
Documento da Igreja Católica intitulado Análise da Conjuntura, divulgado ontem em congresso internacional em Indaiatuba (SP), critica a ação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva frente à crise econômica e diz que "Lula entregará ao seu sucessor ou sucessora um país em situação tão precária quanto a que recebeu". A reportagem é da Folha de S.Paulo, 27-11-2008.
A análise aponta que "o presidente continua dando força ao agronegócio e à mineração, sem atentar para os danos ambientais", e que isso gerará "a crise ecológica" no país.
"Tudo se passa como se o aumento da produção para a exportação fosse uma solução e não um paliativo que adia a crise econômica, mas antecipa a crise ecológica, que é muito mais grave e que prejudicará mais os mais pobres do que os ricos", diz trecho do texto de dez páginas assinado por padres e teólogos assessores da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).
Os religiosos indicam que a política industrial do governo "vai no sentido de favorecer a indústria automobilística, como se ela tivesse futuro".
A análise foi feita a pedido da CNBB para orientar bispos. Apesar disso, há uma aviso que diz que "este não é um documento oficial da CN
Para centrais sindicais, crise já chegou à economia

As centrais sindicais, cujos dirigentes reuniram-se ontem em Brasília, afirmam que a crise internacional já chegou à economia real brasileira. De acordo com documento divulgado ontem pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), e que servirá como base para a marcha que os sindicatos farão no fim do ano a Brasília, não bastam apenas ações para proteger bancos e empresas: o governo tem que garantir a manutenção dos empregos dos trabalhadores brasileiros.
A reportagem é de Paulo de Tarso Lyra e publicada no jornal Valor, 26-11-2008.
Lula participou de jantar ontem com os representantes das principais centrais sindicais, em encontro que havia sido pedido há tempos. Para a CUT, a maior prova que os efeitos da crise não se circunscrevem ao sistema financeiro é o anúncio de férias coletivas e a suspensão dos investimentos programados em setores importantes de nossa economia. "Portanto, é fundamental uma intervenção rápida, correta e decisiva do Estado brasileiro para impedir que estes efeitos se espraiam sobre os vários setores, porque os trabalhadores serão certamente as maiores vítimas, por meio da perda do emprego e da rápida queda do nível de renda", acredita o presidente da CUT, Artur Henrique.
Na visão da central, as ações do governo não podem ser de "socialização das perdas" do setor financeiro. Os sindicalistas apóiam-se em levantamento do Bank for International Settlements (BIS), mostrando que a riqueza em papéis denominados de "derivativos e outras inovações financeiras" é de cerca de US$ 600 trilhões, comparado a um valor de produção efetiva de riquezas, medida pelo PIB mundial, de US$ 65 trilhões.
Dentre as propostas feitas pela CUT, estão: a garantia de que não haverá demissões por conta da crise; a ratificação da Convenção 158 da OIT; a redução da jornada de trabalho para 40 horas sem redução salarial; o fim do superávit primário e a estatização das instituições financeiras com risco de solvência, dentre outros.
Menos Estado e má repartição da riqueza: as razões da crise global. Artigo de Marcio Pochmann

O caráter privado da desregulação mundial termina por gerar situações inaceitáveis, como as atuais crises alimentar e climática. A análise é do economista Marcio Pochmann, presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em artigo no Valor, 27-11-2008.
Eis o artigo.
A crise econômico-financeira mal iniciou e já produz resultados nefastos que podem superar os de 1929. Somente nos primeiros nove meses de 2008, as bolsas de valores sofreram baixas superiores a 25%, sendo que, para alguns países, com queda acima da verificada nos Estados Unidos e na Inglaterra durante a Depressão de 1929. Parece não terem sido ainda mais profundas por força de uma ampla coordenação mundial de intervenções governamentais, com transferências significativas de recursos públicos aos setores atingidos e com maior poder de pressão. Da mesma forma, prevalece uma intensa articulação política de países, como no caso do G-20, que busca novas brechas para a reversão dos equívocos provocados pela desregulamentação neoliberal e pelos artificiais avanços da financeirização sem fundamentação na produção de riqueza.
