Arquivo de 22 de Julho de 2008

Imigrantes e a Reação à ‘Diretiva da Vergonha’

Por Emir Sader.

Nota: Um relato vivo da deriva fascista do capitalismo europeu, vivemos de crise não há dúvida. E cada vez mais vem mais à tona o dilema: Socialismo ou Barbarie.

30/06/2008

Um cartaz em uma manifestação de imigrantes equatorianos – eles são mais de 700 mil, chegados depois da dolarização da moeda do país -, lutando pela sua legalização, dizia: “Estamos aqui, porque vocês estiveram lá”. Afirmação sintética sobre a relação entre colonizadores e colonizados, entre globalizadores e globalizados.

A chamada Diretiva da vergonha — assim caracterizada pela carta de Evo Morales pedindo aos governos europeus para não aprová-la — reflete uma virada geral para a direita no continente, de tal forma que, ao mesmo tempo que foi aprovada a duríssima legislação sobre os imigrantes, a duração da jornada de trabalho foi aumentada para além das 48 horas semanais, incluídas as horas extras. Agora a jornada deve ser negociada diretamente entre patrões e trabalhadores, podendo chegar até a 78 horas — mais do que o dobro das 35 horas aprovadas há duas décadas na França.

Em algumas regiões a polícia tem o poder de deter a qualquer pessoa por 42 dias sem acusações. Alguns serviços secretos estão autorizados a violar, sem autorização judicial, os correios eletrônicos. Os imigrantes sem documentos podem ser detidos por até 18 meses. As crianças podem ser enviadas a países distintos de sua origem.

A Inglaterra aumenta de 28 a 42 dias a detenção sem acusações a suspeitos de terrorismo. A França autoriza o interrogatório de suspeitos durante 6 dias sem a intervenção de advogados e as normas que controlam os aeroportos se tornaram secretas.

A Espanha, mesmo sendo o país que regularizou a situação de centenas de milhares de estrangeiros, apresenta, no entanto, o caso mais evidente de discriminação.

Por um lado, tolera os latino-americanos — brancos, de fala espanhola, religiões ocidentais —, a ponto de tê-los recrutado para fazer a guerra no Iraque e no Afeganistão, com uniformes espanhóis. Mas rejeita os africanos, que chegam diariamente a suas fronteiras, especialmente desde o Marrocos, o Senegal e a Mauritânia. Somente neste ano 12.260 chegaram e foram rechaçados.

Os que foram legalizados, o foram quando a economia espanhola crescia, a população espanhola diminuía e ninguém queria fazer trabalhos desqualificados. Mas agora que chega a recessão, fecham-se as portas para os imigrantes.

A mensagem européia é clara — diz um colunista espanhol: “imigrantes, não, muito obrigado; petróleo, passe, por favor” . Em outras palavras, livre comércio, mas numa sociedade que considera aos seres humanos mercadorias, estes — ou estas — são excluídos(as) da lei geral. As mercadorias podem e devem circular livremente, os seres humanos, não.

Os seres humanos — neste caso, imigrantes — estão acompanhados das idéias. O norte globalizador envia sistematicamente suas interpretações do mundo — via grande mídia, via internet, via cinema, editoras, etc. – para o sul globalizado, que não tem como difundir suas visões do mundo, visto desde a periferia.

Não é necessário recordar que sempre aceitamos aos imigrantes europeus, sem nenhuma política de cotas. Mas as reações são imediatas. Uma vez García Marquez anunciou que não permitiria mais a venda dos seus livros na Espanha, se passasse a ser solicitado visto para os colombianos. Agora Hugo Chávez anuncia que deixará de vender petróleo aos países que aplicarem a Diretiva da vergonha.

O Mercosul condenou expressamente a medida. Imigrantes sem papéis invadiram centros que deveriam atendê-los em Paris. Marroquinos se aproveitaram que todos os espanhóis estavam assistindo à cobrança de pênaltis, em que a seleção do seu país derrotou a italiana, para saltar os muros da fronteira em grande quantidade.

A fronteira entre direita e esquerda nunca é tão clara quanto no que se refere à política com os imigrantes. Porque eles estiveram aqui, há tantos dentre nós por lá.

Comentários

‘’Continuamos Lutando para Cumprir com os Planos Aprovados'’

Por Alfonso Cano.

ABP

Camaradas do Estado Maior Central, dos Estados Maiores dos Blocos e Frentes, dos Comandos Conjuntos, comandos das redes urbanas, colunas, companhias, guerrilhas, esquadras e comissões, guerrilheiras e guerrilheiros, comandos e milicianos bolivarianos, militantes do Partido Comunista Clandestino e integrantes do Movimento Bolivariano: recebam nossa revolucionária saudação que estendemos a todos que trabalham juntamente conosco por uma Nova Colômbia.

Durante a última semana do mês de maio recebemos mensagens de solidariedade de todas as unidades farianas, onde destacam a gigantesca dimensão política e militar do Comandante Manuel Marulanda Vélez como um dos maiores revolucionários de nossa história, e também reafirmando lealdade absoluta a seu legado, ao nosso compromisso e objetivo de transformação revolucionária e oferecendo total respaldo às decisões tomadas pela direção das FARC nesta conjuntura.

Em 27 de março, depois da morte do Camarada Manuel, acordamos que só a partir de 23 de maio informaríamos sobre isso aos comandos e guerrilheiros, aos amigos e conhecidos e, à opinião, enquanto decidíamos o necessário para garantir a continuidade dos planos em curso, como efetivamente ocorreu.

Redistribuímos funções dentro do Secretariado e o reajustamos igualmente o Estado Maior Central, fortalecemos os Estados Maiores dos Blocos, onde foi necessário, vistoriamos à situação orgânica e ao trabalho de massas, tudo isso no meio da permanente confrontação e cobertos com a indestrutível couraça do segredo das centenas de guerrilheiros cientes do falecimento de nosso comandante-em-chefe.

E assim, entre outras decisões, definimos o camarada Iván Márquez como chefe das relações internacionais do Estado Maior Central e o camarada Pablo Catatumbo como novo chefe do Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia.

Nosso rico intercâmbio de opiniões diante da atual situação ratificou o sagrado compromisso revolucionário das FARC-EP, com sua direção à cabeça, de manter firme e hasteadas as bandeiras da Nova Colômbia, a pátria grande bolivariana e do socialismo; reafirmou a vigência de todos nossos planos político militares e de nossa condição de combatentes da paz democrática, isto é, da paz com justiça social, sem fome, com emprego, teto, saúde e educação para todos, com soberania nacional e vigência de uma verdadeira democracia política afastada da violência e da corrupção administrativa.

Vale recordar que as FARC nasceram há 44 anos como uma resposta popular e revolucionária ao terror institucional e para-institucional do Estado, à vergonhosa intromissão gringa em nossos assuntos internos, ao despojo das terras e sua acrescentada concentração em poucas mãos, às profundas injustiças sociais existentes e à voraz corrupção da oligarquia, realidades todas que hoje perduram multiplicadas para a desgraça de nosso povo.

Como revolucionários queremos e lutamos pela reconciliação da família colombiana e pela construção de um novo tecido social justo, mas a oligarquia, essa mistura maldita de privilegiadas fortunas, imensas fazendas, berços de ouro e poder político, não quis nem quer compartilhar um ápice de seus privilégios com as maiorias do país. Por isso elude qualquer possibilidade sólida de acordos de paz.

Camaradas: insistiremos quantas vezes forem necessárias sobre nossa disposição de concretizar um acordo humanitário que fixe regras claras ao redor da população civil de obrigatório cumprimento para as duas partes e que, antes de mais nada, priorize a liberdade dos camaradas extraditados: Sonia, Simón, Iván Vargas e de todos os prisioneiros de guerra de um e outro lado.

No entanto, e não é um segredo, este governo não teve o menor interesse em concretizá-lo, simplesmente porque seria reconhecer de fato, o status beligerante de uma guerrilha revolucionária à qual quer satanizar. Por isso tanta desculpa, teorias absurdas, improvisações, montagens, falsos positivos e temerárias ordens de resgate que brincam com a vida dos prisioneiros para a satisfação dos delírios de grandeza presidenciais.

O governo pensou que as decisões unilaterais das FARC- EP, quando libertamos 6 prisioneiros a começos do presente ano, eram fraquezas e não demonstrações inegáveis da vontade que nos acompanha.

Apesar disso, nossa proposta de nos encontrar com o governo para especificar os termos de um acordo, continua válida bem como a decisão de manter a comunicação e redobrar os esforços para que a reafirmada generosidade de muitíssimos governos amigos das soluções políticas, finalmente consiga fazer o governo colombiano entender que negar o conflito existente, confundir suas dimensões e esconder sua desesperadora realidade, não soluciona, mas sim agrava e aumenta os ódios e as distâncias.

Persistiremos em nossos esforços para alcançar a paz democrática pelas vias civilizadas do diálogo tal como o fizemos há 44 anos, porque é nossa concepção revolucionária, porque assim são nossos princípios. O levantamento armado, a guerra de guerrilhas, a clandestinidade e a atividade conspirativa respondem basicamente à violência institucional que desde a morte do Libertador Simón Bolívar os poderosos exercem contra as maiorias que lutaram por liberdade, terra, trabalho, justiça, democracia e soberania.

Na busca desses objetivos nunca desmaiaremos. Nossa palavra a apoiamos com a prática diária, no crisol da luta cotidiana. Assim nos ensinaram Bolívar, Manuel, Jacobo e todos os próceres e heróis da história pátria. Comprometemos nossa honra e vida neste empenho, porque estamos seguros da justeza e da possibilidade real de materializar o sonho de uma nova Colômbia. As dificuldades não nos amedronta, as ameaças da oligarquia que escutamos toda a vida não nos intimida, não cremos nos chamados à submissão e à indignidade, nem nos Judas que aceitam as moedas de seu oponente, porque sobre essa moral nunca se construirá um país melhor, nem uma sociedade pujante, nem uma família solidária. O valor a fundamentar como pedra angular deve ser o bem comum sustentado sobre uma ética transparente.

Camaradas: os caminhos que conduzem ao incremento da luta popular em suas mais variadas formas e à conquista do poder, nunca foram fáceis, nem em nosso país nem em nenhuma outra parte do mundo, nem agora nem antes. Só a profunda convicção na vitória, na justiça, validade e vigência de nossos princípios e objetivos e um monolítico esforço coletivo, garantirão o triunfo. Aos reacionários que fazem contas alegres com as FARC lhes informamos que a intensidade da confrontação nos fortaleceu, temos estreitado vínculos com as comunidades, suas organizações e as lutas populares, elevado a disciplina e o respeito pela população civil e melhorado nossa qualificação e aprendizagem. Caíram guerrilheiros, porque assim é a luta, mas também seu generoso sangue derramado é evidência de nosso total compromisso com o povo, outros camaradas já cobriram a trincheira e muitos mais continuam chegando às filas, assim foram também a gesta de nossa independência e todos os processos libertadores da humanidade onde se desataram os demônios da guerra.
Somos uma força revolucionária com suficiente história, solidez e consistência para superar o falecimento de nosso Comandante-em-chefe, porque o mesmo nos instrumentou e contribuiu no esforço coletivo de consolidação política e militar. O Secretariado, o Estado Maior Central, os Estados Maiores dos Blocos e frentes, os comandos de todo nível, os comandos e combatentes das FARC-EP garantiremos o triunfo.

Continuamos lutando para cumprir todos com os planos aprovados, mantendo a fundo a prática da guerra de guerrilhas móveis, aumentando nossos laços com a população civil e com o movimento de massas que resiste a ofensiva do grande capital e dos latifundiários, intensificando o intercâmbio de opinião com todas as forças interessadas realmente nas saídas políticas ao conflito e em atingir um grande acordo democrático e patriótico, diante do desmoronamento de uma institucionalidade fraturada irreversivelmente pelo narco-paramilitarismo o autoritarismo totalitário e o submissão à Casa Branca.

Devemos convidar as comunidades a denunciar a agressão militar do governo, que depois da máscara da confrontação com a guerrilha, massacra civis para apresentá-los como guerrilheiros, arrasa lavouras, campos e bosques de reserva com os bombardeios, gera deslocamento possibilitando o despojo de terras e aterrorizando os que protestam através da ameaça direta, agressão e crime.

