Arquivo de 15 de Julho de 2008

Crise alimentar turbina transgênicos

As safras geneticamente modificadas (GM) são cultivadas de forma tão extensa no mundo, hoje, para uso como ração animal e como ingredientes de alimentos industrializados, que os importadores de ração da Europa e da Ásia estão encontrando dificuldades para atender clientes que procuram por soja ou milho não-GM.

“É preciso pagar um ágio de 10% a 16% pelo milho não-GM. Isso se você o encontrar”, disse Ross Korves, um renomado economista agrícola dos EUA. A reportagem é de Clive Cookson e publicada pelo jornal Financial Times e traduzida pelo jornal Folha de S. Paulo, 15-07-2008.

À medida que disparam os preços dos alimentos e a escassez de alguns deles se agrava, safras geneticamente modificadas parecem cada vez mais tentadoras como forma de elevar a produtividade da agricultura sem usar mais energia ou produtos químicos. Mesmo na Europa, onde as safras GM enfrentam a mais forte resistência, há mais políticos, especialistas e líderes agrícolas saindo em sua defesa. Sir David King, ex-cientista chefe do governo britânico, é uma das pessoas que dizem que as safras GM são a única tecnologia disponível para resolver a crise nos preços mundiais dos alimentos.

A declaração do G8 - grupo que reúne os países mais industrializados- a respeito da segurança alimentar na cúpula recentemente realizada no Japão reconhecia o potencial das safras GM, com o compromisso de “promover análise de risco, com base científica, inclusive quanto à contribuição de variedades de sementes desenvolvidas por meio de biotecnologia”.

Mas muitos grupos ambientalistas e de defesa do consumidor continuam opostos ao que muita gente define como “comida Frankenstein”, alegando que as safras representam risco para a saúde e para o ambiente. Os críticos dizem que os alimentos GM não foram testados devidamente em animais, antes de serem colocados em uso, em 1996. Alguns dos poucos testes conduzidos apresentaram resultados preocupantes, como toxicidade hepática e renal. Os defensores dos alimentos GM rebatem alegando que quaisquer efeitos de saúde se teriam tornado claros após uma década de uso por milhões de pessoas.

Quanto ao ambiente, os oponentes dizem que as safras GM reduzem a biodiversidade e ameaçam as plantas e os animais silvestres. Os defensores dizem que os benefícios ambientais propiciados, como a redução no uso de pesticidas, compensam efeitos adversos.

Na América e em certas regiões da Ásia, a área plantada com safras GM vem crescendo rapidamente nos últimos anos. Segundo o ISAAA (sigla em inglês para Serviço Internacional de Aquisição de Aplicações Agrícolas de Biotecnologia), organização sediada nos EUA que monitora o uso mundial de safras GM, a área cultivada mundial cresceu 12%, para 114 milhões de hectares, em 2007.

Clive James, presidente da ISAAA, prevê que o cultivo de safras GM mais que duplicará nos próximos oito anos e cobrirá 20% das terras aráveis mundiais. Ele detecta uma grande reversão de tendência. “A tendência vem sendo propelida por duas preocupações”, diz. “Uma é a disparada nos preços das commodities agrícolas e a segunda é o avanço no conhecimento do que a biotecnologia vegetal pode fazer para mitigar o aquecimento global.”

Virtualmente todo cultivo realizado até agora envolve apenas quatro safras: soja, milho, algodão e canola, e dois traços: resistência a herbicidas e a pestes. Os oponentes das safras GM apontam que essa primeira geração de biotecnologia não propicia aumento de safras de forma direta. Cultivadas em perfeitas condições, essas variedades não se saem melhor do que as versões comuns das plantas, sem genes adicionais. Em lugar disso, o ponto é ajudar os agricultores a enfrentar insetos e plantas invasoras.

Herbicidas e insetos

A tolerância a herbicidas continua a dominar o mercado de safras GM. A maior marca é a Roundup Ready, da Monsanto. As sementes permitem que agricultores eliminem as invasoras borrifando a plantação com Roundup, um herbicida agrícola barato.

O segundo traço em uso generalizado é a resistência a insetos. Um gene de um micróbio chamado Bacillus thuringiensis (Bt) é transferido para a planta, que produz uma toxina capaz de matar pestes vorazes. Estudo divulgado pela PG Economics, uma consultoria agrícola britânica, concluiu que “a comercialização de safras biotecnológicas resultou em significativos benefícios econômicos e ambientais em todo o mundo e vem realizando contribuições importantes para a segurança alimentar mundial”.
Graham Brookes, co-autor do estudo, afirma que, “desde 1996, a adoção de safras biotecnológicas contribuiu para reduzir a liberação de emissões do efeito estufa na agricultura e o uso de pesticidas e propiciou renda substancialmente mais alta aos agricultores”. Os benefícios econômicos líquidos às fazendas equivalem a US$ 33,8 bilhões em 11 anos, divididos mais ou menos igualmente entre elevação no volume das safras e redução no custo dos insumos de produção.

A despeito da oposição política e ambiental, a Europa não é um continente inteiramente livre de safras GM. O milho Bt, única safra GM dotada de licença comercial na União Européia, é cultivado na Espanha (cerca de 75 mil hectares) e em escala menor na Alemanha, na Eslováquia, na França, em Portugal, na República Tcheca e na Romênia. A área plantada com safras GM na Europa equivale a apenas 0,1% do total mundial.
Muitos agricultores europeus estão zangados por não poderem aproveitar os benefícios de safras GM, ao contrário de seus colegas norte-americanos, diz Mick Willoughby, agricultor em Yorkshire e vice-presidente para a Europa da britânica Country Land and Business Association. “Até onde sei, a vasta maioria dos agricultores europeus é a favor das safras GM”, ele diz. “É mais dispendioso alimentar rebanhos [na Europa do que nos EUA], porque os regulamentos da União Européia significam ausência de safras GM.”

IHU On-line

Comentários

Os estudos gramscianos depois de 1989

Giuseppe Vacca - Março 2008
Tradução: Luiz Sérgio Henriques

Gostaria de delimitar minha intervenção: só vou me referir ao modo pelo qual a Fundação Instituto Gramsci abordou o tema dos estudos gramscianos nos últimos vinte anos; em seguida, vou me deter nas investigações e interpretações que se desenvolveram na Itália no mesmo período.
Desde 1989 a Fundação se dedicou a completar o próprio patrimônio arquivístico, a favorecer ou promover a publicação de novas fontes e de novas pesquisas sobre Gramsci, a encaminhar uma nova edição crítica integral dos seus escritos. Além disso, esforçamo-nos por dialogar com os estudiosos estrangeiros do seu pensamento, que, nos anos anos oitenta do século passado, já eram em número relevante e constituíam uma realidade a ser seguida com atenção e a ser favorecida, quer com ações editoriais, quer com iniciativas culturais focadas.

Recordo rapidamente os momentos salientes destas atividades. Graças ao novo clima criado em Moscou pela perestroika, retomamos as missões de pesquisa nos arquivos do Komintern, recuperando fontes essenciais para o estudo da vida e do pensamento de Antonio Gramsci [1]. Entre as recuperações de documentos de 1989, recordo aqueles que, preenchendo evidentes lacunas presentes nas aquisições anteriores, permitiram a Chiara Daniele e a mim reconstruir com bases filológicas mais satisfatórias a origem e o significado da correspondência entre Gramsci e Togliatti em outubro de 1926 [2].

Além disso, naquele ano foi possível uma primeira recuperação, muito relevante, dos documentos do Komintern relativos à “herança literária” de Gramsci. Publicados em 1991 [3], aqueles documentos nos permitiram começar as investigações sobre a primeira edição das Cartas e dos Cadernos. Este trabalho, muito útil para a preparação da nova edição crítica dos escritos de Gramsci, prosseguiu nos anos seguintes, ainda que prejudicado pelas restrições novamente impostas ao acesso aos arquivos ex-soviéticos, depois do breve período liberal de 1992-1993. Todavia, consideramos ter alcançado resultados consistentes, recolhidos em duas publicações significativas: “‘L’affare Gramsci-Togliatti’ a Mosca (1938-1941)”, de Silvio Pons [4], e Togliatti editore di Gramsci, que se deve a Chiara Daniela e a mim [5].

Como se vê, quisemos desde o início dedicar muitas energias à reconstrução da biografia política de Gramsci nos anos de detenção, aprofundando as pistas de investigação abertas por Paolo Spriano com seu ensaio pioneiro de 1977, Gramsci in carcere e il partito [6]. Ao fazê-lo, seguimos um cânone metodológico sugerido por Togliatti desde 1958. Com efeito, nas “anotações” preparatórias para o relatório no primeiro encontro de estudos gramscianos, Togliatti escreveu: “Gramsci foi um teórico da política, mas sobretudo foi um político prático, isto é, um combatente […]. Na política [pois] deve-se buscar a unidade da [sua] vida: o ponto de partida e o ponto de chegada”. Em janeiro de 1958, fazendo estas afirmações, Togliatti não só reiterava um ponto de vista respeitável sobre a figura de Gramsci, mas também sugeria um critério para o estudo dos seus textos e a reconstrução da sua biografia intelectual. O único válido, a seu ver, uma vez que pouco depois acrescentava que o “fio condutor” da obra de Gramsci “não se pode encontrar e não se encontra a não ser na atividade real, que parte dos tempos da juventude e progressivamente se desenvolve até o advento do fascismo no poder, até a detenção e mesmo depois”. Consciente da necessidade de se ater a este método, porque até 1926 o pensamento de Gramsci estava disseminado em intervenções jornalísticas e políticas de contextualização difícil e, quanto às Cartas do cárcere e aos parágrafos dos Cadernos, a reconstrução dos contextos requeria uma investigação ainda mais complexa, Togliatti concluía:

Toda a obra escrita por Gramsci deve ser tratada partindo dessa última consideração, mas é tarefa que só pode ser assumida por quem se aprofunde tanto no conhecimento dos momentos concretos da sua ação a ponto de reconhecer o modo como a estes momentos concretos se conecte toda formulação e afirmação geral de doutrina, e seja tão imparcial a ponto de saber resistir à tentação de fazer prevalecer falsas generalizações doutrinárias [sobre] o nexo evidente que une o pensamento aos fatos e movimentos reais [7].

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Para levar a cabo uma tal iniciativa faltaram por muito tempo as condições, mas, a partir de 1989, a situação começou a mudar sensivelmente. Junto com os novos documentos conseguidos, que mencionei, Aldo Natoli publicou uma investigação sobre Tatiana Schucht, Antigone e il prigioniero [8], que inaugurava um novo período de pesquisas e de novas publicações. Levado pela vontade de esclarecer as muitas “obscuridades” presentes nas Cartas do cárcere, não atribuíveis à necessidade de contornar a censura fascista, na primavera de 1988 Natoli começara um exame sistemático das cartas de Tania (muitas das quais consistiam em transcrições de cartas de Sraffa e de Giulia endereçadas ao prisioneiro) e um estudo acurado da correspondência de ambos. Ele encontrava, assim, confirmação para a convicção que havia amadurecido há tempos, isto é, que “uma leitura das Cartas do cárcere desligada das vicissitudes reais do mundo moral e político do qual Gramsci fora arrancado, só [podia] servir para fornecer belos excertos para antologias”, quando a correspondência de Tania tanto com Gramsci quanto com Sraffa se revelava uma fonte essencial para pesquisar a fundo o percurso humano e político do prisioneiro” [9].

No ano seguinte — 1991 —, Valentino Gerratana publicou as cartas que Piero Sraffa endereçara a Tania para que as transcrevesse para Gramsci [10], enquanto Giuliano Gramsci publicava as cartas de Tania à família Schucht e aos familiares de Gramsci residentes em Ghilarza [11]. Estas publicações, no seu todo, “começaram a fazer com que a figura de Tatiana saísse do silêncio historiográfico no qual permanecera por mais de cinqüenta anos” [12] e derrubaram as censuras políticas e “o preconceito intelectualista e culturalmente patriarcal, segundo o qual uma obscura figura feminina conta pouco ou nada em relação ao grande intelectual e dirigente político, salvo no plano, irrelevante historicamente, do cuidado afetivo e material” [13]. A Fundação Instituto Gramsci, em seguida, confiaria a Aldo Natoli e a Chiara Daniele a organização do epistolário entre Gramsci e Tania Schucht, que, depois de uma longa e acurada preparação, veio a luz em 1997. Com esta publicação, o mundo afetivo e familiar do prisioneiro se revelava cada vez mais importante também para sua biografia política, e a Tatiana “se restituía o papel de co-protagonista na trajetória humana e política de Antonio Gramsci” [14].

Ao mesmo tempo, uma minuciosa investigação sobre as relações entre Gramsci e o partido, relativa às campanhas de 1932-1934 para sua libertação, foi levada a cabo por Claudio Natoli [15]. Neste panorama de novos documentos, novas investigações e novas publicações, as principais lacunas ainda são representadas pela interrupção, no final de 1934, das cartas de Tania aos familiares russos e pela não publicação da correspondência entre Gramsci e Giulia, e entre Tatiana e Sraffa. Para a supressão da primeira lacuna — Tania volta a Moscou no final de 1938 e continuara a escrever regularmente aos familiares mesmo depois de 1934 — se está procedendo com entusiasmo graças ao esforço de Antonio Gramsci Jr., que há alguns anos, de Moscou, colabora nas investigações para a Edição Nacional dos escritos de Gramsci. Na correspondência entre Sraffa e Tatiana estamos trabalhando Chiara Daniele e eu, e este epistolário se revela cada vez mais decisivo para a biografia de Gramsci desde a detenção até a morte. Portanto, as publicações surgidas entre 1990 e 2005 mudaram radicalmente o panorama das fontes e lançaram as bases para proceder tanto à redação de uma biografia completa de Gramsci, quanto à contextualização dos parágrafos dos Cadernos do cárcere.

