Arquivo de 4 de Novembro de 2008

Crise externa evidencia que Brasil não soube aproveitar fase de ‘bonança’

Creio que o impacto será realmente forte e nota-se que, mais uma vez, perdemos a oportunidade de crescer mais vigorosamente quando o mundo inteiro o fez, na época da bonança, afirma a economista e professora da Usp Leda Paulani

Creio que o impacto será realmente forte e nota-se que, mais uma vez, perdemos a oportunidade de crescer mais vigorosamente quando o mundo inteiro o fez, na época da bonança, afirma a economista e professora da Usp Leda Paulani

03/11/2008

Valéria Nader

Correio da Cidadania

Já vai longe na memória da população brasileira os dados há tão pouco tempo anunciados e festejados, e que davam conta do crescimento da economia, do aumento do emprego e da renda e de uma quantia portentosa de reservas pra lidar com a crise externa.

Ademais, os reiterados enunciados, até meados desse ano, a respeito do descolamento dos emergentes, e as renitentes declarações, há não mais que duas semanas, que previam que a tormenta mundial não faria mais do que cócegas na economia brasileira hoje adquirem dimensão insólita.

Ao mesmo tempo, no entanto, em que autoridades monetárias e econômicas de todo o mundo, e de nosso país em particular, viram extirpar-se qualquer nuance dessa noção, agora não escondem o seu atordoamento diante da necessidade de reagir a acontecimentos que surgem e se propagam com força e violência inéditas no cenário financeiro – pelo menos desde a crise de 30.

Liberação de compulsórios, venda de dólares no mercado à vista e futuro, possibilidade de compra de instituições financeiras pelo Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal – duas instituições públicas outrora demonizadas pelo mercado, que escaparam à sanha privatista fernandina e que agora são elevados à condição de salvadoras do capitalismo verde-amarelo – são algumas das medidas que formam parte do arcabouço reativo dos mandatários econômicos do Brasil.

Para analisá-las, assim como contextualizar a crise e seus novos desdobramentos em nosso país, conversamos com a economista e professora da Usp Leda Paulani.

Confira abaixo.

Correio da Cidadania: Estamos em um momento de crise estrutural do capitalismo ou do neoliberalismo?

Leda Paulani: Sem dúvidas, é uma crise estrutural do capitalismo, mas é também uma crise muito particular, porque é decorrente da forma que o capitalismo adotou desde o final dos anos 70, nesses últimos 35 anos.

Portanto, ela é estrutural por partir dessa forma de acumulação capitalista. E se o capitalismo naturalmente já é propenso a crises, com esse tipo de organização hoje predominante, ficou suscetível a crises mais profunda.

Em paralelo, há, digamos assim, um chacoalhão no neoliberalismo, mas não acredito que seja uma crise estrutural desse modelo, pois acho que os fatores que promoveram tal discurso como verdadeiro ainda estão presentes, principalmente em função do tamanho da dimensão financeira, que cresceu muito nos últimos tempos, essencialmente de 1980 pra cá.

Existem interesses materiais muito poderosos inteiramente atrelados à crise.

Não sei se será reconhecida a derrota do neoliberalismo, mas diria que ficou mais frágil, vulnerável. Principalmente depois de 2002, foram poucos os críticos a dizer que o capitalismo financeirizado produz um desenvolvimento medíocre, aumenta a desigualdade etc. Isso era algo sem resposta. E no momento em que a China finalmente resolveu adentrar o sistema, puxando todo o resto, os defensores passaram a ter todos os argumentos para reiterar esse capitalismo e a política econômica dos Estados a ele submetidos.

Agora, no entanto, não têm mais esses argumentos, ficou complicado fazer a defesa. Eu diria, portanto, que o neoliberalismo ficou mais vulnerável, mas não que vá acabar ou morrer. Não creio ser do dia para a noite que se desmonta uma hegemonia de 20, 30 anos.

No Brasil muito se aventaram o crescimento sustentado e os sólidos fundamentos econômicos. Mas parece que estamos sofrendo o início de um ataque especulativo. Você concorda com essa idéia? Como se explica o ‘aparente’ paradoxo?

Na realidade, o Brasil ficou durante todo esse tempo de bonança muito atrás do restante da América Latina em termos de crescimento. Aqui se fez uma política mais realista que o rei, com uma política monetária extremamente apertada, juros elevados, com superávits primários altíssimos e com uma idéia de que a valorização da moeda era boa para o país, incentivando investimentos externos. O tempo inteiro se argumentou que era necessário fazer a defesa de todos os fundamentos da economia e aquela cantilena toda. Mas isso fez, na verdade, com que o país perdesse uma oportunidade de crescimento.

