Arquivo de Agosto de 2008

Militares da ditadura são condenados à prisão perpétua

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Repressores se justificaram dizendo que suas práticas no poder faziam parte de uma “guerra contra a subversão marxista”

Julgamento de repressores argentinos chega à etapa final.

Análise:Todas as acusações são certas

Os ex-generais argentinos Antonio Bussi e Luciano Menéndez foram condenados hoje à prisão perpétua pelo seqüestro, torturas e desaparecimento do senador peronista Guillermo Vargas Aignasse, durante a última ditadura militar na Argentina (1976-1983).

Esta é a primeira condenação por crimes de lesa-humanidade recebida por Bussi, de 82 anos, que foi governador da província de Tucumán (noroeste da Argentina) durante o regime militar e a democracia (1995-1999).

No entanto, o Tribunal Oral Criminal Federal de Tucumán concedeu o benefício da prisão domiciliar a Bussi, gerando confrontos entre membros das forças de segurança e de organizações humanitárias e partidos de esquerda.

Durante o julgamento, os militares se justificaram dizendo que suas práticas no poder faziam parte de uma “guerra contra a subversão marxista”. Eles também são indiciados por centenas de crimes de lesa-humanidade. Em sua fala, Bussi sustentou que a detenção de pessoas depois do golpe de 24 de março “somente tinha como objetivo neutralizar possíveis opositores à consolidação política da Junta de Comandantes, e não torturá-los nem, muito menos, matá-los”.

O repressor Luciano Benjamín Menéndez insistiu que a Argentina “padeceu uma guerra, de 1960 em diante, impulsionada pela subversão, contra governos de todos os símbolos políticos”. “É falso o que vêm sustentando os subversivos marxistas de então, já que chamam repressão ilegal as operações defensivas das forças legais e de todos os governos, desde (Humberto) Illia, (Arturo) Frondizi e (José María) Guido até (Juan Domingo) Péron”, afirmou Menéndez.

Bussi já havia admitido perante o tribunal, em 8 de agosto, que as acusações feitas a ele por vítimas sobreviventes, familiares de desaparecidos e mortos e organismos de direitos humanos sobre o terrorismo de Estado no país, eram certas. (Com informações de agências internacionais

Por: Beasil de Fato
Foto: www.elpais.com

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“Ruptura com o capitalismo é uma necessidade”

• Waldemar Rossi, 69 anos, casado, pai de 5 filhos, metalúrgico aposentado, é militante ativo da Pastoral Operária e participa do Comitê Municipal contra Alca em São Paulo. Rossi orgulha-se em lembrar que tem 47 anos de militância operária. Entre as principais passagens da sua trajetória militante, estão a de fundador da oposição metalúrgica de São Paulo e a participação da fundação da CUT. Rossi esteve no seminário e, nessa entrevista ao Opinião Socialista, fala sobre a crise do capitalismo, os desafios para os trabalhadores e a política eleitoral da direção do PT.

Crise econ  mica - Crise econ  mica
Opinião Socialista — Nós estamos assistindo um agravamento da crise da economia mundial, particularmente nos Estados Unidos, com reflexos aqui no Brasil. Diante desta situação, quais são na sua opinião os desafios para os trabalhadores brasileiros?

Rossi – Minha visão sobre isso tudo é a seguinte: historicamente o modelo de capitalismo industrial, sobre o trabalhão assalariado, chegou ao fim.Ele não responde mais ao que prometeu há 100 anos atrás. Esse modelo não tem mais condições de garantir a inclusão social, o bem-estar social, emprego e salários, enfim, tudo isso dançou.

Ainda que o capitalismo consiga um novo período de crescimento, ele será excludente porque a tecnologia desenvolveu-se demais, o que traz exclusão, menos emprego, pois esse desenvolvimento da tecnologia sob o capitalismo exclui mão-de-obra.

Na minha avaliação o modelo capitalista não pode mais ser referência do trabalho. O desafio é mudar o conceito de trabalho e de luta, que deve assumir diversas formas.

“A ruptura com o capitalismo tem de ser no mundo”

OS – O que significa esse novo conceito? Em que isso implicaria?

Rossi – Implica, em primeiro lugar, em uma necessária ruptura com o capitalismo, particularmente nos países pobres. A ruptura com o capitalismo tem de ser no mundo, as formas podem ser diferentes, porque há diferenças claras entre o capitalismo nos países ricos e nos países pobres. Por exemplo, nos países subdesenvolvidos é preciso priorizar políticas sociais públicas, ou seja, política agrária, habitacional, saúde, educação, meios de transporte, infra-estrutura. Políticas de bem-estar social em relação à carceragem, aos drogados, à mulher e aos idosos. Ao lado disso, necessitaríamos um projeto para o movimento sindical combativo, uma perspectiva de ruptura com o capitalismo implica em construir um pacto social “às avessas” que beneficie o trabalho e que garanta pelo menos a redução da jornada de trabalho para impedir o crescimento do desemprego.

OS – Essas políticas públicas também gerariam empregos de forma mais abrangente que a redução da jornada de trabalho?

Rossi – Sim, claro, só a redução da jornada de trabalho não resolve. Claro que um plano de políticas públicas, construção de mais hospitais, escolas, infra-estrutura etc também vai gerar trabalho Mas quero voltar ao tema do conceito de trabalho, ele tem que ser outro, ampliado, o trabalho social, que gera vida ou recupera vidas também é trabalho. Recuperar presos e dependentes de drogas para a sociedade é gerar trabalho e vida. E isso pela simples razão de que o capitalismo é gerador de morte, exclusão e fome.

Pode não parecer uma linguagem revolucionária, mas é. Afinal, o que são as idéias socialistas senão o resgate da vida plena?

OS – E como você localizaria esse debate de ruptura com o capitalismo dentro do atual debate eleitoral na esquerda brasileira? Gostaríamos que você abordasse esse senso comum que existe em parte da esquerda, de que Lula, na verdade, estaria enganando os inimigos com declarações que não são o que ele vai fazer quando for presidente, como é o caso do pagamento da dívida externa.

Rossi – Essas declarações de Lula são muito infelizes, porque não dá para se ter dois discursos. A direção do PT deveria ter posições definidas. O discurso ambíguo vai contra a credibilidade em boa parte até da nossa base social.

Ele não tem o direito de fazer isso porque um bom programa social não se viabiliza sem a ruptura com o modelo atual, com o FMI, a dívida externa.

Portanto, Lula não tem o direito de dizer que vai ter um programa social mantendo o pagamento da dívida externa, porque isso vai terminar em uma traição histórica ao povo, como já é essa dívida externa, que é ilegítima.

OS – A aliança com o PL não guarda certa coerência com o atual discurso da direção do PT?

Rossi – É a mesma história sobre para quem você vai ser leal. Se o Lula for levar a sério essa aliança não vai sair um governo que preste para os trabalhadores. Se Lula ganhar as eleições e não colocar em prática a ruptura com esse modelo e governar com o capital ele estará enterrando historicamente o papel do PT como um agente de mudanças.

“Se Lula ganhar e não romper com o modelo, estará enterrando o papel do PT como agente de mudanças“

OS – Esse fim do papel histórico do PT colocaria para a esquerda brasileira o debate de perseguir uma nova alternativa política, um novo partido?

Rossi – Sem dúvida, a busca de um instrumento político alternativo, de luta, vai estar colocado na discussão de todo o movimento social diante dessa renúncia da direção do PT em cumprir um papel de agente transformador. Essa questão estará colocada, pois ninguém engana todo mundo o tempo todo e se o caminho da direção majoritária do PT prevalecer, ficará explícito que vamos precisar de outro instrumento.

OS – Por fim, você esteve presente no seminário de programa organizado para discutir o programa de uma candidatura socialista. Você gostaria de fazer alguma consideração sobre a iniciativa do PSTU de ter uma candidatura própria?

Rossi – Gostaria de reafirmar o que já disse antes, a atitude é coerente e corajosa. Os companheiros que lançaram uma candidatura na esquerda, além do Lula, sabem que ela não é alternativa em termos de peso popular nas eleições. Para mim, ela tem o mérito de ser um sinal de protesto a esse rumo imposto pela direção do PT, de apostar em construir uma política alternativa e de contribuir para o desenvolvimento de uma consciência crítica.

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Waldemar Rossimetalúrgico aposentado, é militante ativo da Pastoral Operária e participa do Comitê Municipal contra Alca em São Paulo

Por: Jornal Opinião Socialista

Ilustração: precodosistema.blogspot.com

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Disputa no reino de Deus

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A recente notícia de que uma igreja evangélica comprou 22 horas diárias do Canal 21, da Rede Bandeirantes de Televisão, passou quase despercebida. O fato é visto como rotineiro, dado o espantoso crescimento no País do movimento neopentecostal, representado por denominações que enfatizam os dons do Espírito Santo por meio de curas milagrosas em rituais espetaculosos. Os evangélicos hoje já somam 30 milhões de fiéis e representam 17% da população. No Censo de 1991, eram 13,7 milhões.

Mas quem se incomodou nas últimas duas décadas com o crescimento da Igreja Universal do Reino de Deus, chefiada pelo bispo Edir Macedo, prepare-se: a dona da nova programação do Canal 21, a Igreja Mundial do Poder de Deus, é uma espécie de dissidência da Universal e cresce vertiginosamente como a sua principal concorrente. Tem sonhos de grandeza semelhantes.

Fundada há dez anos, a igreja desbancou a PlayTV, da Gamecorp, empresa de jogos para celular e tevê que tem como sócio Fábio Luís Lula da Silva, o filho do presidente Lula. A PlayTV era a responsável pela grade do Canal 21 e rivalizava com a MTV. Os valores do contrato por cinco anos com a Bandeirantes não foram revelados, mas giram em torno de 3 milhões de reais mensais. A Mundial já paga cerca de 1 milhão de reais à RedeTV! para veicular programas diários das 5 às 8h30 da manhã. No momento, mantém negociações com uma terceira emissora.

Por: Carta Capital

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As mil faces do HIV

Drauzio Varella

HIV - HIV

O vírus da Aids nasceu na África. Estudos genéticos conduzidos nos últimos vinte anos demonstraram que as origens do HIV-1, causador da maioria esmagadora dos casos mundiais de Aids, remntam a ancestrais que infectavam primatas não-humanos.

O progenitor do HIV-1 deve ter sido o SIVcpz, vírus que infectou diversas populações de chimpanzés em comunidades isoladas, no sul de Camarões. Provavelmente, o SIVcpz foi transmitido, por meio do sangue desses chimpanzés, para caçadores que com eles entraram em contato.

Análises filogenéticas do HIV-1 sugerem que três eventos genéticos independentes, ocorridos no início do século XX, deram origem aos três grupos de HIV-1 já descritos: M, N e O.

É provável que os primeiros seres humanos tenham sido infectados ao longo do rio Congo, a caminho de Kinshasa, no Congo. Nessa região, foi documentada a presença do HIV numa amostra de sangue colhida e congelada em 1959. É o caso mais antigo que se conhece. As estratégias de sobrevivência mais surpreendentes do HIV são a capacidade de multiplicação rápida e a de sofrer mutações. À custa delas, o vírus enfrenta as adversidades do meio externo, e faz de tudo para escapar das investidas do sistema imunológico do hospedeiro e dos medicamentos usados para eliminá-lo.

O HIV se multiplica em velocidade alucinante. No organismo infectado, em condições habituais, são produzidos 10 bilhões de novos vírions (partículas de vírus) em um único dia. Nesse processo surgem milhões de variantes geneticamente distintas das que lhes deram origem.