Bem verdade que relacionar os escritos de Gramsci ao contexto histórico político em que foram concebidos, dia após dia, é uma tarefa que supera as forças de um só pesquisador. Em parte, ela foi realizada por aqueles que organizaram as Obras para a editora Einaudi, mas só poderá ser completada pelo numeroso e qualificado grupo de estudiosos que tratam da publicação da Edição Nacional.

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A Edição Nacional dos escritos de Antonio Gramsci começou a ser publicada em 2007. A idéia de uma nova edição crítica integral dos escritos de Gramsci originou-se não só da necessidade de superar os limites das edições precedentes, cada vez mais evidenciados pela continuidade das investigações e das aquisições documentais, mas também da exigência de corresponder a novas responsabilidades político-culturais: por um lado, a extensão das traduções dos escritos de Gramsci e do interesse pelo seu pensamento no mundo nos fazia sentir obrigados a predispor instrumentos filológicos e críticos mais precisos para o estudo de Gramsci que só a cultura italiana pode fornecer; por outro, considerávamos que uma edição crítica integral dos escritos pudesse responder do modo mais apropriado à marginalização que o pensamento de Gramsci sofrera na Itália, na década anterior.

Em 1975, apresentando a edição crítica dos Cadernos, Valentino Gerratana ilustrava as razões pelas quais tinham sido organizados com os critérios que se aplicam aos escritos de um pensador já então tornado clássico. Consideramos que aqueles critérios deveriam ser estendidos a todo o corpus dos escritos gramscianos e que seria uma tarefa prioritária da Fundação tratar disso. Portanto, pensamos que a nova iniciativa poderia ambicionar ao título de Edição Nacional. Com esforço, e não sem acesas disputas, em 1993 o projeto já estava definido nas suas linhas essenciais [16]. Mas, antes de ilustrar brevemente suas linhas, parece oportuno deter-me na internacionalização do pensamento de Gramsci.

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A fortuna internacional de Gramsci teve início nos anos setenta do século passado e, a partir de então, teve um desenvolvimento cada vez mais consistente. Pode-se assumir como momento tópico desta “explosão” o ano de 1977, no quadragésimo aniversário da sua morte. Além das muitas iniciativas científicas e políticas que celebraram o acontecimento, uma série de eventos contribuiu para avivar o interesse pela herança cultural gramsciana no mundo. Entre eles, os primeiros eram de caráter político e estavam ligados à notável atenção que suscitaram, na Itália e no exterior, a estratégia do “compromisso histórico” e o eurocomunismo. Um segundo elemento importante foi o encontro com Gramsci de inúmeros intelectuais latino-americanos: estes “descobriram” no pensamento de Gramsci um antídoto eficaz às tradições marxistas difundidas precedentemente nos seus países, oprimidos naqueles anos por ditaduras militares, e um ponto de referência fundamental para elaborar estratégias políticas novas, democráticas e nacionais. Mas o veículo mais eficaz da difusão do pensamento de Gramsci foram algumas valiosas antologias em língua inglesa [17].

O fenômeno teve impulso adicional com a publicação da edição cronológica dos Cadernos, que deu início a um novo e mais amplo ciclo de traduções. Se bem que uma edição diacrônica seja pensada sobretudo para uma fruição do texto na língua original, a publicação dos Cadernos com critérios fortemente conservadores, quase à moda da diplomática, provocou um forte interesse por uma tradução integral do novo texto em inúmeras línguas de cultura. Cada empreendimento foi longo e extenuante, e levado a cabo num arco de tempo bastante amplo; mas já há alguns anos se ultimaram as traduções em francês, em espanhol, em português e em alemão; a tradução americana está perto do final e a japonesa está num estágio muito avançado. Ao contrário, o conjunto completo das cartas do cárcere, nestes vinte anos, só foi traduzido em inglês, em espanhol e, por fim, em chinês.

A partir do final dos anos oitenta, a Fundação começou a seguir com maior cuidado a difusão internacional do pensamento gramsciano e tentou corresponder a ela com novas iniciativas culturais e o estabelecimento de novos instrumentos de investigação. Em outubro de 1989, a Fundação organizou em Formia o encontro dedicado a Gramsci nel mondo, no qual pela primeira vez se fazia um balanço da difusão internacional do pensamento gramsciano [18]. Naquela ocasião foi fundada a International Gramsci Society (IGS), sob a presidência de Valentino Gerratana, que conseguiu a adesão de muitos estudiosos de inúmeros países [19]. Enquanto isso, John M. Cammett, pioneiro desde os anos sessenta dos estudos gramscianos nos EUA, compilava uma primeira versão impressa de um amplo banco de dados eletrônicos, no qual a bibliografia gramsciana, anteriormente recolhida por Elsa Fubini, era complementada com uma grande quantidade de informações provenientes da literatura internacional. Logo depois do encontro de Formia, a Fundação decidiu produzir uma edição impressa da bibliografia de Cammett, que veio à luz em 1992 [20]. A Bibliografia gramsciana, que hoje inclui mais de 17 mil itens, é continuamente atualizada e agora publicada on line, sob os cuidados do mesmo Cammett, de Luisa Righi e Francesco Giasi.

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No mesmo período em que o interesse pelo pensamento de Gramsci se multiplicava em inúmeras áreas culturais estrangeiras, na Itália se verificava um declínio da sua influência e uma contestação radical da sua lição. A tentativa mais virulenta e, sob muitos aspectos, grotesca de fazer passar a teoria gramsciana da hegemonia como um disfarce da ditadura do proletariado de tipo soviético foi realizada pela revista socialista Mondoperaio entre 1976 e 1977 [21]. Por cerca de uma década, assistiu-se, pois, a uma crescente discrepância entre a fortuna internacional de Gramsci e o debate italiano sobre sua figura. Este último permaneceu preso numa mesquinha disputa ideológica sobre sua incidência política na arena nacional, enquanto no mundo seu pensamento já era estudado como um clássico da filosofia política e dos estudos sobre cultura [22]. Como já disse, até para responder a esta situação absurda, promovemos a Edição Nacional.

O projeto foi posto sob o alto patrocínio do presidente da República, Francesco Cossiga, em 1990. Assim, depois de quinze anos de controvérsias e duras polêmicas, motivadas pela intenção de diminuir a figura de Gramsci e marginalizar seu pensamento, seguia-se o mais alto reconhecimento do valor científico e cultural da sua obra. O transcurso do tempo e as grandes mudanças ocorridas na Itália e no mundo o favoreceram. Com efeito, à medida que a publicação dos seus escritos se completava na Itália e crescia a difusão deles nas principais áreas lingüísticas e culturais do mundo, tornava-se cada vez mais evidente que o pensamento de Gramsci ilumina problemas fundamentais da história do século XX e do nosso tempo.

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Parece-me oportuno, neste ponto, ilustrar brevemente as principais novidades da Edição Nacional. Antes de mais nada, uma edição dos escritos e não das “obras”. Gramsci foi um político, um “combatente”, cujo pensamento está disseminado em escritos jornalísticos, intervenções políticas e nos “parágrafos” dos Cadernos do cárcere, recolhidos em volume só depois da sua morte. Portanto, ele não nos deixou “obras”, mas “escritos”, que compõem um corpus extraordinariamente unitário, desde que se possa reconstruir seu “ritmo do pensamento em movimento”, secundando os escritos com o aparato filológico indispensável para reconstituir os contextos. Em segundo lugar, sua atividade jornalística (1910-1926) está presente em artigos predominantemente não assinados. Assim, em relação às publicações precedentes, a Edição Nacional procede verificando suas transcrições e atribuições, além de cercá-los com um aparato filológico muito mais acurado. Novidade significativa é a adoção de software repetidamente testado, que permite a atribuição dos artigos não assinados segundo critérios lingüístico-matemáticos, sem que os organizadores abram mão da responsabilidade de acolhê-los ou recusá-los, complemetando os critérios automáticos com os críticos tradicionais.

Outra novidade significativa é a decisão de incluir na Edição Nacional não só a correspondência gramsciana (com Tatiana e Giulia Schucht e outros correspondentes), mas também as “correspondências paralelas”, decisivas para o período carcerário (as cartas entre Piero Sraffa e Tatiana Schucht, Tatiana e seus familiares, e outras). Portanto, na Edição Nacional proceder-se-á de modo a suprimir uma grave lacuna, segundo critérios que permitem aos epistolários cumprir sua tarefa precípua, a de possibilitar a reconstruição integral da biografia intelectual do nosso autor.

Depois da publicação da edição cronológica dos Cadernos, o prof. Gianni Francioni refinou progressivamente os critérios de datação e agrupamento dos “parágrafos” que os compõem, e a ele está confiada a direção da sua publicação na Edição Nacional. Nela, eles serão ordenados em Cadernos de traduções, Cadernos miscelâneos e Cadernos especiais. A novidade mais significativa é a publicação dos Cadernos de traduções, excluídos da edição Gerratana e quase inteiramente inéditos. Recolhidos em dois volumes de aproximadamente 900 páginas, foram publicados em 2007 e apresentados em Oristano, em 30 de abril, na presença do chefe de Estado, Giorgio Napolitano. Publicada pelo Instituto da Enciclopédia Italiana, a Edição Nacional constitui um empreendimento cultural inovador e de grande responsabilidade, que nos propomos concluir num número razoável de anos [23].

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Às orientações sumariamente recordadas também correspondem os critérios que seguimos para fazer face às datas comemorativas gramscianas e promover novas iniciativas editoriais. Também nestes campos tentamos orientar o trabalho da Fundação no sentido de criar ou captar novas ocasiões de pesquisa, evitando envolver Gramsci em disputas ideológicas ou interpretativas. Já o encontro internacional de 1989 sobre Gramsci nel mondo, que reunira principalmente os tradutores e os editores de Gramsci, teve um caráter mais filológico-cultural do que interpretativo. Em vez disso, o encontro de 1997, dedicado a Gramsci e il Novecento, propôs-se documentar o modo pelo qual os estudiosos italianos e estrangeiros de diversas disciplinas, influenciados pela variedade das áreas lingüísticas e culturais de origem, empregavam as categorias gramscianas na interpretação do século XX [24].

Em 1987, o encontro sobre Morale e politica in Gramsci, promovido pela Fundação em Roma, e aquele sobre Gramsci e l’Occidente, organizado juntamente com o Instituto Gramsci Emilia-Romagna e a direção nacional do PCI em Bolonha [25], registraram uma relevante participação de estudiosos estrangeiros provenientes da Europa, dos Estados Unidos, da América Latina e da Ásia. No encontro de 1997 sobre Gramsci e il Novecento, também participaram estudiosos canadenses. Graças à presença dos pesquisadores estrangeiros nos quatro encontros citados, os estudiosos de Gramsci no nosso país e a cultura italiana no seu conjunto puderam aprofundar o conhecimento da difusão internacional do pensamento de Gramsci: em particular, souberam da sua influência sobre a “escola da regulação”, que floresceu na França nos anos oitenta, que havia elaborado novas categorias para o estudo da economia mundial, e sobre a “escola de Toronto”, que nos mesmos anos havia dado impulso ao emprego da teoria gramsciana da hegemonia na análise das relações internacionais. Em vez disso, as comunicações dedicadas à difusão do pensamento de Gramsci nas culturas anglófonas davam conta da sua influência no desenvolvimento dos cultural studies desde os anos setenta, enquanto aquelas relativas à América Latina mostravam que, em alguns países decisivos do continente, o pensamento de Gramsci influíra consideravelmente na mudança de orientações de elites intelectuais significativas por causa dos seus laços com a história nacional e as lutas populares.

Para entrar em rede com estes processos, de grande interesse cultural também para a Itália, em 2007 iniciamos uma publicação anual que se baseia na bibliografia gramsciana on line: os Studi gramsciani nel mondo. Com esta publicação, pretendemos oferecer uma escolha dos mais significativos escritos dedicados a Gramsci ou inspirados pelo seu pensamento em todas as áreas lingüísticas e culturais do mundo. Pretendemos assim informar mais amplamente o público culto italiano sobre a fortuna internacional de Gramsci, que gira em torno de diferentes elaborações da teoria da hegemonia. Estas se projetam no estudo das relações internacionais, na análise dos processos de globalização e da interdependência econômica e política, na teoria da cultura, nos estudos sobre a sociedade civil e naqueles dedicados à subjetividade das classes subalternas, às teorias da linguagem, da educação e das comunicações sociais [26].

No campo internacional, a colaboração mais intensa se desenvolveu com os estudiosos de Gramsci na América Latina. Nestes vinte anos, inúmeros foram os encontros internacionais organizados com nossa colaboração, sobretudo no México [27]. Estas experiências nos deram a possibilidade de seguir de perto a grande mudança verificada na vida política e intelectual daqueles países, bem como de perceber a importância que a difusão de Gramsci teve e tem no florescimento da democracia no continente ibero-americano. Por fim, para aumentar o conhecimento da fortuna internacional de Gramsci na Itália, no ano passado, junto com a seção italiana da International Gramsci Society, organizamos o encontro Gramsci le culture e il mondo, dedicado às ramificações principais dos cultural studies: a “escola de Calcutá”, a “escola de Birmingham” e os chamados post-colonial studies [28].