Desde o final da década de 1970, quando se tornou dominante a visão do Estado apresentado como obstáculo ao desenvolvimento, a liberalização da economia tomou força somente comparável ao ideário governamental do século 19. Naquela época de predomínio inglês, o capitalismo operava praticamente sem a presença de grandes empresas, apoiado na diversidade de micro e pequenos empreendimentos sem capacidade de impor seus preços a partir da somatória de custos mais margem de lucro. Bem diferente do que vem ocorrendo desde o último quartel do século 20, que demarca o longo processo de esvaziamento dos Estados Unidos enquanto centro dinâmico produtivo e financeiro do mundo. Assim como também aponta para a insuficiência da governança mundial operada a partir do sistema ONU (Organizações das Nações Unidas), por meio de agências multilaterais como Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, entre outras.
De um lado, o peso dos EUA na economia mundial reduziu-se significativamente, com a transferência de parcela do seu setor produtivo para outros países decorrentes da perda de competitividade das empresas e das políticas de enfraquecimento do Estado e do sistema de atenção à produção e emprego. Mesmo assim, os ideólogos do neoliberalismo continuaram a estimular a crença de que seria possível viver como país eternamente super rico num quadro geral de empobrecimento relativo, com consumo superior a 20% da capacidade anual de produção de bens e serviços e o endividamento 3,5 vezes maior que a renda nacional.
O próprio estopim da crise financeira terminou indicando o quanto a opção pela redução do Estado se mostrou inadequada para substituir as políticas sociais por forças exclusivas do mercado. No caso da habitação para os segmentos de baixa renda, por exemplo, o esvaziamento de políticas sociais específicas estimulou o setor privado americano a operar irresponsavelmente, emprestando em longo prazo a quem tinha oportunidade negada de acesso a empregos e remunerações decentes. A mesma situação se reproduziu às famílias levadas a acreditarem exclusivamente nos fundos previdenciários privatizados frente ao atual registro de quedas significativas no valor patrimonial, capaz de inviabilizar benefícios adequados de pensões e aposentadorias.
De outro lado, o papel quase simbólico atual das agências multilaterais construídas no final da Segunda Guerra Mundial, quando os países eram maiores, em geral, que suas empresas. Nos dias de hoje, as corporações transnacionais tornaram-se superiores ao produto anual de países, sendo o mundo, por isso, governado pelo poder privado de não mais do que 500 grandes grupos econômicos. As três maiores delas possuem faturamento anual superior ao PIB do Brasil, considerado o décimo mais rico do planeta, enquanto o faturamento das cinqüenta grandes corporações do mundo supera o PIB de mais de uma centena de países. Se consideradas somente as famílias enriquecidas pelo processo disfuncional de governança pública do mundo, observa-se que apenas um reduzidíssimo conjunto de menos de 1,2 mil bilionários chega a se apropriar de renda equivalente a da metade da população adulta do planeta.
O caráter privado da desregulação mundial termina por gerar situações inaceitáveis, como as atuais crises alimentar e climática. Com o abandono das políticas de segurança alimentar desenvolvidas no segundo após-guerra, que geralmente buscavam operar estoques reguladores e garantia de renda ao campo, as grandes corporações transnacionais do agronegócio sentiram-se estimuladas a estabelecerem preços inicialmente inferiores aos dos produtores tradicionais. A queda nos preços alimentares durou pouco, porém se mostrou suficiente para que houvesse o maior empobrecimento, quando não a falência dos pequenos agricultores, bem como o aprofundamento da dependência externa de tecnologia (defensivos e fertilizantes agrícolas). Nos dias de hoje, o comportamento dos preços dos alimentos pouco atende aos produtores, mas fundamentalmente às grandes corporações mundiais.