Quando uma mesma pessoa é infectada por duas dessas variantes ao mesmo tempo, pode ocorrer a recombinação, um processo segundo o qual os genes das duas variantes se juntam e se separam em combinações de alta complexidade.

Só para dar idéia da biodiversidade resultante dessa versatilidade, tomemos o grupo M, responsável pela maioria das infecções mundiais por HIV. É tamanho o distanciamento genético entre as diversas cepas que fazem parte do grupo M, que os virologistas costumam dividi-las em subtipos designados com letras e números: A1, A2, A3, A4, B, C, D, F1, F2, G, H, J e K.

Dentro do mesmo subtipo as disparidades genéticas atingem 15% a 20%. De um subtipo para outro, 25% a 35%. Se lembrarmos que menos de 3% de nossos genes nos distinguem dos chimpanzés, e que 30% nos diferenciam dos camundongos, podemos avaliar o que representam esses números.

Cada subtipo vai interagir de forma singular com seu hospedeiro. Da facilidade para invadir as mucosas, à penetração no núcleo das células e à emergência de novos vírions pela membrana da célula infectada, todas as fases do ciclo biológico do HIV serão afetadas pelas características genéticas de cada subtipo.

Um estudo realizado com mulheres quenianas grávidas mostrou que é mais fácil detectar a presença do HIV na vagina das portadoras do subtipo C, do que naquelas infectadas pelos subtipos A ou D, sugerindo que a transmissão sexual do vírus C seja mais freqüente. Embora haja resultados discordantes, é provável que diferentes subtipos possam acelerar ou retardar a progressão para Aids. Em Uganda, o acompanhamento de 1.045 pacientes revelou que a doença evoluía mais rapidamente para as fases finais nos portadores do subtipo D, do que no A.

A sensibilidade de cada subtipo à ação das drogas antivirais tem provocado debates. A maioria dos estudos, no entanto, mostra que não existem desigualdades significantes.

As diferenças que parecem existir devem-se aos padrões de resistência do vírus às drogas mais empregadas.

As mutações que conduzem à resistência são semelhantes nos diversos subtipos, mas determinadas mutações são mais encontradas em subtipos não-B.

O grau de variabilidade genética do HIV é o maior de todos os desafios para chegarmos a uma vacina de eficácia internacional, que seja capaz de induzir imunidade duradoura contra todos os subtipos, apesar da incrível variabilidade genética existente entre eles.

Por: Carta Capital
Ilustração: Carta Capital

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Qual o valor de uma medalha?

Juca Kfouri acredita que cada medalha ganha, afasta o país do ideal de estabelecimento de um projeto cidadão de desenvolvimento do esporte

Juliano Domingues,
de São Paulo (da Radiogência NP)

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O Brasil carece de um projeto para o desenvolvimento do esporte no país. A conclusão aparece após a análise da atuação do país nas Olimpíadas de Pequim e do desempenho brasileiro nas várias modalidades esportivas em que disputou medalhas.

O jornalista Juca Kfouri compartilha da idéia de que é preciso um projeto de desenvolvimento do esporte. No entanto, ele cita a necessidade de se vincular este projeto à visão de bem estar, saúde pública e educação.

Em entrevista à Radioagência NP, ele critica atuação do país em Pequim, mas não por causa do número de medalhas conquistadas. Muito pelo contrário, Juca acredita que cada medalha ganha, afasta o país deste ideal de estabelecimento de um projeto cidadão de desenvolvimento do esporte.

Radioagência NP: As Olimpíadas podem servir como ferramenta para medir o desempenho do esporte no Brasil?

Juca Kfouri: Depende do que você valoriza. Eu tenho a teoria de que cada medalha do Brasil apenas torna mais distante a meta de que o país tenha uma verdadeira política esportiva, porque [com cada medalha] fica todo mundo eufórico e isso esconde todas as nossas carências. O Brasil é um país que pelas suas carências em saúde pública, lazer e educação, não tem o direito de almejar ser uma potência olímpica. O Brasil tem que pensar em esporte como fator de inclusão social, como fator de educação e saúde pública. Segundo a Organização Mundial de Saúde [OMS], cada dólar investido em esporte economiza três em saúde. Feito isso você estabelece uma política esportiva. O que nós temos que fazer primeiro é cumprir o que está na Constituição. Ou seja, é dever do Estado prover esporte para o cidadão.

Existe essa confusão em analisar o que existe por trás de uma medalha na olimpíada. Um exemplo foi a vitória do nadador César Cielo. Ele viveu uma realidade diferente da maioria dos esportistas brasileiros, ou não?

Ele na verdade é um nadador dos EUA [que nasceu no Brasil]. Tanto é verdade que você pega o caso do Thiago Pereira que foi o grande nadador dos Jogos Panamericanos, e ele não tem a menor condição de lutar por uma medalha [nas Olimpíadas], mas ele treinou aqui esse tempo todo. Ao passo que o Cielo nadava todo final de semana ao lado do Michael Phelps. Então ele [Cielo] não tem nada a ver com o esporte brasileiro, assim como o Guga [tenista]. O que era o Guga? Por acaso ele é fruto de uma política para o esporte brasileiro? Não, o Guga é fruto de si mesmo. É um fenômeno da natureza. Eu acho que a visão cidadã da prática esportiva no Brasil é antes de tudo ver as nossas crianças se exercitando nas suas comunidades. Os dados do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] mostram que apenas 12% das escolas municipais possuem quadras esportivas e isso não significa que elas tenham professor de educação física. Então veja você se faz sentido a gente ficar discutindo número de medalhas.

Logo após as Olimpíadas, o ministro dos esportes, Orlando Silva, tornou a falar em leis de incentivo para esporte. Mas isso é complicado porque delega para empresas privadas a tarefa de investir, fato que gera a concentração de recursos nas instituições que têm mais visibilidade. Fale sobre isso um pouco.

Isso é oficial. Pegue aí quem mais se beneficiou da lei de incentivo do esporte até hoje. Pela ordem, São Paulo Futebol Clube, para terminar o seu segundo centro de treinamento em Cotia (SP), depois o Minas Tênis Clube, também para obras do seu alojamento e afins. Veja que eu não tenho nada contra o fato de que quem esteja trabalhando direito, seja devidamente incentivado. Mas o que eu quero dizer é que não pode ser prioritariamente o São Paulo a receber dinheiro de incentivo e não o grupo escolar de um lugar qualquer. É essa a inversão de valores que faz com que tenha recursos aquele que conhece o “caminho das pedras”, que tem o melhor despachante e que também tem o cara que o ministro do esporte ou presidente da república recebe.

No Brasil há uma visão do esporte como ferramenta para afastar a infância da criminalidade. Isso não é meio incompleto? Pois foca a atividade apenas numa época da vida da pessoa, como uma ferramenta paliativa pra solução de problemas e sem perspectivas de profissionalização futura.

Tem uma grande demagogia aí que é você dizer que dando esporte, as pessoas se afastam das drogas. Seria desejável que realmente fosse assim. É evidente que quem se preocupa mais com o corpo, tende menos a se drogar, mas ao mesmo tempo a gente não pode se negar em dizer que o esporte de competição e de alto rendimento, não só não faz bem pra saúde, porque exige demais do corpo, como são inúmeros os casos de grandes campeões, que exatamente por terem sido grandes campeões, acabam se drogando pra sustentar suas cabeças que não foram preparadas pra isso. Isso sem falar no dopping, que é uma maneira de se drogar. Então esse discurso tem uma certa falsidade.

Por: Brasil de Fato
Desenho: www.saofranciscoxavier.net

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Documento base l Fórum Mídia livre

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Entre os próximos passos do l Fórum Mídia Livre, que aconteceu no Rio de Janeiro (RJ) entre 14 e 15 de junho, estão: Realizar encontros de Mídia Livre em todos os Estados no segundo semestre de 2008, integrar a Comissão Pró-Conferência Nacional de Comunicação e lançar Campanha pela Democratização das Verbas Publicitárias.

Além do documento base, que você pode ler logo abaixo, Fórum lançará um manifesto até dia 25 de junho. O encontro construirá ainda uma carta de princípios que será aprovada no Fórum Social Mundial 2009. O Fórum acontece em janeiro em Belém, capital do Pará.
(por Thaís Chita)

I Fórum de Mídia Livre se aproxima

Estão abertas as inscrições para o I Fórum de Mídia Livre, que ocorrerá no Rio de Janeiro, dias 14 e 15 de junho, e reunirá participantes de todo o País. O evento é parte de uma ampla mobilização de jornalistas, acadêmicos, estudantes e ativistas e demais interessados pela democratização da comunicação, em defesa da diversidade informativa, do trabalho de colaboração nos novos meios e sua expansão, bem como da garantia de amplo direito à comunicação.

A mobilização começou em uma reunião em São Paulo envolvendo 42 jornalistas, estudantes, professores ou pessoas atuantes na área das comunicações, de diferentes regiões do Brasil, e teve prosseguimento em reunião em Porto Alegre, com a presença de 49 pessoas, e na ABI, no Rio de Janeiro, com 32 presentes. A partir destes encontros já foram realizadas reuniões em Belém, Fortaleza, Recife e Aracaju. Clique aqui para saber quais são os ativistas e entidades que participam desta iniciativa, conforme os relatos dos pré-encontros.

Entre as principais questões levantadas, os presentes discutiram o avanço do movimento de comunicação da mídia livre em todo o País, de maneira que seja obtida a garantia junto ao poder público de espaços para os veículos da mídia livre nas TVs e nas rádios públicas, a regulação da distribuição das verbas publicitárias públicas em nosso País e o avanço das microestruturas globais mediáticas, assimétricas, improvisadas, parcialmente caóticas e autônomas, como as redes digitais, as migrações, os coletivos e as ocupações urbanas, bem como de agregadores da diversidade da mídia e dos que a fazem. Clique aqui para conhecer os confirmados.

O setor de comunicação, segundo o manifesto em construção disponível no site do Fórum de Mídia Livre, “não reflete os avanços que ao longo dos últimos trinta anos a sociedade brasileira garantiu em outras áreas. Isso impede que o país cresça democraticamente e se torne socialmente mais justo”. E continua: “A democracia brasileira precisa de maior diversidade informativa e de amplo direito à comunicação. Para que isso se torne realidade, é necessário modificar a lógica que impera no setor e que privilegia os interesses dos grandes grupos econômicos (…)”.

A mídia e os comunicadores em debate

No Rio de Janeiro está sendo levantada e discutida com intensidade a questão de uma economia psíquica da comunicação que dê conta dos agenciamentos internos, psíquicos (pensamentos, perceptos e afetos), dos jornalistas e dos comunicadores, de maneira a que ajam como comunicadores-cidadãos, portanto de maneira inovadora, de fato livre -sem repetir valores que contestam a nível macro-político- e assim produzam ambientes agregadores (diferentes-juntos) na diversidade da mídia tradicional, da mídia contra-hegemônica e da cultura digital.

Outra questão importante é a da mídia contra-hegemônica e a potencialização da difusão mundial das formas de sentir, pensar e agir dos segmentos economicamente excluídos, das comunidades culturalmente marginalizadas ou dos grupos politicamente segregados. O Fórum

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também se propõe a debater novas perspectivas de comunicação, mais plurais e democráticas. Assim, temas como Creative Commons, Web 2.0 e novas mídias também ganharão destaque nos debates e atividades do evento.

