Arquivo de 21 de Julho de 2008

Laerte é o mais premiado do HQ Mix

Em sua 20ª edição, evento distribui 60 prêmios; Allan Sieber é destaque como melhor cartunista

PEDRO CIRNE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O Troféu HQ Mix, o Oscar dos quadrinhos brasileiros, distribuirá em sua 20ª edição -que acontece nesta quarta, no Sesc Pompéia- nada menos do que 60 prêmios em diversas categorias, indo de desenhista revelação a grande mestre -veja ao lado os principais premiados. Mas ninguém receberá tantos troféus quanto Laerte, criador dos Piratas do Tietê e colaborador da Folha: quatro estatuetas. Seu livro “Laertevisão” ganhará três prêmios: edição especial nacional, projeto gráfico e projeto editorial. O quarto prêmio vem pela série em três números “Piratas do Tietê - A Saga Completa”, na categoria de publicação de humor. Laerte ser premiado no HQ Mix não é uma novidade: com as quatro nomeações deste ano, chega a um total de 33 prêmios nos 20 anos do evento. “Eu ainda fico surpreso”, diz Laerte. “À medida que o tempo passa, vai me dando medo de não ganhar”, conta, rindo. “Penso: se eu não ganhar, o que será que isso significa?” Para Laerte, parte do mérito de “Laertevisão” ter recebido três prêmios vem da edição do livro, inclusive o trabalho gráfico, feito por seu filho Rafael Coutinho. “Laertevisão” reúne, além de histórias curtas que trazem pedaços da infância do autor, fotos e propagandas da época. Outro artista que receberá mais de um prêmio será Allan Sieber, também colaborador da Folha, que venceu em duas categorias: melhor cartunista e publicação de cartuns, por “Assim Rasteja a Humanidade”. “Não vejo nada diferente nos meus cartuns, apenas sigo um caminho aberto a tapas por gênios como Reiser, Wolinski, Jaguar, Reinaldo e Vuillemin”, afirma Sieber. “Mas preciso comer muito feijão pra chegar ao pé desses caras, que fique claro”, completa. “O Jaguar mesmo já alertou que o cartum está morrendo, não há espaço para ele em revistas ou jornais. É verdade”, pondera Sieber. “O que eu procuro é fazer um cartum sincero, sem muitas firulas, o mais direto possível.” Além de nomes já conhecidos dos quadrinhos nacionais, o HQ Mix também premia a nova geração, como Jozz, de 25 anos. Após dois anos indo ao evento como espectador, ele subirá ao palco pela primeira vez para receber o troféu de melhor desenhista revelação, por “Zine Royale”. “Foi uma surpresa, acabei de começar”, conta Jozz. “Sinto como se indicassem que estou indo no caminho certo. É um incentivo.”

CERIMÔNIA DO 20º HQ MIX
Quando: quarta (dia 23), às 20h
Onde: Sesc Pompéia (r. Clélia, 93, São Paulo, tel. 0/xx/11/3871-7700)
Quanto: entrada gratuita
Classificação indicativa: livre

Folha de S.Paulo - 21/7/08

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Dercy

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Lula ao lado de Uribe

Toda Esquerda VI

O destaque do Vermelho, Portal do PCdoB, é a presença de Lula ao lado do presidente narco-traficante Álvaro Uribe, durante o evento em comemoração ao 198º aniversário da independência da Colômbia.

Já o site do PT destaca a matéria publicada pelo jornal espanhol El País: Brasil é a “menina bonita” da América Latina. Para variar, como já foi no Financial Times e outros renomados jornais da mídia global, mais uma vez elogios rasgados à política econômica do governo Lula e sua “arte” de conjugar a continuidade da estabilidade em política macroeconômica e o atendimento às demandas sociais. Mais uma vez, o parco crescimento é comemorado e as demandas sociais reduzidas ao programa “bolsa-família” desconsiderando as taxas brutais de desigualdade social que temos no Brasil.
Outro destaque é o site criado pelo PT para municiar seus candidatos nas disputas municipais deste ano, afora toda a exaltação Lula-lá chama a atenção nenhum destaque para a gestão de Marta Suplicy a frente da prefeitura de 2001 a 2005, parece que a última gestão petista em São Paulo não tem exemplos exitosos para serem copiados.

O portal do PSTU vira suas baterias para denunciar as relações de Dantas com o PT e a tentativa de Lula de manipular as investigações da PF. Títulos como Dantas e o PT, uma lucrativa parceria e Caso Dantas, o jogo de cena do Lula, ilustram e desvendam relações mal explicadas. Um destaque é o envolvimento de Luiz Eduardo Greenhalgh, a matéria traça o perfil de LEG e a contradição de um advogado notório pela defesa de presos políticos e dos direitos humanos, para vir a ser advogado de banqueiro, na trajetória o PSTU deixou de destacar que LEG teve papel destacado como advogado de Zezé Loureiro, importante dirigente do agrupamento Convergência Socialista na década de 70 e também de Nahuel Moreno quando este foi preso no Brasil em 1978, a ação de LEG mereceu na época uma página inteira no jornal Versus, dirigido naquele momento ainda por Marcos Faerman, mas já com grande influência dos trotsquistas que quase duas décadas depois viriam a fundar o PSTU.

O site do PCO destaca os acontecimentos recentes no Rio de Janeiro, sob o título, Polícia Assassina Revolta Popular: “Carros incendiados, banco depredado, barricadas, comércio e metrô fechado. Morte de trabalhador revolta moradores do Morro Azul, que iniciam uma revolta espontânea contra a polícia”, destaca a matéria principal.

O site do PSOL também trata com destaque o caso Daniel Dantas e as ações da PF, reproduz um discurso do senador José Nery em que ele cobra investigações pra valer que desvendem tanto a relação de Daniel Dantas com o tucanato como também com o governo Lula.

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A busca da verdade

Mandato - Jose Nery
Sex, 18 de julho de 2008 22:06
Na última semana o povo brasileiro acompanhou com grande interesse o desenrolar da Operação Satiagraha da Polícia Federal, que investiga crimes de lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, evasão de divisas, formação de quadrilha e tráfico de influência para obtenção de informações privilegiadas em operações financeiras. Durante a referida Operação foram presos, dentre outros, o banqueiro Daniel Dantas, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o investidor Naji Nahas.

Satiagraha é o termo usado pelo pacifista indiano Mahatma Gandhi durante sua campanha pela independência da Índia. Em sânscrito, Satya significa ‘verdade’. Já agraha quer dizer ‘firmeza’. Pode ser traduzida como “busca da verdade”.

Os acusados foram libertados pelo STF, beneficiados por habeas corpus de advogados. O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Gilmar Mendes, aceitou o primeiro pedido de liberdade por considerar “desnecessária” a prisão de Dantas, Nahas, Pitta e dos outros suspeitos.

A Operação Satiagraha é desdobramento das investigações motivadas pelo escândalo do mensalão, seja pela denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal, seja pelo teor do Relatório da CPMI dos Correios.

Vale lembrar que os sucessivos escândalos envolvendo lideranças petistas, somado a completa mudança de orientação política do PT e a continuidade da política econômica conservadora do governo FHC pelo governo Lula, tendo como exemplos mais significativos a reforma da previdência social e a manutenção da ciranda financeira e do superávit primário, ensejaram a saída de parlamentares federais, estaduais e municipais, além de centenas de militantes do movimento social, garantindo a criação do PSOL, do qual tenho muito orgulho de fazer parte.

Recomendo uma leitura atenta do Relatório da CPMI dos Correios, no qual é possível encontrar o elo de ligação entre o publicitário Marcos Valério, o ex-tesoureiro nacional do PT, senhor Delúbio Soares e o banqueiro Daniel Dantas. Foram vários milhões de reais canalizados por Daniel Dantas para as empresas de Marcos Valério e delas para paraísos fiscais e para favorecer personalidades da República.

Com a remoção, o poder do Sr. Daniel Dantas e seu Grupo Opportunity na Brasil Telecom S/A, TELEMIG Celular S/A e Amazônia Celular foi seriamente abalado, e estaria com os dias contados. No afã de voltar a obter o poder de outrora, o Sr. Dantas não mediu esforços e canalizou recursos das citadas empresas para as de Marcos Valério, que os distribuiu entre seus interlocutores com o intuito de auxiliar o Sr. Daniel Dantas a reestabelecer-se (Relatório CPMI Correios, volume II, 638).

O Sr. Daniel Dantas necessitava influenciar políticos para que pudesse manter o controle das citadas empresas durante e após sua destituição da administração de recursos de fundos de pensão das grandes empresas estatais. A proximidade do Sr. Dantas e de seu Grupo Opportunity com os Srs. Marcos Valério e Delúbio Soares tinha o objetivo de persuadir e pressionar políticos e dirigentes de fundos de pensão para que não o removessem do controle da Brasil Telecom, TELEMIG Celular e Amazônia Celular (Relatório CPMI Correios, volume II, 639).

Na apuração feita pela PF foram identificadas pessoas e empresas supostamente beneficiadas no esquema montado pelo empresário Marcos Valério para intermediar e desviar recursos públicos. Com base nas informações e em documentos colhidos em outras investigações da Polícia Federal, os policiais apuraram a existência de uma organização criminosa, supostamente comandada por Daniel Dantas, envolvida com a prática de diversos crimes.

Para a prática dos delitos, o grupo teria possuído empresas de fachada. As investigações ainda descobriram que havia uma segunda organização, formada por empresários e doleiros que supostamente atuavam no mercado financeiro para lavagem de dinheiro. O segundo grupo seria comandado pelo investidor Naji Nahas.

Além de fraudes no mercado de capitais, baseadas principalmente no recebimento de informações privilegiadas, a organização teria atuado no mercado paralelo de moedas estrangeiras. Há indícios inclusive do recebimento de informações privilegiadas sobre a taxa de juros do Federal Reserve (Fed, o BC americano).

É necessário que a impunidade tenha fim em nosso país. É escandaloso ver a reação de ministros e parlamentares criticando o fato dos acusados terem sido algemados. Mais escandalosa foi a agilidade com que o Supremo tribunal Federal liberou os acusados. Queria lembrar que metade da população carcerária brasileira, de acordo com números oficiais do Ministério da Justiça, espera decisão semelhante àquela que o banqueiro Daniel Dantas recebeu do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes. Do total de 422.373 presos em todo o País, mais de 211 mil estão em situação provisória - ainda sem condenação - e poderiam aguardar o julgamento em liberdade, como ocorrerá com Dantas e demais acusados pela Operação Satiagraha. Ou seja, quem tem muito dinheiro e possui muitos amigos poderosos pode aguardar em liberdade… os demais, que contem com a própria sorte!

É necessário que se apure com rigor as denúncias feitas pelo senhor Hugo Chicaroni, preso na terça-feira durante a Operação Satiagraha, que detalhes sobre a tentativa de suborno de um delegado da Polícia Federal por mando de Dantas. O Brasil quer saber quem são os beneficiados pelo dinheiro que aparece no documento intitulado “Contribuições ao Clube”,

Durante a CPMI dos Correios ficou cristalino que o esquema de caixa 02 para campanhas eleitorais e as relações promíscuas entre empresas e representantes do Poder Público são práticas recorrentes na política brasileira.

