Arquivo de 27 de Julho de 2008

PSOL entra com representação na Justiça Eleitoral contra Kassab

Partido pede investigação para apurar suposto abuso de poder político.
Prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, nega uso de máquina pública.

Da Agência Estado

O candidato do PSOL à Prefeitura de São Paulo, Ivan Valente, protocolou na noite deste domingo (27) na 1ª Zona Eleitoral de São Paulo uma representação contra o prefeito de São Paulo e candidato à reeleição, Gilberto Kassab (DEM), para apurar possível uso da máquina pública para tentar influenciar os resultados da última pesquisa eleitoral do Instituto Datafolha, divulgada na sexta-feira (25). “É um autoritarismo muito grande, viola qualquer norma de procedimento democrático”, afirmou Valente.

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Candidatos à Prefeitura de SP participam de eventos populares Kassab usou prefeitura para tentar influenciar pesquisa eleitoral, diz jornal
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Segundo reportagem da edição deste domingo da Folha de S.Paulo, o prefeito de São Paulo teria enviado um e-mail aos subprefeitos supostamente orientando sobre “ações” nos locais onde foram coletados dados para a pesquisa. “Não foi uma acusação em vão, foi textual”, disse o candidato do PSOL.

Na representação, o partido pede a instalação de uma investigação judicial para apurar o abuso de poder político pelo candidato do DEM com uso indevido de estrutura pública do município em benefício direto a sua reeleição da pasta.

“Solicitamos que seja feita uma investigação rigorosa do que ocorreu e que sejam tomadas as medidas cabíveis como crime eleitoral”, destacou Valente.

A assessoria do prefeito da capital paulista informou que Kassab ainda não foi notificado.

Neste domingo, ao falar sobre o e-mail enviado aos subprefeitos, Kassab afirmou que “não existiu nenhuma atividade que pudesse ser identificada como uso de máquina pública”.

Ele afirmou que “a preocupação não é a pesquisa, e sim com ações que possam ao longo do processo eleitoral prejudicar as atividades da cidade”. “É evidente que na qualidade de prefeito tenho que zelar pela ordem na cidade de São Paulo”, afirmou.

G1

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Ivan Valente protocola representação contra Kassab por abuso de poder

da Folha Online

O candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PSOL, Ivan Valente, protocolou na noite deste domingo no Cartório Eleitoral da 1ª Zona uma representação contra o atual prefeito, Gilberto Kassab (DEM), pelo suposto abuso de poder pela utilização da máquina pública em benefício de sua campanha à reeleição.

A ação é fundamentada com base na reportagem “Kassab usa prefeitura para tentar influir no Datafolha”, publicada neste domingo pela Folha de S.Paulo.

E-mail obtido pela Folha mostra que Kassab acionou pessoalmente a máquina da prefeitura para tentar influir na última pesquisa Datafolha sobre a eleição em São Paulo, na qual recuou dois pontos percentuais em relação ao levantamento anterior.

A reportagem foi publicada no “Painel” da Folha, editado por Renata Lo Prete (a íntegra do “Painel” está disponível apenas para assinantes do jornal e do UOL).

Em nota, Ivan Valente disse que “está mais do que evidente que o prefeito Gilberto Kassab usou a estrutura municipal para tentar intimidar pesquisadores e cercear o livre direito de manifestação política das pessoas”.

Folha Online

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O grande formador

Maior crítico literário do país, Antonio Candido faz 90 anos, mas suas lições continuam mal compreendidas

LUIZ COSTA LIMA
COLUNISTA DA FOLHA

Pedem-me que diga em poucas linhas o que me parece mais significativo na obra de Antonio Candido.
Depois de separar seus livros e relê-los por mínimas horas, minha primeira resposta praticamente se opunha à tarefa que havia aceito: o leitor de fato interessado há de lê-lo por inteiro. Só quem assim fizer terá segurança em compreender como seu perfil intelectual foi se constituindo.
Deparo-me, contudo, com a reiteração de um fato curioso: ao ser lida ou ouvida, a palavra tem a propriedade de nos fazer nela entender o que antes não se sabia. Assim, mal escrevo o que se leu, me digo: por que eu mesmo não procuro formular como vejo que se formou o perfil de Antonio Candido?
Releio então com cuidado “Brigada Ligeira” (1945) e procuro selecionar passagem posterior, entre os quais possa estabelecer um curso.
Dos pequenos artigos de “Brigada Ligeira”, concentro-me em passagens sobre os romances de Jorge Amado [1912-2001] e Oswald de Andrade [1890-1954].
O então jovem crítico elogiava no escritor baiano ter abandonado a visão “lírica e de certo modo pitoresca do homem do campo”, então vigente, em favor das “perspectivas de conflito” decorrentes de nossa extrema desigualdade social.