E esforçar-nos mais por informar sobre as centenas de combates diários que se livram em campos e cidades, porque o regime esconde a terrível realidade da guerra fratricida, de suas baixas e reveses, para transmitir um inexistente ambiente de controle oficial no território nacional.

Também ignorar a farsa montada sobre os supostos computadores e arquivos do Comandante Raúl Reyes, como manobra e macabra manipulação reeleicionista que procura prejudicar os que não compartilham da estratégia presidencial da chamada segurança democrática depois da que esconde o papel de “cabeça de ponte” atribuída pelo pentágono norte-americano a nosso país em seus planos de agressão militar contra os povos da América Latina buscando recuperar sua deteriorada hegemonia imperial.

A indignante decisão de levantar uma base militar norte-americana na Colômbia, as pretensões de uma segunda reeleição, o câncer da narco-parapolítica que afundaram as instituições em estado terminal e as propostas consignadas na Plataforma Bolivariana devem ser temas de encontro e unidade, que exortem os colombianos à convergência pela construção coletiva e pelo acordo de paz.

Camaradas: a espada de Bolívar permanece desembainhada e nas mãos de todos aqueles que como nós, não descansaremos até conseguir a justiça social, a democracia e a soberania, suportes verdadeiros da convivência com que sonhamos todos os colombianos.

Um forte aperto de mãos para todos.

‘’Continuamos Luchando por Cumplir con los Planes Aprobados'’

Por Alfonso Cano.

ABP

Camaradas del Estado Mayor Central, de los Estados Mayores de los Bloques y Frentes, de los Comandos Conjuntos, mandos de las redes urbanas, columnas, compañías, guerrillas, escuadras y comisiones, guerrilleras y guerrilleros, mandos y milicianos bolivarianos, militantes del Partido Comunista Clandestino e integrantes del Movimiento Bolivariano: reciban nuestro revolucionario saludo que extendemos a todos quienes trabajan junto a nosotros por una Nueva Colombia.

Durante la última semana del mes de mayo recibimos mensajes de solidaridad de todas las unidades farianas, donde destacan la gigantesca dimensión política y militar del Comandante Manuel Marulanda Vélez como uno de los más grandes revolucionarios de nuestra historia, y también reafirmando lealtad absoluta a su legado, a nuestro compromiso y objetivos de transformación revolucionaria y brindando total respaldo a las decisiones tomadas por la dirección de las FARC en esta coyuntura.

El 27 de marzo, luego del deceso del Camarada Manuel, acordamos que solo a partir del 23 de mayo informaríamos sobre ello a los mandos y guerrilleros, a los amigos y conocidos y, a la opinión, mientras decidíamos lo necesario para garantizar la continuidad de los planes en curso, como efectivamente ocurrió.

Redistribuimos funciones dentro del Secretariado y lo reajustamos al igual que al Estado Mayor Central, fortalecimos los Estados Mayores de los Bloques donde fue necesario, pasamos revista a la situación orgánica y al trabajo de masas, todo ello en medio de la permanente confrontación y cobijados con la indestructible coraza del secreto de los centenares de guerrilleros conocedores del fallecimiento de nuestro comandante en jefe.

Y así, entre otras decisiones, definimos al camarada Iván Márquez como jefe de las relaciones internacionales del Estado Mayor Central y al camarada Pablo Catatumbo como nuevo jefe del Movimiento Bolivariano por la Nueva Colombia.

Nuestro rico intercambio de opiniones frente a la actual situación ratificó el sagrado compromiso revolucionario de las FARC-EP, con su dirección a la cabeza, de mantener firme y muy en alto las banderas de la Nueva Colombia, la patria grande bolivariana y del socialismo; reafirmó la vigencia de todos nuestros planes político militares y de nuestra condición de combatientes de la paz democrática, es decir de la paz con justicia social, sin hambre, con empleo, techo, salud y educación para todos, con soberanía nacional y vigencia de una verdadera democracia política alejada de la violencia y de la corrupción administrativa.

Valga recordar que las FARC nacieron hace 44 años como una respuesta popular y revolucionaria al terror institucional y para institucional del Estado, a la vergonzosa intromisión gringa en nuestros asuntos internos, al despojo de las tierras y su acrecentada concentración en unas pocas manos, a las profundas injusticias sociales existentes y a la voraz corrupción de la oligarquía, realidades todas que hoy perduran multiplicadas para desgracia de nuestro pueblo.

Como revolucionarios queremos y luchamos la reconciliación de la familia colombiana y la construcción de un nuevo tejido social justo, pero la oligarquía, esa mezcla maldita de privilegiadas fortunas, inmensas haciendas, cunas de oro y poder político, no ha querido ni quiere compartir un ápice de sus privilegios con las mayorías del país. Por eso elude cualquier posibilidad sólida de acuerdos de paz.

Camaradas: insistiremos cuantas veces sea necesario sobre nuestra disposición de concretar un acuerdo humanitario que fije unas reglas claras alrededor de la población civil de obligatorio cumplimiento para las dos partes y que, ante todo, priorice la libertad de los camaradas extraditados Sonia, Simón, Iván Vargas y de todos los prisioneros de guerra de uno y otro lado.

Sin embargo, y no es un secreto, este gobierno no ha tenido el menor interés en concretarlo simplemente porque sería reconocer de facto, el estatus beligerante de una guerrilla revolucionaria a la que quiere satanizar. Por eso tanta disculpa, teorías absurdas, improvisaciones montajes, falsos positivos y temerarias órdenes de rescate que juegan con la vida de los prisioneros para satisfacción de los delirios de grandeza presidenciales.

Pensó el gobierno que las decisiones unilaterales de las FARC- EP cuando liberamos 6 prisioneros a comienzos del presente año, eran debilidad y no demostraciones innegables de la voluntad que nos acompaña.

A pesar de ello, nuestra propuesta de encontrarnos con el gobierno para precisar los términos de un acuerdo, continúa vigente así como la decisión de mantener comunicación y redoblar esfuerzos para que la reiterada generosidad de muchísimos gobiernos amigos de las soluciones políticas, finalmente logren hacer entender al régimen colombiano que negar el conflicto existente, tergiversar sus dimensiones y esconder su desgarradora realidad, no soluciona sino que agrava e incrementa los odios y las distancias.

Persistiremos en nuestros esfuerzos por alcanzar la paz democrática por las vías civilizadas del diálogo tal como lo hemos hecho desde hace 44 años, porque es nuestra concepción revolucionaria, porque así son nuestros principios. El levantamiento armado, la guerra de guerrillas, la clandestinidad y la actividad conspirativa responden básicamente a la violencia institucional que desde la muerte del Libertador Simón Bolívar ejercen los poderosos contra las mayorías que han luchado por libertad, tierra, trabajo, justicia, democracia y soberanía.

En la búsqueda de esos objetivos nunca desmayaremos. Nuestra palabra la respaldamos con la práctica diaria, en el crisol de la lucha cotidiana. Así nos lo enseñaron Bolívar, Manuel, Jacobo y todos los próceres y héroes de la historia patria. Hemos comprometido nuestra honra y vida en este empeño porque estamos seguros de la justeza y posibilidad real de materializar el sueño de una nueva Colombia. No nos arredran las dificultades, no nos amilanan las amenazas de la oligarquía que hemos escuchado toda la vida, no creemos en los llamados a la claudicación y a la indignidad, ni en los judas que aceptan las monedas de su oponente porque sobre esa moral nunca se construirá un mejor país, ni una sociedad pujante ni una familia solidaria. El valor a fundamentar como piedra angular debe ser el bien común sostenido sobre una ética transparente.

Camaradas: los caminos que conducen al incremento de la lucha popular en sus más variadas formas y a la conquista del poder, nunca han sido fáciles, ni en nuestro país ni en ninguna otra parte del mundo, ni ahora ni antes. Solo la profunda convicción en la victoria, en la justeza, validez y vigencia de nuestros principios y objetivos y un monolítico esfuerzo colectivo, garantizarán el triunfo. A los reaccionarios que hacen cuentas alegres con las FARC les informamos que la intensidad de la confrontación nos ha fortalecido, hemos estrechado vínculos con las comunidades, sus organizaciones y las luchas populares, elevado la disciplina y el respeto por la población civil e incrementado nuestra cualificación y aprendizaje. Han caído guerrilleros porque así es la lucha, pero también su generosa sangre derramada es evidencia de nuestro total compromiso con el pueblo, otros camaradas ya cubrieron la trinchera y muchos más continúan llegando a filas, así fueron también la gesta de nuestra independencia y todos los procesos liberadores de la humanidad donde se desataron los demonios de la guerra.

Somos una fuerza revolucionaria con la suficiente historia, solidez y consistencia para superar el fallecimiento de nuestro Comandante en jefe porque el mismo nos instrumentó y contribuyó en el esfuerzo colectivo de consolidación política y militar. El Secretariado, el Estado Mayor Central, los Estados Mayores de los Bloques y frentes, los comandos de todo nivel, los mandos y combatientes de las FARC-EP garantizaremos el triunfo.

Continuamos luchando por cumplir todos con los planes aprobados, manteniendo a fondo la práctica de la guerra de guerrillas móviles, incrementando nuestros nexos con la población civil y con el movimiento de masas que resiste la ofensiva del gran capital y de los terratenientes, intensificando el intercambio de opinión con todas las fuerzas interesadas realmente en las salidas políticas al conflicto y por alcanzar un gran acuerdo democrático y patriótico, ante el desmoronamiento de una institucionalidad fracturada irreversiblemente por el narcoparamilitarismo el autoritarismo totalitario y el arrodillamiento ante la Casa Blanca.

Debemos invitar a las comunidades a denunciar la agresión militar del gobierno, que tras la máscara de la confrontación con la guerrilla, masacra civiles para presentarlos como guerrilleros, arrasa labranzas, campos y bosques de reserva con los bombardeos, genera desplazamiento posibilitando el despojo de tierras y a aterrorizando a quienes protestan a través de la amenaza directa, la agresión y el crimen.

Y esforzarnos más por informar sobre los centenares de combates diarios que se libran en campos y ciudades porque el régimen esconde la terrible realidad de la guerra fratricida, de sus bajas y reveses, para transmitir un inexistente ambiente de control oficial en el territorio nacional.

También rechazar la patraña montada alrededor de los supuestos computadores y archivos del Comandante Raúl Reyes, como maniobra y macabra manipulación reeleccionista que busca lesionar a quienes no comparten la estrategia presidencial de la llamada seguridad democrática tras la que se esconde el papel de “cabeza de puente” asignado por el pentágono norteamericano a nuestro país en sus planes de agresión militar contra los pueblos de América Latina buscando recuperar su deteriorada hegemonía imperial.

La indignante decisión de levantar una base militar norteamericana en Colombia, las pretensiones de una segunda reelección, el cáncer de la narco para política que sumieron las instituciones en estado terminal y las propuestas consignadas en la Plataforma Bolivariana deben ser temas de encuentro y unidad, que alienten a los colombianos a la convergencia por la construcción colectiva y acordada de la paz.

Camaradas: la espada de Bolívar permanece desenvainada y en manos de todos aquellos que como nosotros, no descansaremos hasta lograr la justicia social, la democracia y la soberanía soportes verdaderos de la convivencia con que soñamos todos los colombianos.

Un fuerte apretón de manos para todos.

Por el Secretariado,

16 de julio 2008. - El nuevo líder máximo de las Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (FARC), Guillermo León Sáenz Vargas, más conocido como Alfonso Cano, aseveró que luego del fallecimiento de Manuel Marulanda, la guerrilla seguirá su lucha por un cambio político y social en el país andino.

En la carta, publicada por la Agencia de Noticias Nueva Colombia (Anncol), Cano anunció la reestructuración de la línea de mando de las FARC, en la que Iván Márquez asume como jefe de las relaciones internacionales del Estado Mayor Central, en sustitución del comandante Raúl Reyes, asesinado por tropas colombianas en Ecuador.

“Redistribuimos funciones dentro del Secretariado y lo reajustamos al igual que al Estado Mayor Central, fortalecimos los Estados Mayores de los Bloques donde fue necesario, pasamos revista a la situación orgánica y al trabajo de masas, todo ello en medio de la permanente confrontación y cobijados con la indestructible coraza del secreto de los centenares de guerrilleros conocedores del fallecimiento de nuestro comandante en jefe”, reza el comunicado.