Nos últimos anos, o panorama dos estudos gramscianos na Itália mudou consideravelmente. Não é mais verdade que Gramsci seja mais conhecido no exterior do que no nosso país. Graças também ao trabalho feito pela Fundação e às investigações desenvolvidas para a Edição Nacional, uma nova fornada de estudiosos de muito valor se formou e está se consolidando. Isto nos permitiu dedicar no ano passado um encontro de estudos sobre Gramsci nel suo tempo [29], que envolveu apenas estudiosos italianos. O desenvolvimento da documentação e das pesquisas que descrevi sumariamente torna hoje possível um enquadramento histórico satisfatório da vida e do pensamento de Gramsci. A Edição Nacional dos escritos será sua verdadeira biografia intelectual e política. Mas, com base no trabalho desenvolvido até agora, podemos nos propor a promoção de novas pesquisas e novos estudos tanto sobre a vida quanto sobre o pensamento de Gramsci, favorecendo, em primeiro lugar, sua presença na cultura e na política italianas. O objetivo não pode prescindir da sedimentação das interpretações e dos debates que se desenrolaram, em quase sessenta anos, nos mais diversos âmbitos das disciplinas humanistas. Quem quiser estudar Gramsci na Itália deve haver-se atentamente com esta realidade. Para tal fim, aceitamos a proposta de Angelo D’Orsi de preparar uma Bibliografia gramsciana comentada dos estudos italianos ou traduzidos na nossa língua. Em breve virá à luz o primeiro volume, que chega até 1967.

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A partir da segunda metade dos anos setenta do século passado, os estudiosos que participam da renovação da interpretação do pensamento de Gramsci compartilham a convicção de que o núcleo dinâmico dos Cadernos esteja nos parágrafos dedicados ao Americanismo, de que a principal categoria analítica introduzida por Gramsci na pesquisa histórica seja o conceito de “revolução passiva”, e de que desta tenha tido origem o desenvolvimento de um pensamento original, baseado na teoria da hegemonia. O pensamento de Gramsci no cárcere chega ao amadurecimento entre 1932 e 1934 e contém uma visão do século XX que antecipa um nexo de problemas hoje tornados ainda mais evidentes. São os problemas da globalização da economia mundial e do seu impacto sobre os sistemas nacionais. A reflexão de Gramsci culmina numa nova idéia da política. As pesquisas sobre a história do marxismo contida no Caderno 11, sobre a filosofia de Benedetto Croce contida no Caderno 10 e sobre os intelectuais e a política (Cadernos 12 e 13) constituem os capítulos principais da filosofia da práxis. A teoria da hegemonia — definida por Gramsci como “desenvolvimento teórico-prático da filosofia da práxis” — compõe-se de uma gnosiologia e de uma analítica, cujos conceitos recebem a elaboração mais completa nos Cadernos 14, 15 e 16. A partir da gnosiologia e da analítica da hegemonia germina uma concepção original da constituição dos sujeitos políticos, cujo principal laboratório é a história da Itália contemporânea (o Caderno 19, mas não só).

O programa de pesquisa dos Cadernos originou-se da reflexão sobre as conseqüências da derrota da revolução socialista na Europa no início dos anos vinte e sobre a mudança da natureza e da função internacional da URSS como desdobramento da “revolução pelo alto” e pelo desencadeamento da “guerra camponesa”. Segundo Gramsci, o fim da aliança entre operários e camponeses, provocado por Stalin, tinha conseqüências de alcance mundial. Com tal ruptura desaparecia a possibilidade de dar continuidade e orientação socialista ao revolucionamento das massas, prosseguindo o processo iniciado pela Revolução de Outubro. O socialismo se territorializava e mudavam as bases sociais do Estado soviético. A URSS staliniana mostra-se, para Gramsci, como uma “forma extrema de governo dos funcionários”, uma forma primitiva, econômico-corporativa, de Estado operário, pobre de capacidade hegemônica e de elementos de plano, globalmente sem capacidade de expansão. Segundo Gramsci, a origem disso estava na interrupção da construção de uma “economia média”, baseada numa troca equilibrada entre cidade e campo. Seu desaparecimento bloqueava a propagação internacional de processos análogos, baseados nacionalmente na aliança entre operários e camponeses. Ruía assim a idéia da revolução mundial, que Gramsci, fiel à lição original dos bolcheviques, entendera como difusão do industrialismo com base na cooperação entre cidade e campo de modo a romper o antagonismo que caracteriza suas relações na modernidade capitalista.

A investigação das causas da derrota faz Gramsci aprofundar a busca das dinâmicas do desenvolvimento capitalista e concentrar a atenção sobre a forma mais avançada de industrialismo, a de tipo americano, caracterizada pelo taylorismo e pelo fordismo. Em oposição à teoria oficial do movimento comunista, chega a uma diferente periodização e interpretação da era do imperialismo. Segundo Gramsci, a partir do final do século XIX, o desenvolvimento industrial, que unificara ainda mais o mercado mundial, havia deslocado o centro da “economia mundo” da Europa para os Estados Unidos. Aqui se afirmaram as formas mais avançadas de introdução da racionalidade científica nos processos de trabalho e na organização das empresas e dos mercados. Este tipo de industrialismo constituía a forma mais racional de desenvolvimento das forças produtivas, continha a tendência à formação de uma “economia programática” e, como tal, merecia ser difundido. Segundo Gramsci, com sua propagação se poderiam criar as condições para separar industrialismo e capitalismo, fazendo com que as classes trabalhadoras assumissem a direção dos processos de modernização.

Na visão de Gramsci, pois, a contradição principal da era contemporânea está no contraste entre o cosmopolitismo da vida econômica e o nacionalismo da vida política, baseada ainda nas prerrogativas do Estado-nação. A Primeira Guerra Mundial se originara da incapacidade por parte das classes dirigentes de resolver aquele contraste, adequando os espaços da política aos novos espaços da economia. As tentativas de solução nascidas da guerra — a revolução mundial projetada pelos bolcheviques e a criação da Sociedade das Nações projetada por Wilson — faliram rapidamente. A paz de Versalhes restabelecera as prerrogativas dos Estados nacionais e inaugurara uma época de nacionalismos exacerbados e de conflitos endêmicos. Segundo Gramsci, o contraste entre o cosmopolitismo da economia e o nacionalismo da política, que se reproduz depois da guerra, estava na origem da grande crise de 1929-1931. Sua superação só poderia se verificar favorecendo a difusão do industrialismo de tipo americano, que, graças à criação da economia dos consumos, indicava o caminho para conjugar desenvolvimento e democracia.

Não há quem não veja quanta distância então separa Gramsci das concepções do movimento comunista dos anos trinta. Sua visão do desenvolvimento econômico recusava as teorias do imperialismo, da “crise geral do capitalismo” e da inevitabilidade da guerra, que constituíam o fundamento analítico do bolchevismo e a justificação histórica da Internacional Comunista. Gramsci considerava que a expansividade do movimento comunista se esgotara rapidamente e, portanto, a direção do processo histórico-mundial voltara às mãos das velhas classes dominantes. Mas a Grande Guerra havia inaugurado uma época nova: as imensas massas camponesas fizeram sua entrada na história; a guerra as inserira nos circuitos da modernidade, dando início a um processo de desenvolvimento irreversível da subjetividade dos povos. Com o esgotamento da onda revolucionária originada da Grande Guerra e da Revolução Russa, a difusão do industrialismo e da modernidade voltaram a ficar sob a direção das velhas classes proprietárias. Deste modo, originara-se uma forma de “revolução passiva”, que dominava a cena mundial. Nela se inseria também a URSS, de modo subalterno. Mas, em todo caso, para cumprir uma tarefa histórica improrrogável, as classes dominantes deveriam haver-se com as classes subalternas. Qual era o ponto de interseção de um outro programa, que se propusesse o objetivo de fazer com que as classes populares assumissem a direção do processo?

Segundo Gramsci, o principal evento político originado da mundialização da economia era a crise do Estado-nação. O cosmopolitismo da economia modifica as características das nações. No século XX — diz Gramsci —, a história é história mundial e só convencionalmente se pode escrever a história de um só país, a não ser que se captem suas relações com a história internacional. A despeito da restauração da velha Europa dos Estados nacionais, na seqüência da paz de Versalhes, a nação não mais pode ser restrita ao horizonte da vida estatal. Uma sociedade civil internacional está em formação. As nacionalidades são continuamente remodeladas pela variação das condições internas e internacionais do desenvolvimento. A difusão mundial do industrialismo tem seus epicentros nos mercados nacionais; a regulação do crescimento econômico torna-se a função fundamental dos Estados; a identidade nacional é redefinida pelos desdobramentos da socialização, isto é, pelas combinações de nação e desenvolvimento. A idéia de nação, pois, dinamiza-se e torna-se plural. Ela varia com base nos projetos de cidadania dos diversos grupos sociais e das classes contrapostas. Em outras palavras, muda com base nas alternativas que se oferecem à internacionalização da vida estatal, nas diversas combinações dos elementos nacionais e internacionais do desenvolvimento que podem se afirmar. Isto impõe uma nova concepção da política.

Cosmopolitismo da economia significa unificação econômica do mundo, ainda que antagônica. Tal unificação gera laços cada vez mais numerosos de interdependência econômica e política. Pela primeira vez na história, pode-se conceber uma idéia da política que preveja a subordinação permanente da força ao consenso. É o conceito da política como hegemonia, que se contrapõe à concepção tradicional da política como potência. A crise do princípio de soberania provoca uma distinção progressiva da política em relação ao Estado, um distanciamento em relação a ele. Para Gramsci, este processo deve ser levado até as últimas conseqüências, entrelaçando o desenvolvimento da democracia dentro dos Estados com a criação da democracia internacional. Para ele, o objetivo se mostra realista, uma vez que a construção da supranacionalidade está na ordem do dia. Assim, ele vê o agrupamento das economias e dos Estados europeus como uma possível etapa da construção de uma nova ordem mundial, baseada na cooperação entre os povos na interdependência e na reciprocidade.

Gramsci percebe lucidamente que os centros da difusão mundial do industrialismo de tipo americano são os Estados nacionais. Eles constituem o teatro da luta política e de classe. A concepção da política como hegemonia compreende o desenvolvimento nacional de modo aberto a diferentes alternativas. Com base no industrialismo de tipo americano é possível que se forme “uma nova vontade coletiva a partir de baixo”. Esta decorre das condições em que não só a classe operária, mas toda a sociedade se encontram em face da economia. A idéia de nação que as classes populares devem promover para afirmar sua hegemonia é a que se propõe contribuir, como nação de produtores, para a “formação de uma economia segundo um plano mundial”. Portanto, traçando um programa para as classes trabalhadoras italianas, Gramsci lhes indica o objetivo de acolher a herança da tradição cosmopolita do nosso povo. É o tema do Caderno 19 (Risorgimento), que abre o caminho para a conciliação entre classe e nação e anuncia uma remodulação democrática da nação. Segundo Gramsci, esta é a única idéia que pode guiar os processos de internacionalização postos na ordem do dia pelos desenvolvimentos da economia mundial, de modo a sanar as taras de uma história nacional caracterizada por bases demasiadamente restritas do desenvolvimento econômico e da hegemonia das classes proprietárias.

A concepção da política como hegemonia relaciona-se assim com o pensamento de Maquiavel, que, para Gramsci, é o primeiro pensador da democracia porque percebe o caráter estruturalmente plural das sociedades modernas: o caráter organizado da cidade e do campo, que o surgimento do modo de produção capitalista põe em relação dinâmica entre si, ainda que antagônica, tornando ambos a base do desenvolvimento econômico e do Estado. O Estado moderno, ao se fundar na unificação do povo-nação, é a única forma política que permite uma troca equilibrada entre cidade e campo, e, mais em geral, entre todos os interesses organizados que formam o tecido das sociedades modernas. Parece evidente que, ligando-se à concepção da política como hegemonia, a teoria da democracia se ilumina com uma nova luz e assume um caráter realista e concretamente universal.

Reelaborar o marxismo como filosofia da práxis torna-se assim o tema principal do programa de investigação dos Cadernos, com o objetivo de indicar às classes subalternas o caminho para refundar a nação e instituir novas relações entre dirigentes e dirigidos, intelectuais e povo. Este é o sentido que Gramsci confere à filosofia da práxis quando, no ponto culminante da sua investigação, define-a como uma “heresia nascida no terreno da religião da liberdade” [30].

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Giuseppe Vacca é presidente da Fundação Instituto Gramsci, de Roma. Este texto foi apresentado no último 7 de março ao conselho curador da Fundação.

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Notas

[1] G. Vacca. “La verità su Gramsci”. l’Unità, 20 fev. 1996.

[2] Ch. Daniele (Org.). Gramsci a Roma Togliatti a Mosca. Com um ensaio de G. Vacca. Turim: Einaudi, 1999.

[3] G. Vacca. “Appunti su Togliatti editore delle Lettere e dei Quaderni”. Studi Storici, 1991, n. 3.

[4] S. Pons, “‘L’affare Gramsci-Togliatti’ a Mosca (1938-1941)”. Studi Storici, 1994, n. 1.

[5] Ch. Daniele (Org.). Togliatti editore di Gramsci. Introdução de G. Vacca. Roma: Carocci, 2005.