Diferenciar
Dentro dessa mudança de óptica, destaca em Jorge Amado seu “apelo algo fácil para a sentimentalidade, o patético de segunda ordem”. Sem que se restrinja a criticá-lo, acentua ainda sua falta de construção, sua capacidade “fraca e sumária” de análise.
Ou seja, em vez de reduzir o que e o como à mesma coisa, importa ao crítico diferenciar entre a natureza do argumento que o romancista escolhia e a maneira de constituí-lo em objeto literário.
A mesma distinção reaparecerá a propósito de Oswald.
Mas seu rendimento não é idêntico. Em contraste com a primeira fase, pós-parnasiana e recendendo a literatura, seus romances experimentais são vistos como um degrau acima, ainda que situados em um degrau inferior àquele em que estaria “A Revolução Melancólica”, na abertura da série do “Marco Zero”, isto é, do Oswald do romance social.
Neste, portanto, ultrapassadas as duas primeiras fases, Oswald se lançava numa “perspectiva sintética de crítica social construtiva”. Ou seja, ao contrário do que sucedia na apreciação de Amado, a primeira variável -o destaque da matéria social- sufocava e deitava por terra a segunda -a exigência de o objeto atender à qualificação literária.

Destaques
Aprendiz de um ofício em um país em que o iniciante há de ser o mestre de si mesmo, Candido ficava aquém de sua própria exigência.
Contraste-se esse resultado com a abertura do “Prefácio a “O Discurso e a Cidade’” (1993): (Tento analisar) “o processo por cujo intermédio a realidade do mundo e do ser se torna, na narrativa ficcional, componente de uma estrutura literária, permitindo que seja estudada em si mesma, como algo autônomo”.
Seria dentro desse percurso que localizaria o que de mais significativo tem sido feito pelo homenageado.
Destaco, então, dois tipos de textos: aqueles em que ressalta a própria análise sociológica da literatura e aqueles em que o objeto privilegiado é um texto específico.
No primeiro caso, são exemplares “O Escritor e o Público”, hoje em “Literatura e Sociedade”, e “Literatura e Subdesenvolvimento”, presente em “A Educação pela Noite”. Não me furto a destacar duas pequenas passagens do primeiro.
Embora Candido esteja tratando da literatura brasileira do 19, os motivos centrais que aborda continuam entre nós presentes, conquanto as “palavras de ordem ou incentivo” esperadas hoje antes derivem das colunas televisivas do que propriamente dos escritores: “Esta literatura militante chegou ao grande público como sermão, artigo, panfleto, ode cívica; e o grande público aprendeu a esperar dos intelectuais palavras de ordem ou incentivo, com referência aos problemas da jovem nação que surgia”.

Marcos interpretativos
O segundo trecho exigiria outra reflexão: “A grande maioria dos nossos escritores, em prosa e verso, fala de pena em punho e prefigura um leitor que ouve o som de sua voz brotar a cada passo por entre as linhas”.
A permanência dessa “oralidade” se dá menos pelo tom enfático da palavra de escritores-cronistas do que pela ausência de reflexão que continuamos a cultivar.
Já o segundo tipo que saliento concerne a obras especificamente literárias. Aí ressaltaria os estudos primorosos sobre “Grande Sertão”, de Guimarães Rosa -”O Homem dos Avessos” (originalmente publicado em 1957) e a “Dialética da Malandragem”, sobre as “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, de 1970 [incluído em “O Discurso e a Cidade”].
O leitor menos ligado à especialidade literária poderá supor que, dado o prestígio de Candido, os analistas vindos depois dele evitariam os deslizes que ele soubera apontar. Mas não é bem assim.
É verdade que a diferenciação entre os planos de abordagem historiográfico e literário não é algo corriqueiro. Mas não deixa de ser espantoso que, sobretudo em relação a “Grande Sertão: Veredas”, a diferenciação que Candido tão bem soube estabelecer, mal o romance esteve lançado, é “esquecida” em favor de uma historicidade simplesmente de pasmar. O pequeno espaço de que disponho não me permite dizer mais.
Lamento não ter ainda umas poucas linhas para examinar o que diz acerca dos fragmentos sobre a literatura colonial que Sérgio Buarque de Holanda [1902-82] não terminou.