A continuación, TeleSUR transmite el texto íntegro del líder guerrillero:

Camaradas del Estado Mayor Central, de los Estados Mayores de los Bloques y Frentes, de los Comandos Conjuntos, mandos de las redes urbanas, columnas, compañías, guerrillas, escuadras y comisiones, guerrilleras y guerrilleros, mandos y milicianos bolivarianos, militantes del Partido Comunista Clandestino e integrantes del Movimiento Bolivariano: reciban nuestro revolucionario saludo que extendemos a todos quienes trabajan junto a nosotros por una Nueva Colombia.

Durante la última semana del mes de mayo recibimos mensajes de solidaridad de todas las unidades farianas, donde destacan la gigantesca dimensión política y militar del Comandante Manuel Marulanda Vélez como uno de los más grandes revolucionarios de nuestra historia, y también reafirmando lealtad absoluta a su legado, a nuestro compromiso y objetivos de transformación revolucionaria y brindando total respaldo a las decisiones tomadas por la dirección de las FARC en esta coyuntura.

El 27 de marzo, luego del deceso del Camarada Manuel, acordamos que solo a partir del 23 de mayo informaríamos sobre ello a los mandos y guerrilleros, a los amigos y conocidos y, a la opinión, mientras decidíamos lo necesario para garantizar la continuidad de los planes en curso, como efectivamente ocurrió.

Redistribuimos funciones dentro del Secretariado y lo reajustamos al igual que al Estado Mayor Central, fortalecimos los Estados Mayores de los Bloques donde fue necesario, pasamos revista a la situación orgánica y al trabajo de masas, todo ello en medio de la permanente confrontación y cobijados con la indestructible coraza del secreto de los centenares de guerrilleros conocedores del fallecimiento de nuestro comandante en jefe.

Y así, entre otras decisiones, definimos al camarada Iván Márquez como jefe de las relaciones internacionales del Estado Mayor Central y al camarada Pablo Catatumbo como nuevo jefe del Movimiento Bolivariano por la Nueva Colombia.

Nuestro rico intercambio de opiniones frente a la actual situación ratificó el sagrado compromiso revolucionario de las FARC-EP, con su dirección a la cabeza, de mantener firme y muy en alto las banderas de la Nueva Colombia, la patria grande bolivariana y del socialismo; reafirmó la vigencia de todos nuestros planes político militares y de nuestra condición de combatientes de la paz democrática, es decir de la paz con justicia social, sin hambre, con empleo, techo, salud y educación para todos, con soberanía nacional y vigencia de una verdadera democracia política alejada de la violencia y de la corrupción administrativa.

Valga recordar que las FARC nacieron hace 44 años como una respuesta popular y revolucionaria al terror institucional y para institucional del Estado, a la vergonzosa intromisión gringa en nuestros asuntos internos, al despojo de las tierras y su acrecentada concentración en unas pocas manos, a las profundas injusticias sociales existentes y a la voraz corrupción de la oligarquía, realidades todas que hoy perduran multiplicadas para desgracia de nuestro pueblo.

Como revolucionarios queremos y luchamos la reconciliación de la familia colombiana y la construcción de un nuevo tejido social justo, pero la oligarquía, esa mezcla maldita de privilegiadas fortunas, inmensas haciendas, cunas de oro y poder político, no ha querido ni quiere compartir un ápice de sus privilegios con las mayorías del país. Por eso elude cualquier posibilidad sólida de acuerdos de paz.

Camaradas: insistiremos cuantas veces sea necesario sobre nuestra disposición de concretar un acuerdo humanitario que fije unas reglas claras alrededor de la población civil de obligatorio cumplimiento para las dos partes y que, ante todo, priorice la libertad de los camaradas extraditados Sonia, Simón, Iván Vargas y de todos los prisioneros de guerra de uno y otro lado.

Sin embargo, y no es un secreto, este gobierno no ha tenido el menor interés en concretarlo simplemente porque sería reconocer de facto, el estatus beligerante de una guerrilla revolucionaria a la que quiere satanizar. Por eso tanta disculpa, teorías absurdas, improvisaciones montajes, falsos positivos y temerarias órdenes de rescate que juegan con la vida de los prisioneros para satisfacción de los delirios de grandeza presidenciales.

Pensó el gobierno que las decisiones unilaterales de las FARC- EP cuando liberamos 6 prisioneros a comienzos del presente año, eran debilidad y no demostraciones innegables de la voluntad que nos acompaña.

A pesar de ello, nuestra propuesta de encontrarnos con el gobierno para precisar los términos de un acuerdo, continúa vigente así como la decisión de mantener comunicación y redoblar esfuerzos para que la reiterada generosidad de muchísimos gobiernos amigos de las soluciones políticas, finalmente logren hacer entender al régimen colombiano que negar el conflicto existente, tergiversar sus dimensiones y esconder su desgarradora realidad, no soluciona sino que agrava e incrementa los odios y las distancias.

Persistiremos en nuestros esfuerzos por alcanzar la paz democrática por las vías civilizadas del diálogo tal como lo hemos hecho desde hace 44 años, porque es nuestra concepción revolucionaria, porque así son nuestros principios. El levantamiento armado, la guerra de guerrillas, la clandestinidad y la actividad conspirativa responden básicamente a la violencia institucional que desde la muerte del Libertador Simón Bolívar ejercen los poderosos contra las mayorías que han luchado por libertad, tierra, trabajo, justicia, democracia y soberanía.

En la búsqueda de esos objetivos nunca desmayaremos. Nuestra palabra la respaldamos con la práctica diaria, en el crisol de la lucha cotidiana. Así nos lo enseñaron Bolívar, Manuel, Jacobo y todos los próceres y héroes de la historia patria. Hemos comprometido nuestra honra y vida en este empeño porque estamos seguros de la justeza y posibilidad real de materializar el sueño de una nueva Colombia. No nos arredran las dificultades, no nos amilanan las amenazas de la oligarquía que hemos escuchado toda la vida, no creemos en los llamados a la claudicación y a la indignidad, ni en los judas que aceptan las monedas de su oponente porque sobre esa moral nunca se construirá un mejor país, ni una sociedad pujante ni una familia solidaria. El valor a fundamentar como piedra angular debe ser el bien común sostenido sobre una ética transparente

Camaradas: los caminos que conducen al incremento de la lucha popular en sus más variadas formas y a la conquista del poder, nunca han sido fáciles, ni en nuestro país ni en ninguna otra parte del mundo, ni ahora ni antes. Solo la profunda convicción en la victoria, en la justeza, validez y vigencia de nuestros principios y objetivos y un monolítico esfuerzo colectivo, garantizarán el triunfo. A los reaccionarios que hacen cuentas alegres con las FARC les informamos que la intensidad de la confrontación nos ha fortalecido, hemos estrechado vínculos con las comunidades, sus organizaciones y las luchas populares, elevado la disciplina y el respeto por la población civil e incrementado nuestra cualificación y aprendizaje. Han caído guerrilleros porque así es la lucha, pero también su generosa sangre derramada es evidencia de nuestro total compromiso con el pueblo, otros camaradas ya cubrieron la trinchera y muchos más continúan llegando a filas, así fueron también la gesta de nuestra independencia y todos los procesos liberadores de la humanidad donde se desataron los demonios de la guerra.

Somos una fuerza revolucionaria con la suficiente historia, solidez y consistencia para superar el fallecimiento de nuestro Comandante en jefe porque el mismo nos instrumentó y contribuyó en el esfuerzo colectivo de consolidación política y militar. El Secretariado, el Estado Mayor Central, los Estados Mayores de los Bloques y frentes, los comandos de todo nivel, los mandos y combatientes de las FARC-EP garantizaremos el triunfo.

Continuamos luchando por cumplir todos con los planes aprobados, manteniendo a fondo la práctica de la guerra de guerrillas móviles, incrementando nuestros nexos con la población civil y con el movimiento de masas que resiste la ofensiva del gran capital y de los terratenientes, intensificando el intercambio de opinión con todas las fuerzas interesadas realmente en las salidas políticas al conflicto y por alcanzar un gran acuerdo democrático y patriótico, ante el desmoronamiento de una institucionalidad fracturada irreversiblemente por el narcoparamilitarismo el autoritarismo totalitario y el arrodillamiento ante la Casa Blanca.

Debemos invitar a las comunidades a denunciar la agresión militar del gobierno, que tras la máscara de la confrontación con la guerrilla, masacra civiles para presentarlos como guerrilleros, arrasa labranzas, campos y bosques de reserva con los bombardeos, genera desplazamiento posibilitando el despojo de tierras y a aterrorizando a quienes protestan a través de la amenaza directa, la agresión y el crimen.

Y esforzarnos más por informar sobre los centenares de combates diarios que se libran en campos y ciudades porque el régimen esconde la terrible realidad de la guerra fratricida, de sus bajas y reveses, para transmitir un inexistente ambiente de control oficial en el territorio nacional.

También rechazar la patraña montada alrededor de los supuestos computadores y archivos del Comandante Raúl Reyes, como maniobra y macabra manipulación reeleccionista que busca lesionar a quienes no comparten la estrategia presidencial de la llamada seguridad democrática tras la que se esconde el papel de “cabeza de puente” asignado por el pentágono norteamericano a nuestro país en sus planes de agresión militar contra los pueblos de América Latina buscando recuperar su deteriorada hegemonía imperial.

La indignante decisión de levantar una base militar norteamericana en Colombia, las pretensiones de una segunda reelección, el cáncer de la narco para política que sumieron las instituciones en estado terminal y las propuestas consignadas en la Plataforma Bolivariana deben ser temas de encuentro y unidad, que alienten a los colombianos a la convergencia por la construcción colectiva y acordada de la paz.

Camaradas: la espada de Bolívar permanece desenvainada y en manos de todos aquellos que como nosotros, no descansaremos hasta lograr la justicia social, la democracia y la soberanía soportes verdaderos de la convivencia con que soñamos todos los colombianos.

Un fuerte apretón de manos para todos.

Por el Secretariado,

Comentários

Haiti - Uma Crise de Múltiplas Facetas

Por Wooldy Edson Louidor e Angélica López.

Adital -

Crise social

No início do mês de abril de 2008, Haiti enfrentou múltiplos brotes de manifestações contra a fome acompanhadas por atos violentos e de vandalismo, como parte de um movimento mundial de protesto que acontecia paralelamente em vários países com altos índices de pobreza, tais como Burkina Faso, Camarões ou Senegal.

Crise do modelo econômico neoliberal

De diversos setores no Haiti, particularmente de algumas organizações do movimento altermundista e também dos movimentos de protesto contra a carestia da vida, choveram reiteradas críticas contra o modelo econômico neoliberal aplicado no país a partir da metade dos anos ’80, sobretudo a partir de fatos, como a matança dos porcos de raça criola, ordenada pelo Estado; após a abertura descontrolada de nosso mercado ao comércio internacional e com a crescente privatização das empresas estatais.

A entrada de produtos estrangeiros provenientes de países do primeiro mundo, com baixos impostos, destruiu a produção nacional e nos tornaram completamente dependentes, primeiro do estrangeiro e, depois, da comiseração dos organismos de financiamento e da comunidade internacional, o que tem aumentado nossa suposta dívida econômica.

Através das manifestações (até o momento), as pessoas vivem pedindo o relançamento da produção nacional e a implantação de um novo modelo econômico mais preocupado com o bem-estar da população, e menos centralizado na estabilidade macroeconômica e em ser fiel aos ditames dos financiadores internacionais.

Crise governamental

Com as manifestações contra a fome e com o impacto nacional que elas causaram, Haiti enfrentou uma crise governamental, causada pela decisão do Senado da República de destituir o Primeiro Ministro Jacques Édouard Alexis. Os 16 de 24 senadores que votaram a destituição em 12 de abril disseram em sua carta ao chefe de governo que “as haitianas e haitianos já não crêem na capacidade da equipe governamental que o senhor (ele) dirige para tomar as decisões necessárias que permitam aliviar a miséria em que vivem cada dia”.

Desde então, a nação se encontra à espera de que um novo primeiro Ministro seja ratificado para suceder a Alexis, que continua gestionando os assuntos correntes. De fato, dois dos três Primeiros Ministros designados até o momento pelo presidente René Préval, Pierre Erick Pierre e Robert Manuel, foram rechaçados em 12 de maio e em 12 de junho, respectivamente, pela Câmara de deputados, em particular por um bloco político formado no interior de dita Câmara, denominado Concertação de Parlamentares Progressistas (CPP). A razão argumentada para o rechaço das candidaturas dos três primeiros ministros designados foi a suposta inconformidade de seus documentos em relação ao que estabelece a Constituição haitiana vigente. A nova primeira ministra designada por Préval, Michèle Duvivier Pierre Louis, espera ainda o voto de ratificação do Parlamento para começar a atuar.