[6] P. Spriano. Gramsci in carcere e il partito. Roma: Riuniti, 1977.

[7] P. Togliatti. “Il leninismo nel pensiero e nell’azione di A. Gramsci (Appunti)”. In: Id. Scritti su Gramsci. Org. por G. Liguori. Roma: Riuniti, 2001, p. 213-4.

[8] A. Natoli. Antigone e il prigioniero. Tania Schucht lotta per la vita di Gramsci. Roma: Riuniti, 1990.

[9] Op. cit., p. VIII-IX.

[10] P. Sraffa. Lettere a Tania per Gramsci. Introdução e organização de V. Gerratana. Roma: Riuniti, 1991.

[11] T. Schucht. Lettere ai familiari. Org. por M. Paulesu Quercioli. Prefácio de G. Gramsci. Roma: Riuniti, 1991.

[12] Ch. Daniele. “Storia delle fonti”. In: Antonio Gramsci e Tatiana Schucht. Lettere 1926-1935. Org. por A. Natoli e Ch. Daniele. Turim: Einaudi, 1997, p. LXXIII.

[13] F. Izzo. “I ‘due mondi’. Tania Schucht, Antonio Gramsci e Piero Sraffa sulla questione ebraica”. Studi Storici, 1993, n. 2/3, p. 658.

[14] Ch. Daniele, op. cit., loc. cit.

[15] C. Natoli. “Gramsci in carcere: le campagne per la liberazione, il partito, l’Internazionale (1932-1933)”. Studi Storici, 1995 n. 2; Id. “Le campagne per la liberazione di Gramsci, il Pcd’I e l’Internazionale (1934)”. Studi Storici, 1999, n. 1.

[16] O trabalho preparatório da Edição Nacional e as divergências que se verificaram no seu curso estão documentados em IG Informazioni, trimestral da Fundação Instituto Gramsci, Roma, 1992, n. 2, e 1993, n. 4.

[17] Selections from the Prison Notebooks of Antonio Gramsci. Edição e tradução de Q. Hoore e G. Nowell Smith. Londres: Lawrence and Wishart, 1971; Selections from cultural writings. Edição de D. Forgacs e G. Nowell Smith. Londres: Lawrence and Wishart, 1985.

[18] Maria Luisa Righi (Org.). Gramsci nel mondo. Atti del convegno internazionale di studi gramsciani. Formia 25-28 ottobre 1989. Roma: Fondazione Istituto Gramsci, 1995.

[19] Sobre o surgimento da International Gramsci Society, cf. n. 4, 1989, e n. 1, 1990, de IG Informazioni.

[20] J. M. Cammett (Org.). Bibliografia gramsciana 1922-1988. Roma: Riuniti, 1991. Com essa publicação teve início a série dos Anais da Fundação Instituto Gramsci. Uma atualização até 1993 da bibliografia foi publicada pela Fundação em 1995, organizada por J. M. Cammet e M. L. Righi.

[21] Cf. Egemonia e democrazia. Gramsci e la questione comunista nel dibattito di Mondoperaio. Roma: Avanti, 1977.

[22] Sobre as razões do declínio de interesse pelo pensamento de Gramsci nos anos oitenta, na Itália, cf. G. Vacca, Appuntamenti con Gramsci. Roma: Carocci, 1999, p. 13-5; L. Paggi. “La strategia liberale della seconda repubblica. Dalla crisi del Pci alla formazione di una destra di governo”. In: F. Malgeri e L. Paggi (Orgs.). Partiti e organizzazioni di massa, v. III da obra coletiva L’Italia repubblicana negli studi degli anni settanta. Soveria Mannelli: Ed. Rubettino, 2003, p. 72-82.

[23] A. Gramsci. Quaderni del carcere. Edição crítica dirigida por G. Francioni. 1. Quaderni di traduzioni (1929-1932). Org. por G. Cospito e G. Francioni. Roma: Istituto dell’Enciclopedia Italiana, 2007:

[24] G. Vacca (Org.). Gramsci e il Novecento. Anais da Fundação Instituto Gramsci, XI. Roma: Carocci, 1999.

[25] W. Tega (Org.). Gramsci e l’Occidente. Trasformazioni della società e riforma della politica. Bolonha: Ed. Cappelli, 1990. Os anais do encontro Morale e politica in Gramsci não foram publicados. As intervenções podem ser consultadas na Fundação Instituto Gramsci.

[26] G. Vacca e G. Schirru. Studi gramsciani nel mondo (2000-2005). Bolonha: Il Mulino, 2007.

[27] Recordo os encontros que registraram participação internacional mais ampla: Pensar el mundo moderno: actualidad del pensamiento de Gramsci, em colaboração com a Universidade Autônoma da Cidade do México (Coyoacán, México, 27-29 nov. 1993); III Conferencia Internacional de Estudos Gramscianos, em colaboração com a Benemérita Universidade Autônoma de Puebla (Puebla, México, 7-10 out. 2003); Gramsci a setenta anos de la muerte, em colaboração com a UACM (Universidade Autônoma da Cidade do México), 29 nov.-1 dez. 2007.

[28] O encontro foi organizado em colaboração com a International Gramsci Society–Itália e realizou-se em Roma, entre 27 e 28 de abril de 2007. Os anais estão em curso de publicação.

[29] O encontro foi organizado em colaboração com a Fundação Gramsci de Puglia e realizou-se em Bari e em Turi, entre 13 e 15 de dezembro de 2007. Participaram mais de 50 estudiosos. Os anais estão sendo preparados.

[30] As investigações e os estudos mais significativos a que me refiro estão indicados na resenha de F. Izzo, “Studi gramsciani”. Nuova informazione bibliografica, n. 2, abril-maio. Bolonha: Il Mulino, 2007, p. 288-90.

Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

Comentários

Uma nova cosmópolis européia e mundial

Giorgio Baratta - Abril 2008

Existe, hoje, uma consciência cultural européia e existe uma série de manifestações de intelectuais e políticos que sustentam a necessidade de uma união européia: até se pode dizer que o processo histórico tende para esta união e que existem muitas forças materiais que só com esta união poderão se desenvolver: se em x anos esta união se realizar, a palavra “nacionalismo” terá o mesmo valor arqueológico da atual “municipalismo” [1].

O desaparecimento do socialismo real, o alastramento do americanismo, a globalização econômica e midiático-cultural provocaram em várias partes do mundo o despertar de interesse pelo pensamento de Gramsci. Num sentido paradoxal, mas não extraordinário, seu modo–método de pensar mostra-se mais atual hoje do que no período em que escrevia.

A investigação diacrônica recente sobre os Cadernos evidencia (Frosini, Vacca e outros) a minuciosa consideração da evolução (ou involução) da União Soviética que neles pulsa [2]. Mas a substância internacional do pensamento está em outra parte: fica evidente a forte consciência da mundialização da política sob domínio americano, diante da certeza de que o materialismo histórico ou filosofia da práxis, animado por um autêntico “filósofo democrático” ou “pensador coletivo”, produz, ou pode produzir, um horizonte prático-teórico novo e portador de futuro possível, no momento em que aquele primeiro e primitivo socialismo perde sua força propulsora.

De resto, desde o Caderno 1 Gramsci propõe a análise do americanismo no contexto da internacionalização da questão meridional, em que o emblemático, para a Itália e a Europa, “mistério de Nápoles” se liga àqueles países asiáticos, como a Índia ou a China, onde se apresenta a “estagnação da história” [3]. E, no entanto, já no Caderno 2 — como ressaltam os estudos de Boothman [4] — Gramsci delineia um possível Trânsito Pacífico, que poderia pôr de joelhos o Primado Atlântico.

É bem compreensível a grande prudência político-programática de Gramsci revolucionário-reformador num “mundo grande e terrível”, que se revela, “especialmente para quem está no cárcere, cada vez mais incompreensível” [5]. A insistência de Gramsci na categoria “mundo” — uma insistência até mesmo lingüística, metafórica e expressiva — não deixa dúvidas sobre a centralidade do cosmopolitismo = novo internacionalismo no ritmo do seu pensamento.

Teste decisivo é a questão européia. Também aqui se registra um paradoxo: nunca como hoje a união européia pareceu tão frágil e politicamente inconsistente; nunca como hoje, entretanto, a busca de uma alternativa à “nova ordem mundial” “de marca americana” demonstra uma necessidade urgente de iniciativa da Europa, capaz de conferir crédito ao que Gramsci chamava de “uma moderna forma de cosmopolitismo” [6].

Nos Cadernos, a abordagem gramsciana daquilo que, para ele, representava a “necessidade evidente” e já inadiável de “união européia” (ainda que só realizável “em x anos”) é esporádica e, no entanto, reveladora do horizonte geopolíticocultural do seu pensamento. O ponto delicado, ora em questão, é o nexo que Gramsci estabelecia entre Europa e Nova Cosmópolis.

Gramsci não é um filósofo da política, mas um filósofo político, no sentido de que sua concepção da política deve ser enquadrada no esforço de repensar questões filosóficas gerais, a partir do que ele considerava “a primeira e principal pergunta da filosofia”: “o que é o homem?” [7].

O indivíduo é um “centro estruturante de relações” e, como tal, “passa a fazer parte de organismos, dos mais simples aos mais complexos”. O homem é um “sujeito múltiplo”, assim como múltiplas são “as sociedades das quais um indivíduos pode participar: são muito numerosas, mais do que possa parecer. É através destas ‘sociedades’ que o indivíduo faz parte do gênero humano” [8]. O organismo mais complexo é, evidentemente, “a unificação do gênero humano”, produzida pela “colaboração de todos os povos” e realizada sob formas atormentadas, permeadas de violência, mas nem por isso menos evidente e rica de potencialidades (Marx havia falado de “comunismo do capital”).

A gramsciana dialética do contraponto entre formas múltiplas de pertencimento e participação comum dos indivíduos representou, e representa, um grande desafio contra o trágico vezo identitário que em grande parte caracterizou, na falta de perspectivas concretamente internacionalistas, a história do século XX e desta mudança de século [9]. Assim, Gramsci pôde argumentar sobre o valor político do seu enraizamento na Sardenha (uma região caracterizada pela presença de uma “língua” e de uma “cultura” específica) e, ao mesmo tempo, sentiu e explicitou a exigência de uma radical saída do seu original “provincianismo ao quadrado e ao cubo”, a fim de abraçar uma “consciência européia” [10].

Daí surgiu, por um lado, uma contribuição original para uma concepção dinâmica da autonomia regional, entendida, como disse Antonio Pigliaru, seu principal aluno sardo, não como “barreira”, mas como “fronteira” [11]; por outro, a consciência de que, para abandonar radicalmente qualquer tentação residual de “jogar os continentais ao mar”, o ponto de chegada — para ele que, em Turim, aos vinte anos começara a ir “à escola da classe operária” — devia ser não só e nem tanto a identidade nacional, por mais que fosse vital e importante, mas a consciência européia. E por quê? Porque esta consciência é que podia assegurar a capacidade de viver, de modo moderno e aberto, tanto o ser sardo, quanto o ser italiano. E aqui chegamos ao núcleo do problema.

A questão das relações entre identidade regional, meridional, nacional e européia é um dos temas ainda hoje mais significativos da investigação histórica sobre o “ritmo do pensamento” de Gramsci: diria sobretudo hoje, depois que Said enfatizou a grande novidade espacial e territorial do método de pensamento gramsciano no âmbito da tradição marxista (e não só) [12]. O juízo de Gramsci sobre Croce (assim como sobre Gobetti) está fundamentalmente atravessado por esta questão: Croce surge, aos olhos de Gramsci, como um pensador em primeiro lugar europeu e, neste sentido, mundial; e só nacional em termos subordinados a tal horizonte, tanto é verdade que ele, à diferença de Gobetti, parece-lhe um intelectual substancialmente desinteressado, não permeável à especificidade da questão meridional, a qual, como sabemos, representava para Gramsci uma questão nacional.

Pode-se argumentar que, para Gramsci, o caráter europeu-mundial do pensamento de Croce representava certamente um motivo de abertura e modernidade, mas ao mesmo tempo de conservação e reação. De fato, o cosmopolitismo crociano reproduzia o cosmopolitismo tradicional das “classes cultas italianas”, que desde o Renascimento implicara um distanciamento intelectual e moral do território e da sociabilidade da própria vida cotidiana. Neste sentido, cosmopolitismo = recusa–desprezo preconceituoso do senso comum, isto é, de um senso (structures of feeling, dizia Williams) comum aos “simples” de uma dada realidade territorial. Compreende-se então como e por que Gramsci (que reivindicava vigorosamente o “ser sardo”) percebia como decisivo para a filosofia da práxis o embate com Croce.

A Sardenha era vivida por Gramsci como um capítulo da luta mais geral pela autonomia dos “grupos sociais subalternos”. A Itália representava o terreno decisivo de luta com o fascismo, que tornara ridícula e exasperara a “consciência nacional-popular”. A Europa (vê-se bem da citação posta no início) significava a aquisição de um pertencimento mais amplo e mais moderno do que o nacional, e sobretudo um antídoto ao nacionalismo, que, segundo Gramsci, era o maior fator de crise em nível mundial, na medida em que marchava contra a corrente em relação ao objetivo “internacionalismo da vida econômica”.