É muito importante que se apure a forma fradulenta que o governo de Fernando Henrique Cardoso dilapidou o patrimônio nacional, entregando a preço de banana as empresas estatais, beneficiando pessoas do quilate de Daniel Dantas.

É essencial que se apure as relações subterrâneas do banqueiro Daniel Dantas com esferas importantes do Judiciário brasileiro.

Queria, por último, apresentar minha solidariedade e meu apoio ao Juiz Fausto de Sanctis, da 6ª Vara Criminal de São Paulo, pela sua coragem que tem demonstrado em suas decisões. O Brasil anseia que a Justiça impeça a continuidade da impunidade, que aja com rigor contra os corruptos, que pare de tratar de forma benevolente os autores de “crimes do colarinho branco” e coloque na cadeia os que sangram as finanças do nosso país diariamente.

Plenário do Senado Federal, 14 de julho de 2008.

Senador José Nery Azevedo
Líder do PSOL

Site nacional do PSOL - www.psol.org.br

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Mauro Carrara: Ali Kamel, o “mais pior” dos jornalistas

Este merece! Quem acompanha a carreira do maestro global da notícia sabe de seus percalços com o verdadeiro jornalismo. Textos travados, vocabulário escasso e enorme dificuldade com a apuração dos fatos. Na revista Veja, na segunda metade da década de 80, virou motivo de piada depois de passar dois dias tentando um par de “aspas” de Dom Pedro Casaldáliga, o bispo progressista então ameaçado pela Congregação para a Doutrina da Fé, dirigida pelo cardeal Ratzinger.

Por Mauro Carrara, na NovaE

Kamel entrava por uma porta da matriz de São Félix do Araguaia, enquanto o lépido prelado espanholito saía pela outra. Exaurido, molhado e humilhado, sem qualquer informação, o repórter da Veja retornou ao Rio de Janeiro, onde bolou uma pensata para enfiar nas colunetas anti-Teologia da Libertação da revista do Seo Civita.

É longa a lista de reveses do jornalista, longa o bastante para a edição de uma bela brochura de inconfidências. Se não se saía lá muito bem como repórter e redator, Kamel empenhou-se em mostrar fidelidade canina a seus patrões. Como sabujo, prosperou. Em O Globo, notabilizou-se como chefete, a um só tempo fraco e cruel. Dirigindo-se aos subordinados, costumava repetir um argumento de coação: “você vai fazer porque estou mandando, e porque minha mãe precisa ler essa matéria amanhã cedo”.

Kamel é autor do livro Não Somos Racistas, um espetacular exercício de farsa epistemológica, em que ousa até distorcer estudos do finado Florestan Fernandes. Nessa peça velhaca, destinada a desqualificar a instituição de cotas raciais nas universidades, o jornalista afirma, em cândida patifaria, que findará a desigualdade quando todos tiverem as mesmas condições. Em 200 páginas marotas, no entanto, não logra estabelecer um modelo alternativo para que se obtenha um alinhamento na oferta de oportunidades.

Tamanhas demonstrações de afinação com o pensamento dos barões da mídia renderam a Kamel o cargo de diretor de jornalismo da Rede Globo de Televisão. Neste Agosto de rescaldo, estreou como assessor, e escreveu A Grande Imprensa, conjunto de mal traçadas linhas destinadas a apresentar defesa da mídia monopolista, fortemente criticada depois da cobertura criminosa da tragédia com o Airbus da TAM.

Kamel afirma que a “grande imprensa” vem sendo atacada por setores “autoritários e antidemocráticos” que “sentem-se ameaçados”. Cabe perguntar ao assessor de imprensa dos barões quais seriam os tais setores autoritários. Caso se refira ao Governo Federal, vale uma reflexão sobre a tal “liberdade de imprensa”, obsessivamente evocada pelos golpistas brasileiros. Se tal direito é garantido ao meios de comunicação, por que não pode ser estendido àqueles que, por eles, se julgam injuriados, caluniados e difamados? Em sua sofística de botequim, Kamel parte do pressuposto absurdo de que a liberdade de expressão é unilateral. Vale, portanto, apenas para aqueles que detêm os meios de informação, e nunca para aqueles que neles são detratados.

Segundo Kamel, o tais setores autoritários consideram notícia apenas aquilo que não “atrapalha os seus planos de poder”. A crítica tem endereço: o governo Lula e os partidos da base aliada. Não se vê, entretanto, o capitão-do-mato dos Marinho exigir autonomia quando jornalistas, inclusive da Rede Globo, são pressionados e ameaçados por figuras como o governador de São Paulo, José Serra, interventor eventual e informal em várias redações, nas quais freqüentemente faz rolar cabeças.

Ao criticar aqueles que se mobilizam contra a distorção do noticiário, Kamel diz que “mentem, atribuem à grande imprensa coisas que ela não fez e denunciam conspirações inexistentes”. Cabe novamente indagar: quem mente? Ex-globais como Paulo Henrique Amorim, Azenha e Rodrigo Vianna têm mostrado ao mundo, para perfeito entendimento, até dos entes planetários, que a emissora dos Marinho inventa, manipula e distorce. O relato público de Vianna, em especial, mostra de que maneira a Rede Globo se consolidou como podre partido político, conservador, fomentador do vale-tudo na campanha de desconstrução de imagens públicas.

A Rede Globo e a grande imprensa têm longa folha corrida. Do caso Escola Base ao caso TAM, há uma extensa relação de abusos, de distorções, de julgamentos sumários e de imputações indevidas. Conspirações? Existem, sim. Basta relembrar o que ocorreu quando do caso “dossiê”, que levou a eleição presidencial ao segundo turno, em 2.006. Que Kamel nos responda:

a) por que a grande imprensa evitou qualquer investigação sobre a participação de José Serra e outros membros do PSDB na máfia dos sanguessugas?

b) por que até agora a Rede Globo não explicou de que modo foi obtida a foto do dinheiro pago pela documentação?

Aposto que Kamel não explicará. Sabe-se da vergonhosa tramóia que envolveu o delegado-15-minutos-de-fama e os reporteiros Boccardi e Tralli.

Seguindo em sua peça de defesa, Kamel arrisca um refinamento literário: “É uma tautologia, mas, na atual conjuntura, vale dizer: o jornalismo só é livre e independente quando não depende de nenhuma fonte exclusiva de financiamento”. Poder-se-ia criticá-lo pelo pecado sintático, mas reza o livro da boa educação que nos restrinjamos ao debate de idéias.

“Livre” e “independente” são termos que não deveriam ser utilizados no caso de grandes redes de televisão. Designação imprópria. Não há ingenuidade que justifique a assertiva do assessor de imprensa. Logicamente, as grandes redes de TV não defendem um interesse específico e singular, mas uma doutrina política de viés conservador, propagandeada pelas grandes corporações e pelos setores políticos que lhes servem. Sabemos muito bem, por exemplo, por qual breviário ora o presidente da Philips.

Segundo Kamel, somente a grande imprensa “tem os meios para investir em recursos humanos e tecnológicos capazes de torná-la apta a noticiar os fatos com rapidez, correção, isenção e pluralismo, sem jamais se preocupar se o que é noticiado vai ser bom ou ruim para este ou aquele cliente, para este ou aquele governo “.

Os brasileiros viram, no entanto, a propalada “isenção” da Globo na cobertura de duas tragédias recentes. Na primeira, na abertura da cratera do metrô, jamais se apresentou qualquer conjectura desfavorável ao governo de José Serra, preservado com máximo critério. No caso TAM, entretanto, a Globo adiantou-se em apresentar a causa do acidente, atribuindo-o à pista e, por tabela, ao presidente da República. Talvez, o critério de “isenção” seja o mesmo aplicado em 1989, na edição criminosa do debate presidencial.

Por fim, ao analisar o papel da imprensa na cobertura da tragédia da TAM, Kamel nos apresenta a pérola de seu texto: “como não é pitonisa, como não é adivinha, desde o primeiro instante foi, honestamente, testando hipóteses, montando um quebra-cabeça que está longe do fim “. Ora, caro assessor, testando hipóteses?? Que que é isso? Se não é pitonisa, talvez copie os métodos do mago Merlim, em suas estripulias de invenção. Como testar, Seo Kamel? Deontologicamente, como admitir que a imprensa assuma esse papel? Estava em jogo, ali, a reputação de personalidades públicas, a imagem de técnicos de diversas áreas e a sensibilidade das famílias das vítimas da tragédia. A imprensa precisa é investigar, mas jamais emitir laudos. Pior, porque agora, admite-se que a Globo chutava, arriscava e apostava. Juntou-se a imperícia, a irresponsabilidade e a intenção de dolo.

O assessor Kamel afirma ainda que o grande público tem discernimento. Ora, se a Globo descobriu as capacidades do povo, por que não o respeita? Afinal, a maior parte dessas pessoas elegeu Luiz Inácio Lula da Silva duas vezes para a presidência da República. E se o telespectador exige mesmo informação de qualidade, por que William Bonner o compara a Homer Simpson? Ora, Seo Kamel, diante de tão incongruente argumentação, adivinhamos a causa de seu fracasso no jornalismo. E caso não dê refinamento ao produto de seu novo trabalho, é certo que também perderá o emprego de assessor.

Portal Vermelho

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Wallerstein: como construir outro mundo em meio à tempestade?

No momento em que nos aproximamos da próxima década, é possível antecipar grande turbulência em duas frentes — a arena geopolítica e a economia mundial, com o relativo declínio do poder geopolítico norte-americano, agora percebido por quase todos, e que nem mesmo um Obama presidente será capaz de reverter.

Por Immanuel Wallerstein, no Le Monde Doplimatique

Estamos caminhando para um mundo verdadeiramente multipolar, em que o poder de Estados relativamente fracos tornou-se subitamente muito maior. O Oriente Médio atual é um exemplo. A Turquia agencia a retomada de negociações entre Síria e Israel, congeladas há muito. O Qatar agencia uma trégua negociada entre facções libanesas ferozmente opostas. A Autoridade Palestina retomou negociações com o Hamas. E o governo paquistanês entrou numa trégua de facto com o Taliban nas zonas fronteiriças ao Afeganistão. O significativo destas estas ações é que os Estados Unidos se opuseram a todas elas e foram simplesmente ignorados — sem nenhuma conseqüência séria para qualquer dos atores.

Além de Estados Unidos, União Européia e Japão, há agora a Rússia, China, Índia, Irã, Brasil — como líder presumido do bloco sul-americano — e África do Sul — líder presumido do bloco sul-africano.

Há um imenso terreno para alianças, com debates internos sobre parceiros ideais e ampla incerteza sobre o que decidirão. Além disso, outros países como Polônia, Ucrânia, Coréia do Sul, Paquistão, Egito, Nigéria, México e Canadá já não têm certezas sobre quais seus espaços de atuação. A situação geopolítica é claramente distinta de todas que o mundo viveu há um bom tempo. Não é a anarquia total, mas certamente desordem geopolítica maciça.

Esta desordem geopolítica está acompanhada por incertezas agudas sobre a economia mundial. Há, antes de mais nada, o tema das moedas. Vivemos, pelo menos desde 1945, num mundo estabilizado pelo dólar. O declínio dos Estados Unidos, em particular como locus dominante da produção mundial, combinado com a ultra-expansão de sua dívida, causou um sério declínio do dólar, cujo patamar final ainda é obscuro, mas será provavelmente inferior ao atual.

