Uma nova interpretação do Brasil
Pesquisa analisa a Coleção Documentos Brasileiros, lançada em 1936 pela editora José Olympio e sob a direção de Gilberto Freyre
por Adriana de Oliveira
Permanecer deitado eternamente em berço esplêndido diante dos impasses da entrada do país na nova ordem mundial tornou-se árduo para os intelectuais brasileiros fin-de-siècle.
Silvio Romero, expoente da geração de 1870, já havia condenado a falta de embasamento e crítica da obra historiográfica de Adolfo de Varnhagem (1816-1878), que, com sua História Geral do Brasil (1854-1857), tornou-se o grande paradigma do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o IHGB.
Idealizado dentro da Corte, o instituto incumbiu-se da tarefa de “purificar” a história da jovem nação e, além da profunda identificação com o antigo regime, excluía do cânone da historiografia nativa qualquer autor em desacordo com o ideal de estabelecer a grandiosa memória do país.
Os anos 30 e a Revolução trouxeram ansiedade pela crítica e renovação do conhecimento sobre o Brasil. Um veículo privilegiado para a difusão dessas diferentes interpretações historiográficas foram as “brasilianas”, coleções de obras sobre o país que mobilizaram diversos editores e autores.
REPRODUÇÃO
O historiador Sérgio Buarque de Hollanda foi o primeiro autor publicado pela coleção. A obra, ainda inédita, era Raízes do Brasil
As condições de produção, difusão e consumo da “nova” história brasileira realizada às margens do círculo restrito do IHGB são o tema da tese de doutorado de Fábio Franzini. Para isso, ele definiu como objeto de pesquisa a Coleção Documentos Brasileiros, lançada pela Livraria José Olympio Editora em 1936.
Na primeira metade do século 20, outras editoras também realizaram projetos semelhantes, sendo que a Companhia Editora Nacional foi a pioneira ao lançar, em 1931, a coleção Brasiliana. Em 1932, surgiu a Coleção Azul, da Schmidt, e em 1940, a Biblioteca Histórica Brasileira, da Martins.
Contudo, segundo o pesquisador, a coleção idealizada pela José Olympio se destacou por dois motivos: primeiro, por seu caráter “nacional”, pois publicava livros de intelectuais para além do eixo Rio de Janeiro-São Paulo; segundo, por seu prestígio: ter um livro lançado dentro da coleção significava a consagração de um autor.
E não era para menos. Dirigida por Gilberto Freyre, famoso por seu Casa Grande & Senzala (1933) — que “Ficou um bichão de tão bom aspecto que já está ficando conhecido como o ‘Ulysses’ de Pernambuco”, no comentário de Manuel Bandeira, editor da obra — a coleção passou a significar a legitimação do “novo” e a monopolizar a atenção de intelectuais e leitores.
Sob o aspecto editorial, a escolha do título inicial, decisão de Freyre, foi corajosa e deixou claro o espírito da série. Publicariam o primeiro livro do então crítico literário e professor-assistente da cadeira de História Moderna e Contemporânea da novíssima Universidade do Distrito Federal: Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda.
Muitos outros títulos se seguiram e fizeram história como Memórias, de Oliveira Lima (1937); O índio brasileiro e a Revolução Francesa, de Afonso Arinos, (1937); História da Literatura Brasileira, de Nelson Werneck Sodré (1940); além da reedição de obras de Euclides da Cunha, Silvio Romero, Joaquim Nabuco e José Veríssimo e a publicação de vários livros de Sergio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Octavio Tarquínio de Sousa.
Apesar das obras continuarem sendo publicadas até a década de 1980, Franzini focou sua análise até 1959, ano da morte de Otavio Tarquínio de Souza. Sucessor de Freyre na direção da coleção, ele permaneceu por duas décadas à sua frente. Naquele ano também foi lançado o volume 107, Visão do Paraíso, de Buarque de Holanda.
Esse recorte coincide com o período áureo da Coleção Documentos Brasileiros e da José Olympio. Os anos 1960 trouxeram a perda de sua hegemonia junto a intelectuais e leitores, agora interessados em projetos semelhantes de editoras como a Difel e a Civilização Brasileira.
Ao mesmo tempo em que contribuiu para definir o ofício do historiador numa época em que as distinções entre as disciplinas eram pouco claras, as brasilianas extrapolaram os limites da documentação oficial. Ao tomar como fontes historiográficas narrativas de viagem, inventários, testamentos e outros papéis privados, seus autores compuseram uma história de homens vivos em repúdio à enfadonha sucessão de acontecimentos típica da historiografia do IHGB.
Porém, para Franzini, no lugar de classificações niveladoras, é preciso analisar o conteúdo dessas coleções em sua complexidade, pois, embora existam semelhanças, as brasilianas acolheram pontos de vista muitas vezes disparatados. O fio condutor é o esvaziamento do ufanismo: o momento era de ruptura e de explicação do “atraso” do país. Fazia-se necessário apontar caminhos para a construção de um futuro de acordo com a singularidade brasileira.
Singularidade esta presente no símbolo da Coleção Documentos Brasileiros: “[…] a palmeira, árvore típica, cujas raízes se confundem com as próprias raízes do Brasil, a árvore que deu sombra à casa-grande do senhor e à senzala dos escravos […]”, na interpretação de Otto Maria Carpeaux.
Adriana de Oliveira é jornalista.
História Viva