seu irmão, para tocar um projeto da Igreja que guilhotinasse as altíssimas taxas de mortalidade infantil do País. A proposta-piloto nasceu em Florestópolis, no Paraná, onde morriam 127 crianças para cada mil nascidas vivas. Depois de um ano, a Pastoral da Criança derrubava o índice para 28 mortes.

Inspirada na multiplicação de peixes e pães do Evangelho, a Pastoral se proliferou em mais de 42 mil comunidades (as mais pobres das pobres), onde mais de 270 mil voluntários (a maioria tão pobre quanto) orientam gestantes e tiram crianças com menos de 6 anos da desnutrição, da pneumonia, da diarréia. É o maior programa do gênero no mundo - mundo aliás que requisita seus serviços como uma franquia de solidariedade. A Pastoral já atua em 14 países na América Latina, Ásia e África. O próximo na lista de espera é o Haiti.

Antes que alguém peça pelo amor de Deus que ela fique, Zilda Arns avisa que não vai embora de vez. Apenas quer aproveitar, enquanto desfruta de ótima saúde aos 72 anos, para olhar de perto o trabalho da Pastoral da Criança nos bolsões de pobreza e alimentar com sustância a Pastoral da Pessoa Idosa, criada há dois anos. ‘A criança e o idoso são as pontas mais frágeis da sociedade’, diz. No bolsão de riqueza da Daslu, onde ocorreu a entrega dos prêmios das mulheres mais influentes, a médica fez um retrato da obra que marca sua vida e a de milhões de crianças.

Porqueasenhoradeixaráacoordenação da Pastoral da Criança no ano que vem?
Coordeno há 23 anos a Pastoral. Ela já está consolidada, muito organizada. Quero dar oportunidade para outros conduzirem os trabalhos. Além disso, penso em passar o bastão enquanto estiver com força, bem de saúde, para poder visitar as comunidades. Faz um mês fui ao Piauí. Estive em Teresina, Picos, Parnaíba e São Raimundo Nonato. Encontrei as lideranças lá, elas vêm me abraçar, isso anima a pastoral.
Há dois anos também coordeno a Pastoral da Pessoa Idosa, que acompanha 54 mil idosos por mês. Quero que ela se desenvolva tão bem como a Pastoral da Criança.

A Pastoral da Criança já alcançou todos os seus objetivos?
A Pastoral precisa ser aperfeiçoada porque nosso lema é atender os mais pobres dos pobres, entre os quais encontramos todo tipo de problema social. Uma das nossas prioridades é, em 2007 e 2008, concentrar esforços para reduzir ainda mais a mortalidade das crianças abaixo de 28 dias. No Brasil, 50% ou mais vão a óbito antes de completar esse tempo de vida. Entre as crianças atendidas pela Pastoral, a porcentagem é de 36%. Lembro que no começo do nosso trabalho, em 1983, eram 80 mortes por mil. Agora estamos com 15 em mil.

Quais as causas principais de mortalidade entre as crianças atendidas pelo programa?
Várias ainda nascem com traumatismos de parto ou com problemas não tratados durante o pré-natal, pois muitas mães escondem a gravidez ou dão pouca importância aos cuidados durante a gestação. Os bebês nascem prematuros ou com baixo peso. A segunda maior causa de mortalidade, especialmente antes de 1 ano de vida e entre crianças desnutridas, é a pneumonia. As mães nem sempre identificam a doença a tempo e, às vezes, falta penicilina para o tratamento. A terceira causa são as diarréias, que afetam mais a população da Amazônia. Nesse sentido, precisamos implementar a utilização do soro caseiro.

A multimistura continua sendo o carro-chefe da pastoral no combate à desnutrição?
Em 2005, foi realizada uma pesquisa sobre o farelo ‘multimistura’. Ela demonstrou que a alimentação enriquecida com alimentos regionais e frescos é mais nutritiva do que o farelo usado como complemento alimentar. É importante resgatar que, na origem, a multimistura se propunha a ser uma combinação de alimentos com alto valor nutritivo, baixo custo, bom paladar e produção regionalizada. Mas, no paralelo, um grupo se entusiasmou com quatro ingredientes - farelo de arroz, farelo de trigo, pó da casca de ovo e folhas de mandioca - e começou a padronizar a produção. Essa tetramistura não era a ideal e ainda poderia prejudicar a saúde por uma possível contaminação na elaboração do produto. Também não se pôde afirmar que funcionava contra a desnutrição ou contra a anemia.