O declínio do dólar representa um sério dilema econômico para outros países, particularmente aqueles que converteram sua nova riqueza em títulos e estoques denominados nesta moeda. Estes países estão divididos entre sustentar os Estados Unidos, destino muito importante de suas exportações, e evitar as perdas reais que sofre o valor de seus ativos vinculados ao dólar. Especulam sobre a possibilidade de abandoná-lo. Mas como em todas as saídas financeiras, a questão para os possuidores de ativos é o timing — nem muito cedo, nem tarde demais.

O dólar poderá ser substituído como reserva monetária mundial? O candidato óbvio é o euro. Mas não se sabe ainda se ele poderá cumprir este papel, ou se os governos europeus estão dispostos a promovê-lo a tal condição — embora não seja impossível que o processo os atropele

Em lugar do euro, poderíamos ter uma situação pluri-monetária, em que dólar, euro, iene, o renminbi chinês e a libra fossem todos utilizáveis para transações internacionais? A resposta aqui é similar à das alianças geopolíticas. Não seria a anarquia total, mas certamente desordem, e os governos e produtores tenderiam a sentir-se muito inconfortáveis — para não falar dos aposentados em todo o mundo.

Muitos países grandes viveram amplo aumento tanto de produção quanto nos níveis de consumo. Veja-se os tão-comentados BRIC — Brasil, Rússia, Índia e China — que abrigam cerca de 60% da população mundial O aumento em seus níveis de produção e consumo produziu um enorme aumento da demanda por energia, matérias-primas, alimentos e água. Alguma coisa vai acontecer. Pode haver uma grande onda mundial de inflação, se os preços de todas as commodities continuarem a disparar, alimentados pelo crescimento da demanda e pela especulação. Uma conseqüência não-descartável seria o protecionismo maciço: governos limitando fortemente as exportações, para proteger seu abastecimento interno.

As experiências anteriores mostram que isso pode criar círculos viciosos erráticos. Ou pode haver enormes desabastecimentos localizados, resultando em altos índices de mortalidade e sérias catástrofes ambientais.

Os governos atingidos por quedas na receita, e pressionados a não compensá-las via aumentos de tributos, poderiam cortar despesas nas áreas-chave de Educação, Saúde e Previdência. Mas são terrenos que, como parte da democratização do mundo nos dois últimos séculos, transformaram-se nas expectativas mais importantes das sociedades em relação a seus governos. Dirigentes incapazes de assegurar a manutenção destas três formas de redistribuição social da riqueza perderiam legitimidade abruptamente, com resultados incertos em termos de levantes civis.

É exatamente a este cenário, muito negativo a curto prazo, que nos referimos quando dizemos que o sistema ultrapassou o equilíbrio, ingressando num estado de caos. O caos, é claro, nunca dura para sempre. As situações caóticas acabam gestando a própria solução de suas crises, naquilo que Prigogine e Stengers chamaram de “ordem emanada do caos”, em sua obra clássica. Como os autores frisam, no centro de uma encruzilhada há criatividade e alternativas, mas nunca se sabe que escolhas serão feitas.

Na batalha entre esquerda e direita, a primeira viveu um ascenso vertiginoso nos últimos 200 anos — especialmente no século 20. A esquerda mobilizou apoio em grande escala e com muita eficácia. Houve um momento, no pós-II Guerra, em que isso parecia ocorrer em toda parte e de todas as maneiras.

Então, vieram as grandes desilusões. Os Estados onde os movimentos anti-sistêmicos chegaram ao poder, de uma ou de outra maneira, estiveram na prática muito distantes daquilo que as forças populares esperavam deles. E a irreversibilidade destes regimes mostrou-se outra ilusão. No início dos anos 90, todo o triunfalismo da esquerda mundial tinha sido varrido — e substituído por uma letargia generalizada, freqüentemente uma sensação de fracasso.

Porém como sabemos, o sentimento de vitória da direita evaporou-se igualmente — de modo ainda mais espetacular quando afundou a aposta dos neoconservadores, que apostavam numa permanente dominação imperial norte-americana. Da rebelião zapatista em 1994 aos protestos bem-sucedidos que inviabilizaram a reunião da OMC em Seattle, em 1999, e à fundação do Fórum Social Mundial (FSM), em 2001, em Porto Alegre, uma esquerda reacesa e transformada emergiu na cena mundial.

Vivemos num ambiente mundial caótico e é difícil enxergar com clareza. É mais ou menos como tentar seguir adiante numa grande tempestade de neve. Os que quiserem sobreviver precisam examinar tanto a bússola — para saber em que direção caminhar — quanto o terreno alguns centímetros à frente – para não despencar em algum precipício. A bússola guia nossos objetivos de médio prazo, indica o tipo de novo sistema mundial que queremos construir. Os centímetros à nossa frente são a política do mal menor. Se não nos preocuparmos com ambos, estaremos perdidos.

Debatamos o rumo da bússola, ignorando os Estados e os objetivos nacionais. Assumamos, porém, compromissos com ambos no curto prazo, para evitar os abismos. Desse modo, teremos uma chance de sobrevivência, uma chance de construir o outro mundo possível.

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Fidel Castro: A educação em Cuba

O líder cubano Fidel Castro escreveu mais uma de suas reflexões, na qual destaca o sistema educacional da Ilha e lembra que “nenhum país desenvolvido possui neste campo nossos índices de escolaridade e as possibilidades educacionais de todos os cidadãos, apesar do bloqueio injusto e o roubo descarado de braços, músculos e cérebros que sofre Cuba”.

“Os Estados Unidos e outros países ricos não podem sequer equiparar-se com o nosso. Têm, isso sim, muitos mais automóveis, gastam mais gasolina, consomem muitas mais drogas, compram mais quinquilharias e se beneficiam com o saque de nossos povos, como o fizeram durante séculos”, acrescenta.

Leia abaixo a íntegra do texto, reproduzido da Agência Prensa Latina:

A educação em Cuba

Parece que o nosso país é o que mais tem problemas de educação no mundo. Todas as notícias que chegam divulgam informação sobre muitos e difíceis desafios: déficit de mais de 8.000 professores, grosserias e maus hábitos de estudantes, insuficiente preparação; problemas, enfim, de todo tipo.

Não acredito, em primeiro lugar, que estejamos tão mal. Nenhum país desenvolvido possui neste campo nossos índices de escolaridade e as possibilidades educacionais de todos os cidadãos, apesar do bloqueio injusto e o roubo descarado de braços, músculos e cérebros que sofre Cuba.

Os Estados Unidos e outros países ricos não podem sequer equiparar-se com o nosso. Têm, isso sim, muitos mais automóveis, gastam mais gasolina, consomem muitas mais drogas, compram mais quinquilharias e se beneficiam com o saque de nossos povos, como o fizeram durante séculos.

O imperialismo aspira a que as mulheres cubanas voltem a ser mercadorias, objetos de prazer e serventes dos ricos. Não perdoam a luta pela libertação dos povos. Sentem falta dos anos em que a entrada dos cubanos negros aos centros de diversão estava proibida. Muitos cidadãos careciam de emprego, segurança social e assistência médica.

Para Martí, a liberdade era cara, havia que pagá-la por seu preço ou resignar-se a viver sem ela. Esse é o dilema que devem se propor todos os cubanos a cada dia.

Quanto há de verdadeiro nas esperanças de nossos inimigos? Só em nós mesmos está a resposta. Ou é que na educação podemos igualmente nos perguntar se utiliza-se o método burocrático de dar ciência sem consciência? Não acho que tenhamos regredido tanto. De todas as formas, é indispensável que cada um se faça a pergunta para evitar que se cuspa sobre nossa dignidade. Não esperemos perdão de nossos inimigos.

Há dezenas de milhares de pessoas que pensam, falam, atuam e tomam decisões. Nas mãos de todas elas estão as medidas que se adotam a cada dia.

Prestemos atenção aos nossos inimigos e façamos todo o contrário do que esperam de nós para seguir sendo o que somos.

Apela-se às nossas consciências. A Revolução exige de todos nós, com razão, trabalhar mais, isto é, trabalhar! Resistimos 50 anos. As novas gerações estão muito melhor preparadas; temos direito a esperar delas bem mais. Não nos desalentemos com as notícias dos inimigos, que tergiversam o sentido de nossas palavras e apresentam nossas autocríticas como tragédias. O manancial da ética revolucionária é inesgotável!

Fidel Castro Ruz
19 de Julho de 2008

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Mídia esconde relação Dantas-PSDB

A efêmera detenção de Daniel Dantas, que durou apenas um dia – bem que num dos telefonemas grampeados um serviçal do banqueiro garantiu que seu patrão temia apenas a Polícia Federal, já que no Supremo Tribunal Federal “ele resolveria tudo” – dá um baita alivio à mídia hegemônica. Afinal, ela estava fazendo de tudo para esconder as relações promiscuas entre o megaespeculador e vários tucanos de alta plumagem. A TV Globo, por exemplo, noticiou a cinematográfica prisão vinculando-a unicamente ao “escândalo do mensalão do PT”. Já a Folha de S.Paulo, da famíglia Frias, deu um título esquizofrênico na capa: “Defesa do banqueiro diz ter papéis contra o PT”.

Defensora intransigente da privataria na era FHC, a mídia venal evitou vincular a fortuna obtida ilicitamente pelo mafioso com o processo da venda criminosa da estatal das telecomunicações. O seu banco, Opportunity, foi criado em 1996 e cresceu exatamente com a onda das privatizações, graças às íntimas relações com líderes do PSDB. Nenhuma manchete para o fato do especulador ter sido diretamente agraciado pelo ex-ministro tucano das Comunicações, Mendonça de Barros, que acionou os fundos de pensão nas negociatas. Pouco destaque para outras figuras tucanas que assumiram altos cargos no Opportunity, como o ex-presidente do Banco Central, Pérsio Arida, e a ex-diretora do BNDES, responsável pela área das privatizações, Elena Landau.

Cadê a filha do governador Serra?
No seu desespero para defender os tucanos, a mídia deixou de noticiar até que um dos presos na mega-operação da PF, Verônica Rodenburg, irmã de Daniel Dantas, foi sócia de Verônica Serra, filha do atual governador paulista, na firma de consultoria Decidir. A empresa, que continua em atividade, registrou-se em Miami (EUA) em 3 de maio de 2000, sob o número P00000044377.

Tem filiais na Argentina, Chile, México, Venezuela e Brasil e oferece dicas sobre oportunidades de negócios, incluindo a área de licitações públicas no Brasil. Consta no seu site: “Encontre em nossa base de licitações a oportunidade certa para se tornar um fornecedor do Estado”.

Durante a CPI do Mensalão, em 2005, a senadora Ideli Salvatti acusou Dantas de manter íntimas relações com líderes tucanos, citando sua sociedade com Pérsio Arida e a empresa de sua irmã com a filha do então prefeito da capital paulista, José Serra. A denúncia causou alvoroço na época, mas a mídia venal sequer retomou o caso agora. Esquecimento ou cumplicidade?