Crise de segurança

Enquanto isso, o seqüestro tem ganho mais terreno em todo o território nacional, o que levou a uma centena de organizações da sociedade civil a manifestar-se publicamente e de forma massiva no dia 4 de junho passado nas ruas de porto Príncipe. A finalidade de dita manifestação era dizer um NÃO contundente a esse fenômeno inaceitável que cobra cada vez mais vítimas, principalmente entre as crianças e os adolescentes.

Crise moral?

A designação da nova Primeira Ministra, Michèle Duvivier Pierre Louis, vem gerando um novo debate na sociedade em torno ao tema da “moralidade”. Parte de alguns setores, sobretudo das Igrejas protestantes e de alguns grupinhos políticos, exigem às duas Câmaras que se forme uma Comissão Ética para investigar a vida privada da candidata com a finalidade de confirmar ou não sua suposta homossexualidade.

Segundo tais setores, uma pessoa homossexual não pode aceder ao posto de Primeiro Ministro, independentemente de que todos seus documentos estejam em conformidade com a prescrito pela Constituição e que possua as capacidades e competências necessárias para ocupar dito posto.

Atualmente, a crise vai tomando uma configuração moral (ou pseudomoral?) que muitos organismos de direitos humanos, organizações feministas, grupos de intelectuais, acadêmicos, grandes figuras políticas nacionais e internacionais e outros setores religiosos consideram como uma “volta à Inquisição”, uma “campanha sexista” contra a mulher e uma “deriva” para o país.

A crise ameaça intensificar-se

Na metade de junho, o presidente Préval manifestou sua preocupação com que, devido à subida do preço do barril de petróleo no mercado internacional (naquele momento, 139 dólares o barril) e devido à incapacidade do atual governo haitiano para continuar subvencionando os produtos petrolíferos (subvenção que tem custado 12 milhões de dólares em déficit), os preços dos produtos alimentícios sofram um considerável aumento nas próximas semanas e, por isso, recrudesçam as manifestações contra a fome a se produzam novos conflitos sociais.

Além disso, começará um novo ano escolar no mês de setembro, o que implica para muitas famílias pobres e de classe média enfrentar-se novamente com os altíssimos custos da escolaridade de seus filhos e filhas e com a compra de uniformes e material escolar. Também os preços do transporte público que subiram proporcionalmente ao aumento do combustível, incidirão com toda segurança no incremento dos gatos das famílias haitianas para o traslado às escolas e para os lugares de trabalho.

Crise de desespero e coragem

Desde o dia 23 de junho, data em que o presidente Préval designou a Michèle Duvivier Pierre Louis ao posto de Primeira Ministra, a população espera uma resposta do Parlamento e concretamente da Câmara de Deputados para que o vazio governamental possa ser preenchido de uma vez por todas e se forme uma nova equipe competente e não corrupta, apta a atacar essa crise que tem diversas facetas dia a dia e que ameaça intensificar-se.

No entanto, a miséria e o desespero nos quais vive a população, lamentavelmente, estão longe de acabar em curto prazo, uma vez que o jogo de forças políticas no Parlamento não é favorável ao atual chefe de Estado haitiano, que não deixa de buscar o aval do grupo majoritário na Câmara de Deputados, o CPP e de todos os partidos políticos.

Por sua parte, as múltiplas ajudas oferecidas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo Programa Alimentar Mundial e por outros organismos e países da comunidade internacional revelam-se insuficientes para endireitar a situação de uma sociedade desgarrada em suas mais íntimas fibras e que sofre de um mal estrutural e histórico do qual assistimos a manifestação de suas múltiplas facetas.

[Tradução: ADITAL]

Comentários

A Visita do Presidente Uribe é Negativa para a Revolução?

Por Orlando Balbas.

Com a recente visita do Presidente Álvaro Uribe da Colômbia a nosso país foram feitas várias interpretações. Este encontro com nosso Comandante Hugo Chávez Frías Presidente da República Bolivariana da Venezuela se realizou em onze de julho na refinaria petrolífera localizada no Estado Falcón (Amuay), considerada uma das maiores do mundo. O recebimento por parte de nosso primeiro mandatário nacional foi de cordialidade e entendimento, questão que é fortemente criticada por amplos setores que apóiam nosso comandante. Eles vêem muito negativa a amplitude e procura de boas relações com o governo de Uribe da Colômbia.

Logo após da ruptura abrupta e sem nenhum tipo de explicações dos acordos humanitários para liberar os reféns e o bombardeio ao acampamento das FARC instalado no Equador, praticamente se criou um clima de tensão internacional na América Latina e as relações diplomáticas foram afetadas ao ponto de se romperem na prática. As acusações a nosso presidente Chávez não se fizeram esperar e o governo colombiano o acusa de financiar as FARC de acordo com a informação obtida de uns computadores portáteis que ficaram ilesos do bombardeio das Forças Armadas colombianas em solo equatoriano, onde foram massacrados os membros da guerrilha e entre eles Raúl Reyes conhecido como o chanceler das FARC.

É negativo para a revolução bolivariana manter boa relação com nossa irmã nação colombiana? Sai perdendo nosso presidente Chávez com um gesto de boa amizade com o presidente Álvaro Uribe Vélez? Retrocede-se na construção duma sociedade nova e socialista na Venezuela ao receber como irmão, a um presidente contrário a nosso sistema político revolucionário? Como incide o gesto do presidente Chávez diante de Uribe em nível internacional e a mídia?

Sem duvida alguma que desde as perspectivas geopolíticas e de avance da transformação social em nossa Venezuela, não pode ser mais oportuno um encontro e em nosso território dos presidentes da Colômbia e a Venezuela. Conseguiu-se neutralizar a campanha contra Chávez o relacionando com as Forças Armadas Revolucionaria da Colômbia, o complô da CIA para criar um estado de violência progressiva na região perdeu força e, por enquanto, está inutilizada e o outro elemento é que a possibilidade de guerra civil colombiana que quer ser trasladada às fronteiras venezuelanas para logo justificar uma agressão a nosso país não tem argumentos nos fatores políticos adversos à Venezuela na Colômbia. De tal maneira, que a busca da paz e relações comerciais, políticas e de entendimento para buscar uma saída ao problema da guerra, narcotráfico e paramilitarismo em nosso irmão país é fundamental. Lembremos que estamos relacionados com a Colômbia geograficamente pela área andina, faixa caribenha e as planícies ocidentais. O olhar para a paz é uma grande vantagem para a revolução e por isso é que a elite poderosa da Colômbia acha inconveniente desenvolver relações e acordos com o governo venezuelano. As palavras do ministro da Defesa de Colômbia, Manuel Santos, contra o governo da Venezuela é a demonstração de que existe afã combativo dentro do governo de Uribe. Os venezuelanos vêem com muito bons olhos o gesto amistoso de Chávez.

Versão em português: Allisson Gabrielle de América Latina Palavra Viva.

Comentários

“Alemão, Providência, até Quando?”

Por Bianka de Jesus e Isabel Alvarez.

No dia 27 de junho de 2008 completou um ano da Chacina no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, onde foram mortas 19 pessoas, em uma mega-operação, pela polícia militar em conjunto com a Força Nacional de Segurança. Nesse dia foi realizada uma missa, seguida de ato de repúdio, na igreja da Candelária em memória às vítimas e em solidariedade a seus familiares. O Jornal INVERTA, o Grupo Tortura Nunca Mais-RJ, o Conlutas, o PCML, o PSOL, o PSTU, o DDH e outros agrupamentos estiveram presentes no ato.

Faixas, cartazes com datas de assassinatos cometidos pela polícia e fotos de vítimas da violência policial ocupavam as escadas e calçada da igreja, fazendo evidenciar que esse, ao contrário do que sempre dizem, não é um caso isolado.

Os familiares das vítimas presentes fizeram uso da palavra e mostraram toda sua revolta e indignação que hoje transformam em luta contra a violência policial, contra o extermínio dos jovens.

“A Maré não é preta, a Maré é vermelha. (…) Chega ao extermínio! Respeito e dignidade é o que nós queremos, exigimos das autoridades. Está na hora de acordar, está na hora de fazer uma política de segurança com sinceridade, com respeito à vida…”, diz a mãe de uma das vítimas da violência policial na favela da Maré que também foi lembrada no ato, entre as chacinas de Acari, Borel, Caju, Coréia, Lins, Baixada, Candelária, Vigário Geral e o recente episódio da Providência.

Precisamos dizer não a essa política neoliberal de segurança pública que extermina nossos jovens, que aterroriza a população em nome da paz e da ordem, quando sabemos que é a paz da burguesia e que a ordem é manutenção desta classe no poder e que para isso é necessário eliminar aqueles que historicamente podem inverter essa ordem – e isso ocorrerá em um futuro não muito distante –, a classe trabalhadora. Mas resistimos e mais: lutamos, transformamos nossa dor em luta por uma sociedade em que a vida seja o mais importante, por uma sociedade socialista.

“Pela vida, contra a tortura e o extermínio!”

O INVERTA conversou com Cecília Coimbra, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ, que há 23 anos luta contra a política de extermínio e repressão. Cecília fala sobre a criminalização da pobreza e sobre o treinamento dos militares marcado pela violência presente na política de segurança pública relacionando-os com os atuais episódios ocorridos no Rio de Janeiro.

IN – Diante da conjuntura do Rio de Janeiro, como tem se posicionado o GTNM-RJ?

CC - No Dia 27 fez um ano de invasão do Morro do Alemão. Foi realizada uma missa na Candelária, em memória aos mortos. Foram chamados os movimentos sociais e a população em geral para realmente dizer um não pela criminalização da pobreza.

IN – Tivemos mais um caso de morte durante o treinamento de militares, como que ocorreu com o cadete Lapoente. Você relaciona esses fatos e o que aconteceu na Providência?

CC – Em 1992, mais ou menos, apareceram no GTNM os pais do Lapoente, que tinha acabado de ser assassinado, agora foi assassinado também durante um treinamento militar, Maurício Silva Dias. Depois ouvimos as declarações dos comandantes dizendo que são casos isolados, a gente sabe que não é isso. Isso foi aprendido nos EUA, na Escola das Américas, que recebe militares e civis de toda a AL para fazerem treinamento anti-guerrilha. Nesses treinamentos há violência, torturas, humilhação. E não é somente nas FFAA, continua acontecendo na polícia militar, no BOPE, principalmente nas ditas “tropas de elite”. Esse filme demonstra muito bem, não é por acaso que o filme demora tanto tempo nessas cenas, em que as pessoas são torturadas, humilhadas, violentadas, muitas vezes até estupradas, e obrigadas a comer suas fazes e beber sua urina. A morte desse cadete se liga com as violações que foram feitas com a venda, por exemplo, dos jovens na Providência. Esse tipo de treinamento é para produzir pessoas que efetivamente acham que por terem passado por sessões de tortura, de humilhação, são preparadas para serem futuros torturadores, numa visão extremamente perversa, que está sendo produzida pelos grandes meios de comunicação hoje, de que vivemos numa guerra civil. E viver numa guerra justifica esse tipo de treinamento para que você tratar o outro como inimigo. É a doutrina de segurança nacional ainda vigente no Brasil, mesmo depois da ditadura militar.

IN – E a criminalização da pobreza? Como isso é trabalhado nos treinamentos?

CC – Eles são treinados para ver o pobre como inimigo. Esse é o treinamento. Uma coisa que colocamos é que esses treinamentos têm tudo a ver com a violência no morro da Providência, que ocorre quando colocam o Exército para cuidar da segurança pública, o Exército tem que estar cuidando das fronteiras. O que o governo do Lula fez, criou a tal Força Nacional, que, na realidade, são elementos do Exército que têm todo um treinamento especial em Campinas. “A Força Nacional pode, o Exército não pode”, é o que eles estão dizendo agora. Vão substituir, no morro da Providência, o Exército pela chamada Força Nacional, que no fundo é a mesma coisa, são elementos treinados dentro dessa visão de que para manter a segurança pública o pobre é o criminoso, é o inimigo.