Da mesma forma, o mundo continua a insistir na continuidade do modelo de produção e consumo assentado na profunda degradação ambiental. A consciência de sua insustentabilidade não vem acompanhada da produção e difusão de tecnologias limpas e renováveis, justamente porque isso implica rever a hierarquia do mundo organizada a partir da desregulação operado pelas grandes corporações transnacionais.
Resumidamente, a contenção do papel do Estado por quase três décadas foi acompanhado por inquestionável processo de concentração brutal da renda e riqueza mundial. A liberalização das economias enfraqueceu o poder dos trabalhadores na barganha pela maior participação dos salários na renda dos países. Em geral, a parcela salarial dos trabalhadores caiu quase 20 pontos percentuais no PIB, de mais de 70% para um pouco acima dos 50% nos países avançados nos últimos trinta anos.
Nos países não desenvolvidos, a queda também se generalizou de acima dos 50% para abaixo dos 40% do PIB desde o final da década de 1970. Com o esvaziamento do Estado, as políticas sociais foram abandonando gradualmente a perspectiva da universalização para aderirem à lógica da focalização, tão defendidas até pouco tempo por agencias multilaterais como Bird e FMI. Percebe-se, hoje, como se mostraram incapazes de sustentar o padrão de bem estar social compatível com o grau de avanço econômico dos países. O resultado não poderia ser outro: desigualdade e o quadro geral de relativa regressão socioeconômica.
Mesmo que apresente característica distinta da Depressão de 1929, a crise econômico-financeira atual tende a demandar remédios muito parecidos. Ou seja, o maior fortalecimento do papel do Estado regulador em novas bases, bem como a desconcentração da renda e riqueza no mundo. Tudo isso, no entanto, não deveria ser estabelecido exclusivamente no âmbito nacional, mas, crescentemente no plano supranacional, por ser capaz de por em marcha uma nova ordem mundial comprometida com prosperidade compatível tanto com a justiça social como a sustentabilidade ambiental do planeta.
É hora de construir o planeta social’. Entrevista com Zygmunt Bauman

“O Estado social acabou. É hora de construir o ‘Planeta social’”. Só assim, explica Zygmunt Bauman, se poderá sair da crise global que o mundo contemporâneo está vivendo. A política deve ter a força de reinventar-se em escala planetária para enfrentar a emergência ambiental ou a discrepância crescente entre ricos e pobres. Senão, está condenada à marginalidade em uma dimensão local, com instrumentos obsoletos adaptados a um mundo que não existe mais. O inventor da “sociedade líquida” não acredita em uma capacidade de auto-reforma da política. “Melhor construir uma opinião pública global e confiar-se a organizações cosmopolitas, extra-territoriais e não-governativas”.
A reportagem é de Alessandro Lanni, publicada no jornal La Repubblica, 21-11-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Os nossos políticos conseguirão mudar de paradigma, passando do local ao global?
Eu não contaria muito com os governos – de nenhum país, pequeno ou grande que seja – e menos ainda com suas tentativas de colaboração, que terminam freqüentemente em uma poesia de nobres intenções mais do que em uma prosa de concreta realidade. Os poderes que decidem sobre a qualidade da vida humana e sobre o futuro do planeta são hoje globais e, portanto, do ponto de vista dos governos, são extraterritoriais e isentos da sua soberania local. Até que não elevemos a política aos níveis já alcançados pelo poder, as probabilidades de para os desenvolvimentos catastróficos a que estamos conduzindo a nossa vida sobre o planeta são, pelo menos, escassas.
Portanto, de quais instrumentos alternativos a política deve dotar-se para enfrentar as grandes emergências do novo mundo global?
O objetivo de parar as desigualdades globais que tendem a se tornar rapidamente mais profundas não está entre as prioridades das agendas políticas dos Estados-nações mais potentes, apesar de tantas promessas feitas a respeito. Contemporaneamente, faltam ainda uma “agenda política planetária” e instituições políticas globais eficazes e dotadas de recursos que lhes permitam perseguir tais objetivos tornando-os operativos. As prerrogativas territoriais dos Estados-nações obstaculizam a criação de tais agendas e de tais instituições e tornam ainda mais difícil a tentativa de mitigar o processo de polarização.