Bob Fernandes, jornalista do site Terra Magazine e o primeiro a denunciar as prisões desta semana, talvez tenha a resposta. Após anos averiguando as maracutaias do banqueiro, ele chegou à conclusão de que Daniel Dantas é “um dos personagens centrais da mais feroz e encarniçada batalha da historia do capitalismo brasileiro” e que esta “batalha feroz incluiria também jornalistas e publicações”.

Altamiro Borges é jornalista

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Governo estima corte neste ano de 500 mil cestas básicas

Lógica invertida

Matéria publicada hoje no jornal Folha de S. Paulo revela a lógica perversa com que o governo trata as pessoas em situação de risco alimentar e como o baixo orçamento para área complete um atendimento de qualidade, agora, com o aumento dos preços dos alimentos, ou seja, quando as pessoas mais vão precisar de ajuda, o governo usa a inflação para justificar o corte em 25% na distribuição de cestas básicas.
Eis a matéria:

Governo estima corte neste ano de 500 mil cestas básicas
Redução se deve à alta da inflação; atingidos estão em situação de insegurança alimentar

No ano passado, famílias esperaram pouco mais de dois meses por cada cesta; agora, intervalo pode ficar próximo dos três meses

EDUARDO SCOLESE
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Por conta do alto ritmo da inflação dos alimentos, o governo federal estima que deixará de distribuir neste ano cerca de 500 mil cestas básicas às famílias consideradas em “situação de insegurança alimentar”.
Sem-terra, quilombolas, indígenas e atingidos por barragens, entre outros, integram esse rol de beneficiários. A maioria deles está em acampamentos, debaixo de barracos de lona e, sem endereço fixo, fora do Bolsa Família, principal programa de transferência de renda do governo federal.
No ano passado, o governo distribuiu a essas famílias 2 milhões de cestas. Para este ano, por conta da alta do preço dos alimentos, a estimativa do governo é de 1,5 milhão de cestas.
Os recursos e os estoques da agricultura familiar disponíveis para a montagem das cestas estão próximos aos do ano passado, enquanto os produtos, puxados por feijão, óleo e farinha de trigo, subiram neste ano uma média de 23% em relação à média final de 2007.
“Isso [1,5 milhão de cestas em 2008] é uma estimativa nossa”, afirma João Cláudio Dalla Costa, superintendente de Programas Institucionais e Sociais de Abastecimento da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), responsável pelos leilões eletrônicos nos quais são adquiridos os produtos da cesta básica.
Nos leilões da Conab do ano passado, o quilo do feijão foi negociado a R$ 1, em média. Nos primeiros meses deste ano, saltou a R$ 2,46, avanço de 136%. Nos leilões, a lata de óleo para a cesta subiu de R$ 1,93 para R$ 2,82, e a farinha de trigo, de R$ 1 para R$ 1,24, o quilo.
“O mercado muda bastante, e os preços podem baixar. Com isso vamos entrar no mercado, comprando e estocando, e o atendimento pode voltar à normalidade. E a expectativa é que [o mercado] volte à normalidade”, afirma Dalla Costa.
A falta de cesta nos acampamentos muitas vezes é sinônimo de confusão. Ao sinal de atraso, os movimentos invadem prédios públicos e pressionam o governo a acelerar o processo de distribuição.
No ano passado, as cerca de 350 mil famílias em situação de “insegurança alimentar” cadastradas pelo governo aguardaram, em média, pouco mais de dois meses para receber cada cesta. Para este ano, a estimativa é que o intervalo fique acima de dois meses e meio, podendo chegar até a três meses.
Sem incluir o valor do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), que varia de acordo com o Estado, o custo de uma cesta básica para uma família do Nordeste, por exemplo, passou de R$ 33,16, em 2007, para R$ 39,93, no início deste ano, um crescimento de 20,41% nos leilões eletrônicos da Conab.
Cada cesta possui oito itens e pesa 22 quilos. No Norte e Nordeste, a farinha de trigo e o fubá, itens das cestas de Centro-Oeste, Sul e Sudeste, dão lugar à farinha de mandioca e aos flocos de milho.
Três órgãos do governo são responsáveis pela cesta. O recurso sai do Ministério do Desenvolvimento Social, a Conab organiza os leilões e, por fim, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) distribui as cestas.
Em 2007, o ministério repassou R$ 46 milhões à Conab para a compra de cestas, contra R$ 41,4 milhões liberados, por enquanto, para este ano.
Como ano a ano o volume é insuficiente, o restante dos produtos é incluído nas cestas por meio de um programa federal que proporciona uma espécie de renda mínima aos agricultores familiares -o chamado PAA (Programa de Aquisição de Alimentos). Dos 2 milhões de cestas distribuídas em 2007, 58,1 mil foram destinadas a famílias em “situações especiais”, como vítimas de enchentes.

Folha de S. Paulo

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Cinema, Aspirinas e Urubus - Trailer

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Admirável mundo novo

 

O cientista norte-americano Eric Drexler desvenda o mundo das moléculas e aponta quais as futuras potências na área da nanotecnologia

Você já ouviu falar em nanotecnologia? Quem pensou que se trata de uma “tecnologia pequena” não passou muito longe da verdade. Essa ciência – que está associada a diversas áreas, como a medicina, a eletrônica, a computação, a física, a química, a biologia e a engenharia – caracteriza-se pela pesquisa e pela produção em escala nano, ou seja, escala atômica. Os princípios básicos são a construção de nanoestruturas e o uso de novos materiais com base em átomos – que alguns cientistas definem para os leigos como “os tijolos da natureza”. Um desses cientistas é Eric Drexler, engenheiro e nanotecnólogo norte-americano que esteve no Sesc Pinheiros, em 30 de maio, para explicar o complexo universo das nanopartículas. “Nós vivemos em um mundo feito de átomos e moléculas”, disse. “Feito de blocos de montar, de estruturas e de tecnologias, como a dos nossos próprios corpos.” Foi fazendo analogias entre as tecnologias criadas pelo homem e o funcionamento do corpo humano que Drexler apresentou a uma platéia formada por entendidos e curiosos os rumos da capacidade humana de criar e desenvolver novas formas de atuar no mundo. “As proteínas, por exemplo, são partículas de incríveis qualidades de engenharia e que podem ser fabricadas por um processo atômico”, exemplificou. “São os componentes da máquina molecular do nosso corpo. E isso não é criação humana, é a natureza que nos mostra.” Durante a palestra, o cientista falou sobre as futuras potências na área da nanotecnologia, sobre quais os possíveis riscos da nova ciência e contou um pouco da história da tecnologia. A seguir alguns trechos:

Vamos comparar duas revoluções:
Primeiro a Revolução Industrial – Houve um tempo em que tudo era feito diretamente pelas pessoas, pelas mãos humanas. Os ferreiros trabalhavam com seus martelos e davam forma ao metal. No entanto, ocorre que os ferreiros usavam suas ferramentas para fazer outras ferramentas, para o mesmo fim. Eles evoluíam à medida que conseguiam fazer ferramentas melhores, mais úteis, e que servissem para outros fins. Passo a passo essa tecnologia foi se tornando mais avançada, até que se chegou ao nível da fabricação de coisas por meio das máquinas, que já não mais usavam a força humana para funcionarem; elas se tornaram automatizadas. Hoje temos uma automação de ponta e uma grande precisão nos processos de fabricação. Se você olhar em volta, verá que tudo o que o cerca nessa sala, além das pessoas, foi feito por máquinas. E você verá que, finalmente, o modo como essas coisas foram fabricadas substituiu virtualmente todas as outras maneiras de fazer coisas.
A outra revolução é a digital, que começou com a computação analógica, com mecanismos analógicos de computação – vocês já devem ter ouvido falar daqueles computadores que ocupavam salas inteiras. Aí chegou a tecnologia digital e mudou o rumo das coisas – por exemplo: todas as empresas que fabricavam calculadoras portáteis foram à falência. Hoje o processamento de informação de forma digital substituiu virtualmente todas as outras maneiras. Tocar música? Digitalmente. Fazer vídeos e assistir a eles? Digitalmente. Computadores de laboratório? Claro, digitalmente. E assim por diante. 
Resumindo, a Revolução Industrial mudou a forma de processar matéria; a digital, de processar informação. O que procuramos, agora, para o futuro é uma revolução digital na maneira de processar matéria. Uma combinação dessas duas revoluções que possa resultar em algo muito diferente, uma nova maneira de fabricar coisas. Atualmente, a raça humana é muito ruim nisso. Quase tudo o que se tem pensado hoje não pode ser feito porque não conseguimos unir átomos e moléculas de formas mais complexas. Contudo, podemos ver o quão avançados e mais eficazes os sistemas de produção poderão ser. Só que, para isso, precisamos igualmente de sistemas de produção mais avançados e eficazes. Vamos comparar a tecnologia com uma árvore – e tudo o que você vê a sua volta são as folhas e frutos dessa árvore. As coisas são feitas por máquinas que, por sua vez, foram feitas por outras máquinas e assim sucessivamente. Se você olhar para trás, para o lugar de onde os produtos de hoje vieram, encontrará as facilidades e os produtos criados na década passada. E, atrás disso, há as facilidades e produtos criados na década anterior à passada. Cada momento histórico da produção trabalhando de olho no momento seguinte. Até que, quando você chega à raiz dessa árvore, você encontra o ferreiro e seu martelo.

Perdas e danos
De fato, há algumas histórias curiosas sobre questões relacionadas à toxicidade ou danos causados por nanopartículas, nanofibras e coisas desse tipo. Alguns desses materiais possuem as mesmas substâncias dos materiais usados fora da nanotecnologia. Há algumas telas [como as de celular, por exemplo] que possuem nanopartículas de dióxido de titânio, e há telas, hoje, que possuem esse elemento em grandes quantidades. Nanotubos de carbono são como o grafite, que é uma substância familiar usada nos lápis, só que em maior número. As companhias que trabalham nessas áreas diriam que as nanopartículas e as nanofibras são maravilhosas, que elas são novas e têm um incrível potencial de trazer novos benefícios. E se você perguntar a elas se já que são novas e diferentes elas podem também apresentar propriedades danosas novas e diferentes, nesse ponto elas dirão: “Ah, não, mas é apenas grafite, é seguro”. Elas se baseiam num consenso com o qual o mercado concorda. E como concorda!
Mas essa é a típica discussão que envolve novos materiais e substâncias, e não é um assunto novo. Há aspectos específicos da regulamentação científica que são difíceis. Mas se olharmos para trás, para aquilo com que os profissionais estão lidando, os detalhes etc., trata-se apenas de outro caso de pessoas fazendo coisas novas, e essa coisa, esse material, possivelmente pode ter efeito tóxico. Mas os governos estão atuantes, recursos financeiros têm sido aplicados, as pessoas que regulamentam esse tipo de atividade estão alertas e os grupos ambientalistas estão prestando atenção. Imagino que as coisas serão tratadas de forma satisfatória.