IN – O Exército no morro da Providência, com as pessoas reclamando de sentirem-se mal com isso, esse caso passa também pela questão do silêncio num governo democrático, da não abertura dos arquivos.

CC – Foram depositadas grandes esperanças no governo Lula mas ele está completando a obra com muito mais competência que o FHC, está cooptando os movimentos sociais. Fala-se de democracia participativa, mas essa propaganda do governo é extremamente perigosa, tem gente apoiando, inclusive, essas medidas assistencialistas. A questão dos arquivos se coloca nesse contexto de sociedade neoliberal porque as alianças que esses governos fizeram, são as mesmas de FHC, ora muda daqui, ora muda de lá e criam novos partidos conservadores, o DEM, por exemplo. Tanto FHC quanto Lula se comprometeram com determinados setores ligados à ditadura e esse tipo de aliança impede a abertura dos arquivos das FFAA. O governo federal, como todos os governos estaduais e municipais, embora sejam de diferentes partidos, de um modo geral, defendem essa lógica. Dizem que é confronto, confronto coisa nenhuma, pois confronto é guerra, e guerra não existe sem os dois lados. Cadê o outro lado? Dizem que são os traficantes, onde a droga ali é varejo. Os grandes traficantes não estão ali não. E como aquelas armas chegam lá? Agora ficou claro, quando membros do Exército entregaram os 3 meninos para os traficantes da Mineira, vemos claramente a ligação. Sabemos que armas somem dos depósitos das FFAA e de repente aparecem misteriosamente nas favelas. Há uma armação que interessa manter a população na ignorância, na produção do medo, da insegurança, porque, então, se diz que para nossa segurança precisamos do endurecimento de leis e penas, prisão perpétua, pena de morte, baixa da maioridade penal. E no mesmo contexto não se abre os arquivos, pois não interessa conhecer a história desse país, pois os que apoiaram a ditadura estão nesses diferentes governos e continuam dando as cartas.

IN - O Exército no morro da Providência para fazer “obras”. O que você pensa disso?

CC – Como o governo federal utiliza o Exército numa obra eleitoreira, assistencialista, pintar as fachadas das casas, mudar os telhados.. É pura aparência, para isso você faz todo um acordo com o tráfico e bota o Exército lá dentro. Tem muito mais coisa por trás dessa maracutaia, como antigamente o Lula falava, e não fala mais. Tem a ver quando dizemos que “a ditadura já foi, é passado, não tem nada a ver.” Não, isso é presente, porque continua acontecendo hoje com a pobreza, os mesmo mecanismos que eles sofisticaram e utilizaram com os comunistas, ditos terroristas, utilizam hoje contra a pobreza e alguns movimentos sociais, que não foram cooptados, pois a maioria já foi, infelizmente. Fico espantada como a questão dos DH, financiada pelo governo federal. O tempo todo temos nos negado a sentar junto aos representantes do governo, pois não vamos permitir que o nome do grupo seja utilizado como aliado a esse tipo de política. Tem sido difícil, a gente pagou 47 mil reais porque fomos processados por calúnia e difamação porque denunciamos o caso do Carlos Abel, que denunciou ter sido torturado na Superintendência da Polícia Federal no Rio. Ele continua sendo ameaçado de morte, pois denunciou a tortura. Mas vamos continuar denunciando, pois não fomos cooptados e não seremos.

Desacato.info

Comentários

O Salvamento de Fannie e Freddie

EUA demitiram 438 mil trabalhadores este ano. Por Juan L. Berterretche.

Se você pensa que nos referiremos a uma versão das lembranças da infância de Ingmar Bergman, está enganado. Pretendemos fuçar nas manobras fraudulentas de dois adultos jogadores do mundo financeiro.

As duas maiores corporações de crédito para a moradia dos Estados Unidos, Fannie Mae e Freddie Mac se encontram em falência virtual. Mas longe de iniciar um processo de liquidação, veremos que, quando se trata dos gigantes financeiros, para as autoridades estadunidenses não corre o escrupuloso acatamento à “mão invisível do mercado”.

Fannie e Freddie, de acordo com as regras de contabilidade de valor justo são insolventes. Ou seja, em caso de ter que vender todos seus ativos a cifra que obteriam, não alcançaria a honrar o total de suas dividas. No primeiro trimestre de 2008, a diferença entre os ativos e as dívidas da Freddie Mac, era um déficit de 5.2 bilhões de dólares (3.3 bilhões de Euros). Na passada sexta-feira 11 de julho as ações de ambas as empresas caíram mais de 50%. Seus produtos financeiros catalogados como AAA são brasas ardentes em mãos dos incautos investidores. A falência era iminente.

O mecanismo de negócios destas duas corporações gigantes que controlam mais de 50% do mercado imobiliário estadunidense é adquirir hipotecas residenciais dos bancos e outros prestamistas privados, combiná-las com outros títulos em pacotes e colocá-las como investimentos seguros das corporações, os fundos de pensões, os fundos soberanos e outras instituições que especulam no mercado financeiro. A partir do mercado de Nova Iorque estes títulos se negociam no mundo financeiro globalizado.

Nos primeiros anos da era Bush Junior, ao sair da crise das contabilidades fraudulentas das empresas, que teve em seu auge a Enron Corporation em 2001, se promoveu um falso auge da construção impulsionado pelo governo estadunidense e a Reserva Federal (Fed) em 2003-2004. Os trabalhadores indocumentados substituíram a maior parte da exigência da nova força de trabalho ligada à construção de moradias; sem eles não se tivesse dado esta importante expansão artificial da economia estadunidense. As moradias foram construídas e quando chegou o momento de vendê-las a procura não existia. A redução dos impostos aos ricos, o recorte dos benefícios sociais aos pobres, aos trabalhadores e à classe media, o aumento da precariedade e a desocupação no trabalho e o gasto em armamentismo e guerra contraíram a capacidade de consumo e de procura de bens. A população estadunidense estava endividada além de suas possibilidades. Então se reduziram as exigências para poder outorgar os créditos a insolventes e as hipotecas incobráveis se empacotaram com outros produtos financeiros para fazê-los atraentes. Essa suja tarefa a realizaram junto com os grandes bancos os irmãozinhos Fannie e Freddie. Os pacotes empeçonhados foram colocados no mercado mundial. Por isso desde faz três anos a borbulha imobiliária dos EUA envenena os mercados financeiros globais.

Na primeira explosão da borbulha a princípios deste ano, os bancos centrais europeus e asiáticos tiveram que injetar centenas de bilhões de dólares para resgatar as entidades financeiras que tinham em suas reservas essas hipotecas, lixo empacotado em enganosos produtos financeiros lançados em Wall Street.

A Reserva Federal e o Departamento do Tesouro dos EUA também saíram ao resgate dos quatro principais bancos usamericanos (Citigroup, Merril Lynch, JP Morgan, Bank of America) contaminados com as hipotecas subprime. Calcula-se em uns 400 bilhões de dólares a soma desta operação de resgate.

Para os irmãozinhos Fannie e Freddie a assistência financeira da Fed e o Departamento do Tesouro assim como a compra de ações dessas corporações para resgatá-las da queda, se supõe que alcançará os 300 bilhões. O custo total da festa da borbulha imobiliária para os contribuintes estadunidenses tal vez alcance 1000 bilhões de dólares. Mas os EUA podem se vangloriar de ter abocanhado a maioria de seus aliados europeus e asiáticos com uma parte importante das perdas.

Para o secretário do Tesouro dos EUA Henry Paulson “Fannie Mae e Freddie Mac jogam um papel central em nosso sistema de financiamento de moradia e têm que continuar jogando-o em sua forma atual”… “Seu apoio ao mercado da moradia é especialmente importante num momento no que passamos por uma correção no setor”. À borbulha imobiliária especulativa e trapaceira criada com toda intencionalidade pelo mercado imobiliário alentado pelo governo, Paulson lhe adjudica a piedosa função de sanear as falhas do sistema. E os trapaceiros Fannie e Freddie que enlodaram o gramado serão os encarregados de depurar o mercado.

Mais ainda, no plano de salvamento proposto pela Fed se prevê que o banco central estadunidense seja consultado no caso de qualquer possível novo marco regulador que pudesse impulsionar o Congresso e que afetem a Fannie e Freddie. Apesar de seus evidentes conseqüências, a desregulação segue sendo a orientação prioritária.

Na teoria neoliberal, os investidores deveriam em princípio assumir a responsabilidade de seus próprios erros. Confiaram-se na solvência dos irmãozinhos Fannie e Freddie, pois bem, a conseqüência é perder seus investimentos. Na prática os estados neoliberais acostumam a facilitar a propagação da influencia das instituições financeiras através da desregulação. Mas quando esta liberdade das operações financeiras conduz a esvaziar bancos, a falências, ou crises financeiras nacionais ou globais, os estados se transformam em generosos salvadores da integridade e a liquidez das instituições financeiras sem importar em absoluto o custo que isto signifique para os contribuintes. Assim foi nas crises das poupanças estadunidenses de 1987-1988 que teve um custo para o estado de 150 bilhões de dólares, ou na queda do hedge fund (fundo de investimento de alto risco) Long Term Capital Management em 1997-1998 que custou 3.5 bilhões de dólares. Nestes casos a “mão invisível” deixa passo ao dispendioso braço da intervenção estatal neoliberal.

Enquanto isso, a recessão usamericana cuja duração se prevê entre dois e cinco anos faz estragos na população. Os patrões demitiram 438 mil trabalhadores desde janeiro, informou o Departamento de Trabalho dos EUA. Só em janeiro, expulsaram 62 mil. Foi o sexto mês consecutivo de perdas líquidas de empregos. Segundo o Departamento de Trabalho a escala nacional, teve 8.5 milhões de desocupados em junho. No mesmo mês do ano passado eram 7 milhões. Porem é provável que as cifras do governo não reflitam a realidade, pois excluem a quem deixou de procurar emprego, e também aos que perderam seu trabalho de período completo e tiveram que aceitar um de meio período. Para os milhões de desempregados a “mão invisível do mercado” empunha uma gadanha.

18 de julho de 2008

Ilha de Santa Catarina

Brasil

Versão em português: Allisson Gabrielle de América Latina Palavra Viva.

Comentários

O Aniversário de uma Lenda: Nelson Mandela

Por Henry Rueda.

18 de julho de 2008.

Este é um Homem que tem sido e é exemplo de Luta, de Constância, de Fé e de Convicções profundas, um Homem a quem Deus lhe deu a oportunidade de ver que suas ações, as lutas pelo seu Povo não foram em vão, que sim conseguiu conquistas importantes.

Este Homem que nasceu em Umtata território Transkey Continente Africano. Que originalmente se chamou Rolihlahla Dalibhunga Mandela e a quem o Mundo conhece como Nelson Mandela, está fazendo hoje 18/07/2008 noventa anos, é Advogado de Profissão e de Vocação, pois se fez Advogado para tentar defender seus irmãos Negros das injustiças sofridas pela mão dos brancos colonizadores da África do Sul.

Nelson Mandela pertence ao partido ANC (Congresso Nacional Africano) que se auto-define como “Nacionalista, Anti-racista e Antiimperialista” e já cansado de seguir as idéias de Gandhi da não violência, forma o braço armado do ANC. A quem chamou “LANÇA DA NAÇÃO”.

Começou a ser detido pelas suas atividades em contra do sistema segregacionista em 1952, depois voltou a ser detido em 1956 e 1962, em 1964 é condenado à cadeia perpétua no julgamento que se lhe fez em Rivonia a todos os integrantes da Lança da Nação, com estas palavras fechou sua alegação de defesa no julgamento: “durante toda minha vida me tenho dedicado a esta luta do Povo Africano, tenho brigado contra a dominação branca e tenho lutado contra a dominação negra. Tenho buscado o ideal de uma sociedade livre e democrática, na que todas as pessoas vivam juntas em harmonia e igualdade de oportunidades. É um ideal que espero poder viver para ver realizado. Mas se for preciso, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer”.

Este Homem que sim viveu para ver os triunfos de sua luta, pois acabou com a segregação racial na África do Sul, pelo menos em nível de governo, foi o primeiro Presidente negro eleito por votação democrática na África do Sul, tem recebido muitos prêmios, reconhecimentos e condecorações em todo o Mundo, é um símbolo da luta contra a AIDS, a Fome, a Defesa dos Direitos Humanos, em fim, um Homem que tem defendido e defende seu Povo e que ofereceu grande parte da sua vida na defesa desse Povo.