Para delimitar melhor a posição de Gramsci sobre a Europa, deve-se considerar a posição da Europa em face da centralidade que ele reconhecia à América e ao americanismo, no quadro do processo de progressiva “unificação do gênero humano”. Segundo Gramsci, os Estados Unidos da América, que empunhavam o bastão da corrida de revezamento mundial, abandonado pela Grã-Bretanha, constituíam “um prolongamento orgânico” e uma “intensificação” da Europa, e, no entanto, implicavam para a Europa “a transformação da forma de civilização existente”, isto é, uma transformação radical da própria historicidade, a começar pela perda do primado mundial [13].

No seu conjunto, os Cadernos (e o complexo e até tortuoso emaranhado diacrônico que os caracteriza) podem ser lidos como a investigação, ao mesmo tempo histórica e política, analítica e projetual, de um ponto de vista que ponha em movimento a perspectiva da superação da hegemonia americana no mundo, posta em crise, mas não decisivamente comprometida, pelo advento do socialismo num só país. É este o problema que, segundo Gramsci, requer um pensamento novo, ao mesmo tempo europeu e mundial.

Se a grande novidade dos Estados Unidos da América era a conexão tendencial entre economia e hegemonia, isto é, a infiltração social e política da produção industrial no tecido social, a Europa era portadora de uma instância político-hegemônica caracterizada — hoje podemos dizê-lo, mas era o que pensava o próprio Gramsci —, para o bem e para o mal, por uma exigência de universalismo, vale dizer, de espírito de mediação, de unificação cultural, de reconhecimento das diferenças, ainda que, ao mesmo tempo, de arrogância e agressividade colonial, de racismo, de imperialismo.

Gramsci pensa e escreve, substancialmente, antes de Hitler e de Stalin. Hoje nos encontramos depois de Hitler e de Stalin. Eis a raiz da sua atualidade. Não se trata, certamente, de recuar, mas de fazer com que frutifique, com base em quase um século de experiência, um certo modo e método de pensamento. Ainda hoje, devemos acertar contas com a necessidade — cada vez mais viciada de dilemas terríveis, identidades enraizadas e vontade de domínio — de viver e conviver com as passagens entre região, nação, continente e mundo.

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Giorgio Baratta é presidente da International Gramsci Society–Itália e autor, entre outros, de As rosas e os Cadernos. O pensamento dialógico de Antonio Gramsci (Rio de Janeiro: DP&A, 2004).

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Notas

[1] A expressão que dá o título a este texto está no Caderno 19, § 5, sobre o Risorgimento italiano. Cf. A. Gramsci. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, v. 5, p. 41. O trecho em epígrafe encontra-se em Id., ib., p. 249.

[2] Cf. F. Frosini. Una “religione laica”. Verità e politica nei “Quaderni del carcere” di Antonio Gramsci (em curso de publicação); A. Rossi e G. Vacca. Gramsci tra Mussolini e Stalin. Roma: Fazi, 2007.

[3] Caderno 22, § 2. Cf. A. Gramsci. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, v. 4, p. 247.

[4] D. Boothman. “Gli appunti del 1930 sulla geopolitica”. In: R. Medici (Org.). Gramsci, il suo e il nostro tempo. Bolonha: Clueb, 2006.

[5] Carta a Tania de 20 de outubro de 1928. In: A. Gramsci. Cartas do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, v. 1, p. 294.

[6] Caderno 19, § 5, cit., p. 42.

[7] A. Gramsci. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999, v. 1, p. 411.

[8] Id., ib., p. 413.

[9] Aqui me permito remeter ao meu recente livro Antonio Gramsci in contrappunto. Dialoghi col presente. Roma: Carocci, 2007.

[10] Sobre o modo de pensar dialético e “contrapontista” de Gramsci, é exemplar o § 19 (de uma só redação) do Caderno 15, de 1933, em que, tomando como modelo de escrita os Ricordi politici e civili, de Guicciardini, que “recapitulam […] ‘experiências’ civis e morais”, ele recorda sua “permanente tentativa de superar um modo atrasado de viver e de pensar, como aquele que era próprio de um sardo do princípio do século, para apropriar-se de um modo de viver e de pensar não mais regional e ‘paroquial’, mas nacional, e tanto mais nacional (aliás, justamente por isto nacional) na medida em que buscava se inserir em modos de viver e de pensar europeus ou, pelo menos, comparava o modo nacional com os modos europeus, as necessidades culturais italianas com as necessidades culturais e as correntes européias […]. Se é verdade que uma das necessidades mais fortes da cultura italiana era desprovincianizar-se até mesmo nos centros urbanos mais avançados e modernos, tanto mais evidente deveria se revelar o processo ao ser experimentado por um ‘provinciano ao quadrado e ao cubo’, como decerto era um jovem sardo do princípio do século” (Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, v. 4, p. 134-5).

[11] Antonio Pigliaru. “L’eredità di Gramsci e la cultura sarda”. In: Pietro Rossi (Org.). Gramsci e la cultura contemporanea. Atti del Convegno internazionale di studi gramsciani tenuto a Cagliari il 23-27 aprile 1967. Roma: Editori Riuniti–Istituto Gramsci, 1975, v. 1, p. 516.

[12] Cf., por exemplo, Edward W. Said. Cultura e imperialismo. Letteratura e consenso nel progetto coloniale dell’Occidente. Roma: Gamberetti, 1998, p. 74-6.

[13] Antonio Gramsci. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, v. 4, p. 279-81.

Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

Comentários (1)

A lingüística e o não-marxismo de Gramsci

Franco Lo Piparo - Junho 2008
Tradução: Josimar Teixeira

Depois de mais de meio século de debates gramscianos e quase trinta anos depois da edição crítica dos Cadernos do cárcere, uma questão filológica ainda espera resposta dos estudiosos do pensamento de Gramsci e, sobretudo, dos estudiosos do Gramsci teórico original da política e do trabalho intelectual. A questão é simples: uma multiplicidade de indícios convergentes (testemunhos autobiográficos, anotações de contemporâneos, organização dos temas nos Cadernos, etc.) induz a formular a hipótese de que Gramsci amadureceu a teoria dos intelectuais, da hegemonia, da sociedade civil, etc., no curso dos seus interesses profissionais pela linguagem. Portanto, a matriz primitiva da sua filosofia não deveria ser buscada em Marx, em Lenin ou em qualquer outro marxista, mas na ciência da linguagem.
Entre os muitos textos possíveis, só citaremos alguns. Dois deles são muitíssimo conhecidos e citados, mas, apesar da notoriedade, os estudiosos do pensamento político gramsciano parecem ter dificuldades em transformar as inequívocas informações neles contidas em partes orgânicas das suas interpretações.

Três testemunhos diretos

(i) Comecemos com a famosíssima carta a Tania de 17 de novembro de 1930. Transcrevemo-la quase inteiramente, porque é todo o contexto que faz ressaltar melhor a ausência, na literatura crítica gramsciológica, da informação autobiográfica fornecida sem sombra de equívoco por Gramsci:

Detive-me em três ou quatro temas principais, um dos quais é a função cosmopolita que tiveram os intelectuais italianos até o século XVIII, que por sua vez se divide em várias partes: o Renascimento e Maquiavel, etc. Se tivesse a possibilidade de consultar o material necessário, acredito que daria para fazer um livro realmente interessante e que ainda não existe […]. Enquanto isso, escrevo notas, até porque a leitura do relativamente pouco que tenho me faz lembrar as velhas leituras do passado. Por outro lado, a coisa não é completamente nova para mim, porque há dez anos escrevi um ensaio sobre a questão da língua segundo Manzoni, o que requereu uma certa investigação sobre a organização da cultura italiana, desde quando a língua escrita (o chamado latim medieval, isto é, o latim escrito entre 400 d.C. até 1300) se separou completamente da língua falada do povo, que, terminada a centralização romana, se fragmentou em infinitos dialetos. A este latim medieval sucedeu a língua vulgar, que foi novamente submergida pelo latim humanista, dando origem a uma língua douta, vulgar em termos de léxico, mas não em termos de fonologia e muito menos de sintaxe, que foi reproduzida do latim: assim, continuou a existir uma dupla língua, a popular ou dialetal e a douta, ou seja, a língua dos intelectuais e das classes cultas. O próprio Manzoni, ao reescrever Os noivos e em seus estudos sobre a língua italiana, só levou em conta, na realidade, um aspecto da língua, o léxico, e não a sintaxe, que, afinal, é a parte essencial de qualquer língua, tanto é verdade que o inglês, embora tenha mais de 60% de palavras latinas ou neolatinas, é língua germânica, enquanto o romeno, embora tenha mais de 60% de palavras eslavas, é língua neolatina, etc. Como vê, tenho tanto interesse pela questão que a mão correu livre no papel (Cartas do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, v. 1, p. 452-3).
O texto é importante, não só porque nele se declara explicitamente que as primeiras reflexões sistemáticas “sobre a organização da cultura italiana” surgiram por ocasião da redação de “um ensaio sobre a questão da língua segundo Manzoni”, mas também por causa do modo pelo qual o tema é desenvolvido. O tema é “a função cosmopolita que tiveram os intelectuais italianos até o século XVIII”, mas por toda a carta o autor se mostra envolvido por um só aspecto do problema, a língua, até o ponto de deixar “a mão correr livre no papel”. Sobre o resto não diz palavra alguma.

(ii) Outro texto ainda mais citado e mais famoso do que o primeiro. Em 19 de março de 1927, Gramsci comunica a Tania estar “atormentado […] por esta idéia: de que é preciso fazer algo für ewig”. Os temas que se propõe estudar são quatro:

1) uma pesquisa sobre a formação do espírito público na Itália no século passado; em outras palavras, uma pesquisa sobre os intelectuais italianos, suas origens, seus agrupamentos segundo as correntes culturais, seus diversos modos de pensar […]. 2) Um estudo de lingüística comparada! Nada menos que isto. Mas o que poderia ser mais “desinteressado” e für ewig do que esse tema? Tratar-se-ia, naturalmente, de examinar apenas a parte metodológica e puramente teórica do assunto, que jamais foi tratado de modo completo e sistemático do novo ponto de vista dos neolingüistas contra os neogramáticos. (Querida Tania, esta minha carta vai horrorizá-la!) Um dos maiores “remorsos” intelectuais de minha vida é a profunda dor que causei a meu bom professor Bartoli, da Universidade de Turim, o qual estava convencido de que eu era o arcanjo destinado a derrotar definitivamente os “neogramáticos”, uma vez que ele, da mesma geração e ligado por milhões de fios acadêmicos a esta choldra de homens infames, não queria ir, em seus enunciados, além de um certo limite estabelecido pelas conveniências e pela deferência aos velhos monumentos funerários da erudição. 3) Um estudo sobre o teatro de Pirandello e sobre a transformação do gosto teatral italiano que Pirandello representou e contribuiu para determinar. […]. 4) Um ensaio sobre os romances de folhetim e o gosto popular na literatura. […] O que é que você acha disso? No fundo, para quem observar bem, entre esses quatro temas existe homogeneidade: o espírito popular criador, em suas diversas fases e graus de desenvolvimento, está na base deles em igual medida (Ib., v. 1, p. 128-9).
Também aqui a lingüística, vista precisamente nos seus aspectos abstratamente metodológicos, fica em primeiro plano e é considerada como um tema de estudo afim àqueles que versam sobre os intelectuais, Pirandello e o romance de folhetim: “No fundo, para quem observar bem, entre esses quatro temas existe homogeneidade”. Tentamos dar uma explicação desta proclamada homogeneidade num livro de 1979 [Lingua intellettuali egemonia in Gramsci (Roma-Bari: Laterza)]. Talvez sejam possíveis outras explicações. Os estudiosos do Gramsci teórico dos intelectuais não podem se eximir de dar alguma.

(iii) Em 19 de novembro de 1933, Gramsci é transferido do cárcere de Turi para a enfermaria do cárcere de Civitavecchia e, em 7 de dezembro, para uma clínica de Formia. A partir deste momento, o controle da censura se atenua, e os Cadernos não trazem mais o carimbo das autoridades carcerárias. Em 25 de outubro do ano seguinte, obtém a liberdade condicional. Nestas condições de semiliberdade, escreve o que seria o último caderno de notas, com a data de 1935, e o dedica não a temas imediatamente políticos, mas ao conceito de gramática.

Até o final, a linguagem continua a estar no centro da sua atividade intelectual. Um sinal de que na linguagem se encontra a chave da sua filosofia política? A pergunta merece uma resposta, alguma resposta, por parte dos estudiosos da teoria política gramsciana. De todo modo, resta o fato de que o fundador do Partido Comunista Italiano e teórico dos aparelhos culturais e do conceito de hegemonia começa intelectualmente como lingüista (“aluno do bom professor Bartoli”, como universitário, mas, ainda no Avanti! de 26 de janeiro e 7 de fevereiro de 1918, é chamado de “emérito estudioso de glotologia” e “jovem companheiro, filósofo e glotólogo”) e conclui sua atividade teórica como autor de um breve, mas denso, estudo da língua. Este dado biográfico, à parte a meritória tentativa de Carnevali [“Teoria del linguaggio e teoria politica (Gramsci e l’egemonia)”. Teoria politica, ano 5, n. 1, 1989], ainda não faz parte das reconstruções e das pesquisas teóricas gramsciológicas.

Estes e outros indícios filológicos nos fazem pensar que a lingüística gramsciana não pode interessar só aos lingüistas e filósofos da linguagem, mas é pertinente (deveria ser) seja aos teóricos da política, que buscam ou buscaram inspiração nas páginas de Gramsci, seja àqueles que se interessam em fornecer uma explicação da especificidade não-leninista, e talvez amarxista, da proposta filosófica gramsciana.