Outra história
O que Candido declara sobre a reflexão do amigo -que, a propósito de um Cláudio Manuel, fundindo os veios barroco e neoclássico, opunha uma “visão longitudinal” da história da literatura, à transversal, “quase obrigatória”- seria um argumento estimulante para o debate em torno da concepção de história da literatura que domina na obra mais discutida de Candido, “Formação da Literatura Brasileira” (1959).
Na impossibilidade de fazê-lo, apenas acentuo que o estímulo a uma visão longitudinal da história da literatura não só serviria para o debate fecundo da “Formação” como de obstáculo para a separação rígida da história em períodos, que a assemelha a uma linha que o tempo vai fazendo com que mude unanimemente de cor e feição.

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LUIZ COSTA LIMA é crítico e professor na Universidade do Estado do RJ e na Pontifícia Universidade Católica (RJ). Escreve regularmente na seção “Autores”, do Mais!.

Folha de S. Paulo - 27 de julho de 2008

Obras de Antonio Candido

Disponíveis pela editora Ouro Sobre Azul:

O Método Crítico de Silvio Romero
Brigada Ligeira
Ficção e Confissão
O Observador Literário
Formação da Literatura Brasileira
Tese e antítese
Literatura e Sociedade
Teresina Etc.
Vários Escritos
A Educação pela Noite
O Discurso e a Cidade
Recortes
Iniciação à Literatura Brasileira
Um Funcionário da Monarquia
O Albatroz e o Chinês

Por outras editoras:

Presença da Literatura Brasileira
(com José Aderaldo Castello, editora Bertrand Brasil)
Os Parceiros do Rio Bonito
(editora 34)
Textos de Intervenção
(editora 34)
Na Sala de Aula
(editora Ática)

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Obras de Garcia Lorca

Obra Poética Completa
poesia (Martins Fontes)

Sonetos do Amor Obscuro
poesia (Bertrand Brasil)

Antologia Poética
poesia (L&PM)

Romanceiro Gitano e Outros Poemas
poesia (Martins Fontes)

Conferências
coletânea de palestras (ed. UnB/Imesp)

Yerma
teatro (ed. UnB/Imesp)

A Casa de Bernarda Alba
teatro (ed. UnB/ Imesp)

Bodas de Sangue
teatro (ed. Peixoto Neto)

Poeta em Nova York
poesia (Letras Contemporâneas)

Assim que Passarem Cinco Anos
teatro (ed. UnB/Imesp)

Encontros de Um Caracol Aventureiro
poesia (Ática)

Folha de S. Paulo - 27 de julho de 2008

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Quem foi Lorca

DA REDAÇÃO

Nascido em 1898, em Fuentevaqueros, na região de Granada, Federico García Lorca viveu apenas 38 anos, suficientes para se tornar um dos mais conhecidos poetas e dramaturgos espanhóis -por sua obra e por ter sido fuzilado pelos franquistas em 1936, no início da Guerra Civil Espanhola.
Francisco Franco (1892-1975) e os grupos conservadores que o apoiavam viam como uma ameaça o escritor homossexual, diretor do grupo teatral “La Barraca”, do governo republicano, com a qual encenara uma de suas peças mais instigantes, “A Casa de Bernarda Alba”.
Nela, reproduzia a violência das ditaduras sob a metáfora do luto forçado por uma viúva às filhas, impedidas até de sair de casa.
García Lorca deixou outras obras de extrema importância, tanto no teatro, como a trilogia “Bodas de Sangue” (1933), quanto na poesia, como a “Ode a Salvador Dalí” (1926) e a série “Poeta em Nova York”, escrita em 1929-30.
No documentário “Lorca, el Mar Deja de Moverse”, de 2006, o diretor Emilio Ruiz Barrachina sustenta que “A Casa de Bernarda Alba” teve influência em sua morte, sendo um recado para parentes ligados ao movimento conservador Ação Popular, que apoiava Franco, e, que, então, denunciaram seu paradeiro, quando ele tentava fugir.