Este Homem compatriotas, aparece nos arquivos de inteligência das grandes potências, sobretudo nos arquivos dos Estados Unidos de Norte América como * TERRORISTA. Assim como lêem: TERRORISTA.

Eu acredito que George Bush lhe vai dar um presente a Mandela por seus noventa anos, a notícia de que “vou retirar-lhe dos meus arquivos como terrorista” e com certeza o grande Nelson Mandela lhe responderá “não obrigado, para mim é uma Honra aparecer nos teus arquivos como terrorista”.

Estes são alguns dos reconhecimentos entregados a Nelson Mandela no Mundo: Prêmio Lenin da Paz 1962; Prêmio Internacional Simón Bolívar 1983; Prêmio Sajarov 1988; Distinção Bharat Ratna 1990; Isithwalandwe 1992; Príncipe de Astúrias à cooperação Internacional 1992; Prêmio Nobel da Paz 1993; Ordem do Mérito 1995; Prêmio Nacional da Paz 1995; Chaves da Cidade de Johannesburgo 2004; Embaixador da Consciência Anistia Internacional 2006; Escultura no Palácio de Westmister (Londres) 2007.

Esta é a mensagem para África do Sul e o Mundo hoje no dia do seu aniversário, “Há muitos ricos na África do Sul e poderiam partilhar com os que não tiveram a oportunidade de escapar da pobreza”.

Feliz Aniversário: Rolihlahla Dalibhunga Mandela: tu e Fidel Castro são o exemplo vivo de que os Heróis também podem morrer de velhos.

hruedaduarte@gmail.com

* E.T. N.T. Dias atrás lhe foi retirada essa denominação.

Versão em português: Raul Fitipaldi de América Latina Palavra Viva.

Comentários

Ditadura kafkiana

Autor tcheco foi lido como escritor que poderia lançar luzes sobre a vida nacional durante o regime militar

Gonçalo Junior

Pesquisa FAPESP - Franz Kafka (1883-1924) foi, provavelmente, o escritor mais influente do mundo no século XX. Mesmo que nem todos confessem ou percebam a inspiração, que pode ter vindo por meio de terceiros. Embora ainda considerado de leitura “difícil”, o escritor tcheco até poderia ser chamado de ícone pop. Nos EUA, ainda na década de 1960, por exemplo, Kafka teve sua estampa difundida pelo pai da pop art, Andy Warhol. O episódio “Little Girl in the Big Ten”, do desenho The Simpsons, exibido em 2002, mostrava Lisa Simpson freqüentando um bar de intelectuais chamado Café Kafka – quase o mesmo nome que Erico Verissimo deu ao seu bar no romance Incidente em Antares: Kafé Kafka. Quem passar numa livraria encontrará adaptações nacionais e estrangeiras de seus contos e romances para os quadrinhos. Um dos grandes sucessos da década de 1980 foi a música Uma barata chamada Kafka, do grupo Inimigos do Rei.

No caso do Brasil, essa popularidade, no entanto, é um fenômeno relativamente recente. Basta considerar que somente três décadas depois da morte de Kafka seus livros começaram a ser discretamente publicados aqui. Exatamente no momento em que o país entrava numa ditadura, Kafka ganhou mais espaço nas livrarias. Teria sido mera coincidência? Talvez. Eduardo Manoel de Brito, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP e doutor em letras, língua e literatura alemã, investigou essa relação em seu doutorado “Quando a ficção se confunde com a realidade: as obras A colônia penal e O processo como filtros receptivos da ditadura civil-militar brasileira”, orientado por Celeste H. M. Ribeiro de Sousa. Conclui que Kafka foi lido, apesar de não exclusivamente, mas de fato, como um escritor que poderia lançar luzes sobre a situação política vivida pelos brasileiros durante os anos da ditadura. Outros também o consumiram porque sua obra refletia sobre questões existenciais fundamentais – o ser lançado no mundo, o vazio da existência, o sentimento de uma culpa adâmica nunca superado.

Contudo, explica ele, os textos O processo e A colônia penal tiveram como uma de suas razões de recepção mais fortes o fato de que mostravam literariamente o que vários brasileiros viviam e sentiam na pele. “Não por acaso, a tortura está presente em ambos os textos kaf­kia­nos”, observa. De acordo com Brito, a junção das fontes comprovadoras da tese, como artigos de jornais e revistas (acadêmicos e não-acadêmicos), as entrevistas e a análise da propriedade mesma do texto ser interpretável como uma espécie de crítica à violência, mostra que críticos intelectuais brasileiros leram e divulgaram textos kafkianos como formas de refletir e criticar a política repressora da época.

Primárias - A demora para Kafka ser traduzido no Brasil, revela o pesquisador, aconteceu porque havia informações primárias ou desconhecimento sobre o escritor que poderiam criar a idéia de que ele seria um autor quase intraduzível. O tradutor Modesto Carone chegou a mencionar em entrevista a Brito que leu em algum lugar que Kafka teria escrito suas obras em tcheco. “O mercado parece que não estava muito animado a traduzi-lo, visto ser ele considerado complexo. Mas, na década de 1960, havia já bastante informação sobre o autor. Ajudou nesse sentido a publicação de A metamorfose nos anos de 1950. Portanto, era possível um risco calculado para sua publicação mais sistemática.” A motivação inicial que veio depois, acredita Brito, foi mercadológica.

Sua pesquisa, porém, é uma tentativa de mostrar o uso possível da literatura estrangeira como um instrumento capaz de varar o “silêncio” instaurado pela Censura. “Naturalmente, a ditadura impunha um silenciamento à crítica, em especial depois de 1969, com o AI-5. Assim, ler situações de tortura, perseguições sem sentido, mortes praticadas por um sistema político na obra de Kafka eram formas de superar o silenciamento imposto pelo regime e levar as pessoas a encontrarem no texto literário aquilo que era proibido de ser discutido abertamente.” Desse modo, acrescenta, quando alguns críticos falavam da ditadura soviética, relacionando textos kafkianos com o ambiente ditatorial brasileiro, eles varavam o silêncio imposto, driblavam o regime de perseguição política brasileiro. No fundo, nas entrelinhas, a crítica era ao sistema brasileiro.

Brito afirma que há textos que explicitamente relacionam Kafka com violências praticadas no Brasil. Mesmo quando as palavras “Brasil” e “ditadura civil-militar brasileira” estão ausentes. Um bom exemplo disso é o artigo de Antonio Candido “A verdade da repressão”, de 1972. No ensaio, a questão é apresentar a polícia que tortura. “Não há menção à polícia brasileira, mas, dentro da generalidade do texto, é bem perceptível a crítica à polícia que torturava e tentava criar sua verdade a partir do discurso daquele que era torturado.” Além disso, com a dissolução do regime no final dos anos 1970, surgiram artigos mais explícitos, relacionando Kafka e a ditadura nacional, até chegar aos anos 1990, com a obra Os leopardos de Kafka, de Moacyr Scliar, que trata expli­citamente do assunto.

O pesquisador não encontrou registro que indicasse que tenha havido algum controle sobre a obra de Franz Kaf­ka pelo governo – leia-se, Censura. “Na verdade, o escritor seria hermético demais para ser diretamente relacionado com situações políticas brasileiras.” Moacyr Scliar trata disso no seu livro, quando um policial mostra o quanto podia ser chucro diante de um texto literário de alto nível. O mesmo, contudo, não aconteceu na Europa: Kafka foi censurado na ditadura nazista e foi um problema real na ditadura soviética. “Durante o nazismo, Kafka foi censurado por ser um escritor judeu. Na ditadura soviética, tornou-se um problema diante do realismo soviético, tendo havido, inclusive, congressos para definir como tratá-lo dentro do contexto da literatura a ser apresentada nos países comunistas.”

Violência - O doutorado de Brito foca o tema a partir de três pontos principais: o conceito de violência, literaturidade e função social da literatura. Ele observa que, no primeiro caso, recorreu ao conceito de Hannah Arendt, mas dialoga com Walter Benjamin (Crítica da violência, crítica do poder) e Michel Foucault (Vigiar e punir) e a questão dos micropoderes. “Estes autores possibilitaram uma reflexão sobre a violência e a questão da violência do Estado.” A idéia de literaturidade vem do formalismo rus­so e seria a idéia de buscar o especificamente literário no texto de literatura. “Ou seja, por mais que eu faça uma interpretação social do texto, a fundamentação crítica, a análise profunda do texto é literária.”

Sua preocupação era tratar a crítica da obra kafkiana como um estudioso de literatura, e não como um sociólogo, por exemplo. “A função social da literatura eu a encontrei em estudos de Antonio Candido, com quem eu também mantive uma correspondência breve durante os primeiros anos da escritura do meu trabalho. Era importante para mim a discussão sobre qual a função da literatura – buscando o enfoque social – sem abrir mão da crítica literária específica, daí a fidelidade aos princípios defendidos pelo formalismo russo.” Ele encontrou isso no crítico Antonio Candido, que não instrumentaliza a literatura em favor de outra coisa que não o valor literário estético, mas que parte da obra literária para tocar a vida em sociedade.

“FAPESP”

Comentários

Quem perde e quem ganha com a explosão dos preços do petróleo

Do Serviço de Economia e das Empresas

A explosão dos preços do petróleo está comprometendo gravemente o equilíbrio econômico de numerosos setores de atividades da indústria e dos serviços. Alguns tiram proveito disso e despontam como os beneficiados do novo choque do petrleo; outros estão às voltas com enormes dificuldades para enfrentar as suas conseqüências. São os perdedores.

OS BENEFICIADOS

As companhias petroleiras e as novas energias
As petrolíferas nunca haviam óbtido lucros tão consideráveis. Em 2007, as cinco maiores companhias mundiais do setor (Exxon, Shell, BP, Total, Chevron) totalizaram um lucro líquido superior a US$ 100 bilhões (cerca de R$ 163 bilhões). Mas, quando o petróleo está caro, o nacionalismo petroleiro volta à tona e motiva os países produtores a se fecharem para as companhias privadas. Estas últimas detêm apenas 8% das reservas mundiais e vêm encontrando dificuldades para aumentar a sua produção. Isso explica, segundo avaliação da Total, por que a produção mundial deverá esbarrar num teto de 95 milhões de barris por dia em 2020 (contra 87 atualmente).

As energias “verdes” estão sendo beneficiadas pela conjunção de um petróleo caro, do boom da demanda energética e da mobilização contra o aquecimento climático. Em 2006, elas mobilizaram US$ 100 bilhões (em transações, investimentos e fusões-aquisições…), segundo um estudo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Na França, é o setor da energia eólica que vem se desenvolvendo mais rapidamente. O parque de turbinas de vento alcançou uma produção de 2.455 megawatts (MW) em 2007. Com isso, o país passou para o 3º lugar entre os países europeus, atrás da Alemanha e da Espanha.

Os especuladores
A explosão dos preços do petróleo constitui uma dádiva para os fundos especulativos (hedge funds). Aqueles que se especializaram nas matérias-primas andaram registrando rendimentos anuais de mais de 100%. Por meio de uma mecânica financeira que inclui efeitos de alavanca, os seus lucros disparam toda vez que o barril passa a custar alguns dólares a mais. E quando a crise dos subprimes (créditos hipotecários podres) espalhou a confusão na totalidade dos mercados financeiros, uma multidão de outros fundos se refugiou nos mercados da energia e das matérias-primas. A sua atuação é tão importante atualmente que esses fundos estão sendo acusados de serem em parte responsáveis pela disparada dos preços do “ouro negro”. As suas posições especulativas contribuiriam para encarecer o preço do barril em US$ 15 a US$ 25.

O transporte ferroviário
Guillaume Pepy, o presidente da SNCF (a companhia ferroviária estatal francesa), se mostra particularmente otimista. O encarecimento da gasolina deverá incentivar uma parte dos motoristas a preferirem o trem. Quanto ao transporte de mercadorias, “estamos vivendo um momento histórico e não se pode perder a oportunidade que ele representa”, diz. “Entre as buscas de soluções para o meio ambiente em nível nacional, entre o governo e as empresas, e o aumento das cotações do petróleo, tudo está apontando em favor de um desenvolvimento do frete sobre trilhos”.