Segundo o documento esboçado na reunião de São Paulo, o objetivo da democratização das verbas públicas visa que “as verbas de publicidade e propaganda sejam distribuídas levando em consideração toda a ampla gama de veículos de informação e a diversidade de sua natureza; que os critérios de distribuição sejam mais amplos, públicos e justos, para além da lógica do mercado; e que ao mesmo tempo o poder público garanta espaços para os veículos da mídia livre nas TVs e nas rádios públicas, nas suas sinopses e meios semelhantes”. O documento está disponível no site do evento (http://forumdemidialivre.blogspot.com/).

De forma sincrônica ao evento no Rio de Janeiro, o movimento social de comunicação já está se mobilizando em sete cidades: Porto Alegre, São Paulo, Belém, Fortaleza, Recife, Aracaju e no próprio Rio de Janeiro. Todos os relatos já estão disponíveis no site. O próprio evento é um importante passo na discussão e deliberação sobre os rumos do movimento social de comunicação.

Programação - O I Fórum de Mídia Livre acontecerá dias 14 e 15 de junho de 2008 (sábado e domingo), das 9h às 17h (com pausas entre os debates e grupos de trabalho). Será realizado no campus da UFRJ da Praia Vermelha, no Auditório Pedro Calmon do Fórum de Ciência e Cultura (FCC) e salas anexas. Endereço: Avenida Pasteur, 250 – Praia Vermelha. O Auditório Pedro Calmon fica no segundo andar do FCC.

Inscrições - A participação no I Fórum de Mídia Livre é aberta e a inscrição é obrigatória. Os participantes podem também se informar sobre os pré-encontros em suas respectivas cidades. O custo individual da inscrição é de R$15 (quinze reais) para o público em geral e R$5 (cinco reais) para estudantes, pagos no dia do evento, junto à secretaria executiva do evento. A secretaria executiva emitirá um certificado de participação para os que compareceram nos dois dias de evento.

A inscrição no I Fórum de Mídia Livre não garante, o transporte, estadia e alimentação dos inscritos, que no entanto estão sendo negociados.

Oficinas - O Fórum de Mídia Livre convida todos e todas, participantes, entidades e ativistas, a inscreverem suas propostas de oficinas que tenham por objetivo contribuir com o aprofundamento dos debates, exposição de novos pontos de vista e produção colaborativa. Todas serão avaliadas e terão a sua realização confirmada pela Comissão Organizadora do Fórum, que receberá propostas por email até o dia 06 de junho (sexta-feira). Clique aqui para inscrever sua oficina!

Inscreva-se já e participe dos debates: http://forumdemidialivre.blogspot.com/

Por: Le Monde Diplomatique
Desenho: www.revistaforum.com.br / www.galizacig.com

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As três crises

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Cada vez mais intensos, os solavancos das finanças mundiais podem provocar crise sistêmica, e depressão semelhante à de 1929. A esta derrocada estão entrelaçadas a escassez de alimentos e da alta dos combustíveis. Vivemos as conseqüências de 25 anos de neoliberalismo. Mas quando diremos basta?

Ignacio Ramonet

Nunca havia acontecido antes. Pela primeira vez na história da economia moderna, três crises de grande amplitude – financeira, energética e alimentar – estão em conjunção, confluindo e combinando-se. Cada uma delas interage sobre as demais, agravando, de modo exponencial, a deterioração da economia real.

Por mais que as autoridades se esforcem em minimizar a gravidade do momento, o certo é que nos encontramos diante de um sismo econômico de magnitude inédita, cujos efeitos sociais, que mal começaram a se fazer sentir, explodirão nos próximos meses com toda a brutalidade. A numerologia não é uma ciência exata e o pior não costuma ser previsto, mas 2009 pode muito bem se parecer com o nefasto ano de 1929…

Como temíamos, a crise financeira continua aprofundando-se. Aos descalabros de prestigiosos bancos norte-americanos, como o Bear Stearns, o Merrill lynch e o gigante Citigroup, somou-se o recente desastre do lehman Brothers, quarto maior banco de negócios, que anunciou, em 9 de junho, um prejuízo trimestral de 2,8 bilhões de dólares. Como foi a primeira perda desde o lançamento de suas ações na Bolsa, em 1994, o resultado teve efeito de um terremoto financeiro, nos já violentamente traumatizados EUA.

A cada dia difundem-se notícias sobre novas quebras. Até agora, as entidades mais afetadas admitem prejuízos de quase 330 bilhões de dólares, e o Fundo Monetário Internacional estima que, para escapar da catástrofe, o sistema necessitará de cerca de 950 bilhões de dólares (o equivalente à metade do PIB do Brasil).

A crise começou nos Estados unidos, em agosto de 2007, com a desconfiança nas hipotecas de má qualidade (subprime) e propagou-se por todo o mundo. Sua capacidade de se transformar e se espraiar por meio da contaminação de complexos mecanismos financeiros faz com que se assemelhe a uma epidemia fulminante, impossível de controlar. As instituições bancárias já não emprestam dinheiro entre si. Todas desconfiam da saúde financeira de suas rivais.

Ao fugir dos mercados de ações e imóveis, os especuladores fazem apostas gigantescas em contratos para entrega futura de petróleo e alimentos. É a financeirização generalizada da produção capitalista
Apesar das injeções maciças de liquidez efetuadas pelos grandes bancos centrais, nunca se vira uma seca tão severa de dinheiro nos mercados. E agora o maior temor de alguns é uma crise sistêmica — ou seja, que o conjunto do sistema econômico mundial entre em colapso.

Da esfera financeira, o problema passou para o conjunto da atividade econômica. De um momento para outro, as economias dos países desenvolvidos sofreram um desaquecimento. A Europa encontra-se em franca desaceleração e os Estados Unidos estão à beira da recessão.

O setor imobiliário é onde melhor aparece a dureza desse ajuste. Durante o primeiro trimestre de 2008, o número de vendas de moradias na Espanha caiu 29%! Cerca de dois milhões de apartamentos e casas estão sem compradores. O preço das propriedades continua a desmoronar. O aumento dos juros hipotecários e os temores de uma recessão lançaram o setor numa espiral infernal, com ferozes efeitos em todas as frentes da imensa indústria da construção. Todas as empresas desses setores estão agora no olho do furacão. E assistem, impotentes, à destruição de dezenas de milhares de empregos.

Da crise financeira passamos à crise social. E políticas autoritárias voltaram a surgir. O Parlamento Europeu aprovou, em 18 de junho passado, a infame “diretiva retorno” [1]. Imediatamente, as autoridades espanholas declararam sua disposição em favorecer a saída da Espanha de um milhão de trabalhadores estrangeiros…

Em meio a essa situação de espanto, ocorre o terceiro choque do petróleo, com o preço do barril em torno de US$ 140. Um aumento irracional (há dez anos o barril custava menos de US$ 10) devido não apenas a uma demanda despropositada mas, especialmente, à ação de muitos especuladores, que apostam no aumento contínuo de um combustível em vias de extinção. Retirando-se da bolha imobiliária, que desinfla, os investidores alocam somas colossais em contratos para entrega futura de petróleo, o que pode levar o preço do barril a algo em torno de US$ 200. Ou seja: está ocorrendo uma “financeirizacão” do petróleo, com conseqüências como formidáveis aumentos de preços da gasolina, em muitos países, e a ira de pescadores, caminhoneiros, agricultores, taxistas e todos os profissionais mais afetados. Em muitos casos, eles exigem de seus governos ajudas, subsídios ou reduções dos impostos, com grandes manifestações e enfrentamentos.

Como se todo esse contexto não fosse bastante sombrio, a crise alimentar agravou-se repentinamente e chega para nos lembrar que o espectro da fome continua ameaçando quase um bilhão de pessoas. Em cerca de 40 países, a carência de alimentos provocou levantes e revoltas populares. A reunião de cúpula da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), foi incapaz, em 5 de junho, em Roma, de chegar a um consenso para retomar a produção de alimentos no mundo. Aqui também os especuladores, fugindo do desastre financeiro, têm parte de responsabilidade — porque apostam num preço elevado das futuras colheitas. Até mesmo a agricultura está se “financeirizando”.

Este é o saldo deplorável de 25 anos de neoliberalismo: três veneosas crises entrelaçadas. Já está na hora de os cidadãos gritarem: “Basta!”.

POr:Le Monte Diplomatique - Uol
Desenho: notasaocafe.wordpress.com

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Ecossistemas marinhos atingem situação crítica limite

Mónica Salomone
Em Santander

Noticías Uol

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Uma loja de lembranças de praia parece um lugar inócuo, incapaz de deixar alguém de mau humor. Exceto se o cliente for o oceanógrafo Carlos Duarte, presidente do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC na sigla em espanhol), presidente da Sociedade Americana de Limnologia e Oceanografia e Prêmio Nacional de Pesquisa 2007. Duarte fotografou esta semana a vitrine de um desses - para ele - templos do horror, para mostrar o motivo de sua revolta. Restos de espécies ameaçadas como o Tridachna gigas, um molusco bivalve gigante do Indo-Pacífico; o Strombus gigas, um caracol do Caribe; e vários corais aparecem em uma fila perfeita.

Souvenires baratos de verão, desgraças ambientais caríssimas. “As espécies ameaçadas são exibidas em total impunidade em lojas de todo o mundo. Afinal, quem sabe o que é Strombus gigas?”, lamenta Duarte.

Mas a coisa vai muito além. Para ele e muitos outros pesquisadores, o desconhecimento social e científico agravam problemas como a pesca excessiva, a mudança climática e a poluição, que estão levando muitos ecossistemas marinhos a uma situação limite. E, depois do alerta, uma advertência: a vida da humanidade e a dos oceanos correm paralelas e muito próximas.

A mensagem “Salvem os oceanos” não é nova. Mas ecoa cada vez mais alto. Nos últimos meses se acumulam relatórios alarmantes, e não é por acaso. Os especialistas em ciências marinhas sentem necessidade de chamar a atenção, admite Duarte. “Há evidências de que chegamos a pontos de não-retorno.”

Há algumas semanas Jeremy Jackson, veterano pesquisador americano, publicou na revista “PNAS” uma revisão dos ecossistemas marinhos. Entre suas conclusões está a previsão de que a pesca excessiva levará à extinção de espécies comestíveis e terá um efeito indireto sobre toda a cadeia alimentar. Além disso, as chamadas zonas mortas, nas quais a falta de oxigênio impede o desenvolvimento da fauna marinha, se estenderão cada vez mais ao longo da costa e as correntes, alteradas pela mudança climática, modificarão os ciclos de nutrientes.

Jackson menciona os efeitos combinados da destruição do hábitat, da pesca excessiva, do aquecimento, da acidificação dos oceanos e da perda maciça de nutrientes entre os principais culpados por uma grande e rápida transformação de ambientes antes ricos e complexos, com redes ecológicas intricadas, em ecossistemas simples, dominados por microorganismos, algas tóxicas e medusas. “As coisas estão piorando muito depressa”, diz Jackson. “Assim como a mudança climática, é um problema que ignoramos durante muito tempo. A situação dos oceanos poderia ser ainda pior, porque em muitos sentidos estamos muito perto do precipício.”

Em fevereiro passado a revista “Science” publicou um Mapa Global do Impacto Humano nos Ecossistemas Marinhos. Mostra que em mais de 40% dos oceanos a ação humana tem um impacto maior do que se esperava. Um dos mares mais afetados é o Mediterrâneo. Entre os ecossistemas mais frágeis estão os corais.

Um estudo recente publicado em “Science” indica que estão mais ameaçados do que se acreditava. Uma equipe de especialistas dirigida por Kent Carpenter, da União Mundial para a Natureza, avaliou o estado de conservação das 845 espécies conhecidas de corais que constroem barreiras e vivem em simbiose com algas. Concluíram que cerca de um terço está em risco de extinção. As causas: os poluentes, a pesca destrutiva e o aquecimento. Dentro de algumas gerações mergulhar entre barreiras de corais será um luxo raro.