Folha de S. Paulo - 27 de julho de 2008

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O Mundo Alucinante

PUBLICADO EM 2002, “GARCÍA LORCA E CUBA - TODAS AS ÁGUAS” PERMANECE VIRTUALMENTE DESCONHECIDO DOS CRÍTICOS; AUTOR EXPLICA QUE NÃO TEVE ACESSO À INTERNET E QUE FEZ SUA PESQUISA PELO CORREIO, DURANTE DOIS ANOS

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Lorca se entusiasmou com o sotaque da ilha e exerceu uma liberdade sexual como jamais havia conhecido; ele foi muito livre aqui; não há registro de nenhuma reprovação a sua conduta sexual
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Dusam Zidar/Shutterstock

Praça da Catedral, em Havana, uma das cidades visitadas pelo poeta surrealista espanhol Federico García Lorca durante os três meses que passou em Cuba, em 1930, vindo dos Estados Unidos

LAURA CAPRIGLIONE
ENVIADA ESPECIAL A MATANZAS(CUBA)

Não há lugar no mundo que mais cultue a lembrança de Federico García Lorca (1898-1936) do que Cuba. O prestígio do poeta e dramaturgo andaluz do “verde que te quiero verde”, que foi assassinado por militantes franquistas logo depois da deflagração da Guerra Civil Espanhola, resiste na ilha dos irmãos Castro.
É o escritor estrangeiro mais lido e representado, apesar da declarada preferência dos hierarcas comunistas pelo americano Ernest Hemingway (1899-1961), que chegou a morar na ilha.
Lorca passou meros três meses na ilha, no ano de 1930. Nas palavras do pesquisador Urbano Martínez Carmenate, 54, professor de língua e literatura hispano-cubana da Universidade Camilo Cienfuegos de Matanzas, foi uma visita que “contaminou o país” -tão intensa, com o poeta vivendo em tanta liberdade e gozando de tanto sucesso, que já se disse que, em Cuba, cada um tem o seu Lorca.
“García Lorca y Cuba - Todas las Aguas” (264 págs., 16,80), de Martínez Carmenate, tenta explicar a recíproca fascinação a partir do que chama de “biografia de uma visita”.
Para isso, o pesquisador vasculhou a correspondência entre Lorca e intelectuais cubanos, refez o percurso do escritor pela ilha, reconstruiu, a partir da cobertura da imprensa, o entusiasmo local com as conferências e récitas do poeta.
A Folha encontrou Martínez Carmenate em seu apartamento, um quarto e sala inundado de livros e luz, na tarde quente e úmida em Matanzas (100 km a leste de Havana), conhecida como a “Atenas cubana” por sua intensa vida cultural.
Um computador recém-retirado da caixa brilhava novinho em folha na sala (a universidade tinha acabado de entregá-lo). “Não terá acesso à internet”, ele me explica, sem parecer incomodado com o fato de a ilha ainda ser um dinossauro em termos tecnológicos. “Mas conseguirei me ligar à intranet de Cuba”, diz.
Martínez Carmenate explica que “Todas as Águas” só foi possível graças a amigos e ao Patronato Cultural Federico García Lorca de la Diputación de Granada, que, da Espanha, mandavam-lhe pelo correio convencional livros e cópias de documentos e jornais.
Tudo foi sendo meticulosamente anotado a lápis em fichas e, daí, sistematizado no original manuscrito. Provavelmente como o próprio Lorca e seus contemporâneos fariam.
Ao lado da poltrona do escritor, vê-se um grande cinzeiro transformado em recipiente de borrachas e lápis.
O livro foi publicado pelo Patronato, na Espanha, e pelo Centro de Investigação e Desenvolvimento da Cultura Cubana Juan Marinello, em Havana. Embora seja um dos mais abrangentes estudos já feitos sobre a estada do poeta andaluz em Cuba, permanece praticamente ignorado, pelo difícil acesso à obra e ao escritor.
Martínez Carmenate trabalha no Museo Provincial Palacio de Junco, em Matanzas, e é presidente do Consejo Científico de la Dirección Provincial de Cultura.
Ele também dá aulas de cultura cubana na Escola de Arte (nível médio) de Matanzas. Só saiu de Cuba uma vez, para trabalhar em Angola, entre 1988 e 1989. Nunca foi à Andaluzia de Lorca.
Leia a seguir trechos da entrevista.