Há algum trabalho da Pastoral quanto à obesidade?
Estamos estudando o problema, ainda não informatizamos a informação.

Os serviços de saúde são bons parceiros do programa?
Apesar das críticas, o SUS é o melhor serviço de saúde pública do mundo. Ele é universal, está bastante descentralizado.
Só 4% das nossas gestantes encaminhadas ao Sistema não foram atendidas. Mas existem locais, como o Amapá e alguns pontos da Amazônia, em que não há luz elétrica, vacina ou médico. No próximo ano, a Campanha da Fraternidade será sobre a Amazônia. Já estou programando para agosto e setembro visitar os Estados da região. Planejo escutar e abraçar os líderes e os os voluntários, mas também quero encontrar os religiosos e os políticos.

Qual é o perfil dos voluntários?
Contamos com mais de 270 mil voluntários. A maioria (48,5%) tem entre 19 e 39 anos e aproximadamente 90 mil possuem primeiro grau incompleto. São pessoas simples, das próprias comunidades. Só pedimos que tenham o mínimo de tempo disponível, 24 horas por mês, para o trabalho. Cerca de 92% são mulheres, a maioria católica.

Para ser um bom voluntário é preciso ter fé?
Não precisa ter fé, mas boa vontade para melhorar a condição da criança e da pobreza no Brasil. Precisa ter um ideal. O fato de a maioria ser católica se deve ao fato de a Pastoral da Criança ser um organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Utilizamos toda a infra-estrutura da Igreja, a paróquia, as capelas, as comunidades. E não temos propriedades - a não ser que nos doem.

De onde vêm os recursos?
Nossos maiores parceiros são os voluntários. Eles não contribuem com dinheiro, mas, se fôssemos contabilizar seu trabalho com base no salário mínimo e em cima de 24 horas mensais, o valor seria de R$ 78 milhões.
Isso significa mais do que o dobro do total de recursos financeiros recebidos de parcerias e convênios com empresas e outras instituições, que, no último ano fiscal, foi de R$ 33 milhões.

Isso é suficiente?
Gastamos cerca de R$ 1,50 por criança ao mês, isso de outubro do ano passado a setembro deste ano. Despendemos pouco em administração e mais em atividades-fim, como capacitação de líderes, visita a famílias, recuperação de desnutridos, transporte de voluntários. Precisamos, na verdade, é de mais voluntários de todas as classes sociais, que possam dar apoio, por exemplo, no Dia da Celebração da Vida, realizado em 42 mil comunidades por mês. É o dia em que pesamos as crianças.

Há entraves culturais ao trabalho da Pastoral?
Muitas vezes o povo se conforma com que as coisas andem mal. Alguns maridos também não permitem que as voluntárias visitem as famílias. Mas, no geral, a diversidade cultural é uma riqueza. No Dia da Celebração da Vida, por exemplo, os índios têm o costume de acompanhar a pesagem. Então, quando se esperam 50 pessoas, aparecem 200 delas, famílias inteiras. Eu acho bonito, mas precisamos estar preparados porque distribuímos um lanche nesse dia, eles vão até lá também esperando comer.

Qualéopapeldaeducaçãona metodologia do programa?
A nossa metodologia é baseada no milagre dos pães e dos peixes, presente no Evangelho de São João. Com dois peixes e cinco pães, ele alimentou mais de 5 mil homens, fora mulheres e crianças. Nosso maior alimento é a informação e a solidariedade. Isso gera autonomia para que os pais possam cuidar dos filhos sem depender do posto de saúde ou de outros recursos. O melhor é atuar na educação para que se possa prevenir a doença. Para isso, a Pastoral visita mais de 1 milhão e 450 mil famílias por mês, famílias com gestantes e crianças menores de 6 anos.