Todos esses resultados são agravados por duas questões. Uma é que, apesar de tudo, ainda se sabe muito pouco sobre o que acontece nos mares. O universo microbiológico marinho está muito pouco explorado, e os pesquisadores temem que muitos seres desapareçam antes de ser estudados e que alguns países comecem a explorá-los por conta própria. A ONU criou um grupo de trabalho sobre isso. A outra preocupação é que muito mais verbas são destinadas à pesquisa da terra do que à da água.

O Painel Intergovernamental para a Mudança Climática (IPCC na sigla em inglês) incluiu em seu último relatório apenas 85 mudanças biológicas relacionadas ao aquecimento detectadas em ecossistemas marinhos, contra 28.500 terrestres. E isso quando há evidências de que os organismos marinhos podem estar reagindo à mudança climática ainda mais depressa do que as espécies terrestres.

Mas os oceanógrafos pedem, além de verbas, medidas políticas: criar reservas marinhas, respeitar os regulamentos sobre a pesca, combater o despejo de fertilizantes, aplicar seriamente as medidas para reduzir emissões de gases e promover medidas de conservação em escala local. Não parece haver outra receita para salvar os oceanos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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Presidente de comissão quer punir tortura

Paulo Abrão, da Comissão de Anistia, defende responsabilização dos militares por esse tipo de crime, que “não prescreve nunca”

Mais de 360 pessoas, entre promotores, advogados, juízes e parentes de vítimas, assinaram ontem manifesto pedindo debate sobre tema

DA REPORTAGEM LOCAL

O presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Paulo Abrão, afirmou ontem que defende a responsabilização dos militares por crimes de tortura praticados durante o regime militar (64-85).
“Entendo que os crimes cometidos por autoridades durante o regime militar foram crimes de lesa-humanidade e, por isso, não prescrevem nunca”, disse Abrão, que participou ontem do evento “29 anos da Anistia - Verdades e Mentiras”, promovido pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo.
Cerca de 160 pessoas participaram do ato, que foi realizado ontem no antigo prédio do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), órgão repressivo do governo militar, para onde eram mandados os presos políticos. O espaço foi rebatizado de Estação Pinacoteca.
O apoio declarado de membros do governo federal à apuração dos crimes praticados durante a ditadura foi duramente criticado pelos militares, que defendem que a Lei da Anistia, de 1979, perdoou crimes de militares e terroristas.
“É um absurdo falar em anistia para os dois lados. Quando a lei foi aprovada em 1979, os militares falavam que a lei nem se aplicava a eles, pois não tinham cometido crimes. Tanto o governo reconhece que isso ocorreu que tem indenizado as vítimas. Agora não dá para achar que pessoas foram mortas e torturadas e ninguém foi responsável”, disse a procuradora da República Eugenia Fávero, que pediu às vítimas que recorram à Justiça para pedir a punição de seus algozes.
“Crimes cometidos por agentes do Estado durante o regime, como homicídio, estupro, ocultação de cadáver e formação de quadrilha, não prescrevem.”

Debate
Ato no pátio da Faculdade de Direito da USP marcou ontem a apresentação do manifesto em defesa do debate sobre a responsabilização de torturadores. Mais de 360 pessoas, entre juízes, advogados, promotores e parentes de vítimas da ditadura assinaram o documento. “Falar em punição dos torturadores nada tem a ver com revanchismo. Pretendemos que sejam processados segundo as regras constitucionais, com plenitude do direito de defesa, que sejam identificados e que, reconhecida a culpa, sejam condenados”, disse o advogado Dalmo de Abreu Dallari.
Professor emérito da USP, Dallari explicou que o crime de tortura “é contra a humanidade e imprescritível”.
Entre os signatários do manifesto estão o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos e o presidente da OAB, Cezar Britto. (LILIAN CHRISTOFOLETTI E CLAUDIO DANTAS SEQUEIRA)

Folha de S. Paulo -

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Discussão do Pré-Sal proposta pelo Senado revela sua submissão a grandes grupos

A Agência Petroleira de Notícias divulgou a seguinte notícia

lula plataforma de pet - lula plataforma de pet
”A Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) do Senado Federal realizará, em setembro, uma Audiência Pública para discutir as novas tecnologias de prospecção de petróleo nas camadas de pré-sal. (…) A convocação da Audiência atende ao requerimento dos senadores Gim Argello (PTB/DF), Wellington Salgado (PMDB/MG), Antônio Carlos Júnior (DEM/BA) e Flexa Ribeiro (PSDB/PA). (…) Os convidados para participar da Audiência da CFT são: Edison Lobão, ministro de Minas e Energia (MME); Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobrás; Haroldo Lima, presidente da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP); David Zylbersztajn, ex-presidente da ANP; Jean Paul Prates, secretário de Energia e Assuntos Internacionais do Rio Grande do Norte; Luis Carlos Costa Milan, presidente da BG - Bristol (empresa parceira da Petrobrás); Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE); Eike Batista, presidente do Grupo EBX e da MMX; German Efromovich, empresário; Eloy Fernandes, presidente da Organização Nacional da Indústria do Petróleo; e João Carlos França de Lucca, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP)”.

Nesta audiência pública, apesar de ter sido declarado que irão ser discutidas “as novas tecnologias de prospecção de petróleo nas camadas de pré-sal”, na verdade, serão discutidos temas diversos com relação ao pré-sal, pelo simples fato que a lista dos convocados não contém um único especialista em tecnologias relativas ao pré-sal. Mas este fato é até louvável, pois o pré-sal é extremamente importante para nossa sociedade e o fato de existirem senadores preocupados com o tema é meritório.

O que é triste é a composição da lista de convocados. Ela é reveladora, pois os senhores já mostraram como pretendem se posicionar com relação ao pré-sal. Na lista, existem quatro representantes do governo federal que não poderiam deixar de ser convocados, pelo cargo que ocupam, mesmo que algum seja dispensável por sua figura simplória. A única sugestão que faço com relação a esta parte da lista é que o presidente do BNDES deveria ser convocado também, por razões óbvias.

A seguir vemos quatro representantes da classe empresarial, dois dos quais são representantes de empresas estrangeiras (o senhor De Lucca é presidente da Repsol, alem do IBP). Dentro dos princípios de uma convocação ideologicamente ampla, eles merecem estar presentes também. Os senhores David Zylberstajn e Elói Fernandes são ex-diretores da ANP, reconhecidos pela visão neoliberal, incluindo a defesa da imutabilidade do modelo existente, que foi por eles implantado. O senhor Jean Paul Prates, antes de ser secretário de um governo estadual, era bastante conhecido como consultor de visão liberal, muito atuante na fase de implantação do modelo vigente. Se retirarmos da análise os representantes do governo federal e ao menos dos dois empresários nacionais, cujas posições desconheço, todos os demais convocados se posicionam a favor da não mudança do marco regulatório e não têm posições nacionalistas.

É com estes nomes que os senhores senadores querem obter informações para se posicionarem? E os representantes dos sindicatos (CUT, CONLUTAS, Sindipetros, FUP, FNP, FISENGE, FNE e outras entidades)? E os representantes das associações de classe (Ordem dos Advogados do Brasil, Clube de Engenharia, Federação Brasileira de Associações de Engenheiros, Associação Brasileira de Geólogos e muitas outras)? E os de outras entidades da sociedade civil (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, Clube Militar, Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra e tantas outras), pois o pré-sal é de interesse de toda a sociedade brasileira?

Por que os senhores senadores não consideram a opinião desta parcela majoritária do povo? Será que é porque estas entidades excluídas não contribuem financeiramente nas suas campanhas? Certamente, os senhores acham que estas entidades não têm capacidade de mobilização da sociedade, uma vez que políticos não rasgam votos.

Resta aos trabalhadores, aos brasileiros dignos, não importando suas tendências políticas, aos verdadeiros democratas e à sociedade, como um todo, repudiar a ação destes que não têm intenções benéficas em relação a esta sociedade, pelo menos, na questão do pré-sal.

Paulo Metri é Conselheiro do Clube de Engenharia.

Por: Correio da cidadania
Escrito por Paulo Metri
Foto:www.correiocidadania.com.br

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Imigração aumenta prostituição feminina no sul de Portugal

Prostitui    o - Prostitui    o
Faro, 24 ago (Lusa) - Há 80 prostitutas de rua na freguesia de Quarteira, sul de Portugal, números que têm aumentado nos últimos anos devido ao aumento de mulheres imigrantes na região vindas do leste europeu, Brasil e África, disse à Agência Lusa o Movimento de Apoio à Problemática da Aids.

“Trabalho há sete anos em projetos de rua em contatos com prostitutas e noto que tem havido um acréscimo de prostitutas, nomeadamente de estrangeiras, de nacionalidade romena e brasileira, mas também da Nigéria, Serra Leoa e Camarões”, afirmou à Lusa uma psicóloga deste Movimento.

Durante a tarde, mas principalmente com a chegada da noite, as prostitutas começam a bater a rua que liga a entrada da cidade de Quarteira à região de luxo de Vilamoura.

Por 20 euros (menos de R$ 50), as mulheres vendem o corpo para os clientes. Os preços aumentam conforme as modalidades de sexo pedidas, mas muitas das vezes acabam baixando devido à concorrência.

Trabalho

Os clientes são de várias camadas sociais e de diferentes níveis sócio-econômicos. Engenheiros, médicos, advogados, turistas ricos, mas também jovens universitários e pessoas de idade.

Há sete anos, a psicóloga ajuda mulheres que ganham a vida na rua a se protegerem de doenças sexualmente transmissíveis, como a Aids.

Sobre os homens portugueses, as prostitutas de Quarteira os classificam como “bons clientes”, não só porque o pagamento é feito na hora, como são muito menos agressivos que os estrangeiros.

As prostitutas romenas, por exemplo, não querem ir com os clientes da sua própria nacionalidade, principalmente quando estão alcoolizados e se podem tornar violentos. Elas preferem os clientes portugueses, mais calmos, e que gostam de conversar, segundo a psicóloga.

Distribuir preservativos para a prevenção da Aids é o objetivo do Movimento, que também distribui panfletos às prostitutas e oferece formação sobre técnicas para colocar os preservativos mesmo que o cliente não queira usá-lo.

Mulheres

Em 2002, a maioria das prostitutas de rua em Quarteira era de nacionalidade portuguesa, mas em 2007 “havia 80 pessoas a prostituírem-se - 78 mulheres e dois transexuais -, sendo 65% estrangeiras.

Muitas das prostitutas de Quarteira chegam do norte do país com o calor do verão para se prostituírem na mais famosa rua de Quarteira, a rua da SIC, batizada pela população há alguns anos depois da publicação de uma reportagem sobre prostituição na emissora portuguesa.

Quando o inverno chega, as mulheres migram e a cidade de Quarteira, às portas de Vilamoura, fica com as prostitutas locais, que vendem o corpo principalmente para alimentar o vício da droga.

As estrangeiras, ao contrário das portuguesas, se prostituem não tanto por causa da droga, mas principalmente com o objetivo de “sustentar a família”, que está longe, ou para ter dinheiro para colocar os filhos a estudar, indica a psicóloga.

A “prostituição de apartamento” também existe em Quarteira, e em outras cidades do sul de Portugal, mas o Movimento não conseguiu ainda obter números oficiais, disse que a única vez que conseguiram falar com uma prostituta de apartamento foi em Faro, mas não deram continuidade ao trabalho.