FOLHA - Como é possível hoje em dia escrever um livro de pesquisa sem a ajuda da internet?
URBANO MARTÍNEZ CARMENATE - Meu método de trabalho foi, em primeiro lugar, buscar toda a bibliografia, tudo o que foi escrito pelos contemporâneos cubanos sobre o impacto da visita de Lorca. Escreveu-se muito sobre o que aconteceu em Santiago de Cuba, em Havana, sobre a viagem a Cienfuegos.
Sobre Matanzas quase não se disse nada.
Houve necessidade de levantar tudo o que saiu na imprensa. Surgiram novas cartas, recém-descobertas, na Espanha. E assim como era epistolar o contato entre Lorca e seus amigos, também foi epistolar o contato com meus informantes e colaboradores.
Sempre que saía algo novo sobre Lorca, eu escrevia a meus amigos na Europa e lhes pedia que me enviassem. Vinha pelo correio.
Esse trabalho foi feito de segunda a segunda; manhã, tarde e noite, durante dois anos. Sem computador, escrito a lápis. O computador só chegou aqui em casa há um mês e meio -e não tem conexão com a internet.
Só tenho o que se chama de intranet.

FOLHA - Por que García Lorca foi para Cuba?
MARTÍNEZ CARMENATE - A atração entre o poeta e Cuba é bem anterior a sua chegada a Havana, em 7 de março de 1930. O intelectual cubano Juan Marinello (1898-1977) lembrava-se de escutar Lorca lhe contar sobre o fascínio que tinha, ainda criança, pelas tampas das caixas de charutos cubanos que chegavam a Fuentevaqueros (onde Lorca nasceu) para abastecer o negócio de seu pai, que era importador.
As litogravuras coloridíssimas carregadas de palmeiras, plantações, céus pintados de turquesa, medalhas de ouro o faziam sonhar com uma Cuba distante e onírica.
Além disso, havia as famosas “habaneras”, o primeiro ritmo autenticamente cubano a ser exportado para a Europa e que o menino Lorca escutava nas vozes de uma tia e uma prima.
Cuba era a ilha do sol ardente, da sensualidade e do ritmo.
E houve o contato, já na juventude, com intelectuais cubanos, entre os quais se destava José Maria Chacón y Calvo, que se tornou um amigo querido e que o colocou em contato com poetas da ilha.

FOLHA - Como ele chegou aqui?
MARTÍNEZ CARMENATE - Ian Gibson, o mais importante biógrafo de Lorca, diz que o poeta saiu da Espanha naquele ano de 1929 muito desesperado do ponto de vista amoroso -estava apaixonado por um pintor, em um relacionamento muito tumultuado, e decidiu sair.
Depois de um período curto na Inglaterra e na França, chegou a Nova York, onde estudou na Universidade Columbia, fez conferências e andou pelos bairros miseráveis da cidade pós-tragédia social do crack na Bolsa de Nova York.
Uma experiência intensa, que serviu de base para “Poeta em Nova York”, que ele provavelmente concluiu durante sua estada em Cuba.
Foi um convite da Instituição Hispanoamericana de Cultura para apresentar-se em Havana que levou Lorca à ilha. Chegou mais calmo do que estava ao sair da Espanha.

FOLHA - “Poeta em Nova York” é, entre outras coisas, uma denúncia contundente da opressão capitalista, principalmente aquela é exercida contra os negros. Em sua opinião, qual é a contribuição da estada de Lorca em Cuba para sua obra e sua visão de mundo?
MARTÍNEZ CARMENATE - Existe um mito envolvendo essa viagem: o de que Lorca teria fugido dos EUA e ido para Cuba porque se sentia oprimido naquela que ele mesmo chamou de “cidade mais atrevida e mais moderna do mundo”.
Chamo de mito, mas, na verdade, é apenas uma idéia demasiadamente simplista. Lorca envolveu-se com aquela “babilônia trepidante”: “Em três de seus arranha-céus, caberia Granada inteira”, disse.
Ele viu a tragédia social acontecendo, em particular com os negros. Mas Lorca sabia, antes de ir para os EUA, aonde estava indo. Em carta a um amigo, disse: “Nova York me parece horrível, mas por isso mesmo vou para lá”. A viagem a Cuba, assim, não foi uma fuga, mas uma escala a mais.