É alto o índice de analfabetos?
Já foi muito maior. Quando comecei a pastoral, o número de analfabetos em certas comunidades era de 80%, 90%. Por isso a Irmã Maria Helena, minha irmã, uma grande pedagoga, criou o curso de alfabetização para jovens e adultos na Pastoral. Eu me lembro de uma comunidade no Pará em que apenas um líder de um grupo de 20 sabia ler, os outros ficavam de olhos fechados quando a gente falava. Perguntei por que não olhavam para mim. ‘É porque, assim, guardam melhor sua fala na memória’, disseram. Os filhos deles, aqueles que já sabiam ler e escrever, pegavam o material que distribuímos - O Guia do Líder, por exemplo - e iam narrando para os pais. Se analisar esse material, verá que tem muita fotografia e textos em letras grandes porque o nosso pessoal também tem dificuldade para comprar óculos.

APastoralsepreocupacom oplanejamento familiar?
A Pastoral ensina os métodos naturais, mas encaminhamos a mulher ou o casal ao posto de saúde para obter mais informação sobre outras possibilidades. Respeitamos a decisão do casal. Agora, o melhor método de planejamento familiar no mundo é a educação. Quanto mais baixa a educação, maior o número de filhos. Na Pastoral, a média de crianças com menos de 6 anos é menor do que a média nacional, que inclui todas as classes sociais. Por quê? Porque as mães são orientadas desde cedo a cuidar dos filhos, vêem que precisam amamentar mais tempo, dar educação e tal. O que se pode esperar de analfabetos sem perspectiva alguma, que vivem amontoados como animais?

Por que focar o trabalho em crianças com menos de 6 anos?
Quando comecei com a Pastoral, as crianças normalmente iam para a escola depois dessa idade. A partir de então, havia uma estrutura social que as acompanhava. Por causa do ensino público de baixa qualidade, as mães pedem para que seus filhos de 7, 8 anos continuem ou entrem para a Pastoral. A gente não proíbe, mas eles não entram na nossa estatística. Temos, no Brasil, 9 milhões de crianças menores de 6 anos que são pobres. Atendemos perto de 2 milhões delas, apenas. Precisamos alcançar os 9 milhões.

Menoresderuafazempartedaestatística da pastoral?
Trabalhamos com prevenção, não com meninos de rua. Não temos uma pesquisa sobre isso, mas sabemos que, nas CPIs que investigaram a prostituição infantil em São Paulo, Brasília e Fortaleza, não constou o nome de nenhuma criança ou adolescente prostituída que fosse ou tivesse sido da Pastoral. O padre Júlio Lancellotti, que cuida da Pastoral do Menor, sempre diz que a melhor prevenção contra a exploração de meninos na rua é a Pastoral da Criança.

A Pastoral da Pessoa Idosa também vai atrás dos mais pobres ?
A metodologia é inspirada no milagre da multiplicação, organizam-se redes comunitárias e de voluntários. Mas também queremos acompanhar idosos de classe média e alta porque abandono e sofrimento não faltam. Crianças e idosos são as pontas mais frágeis da sociedade. Muitos idosos são explorados, quase não ficam com nada do que ganham de aposentadoria ou pensão. Quando a gente visita a família, vê que estão largados, sem banho há uma semana, às vezes com a urina solta, a auto-estima em baixa.

A Pastoral da Criança está presente em 14 países. Pretende expandir mais seus braços?
Em 2007 vamos para o Haiti, que vem pedindo nosso trabalho há três anos. Já estamos na Angola, em Guiné-Bissau, Moçambique, nas Filipinas, no Timor Leste, no Paraguai, na Argentina, no Uruguai, na Bolívia, na Colômbia, na Venezuela, no México, na República Dominicana e no Panamá. No Timor, encontrei assustadoramente mais desnutridos que nutridos. Queremos implantar lá um sistema de informação, já que temos o melhor do mundo nesse sentido. Sabemos a cada mês como estão as crianças e devolvemos a avaliação para as comunidades a cada três meses.

O Bolsa-Família fez diferença no combate à pobreza?
Ainda é cedo para avaliar, mas uma coisa tenho notado: as famílias, tendo dinheiro, movimentam o desenvolvimento comunitário. Só que não pode ficar nisso. Tem que abrir portas de saída. É preciso diminuir um pouco a burocracia e fomentar projetos de geração de emprego. O Bolsa-Família quer que a criança vá para a escola, mas a qualidade do ensino tem de melhorar muito. Vale pagar para isso acontecer.

Estado de S. Paulo

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