Os Estados sozinhos não podem fazer isso. Os indivíduos cidadãos têm alguma possibilidade a mais para frear os desconfortos que são anunciados, para organizar uma ação coletiva?
Aqui intervém aquele fator que foi amplamente descrito com o termo “individualização”. Com a progressiva queda da condição de defesa mantida contra os medos existenciais e com o estar menos de acordo com a autodefesa comum, como por exemplo os sindicatos ou outros instrumentos de contratação coletiva, despotencializados pela competição imposta pelo mercado, espera-se que os indivíduos encontrem e coloquem em prática soluções individuais a problemas produzidos pela sociedade no seu complexo. Mas fazer tudo isso sozinhos e com instrumentos necessariamente limitados é manifestamente inadequado à tarefa prefixada.
Também as mudanças climáticas estão entre os grandes medos e inseguranças que o homem ocidental deve enfrentar.
A insegurança deriva da diferença entre a nossa interdependência planetária geral e a natureza meramente local, ao nosso alcance, dos nossos instrumentos de ação concertada e de controle. Os problemas mais terríveis e assustadores que nos atormentam e que nos levam a provar uma sensação de insegurança e incerteza com relação a tudo o que nos circunda têm origem no espaço global que está além do alcance de qualquer instituição política ora existente. No entanto, esses problemas são descarregados sobre entidades locais – cidades, províncias e Estados –, onde se pretende que sejam resolvidos com aqueles meios disponíveis em nível local: uma tarefa praticamente impossível.
Entrentanto, muitos sustentam que algumas questões relativas à poluição, à produção de energia, aos resíduos, podem ser enfrentados em nível “micro”, de cidade, de governo local.
A poluição atmosférica e a falta de água potável são questões que têm origem no espaço global, mas depois são as instituições locais que devem geri-las. O mesmo princípio se aplica ao problema das migrações, do tráfico de drogas e de armas, do terrorismo, da criminalidade organizada, da incontrolável mobilidade dos capitais, da instabilidade e da flexibilidade do mercado de trabalho, da alta dos preços dos bens de consumo e assim por diante. A esfera política local é sobrecarregada de tarefas e não é suficientemente forte ou dotada de recursos para resolvê-las. Só instituições políticas e jurídicas internacionais – até agora ausentes – poderão reter as forças planetárias atualmente desreguladas e alcançar as raízes da insegurança global.
É um governo planetário que irá salvar o mundo?
No estado de desenvolvimento a que a globalização dos capitais e dos bens de consumo já alcançou, não existe nenhum governo que possa permitir-se, individualmente ou em relação com outros, acertar as contas – e sem acertar as contas é impensável que se possa efetivamente colocar em prática as medidas típicas do Estado social, com o objetivo de reduzir à raiz a pobreza e prevenir que a desigualdade continue a crescer livremente. Além disso, é difícil imaginar governos capazes de impor limites sobre o consumo e aumentar as taxas locais a níveis necessários para que o Estado possa continuar a oferecer serviços sociais com a mesma intensidade ou com maior vigor.
A globalização apaga também o Estado social. Professor Bauman, o senhor não tem esperança em um pouco de justiça e de igualdade no mundo do século XXI?
Não existe uma maneira adequada por meio da qual um só ou mais Estados territoriais juntos possam sair da lógica de interdependência da humanidade. O Estado social não constitui mais uma alternativa válida. Somente um “Planeta social” poderia recuperar as funções que, há não muito tempo, o Estado buscava desenvolver, com destinos diferentes. Acredito que o que pode ser capaz de se dirigir por meio desse imaginário “Planeta social” não são os Estados territoriais e soberanos, mas principalmente as organizações e as associações extra-territoriais, cosmopolitas e não-governativas, que alcançam de maneira direta quem se encontra em uma condição de necessidade, sobrevoando as competências dos governos locais e soberanos e impedindo-os de interferir.