Quando o Brasil começa a crescer (em 2006 começou a crescer e em 2007 teve o ano mais razoável), pelos mesmos motivos que levaram os outros países a crescer, e que por sinal começaram bem antes nesse processo, a coisa dura pouco, pois vem a crise e atropela o processo.

Portanto, esse discurso conservador ficou complicado. Tudo bem que o Brasil possui um sistema financeiro mais sólido, menos alavancado etc., mas eu já vinha destacando que o Brasil não passaria incólume, pois a crise vai bater no chamado lado real da economia por conta da escassez de crédito na economia doméstica e no resto do mundo, e uma vez que as empresas tomaram empréstimo lá fora, principalmente grupos e organizações de capital mais estruturados. Agora, há dois problemas para que a economia se desenvolva: em primeiro lugar, essa menor disponibilidade de crédito externo e interno; em segundo, a simples troca de crédito externo por interno já faz o sistema ficar abalado, pois temos uma taxa de juros elevadíssima. Só por aí já dá para perceber que haverá uma pressão muito forte sobre a economia brasileira, impedindo que ela continue nesse caminho de crescimento.

Ademais, há também o problema da redução da demanda externa, o que já pode ser visto através da redução no preço das commodities e também das quantidades exportadas pelo país. Ou seja, temos dois fatores a se combinarem. Queda de preço e de quantidade. Quer dizer, esses dois elementos – o papel da demanda externa na composição da demanda agregada, em condições de fazer o país retomar o crescimento, de um lado, e a escassez de crédito, de outro - já são capazes de tornar previsível o quanto o Brasil será afetado pela crise.

Mas, além dessas questões, agora está ficando claro que temos também problemas de outros tipos. Alguns analistas têm visto que a bolha do Brasil é a dos derivativos, o que já havíamos detectado nas empresas exportadoras, que estavam vendidas em dólar e se protegiam com a receita em reais, uma vez que a perspectiva do dólar era de queda. Ocorre que, se tais empresas, como acontece no capitalismo financeirizado, trabalham, por exemplo, com bebidas, elas transacionam no mercado futuro – de derivativos - uma quantidade de bebidas 10, 15 vezes maior do que aquela de que realmente necessitam. Tudo porque os caixas das empresas têm que operar com lucro. Não têm de operar tecnicamente para permitir ou não o desenvolvimento da empresa, mas sim operar com lucro. Como a perspectiva de o dólar continuar caindo se inverteu, as empresas que fizeram essas operações acabaram levando o tombo.

Você acredita que, se a economia brasileira, na fase de bonança internacional, tivesse sido conduzida por um outro projeto de país, por um outro modelo econômico, ou pelo menos por medidas mais rígidas no controle do capital especulativo, sofreríamos menos com essa crise?

Primeiramente, teríamos aproveitado mais o período de crescimento para investir em infra-estrutura e garantir mais emprego. Além disso, se tivesse havido maior controle de capitais na abertura da economia brasileira, tão financeirizada que foi, teríamos muito mais condições de controlar o impacto desses capitais. Isso porque, com câmbio sensível e economia aberta financeiramente, fica-se sujeito a mudanças bruscas no curso da economia. Com um quadro de maior controle e cobrança sobre os capitais, tais operações ficariam muito reduzidas.

Em suma, o país poderia ter aproveitado melhor o período anterior, de bonança, para depois ter mais condições de, no momento da crise, com maior controle de capitais, lidar com os seus impactos.

Ou seja, é fantasioso esse discurso dos analistas de que a cautela do Banco Central durante todos os anos que se passaram agora estaria demonstrando sua faceta positiva.

É falacioso esse discurso. Tanto que os fundamentos eram as contas públicas, o superávit primário, a queda da dívida pública, a taxa de juros elevada etc. Agora não, são as reservas externas, e quem inclusive argumentou que o Brasil tinha um bom colchão de reservas para o caso de o cenário externo se complicar foi a oposição.

Os analistas falam que foi graças à determinação do presidente do Banco Central que o país teria acumulado essas reservas. Uma pinóia, porque havia também o discurso sobre o custo de acumulação dessas reservas, dado seu impacto na crescente dívida pública interna em função dos altíssimos juros. Dizia-se que era muito caro comprar divisas porque a taxa de juros era muito elevada. Claro que por culpa deles mesmos, mas usavam esse argumento. Depois, acabaram finalmente cedendo e, se hoje há algo que minimamente nos protege dessa crise, não é o superávit primário, mas sim os dólares das reservas.