FOLHA - Mas em que essa estada em Cuba influiu sobre ele?
MARTÍNEZ CARMENATE - Era um sonho conhecer Cuba -o mesmo que acontecia com muitos espanhóis. Ele se entusiasmou com o sotaque da ilha e exerceu uma liberdade sexual como jamais havia conhecido. Lorca foi muito livre aqui. Não há registro de nenhuma reprovação a sua conduta sexual.
E veja, em Cuba, como na Espanha, vivia-se um período de forte anti-homossexualismo, de repressão e machismo puro.
Mas, ambígua como sempre foi a sociedade cubana, ninguém se intrometia com ele, ninguém o discriminou.

FOLHA - Desse ponto de vista, afetivo e sexual, pode-se dizer que a estada em Cuba serviu como uma liberação, já que o próprio Lorca se referiria ao período como “o mais feliz” de sua vida? Poemas como “Ode a Walt Whitman” podem ser vistos como prova de que ele passou a tratar a homossexualidade mais abertamente após a viagem a Cuba?
MARTÍNEZ CARMENATE - Sem dúvida, muito da sensação de estar em casa, que Lorca viveu em sua estada cubana, tem a ver com o contraste com o que ele viveu nos EUA. A sociedade cubana sempre foi mais aberta, e Cuba foi um dos primeiros países a aceitar o divórcio, ainda nos anos 1920. Sempre esteve um pouco adiante em termos comportamentais.
O Lorca que saiu de Cuba era outro em comparação com o que aqui chegou. Isso se deu principalmente em relação a sua homossexualidade. Ele não apenas viveu mais livremente aqui, mas, de certa maneira, se tornou também mais disposto a viver sua homossexualidade.
E concordo com você: “Ode a Walt Whitman” [leia trecho na pág. ao lado] certamente é exemplo disso.

FOLHA - Assim, pode-se ver as viagens a Nova York e a Cuba como complementares e dialéticas -muito crítico com uma, muito condescendente com a outra?
MARTÍNEZ CARMENATE - Repito: considero uma politização vulgar, chauvinista, analisar a obra do poeta como se ele fosse um repórter de seu tempo. Antes de tudo, ela deita raízes em questões existenciais.
Veja, em Nova York chegou um homem amorosamente atormentado.
Aqui, Lorca passou apenas três meses, mas foram três meses em que fez maravilhas. Foi a Santiago de Cuba. Foi ao interior, a Cienfuegos, veio até Matanzas, passou por Pinar del Río, freqüentou os salões de Havana: Lorca se moveu muito, sentiu-se à vontade.
Em uma carta endereçada aos pais, escreveu: “Si mi pierdo, que me busquen en Cuba o en Andaluzia”. Foi um amor imediato, feito em grande parte de similitudes e paralelos.

FOLHA - Por exemplo…
MARTÍNEZ CARMENATE - Lorca logo descobriu como a arquitetura de Havana se parecia com a andaluz, com seus solares voltados para pátios centrais. Isso é tipicamente andaluz.
Ele adorava entrar pelos pátios das casas e dizer: “Estou na Andaluzia; estou em Granada, em Cádiz”. É uma identidade forte, com origem histórica: a colonização cubana foi grandemente influenciada pelos andaluzes, que aqui chegaram com os catalães e canários.

FOLHA - Como a Cuba de hoje trataria o homossexual García Lorca?
MARTÍNEZ CARMENATE - Hoje, existe propaganda pública pela TV, em outdoors, a favor do reconhecimento dos direitos dos homossexuais e contra a discriminação. A própria filha do presidente Raúl Castro [Mariela Castro] é a diretora do Centro Nacional de Educação Social, uma entidade financiada pelo governo, que luta pelos direitos das minorias.
Ela é a primeira defensora histórica dessa causa. Inclusive, propiciou recentemente a celebração da união civil de duas mulheres homossexuais.
Acho que estamos avançando muito rapidamente nessa área.

FOLHA - Como era a vida dele aqui?
MARTÍNEZ CARMENATE - O que se sabe a respeito é o que ficou documentado na correspondência, nos jornais ou nas recordações de contemporâneos, em geral escritores pertencentes aos estratos da alta burguesia, como o amigo José Maria Chacón y Calvo.
Mas existem grandes lacunas nesse material, sugerindo momentos em que o poeta mergulhou na Cuba dos pobres. Aqui em Matanzas, por exemplo, sabe-se que ele ia freqüentemente a casas de negros.
Essa relação com a gente do povo o encantou. Era a época do movimento “sonero”, gênero musical popular mais acelerado que a canção, e que começava a se expandir pela Europa. Fascinado pelo som, Lorca, que tinha sólida formação em música, perdia-se nos chamados “choris”, que nada mais eram do que cabarés improvisados, em que se ouvia e dançava música tocada por orquestras de músicos negros. Lorca se impressionou muito e mergulhou nisso.