AS VÍTIMAS

O transporte rodoviário
Esta atividade tem sido uma das mais atingidas pela crise petroleira. No momento em que as transportadoras rodoviárias já havia sido atingidas pelos sucessivos aumentos dos pedágios de auto-estrada (+ 25% em três anos) e pelo encarecimento crescente dos seus equipamentos, elas foram atingidas em cheio pelo aumento das cotações do petróleo e, portanto, do diesel. Segundo a Federação das Companhias de Transporte e de Logística da França (TLF), em meados de maio, o preço médio do diesel na bomba era de 1,41 euro (R$ 3,55) o litro, ou seja, 1,18 euro fora a TVA (taxa sobre produtos e serviços). Com isso, o litro de diesel aumentou em 16,72% desde o começo do ano, e em 37,64% desde janeiro de 2007.

Daqui para frente, o item “combustíveis” representa 28% dos custos de exploração de um veículo de transporte rodoviário. As federações profissionais buscam obter medidas de emergência por parte do governo, como o adiamento do pagamento de certas contribuições fiscais e sociais (taxa profissional), além do reescalonamento de certos encargos obrigatórios. Mas, o que elas desejam acima de tudo é a implantação de sanções penais que seriam destinadas a obrigar as empresas “cargueiras” - os clientes das transportadoras - a aceitarem a repercussão da evolução do custo do combustível sobre o preço faturado, uma medida que deveria tomar a forma de uma emenda à lei de modernização da economia.

O transporte aéreo
Enquanto os biocombustíveis, a eletricidade ou o hidrogênio representam energias alternativas eventuais para o transporte ferroviário, rodoviário ou marítimo, vai ser muito mais difícil dispensar os derivados do petróleo para fazer os aviões voarem. Em março, baseando-se num preço médio do barril a US$ 86, a Associação Internacional do Transporte Aéreo (IATA) havia previsto que o setor faturaria, no seu conjunto e em todo o mundo, cerca de US$ 4,5 bilhões (R$ 7,33 bilhões) em 2008.

Em 2 de junho, por ocasião da sua assembléia geral, o discurso mudou da água para o vinho: baseando-se numa cotação média de US$ 106,5, o transporte aéreo deverá registrar uma perda anual de US$ 2,3 bilhões (R$ 3,75 bilhões). Para Giovanni Bisignani, o diretor geral da IATA, o cálculo é simples: “Toda vez que o preço do petróleo aumenta em US$ 1, os custos operacionais das companhias aumentam em US$ 1,6 bilhão [R$ 2,61 bilhões]”. Em 2002, o total da fatura que as companhias tiveram de pagar era de US$ 40 bilhões (13% dos custos). Em 2008 (com base numa cotação de US$ 106,5 o barril), esta mesma faturar deverá somar US$ 176 bilhões (cerca de R$ 287 bilhões, o que representa 34% dos custos operacionais).

O automóvel
“Durante muito tempo, nós vivemos num mundo em que o petróleo não era caro. E quando o preço do barril subia um pouco, nós achávamos que isso não iria durar e optávamos por não investir em projetos próprios para superar eventuais rupturas tecnológicas”, reconhece Carlos Ghosn, o patrão do grupo Renault-Nissan. Atualmente, com um petróleo que deverá permanecer caro de maneira duradoura, a indústria automobilística não pode mais apostar apenas no motor térmico. No curto prazo e no médio prazo, o aumento do petróleo terá um impacto negativo sobre os objetivos de rentabilidade e as margens das montadoras. Uma vez que a indústria utiliza um grande número de peças de plástico, os custos de fabricação se tornaram logicamente mais elevados. As montadoras também estão à mercê de uma modificação dos comportamentos dos automobilistas. No espaço de um ano, o consumo de gasolina diminuiu de 7% nos Estados Unidos. As montadoras estão tentando preservar as suas vendas comercializando uma maior quantidade de carros pequenos e que consomem menos combustível, mas cujas margens de lucro também são menos elevadas. “Todas as montadoras estão condenadas a sofrerem muito, pois elas serão obrigadas a gastar bilhões de euros com pesquisas, de modo a comercializarem veículos dotados de novas tecnologias”, avisa Remi Cornubert, um diretor associado na consultora em estratégias de mercados Oliver Wyman.

O turismo
Os turistas serão forçados a modificarem seus projetos? A organização Europe Assistance, com a ajuda do instituto de pesquisas Ipsos, tentou responder a esta pergunta. Segundo esta firma especializada na assistência aos viajantes, o aumento dos preços dos combustíveis tem uma repercussão direta sobre o orçamento de férias de mais de um terço (38%) dos europeus que costumam viajar durante as férias. O aumento dos preços do petróleo teria uma influência direta para 34% dos turistas europeus no que diz respeito ao seu modo de transporte, para 29% dentre eles em relação ao seu destino, e para 23% dentre eles no que se refere à duração das suas férias. Um grande número de agências de viagens se verá obrigado a repercutir as conseqüências do aumento dos preços da energia sobre as tarifas das suas prestações de serviços.

A química
Para a indústria química francesa, toda vez que o preço do barril de petróleo aumenta em US$ 10, isso se traduz por um aumento de 2 bilhões de euros (cerca de R$ 5 bilhões) das suas despesas com matéria-prima e pesquisas. O montante total desses custos era de 81 bilhões de euros (cerca de R$ 200 bilhões) em 2007. O problema das companhias químicas é poderem repercutir esses aumentos de preços para os seus clientes. O grupo americano Dow Chemical anunciou, em 28 de maio, que ele iria aumentar os preços de “todos os seus produtos em 20% no máximo”. Em sua maioria, os grupos especializados na petroquímica conseguiram aumentar suas tarifas.

No curto prazo e no médio prazo, os consumidores de produtos industriais (carros, telefones, computadores…) fabricados por meio de pinturas e de plásticos deverão se preparar para um aumento dos preços. Num prazo mais longo, os grupos químicos deverão priorizar nos seus investimentos o desenvolvimento de materiais que consumirão menos energia. No setor da construção civil, desde já as novas qualidades de cimentos, colas, argamassas, entre outros, dividiram o consumo por quatro.

A agricultura
Segundo o ministério (francês) da agricultura, o óleo combustível representa 20% dos custos totais das firmas agrícolas. Muito mecanizada, a profissão vem consumindo cada vez mais combustível. Além disso, uma fazenda de grande porte utiliza importantes quantidades de produtos derivados do petróleo: há aqueles que incluem plástico em sua composição, como o barbante para amarrar os feixes de palha, ou ainda as lonas para cobrir os silos, mas também os adubos e os produtos fitossanitários. Os agricultores que trabalham com estufas são os mais atingidos, pois eles consomem quantidades enormes de combustíveis para a calefação. Os aumentos das cotações dos grãos estão fazendo com que os produtores de cereais possam compensar suas perdas, o que é impossível para os criadores de porcos ou de aves, os quais são também vítimas do aumento dos preços das rações para os animais.

As soluções se concentram principalmente na limitação do consumo, por meio dos avanços oferecidos pela agricultura de alta precisão, que permite evitar passar com os tratores várias vezes no mesmo lugar, além de utilizar de maneira mais eficiente os produtos químicos. Existe uma outra saída a respeito da qual a profissão está refletindo, relativa à produção de energia nas diversas áreas da fazenda, com a utilização de painéis fotovoltaicos (energia solar), além da transformação dos resíduos, ou ainda a produção caseira… de combustível agrícola.

A pesca
Logo no outono de 2007, os pescadores já pediram ajuda. O “diesel para a pesca”, totalmente livre de taxas, custava então 50 centavos de euro; desde então, ela já superou os 70 centavos de euro. Segundo o Comitê Nacional das Pescas, o óleo combustível representava 15% dos custos de produção de barco pesqueiro em 2004, 30% há seis meses, e mais de 50% atualmente. Os marinheiros pescadores enfrentam uma dupla dificuldade: o seu pagamento vem sendo diretamente reduzido pelo aumento dos preços dos combustíveis, no quadro do sistema de salário compartilhado (uma partilha entre os membros da tripulação não só do produto da venda, como também das despesas do barco). Ora, o seu patrão não pode aumentar o preço do peixe, porque este é vendido em leilão.

“Le Monde”

Comentários

Cientistas põem em evidência os mecanismos do aparecimento do diabetes

Uma nova pesquisa mapeou os processos moleculares e inflamatórios que provocam a obesidade e o surgimento do diabetes do tipo 2

De Paul Benkimoun

Uma dieta rica em gorduras aumenta os riscos de adquirir peso e contrair um diabetes. O fato é conhecido. O que a equipe dos professores Jacques Amar e Rémy Burcelin - pólo cardiovascular e metabólico do Centro Hospitalar Universitário (CHU) de Toulouse e do Inserm (Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica) - acaba de pôr em evidência, são os mecanismos moleculares deste fenômeno no rato. Estes estudos mostram a ocorrência de modificações da flora bacteriana intestinal e de reações inflamatórias. Os dados da pesquisa podem ser consultados, online, no site da revista americana “Diabetes”.

A obesidade e a diabetes do tipo 2 são vinculadas a uma resistência à
insulina. Diferentemente do diabetes de tipo 1, que aparece logo na infância e resulta de uma insuficiência de secreção deste hormônio, a diabetes de tipo 2 surge após anos no decorrer dos quais a insulina secretada não age suficientemente sobre os tecidos do organismo para fazer diminuir a taxa sangüínea de glicose. Na diabetes de tipo 2 assim como na obesidade existem também fenômenos inflamatórios.

Meses atrás, a equipe americana de Jeffrey Gordon havia mostrado, no rato, que um desequilíbrio na flora bacteriana intestinal constitui um fator de obesidade (Reportagem publicada no “Le Monde” de 22 de dezembro de 2006). Segundo esses estudos, esta modificação da ecologia intestinal aumenta a capacidade dos ratos de extrair calorias a partir de um nutrimento.

Adotando uma abordagem paralela, a equipe dos professores Amar e Burcelin interessou-se pela flora intestinal, mas, desta vez, à procura de um fator causal na origem dos mecanismos inflamatórios envolvidos no aparecimento de uma resistência à insulina, de uma obesidade e de uma diabetes.

Os pesquisadores franceses debruçaram-se em particular sobre uma substância, o liposacaride (LPS), que é um dos constituintes da parede das bactérias de tipo Gram negativo, também conhecida pelo nome de endotoxina. Essas bactérias são produzidas continuadamente no intestino. O LPS se transfere então no sangue.

“O nosso estudo permite mostrar que o tipo de dieta seguida, dependendo de se ela é mais ou menos gordurosa, modula a quantidade de endotoxina no sangue, fora de todo processo infeccioso”, explica o professor Amar. O aumento da taxa sangüínea de LPS provoca uma reação inflamatória que resulta no desenvolvimento de uma diabetes e de uma obesidade nos ratos que foram submetidos a um regime alimentar rico em gorduras.

“Nós também pudemos comprovar que esta ação inflamatória do LPS passa por um ‘interruptor’, no caso um receptor chamado CD14, presente em células sangüíneas assim como na superfície das células do tecido adiposo e do fígado”, acrescenta o professor Amar. “Quando se inibe a reação inflamatória, impede-se com isso a aquisição de peso e o aparecimento de um diabetes nos ratos submetidos a uma dieta rica em gordura”.

Perspectivas importantes

O mecanismo que conduz da inflamação até à resistência à insulina já era conhecido. A inflamação no tecido adiposo provoca a liberação de citoquines.

Esses mediadores vão agir sobre o receptor da insulina situado na superfície das células. As moléculas de insulina produzidas pelo organismo vão efetivamente se afixar neste receptor, mas a “mensagem” que elas trazem não consegue ser passada para a célula, que resiste então à insulina.

Desta forma, desponta uma avalanche de eventos, a qual foi analisada no nível molecular pela equipe de Toulouse. Resumindo: a dieta rica em gorduras modifica a flora bacteriana e facilita a passagem no sangue do LPS. A elevação da taxa sangüínea de LPS desencadeia uma reação inflamatória por intermédio de um receptor. Esta reação provoca, no rato, um aumento do peso e uma diabetes, os quais podem ser debelados inibindo a reação inflamatória.

“Esta explicação não exclui o mecanismo que foi descrito pela equipe de
Jeffrey Gordon”, comenta o professor Amar.