Em face da deterioração evidente da conjuntura, e pensando nas medidas que vêm sendo adotadas pelo governo brasileiro, gostaria de saber de sua opinião sobre algumas delas. A liberação de compulsório pelo BC, as operações de swap cambial e também de venda de dólares no mercado à vista são necessárias, ou terão alguma eficácia, nesse momento de agonia a seu ver?

A liberação de compulsório já mostrou que, quando há crise de confiança, não adianta mudar o fundamento de liquidez, pois não faz retornar a confiança. E foi isso o que aconteceu. O Banco Central liberou os compulsórios e os bancos os utilizaram na compra de dólares ou títulos públicos mesmo, porque estão muito receosos.

No Brasil, diferentemente de outros países, há dois agentes fundamentais que poderiam garantir recursos para o crédito, que são a Caixa Econômica e o Banco do Brasil. Porque todos sabemos que os bancos estão em pânico e essas instituições poderiam dar uma mão e fazer tudo o que as outras não fizeram até agora.

Você é, então, favorável à MP 443, através da qual o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal podem comprar ações de instituições financeiras em dificuldades, de companhias de seguro e de previdência aberta? Trata-se de medida realmente necessária, já que se aventa reiteradamente que o setor financeiro nacional encontra-se em posição bastante sólida, já que é o menos alavancado do mundo?

Em crises financeiras, você pode saber como elas começam, mas não como acabam. Se há como evitar isso, é punindo aqueles que desrespeitaram as regras, cometeram fraudes, mas já que o sistema financeiro é todo desregulado para essas operações, agora deve realmente ser evitada uma crise mais profunda.

O impacto que poderia gerar uma quebra de banco não pode ser medido, de repente é como fogo em palha. Essa fragilidade é natural em uma crise financeira e bancária. Por conta disso, o Banco Central, numa crise de tamanha envergadura, funciona pouco, não dá conta. Ou seja, já que arrombaram a porta, alguma coisa deve ser feita, no caso, jogar liquidez nos bancos para que estes não entrem em extinção.

Nesse sentido, justificar-se-ia também que o BNDES ajudasse as empresas que se arriscaram em operações cambiais, conforme já andou sendo ventilado pela imprensa?

Depende da análise que se faça. Com relação às empresas que não representam risco falimentar ou coisa parecida - como no caso do sistema financeiro –, nem tanto. Mas quando o malefício social é grande, e pode gerar desemprego, talvez seja correta a ajuda.

Não pode existir aquilo que se chama de moral hazard (risco moral), aquela idéia do sujeito que pensa que pode quebrar, pois, como há interesse no seu produto ou serviço, o governo vem e cobre tudo. Mas que o BNDES ajude, não as empresas que tentaram fazer caixa, mas as exportadoras que geram lucros e empregos, pode valer a pena, pois é importante continuar exportando e tentar manter o crescimento. Enfim, os danos sociais que a quebra dessas empresas pode causar devem ser considerados.

Houve ainda a isenção de IOF – Imposto sobre Operações Financeiras - sobre investimento estrangeiro no Brasil (incluindo compra de títulos públicos, de ações, empréstimos e financiamentos feitos no exterior e remessa de dólares para honrar esses pagamentos). Com as conseqüências inevitáveis da crise sobre a balança comercial, não poderá haver a volta nua e crua do capital especulativo, a exemplo do ocorrido na década de 90, como o grande financiador do balanço de pagamentos?

Já fizeram muito mais nesse sentido, como a própria isenção do Imposto de Renda, por exemplo. A tentativa neste caso é de impedir que a balança de capitais fique muito prejudicada e os recursos gerados por ela escasseiem de uma vez. É só mais uma mão, um presentinho para eles.

Acontece que, depois de todo o processo das privatizações, que internacionalizaram parte significativa de nosso capital produtivo, o balanço de pagamento brasileiro mudou estruturalmente. As remessas de lucros para o exterior, por exemplo, cresceram substancialmente. Portanto, há uma necessidade de geração de dólares muito maior que antes, para tentar conter a pressão na balança de capitais. E agora, acrescidos os efeitos dessa crise, vem a necessidade, de fato ainda mais premente, de entrada de dólares na balança de capitais.

Assim, se estão tomando essas medidas, é porque precisam tornar o país atrativo para o capital financeiro e externo.

Você se arriscaria a fazer um prognóstico sobre o futuro da economia brasileira em face da tensão internacional?