FOLHA - Como a descoberta da música negra se relaciona com suas experiências vanguardistas?
MARTÍNEZ CARMENATE - Cuba já conhecia Lorca. Por isso, ele recebeu o convite do presidente da Instituição Hispano-Cubana de Cultura, que pretendia estreitar os laços entre os dois países. E sua presença aqui foi um sucesso de público.
Ele tinha um encanto muito especial. Apesar de não ser um sujeito bonito fisicamente, tinha graça, era capaz de ver a poesia em qualquer parte (aliás, como era típico dos surrealistas, que conseguiam tirar poesia de qualquer fato).
Já havia nele a tendência progressista, ao chegar a Cuba.
Sempre tomou partido dos pobres -solidarizou-se inclusive com uma greve de telefonistas, que o impediu de manter contato com sua família. Nada mais natural, assim, do que buscar a fusão de sua poesia com a tradição popular.

FOLHA - Como fez isso?
MARTÍNEZ CARMENATE - Derivada do vanguardismo, a poesia de Lorca estava passando sua etapa de experimentação concreta, para desembocar no chamado neopopularismo, cuja idéia era sair em busca dos elementos populares -os “Poemas Gitanos” são exemplo disso, a partir dos elementos da cultura tradicional cigana.
Em Cuba, essa experimentação serviu de inspiração para a busca dos componentes negros da cultura cubana -ia-se em busca da extração “negrista”, “afro-cubana” ou “mulata”, típica da cultura cubana.

FOLHA - Como esse “negrismo” se manifestou na poesia?
MARTÍNEZ CARMENATE - Lorca ficou impressionado com a poesia de Nicolás Guillén (1902-89), que publicou “Los Motivos de Son” no mesmo ano em que ele chegou a Cuba. Nos “Motivos”, os negros falavam com suas próprias vozes (e não por acaso: o próprio Guillén era mestiço e conhecia o modo de falar do negro pobre cubano).
Para Lorca, foi um deslumbramento a aventura de transformar o som em poema. No poema chamado “Negro Bembón”, por exemplo, Guillén escreve:
“¨Po qué [ele fala “po qué”,
em vez de “por que”] te pone
tan brabo,/
cuando te disen negro
bembón,/
si tiene la boca santa,/
negro bembón?”
Guillén penetrou no modo de expressão dos negros, expressando-se como eles, fazendo dela uma forma de poesia.

FOLHA - Quem é García Lorca para o cubano médio? Suas poesias e suas peças são ensinadas na escola?
MARTÍNEZ CARMENATE - Sim, as escolas ensinam Lorca. Mas, mais do que isso, Cuba vive Lorca. Comprovadamente, ele tem mais edições em Cuba do que Ernest Hemingway.
Até a década de 1990, o Gran Teatro de La Habana se chamava Federico García Lorca, uma homenagem incrível. Nem a Espanha tinha um teatro chamado García Lorca. Depois de uma reforma, a principal sala de danças do Gran Teatro recebeu o nome do poeta.
E seus poemas também ficaram muito populares porque vários deles receberam melodias feitas por músicos cubanos. Lorca ainda hoje é o dramaturgo estrangeiro mais representado em Cuba.
No centenário de seu nascimento, comemorado em 1998, republicaram-se muitos livros dele. Ele é sempre alvo de um vivo interesse em Cuba.

FOLHA - O sr. descreve com estranhamento um aspecto da Cuba dos anos 30: “Os produtos mais anunciados levam nomes de fonética estrangeirizante: “Flit”, contra mosquitos e baratas; navalhas “Kirby Beard”
ou “Gillette”, para “o barbear perfeito’; “Colgate”, creme dental; relógio “Westclox” (…)” e outros.
MARTÍNEZ CARMENATE - (interrompendo) Já sei. Você vai me dizer que é assim em qualquer lugar do mundo ocidental, não é? OK. Mas eu sou cubano.