Gramsci não é um dos muitos filósofos marxistas dos quais é possível circunscrever, ao lado de outros fragmentos de teorias, também uma teoria da linguagem. O caso Gramsci é radicalmente diferente. A reflexão sobre a linguagem e a sua cultura lingüística foram o mecanismo gerador da sua originalidade e das características que o tornam radicalmente diferente dos outros marxistas. Isto, naturalmente, não significa que outras experiências, inclusive o marxismo soviético, não tenham contribuído para a formação daquele pensamento.

A questão é outra. Aquelas experiências tiveram resultados teóricos originais porque se inseriram num tronco predisposto a fazer com que amadurecessem na direção da teoria dos intelectuais e da hegemonia, ou então, graças à genialidade do seu autor, amadureceriam de qualquer maneira no sentido dos mesmos resultados teóricos? A pergunta poderia ser reformulada de outro modo. Se a teoria dos intelectuais e da hegemonia tivesse uma origem leniniana, genericamente soviética ou genericamente marxista, por que Togliatti não produziu nada semelhante, ele que passou por uma imersão mais longa e absorvente no marxismo, soviético e não soviético? O recurso à maior genialidade e inventividade de Gramsci é uma explicação que pode nos satisfazer?

A nação-povo e a língua

Nos Cadernos, encontram-se diversos livros: sobre a teoria e história dos intelectuais, o Partido-Príncipe como agente de transformação, o Risorgimento, o folclore, a filosofia de Benedetto Croce, a democracia industrial americana, a sociologia e a história da literatura, a língua e talvez ainda outros mais. Togliatti assumiu a responsabilidade de dividi-los, e provavelmente não se podia fazer melhor. Gramsci argumentou em várias ocasiões que havia profunda homogeneidade entre os temas por ele tratados. Os estudiosos muitas vezes esqueceram a indicação gramsciana, e cada qual recortou seu próprio Gramsci para uso e consumo no próprio âmbito disciplinar, não se preocupando excessivamente com a coerência do seu Gramsci em relação ao Gramsci dos colegas.

O que unifica as mais de duas mil páginas dos Cadernos? Uma única e só questão: o estudo teórico e histórico das condições que permitem atuar “sobre um povo disperso e pulverizado para despertar e organizar sua vontade coletiva” (Caderno 13, § 1), em particular aquela vontade coletiva que Gramsci chama de nação-povo. A revolução socialista é só um dos modos (ainda que, para Gramsci, naturalmente o mais importante) pelos quais o problema da formação de organismos nacional-populares coesos pode se apresentar na história. A partir da noção de nação-povo, todos os conceitos teóricos e as análises históricas se deixam referir docilmente a um sistema ordenado e coerente: hegemonia, sociedade civil, Partido-Príncipe, folclore, cosmopolitismo dos intelectuais italianos, cidade-campo, fracasso do Risorgimento, jacobinismo, reforma intelectual e moral, gramática, etc.

Em relação à formação de unitárias e coesas vontades coletivas nacional-populares, a linguagem funciona simultaneamente como: (A) microcosmo e laboratório em que atuam mecanismos e procedimentos que, sob forma mais complexa, operam no plano macrossocial; (B) inevitável fator constitutivo de vontades coletivas complexas, tais como, exatamente, as nações-povo. Examinemos os dois pontos separadamente.

(A) Gramsci estudou os mecanismos que presidem a formação de uma língua comum a toda uma nação-povo desde os anos iniciais dos seus estudos universitários na escola glotológica de Matteo Bartoli. Foi neste contexto de estudos especializados que entrou precocemente em contato com a mais penetrante análise oitocentista do papel dos intelectuais e dos aparelhos culturais na formação de uma língua nacional: o “Proêmio”, que Graziadio Isaia Ascoli escreveu para o primeiro número do Archivio Glottologico Italiano (1873). O caráter não popular da língua italiana era aqui relacionado seja com a “escassa densidade da cultura” ou o “saber concentrado em poucos”, na Itália moderna, seja com o cosmopolitismo dos intelectuais italianos. O ensaio de Ascoli continua ausente na biblioteca dos estudiosos de Gramsci, e no entanto sua semelhança com muitas análises gramscianas é simplesmente surpreendente.

O estudo da linguagem remete o jovem Gramsci à história e sociologia dos intelectuais até mesmo sob um outro aspecto ainda mais teórico. Nos anos em que se prepara para seguir a carreira de glotólogo, alguns lingüistas europeus (Gilliéron, Meillet, “o bom professor Bartoli”) esforçam-se para explicar a difusão de uma língua além dos seus originais limites geográficos e sociais, mediante o recurso aos centros geográficos e aos grupos sociais capazes de irradiar prestígio cultural. Uma língua se difunde não com a força dos exércitos ou com a coerção estatal — é a tese sociocultural da neolingüística italiana e da escola sociológica francesa —, mas porque os falantes aloglotas dão um consenso espontâneo ao idioma de grupos a cujo prestígio cultural se submetem. Citemos só um artigo que Meillet publica em 1911 na revista Scientia:

É inevitável que, entre os idiomas em uso, haja aqueles pertencentes a grupos mais poderosos ou superiores por civilização, dotados de um prestígio superior por uma razão qualquer. Estes idiomas servem como modelos para os outros: existe a aspiração de se aproximar deles, quando não de falá-los exatamente, nas relações entre grupos. É o início da evolução que leva a criar uma língua comum com base num dos idiomas do grupo e a eliminar parcial ou inteiramente as inovações estritamente locais.
Tentamos documentar as semelhanças entre o conceito de hegemonia e o conceito lingüístico de prestígio. Nos anos em que o termo hegemonia não aparece ou aparece na acepção banal de “supremacia”, Gramsci refere-se ao “governo espiritual que sabe produzir consenso espontâneo” com o termo aprendido na escola glotológica de Bartoli: “irradiação de prestígio”. Para dar só um exemplo, citemos um artigo de 27 de dezembro de 1919:

O Partido Socialista, com seu programa revolucionário, subtrai ao aparelho de Estado burguês sua base democrática no consenso dos governados. […] É assim que o Partido vai se identificando com a consciência histórica das massas populares e governa o seu movimento espontâneo, irresistível: este governo é incorpóreo, funciona através de milhões e milhões de laços espirituais, é uma irradiação de prestígio, que só em momentos culminantes pode se tornar um governo efetivo […]. O Partido exerce a mais eficaz das ditaduras, aquela que nasce do prestígio, que é aceitação consciente e espontânea de uma autoridade reconhecida como indispensável para o bom êxito da empreitada (Estudos políticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, v. 1, p. 309).
Se for verdade que o conceito de hegemonia recebe o selo original na oficina teórica da lingüística, devem ser radicalmente rediscutidos leninismo e/ou marxismo da filosofia gramsciana.

(B) Uma vontade coletiva também é unificada por uma língua comum. Gramsci insiste com obsessiva freqüência neste aspecto do problema. Citemos só uma longa nota metodológica do Caderno 10 e uma rápida anotação do Caderno 13:

A linguagem, a língua, o senso comum. Posta a filosofia como concepção do mundo — e o trabalho filosófico sendo concebido não mais apenas como elaboração “individual” de conceitos sistematicamente coerentes, mas além disso, e sobretudo, como luta cultural para transformar a “mentalidade” popular e difundir as inovações filosóficas que se revelem “historicamente verdadeiras” na medida em que se tornem concretamente, isto é, histórica e socialmente, universais —, a questão da linguagem e das línguas deve ser “tecnicamente” colocada em primeiro plano. […]
Parece que se possa dizer que “linguagem” é essencialmente um nome coletivo, que não pressupõe uma coisa “única” nem no tempo nem no espaço. Linguagem significa também cultura e filosofia (ainda que no nível do senso comum) e, portanto, o fato “linguagem” é, na realidade, uma multiplicidade de fatos mais ou menos organicamente coerentes e coordenados: no limite, pode-se dizer que todo ser falante tem uma linguagem pessoal e própria, isto é, um modo pessoal de pensar e de sentir. A cultura, em seus vários níveis, unifica uma maior ou menor quantidade de indivíduos em estratos numerosos, mais ou menos em contato expressivo, que se entendem entre si em diversos graus, etc. […]

Disto se deduz a importância que tem o “momento cultural” também na atividade prática (coletiva): todo ato histórico não pode deixar de ser realizado pelo “homem coletivo”, isto é, pressupõe a conquista de uma unidade “cultural-social” pela qual uma multiplicidade de vontades desagregadas, com fins heterogêneos, solda-se conjuntamente na busca de um mesmo fim, com base numa idêntica e comum concepção do mundo (geral e particular, transitoriamente operante — por meio da emoção — ou permanente, de modo que a base intelectual esteja tão enraizada, assimilada e vivida que possa se transformar em paixão). Já que assim ocorre, revela-se a importância da questão lingüística geral, isto é, da conquista coletiva de um mesmo “clima” cultural (Caderno 10, § 30).

Quando é possível dizer que existem as condições para que se possa criar e se desenvolver uma vontade coletiva nacional-popular? […] Por que não se teve a monarquia absoluta na Itália na época de Maquiavel? É necessário remontar ao Império Romano (questão da língua, dos intelectuais, etc.) (Caderno 13, § 2).

Por causa da sua predisposição natural a formar “uma unidade cultural-social” ou “vontade coletiva nacional-popular” a partir de “uma multiplicidade de vontades desagregadas”, a língua é o lugar no qual se podem ler sucessos e fracassos de hegemonias e de processos de formação de nações-povo. Este é o tema ao qual é dedicado o último Caderno, de título só aparentemente estranho (“Língua nacional e gramática”), e que, no entanto, deve ser lido por aquilo que é: uma pequena e densa investigação sobre os processos de formação e as condições de sucesso das hegemonias capazes de unificar e agregar organismos complexos, tais como as nações-povo. Algumas passagens do Caderno 29 são conhecidíssimas dos lingüistas italianos. Propomo-las à atenção dos leitores não lingüistas. Mas todo o Caderno deve ser lido como núcleo central da teoria gramsciana do poder:

Poder-se-ia esboçar um quadro da “gramática normativa” que opera espontaneamente em toda sociedade determinada, na medida em que esta tende a unificar-se seja como território, seja como cultura, isto é, na medida em que existe nesta sociedade uma camada dirigente cuja função é reconhecida e seguida.
O número das “gramáticas espontâneas ou imanentes” é incalculável e, teoricamente, pode-se dizer que cada pessoa tem sua própria gramática. Todavia, ao lado desta “desagregação” de fato, devem-se sublinhar os movimentos unificadores, de maior ou menor amplitude, seja como área territorial, seja como “volume lingüístico”. As “gramáticas normativas” escritas tendem a abarcar todo um território nacional e todo o “volume lingüístico”, a fim de criar um conformismo lingüístico nacional unitário, o qual, de resto, põe num plano mais elevado o “individualismo” expressivo, já que cria um esqueleto mais robusto e homogêneo para o organismo lingüístico nacional, do qual cada indivíduo é o reflexo e o intérprete (Caderno 29, § 3).

Sempre que aflora, de um modo ou de outro, a questão da língua, isto significa que uma série de outros problemas está se impondo: a formação e a ampliação da classe dirigente, a necessidade de estabelecer relações mais íntimas e seguras entre os grupos dirigentes e a massa popular-nacional, isto é, de reorganizar a hegemonia cultural (Caderno 29, § 5).

O fracasso do Risorgimento e a incapacidade demonstrada pela burguesia italiana oitocentista de exercer a hegemonia (direção cultural difusa) sobre toda a nação-povo são processos históricos isomórficos em relação ao caráter não popular da língua italiana, à vitalidade das culturas folclóricas e dos dialetos. E como se lê numa das muitas páginas em que se trata o tema: “Também a questão da língua, proposta por Manzoni, reflete o problema da unidade intelectual e moral da nação e do Estado, buscado na unidade da língua” (Caderno 21, § 19).

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Franco Lo Piparo é professor de Filosofia da Linguagem da Universidade de Palermo. Este texto foi originalmente publicado em Filosofia, lingua, politica. Saggi sulla tradizione linguistica italiana (Roma: Bonnano, 2004), com o título de “Raízes lingüísticas do não-marxismo de Gramsci”. Traduzido para o português, sem finalidades comerciais, por Josimar Teixeira.

Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

Comentários

Gramsci e as organizações internacionais

S. C. Velasco e Cruz - 1999

Houve época em que o estudo das relações internacionais foi atividade privativa de uma comunidade muito especial, que se organizava, como as aldeias antigas, em “metades”, definidas segundo princípios simples de oposição. “Idealistas” vs. “realistas”; “liberais” vs. “neo-realistas” – termos denotativos de uma dualidade básica, que se manifesta ao longo do tempo sob diferentes figuras, mas se repõe reiteradamente, índice que é de uma tensão cujo fundamento reside em outro lugar. Este, o antagonismo em torno do qual se constituíram as Relações Internacionais como campo diferenciado de atividade acadêmica, que se consolida no entre-guerras e, desde então, vem se reproduzindo nas ilhargas dos departamentos de Ciência Política e em múltiplos think-tanks, em conexão estreita com os órgãos encarregados da formulação e implementação da política internacional do Estado norte-americano.
Não é bem assim. Fora dos Estados Unidos, indivíduos e grupos trabalharam sistematicamente na área e afirmaram-se pela importância da contribuição que legaram. Bastaria citar, na França, o nome de Raymond Aron e, do outro lado do canal da Mancha, os de Martin Wight e Hedley Bull, luminares da “escola inglesa”, à qual, aliás, devemos associar também E. H. Carr, grande percursor do realismo moderno.