As prostitutas de Quarteira continuam na rua da SIC e nem mesmo a presença da polícia as intimida. A impressão é de existir um pacto entre os dois mundos. Enquanto a autoridade policial vigia a região, elas se escondem. Depois, quando os agentes abandonam o lugar, as mulheres reaparecem e voltam ao negócio para sobreviver.

Por: Notícias UOL
Foto: malmaior.blogspot.com

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Tudo muda na Índia, menos a forma como são tratados os pobres

Í N D I A e seus paradoxos

Este texto baseia-se em matéria do EL PAIS de 25/08, intitulado:
O “depósito” de viúvas indianas

India - India
Cerca de 13 mil indianas repudiadas por não ter marido mendigam em Vrindaban para viver, segundo um estudo do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem).
São milhares de mulheres, a maioria vestida de branco, sem sapatos e sem cabelos, velhinhas encurvadas com os olhos cobertos por cataratas, mas também jovens, algumas com filhos. Seus maridos morreram e por isso perderam seu lugar na sociedade. Refugiam-se e vagam por esta cidade do norte da Índia, uma das mais sagradas porque aqui cresceu o brincalhão deus Krishna.
Chegam arrastadas pela miséria ou porque foram expulsas da casa dos maridos e sobrevivem de caridade. Vivem nas ruas enlameadas ou dividem quartos que o governo ou fundações lhes alugam. Os “ashram” (meio asilos, meio conventos) acolhem algumas gratuitamente.
As viúvas são de mau agouro na Índia. Às vezes se diz que são a causa da morte do marido. Segundo o Código de Manu, uma das escrituras sagradas mais antigas, uma mulher nunca será independente :”Uma viúva deve sofrer muito antes de morrer, deve ser pura de corpo, pensamento e alma”, diz o texto.
O Skanda Purana vai além: “Um homem sábio deve evitar as viúvas, mesmo suas bênçãos, como se fosse o veneno de uma serpente”.
O governo lhes dá uma pensão de cerca de 30 euros por ano que,além de ser muito pouco, não chega a todas. Só 25% a recebem. Só lhes resta mendigar.
Mulheres educadas também vão parar em Vrindaban. É que a lei reconhece o direito das viúvas a herdar, mas na prática isso acontece muito raramente.
O grande número de jovens se deve ao costume de casar meninas com homens mais velhos. Ficam viúvas e um segundo casamento é quase impossível.
Na Índia há 33 milhões de viúvas, segundo os números oficiais. Embora nem todas estejam em condições tão terríveis quanto as de Vrindaban, todas sofrem pelo menos o estigma social da viuvez e a maioria não pode trabalhar.
Enquanto isso, a sociedade de alguma forma se defende, argumentando que estão em Vrindaban porque querem dedicar seus últimos dias a louvar a deus.

Este trecho faz parte de matéria do HERALD TRIBUNEde 11/08: Tudo muda na Índia, menos a forma como são tratados os pobres

“….
A Índia está mudando tão depressa que começa a se parecer com qualquer outro lugar. Os arranha-céus brotam. Cidades incham. Os jovens namoram, bebem, fumam livremente. Mas muitas das pessoas que estão tornando nova a nova Índia - dos corretores de ações às engalanadas socialites- são responsáveis pela preservação de um elemento de certa forma lúgubre do passado indiano: uma tendência a tratar os funcionários contratados como sua propriedade, insultá-los e humilhá-los e ser condescendente com eles, comportar-se como se alguns seres humanos tivessem nascido para servir e outros para serem servidos.
“Os indianos são provavelmente as pessoas menos democráticas, morando na maior e mais plural democracia do mundo,” como afirmam Sudir Katar e Katharina Kakar, dois conhecidos estudiosos da cultura indiana, em um livro publicado recentemente, “The Indians: Portrait of a People” (”Os Indianos: Retrato de um Povo”).
É compreensível que, em épocas de abundância, os indianos prefiram falar de outras coisas.Mas se um diretor de cinema em Mumbai se impuser, em breve ele estará falando sobre empregados domésticos. Em uma tentativa de expor as relações entre empregados e servidores na Índia, da mesma forma que “A Cabana do Pai Tomás” mostrou a escravidão americana, Raja Menon fez um novo filme provocativo, retratando a Índia a partir do ponto de vista de um serviçal.
O filme, “Barah Ana”, que pode ser traduzido toscamente como “dar troco a menos” está atualmente sendo julgado por júris de festivas em Toronto e Veneza.
Ele conta a história de três pessoas que migram para Mumbai, dos miseráveis lugarejos do norte da Índia. Trabalham como chofer, garçom e guarda de segurança, mandando a maior parte de seus ganhos para casa.
São heróis em suas cidades; mas em Mumbai, são pessoas invisíveis, enfrentando a dureza que é ser um subordinado de outras pessoas em épocas de prosperidade.
Em uma das cenas, uma rica dona de casa, rechonchuda e toda cheia de acessórios Louis Vuiton, circula pela cidade no banco de trás de seu utilitário negro, tagarelando no celular. De repente, o chofer pisa no freio, fazendo a mulher balançar e interromper a conversa.
“A criança que estava mendigando ficou na frente do meu carro,” ela explica indignada à sua amiga, em inglês, depois de retomar o telefonema. “E aquele idiota do chofer simplesmente brecou.”
Em outra passagem, um guarda de segurança descobre que seu filho está doente e que sem um tratamento que custa US$ 150, ele morrerá. Yadav circula o prédio onde mora pedindo empréstimos de locatários que costumam gastar US$ 40 em pizzas.
Os moradores, grudados em suas televisões, o tratam como um cachorrinho que deve ser enxotado.
Naquela noite, ao se sentar para beber com amigos, ele se vê diante do que significara enterrar um filho. “Por que será”, ele se queixa, “que uma pessoa só consegue sentir a própria dor e não a de outros?”
A resposta do diretor é que a Índia tem algo mais profundo que um problema de pobreza. O país tem, em sua opinião, um problema de “desumanização”. Em uma entrevista, ele descreve os empregados e servos da Índia como se fossem “duas espécies diferentes”.
A primeira parte do filme faz uma crônica das pequenas humilhações na Índia com um realismo de dar calafrios. A segunda parte prevê a explosão de violentas revoltas em um país cuja elite há muito se tranqüiliza com a idéia de que os pobres irão aceitar estoicamente sua condição.Menon acredita que tal estoicismo está minguando, em uma época na qual os ricos estão mais visivelmente ricos e os excluídos estão cada vez mais conscientes de sua condição de privações.
Há muito se diz aos pobres que a pobreza é merecida, diz ele. Mas agora eles vêm a riqueza por toda parte, e estão começando a acreditar que a pobreza é circunstancial e pode ser revertida.
“É a aí que os diques se rompem”, ele diz, “no momento em que a pessoa sente: ‘Não é verdade que o meu lugar é esse. ‘”
Um momento desses parece ter ocorrido recentemente, há algumas noites. O filme foi apresentado a um público de indianos jovens, de classe média, representantes da nova prosperidade do país.
Mas um deles, Mitesh Thakkar, um gerente de marketing de 30 anos, chegou com o motorista de táxi que ele costuma contratar, e trouxe diversidade, ao convidar o motorista para assistir ao filme.Thakkar reagiu como qualquer um reagiria se sua classe social fosse acusada. O filme é bom, “mas toma partido”, ele disse: “Talvez existam 70% de pessoas que os tratam mal, mas existem 30% que os tratam bem.”
Mas para o motorista do táxi, Javed Ali, o filme tornou-se um clássico no mesmo instante.”Essa história é a verdade,” ele disse. “Mostra tudo que eu penso”.
Ali é um trabalhador migrante, de 20 anos, e conhece de perto as humilhações mostradas no filme. Às vezes pessoas tomam seu táxi e recusam-se a pagar; às vezes estão bêbadas e o maltratam; às vezes gritam para ele: “Você não presta.”
Depois da projeção, algumas pessoas do público, incluindo Thakkar e Ali, foram jantar. (Pode ter sido influência do filme: jantar com um motorista de táxi na Índia é atravessar uma linha raramente cruzada.)
Os outros participantes do jantar quiseram saber o que Ali, o único pertencente à classe trabalhadora na mesa, achou do filme. Ali respondeu, de forma casual, que sabia de onde vinham os personagens, que compreendeu a ânsia deles por vingança, depois de tantos anos de humilhação.
“Ele disse que quando o motorista seqüestra sua patroa - ele fez a coisa certa,” contou Thakkar mais tarde, lembrando-se dos comentários de Ali. “Mesmo que ele tenha sido pego, precisava daquele seqüestro.”
Naquela noite, naquela mesa ocupada de forma tão incomum, com parte próspera e a pobre lado a lado, as realidades paralelas da Índia se colidiram de forma uma efêmera e ameaçadora.

Por Blog: zelinha-zelinha.blogspot.com
Foto:portadovento.blogs.sapo.pt

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A outra família de Obama

Juan Jesús Aznárez, do El País

av   de Obama - av   de Obama
”Rezo para que Barack ganhe. Se eu tivesse dinheiro, lhe daria; quando for presidente ajudará a todos nós.” Sarah Obama, 86 anos, a avó negra do candidato democrata à presidência dos EUA, é cristã, devota e pobre. A anciã não tem dinheiro nem estudos, mas muita confiança na vitória eleitoral de seu neto, a celebridade do Quênia, o novo estandarte africano. “Musawa [Como vai?]. Entre, entre.” Sarah mora em uma casinha de tijolos e barro em Kogelo, a 500 km a noroeste de Nairóbi, perto do lago Vitória.

O meio-dia é tórrido e luminoso na aldeia agrícola da região de Kisumo, combinando com os vermelhos, verdes e azuis do vestido da avó mais famosa do mundo. Um jovem mói milho em um armário perto dos sacos da despensa doméstica. “Nessa foto Barack está me ajudando a carregar um saco de grãos. É muito esperto e educado. Sabe escutar. Se ganhar, irei vê-lo, mesmo que fique pouco tempo.” Fotografias da estirpe Obama estão penduradas nas paredes de uma sala humilde e limpa, mobiliada com assentos e mesas de madeira forradas de amarelo-limão. Vários jornais lembram a campanha eleitoral americana e a convenção democrata de Denver, que esta semana proclamará candidato presidencial Barack Obama, 47 anos, a grande esperança negra.

Sarah é a avó de verdade, a da criança, porque a de sangue, Akumu, a mãe de Barack Hussein Obama, o pai do senador de Illinois, abandonou o lar e os maus-tratos de seu marido quando a prole era pequena. Pouco depois casou com um tanzaniano que a comprou de seus pais por seis vacas e a promessa de outras seis. “A senhora fala com seu neto por telefone?” “Não, porque ele não fala luo [dialeto da etnia luo, à qual pertence a família] e eu não falo inglês”, admite Sarah. A octogenária vive o dia-a-dia, como a maioria de seus 35 milhões de compatriotas, que se erguem em aleluias quando lhes perguntamos sobre Obama. O fato de os brancos americanos, descendentes dos escravagistas, votarem em um negro acionou uma revolução mental na África, ainda mergulhada no atraso, nas doenças e no cerceamento tribal. A vida não é fácil no continente dos massais e do Serengueti.