Futuras potências

Eric Drexler, que apresentou palestra no Sesc Pinheiros, em 30 de maio

A questão da motivação e a da capacidade estão combinadas. A motivação para progredir em avanços em nanotecnologia é extremamente grande – há melhores materiais, melhor produção das fontes necessárias e por aí vai. Os três requisitos são: motivação, visão e liderança, e capacidade técnica e científica. E nós vemos grandes quantidades dessas características em lugares como os Estados Unidos, a Europa, a China e a Índia. Penso até que devemos citar a Índia em particular, porque ela sobressai no quesito visão e liderança. O doutor Abdul Kalam [11º presidente da Índia, de 2002 a 2007], que levou a Índia a lançar um míssil em seu programa de desenvolvimento espacial – ele foi o técnico responsável pela empreitada –, é um homem que ajudou a impulsionar o programa de desenvolvimento nuclear de seu país. Ele não era o primeiro-ministro da Índia, mas desempenhava uma posição muito significativa. Ele dizia repetidamente, em lindos discursos, que a nanotecnologia era o futuro da Índia. E quando falava sobre isso citava, especificamente, o seu livro sobre manufatura molecular, de 1992 [Nanosystems – Molecular Machinery, Manufacturing and Computation, sem tradução para o português], como uma das leituras que lhe despertava o interesse. Por isso, digo que esses países têm uma motivação e uma capacidade de avançar, especificamente nessa área. Espero que toda essa motivação se traduza em esforço. O progresso desses países será acelerado pelo avanço tecnológico.

“O que nós procuramos agora para o futuro é uma revolução digital na maneira de processar matéria. Uma combinação dessas duas revoluções [industrial e digital] que possa resultar em uma nova maneira de fabricar coisas”

Revista E - SESC SP

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Entrevista com Sérgio Adorno - Revista E - SESC

Sérgio Adorno
O professor e sociólogo analisa a violência no Brasil

Além de coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP) e professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), o sociólogo Sérgio Adorno tem um vasto currículo. Em 1974, formou-se em ciências sociais pela USP, e concluiu o doutorado em sociologia pela mesma universidade, em 1984. O pós-doutorado veio em 1995 - pelo Centre de Recherches Sociologiques sur le Droit et les Institutions Pénales, em Paris, França. Com a defesa da tese A Gestão Urbana do Medo e da Insegurança (Violência, Crime e Justiça Penal na Sociedade Brasileira Contemporânea) obteve o título de livre-docente, em 1996, pela USP. É também coordenador da cátedra Unesco/USP de Educação para a Paz, Direitos Humanos, Democracia e Tolerância. Durante a conversa com a Revista E, Adorno falou sobre a relação entre pobreza e violência, analisou a questão da descriminalização das drogas e abordou o filme Tropa de Elite, de José Padilha. "Não quero transformar o debate em uma guerra entre bandidos e mocinhos", comentou a respeito da conduta da polícia e dos criminosos mostrada por Padilha nas telas. A seguir, trechos.
A sociedade brasileira é violenta? Estamos enganados com essa história de que o brasileiro é cordial?

O mito da cordialidade já foi contestado há muito tempo. Chego a defender o argumento de que você pode até escrever a história social da sociedade brasileira como a história social e política da violência. A violência sempre foi um recurso utilizado nas relações de dominação e de mando - seja nas fazendas, na vida doméstica, seja no plano da vida política. Veja, por exemplo, que os movimentos de rebelião popular sempre foram muito contidos com o uso de uma violência extrema, não se pouparam vidas.
Durante o século 19, todos os movimentos sociais de raízes populares foram reprimidos com muita violência, como a Sabinada [rebelião autonomista ocorrida na Bahia, de 1837 a 1838, que chegou a proclamar uma república baiana] e a Balaiada [revolta de caráter social ocorrida entre 1838 e 1841, no interior do Maranhão]. Na vida doméstica, o modo como se tratavam os escravos, as crianças, as mulheres e os desafetos sempre foi com o emprego de muita violência. Há uma extrema violência ao lidar com as diferenças, quando você tem de lidar com conflitos, com interesses opostos. Ou seja, a gente pode dizer que há um lastro de violência tanto na cultura quanto na política brasileira.
Mas não acho que seja só isso. É claro que há manifestações de solidariedade. Não gosto de usar o conceito de cultura da violência como se houvesse uma cultura à parte da cultura geral. Sabemos que, cientificamente, isso não ocorre. Existem traços de cultura que, de alguma maneira, estão associados a outros traços de cultura. Uma espécie de sincretismo.
Podemos creditar a violência que permeia a sociedade brasileira à maneira como se deu nossa colonização? Por exemplo, os portugueses escravizaram índios e negros com uma atitude extremamente violenta.
Certamente a escravidão deixou marcas. Por que se lidou com o escravo com muita violência? Porque o escravo era coisa, não era pessoa, era mercadoria. Por isso, a idéia de que você decide o que quer fazer com a mercadoria, se quer dispor dela produtivamente ou improdutivamente. Resgatar a dimensão de humanidade dos escravos é uma tarefa cultural imensa da sociedade. Mas claramente não conseguimos resultados dos mais adequados porque ainda há desigualdade entre brancos e negros.
Não acho que a gente deva descartar as heranças escravistas, mas o argumento da herança colonial também é perigoso. Primeiro, porque, no momento em que se diz que [a violência] tem causa nas nossas heranças, reforça-se o argumento da história como algo congelado no tempo. A história aconteceu lá e continua acontecendo hoje. Por mais que as nossas heranças pesem, elas são atualizadas, são reinterpretadas. Não dá para você achar simplesmente que a herança explica tudo. O problema é que a sociedade brasileira construiu um Estado que, durante muito tempo, foi de proteção das classes proprietárias contra o resto da população. Vivemos em uma sociedade de fundo conservador, uma sociedade com muitas dificuldades de promover rupturas.
Você acha que o brasileiro tem um caráter acomodado? Por exemplo, critica-se que quase não houve reação da população ao golpe ocorrido em 1964, responsável pela instalação da ditadura militar no país.
Como sociólogo, tenho uma enorme dificuldade de falar sobre o caráter nacional brasileiro. Há um clássico estudo do professor Dante Moreira Leite, daqui da USP, que é um livro chamado O Caráter Nacional Brasileiro [a obra ganhou uma edição em 2003 pela Unesp]. Nesse livro, ele questiona essa imagem de que o brasileiro é mais cordato, mais contemporizador - de alguma maneira isso está na literatura, no senso comum, na imprensa. Há brasileiros e brasileiros. Por exemplo, ser brasileiro no Sudeste é muito diferente de ser brasileiro no Nordeste ou no Norte, ou ser brasileiro branco é diferente de ser brasileiro negro.
Então, é difícil dizer o que é o Brasil. Acho que é preciso entender que, provavelmente, o golpe tenha matizes muito diferentes. Tradicionalmente, a sociedade brasileira não é uma sociedade polarizada entre duas grandes tendências, de direita e de esquerda, como aconteceu no Chile ou na Argentina. Você tem matizes na direita, na esquerda e um grande centro. Você pode dizer que, desses matizes, houve uma parte da sociedade brasileira que protestou mesmo. Mas foi cassada, foi expulsa do espaço público, muitos foram perseguidos politicamente e tiveram suas mínimas garantias constitucionais suspensas. E também houve uma parte que, de alguma maneira, ficou em silêncio. Acho que a gente tem de pensar que o cenário não era homogêneo.
Alguns de seus textos chamam a atenção para a seguinte pergunta: há uma dificuldade no Brasil em se cumprir a lei dentro do Estado democrático?
Há uma dificuldade histórica no Brasil em reconhecer a lei como instrumento de bem comum. Acho que houve, historicamente, uma identificação da lei com o domínio de classe, o domínio dos proprietários, dos poderosos. Mas creio que isso está em processo de mudança, embora seja mais visível em algumas áreas e menos em outras. O critério de aplicação das leis e da punição é o seguinte: as leis têm de ser universais. Mas crimes como os do colarinho-branco têm um tratamento diferenciado dos crimes cometidos pelos cidadãos de baixa renda, por exemplo. Quando a lei não é universal, os cidadãos tendem a reconhecer que ela não é igual para todos, então prevalece o poder do mais forte. Se você não se sentar à mesa de negociação através dos seus representantes e disser: "A lei tem de ser igual para todos e todos têm de estar submetidos aos mesmos rigores dela, sejam ricos, pobres, brancos ou negros", é difícil tentar começar uma discussão sobre uma política de segurança e de aplicação das leis justa e reconhecida como legítima. Quando olho algumas outras experiências do mundo ocidental, vejo que houve muitas lutas para o reconhecimento de que a lei era para conter arbitrariedades e abusos - abuso de poder de quem quer que fosse, do Estado ou da sociedade.

Então, a função da lei seria equiparar todos os cidadãos de uma sociedade?
Quando fiz ciências sociais aqui na USP, no início dos anos 70, estudei muito a influência do marxismo na sociologia. Eu me lembro de ter lido uma parte de O Capital [livro do pensador alemão Karl Marx (1818-1883)], e a impressão que tive quando tinha 19 ou 20 anos é de que Marx dizia o seguinte: "A lei é burguesa e é um instrumento de dominação de classe". Então, identificava a estrutura jurídica como instrumento de dominação. Depois de muitos anos, preparando aulas, fui reler esses capítulos e descobri Marx dizendo o seguinte: "Dialeticamente, a luta da classe trabalhadora é constituir um mínimo de legalidade, ainda que no espaço burguês, porque a lei é um instrumento mínimo de reconhecimento da legitimidade da luta. Ainda que dialeticamente, isso vai ser superado". Na minha cabeça, vinha mais ou menos o seguinte: o que é o espaço legal? É um espaço de negociação do bem comum. Não se trata de você negar a diferença de classes, de poder, de etnia, de gênero etc. Mas é preciso que essas diferenças encontrem um lugar no qual você possa traduzi-las em direitos eqüitativos.

Recentemente, vimos uma discussão acalorada sobre o filme Tropa de Elite, de José Padilha. Até mesmo parte da imprensa afirmou que a película legitimava a questão da tortura e do assassinato, o que vai contra o estado de direito. O que você acha disso?
O filme não está falando mentira, não está dizendo: "Olha, é uma enorme ficção". É uma narrativa da sociedade, mas não é a única. Certamente, muitas pessoas viram o filme com a impressão de "é assim mesmo, bandido tem de ser tratado assim" ou "polícia é assim" etc. Mas também tem muita gente que ficou muito horrorizada e disse: "Quero viver em uma sociedade na qual a polícia seja respeitada, mas não por esse tipo de feito, e sim pelo fato de que ela aplica a lei, usa a força dentro das regras da sociedade e promove a segurança do cidadão". Temos de prestar atenção ao fato de que houve um debate. Acho o debate muito importante, é uma maneira de perceber outras narrativas, outros entendimentos. Isso é explicar as diferenças. Há algumas coisas que a sociedade precisa discutir. Por exemplo, fico muito incomodado com o argumento que diz que os bandidos estão muito mais armados do que a polícia.

A pergunta é: como as armas chegam aos bandidos? Chegam pelo supermercado, alguém vai ali e compra, leva na sua bolsinha? Essa questão eu quero saber e a polícia tem de explicar. Pois quem tem de ser responsabilizado por isso são os órgãos de segurança. Não adianta dizer que eles estão mais armados. A culpa é, de fato, da polícia, porque não está exercendo seu papel. Não quero transformar o debate em uma guerra entre bandidos e mocinhos, na qual a polícia é o mocinho e bandido é o bandido.
Ou então fazer do bandido a vítima e da polícia o algoz. Acho que nenhuma dessas posições contribui para o debate. De qualquer maneira, não estou convencido de que a sociedade brasileira é consensual no uso da força indiscriminada para conter a violência.