É verdade que, não obstante a qualidade de sua produção e o reconhecimento que tenham podido alcançar, com exceção de Carr esses autores mantiveram-se sempre em posição mais ou menos marginal, completamente ofuscados que foram pela supremacia americana na área. Tal supremacia chegou a ser grande o bastante para permitir a um observador-participante de trajetória eminentemente cosmopolita referir-se a esta como uma disciplina nacional [1].

Contudo, mesmo no espaço acadêmico americano, o quadro é muito mais complexo do que o esquematismo da caracterização acima parece indicar. Para início de conversa, as rotulações acima referidas não são neutras. Elas surgem como meios e resultados do jogo de rivalidades que se trava no interior da comunidade. Nesse sentido, o que ocultam é muitas vezes mais importante do que revelam. Parece ser este o caso da noção de “idealismo”. Cunhada nos anos 30 para caracterizar um conjunto de autores – publicistas, a maioria deles – que respondia aos horrores da I Guerra Munidal denunciando a velha “política de poder” e urgindo a mobilização dos recursos da razão esclarecida na busca de soluções institucionais capazes de garantir um futuro de paz sustentável – a expressão teve desde o primeiro instante uma função primordialmente polêmica. Com efeito, no ambiente de consternação e ceticismo que se seguiu à crise de 1930, ela permitia marcar como ingênuos incorrigíveis os autores intelectuais das experiências organizacionais fracassadas – entre elas, a Liga das Nações – e apontar razões plausíveis para os desastres que eles teriam preparado. Como se sabe, essa operação foi realizada com extraoridnário sucesso. Por mais de 50 anos, o termo “idealismo” funcionou no campo das relações internacionais como sinal de um interdito, apagando inteiramente da memória institucional os personagens reais a que ele aludia – estes homens precisos, suas idéias, suas razões definidas para sustentá-las. Apenas recentemente, o esquecimento a que esta geração de “reformadores internacionais” foi relegada começa a ser quebrado. E quando olhados de perto eles revelam em muitos aspectos uma desconcertante atualidade [2].

De outra parte, entre as diversas “figuras” assumidas por cada um dos lados daquela dualidade – “idealismo”/ “liberalismo” vs. “realismo clássico”/”neo-realismo”, ou “realismo estrutural” –, as diferenças não são puramente formais. A oposição constitutiva se repõe continuamente, mas nesse processo cada elemento do par se transforma internamente. A passagem de um momento para o outro – do realismo clássico ao neo-realismo, por exemplo – é marcada por mudanças significativas que afetam o estilo intelectual, a linguagem teórica, as ferramentas analíticas privilegiadas e a própria definição do interesse cognitivo. Enquanto o velho realismo fundava-se em uma antropologia pessimista, fazia apelo sistemático à história e almejava indicar caminhos para a resolução de problemas prático-políticos, o neo-realismo dispensa considerações definidas sobre a natureza humana, mimetiza a economia neoclássica e em nome da dignidade acadêmica aceita o sacrifício da irrelevância política [3].

Com essas ressalvas em mente, creio seja possível reter a caracterização proposta no início deste artigo. Até algum tempo atrás, no conjunto das Ciências Sociais, a área das Relações Internacionais constituía um campo relativamente fechado, pouco permeável, no qual se encontravam em permanente confronto representantes distintos de duas grandes tradições.

Nas duas últimas décadas, porém, esse quadro vem sendo profundamente alterado. A tensão original continua existindo, mas os termos do debate na área não são mais ditados por ela. Neste último período as barreiras que cercavam o campo dos estudos internacionais foram aos poucos caindo, e ele passou a abrir-se para uma pluralidade de novas perspectivas, as quais, mantendo uma interlocução densa com o trabalho desenvolvido em outros domínios das Ciências Sociais, redefinem a agenda introduzindo outros critérios de relevância e novos blocos temáticos.

Vários fatores terão contribuído para tal deslocamento. Não caberia examiná-los neste lugar, mas convém dizer uma palavra sobre dois deles que no meu entender devem ter desempenhado papel de destaque.

O primeiro diz respeito às mudanças que vêm se processando desde o final dos anos 60 no universo da Ciência Política norte-americana, com o declínio da hegemonia behaviorista à qual estão associados nomes tão eminentes como os de David Easton e Robert Dahl. Sem que jamais tenha se exercido completamente (nos Departamentos de Ciência Política das melhores universidades americanas prevalecia uma espécie de armistício entre os estudiosos da “Teoria Política” – no sentido tradicional do termo, como cultivo da tradição multissecular do pensamento político ocidental – e os praticantes da investigação empírica, estes sim atraídos pelo projeto “revolucionário” de transformar a Política em uma “ciência fática”, nos moldes oferecidos pela reconstrução neopositivista das ciências naturais), na atmosfera política e ideologicamente saturada da época a ascendência behaviorista passou a ser cada vez mais contestada. No ideal de ciência que propunha –valorativamente neutra; autônoma em relação aos imperativos da razão prática – e no modelo de explicação que consagrava – nomológico-dedutivo, fechada às exigências interpretativas inerentes à análise do social [4].

O tema da Ciência Política nos Estados Unidos – suas origens, sua trajetória, sua vocação – vem despertando crescente interesse [5]. Não poderia me estender na matéria. Para propósitos deste artigo basta dizer que, no decurso do processo de mudança a que me referi, a unidade da disciplina ficou comprometida, a tal ponto que um observador privilegiado – ele mesmo figura emblemática nessa história – pôde recorrer à imagem de um conjunto de seitas sentadas em mesas separadas para caracterizá-la [6]. Como subárea da Ciência Política, o campo das relações internacionais não poderia deixar de ser afetado por tal resultado.

O segundo fator vem de fora do espaço acadêmico: ele consiste na violento impacto teórico causado pelo fim da Guerra Fria e a derrocada do bloco soviético. A perplexidade provocada por esses fatos está bem expressa no comentário de Robert Tucker, importante autor realista e elo de ligação entre duas gerações dessa escola.

The sudden end of the conflict has /…/ given rise to a situation for which it is difficult to find a real precedent. Arguments to the contrary notwithstanding, there does not appear to be an instructive modern historical parallel of a hegemonic conflict simply being terminated by the default in time of peace of one side. Yet this is what has happened in the present instance /…/ the Soviet Union has largely withdrawn from the conflict that had come to be seen as almost interminable. In doing so, it has transformed the landscape of world politics almost beyond recognition. It has turned believers in the political truths of the postwar world into skeptics who sense, even when unwilling to acknowledge as such, that they lost their once secure moorings [7].
Donnelly tem razão quando observa que o choque maior foi recebido pelos neo-realistas, os quais desde então perderam a supremacia alcançada nos anos 70 com base nas inovações teóricas introduzidas por Kenneth Waltz [8]. Mas isto não elimina o fato de que nenhuma teoria concorrente foi capaz de prever o fim da Guerra Fria e de que ainda permanecemos sem uma boa explicação para esse fenômeno histórico [9].

Seja como for, na década de 90 assistimos ao surgimento de um sem número de formas de discurso e propostas teóricas novas, que nem sempre se comunicam facilmente entre si e com os ocupantes mais antigos da área, mas que convivem lado a lado com estes, sem enfrentar problemas mais graves de legitimidade. “Construcionismo”, “Teoria Crítica”, “Abordagens Interpretativistas”, “Teorias Normativas”, “Feminismo”, “Marxismos vários” – esses e outros “ismos” passam a habitar o campo. Para retomar a metáfora empregada no início deste artigo, mais do que a uma pequena aldeia voltada sobre si mesma e cerrada aos estranhos pela barreira de sua expressão dialetal, o campo de estudos internacionais assemalha-se hoje a uma zona franca, um cruzamento, um lugar onde se encontram viajantes de variegada procedência, falando idiomas os mais diferentes e produzindo um burburinho que lembra a feira medieval [10].

A obra que a partir de agora passo a considerar é uma boa ilustração do pluralismo característico da situação presente na área. International Organization and Industrial Change, de Craig N. Murphy [11], inscreve-se no projeto formulado originalmente por Robert W. Cox de redefinir o conjunto da problemática das relações internacionais mobilizando sistematicamente para esse efeito as categorias centrais do pensamento de Antonio Gramsci. Antes de comentar o livro, talvez convenha dizer uma breve palavra sobre este programa de trabalho.

Como se sabe, na multiplicidade das anotações registradas em seus cadernos Gramsci reservou algumas ao tema da política internacional. Não é este, porém, o ponto de partida adotado pelos neogramscianos que trabalham no campo das relações internacionais. Embora algumas dessas notas sejam luminosas, o seu volume é reduzido e elas parecem ter ocupado uma posição secundária na agenda de seu autor. Salvo melhor juízo, o pensamento político de Gramsci tinha por referência básica as formações sociais capitalistas em sua dimensão nacional. Este é o marco de referência no interior do qual ganham significado seus conceitos básicos: “sociedade civil” e “sociedade política”, “hegemonia”, “bloco histórico”, “crise orgânica”, etc. – todos eles produzidos com a finalidade de fazer avançar a reflexão sobre os problemas históricos da unidade nacional italiana, da transição incompleta e conservadora do capitalismo neste país, da derrota da revolução e da vitória do fascismo como solução para a grande crise que estala no imediato pós-guerra.

Mesmo assim, o que sobretudo interessa aos neogramscianos são aquelas noções básicas, as quais eles acreditam poder empregar legitimamente em suas análises, em virtude das transformações recentes do capitalismo, que se somam para dar peso crescente a processos e forças transnacionais. O que Robert Cox, Stephen Gill e o próprio Craig Murphy, entre outros, se propõem fazer é ajustar semanticamente as categorias de Gramsci de forma a torná-las operativas no contexto das relações internacionais [12]. Extraída de uma nota do trabalho que dá a partida para esse exercício, a passagem a seguir apresenta de forma límpida o argumento que justifica este passo:

The term “hegemony” in Gramsci`s work is linked to debates in the international Communist movement /…/ and in this connection its application is specifically to classes. The form of the concept, however, draws upon his reading of Machiavelli and is not restricted to class relations; it has a broader potential applicability. Gramsci`s adjustment of Machiavellian ideas to the realities of the world he knews was an exercise in dialetics /…/ It is an appropriate continuation of his method to perceive the applicability of the concept to world order structures as suggested here [13].
Não vou apresentar aqui as reformulações conceituais que resultam de tal postulado. Nem vou discutir se a apropriação que Robert Cox e seus pares fazem da obra de Gramsci é mais ou menos legítima. Esta questão nos levaria ao debate sem fim sobre a correta interpretação do pensamento desse autor notavelmente criativo e tão pouco sistemático. O problema da fidelidade às fontes não interessa. Importa é saber o que o ensaio de aplicação dos velhos conceitos a esta matéria nova produz e qual a sua qualidade.

International Organization and Industrial Change. Global Governance since 1850. Como sugerido no subtítulo, a questão mais geral suscitada pela obra de Murphy diz respeito à “governança global” – conjunto de princípios, normas e práticas mais ou menos institucionalizadas que asseguram a reprodução relativamente pacífica da ordem capitalista mundial. Mas neste livro ela é considerada de um ângulo muito preciso: o das organizações intergovernamentais.

O mundo contemporâneo está povoado de tais organismos. Alguns têm alcance muito geral e são bem conhecidos do público: o FMI, o Banco Mundial e a OMC, por exemplo; outros são mais especializados, suas siglas pouco significando para o comum dos mortais. Mas – a pergunta ocorre ao leitor mais cético – será que o estudo dessas entidades constitui uma boa porta de entrada para a discussão daquele problema geral?

Por razões diferentes, realistas radicais e liberais fundamentalistas diriam que não. Assim, do ponto de vista lógico, o primeiro cuidado de Murphy deve ser o de responder a questões desta natureza: o que se propõem esses organismos? Eles são efetivos? Eles são necessários?

Murphy responde positivamente a cada uma dessas interrogações e, em dois lugares do livro, dedica-se à tarefa de refutar argumentos contrários. Eis aqui uma pequena amostra das objeções consideradas: “os capitalistas poderiam ter formado o mercado europeu por si mesmos”; “acordos bilaterais poderiam ter bastado”; “as grandes potências poderiam tê-lo feito elas próprias” [14] – todos reportados à discussão sobre o papel das Public Unions na constituição da infra-estrutura do capitalismo europeu no final do século XIX. “Os Estados Unidos fizeram sozinhos”; “Era tudo uma questão de mercado e de política interna nos países da OCDE” [15] – ambos referidos ao sistema institucional montado sob a regência dos Estados Unidos no imediato pós-guerra, o segundo deles, mais sofisticado, sendo endereçado apenas às “instituições de governança global” concebidas para atenuar conflitos sociais.