Os ancestrais do jornalista afro-americano Keith Richburg, ex-correspondente em Nairóbi do jornal “The Washington Post” (1991-1994), foram embarcados a ponta de chicote nos navios negreiros e escravizados nas plantações de algodão do Novo Mundo. Richburg só tem palavras de agradecimento para o tráfico que acorrentou seus parentes naquelas travessias oceânicas rumo à infâmia: isso lhe permitiu nascer nos EUA e não na África. “Graças a Deus sou americano!”, escreveu em seu livro “Out of America. A black man confronts Africa” [Fora da América. Um negro confronta a África]. O escândalo foi enorme. Cansado de hipocrisia e mentira, farto de ver cadáveres, o jornalista reagiu iradamente a seus críticos: “Falem-me da África, de minhas raízes negras e de meus vínculos familiares com meus irmãos africanos, e mergulharei seus narizes nas imagens de carne putrefata”.

Os ancestrais de Barack Obama (nascido em Honolulu em 1961) não foram escravos, mas tiveram de prestar vassalagem à administração britânica racista no Quênia (1888-1963), que o candidato democrata à presidência dos EUA visitou pela primeira vez aos 26 anos para confrontar a África, como Richburg, e aproximar-se da figura paterna e do lado negro de sua identidade. Depois de ver o que viu, cabe pensar que o novo ídolo africano também se felicitou por ter nascido nos EUA.

Em suas três viagens à África (em 1987, 1994 e 2006), o senador conheceu sua avó Sarah, seus parentes africanos e se aproximou da realidade dos países vítimas da instabilidade e da fome: o ponto de partida dos botes nas praias das Canárias e dos trabalhadores braçais apunhalados pelos alambrados de Ceuta e Melilla. Com 60% da população total africana, os países subsaarianos geram apenas 20% do PIB, 46% de sua população têm menos de 15 anos e só dois terços estão escolarizados. Os universitários que puderam emigraram para o estrangeiro, como Barack Hussein Obama, o pai do candidato democrata, que viveu nos EUA, mas regressou ao Quênia, onde morreu em um acidente de trânsito aos 46 anos, triste e fracassado, quase alcoólico.

Outros tiveram melhor sorte, mas Gana, Moçambique, Quênia e Uganda perderam até a metade de seus diplomados em benefício dos países ricos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). “A África precisa que Obama ganhe, precisa recuperar seu orgulho e auto-estima”, diz Boniface Gakuo, 35 anos, professor e guia durante a visita pelo assentamento-favela de Kibera, em Nairóbi, que obriga a usar o cilindro de oxigênio para não cair fulminado pela pestilência. Obama, sua mulher, Michelle, descendente de escravos, e suas duas filhas o visitaram em 27 de agosto de 2006. Mais de um milhão de pessoas penam em suas ruas, sem água corrente nem esgoto, com rendas mensais de 30, 50 ou 70 euros. Vivem em ratoeiras distantes das mansões da plutocracia nacional e dos deputados da pátria, que recebem seus salários de 8 mil euros todo mês, além de benefícios e mordomias. As pessoas ganham a vida como podem, e a profissão de criminoso está em alta. Uma máfia habilitou alguns barracos como salas de pornografia para espectadores de 7 e 8 anos, crianças que pediam dinheiro a seus pais para ir ao cinema, segundo a polícia descobriu há poucos dias.

“Todo mundo precisa de uma oportunidade para prosperar, para comer, para se vestir, para montar um negócio”, Obama animou os habitantes do local. Mas os miseráveis quase não encontram oportunidades na África. O errático crescimento democrático e econômico de seus países, os avanços registrados em alguns direitos fundamentais quase não escondem as marcas das descolonizações a tiros, as quarteladas, as autocracias, os genocídios, a corrupção e a desesperança. Sobre as causas dessas pragas bíblicas, o senador leu muito antes de viajar a Nairóbi e ser recebido como um messias. Dois anos depois de sua última visita, os que o escutaram em Kibera o consideram magnânimo, portador de negócios fabulosos entre os EUA e o Quênia se chegar à Casa Branca. “É dos nossos e não poderá esquecer que vivemos comidos pelos ratos e a Aids. Ele viu isso com os próprios olhos”, diz David, 24 anos.

Estragada pela história e pelos próprios erros, a África precisa de uma vitória que levante seu ânimo, uma vitória que possa considerar própria. E o negro Barack Obama pode dá-la em novembro. Também a reclamam os afro-americanos de Minnesota, Washington ou Alabama, iludidos pelos ventos de mudança e o simbolismo dos novos comportamentos em colégios ou famílias. Adolescentes envergonhados pela fala africana de seus pais agora refletem sobre suas origens ao comprovar que o político negro não só não esconde suas raízes como também as abraçou sem complexos.

A sensibilidade racial do ídolo lhe veio quando criança, enquanto lia na revista “Life” o anúncio de um creme branqueador da pele. Seu encontro com a etnia luo também foi precoce e impactante. A reviravolta ocorreu na biblioteca pública de Honolulu. “Os luo criavam cabras e viviam em choças de barro e se alimentavam de milho, batata e algo que se chamava ‘mijo’”, escreveu Obama em “Sonhos de Meu Pai”, publicado em 1995. “Seu traje tradicional era um pareô de couro que se cruzava entre as pernas. Deixei o livro aberto em cima da mesa e saí sem sequer me despedir do bibliotecário.”

Saiu correndo para processar seu parentesco com o tribalismo ribeirinho do Nilo, assentado depois nas pradarias de Kisumo, em choças de barro e palha, junto dos bambus e do avestruz. “Eu me drogava [com álcool e maconha] porque queria afugentar as perguntas que me atormentavam. O que significa ser mestiço? Por que os brancos me consideravam um negro e os negros me olhavam com desconfiança?”, perguntou-se em suas memórias. “Como poderia ser útil em uma sociedade que não parecia me aceitar? Jogávamos no terreno dos brancos com as regras dos brancos. Se o decano, o treinador, o professor quisesse cuspir em seu rosto, podia fazê-lo.” A única opção era o enclausuramento no próprio rancor. “E a ironia final é que se você se negasse a aceitar a derrota e os enfrentasse, tinham um nome para você: paranóico, extremista.”

Uma bolsa de seu pai nos EUA determinou a epiderme café com leite do político que esta semana será proclamado candidato no estado do Colorado, muito longe de um continente entusiasmado com a possibilidade de que um dos seus governe a nação mais poderosa do planeta, mude a correlação de forças e volte para resgatar a África. “Os EUA farão o mesmo de sempre”, antecipou Richard Dowden, diretor da Sociedade Real Africana. Talvez seja assim, mas enquanto isso, batizados, cervejadas, camisetas, chinelos, rótulos e títulos dão a vitória no Quênia ao “nosso leão”. “Sua vitória seria um passo fundamental para a eliminação do racismo em um país que o pratica tanto quanto os EUA”, segundo o analista Ali Mazrui. A emergência do fenômeno Obama no firmamento político americano causou na África uma catarse íntima, existencial, libertadora. O jornal “The Nation” afirmou que seu sucesso será a confirmação de que um negro pode ser o que quiser se trabalhar duro, for inteligente e tiver sorte.

O colunista ugandense Timothy Kayegira não é tão otimista: o discurso de Obama dirigido ao lobby pró-Israel dos EUA deveria abrir os olhos dos que imaginam que o desejado compartilhará estritamente os interesses dos negros na África. “Preparem-se para que Obama os desiluda muito”, escreveu.

O acaso e a pobreza, não a escravidão, definiram o mapa do caminho do político mulato. O pai, nascido em Kogelo, ganhou uma das primeiras ajudas para completar estudos em universidades americanas. Enquanto assistia às aulas no Havaí, aos 23 anos, conheceu Ann Dunham, branca como leite, de 18 anos, nascida no Kansas, com a qual se casou em 1960. Pouco depois nasceu Barack, mas quando o menino tinha apenas 2 anos seu pai foi para Harvard fazer mestrado em economia. Depois voltou, sempre sozinho, ao Quênia, onde o esperavam sua primeira mulher, Kezia, grávida, e outro filho. Poucos sabiam disso. O menino de Honolulu só voltaria a ver o pai oito anos depois, durante a rápida volta aos EUA do progenitor para ver seu filho e a garota do Kansas, e também encantar com suas histórias sobre o Mau-Mau, os anciãos luo e as grandezas da África profunda.

Durante a viagem iniciática de Obama em 1987, Sarah lhe falou muito sobre seu pai e seu avô, Onyango. “Veja, o homem de óculos nas fotos é seu pai”, indica a avó. E seu marido, o avô? Seu avô foi um homem autoritário, cumpridor das tradições tribais, entre elas a poligamia e as agressões. “Pagou o dote de várias jovens, mas quando se mostravam preguiçosas ou quebravam algo as espancava sem remorso.”

O patriarca se opôs ao casamento de seu filho com uma mulher branca, com Ann, embora em alguns aspectos fosse admirador dos brancos, da organização britânica colonial. “O africano é um asno”, dizia a Sarah. “Para fazer qualquer coisa é preciso que o espanquem.” O avô foi cozinheiro, soldado do exército britânico e islamita. “Não podemos apagar essa ligação da vida do candidato. Seu pai também foi muçulmano até se converter ao ateísmo”, explica o analista Otuma Ongalo, referindo-se aos supostos esforços do candidato para se afastar do Corão, freqüentemente associado ao terrorismo. “E embora não pratique o islamismo tem laços com o islã, como os tem com o Quênia e a África, mesmo que nunca tenha sido queniano ou africano.”

A anciã da dinastia diz que seu neto é cristão, mas aprova a liberdade de culto. A mulher atende amavelmente aos viajantes de boa fé interessados em suas emoções e nas raízes do candidato democrata. Desde sua adolescência, Obama já sabia que era tarde demais para reclamar a África como lar e como confissão, não importa o que dissesse seu pai. O velho foi “bastante idiota”, segundo o comentário escutado durante um coquetel este mês em Nairóbi, de uma americana que o conheceu intimamente. Supostamente se referia às irresponsabilidades atribuídas a Barack pai, a sua vida turbulenta e rebelde, cheia de contratempos e frustrações. Barack Hussein estudou por correspondência, animado por duas freiras americanas. Aprovado nos exames, tramitados pela embaixada americana, foi aceito na Universidade do Havaí. “Ninguém sabia onde ficava o Havaí, mas não lhe importou. Deixou comigo sua mulher [Kezia], novamente grávida [de uma menina, Auma], e seu filho, e em menos de um mês havia partido”, relatou Sarah na biografia do senador.

Auma é sua irmã mais próxima, a que conheceu pessoalmente em Chicago há mais de 20 anos, pouco depois da morte do pai. “Foi como se nos conhecêssemos a vida toda.” Auma, temperamental e direta, trabalhadora social no Quênia, não quer falar muito. Tem consciência de que suas palavras podem ser utilizadas para prejudicar politicamente seu irmão. “Tenho muito pouco tempo. Mande-me por e-mail que tipo de perguntas quer me fazer.” As perguntas não lhe pareceram más, mas mencionou uma viagem repentina de dez dias para adiar a entrevista com o repórter de El País. “A família está até aqui com os jornalistas”, diz um correspondente estrangeiro em Nairóbi. A família é numerosa, entre irmãos, tias, cunhados, primos e sobrinhos, e a casa natal, um santuário que as crianças mostram com o dedo antes que o visitante pergunte qual é. O serviço não é gratuito: “Give me a little money!” (Me dê um trocado).

A figura do pai, pastor de cabras na juventude, obcecou Barack Obama, que queria saber tudo sobre o africano que lhe deu a vida, sobre um homem intelectualmente brilhante, generoso, mulherengo, caótico em seu mundo pessoal e familiar. Teve muitas mulheres, algumas em aventuras e outras sacramentadas, como Ann e Ruth, americanas. Ao todo teve seis filhos e uma filha, Auma, que será chamada a desempenhar funções importantes nas relações dos EUA com a África se seu irmão chegar à presidência.