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Kassab usa prefeitura para tentar influir no Datafolha

Procedimentos de controle impedem influência no resultado, diz instituto de pesquisa

Prefeito manda e-mail para subprefeitos pedindo ação em locais onde a pesquisa seria feita, mas alega que era para evitar “maldades”

Leo Caobelli/Folha Imagem

O prefeito Gilberto Kassab (DEM), em visita a hospital no bairro Campo Limpo, em São Paulo

RENATA LO PRETE
EDITORA DO PAINEL

E-mail obtido pela Folha mostra que Gilberto Kassab (DEM) acionou pessoalmente a máquina da prefeitura na tentativa de influir no campo do mais recente Datafolha sobre a sucessão paulistana, no qual aparece em terceiro lugar, com 11%, atrás de Marta Suplicy (PT, 36%) e Geraldo Alckmin (PSDB, 32%).
Os resultados foram divulgados na noite de quinta-feira passada, 24 de julho. Às 19h02 de terça, 23, ao fim do primeiro dos dois dias de campo, Kassab enviou mensagem a 26 subprefeitos pedindo que, no dia seguinte, realizassem “ação” uma vez “identificado o ponto” onde os entrevistadores do instituto abordariam eleitores.
O prefeito confirma ter mandado o e-mail, mas nega que o objetivo tenha sido melhorar seu desempenho na pesquisa -na qual recuou dois pontos.
Segundo ele, tratou-se de “ação preventiva” para “evitar maldades”. Seus auxiliares teriam conhecimento de que “pessoas ligadas ao PT” costumam provocar tumultos de trânsito e outros em locais supostamente próximos aos visitados pelos entrevistadores de modo a prejudicar a percepção do público a respeito da administração.
“É impossível que eventos do gênero descrito pelo prefeito influam sobre os resultados do Datafolha, seja pela forma como são feitas as entrevistas, seja pelos posteriores procedimentos de controle”, afirma Alessandro Janoni, diretor de pesquisa do instituto (leia na pág. A8 texto explicativo sobre a metodologia utilizada). “Se ele suspeitava de ação indevida por parte dos adversários, deveria ter recorrido à Justiça Eleitoral, em vez de adotar as mesmas práticas.”
No e-mail, Kassab orienta os subordinados a intervir “principalmente no período da manhã”, que concentraria maior número de entrevistas, “mas também no período da tarde”.
O teor da mensagem indica que o prefeito havia dado a mesma determinação antes do primeiro dia do campo. A “ação”, escreveu, deveria ser feita “assim como hoje, onde alguns [pontos de entrevistas] foram identificados”. “Seria ótimo se acontecesse amanhã.”
Em obediência à legislação eleitoral, as datas de realização do campo são registradas no TRE, que as torna públicas.
A pesquisa que o prefeito tentou influenciar por meio de uso da máquina registrou recuo de dois pontos em sua intenção de voto na comparação com o Datafolha anterior, divulgado em 6 de julho.
Também dentro da margem de erro do levantamento, oscilou um ponto para cima sua taxa de rejeição, hoje em 31%. Após queda brusca no início deste mês, a aprovação do governo Kassab moveu-se dois pontos percentuais para cima (35% dos entrevistados consideram a gestão ótima ou boa). A nota média dada à administração também se mostrou estável: foi de 5,3 para 5,2. Alçado do posto de vice ao de prefeito há dois anos e cinco meses, quando José Serra (PSDB) saiu para disputar o Palácio dos Bandeirantes, Kassab se lançou à reeleição com o apoio não-oficial mas evidente do governador, que trabalhou o quanto pôde pela manutenção da aliança demo-tucana em São Paulo. Alckmin, porém, desde sempre mais bem posto nas pesquisas, terminou por impor sua candidatura.
Embora aliados repitam que somente a campanha de televisão, a partir de meados de agosto, poderá alavancar Kassab -dono de um tempo de tela muito superior ao dos adversários por força da coligação com o PMDB-, é enorme a pressão para que a candidatura produza alguma reação imediata, que ao menos arranhe a polarização Marta-Alckmin. A estagnação estimula a debandada, para o lado de Alckmin, de tucanos até recentemente computados como kassabistas. O PSDB controla 21 das 31 subprefeituras e 15 das 22 secretarias municipais.

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Colaborou JOSÉ ALBERTO BOMBIG, da Reportagem Local

Folha de S. Paulo - 26 de julho de 2008

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