A escassez de tempo e espaço me impede de seguir o autor em sua réplica. Mas não é grave. Para efeitos da exposição que se faz aqui, importante é a proposição geral que os contra-argumentos avançados apóiam. Em suas palavras:

The scale of capitalism has changed with each new set of lead industries. Firms grew. Their markets grew. And the industrial world expanded. World organizations facilitated these changes in scale /…/ At the same time the world organizations, and the other systems of governance to which they point, have helped mitigate conflicts that go along with the expansion of the industrial system: they privileged some workers in the industrialized nations, insured investment in previously less developed countries /…/ The agencies have also helped perfect the state system itself by extending it to all parts of the globe /…/ In strengthening the nation-state and the state system, the global intergovernmental organizations (IGOs) of the UN era also helped encapsulate the major challenges to industrial capitalism, the Soviet and Chinese communist systems, for more than a generation. Today some of the same agencies have been charged with helping reincoporporate the postcommunist states into the capitalist world order [16].
Mas o argumento de Murphy não se atém a esse nível de generalidade. Especificando a indicação já avançada que relaciona organizações internacionais, mudança tecnológica e expansão de mercados, o autor vai enunciar explicitamente a versão mais forte de sua tese.

Instead of treating the nineteenth-century “Public International Unions”, the League of Nations system, and the postwar UN system as the three successive generations of world organizations, we need to link their history to that of industry by saying that each new generation begins when an agency regulating a revolutionary new communication tecnology appears. In 1865 the agency was the International Telegraph Union (ITU), the first major Public International Union. In 1906 it was the Radiotelegraph Union (RTU), designed to regulate the airwaves. In 1964 it was Intelstat, the International Telecommunications Satelite Organization, a new kind of world organization, a global public utility, outside the UN system, providing part of the world communications infrastructure instead of just regulating services provided by others [17].
O argumento é claramente funcional. E isto fica bem visível no início e no fim do livro – quando o autor discute diferentes explicações para a relativa estabilidade do ordenamento internacional do pós-guerra, criticando realistas e marxistas por não reconhecerem a “eficácia” das instituições internacionais. Estas teriam suprido “déficits”, suplementado os Estados e as forças do mercado no desempenho de três “tarefas” (”tasks”) básicas: 1) “promover a indústria através da expansão dos mercados internacionais”; 2) “satisfazer/compensar potenciais oponentes das novas indústrias”, e 3) “manter um equilíbrio estável do poder militar” (p. 42).

Tais funções comporiam a primeira dimensão a se ter em conta no estudo dos mecanismos regulatórios do “bloco histórico internacional liberal”. As duas outras dimensões correspondem aos meios mobilizados para desempenhar aquelas funções, devendo ser analiticamente distinguidos uns dos outros de acordo com a sua natureza – predominantemente coercitiva ou consensual; e à esfera em que a ação regulatória se exerce: a) nível global (caso das associações transnacionais, p. ex.), b) grupo menor de Estados (ex. ajuda externa), c) âmbito de uma única soberania (governos coloniais), d) esfera de uma região, de setores, famílias, etc. dentro de cada país (p. 42).

Em consonância com esse esquema de análise, Murphy produz sucessivos quadros classificatórios de organizações internacionais em diferentes períodos históricos. Menciono alguns cabeçalhos para que se tenha idéia da amplitude do material organizado sob esses critérios e de seu grau de interesse. Assim: Tabela 2: World Organizations in 1914 (by main area of responsability and date of founding) (p. 47); Tabela 4: World organizations abolished before 1920 (with disposition of activities) (p. 83); Quadro 2: Task being carried out by Public International Unions in 1914 (p. 84); Tabela 6: New world organizations of the League and UN era (p. 154); A comparison of the tasks being carried out by world organizations in 1914 and 1970 (p. 190).

A análise é de corte funcional, repito, mas não inteiramente. A reprodução em escala ampliada da economia capitalista mundial “requer” a intervenção de organismos intergovernamentais. Mas nada assegura de antemão que tais entidades venham a surgir, consolidem-se e atendam efetivamente aquela exigência. As instituições internacionais – e as organizações em especial – não vêm à luz como emanações espontânea da operação dos mercados e dos dinamismos sociais que estes implicam. Elas resultam de ações de alcance estratégico informadas por visões de longo prazo e sustentadas por certa classe de agentes. Aqui a problemática gramsciana dos intelectuais.

Antes de abordar esse aspecto fundamental da obra de Murphy, convém recuperar o contexto em que ele se introduz. Com efeito, o problema dos agentes surge em conexão com o problema de explicar o padrão de emergência, desaparecimento e/ou persistência das organizações internacionais. Elas não existiram sempre nem se distribuem no tempo, segundo a data de nascimento, de forma retilínea. Pelo contrário, o movimento que descrevem é ondular. Como entendê-lo?

Murphy encontra no discurso de parte dos atores que estuda (representantes da versão crítica do liberalismo internacionalista) elementos de uma explicação aceitável.

If we follow the history of the critical tradition, we can see a process in which some liberals have learned about more and more of the conflicts that the larger liberal internationalist vision can obscure. /…/ The changing content of these critical theories suggests a broad, evolutionary explanation of both liberal internationalism and the world organizations that have been based on it. It is a theory consistent with E. Haas`s (1989) explanation of knowledge-driven changes whithin international institutions, and with Keohane`s (1984) explanation of international institutions in terms of their consequences for powerful states.
A teoria proposta por Keohane identifica atributos básicos do processo seletivo que dita quais inovações institucionais irão sobreviver. Este resultado se verifica quando uma coalizão suficientemente poderosa de governos nacionais reconhece que tem a ganhar com a cooperação interestatal propiciada pela instituição [18]. Murphy aceita o argumento, mas introduz uma qualificação importante:

Keohane`s work on international institutions concentrates only on the last twenty years. The longer history of world organizations demonstrates that it is not just national governments that must benefit, but also /…/ a sufficiently powerful coalition of social forces within and across national societies. From Kant`s day and throughout the nineteenth century the audience was almost always Europe`s aristocracy and also the cosmopolitan bourgeoisie whose interests were to be served by the proposed international institutions. After the turn of the century Hobson and Woolf addressed enlightened businessmen and the traditional state class, and also the newly powerful social democratic parties and the newer class of state functionaries responsible for bringing the masses into the new industrial state. Mary Parker Follet focused on another new class: professional managers operating within the giant industrial firms /…/
Coalitions of powerful states and social forces “select” international institutions to survive by remaining parties to agreements and by continuing to finance IGOs. The institutions that do not survive are those that key state members leave, stop financing, simply ignore, or fail to renew

[19].
Como se vê, o caminho que leva da mudança tecnológica à constituição do quadro institucional “adequado” a elas não é direto. Até mesmo porque a integração internacional resultante causa deslocamentos e desequilíbrios econômicos e sociais nos países envolvidos, induzindo reações que muitas vezes se expressam em demandas de proteção e discursos isolacionistas. O surgimento e a persistência das organizações internacionais representam o somatório de vitórias das forças cosmopolitas numa seqüência de embates em que muitas vezes foram obrigadas a amargar dolorosas derrotas.

Um dos aspectos mais sugestivos do livro de Murphy são as indicações fenomenológicas que ele fornece sobre essas forças … e seus opositores. É preciosa, por exemplo, a informação sobre o papel desempenhado por aliança de escritores de fama mundial, encabeçada por Victor Hugo, na defesa de normas mais estritas de copyright – fato que tem contrapartida na importância das indústrias de cinema e música popular no lobby pela redefinição do regime de propriedade intelectual no presente. Ou esta outra, a respeito das práticas monopolistas de Marconi, que prevented operators of its radios from communicating with sets using rival technologies – qualquer coincidência com Bill Gates não é mera coincidência – e motivou com isso a criação da Radiotelegraph Union [20].

Inovações nas técnicas de produção e nos meios de comunicação e transporte criam interesses na remoção dos obstáculos que impedem sua extensão ou – como no caso citado acima – permitem a apropriação monopolizada dos ganhos que elas proporcionam. Mas as organizações internacionais não são forjadas por essas forças. Elas são obras conscientes de uma classe especial de agentes: os intelectuais, no sentido gramsciano do termo.

Este é um dos temas centrais na análise de Murphy. Em todo o processo, os intelectuais desempenham papel protagônico, articulando iniciativas dispersas, concebendo planos grandiosos, soldando alianças sociais requeridas para o encaminhamento destes e, nesse sentido, operando como “arquitetos” de novos “blocos históricos” – outra noção gramsciana que lhe é muito cara.

Intellectual leaders do more than come up with ideas about the institutions of the next world order. To go back to the image of a historic bloc as a puzzle /…/ those who are trying reconstruct a historic bloc need to work on all the faces of the puzzle at once, putting together the ideology of the new order with its political institutions, defining its economic base, and, of course, the coalition of social forces that constitute the historic bloc qua alliance.
Como em Gramsci, o universo dos intelectuais é constitutivamente dividido, fragmentado. No caso, a oposição entre os agentes que se batem em torno do desenho institucional da ordem internacional é aquela que divide, de um lado, os “liberais internacionalistas” e, de outro, os “fundamentalistas liberais”, que, como os seus pares hodiernos, apostam tudo nas “soluções de mercado”. Na narrativa de Murphy, naturalmente, aos primeiros cabe o papel principal.

Initially the more successful liberal internationalist designers of world organizations have all focused on mobilizing the political leadership of national governments and powerful philantropists willing to act as sponsors and benefactors of new international institutions. The intellectual leaders have most often worked in the political space created within the institutions of international civil society established under the previous world order to push for the further developement of the same realm so that they can become an effective mechanism regulating the world economy in the next industrial epoch.
Throughout each of the world order crises, liberal internationalists have led transnational coalitions that pressed governments to call international conferences, establish international agreements, and create experimental IGOs to carry out two primary tasks essential to fulfilling the liberal vision.

The first has been to foster industry by creating and securing international markets for industrial goods. International agreements designed to link together the transportation and communication infrastucture needed as the physical base for an international market help complete this task, as do agreements defining tradable goods through industrial standards, rules protecting intellectual property, and rules directly governing international trade.

The second has been to manage potential conflicts with organized social forces which might oppose the further extension of the industrial system /…/ People tied to older industries, workers…

After convincing political leaders to establish institutions carrying out these tasks, liberal internationalists have relied on the institutions to develop powerful constituencies [21].

A consideração dos agentes e das relações que mantêm entre si permite qualificar a afirmação feita anteriormente sobre a natureza lógica do argumento de Murphy. Na realidade, ele combina explicação histórica e funcional.

É a conjugação sistemática desses dois elementos que organiza a parte mais rica de sua pesquisa, a saber: a reconstituição do processo histórico de formação dos organismos internacionais, o qual atravessa algumas fases claramente diferenciadas: a) conferências internacionais, convocadas tipicamente por reis, príncipes ou aristocratas poderosos – das quais resultavam comumente a constituição de grupos ad hoc para tratar dos temas em cada uma delas versados; b) organizações estáveis, mas de natureza privada; c) organizações intergovernamentais.

Digo que esta parte é a mais rica porque é nela que se expõe o essencial do material da pesquisa. Rica e sugestiva. Com efeito, Murphy mostra muito bem como iniciativas motivadas pelas preocupações privadas dos representantes maiores da “velha ordem” – prestígio, busca de reconhecimento, etc. – dão origem a organizações que, por atenderem a necessidades da ordem emergente, consolidam-se, institucionalizam-se, burocratizam-se e acabam sendo encampadas pelo poder estatal.

Nesse contexto, convém dizer uma palavra sobre o tratamento dado ao problema das orientações político-ideológicas nesse processo. Como já indiquei, elas são agrupadas em torno de duas grandes tendências: “liberais internacionalistas” e “fundamentalistas liberais” – os primeiros comportando ainda uma vertente crítica. Importaria agregar agora que, com o passar do tempo e com as mudanças já mencionadas no status das organizações (grupos de trabalho, num dos extremos; instituições intergovernamentais consolidadas, em outro), a natureza dos agentes que expressam as diferentes tendências se altera igualmente.

Para ficar no campo de onde saem os protagonistas dessa história (o liberalismo internacionalista), no início do processo a iniciativa é assumida por personalidades isoladas – intelectuais, técnicos, freqüentemente funcionários imaginativos –, que, percebendo antes e/ou mais agudamente que os demais a emergência de problemas novos em dada área da vida econômica e social, dedicavam-se a formular planos, muitas vezes quiméricos, para resolvê-los e a angariar apoio para as soluções que advogavam. Murphy refere-se a eles como “Construtores de Sistemas Públicos” (”Public System Builders”), tomando de empréstimo a noção cunhada por David Chandler, Jr. em seu estudo sobre a montagem da malha ferroviária nos Estados Unidos [22]. Bentham é um exemplo notório. Mas outros nomes menos conhecidos também representam dignamente a espécie: como John Wright, engenheiro anglo-irlandês, que trabalhou na construção da rede ferroviária em Illinois, EUA, e depois disso passou a defender a criação de um sistema ferroviário integrado em escala mundial como infra-estrutura para um mercado global de bens e receita certa para a edificação da paz universal em bases definitivas [23]. Ou James Lubin, empresário e filantropo americano, que defendia a introdução de um sistema de tarifa única para o aumentar o volume de bens transportados por trens ou navios a vapor. Ou ainda este alto funcionário do governo suíço, Emile Frey, que é um dos grandes precursores da Organização Internacional do Trabalho.

Na outra ponta da série histórica, vamos reencontrar os intelectuais e suas eternas rivalidades. Mas agora eles não serão tipicamente representados por personalidades individuais, agindo por conta própria. Eles se profissionalizaram e se converteram em agentes de organizações públicas ou privadas que se interligam numa rede complexa, cujo centro é ocupado pelas Organização das Nações Unidas.

In administering programs the UN relies on and supports private agencies, and it has a similar relationship to the intellectual communities that have provided most of the ideas for expanding or reforming the world organizations in the twentieth century. The IMF`s relationship to ortodox Anglo-American econom