Inicialmente, Barack pai prosperou na empresa de petróleo Shell, protegida pelo governo. Impressionava ao volante de carros de luxo, impecável em seus ternos sob medida. Nesse período se casou com Ruth, deixou a companhia e entrou para o Ministério do Turismo. Suas aspirações políticas o mataram, porque as divulgou e se chocou com os funcionários mais incompetentes e perigosos da etnia governante, os kikuyo, rivais dos luo. O enfurecia a ignorância no comando dos ministérios ou das repartições. Era a primeira década pós-colonial, e pertencer a um ou outro povo determinava a vitória ou o fracasso.

Mas o sectarismo não explicava tudo. Durante o ímpeto das independências africanas, as burguesias nacionais que arrebataram o poder aos governos coloniais eram burguesias subdesenvolvidas, sem poder econômico, absolutamente afastadas da produção e do trabalho, segundo escreveu o ensaísta Frantz Fanon. Para essas burguesias “estúpidas e cínicas”, nacionalizar equivalia a transferir à direção autóctone os privilégios herdados do poder colonial. Os enormes lucros das exportações não foram reinvestidos, mas entregues a bancos estrangeiros. Boa parte pagou gastos suntuosos, os carros e as mansões dos pais da independência.

Um deles, Jomo Keniatta, um kikuyo, o primeiro presidente (1964-1978) do Quênia livre, afastou Barack Hussein Obama do governo e do manancial do dinheiro público, com o estigma de conflituoso. Ninguém lhe deu trabalho, nem no governo nem nos consórcios estrangeiros, alertados. A ruína não impediu que o economista de Harvard continuasse fazendo presentes que não podia se permitir. Vendeu o carro, vendeu o que pôde, entregou-se à bebida e acabou deprimido, suscetível e violento. “Só a mim ele confessou como era infeliz”, contou a avó Sarah a seu neto Barack. “Já lhe disse que rezo por ele?”

A decepção do pai era profunda. “Eu costumava lhe dizer que era cabeçudo demais quando lidava com o pessoal do governo. Me falava de princípios, e eu respondia que seus princípios eram uma carga pesada demais para seus filhos.” O pai os perdia, mas pouco podia fazer. Conseguiu um cargo no Banco Africano de Desenvolvimento, em Adis Abeba, mas quando preparava a viagem para ocupá-lo o governo do Quênia retirou seu passaporte. Um amigo compassivo o colocou no Departamento de Águas de Nairóbi, com um salário de terceira. Desorientado, enfurecido, chegava tarde em casa, bêbado, e exigia a gritos que sua mulher, Ruth, preparasse o jantar. Durante o encontro de Chicago, Auma contou ao irmão detalhes da progressiva deterioração de seu pai. Sonhava em recuperar Barack e sua mãe, a garota do Kansas, abandonada em Honolulu. As relações com Auma também não foram carinhosas. A jovem conseguiu uma bolsa de estudos na Alemanha e foi embora sem se despedir do pai.

As reflexões de Barack Obama sobre seu pai são tolerantes e amargas, às vezes irônicas, sempre respeitosas. “Você não trabalha duro o bastante! Tem de ajudar os outros em sua luta. Desperte, homem negro!”, lhe dizia o velho. Depois de escutar Auma e sua avó, o que poderia pensar? Foi uma vítima do destino? Um bêbado amargurado? Um marido agressivo? Um burocrata derrotado e solitário? Fosse o que fosse, era seu pai. “Temos de voltar para casa”, pediu-lhe Auma. Seu irmão não duvidou.

Barack Obama voltou à África há 20 anos, para Kogelo, a casinha de acácias e mangueiras onde o esperava sua avó. Chorou até secar as lágrimas junto ao túmulo do pai, e então percebeu que o círculo se fechava. Compreendeu, segundo sua própria confissão, que sua vida na América, a sensação de abandono que sentia quando jovem, as frustrações e esperanças estavam ligadas ao terreno africano com os restos de seus ancestrais.

Duas décadas depois, junto à casa da avó, três jovens que se dizem seus primos comunicam ao jornalista que todo o povoado, todo o Quênia, toda a África, e as pessoas de progresso, os 300 mil quenianos estabelecidos nos EUA, esperam sua vitória como as chuvas de maio. “Mas veja como são as coisas: estiveram aqui pedindo entrevistas a Sarah jornalistas que apóiam McCain. Que pouca vergonha!” Por umas e outras razões, a maioria dos africanos aplaude o senador de Illinois, incluindo o muçulmano Salim, de 22 anos, garçom, convencido de que a atual aliança política entre os EUA e o Quênia “destruirá nosso país”. Igualmente convencido de que Obama toma “alguma pílula ou injeção” para branquear o rosto, Salim quer que ele ganhe porque, “mesmo que se dê bem com os judeus, pelo menos tirará as tropas do Iraque e nós muçulmanos seremos menos perseguidos em todo o mundo”.

As investigações policiais para capturar os seguidores da Al Qaeda que há dez anos destruíram a embaixada dos EUA em Nairóbi, deixando 226 mortos e mais de mil feridos, foram intensas. A comunidade muçulmana se sentiu maltratada, sob permanente e injusta suspeita. O secretário do Conselho de Imãs do Quênia, Mohamed Kalifa, confia em uma mudança de enfoque de Obama e no fim das “políticas de confronto de Bush”.

Todos esperam algo do compatriota de raça em Chicago; todos sonham com transformações profundas em suas vidas se a Casa Branca hospedar, finalmente, um presidente negro. Organizar um debate público sobre quais podem ser suas intenções é fácil: uma cerveja ou duas no centro de Nairóbi ou em seus arredores. A coalizão de forças, a admiração por Obama e o fermento vegetal soltam as línguas e a imaginação dos freqüentadores de um bar próximo ao mercado central:

“A primeira coisa que ele fará será dar passaportes a todos os quenianos que precisarmos”, diz Benson.

“E mais vistos. Mas que também mande um pouco de dinheiro para a viagem. A viagem é cara”, replica Biko.

“Eu me conformo com que ele prenda todos os funcionários corruptos de nosso país. Então sim, teríamos mais dinheiro. Mas creio que quem vai se beneficiar mais são seus parentes”, arremata Alfred.

“Eu vou escrever pedindo-lhe uma bolsa de estudos e ficarei vivendo na América. Acho que hoje os brancos não são tão racistas”, avalia Amos.

“Obama vai ganhar porque há muitos negros na América e porque uma nova geração de brancos é a favor da mudança”, sentencia Mike.

A eventual posse presidencial de Obama adquire dimensões épicas, fantásticas, com a ingestão de cerveja. Todos lembram dele simples, magnético, magnífico, convincente durante sua visita ao Quênia em 2006, acompanhado de multidões que o aclamavam e com ele dividiam seus projetos. Obama e sua mulher, Michelle, fizeram o teste da Aids em um país com 1,5 milhão de mortos pela doença e outros 2 milhões infectados. O senador deu 13 mil euros de seu bolso para o combate à epidemia e convocou ao otimismo e à probidade no cargo, uma virtude escassa nos governos do continente.

Cameron Doudu, colunista da revista “New Africa”, afirma que o neto de Sarah conseguiu libertar o pensamento dos negros, submetidos à dominação branca e resignados “a desempenhar um papel secundário em relação aos brancos no trabalho, no colégio, na vida política ou nas relações sociais”. Barack é o homem a se imitar, a força inspiradora. E mesmo que Doudu não descarte que pode ser um mau presidente, sua força mental, sua coerência e determinação já fizeram história. “Minha filha não poderá mais me dizer que não prospera porque é negra”, lhe escreveu uma mãe.

O primeiro-ministro do Quênia, Raila Odinga, da etnia luo, prosperou e se tornou cobiçado quando alguém sugeriu seu parentesco com o político americano. “O êxito de Barack nos ajudará a romper as cadeias dos preconceitos raciais nas eleições dos líderes”, disse Odinga, interlocutor freqüente de Obama durante sua última viagem ao Quênia, antes que começassem os choques este ano entre etnias, com mais de 1.500 mortos e 400 mil desalojados. Odinga denunciou que as eleições de 27 de dezembro foram uma fraude e o sangue correu. Oficialmente foram ganhas pelo presidente Mwai Kibaki, um kikuyo. Um governo de coalizão e a multiplicação de ministérios para os novos parceiros encerraram a crise.

Os governos do Quênia e de outros países contam com Obama para contrabalançar a pressão dos grupos que controlam bastante a política externa dos EUA com os que quase não se interessam pela África. Se ganhar, lhe pedirão que comande as preocupações e expectativas africanas: que amplie as facilidades comerciais e migratórias e os empréstimos, ou intervenha na polêmica sobre a presença militar americana na região para combater o terrorismo.

“Devido à história do personalismo na África, os africanos pensam que os presidentes são oniscientes e onipresentes”, indica o analista Makau Mutua. “Mas a presidência americana é um cargo muito limitado.” A lista de reivindicações negras é muito mais ampla e difícil de rejeitar em alguns casos, pois os EUA calculam que logo receberão de suas explorações na África 25% do petróleo de que precisam. O abastecimento obriga a uma excelente relação com os proprietários dos poços.

À espera dos acontecimentos e de que as eleições de 4 de novembro referendem os prognósticos africanos, a maioria adora Barack Obama, como nos anos 1960 os irlandeses idolatraram o presidente assassinado John F. Kennedy. Um grupo de adoradores quenianos foi além e constituiu uma frente contra as “manipulações” do rival, John McCain. “Com tantas ferramentas informativas, confrontar as mentiras não é muito fácil”, segundo o porta-voz do grupo de apoio, Peter Mbae.

A partir de amanhã, o Quênia se reunirá à frente da televisão e do rádio para escutar as palavras do campeão ungido pela fortuna e brindar por seus ancestrais africanos. “Deus o escolheu para que nós, os negros, possamos prosperar um pouco”, acredita Alice, 45 anos, vendedora de feijão em um mercado de Kisumo. Ela quer acreditar que a vitória de Obama e seus planos para o Quênia a farão ganhar pelo menos 150 euros por mês. “Não é muito, é?”