Você acredita que a pobreza gera violência?
Através de pesquisas muito sérias, que conheço e respeito, os estudos mostram que não há uma relação direta entre pobreza e violência. Eu poderia resumir em dois ou três argumentos. A porcentagem de pessoas pobres que se envolveram com o mundo do crime, nas suas mais diferentes inserções, é muito pequena. Um estudo feito no Rio de Janeiro estima que apenas 1% da população dos bairros populares, das favelas, ligada ao mundo do crime. Não dá para você estabelecer uma relação direta entre pobreza e violência, a evidência empírica mostra: as cidades mais pobres do país não são as mais violentas.
A violência, de fato, é um fenômeno das metrópoles. Claro, você tem hoje cidades médias, com população de 500 mil habitantes e taxas crescentes de violência. Uma das razões é porque a riqueza está se deslocando dos grandes centros para o interior do país. E minha hipótese é que a criminalidade, sobretudo de perfil organizado, segue a rota da riqueza, não a rota da pobreza. Agora, o que nós podemos verificar é que existe uma co-relação estatística entre más condições de infra-estrutura urbana, população pobre e vítimas preferenciais da violência. O que eu prefiro dizer é mais ou menos o seguinte: a pobreza e a desigualdade não explicam o crime, o crime está disseminado por toda a sociedade. Mas elas explicam, provavelmente, a maior incidência da criminalização e da punição sobre os mais pobres.
Em outubro deste ano, o jornal Folha de S.Paulo publicou um artigo do apresentador da TV Globo Luciano Huck, que acabara de ter o relógio roubado. O texto gerou várias reações contrárias, inclusive do escritor Ferréz, que também fez um artigo para o mesmo jornal criticando o apresentador. Como você analisa essa discussão?
Para dizer a verdade, achei os dois artigos ruins. Porque ambos contribuem para estigmatizar e tornar preconceituosos os protagonistas desses acontecimentos. Acho legítimo que ele [Luciano Huck] manifeste a sua indignação. Agora, aquela idéia de dizer: "Eu pago imposto, contribuo para a sociedade, dirijo uma organização social e estou fazendo a minha parte", na verdade, não é suficiente.
Além disso, em um certo sentido ele justificou que a única forma de resolver [a violência] seria com essa polícia violenta e exterminadora. É uma mensagem ambígua. E achei o artigo do Ferréz péssimo pelo seguinte: ele pode ter falado muitas verdades no que escreveu, mas ele estigmatizou. Porque, na verdade, deu a entender que todo jovem morador da periferia é um potencial criminoso. E isso não é verdade, nós sabemos que não é assim. A idéia do Ferréz é que, na realidade, todos os pobres são vítimas e, portanto, cabe à sociedade compreender e entender que isso é assim mesmo. Não acho isso uma boa. Acho que, nos dois artigos, eles não conseguiram chegar a uma solução, apontar caminhos nem saídas. E, quando você polariza essas coisas, a tendência é exacerbar cenários e criar figuras do bem e do mal.
Diante da falência do Estado em combater o tráfico de drogas, e a violência gerada por isso, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, levantou a questão da descriminalização das drogas no Brasil. Como você vê isso?
Acho importante colocar o assunto em debate. Temos de discutir isso sem preconceitos morais. É um pouco como a questão do aborto. Se você continuar discutindo o aborto da perspectiva puramente moral, não vamos andar muito. Temos de ver, sim, aspectos éticos da condução dos atores que vão implementar políticas, mas a gente tem de ter uma discussão menos apaixonada. E se a sociedade estiver convencida disso, como vamos, politicamente, administrar esse processo? Como vamos conversar com os parceiros? Como vamos implementar essas políticas? Não é um processo político simples, é muito complexo. Simplesmente dizer que sou a favor ou contra pode ser uma atitude, pode ser uma postura, mas tem implicações. E essas implicações precisam ser muito bem discutidas, publicamente discutidas.

E quais seriam os prós e os contras da descriminalização?
Acho essa questão da descriminalização bastante complicada. Por um lado, existe um argumento que a gente não pode deixar de lado: o fato de as drogas serem proibidas causa essa enorme disputa, que de alguma maneira também influencia a incapacidade do Estado. Quer dizer, o Estado tem de combater as drogas e também a corrupção de uma parte de seus agentes, muitas vezes envolvidos nos negócios do tráfico, do crime organizado. A proibição, a ilegalidade das drogas tem esse efeito. Muitas pessoas evocam o problema da proibição do álcool nos Estados Unidos, e a quantidade de problemas que causou. Por outro lado, a gente também precisa ter muita clareza em relação ao impacto que a liberação das drogas terá em uma sociedade como a nossa. Pode ser que a gente tenha uma violenta pressão para um consumo abusivo, exagerado das drogas.
A pergunta é: quem serão as vítimas preferenciais disso? Nosso sistema de saúde está preparado para atender essas vítimas? Nós temos de ter muita clareza disso. Um jovem de classe média poderá parar em uma clínica particular, ser tratado, desintoxicado, e sei lá o que vai acontecer depois. Já um jovem da periferia será atendido nos ambulatórios dos serviços públicos de saúde. Segundo ponto, não se pode fazer uma política de descriminalização unilateral. Se o Brasil descriminaliza e os outros países da América Latina não, aqui vira o paraíso.
Em um de seus textos, você se refere à questão do racismo dentro da Justiça. Gostaria que você falasse sobre essa pesquisa.
É uma pesquisa que fiz no início dos anos 90, na qual analisei a distribuição de sentenças judiciais condenatórias para réus brancos e negros que haviam cometido o mesmo crime. O crime, no caso, era roubo qualificado. Verifiquei que, comparando crimes rigorosamente idênticos cometidos por brancos e negros, era maior a porcentagem de réus negros condenados em relação aos réus brancos. Eram 68% de réus negros condenados e 59% de réus brancos. É claro que isso pode representar várias coisas. Pode ser que a Justiça esteja sendo justa com os negros e mais flexível com os brancos. Ou, ao contrário, os brancos podem estar sendo julgados de acordo com as leis, e os negros com maior rigor punitivo. Não dá para responder isso. De qualquer maneira, não posso dizer que é porque o Judiciário seja racista, pois não fiz a pesquisa com os agentes. Tenho os dados do processo, que me permitem comparar uma coisa com outra. Mas ficou claro para mim que, por exemplo, réus brancos e negros não tinham uma situação econômica muito diferente. Os réus brancos eram um pouquinho menos pobres, vamos dizer assim, do que os negros. Mas a diferença era pouco significativa. Não querdizer que os brancos eram ricos e os negros eram pobres. Enfim, percebi que o vínculo dos negros com o mundo das leis e da proteção das leis era mais tênue do que o dos brancos.

Os brancos eram mais esclarecidos?
Os brancos se apoiavam proporcionalmente mais em advogados particulares do que os negros. É claro que você poderia dizer: "É porque o serviço de advogados particulares é melhor". Não necessariamente. Eu não posso fazer um julgamento de valor a respeito da qualidade dos serviços.
Mas, por exemplo, percebi que aparentemente os brancos tinham sempre alguma referência no mundo da legalidade. Ou seja, conheciam um advogado, sabiam quem eram as testemunhas. Eles mobilizavam os recursos legais com maior sucesso do que os negros. Isso me mostrava mais ou menos o seguinte: alguns têm mais acesso ao mundo das leis e da proteção das instituições legais do que outros. Isso me pareceu ser a grande diferença entre os dois. O problema é a falta de acesso aos direitos, às instituições. Brancos e negros têm acesso diferenciado às instituições de proteção legal. É basicamente isso que verifiquei. Conduzi esse estudo com muito cuidado, com muito rigor estatístico e de coleta de dados, mas ainda precisaria fazer muitos estudos para poder confirmar essas hipóteses. •

Revista E - SESC/SP

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Entrevista com Oded Grajew - Revista E do SESC

O empresário, diretor do Instituto Ethos, fala do poder da sociedade organizada e da importância da participação popular

Fotos: Adriana Vichi

O empresário Oded Grajew, nascido em 1944, em Tel-Aviv, Israel – na época ainda Palestina –, chegou ao Brasil aos 12 anos e, aos 15, com a morte do pai, assumiu as responsabilidades de chefe da família. A vida privada atribulada, porém, não o impediu de investir tempo e dedicação nos estudos. Formou-se em engenharia elétrica pela Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduou-se em administração na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Em 1972, criou a Grow Jogos e Brinquedos. No entanto, uma vez empresário, Grajew vislumbrou o futuro e não se viu no mundo dos negócios, em que o interesse é puramente o lucro financeiro. Em 1986, assumiu a presidência da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq) e, em 1990, criou a Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente. A partir de então, o entrevistado deste mês não parou mais de desempenhar o papel do que ele mesmo chama de “empresário social”, ajudando a jogar luz sobre o, hoje, muito comentado terceiro setor. Em 1998, participou da fundação do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, do qual é o atual diretor-presidente, e, em 2001, idealizou o Fórum Social Mundial. Foi também um dos criadores do Movimento Nossa São Paulo, no ano passado, cujo objetivo é mobilizar empresas, sociedade e governos em torno da elaboração de um conjunto de metas que possam reverter o grave quadro de “saúde” no qual se encontra a capital. “São Paulo enfartou”, afirma categórico. “Então, é o momento de olhar e dizer: ‘Vamos cuidar da cidade’”. Na entrevista que concedeu à Revista E, Grajew falou sobre o Nossa São Paulo, comentou a mudança da lei orgânica municipal – que passa a comprometer o prefeito em exercício com metas preestabelecidas para a gestão da cidade – e explicou a importância do desenvolvimento sustentável. A seguir, trechos:

Em breve teremos eleição para prefeito e vereadores. No caso de São Paulo, você acredita que os problemas cruciais dessa cidade problemática serão discutidos?
Acho que sim, e por vários motivos: são problemas que afetam a todos, e os candidatos sempre têm interesse em discutir os problemas cruciais que afetam mais a população. Outra coisa é a qualidade da discussão. Agora, um desses assuntos importantes, e que foi pouco discutido nas outras eleições, mas que vai ser abordado desta vez, é a questão da desigualdade.

Da desigualdade social? Por que você acha que será desta vez?
A cidade sempre está mostrando a desigualdade. Um dos aspectos dela, por exemplo, é a questão da mobilidade. Trata-se de uma das causas da desigualdade. As pessoas não têm trabalho, lazer, cultura onde elas moram, por isso têm que se deslocar muito pela cidade para ter acesso a tudo isso. Outro ponto são os indicadores, ou seja, olhar a cidade com base em sua realidade concreta e não subjetiva, fazer um diagnóstico mais técnico: como está a evasão escolar, a mortalidade infantil e assim por diante. A mudança da lei orgânica do município é uma coisa muito importante. Um exemplo é a Colômbia. A mudança da lei orgânica em Bogotá [capital da Colômbia] foi superimportante. Com essa mudança, o programa de metas do próximo prefeito [de São Paulo] primeiro terá que ser baseado em indicadores – inclusive quantitativos –, depois terão que ser traçadas metas para cada área temática da cidade (saúde, educação, transporte, mobilidade etc.) e para cada subprefeitura em cada um dos 96 distritos. Isso tudo significa que você vai ter que escancarar a cidade mostrando e combatendo a desigualdade. A gestão terá que ser compatível com o programa eleitoral. Ou seja, esse processo eleitoral vai ser diferente. O que a gente espera é que a sociedade e os partidos políticos se preparem para apresentar programas. Mas não programas subjetivos, superficiais ou pontuais, mas programas completos, com metas, objetivos e indicadores, programas que sejam a preparação para o próprio plano de governo.