O cientista acrescenta que a sua equipe dispõe de dados preliminares, ainda não publicados, que mostram que os processos evidenciados no rato também existem no homem, mas isso ainda está por ser confirmado. “Com esses estudos aparecem várias perspectivas importantes: seria possível prevenir o desenvolvimento de uma obesidade e de uma diabetes de tipo 2 modulando a taxa de LPS no sangue?”, sublinha o professor Amar.

A resposta poderia ser fornecida no futuro estudando-se o impacto de uma modificação da flora bacteriana intestinal sobre a taxa de LPS. “Uma adaptação da flora por meio de uma alimentação apropriada seria suscetível de diminuir a passagem do constituinte tóxico da parede bacteriana do intestino para a circulação sangüínea”, explica o professor Amar.

Concretamente, alguns pro bióticos, que são bactérias benéficas para o homem contidas em alimentos tais como os iogurtes, poderiam ser testados com este objetivo.

Números

Obesidade: Em 2006, a França contava cerca de 6 milhões de obesos
(”Le Monde” de 20 de setembro de 2006), segundo a mais recente enquête que tem por nome Obepi (Obesidade epidemiologia). Isso representa 12,4% da população com idade acima de 15 anos e traduz um aumento de 50% em dez anos.

Uma pesquisa realizada por uma equipe francesa mostra que o crescimento dessa taxa é mais importante entre os filhos de operários, ao passo que a obesidade diminuiu entre as crianças cujos pais exercem uma profissão intermediária ou ocupam um posto de executivo. Nos Estados Unidos, 24,6% da população é considerada atualmente como obesa (ao menos 15 kg a mais do que a normal), contra 20% em 2000.

Diabetes: Em todo o mundo, mais de 200 milhões de pessoas são diabéticas. No ritmo atual, as previsões para 2030 apontam a possibilidade de haver cerca de 360 milhões de diabéticos. O aumento será particularmente acentuado nos países em desenvolvimento.

A região onde ele deverá ser o mais elevado é o Oriente Médio (+ 164%), seguido pela África (+ 162%) e a Ásia do Sudeste (+ 161%).

O aumento deverá ser de 150% na Índia, de 148% na América Latina, de 104% na China, e de 72% na América do Norte.

Na Europa, o número de diabéticos, que era de 28,3 milhões em 2000, deverá ser de 37,4 milhões, ou seja, um crescimento de 32%.

Tradução: Jean-Yves de Neufville.

Jornal Le Monde

Comentários

Diferenças entre o norte e o sul da zona do euro provocam tensões

Mark Landler

Em janeiro do próximo ano o euro fará dez anos, um aniversário que será marcado por discursos comemorativos, tratados acadêmicos volumosos e uma moeda de comemoração de dois euros, desenhada por um escultor grego. Ela foi escolhida entre cinco concorrentes em uma pesquisa online feita com cidadãos de países europeus.

Para a Grécia, o fato de ganhar o concurso da moeda poderá ser o ponto culminante das festividades. Sete anos após trocar a sua dracma pelo euro, a economia grega está cambaleante, a inflação cresce e os exportadores têm sido castigados pela valorização do euro em relação ao dólar.

“A Grécia é um acidente esperando para acontecer”, diz Thomas Mayer, economista do Deutsche Bank.

Levando-se em conta a maioria dos parâmetros, a moeda comum da Europa tem sido um sucesso, emergindo como uma alternativa para o decadente dólar para corretores de títulos, bancos centrais, exportadores chineses e até mesmo Jay-Z, o rapper norte-americano, que injetou um espírito pop-cultural na imagem da moeda européia ao exibir um maço de notas de 500 euros em um videoclipe.

Mas na união monetária européia formam-se fissuras que ameaçam ampliar-se nos próximos meses.

Grécia, Portugal, Itália e Espanha - a fraternidade banhada pelo sol, às vezes apelidada de Club Med - estão enfrentando perda de competitividade, inflação e aumento das dívidas. Enquanto isto, a Alemanha, que durante grande parte da era do euro foi o “indivíduo doente” da Europa, tornou-se novamente vigorosa. Economicamente em forma após anos de reformas e fortificada pela grande demanda global pelas suas máquinas e outros produtos, a Alemanha defende contra a China o seu status de maior exportadora mundial.

De maneira geral, os vizinhos ao norte da Alemanha também estão bem, o que fez ressurgirem rumores sobre uma divisão norte-sul: um norte que está crescendo decentemente, mas que anda preocupado com a inflação, e, portanto, prefere altas taxas de juros e deseja viver com uma moeda forte; um sul preocupado com a estagnação, e que prefere taxas de juros mais baixas e uma moeda mais fraca.

Quando líderes e retardatários usam a mesma moeda mas têm problemas opostos, é inevitável que tensões venham à tona.

Basta olhar para a Itália, que talvez seja a economia mais abalada da Europa. Enfrentando elevados custos de mão-de-obra, queda das exportações e uma dívida pública em expansão, o velho remédio do país para tempos difíceis seria desvalorizar a lira. Atualmente, acorrentado ao poderoso euro, o país não pode fazer tal coisa. Em vez disso, os italianos provavelmente terão que amargar uma recessão e um desemprego crescente, algo que nenhum político - e especialmente um político recém-eleito, como Silvio Berlusconi - deseja enfrentar.

Berlusconi já declarou que deseja que o Banco Central Europeu leve em conta outros fatores, além da inflação, ao estabelecer a sua política fiscal. Em outras palavras, o banco deveria reduzir as taxas de juros, o que provavelmente desvalorizaria um pouco o euro e tornaria mais fácil para a Itália vender os seus vinhos e calçados no exterior.

Berlusconi encontrou um aliado no presidente da França, Nicolas Sarkozy, que tem se desentendido repetidamente com o banco central pelo mesmo motivo. Sarkozy assumirá a presidência rotativa da União Européia em julho, o que fornecerá a ele uma plataforma pronta para expor os seus pontos de vista.

Os fundadores do euro anteciparam tensões desse tipo. Alguns tinham medo de estrangular a nova moeda ainda no berço. Mas no final da década de 1990, quando a união monetária estava sendo criada, os líderes europeus deixaram as preocupações nacionais de lado e concentraram-se na meta de uma moeda comum.

“Havia uma grande vontade política de ingressar na união”, diz Alexandre Lamfalussy, que foi presidente do Instituto Monetário Europeu, o precursor do banco central. “Havia também por parte dos países vontade política para colocar a própria casa em ordem. Lembro-me de ter ficado bastante surpreso àquela época. Hoje, porém, a velha tentação dos governos de achar um bode expiatório para os seus problemas retornou. É um problema amplo, que não se restringe a um ou dois líderes políticos”.

De certa maneira, a lua-de-mel política para o euro encerrou-se em maio de 2005, quando os eleitores da França e da Holanda rejeitaram a constituição proposta para a União Européia. Embora aquele documento tivesse pouca influência sobre a moeda, ele simbolizava a constante marcha européia da integração econômica para a política, um processo que, pelo menos por hora, empacou.

Assim como ocorreu em grande parte da história européia, o debate em torno do euro é, no fundo, um debate sobre o papel da Alemanha. Quando a união monetária estava sendo forjada, Estados mais fracos como a Itália temiam, com razão, ter os seus destinos atrelados a uma locomotiva teutônica.

Porém, inesperadamente, a Alemanha mergulhou em uma profunda crise após o euro ter começado a circular em 2002, três anos após a sua adoção como a moeda européia. Devido ao fato de responder por um terço da produção econômica da união monetária, a Alemanha, com os seus problemas, concedeu à Europa uma política de dinheiro fácil - o oposto daquilo que a Itália e os seus vizinhos temiam.

“Em vez de lutarem para acompanhar o ritmo da Alemanha, esses países obtiveram taxas de juros tremendamente reduzidas”, afirma Mayer, do Deutsche Bank. “Em vez de vestirem cilícios, eles caíram na farra como doidos”.

Na Alemanha, naquela época, as companhias passaram por um processo doloroso de redução dos custos e otimização das operações. Gerhard Schröder, o ex-chanceler alemão, exerceu pressões por uma reforma do mercado trabalhista, o que provavelmente lhe custou o cargo, mas ajudou a fazer da Alemanha um país novamente competitivo.

Agora a festa deslocou-se para Berlim, e as camisas de mortificação estão sendo distribuídas em Roma, Madri e Atenas. Na Espanha e na Irlanda, as baixas taxas de juros do Banco Central Europeu alimentaram bolhas imobiliárias no estilo norte-americano. Essas bolhas estouraram com conseqüências previsíveis.

Tendo em vista a inquietação cada vez maior nesses países, os especialistas afirmam estar surpresos com o fato de ainda não ter havido mais reclamações. Em 2005, quando a divisão era menos drástica do que hoje, o ministro do Trabalho italiano, Roberto Maroni, pediu à Itália que abandonasse o euro e retornasse à lira. Ele foi ferozmente criticado, até mesmo pelos membros do governo Berlusconi anterior.

Parte do motivo para esta calma pode ser o fato de a Europa ter se mantido equilibrada, apesar das recentes crises financeiras nos Estados Unidos. Ao que parece, poucos países podem cogitar trocar o desconforto de um euro robusto pelas incertezas das suas velhas moedas. Segundo os economistas, suportar as taxas de juros da Alemanha é um preço justo a se pagar para que se evitem as desvalorizações monetárias no estilo italiano.

“Haverá muito boato a respeito da Espanha e a Itália abandonarem o euro, mas os fracos não têm como sair do sistema”, diz o alemão Daniel Gros, diretor do Centro de Estudos Políticos Europeus, em Bruxelas.

Mesmo assim, os rigores da vida com o euro podem impedir que este clube cresça. Antes, a Polônia, a Hungria, a República Tcheca e outros países europeus orientais desejavam adotar o euro logo após ingressarem na União Européia. Agora, com uma consciência maior dos custos, muitos aguardarão até depois de 2012.

A união monetária européia pode estar durando, mas ela não conta com simpatia generalizada.

“The New York Times”

Comentários

MUDANÇA CLIMATICA: Os ricos têm a palavra

Marwaan Macan-Markar

Bangcoc, 03/04/2008(IPS) - O futuro do planeta está nas mãos das nações ricas, segundo representantes dos países em desenvolvimento presentes na conferência sobre mudança climática que acontece nesta semana na capital da Tailândia.

O tom grave se deve à preocupação de que o mundo desenvolvido, maior contaminador do planeta desde a Revolução Industrial, embarque em novas manobras dilatórias em lugar de cumprir as metas do Protocolo de Kyoto assinado em 1997. Esse tratado ambiental complementa a Convenção Marco sobre Mudança Climática da Organização das Nações Unidas (Unfccc) de 1992. Em Kyoto, 37 países ricos, mais a União Européia, aceitaram reduzir em 5% suas emissões de gases causadores do efeito estufa até 2012. Mas, são poucos os que parecem estar no caminho de cumprir essa meta.

“Os países ricos devem honrar seu compromisso. Os que ratificaram o Protocolo de Kyoto devem cumprí-lo”, disse à IPS John Ashe, embaixador do Grupo dos 77, expressão do mundo em desenvolvimento na comunidade internacional. “A necessidade urgente de que as nações ricas cumpram sua redução de emissões foi ratificada na conferência sobre mudança climática realizada em Bali, em dezembro passado”, acrescentou. “Nos preocupa o fato de os países industrializados não terem priorizado a tarefa de alcançar a redução de emissões” estabelecida, prosseguiu Ashe.

A presente rodada de negociações em Bangcoc, iniciada na segunda-feira (31) com término previsto para sexta-feira (4), contempla dois aspectos. Um tem a ver com os compromissos assumidos pelos países ricos, com exceção dos Estados Unidos, que se retiraram em 2001, tão logo George W. Bush iniciou seu mandato, sua assinatura do Protocolo de Kyoto. O segundo ponto, aberto a todas as nações, se refere ao início de negociações para um acordo ambiental internacional que substitua o de 1997, que caducará em 2012. Esses dois enfoques deveriam convergir em uma conferência da ONU sobre mudança climática que acontecerá em Copenhague. Nessa oportunidade deverá surgir um novo pacto internacional para salvar o planeta do aquecimento global.

“Estamos no começo de um período de um ano e meio muito agitado no processo de dar resposta à mudança climática e devemos estar atentos a essas expectativas”, disse o secretário-executivo da Unfccc, Yvo de Boer. “As negociações devem concluir com um acordo consensual em Copenhague”, acrescentou. A reunião em Bangcoc deve fixar as linhas mestras para uma negoci