Por: Noticias UOL
Foto: www.uai.com.br

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O império do cinema

Densora - Densora

Cena do filme “Desonra” (2005), do diretor japonês Masahiro Kobayashi
Divulgação

A história dos filmes japoneses, de 1899 até hoje, é tema de um livro fundamental da pesquisadora italiana Maria Roberta Novielli

O cinema do Japão está na pauta do ano por conta das celebrações que lembram os cem anos da chegada dos imigrantes japoneses ao Brasil. Uma mostra abrangente foi realizada em fevereiro, em São Paulo, com 20 filmes dirigidos por mestres japoneses, como Akira Kurosawa, Yasujiro Ozu e Nagisa Oshima. Em outras cidades do Brasil, também se realizam mostras do filme nipônico.
A oportunidade é boa para descobrir ou rever a cinematografia de um país que amalgama a tradição milenar do teatro kabuki e da xilogravura ukiyoe junto à ousadia pop-erótica dos filmes de samurai e a fórmula pastiche concedida ao gênero máfia por diretores como Takashi Miike e Takeshi Kitano.
É nesse vasto território híbrido que a italiana Maria Roberta Novielli, professora de cinema e literatura japoneses na Universidade Ca’ Foscari, de Veneza, se meteu ao aceitar a sugestão de escrever um livro que contasse a história do cinema japonês desde os primórdios.
Após morar durante três no Japão e finalizar uma especialização em cinema japonês na Universidade Nihon, em Tóquio, Novielli encarou o projeto e escreveu um volume de 450 páginas, sob o título simples e ambicioso de “História do Cinema Japonês”. A obra foi lançada na Europa em 2001 e só agora chega às livrarias brasileiras, publicada pela editora UnB (R$ 60).
Na ampla abordagem feita por Novielli –desde os primeiros filmes japoneses de 1899, assinados pelo jovem Shiro Asano, até a produção recente de novos nomes como Mitsuo Yanagimachi e Hirokazu Kore-eda, cujos filmes “Ninguém Pode Saber” (2004) e “Depois da Vida” (1998) renderam-lhe glórias por aqui –destacam-se os retratos dedicados em capítulos exclusivos ao renomado trio Kurosawa, Ozu e Mizoguchi, além da revelação de mestres não tão afamados como Keisuke Kinoshita e Kon Ichikawa.
O livro também traz ao leitor ocorrências curiosas como o nascimento do monstro Godzila, consagrado nas telas de cinema e inspirador de gênero bastante explorado cujo protagonista é uma aberração apocalíptica.
Diz a autora que a idéia de criar o monstro foi uma forma de protesto contra as explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki e demonstrava aversão aos novos testes nucleares comandados pelos americanos em ilhas japonesas. O ser bizarro gerado por detonações nucleares transformou-se em sucesso de público e garantiu uma nova fórmula às produtoras japonesas em crise: os kaiju eiga (filmes de monstro).
De Veneza, Novielli conversou com Trópico sobre o livro recém-lançado, discorreu sobre o papel da mulher na sociedade e no cinema japonês e ressaltou a obra de Masahiro Kobayashi, diretor de “Desonra”, como um dos expoentes do atual cinema japonês.
*

Você esteve no Japão para escrever o livro “História do Cinema Japonês”?
Maria Roberta Novielli: Depois da minha graduação em língua e literatura orientais em Veneza, onde me formei com uma tese sobre o diretor Nagisa Oshima (sob orientação do professor Marco Müller, atual diretor do Festival de Cinema de Veneza), fui para o Japão e passei três anos estudando cinema japonês no departamento de cultura da Universidade de Nihon, em Tóquio.
Quando voltei para a Itália, trabalhei em vários festivais como curadora e passei a escrever para revistas de cinema, antes de começar a lecionar na Univerdidade Ca’ Foscari, de Veneza. A oportunidade de escrever o livro surgiu nessa época. Foi um trabalho feito por encomenda porque não existia na Itália nenhum livro que tratasse do cinema japonês.

Qual é a influência do teatro kabuki no cinema japonês? Ainda hoje se podem notar elementos dessa manifestação artística?
Novielli: Hoje a influência do teatro kabuki no cinema praticamente desapareceu, mas nas origens o cinema japonês era completamente voltado às práticas do teatro, não apenas porque os argumentos eram adaptações de peças teatrais, mas também porque os atores eram fisgados do teatro para trabalharem nos filmes. Além disso, as primeiras projeções aconteciam nos palcos dos velhos teatros dedicados ao kabuki.

Algo que chama a atenção nos filmes japoneses das décadas de 50 e 60 é o papel da mulher sendo representada quase sempre como prisioneira do seu destino, impossibilitada de escolher sua própria trajetória. Você acha que é um drama comum refletido no cinema japonês?
Novielli: É um drama comum em certas épocas, sobretudo ao longo dos anos 50. Na obra de alguns diretores, como Yasujiro Ozu ou Kenji Mizoguchi, é realmente um elemento recorrente. Mas existem também exemplos de mulheres fortes e protagonistas do seu próprio destino no cinema japonês.

O número de personagens femininos no cinema japonês é significativo, em especial nos filmes de Mikio Naruse e de Mizoguchi.
Novielli: De fato, esses dois autores em particular são os responsáveis por estudarem o universo feminino no Japão. Alguns anos mais tarde, em torno dos anos 60-70, houve outro diretor chamado Yasuzo Masumura, que também concentrou seu ponto de vista sobre o universo feminino, mas retratando em geral mulheres fatais, de caráter forte.

É raro encontrar diretoras de cinema no Japão. No livro que você escreveu, aparece apenas um nome: Naomi Kawase. Ainda hoje o cenário é reduzido quando se fala de mulheres dirigindo filmes?
Novielli: É sim. Infelizmente cineastas mulheres são muito poucas no Japão, ainda que nos últimos anos o nome de Kawase tenha se destacado. Mesmo para Kawase foi um processo muito difícil, uma escolha complicada, porque ela teve sempre que trabalhar como artista independente. Isso permitiu-lhe realizar um cinema íntimo e pessoal, porém longe de ser comercial.

O que mudou no cinema japonês com a ocupação americana após a Segunda Guerra Mundial?
Novielli: Muitas coisas mudaram, os temas foram forçados a se tornarem mais democráticos. Em alguns períodos, foi possível fazer um cinema político mais aberto. Muitos aspectos sociais surgiram nos filmes. Houve sobretudo uma mudança importante nas leis de mercado, o que possibilitou que obras de renome fossem exportadas para todo o mundo.

Havia também um cinema de protesto contra a ocupação?
Novielli: A censura imposta durante a ocupação americana foi muito severa, portanto não houve praticamente meios de realizar e principalmente distribuir filmes que fossem contrários à política de ocupação. Mas, assim que as tropas americanas deixaram o território japonês, multiplicaram-se os filmes “subversivos”, em grande parte por efeito do expurgo infligido pelos comunistas, que obrigou muitos autores a realizarem filmes independentes.

O abrandamento da política social e econômica nos anos 60 foi o principal fator pela transformação do cinema japonês, que se torna mais moderno, pop e erótico?
Novielli: Muitos dos gêneros cinematográficos da década de 60, por exemplo os filmes sobre a máfia yakuza ou as produções eróticas, na verdade nasceram nos anos anteriores de maneiras diversas. O êxito desses dois gêneros, em particular, se deve à exploração de temas –violentos e eróticos– que pudessem satisfazer o público jovem e masculino dos anos 60, já que as famílias, deslocadas para a periferia, acompanhavam mais os programas televisivos do que os lançamentos cinematográficos.

Como explicar o sucesso e a quantidade de filmes eróticos no cinema japonês, tendo em vista a austeridade da sociedade japonesa?
Novielli: Não considero a sociedade japonesa austera, além do que o erotismo é um tema muito difundido desde a antiguidade no Japão. Basta pensarmos na xilogravura ukiyoe (pinturas e ilustrações do século 17 que exibiam figuras de apelo hedonista), principalmente o gênero definido como shunga, que era altamente erótico e continha desenhos de sexo explícito.

Mesmo assim, o filme “O Império dos Sentidos” (1976), do diretor Nagisa Oshima, pode ser considerado pioneiro?
Novielli: A censura no Japão preocupa-se em esconder apenas partes específicas do corpo humano, como a zona pélvica. Este é o único limite imposto ao erotismo ou à pornografia. Fora isso, existiram muitos filmes com apelo erótico já no início dos anos 60. Portanto, o filme de Oshima não é pioneiro neste sentido.

A onda de filmes de horror é um fenômeno atual no cinema japonês?
Novielli: Não, o cinema de horror sempre existiu. Na tradição teatral e literária do Japão, o horror sempre esteve presente, desde a antiguidade. O que mudou na década de 90 foi a estética adotada pelos diretores, como a ausência de lugares clássicos, como castelos e cemitérios. Na prática, só foi alterado o estilo dos filmes.

O filme que se vê no Japão é o mesmo que chega no Ocidente?
Novielli: Agora, no Japão, existe uma grande produção de filmes comerciais que dificilmente chegam no Ocidente, com exceção dos filmes de horror, que entre nós fazem bastante sucesso. Há muitos autores japoneses desconhecidos por aqui, a não ser pelas breves aparições em festivais de cinema europeu. No entanto, alguns diretores tiveram grande parte de sua obra distribuída no Ocidente, como Takeshi Kitano, Takashi Miike, Shin’ya Tsukamoto, Hideo Nakata, Kiyoshi Kurosawa, entre outros.

Qual diretor japonês contemporâneo tem chamado a sua atenção?
Novielli: Pela versatilidade, gosto do Takashi Miike. Pela poesia, Masahiro Kobayashi e Shinji Aoyama. Pelo experimentalismo, Sogo Ishii. E pela sensibilidade, Kiyoshi Kurosawa.

“Desonra”, o penúltimo filme dirigido por Masahiro Kobayashi, estreou em maio no Brasil. O que acha dele?
Novielli: Kobayashi ganhou no ano passado o Pardo d’Oro no Festival de Locarno (Suíça), com um filme belíssimo chamado “Rebirth” (2007). Eu gosto de “Desonra” (2005), é seguramente um bom filme, mas “Rebirth” para mim é uma obra rara, uma das mais poéticas e arrebatadoras histórias de amor que o cinema japonês já contou, narrada com uma profundidade emocional impressionante.

Publicado em 11/8/2008.
Trópico Uol
Fernando Masini
É jornalista.

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Cresce o número de tatuados arrependidos, diz pesquisa

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Um em cada quatro jovens de 18 a 30 anos nos EUA tem uma tatuagem e cerca de 80% deles dizem estar satisfeitos por tê-la feito. A outra face da moeda é que um em cada cinco tatuados se arrepende de ter marcado sua pele com tinta e gostaria de removê-la. Só cerca de 6% farão isso, mas cada dia há mais consultas para eliminar tatuagens - também porque cada dia mais pessoas se tatuam. Esses são os principais resultados de um estudo americano que analisa os motivos pelos quais os cidadãos se tatuam e por que mais tarde querem apagar os desenhos da pele. As conclusões desse relatório podem ser extrapoladas para a Espanha, segundo especialistas consultados.

O estudo, com dados da Sociedade Americana de Dermatologia e publicado ontem na revista “Archives of Dermatology” da Associação Médica Americana, foi realizado por profissionais de quatro clínicas dermatológicas do Arizona, Colorado, Massachusetts e Texas. Suas conclusões se baseiam nas respostas dadas por 196 pessoas tatuadas que procuraram os centros citados: 25% para a primeira consulta, 55% estavam apagando tatuagens e as demais já tinham apagado alguma e agora queriam apagar outra.

Um dos dados mais relevantes é que duas em cada três pessoas que queriam eliminar tatuagens são mulheres. Cruzando esse número com os dados obtidos em outro estudo realizado em 1996, observa-se uma mudança de tendência: há dez anos 65% dos que queriam limpar os desenhos da pele eram homens.

Na Espanha, embora não haja dados claros a respeito, também se notou um aumento do número de mulheres que decidem se tatuar, já que essa prática estética era quase exclusiva dos homens há algumas décadas. É o que confirmam a Sociedade Espanhola de Medicina Estética e a Associação Espanhola de Dermatologia, entidades que indicam que também costumam ser as mulheres as que mais se arrependem depois de ter-se tatuado.

O perfil da mulher que quer eliminar a tatuagem, segundo o estudo americano, é de 24 a 39 anos, com estudos e solteira, embora com uma relação estável ou inclusive com filhos. Dois terços dos tatuados que querem eliminar suas marcas as fizeram quando tinham entre 16 e 23 anos - em 1996 eram maioria na faixa de 12 a 19 anos - e os motivos que os levaram a marcar a pele na época foram o desejo de se sentir diferente (44%), de reafirmar sua identidade e independência (33,5%) ou simplesmente como uma experiência a mais (28%).

Agora queriam apagar a tatuagem porque os envergonha, não gostaram como ficou, porque têm um novo emprego, por problemas com a roupa, por rejeição social (comentários negativos no trabalho, na escola, no ambiente…) ou por tê-lo decidido por motivo de seu aniversário, casamento ou divórcio.

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