“Não adianta xingar o prefeito se você não paga imposto, se joga lixo no chão, se limpa a calçada com água, se ultrapassa sinal vermelho, pára na faixa de pedestre”

Você mencionou a sociedade. Vamos falar então do Movimento Nossa São Paulo, lançado em 2007 e que tem como objetivo justamente comprometer a população, além dos governos, claro, com as agendas e conjuntos de metas a serem cumpridos.
Esse movimento é um fato novo na cidade. Hoje ele reúne quase 500 organizações.

Mas você acredita que a cidade está caminhando para um estágio político em que essas articulações, como o Nossa São Paulo, façam com que a cidade consiga uma democracia participativa de fato? Esses mecanismos estão sendo criados?
Estão. São Paulo tem muitas entidades fazendo muitas coisas boas, tanto da parte das empresas quanto da sociedade. O que ocorre é que muitas vezes são ações divididas, fracionadas e que dificilmente se encontram, mas que, quando se juntam, fazem muita coisa acontecer. E, justamente, o Movimento Nossa São Paulo é uma rede. Não é uma ONG [organização-não governamental], não tem presidente e não tem diretoria. Trata-se de uma campanha e não algo esporádico que acaba na eleição. O Nossa São Paulo veio para ficar.

Foi ele que fez aprovar essa mudança na lei orgânica, coisa que todos achavam que nunca iria acontecer. Além disso, o movimento gerou outros, como em Ilhabela [município do litoral do Estado de São Paulo], onde a mesma lei foi aprovada, e graças à mobilização da sociedade. Sabe aquele cara que tem um enfarte e resolve cuidar da saúde? Porque o enfarte é resultado de um monte de coisas: alimentação ruim, vida sedentária, estresse, colesterol. Ou seja, é o sintoma de uma doença. Aí o sujeito tem uma chance e resolve cuidar da vida, fazer exercício etc. Essa é a esperança para São Paulo. São Paulo enfartou. Então é o momento de olhar e dizer também: “Vamos cuidar da cidade”. Tem gente que faz preventivamente, tem gente que age depois do enfarte. Geralmente, a coisa acontece depois da desgraça. Mas há aspectos positivos. Primeiro que São Paulo enfartou, mas não morreu, então tem uma chance de se cuidar. Depois porque hoje, no Brasil, São Paulo tem uma sociedade sempre atuante e ela também está cada vez mais se conectando e ganhando força conjunta, o que é uma coisa importante.

Você citou o exemplo de Bogotá, e o Movimento Nossa São Paulo buscou inspiração em algo parecido com o que aconteceu lá. Como São Paulo pode “aprender” com Bogotá?
Na realidade, o Movimento Nossa São Paulo nasceu antes de conhecermos o que aconteceu em Bogotá. Só que, por coincidência, são caminhos muito parecidos. Na verdade não foi uma inspiração, foi mais fazer o mesmo caminho. Bogotá nos inspirou nessa lei aprovada, e que lá foi fundamental. Lá inclusive é uma lei federal, que vale para todas as cidades.

Essa mudança seria a chance de a periferia ser finalmente assistida pelas administrações, não? Uma vez que na maioria dos casos as ações acabam privilegiando uma parcela muito específica da população.
O que acontece não só na administração pública, mas também nas empresas, organizações sociais etc., é que quando há um sistema de avaliação, aquele que dirige se preocupa em mostrar resultados. Se não houver nenhuma avaliação, o que vale é a “pirotecnia”, as obras faraônicas – e, quanto mais faraônico, melhor, mais aparece. Ou seja, quando você sabe que vai ser avaliado pelos resultados concretos, pelos indicadores e pela redução de desigualdade, a expectativa é de que você se preocupe com esses elementos. Em várias cidades do mundo, ou em várias organizações sociais, empresas etc., as pessoas se preocupam em cumprir as regras estabelecidas naquilo pelo qual elas vão ser avaliadas. O Movimento [Nossa São Paulo] publica os indicadores a cada ano para toda a sociedade, e não só isso: também faz uma pesquisa de percepção, que nós encomendamos ao Ibope todo ano. Um estudo de como a população sente os diversos serviços da prefeitura, como avalia a Câmara. São mais de duzentas perguntas, está tudo em nosso site. Então ele [o administrador] sabe que vai ser avaliado por isso, pela qualidade de ensino, pela qualidade no atendimento na saúde, pelo tempo de espera de atendimento. São mais de duzentos itens avaliados que receberão nota dada pela população. Em Bogotá, por exemplo, como o prefeito sabe que vai ser avaliado pelo resultado da gestão, ele procura colocar as melhores pessoas na execução das ações. Algumas vezes esses executores, secretários, por exemplo, permanecem no cargo mesmo com a mudança de gestão, porque é sabido que aquela pessoa está conseguindo resultados. Logo, não acontece de colocar um amigo, um parente, um colega de partido ou de partido aliado só porque tem acordo político. Isso porque o governante sabe que vai se enterrar politicamente se não cumprir o programa.

 “É como dizia Gandhi [Mahatma Gandhi, 1869-1948, um dos idealizadores e fundadores do moderno estado indiano e influente defensor do satyagraha, princípio da não-agressão e forma não-violenta de protesto]: ‘nós temos que ser o mundo que nós queremos ter. Se quer que o mundo seja ético, você tem que ser’”

A tradição política brasileira é a de que, quando um partido rival assume, não continua a obra do partido antecessor. Com isso, bons programas são abandonados. Você acha que estamos começando a criar mecanismos por meio dos quais a população possa exigir a continuidade desses bons programas?
O que a gente espera é que o candidato, sabendo que depois de eleito será cobrado, não faça o que, além de prejudicar a população, vai prejudicar também sua carreira política.

Quase sempre quando chegam as eleições municipais, a grande pergunta é: em quem eu vou votar para vereador? Verifica-se que grande parte da sociedade abandonou a militância partidária. Com isso, a representação na Câmara não reflete a criatividade e a complexidade econômica que São Paulo alcançou. Como a gente consegue resolver uma questão dessas?
Isso é verdade. A nota mais baixa que a população dá para as instituições em São Paulo é para a Câmara de Vereadores. Tenho ido a vários lugares, universidades, escolas, e, quando pergunto se ali tem algum candidato a vereador, as pessoas começam a rir, como se eu tivesse falado uma piada, o que é péssimo. Bom seria se as pessoas se interessassem pela política, participassem da vida partidária, se candidatassem. Porque alguém vai se candidatar, então não adianta dizer que a política é suja. Alguém vai lá e vai atuar e ter um nome. Um dos objetivos do Movimento Nossa São Paulo é revalorizar a atividade política, que é uma atividade destinada a ser nobre, o servidor público servindo a comunidade. Com isso, o que se quer é mudar as regras atuais do jogo político, fazer com que essas regras sejam voltadas à participação da sociedade, ao estabelecimento de metas baseadas em indicadores. A idéia é jogar luz sobre a política para que essa luz possa iluminar positivamente aqueles bons [políticos]. O que estou sentindo já nessa eleição – estou até falando com o pessoal de vários partidos políticos –  é o interesse crescente de participação de gente que nem era ligada a política, a partidos políticos, e quer se candidatar, quer participar, valorizar esse momento em São Paulo.

Você parece otimista com essa questão. Sem querer ser pessimista, mas por que você acredita que agora vai ser diferente se sempre houve mecanismos de avaliação para os parlamentares, por exemplo, para saber se eles comparecem às sessões etc.? 
Essa avaliação de resultados vai extrapolar o âmbito da administração pública, a parte executiva, e vai para a Câmara de Vereadores. Isso vai ser feito a partir da próxima gestão. Estou otimista não porque acho que veremos resultados maravilhosos tão cedo. É um processo longo. Mudanças desse calibre levam tempo e são paulatinas. Estou otimista porque surgiu um processo diferente nesse sentido. Tem uma perspectiva. São Paulo gera exemplaridade para o Brasil, tem maior visibilidade, tudo o que acontece aqui de bom e de ruim gera referência. Então, a partir daqui, já há vários movimentos, em várias cidades, se constituindo. Há no Rio de Janeiro, em Ilhabela, em Teresópolis, em São Luís, em Belém, e agora há interessados em outras cidades, como Campinas, Maringá, Belo Horizonte e Salvador. Se isso não acontecer, se a sociedade não se mexer, pode abrir mão de qualquer futuro melhor, porque hoje a maioria dos políticos é de eleitos e exercem mandatos a serviço dos seus financiadores de campanha. Não todos, a maioria. O que vale na democracia é a maioria, não é? Então não se prestam contas para a população, especialmente a mais pobre, que não financia campanhas. Quem financia quer retorno. O dado mais preocupante é que cerca de 80% das campanhas políticas são feitas com dinheiro vindo de atividades ilegais. Isso significa que uma boa parte dos políticos está a serviço de atividades ilegais. É enorme o risco de o crime organizado tomar conta do Estado brasileiro. É só ver como o desmatamento na Amazônia aumenta em época de eleições. Ninguém quer mexer com os financiadores de campanhas, os madeireiros, as atividades de ocupação ilegal. Na véspera de eleição você não mexe com diversas atividades ilegais porque são financiadoras de campanha.

Os índices de congestionamento no trânsito de São Paulo têm batido recordes a cada semana. Como reverter essa equação?
Só para ter uma idéia, em São Paulo estima-se que cerca de 25% da frota de veículos seja ilegal – o que equivale a mais ou menos 1 milhão e meio de carros ilegais. Não pagam impostos, são clandestinos, não pagam IPVA, são poluidores, têm segurança baixa e por aí vai. É difícil também mexer com isso em véspera de eleição. E não me refiro a um ou outro candidato, todos querem ganhar as eleições. Só a sociedade civil revela essas coisas. De novo, a questão da mobilidade não é a doença, é o sintoma. É a analogia que eu fiz com o enfarte: entupiu a veia, agora é cuidar da doença. Quando você tem ciência da doença já é um bom passo. No ano passado, o Movimento Nossa São Paulo promoveu o Dia Mundial Sem Carro [em São Paulo], que é um dia para discutir todos esses assuntos. A situação era ruim, mas não tão ruim como é hoje. A gente tinha avisado que 800 novos carros entram, por dia, em São Paulo – o que torna absolutamente previsível o que está acontecendo agora.
E se você não tem consciência disso, de que a cidade vai parar, você não faz nada. Deixa rolar, compra mais carro, faz propaganda de carro. Eu acho que hoje a consciência da “doença”, de que estamos indo para um colapso, é bem maior.

