Como escrevem os grandes autores

Em Ofícina de escritores, o americano Stephen Koch revela truques e hábitos
profissionais de mestres da literatura

ELIANE LOBATO

O estilo é indissociável do homem, dizia o escritor francês Conde de Bouffon,
definindo assim, na literatura, os traços da personalidade artística. Esse é o caso,
por exemplo, da formação de Gabriel García Márquez. Ainda estudante, ele tomou
emprestado e leu o romance ,i>A metamorfose,/i>, o grande clássico de Franz Kafka.
Foi o estilo de Kafka que o fisgou e deu-se assim, no futuro autor de Cem anos de
solidão, o “estalo” literário. Tempos depois, García Márquez registrou: “A
primeira linha quase me fez cair da cama, tamanha a minha surpresa. Essa linha
dizia: ‘Naquela manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa viu-se na
cama transformado num gigantesco inseto’. Eu não sabia que era permitido escrever
esse tipo de coisa. Se soubesse, teria começado a escrever muito antes.” Esse relato
está no livro Ofícina de escritores (Martins Fontes, 316 págs., R$ 39,80), do
americano Stephen Koch. A obra mostra que não há fórmulas para escrever e que cada
autor tem seu estilo e métodos.

Houve tempo em que John Irving (O mundo segundo Garp) valia-se de um diário.
E afirmava: “Começo contando a verdade sobre pessoas reais.” Depois, os seus textos
ganhavam certos exageros a caminho de se tornarem grandes mentiras, até porque “a
mentira é, sem dúvida, mais interessante”. Pois bem, quando as mentiras entravam em
cena, o diário era fechado, virava livro. Para o ensaísta e historiador Paul
Johnson, um pedaço de papel ou bloco precisam estar sempre por perto. “A regra deve
ser: anote imediatamente. Nunca confie na memória, ponha tudo no papel”, ensina
ele.

A anotação é necessária, se houver uma noite separando a idéia e o ato de
descrevê-la no livro, é o que diz Tom Wolfe (Fogueira das vaidades).
“Tento escrever tudo antes de dormir, porque, à noite, a perda de
memória se dá muito rapidamente”, explica ele. Já a autora de Pássaros da América,
Lorrie Moore, disse certa vez que nunca teve esboços ou “fragmentos que ficassem em
pedaços soltos de papel colados na escrivaninha”. Em Ofícina de escritores,
Koch privilegia a escrita à mão ou, pelo menos, a que nasce dessa forma – e não o
texto digitado já de início no computador. Por que isso? Primeiro, porque alguns dos
autores que cita resistem à idéia de iniciar um livro diretamente no teclado,
enquanto outros morreram antes dessa tecnologia. Koch dá ênfase, assim, à combinação
do estilo com o método na construção de enredos e personagens. Ou, como ensinou
Anton Tchecov, “é a escrita que gera a inspiração, e não o contrário”.

Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 278.

Deixe um Comentário