“Ainda tem gente que só fala de crescimento (…), ?mas o que mais se necessita é de sustentabilidade. (…), que faz com que a vida do amanhã seja melhor do que a de hoje”

Você acha que hoje existe mais corrupção ou são os escândalos que aparecem mais do que antes?
Eu acho que aparecem mais, não sei se aumentaram ou não. Eu acho que seria muita especulação afirmar algo nesse sentido. A democracia tende a diminuir a corrupção porque você tem mais informações, liberdade de imprensa, as coisas aparecem. Mas o problema da corrupção diz respeito à sociedade como um todo, porque existe o corrupto e o corruptor. Na realidade, o que alimenta muito a corrupção é a impunidade. Mas de novo dá para falar em um lado bom porque hoje todo mundo está sabendo que existe esse problema, que é uma questão grave, as pessoas percebem isso. Há movimentos de combate à corrupção, há movimentos de maior transparência da administração pública. À rede Nossa São Paulo incorporou-se uma outra, chamada Amarribo, que é uma rede que nasceu em Ribeirão Bonito e que hoje engloba 140 cidades.

Como funciona essa rede?
Começou com os amigos de Ribeirão Bonito e é uma rede de organizações sociais que olham contas públicas. Já cassaram um monte de prefeitos e vereadores olhando essas contas. Ou seja, a sociedade está se organizando para combater a corrupção. O Brasil tem uma carga tributária equivalente à de primeiro mundo, mas um serviço de quinta categoria. Isso por incompetência – não há objetivos, não há indicadores – e por corrupção. O Estado brasileiro – os governos municipais, estaduais e federal – é capaz de dar condições de vida iguais às de primeiro mundo. Não dá por causa da corrupção e da incompetência – casada com a falta de gestão e falta do acompanhamento da sociedade, avaliando objetivos, indicadores.

Temos uma questão econômica hoje em São Paulo. Muito da situação da cidade é resultado de melhorias como o final da inflação e o crescimento do país. Tanto que falávamos da quantidade de carros novos em circulação. Ou seja, o trânsito piora porque as pessoas têm dinheiro para comprar veículos. Como resolver isso?
Mas é por isso que se fala hoje em desenvolvimento sustentável. Ainda tem gente que só fala de crescimento, crescimento, crescimento, mas o que mais se necessita é de sustentabilidade. E o que significa sustentável? É um desenvolvimento que, justamente, se sustenta ao longo do tempo, que faz com que a vida do amanhã seja melhor do que a de hoje. Enquanto São Paulo se desenvolvia, sempre houve alguns “malucos” que diziam: “Atenção, estão matando nossos grandes rios, Tietê e Pinheiros”. Mas ninguém dava bola. Eram criticados inclusive – imagine, são contra o crescimento. Mas pense se São Paulo tivesse dado ouvidos a esses “loucos” que falavam de desenvolvimento sustentável, que os rios tinham que continuar limpos. As pessoas iam poder chegar no final da tarde de um dia bonito e mergulhar, ou nadar de manhã, pescar, ia ter transporte fluvial. Seria outra qualidade de vida. A vida piorou com esse desenvolvimento. Carros, claro, geram emprego etc., só que, no caso de São Paulo, das grandes cidades no geral, chega uma hora que ela entope.

E houve uma mudança de mentalidade?
Descobriu-se que o mundo tem limites, que o planeta tem limites, que as cidades têm limites e que não se pode fazer as coisas sem atentar para esses limites. É preciso se desenvolver de outra forma. Por isso, se fala em desenvolvimento sustentável, um desenvolvimento que faça com que a vida não piore amanhã.

Quais seriam os maiores problemas de São Paulo hoje em sua opinião?
Primeiro, o problema de processo. São Paulo é o processo político. Então primeiro vem a questão – que não é exclusividade de São Paulo – de financiamento de campanhas, o que faz com que uma boa parte dos políticos não fique a serviço da população, mas dos seus investidores. Segundo, a falta de uma gestão técnica, uma gestão eficiente, baseada em indicadores, em metas, em objetivos, avaliações, informações, e voltada para o resultado. Outro problema é a descrença da população na política, na participação política, na sistemática de cobrança de participação das políticas públicas. Há também a desigualdade, como eu já falei. E outro problema é a questão da consciência cidadã. Cada indivíduo tem que se sentir, primeiramente, um cidadão no seu dia-a-dia. Não adianta xingar o prefeito se você não paga imposto, se joga lixo no chão, se limpa a calçada com água, se ultrapassa sinal vermelho, pára na faixa de pedestre. É uma questão de cada um assumir a sua responsabilidade na cidade em vez de sempre apontar o dedo para os outros. É como dizia Gandhi [Mahatma Gandhi, 1869-1948, um dos idealizadores e fundadores do moderno estado indiano e influente defensor do satyagraha, princípio da não-agressão e forma não-violenta de protesto]: “nós temos que ser o mundo que nós queremos ter. Se quer que o mundo seja ético, você tem que ser”.

Revista E - SESC SP

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Portugal reluta contra leilão de cartas de Fernando Pessoa

Michael Kimmelman
Em Lisboa, Portugal

A disputa mais recente por causa de um patrimônio cultural está acontecendo aqui em Portugal - e não se tratam de vasos roubados ou relíquias preciosas de guerra, mas sim da correspondência de um poeta. As cartas, quase sempre, são janelas capazes de revelar mais sobre a vida de uma figura nacional. Os herdeiros mais velhos do consagrado escritor português Fernando Pessoa planejam leiloar neste outono a correspondência do poeta com Aleister Crowley, o místico, montanhista, escritor e praticante de magia negra inglês do início do século 20. O ministro da Cultura de Portugal está entre os que mais se mostraram preocupados recentemente com a idéia de que as cartas deixem o país.

Os herdeiros já venderam vários cadernos de Pessoa, que a Biblioteca Nacional de Portugal comprou no ano passado. Uma vez que a maior parte do trabalho de Pessoa ainda não foi publicada, os estudiosos temem que dispersar os papéis (ele deixou cerca de 30 mil escritos em baús em sua casa) torne mais difícil a tarefa de decifrar o que restou de um dos legados mais volumosos e intrincados deixados pelos grandes escritores modernos.

Pessoa e Crowley começaram a se corresponder em 1930. Pessoa era o tímido, provavelmente celibatário, e na época praticamente desconhecido poeta português que viveu através de vários pseudônimos literários. Crowley era uma figura espetacular e impressionante. Seu biógrafo recente sentiu-se obrigado a dizer que Crowley “não fazia - repito, não fazia - nem defendia os sacrifícios humanos”. Pessoa, que assim como Crowley era astrólogo, escreveu a princípio para corrigir alguns erros que ele havia encontrado nos cálculos de Crowley. Este respondeu, amavelmente, em cartas para Pessoa em que assinava “666″.

Recentemente, durante um fórum de debates realizado na última residência de Pessoa, onde hoje funciona o centro cultural Casa de Fernando Pessoa, administrado pela prefeitura, o ministro da Cultura de Portugal, José Antonio Pinto Ribeiro, educadamente deixou claro que o Estado tem o poder de guardar tudo aquilo que decidir que é patrimônio nacional no país. Manuela Nogueira, sobrinha de Pessoa, respondeu que um contrato já havia sido assinado com a casa de leilões, mas disse que não havia motivo para preocupação, porque, independentemente de onde irão parar os originais, todos os escritos foram fotografados para que as cópias fiquem disponíveis para estudiosos.

O nacionalismo está em alta na Europa. A maior parte dos papéis de Pessoa pertence à Biblioteca Nacional; o restante, cerca de 2.700, a seus herdeiros. Nesse caso, os originais contêm todo tipo de anotações e outros detalhes que podem ser perdidos até mesmo com boas fotocópias. A maioria dos portugueses, na verdade, não se preocupa muito com o destino dos escritos de Pessoa, mas ele ainda é um dos mais notáveis tesouros do país.

Eduardo Lourenço talvez seja o crítico literário mais renomado de Portugal. Segundo ele, Pessoa é “uma exceção, um grande escritor”. “Mas ele tinha um jeito de ser que era distintamente português”. E fez uma pausa para encontrar as palavras certas. “Tem a ver com tudo e com nada - com o fato de que nós, portugueses, podemos ter tudo, mas mesmo assim sentimos que não temos nada.”

Portugal, explicou ele, descobriu metade do mundo no século 16, mas ainda se sente fracassado por não ter descoberto o resto. A atitude mental do país, disse Lourenço, é “uma combinação de megalomania e humildade.”

“Além disso, Pessoa era um solitário”, continuou, “um dos grandes poetas capazes de expressar a solidão absoluta - alguns de seus poemas são tão tristes que são difíceis de ler, o que é muito português. Basta ouvir um fado.” Referindo-se à música típica portuguesa que representa a “saudade”, palavra quase impossível de ser traduzida para o inglês e que significa não só a falta de casa, mas de algo mais, de alguma coisa como o paraíso perdido, sugere o crítico.

Pessoa, é claro, representava muito mais do que isso. Criado na África do Sul e trilíngüe, escreveu em inglês e francês, assim como em português. Ele personificava a reserva de um cavalheiro inglês, ao mesmo tempo em que inventava heterônimos ou imaginava personagens através dos quais fazia a si mesmo desaparecer.

Seu trabalho em prosa mais famoso, “O Livro do Desassossego”, foi escrito sob o pseudônimo de Bernardo Soares. Foi reunido postumamente por estudiosos que varreram as milhares de páginas avulsas de fragmentos literários do escritor. (Dizem que Pessoa, que morreu de cirrose em 1935, aos 47 anos, interpretou os astros erroneamente, acreditando que ainda tinha dois anos de vida, durante os quais ele planejava organizar seus papéis - mesmo que, em certo sentido, seus escritos jamais pudessem ser reduzidos a uma única ordem. Assim, sua obra permaneceu aberta e para sempre impalpável, como uma sala de espelhos, e, portanto, essencialmente moderna.)

Pessoa também escreveu sob os heterônimos de Alexander Search, um engenheiro escocês, Alberto Caeiro (personagem inventado ao qual Pessoa se referia como “meu mestre”), Ricardo Reis e Álvaro de Campos, um engenheiro naval aposentado, bissexual e melancólico, viciado em drogas.

“O que aconteceu, você quer saber?” - escreveu Pessoa em 1920 para a mulher que foi sua única namorada, explicando por que estava terminando com ela. “Fui trocado por Álvaro de Campos.”

Como Álvaro de Campos, ele também escreveu: “Fernando Pessoa, na verdade, não existe.” Em “A História do Cerco de Lisboa”, o escritor contemporâneo e ganhador do prêmio Nobel José Saramago imagina um revisor chamado Raimundo Silva, um homem não muito diferente de Pessoa que, ao colocar um simples “não” em um livro, muda a história de Portugal.

“Raimundo Silva”, escreve Saramago, “pensou consigo mesmo, se eu fumasse, assim como Fernando Pessoa, deveria agora acender um cigarro, olhando o rio, pensando em como tudo é vago e incerto, mas, como não fumo, eu deveria simplesmente pensar que tudo é mesmo vago e incerto, sem um cigarro, e mesmo o cigarro, se eu fumasse, expressaria por si só o que há de vago e incerto nas coisas, assim como a própria fumaça, se eu fumasse.”

Pessoa, não por coincidência, cultivava o hábito de fumar 80 cigarros por dia.

Jeronimo Pizarro é o jovem estudioso de Pessoa a quem os herd