Podemos discutir essas práticas da especulação, do mercado financeiro, se podem ser feitas de maneira mais razoável ou não, mas o que acho é que a crise terá um impacto muito forte na economia verdadeira. O governo diz que nossas estruturas são fortes, que continuaremos crescendo, enquanto estamos vendo que não. Creio que o impacto será realmente forte e nota-se que, mais uma vez, perdemos a oportunidade de crescer mais vigorosamente quando o mundo inteiro o fez, na época da bonança.

Colaborou o jornalista Gabriel Brito.

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

Correio da Cidadania - 03/11/08

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O capitalismo pode ter morte natural?, por Valério Arcary

"Em agudas contradições, crises, convulsões, evidencia-se a crescente inadequação do desenvolvimento produtivo da sociedade às relações de produção em vigor. A violenta aniquilação do capital (nas crises), não por circunstâncias alheias a ele, mas como condição de sua autoconservação, é a forma mais contundente de aviso para que ele desapareça e dê lugar a um estágio superior de produção social […] Estas contradições têm como resultado cataclismos, crises nos quais a suspensão momentânea de trabalho e a destruição de grande parte do capital fazem-no voltar violentamente ao ponto no qual é incapaz de empregar plenamente seus poderes produtivos sem cometer suicídio. No entanto, estas regulares e recorrentes catástrofes têm como resultado sua repetição em uma escala maior e, por último, a derrubada violenta do capital". Karl Marx, Grundrisse

"Cristo está morto, Freud está morto, Marx está morto.
Eu também não estou me sentindo muito bem."
Pichação do Maio francês, 1968

O liberalismo apresentou o capitalismo como o horizonte da história. O marxismo devolveu o capitalismo à dimensão de um processo histórico, portanto, transitório, com épocas de formação, auge e crise. Anunciou que o capitalismo podia e seria superado por outra forma de organização das relações sociais. A recessão mundial da virada do século XX para o século XXI trouxe de volta alguns temas históricos no movimento socialista. Entre eles, foi considerada a hipótese especulativa de um novo 1929, em uma escala quiçá superior ao maior cataclismo econômico do século passado. Análises catastrofistas foram feitas, mais de uma vez, sobre o destino do capitalismo. A tradição socialista debateu o prognóstico de uma hecatombe econômica, atribuída a Marx por alguns, embora contestada por outros, e conhecida como teoria do colapso.

Um intervalo tão longo exige uma explicação histórica
A longevidade do capital é um tema espinhoso, mas inescapável. Um período de um pouco mais de 150 anos separa-nos da publicação do Manifesto Comunista, quando Marx apresentou pela primeira vez, publicamente, suas conclusões sobre a condição histórica do capitalismo, e deve ser reconhecido como um intervalo histórico suficiente, pelo menos como indicação de que a regularidade das crises não deve ser confundida com um estado de coma terminal, ou ante-sala de um colapso. Sem crises econômicas que se desdobrem em crises sociais, evidentemente seria impossível pensar uma estratégia política de conquista revolucionária do poder, sustentada no combate organizado dos trabalhadores. Petrogrado em 1917, Berlim em 1921 e ainda 1923, Madri e Barcelona entre 1930 e 1937 e, depois, a França e a Itália entre 1945 e 1948, a Revolução Cubana, a revolução portuguesa, enfim, todas as situações revolucionárias do século XX seriam impensáveis sem o fermento das crises econômicas.

No entanto, por mais severas que tenham sido as turbulências econômicas do capitalismo, sem a disposição de luta dos sujeitos sociais não se abriram situações revolucionárias. Não há xeque-mate econômico na luta de classes. Nunca houve recessão ou mesmo depressão sem saída. Sempre há uma saída econômica para o capital, se sua dominação não estiver politicamente ameaçada: descarregará sobre outras classes, de uma ou outra forma, os custos da recuperação da taxa média de lucro.

As duas metáforas mais comuns nos estudos marxistas sobre a dinâmica do capital são a seqüência internamente direcionada – gênese, apogeu e decadência – e a seqüência recorrente – o movimento dos ciclos. A primeira inspira-se em processos encadeados como infância, vida adulta, velhice e morte, ou seja, uma curva histórica com uma orientação de ascensão e declínio definida. A segunda remete a um movimento circular de alternância de fases como primavera, verão, outono e inverno, que no movimento dos ciclos assume as formas de expansão e contração. Os dois movimentos descritos não são incompatíveis, são complementares.

A história econômica do capitalismo foi a história da valorização do capital. Esta valorização nunca foi homogênea, linear, uniforme: ela flutua, oscila, balança. Em alguns momentos, acelera; em outros, desacelera. As analogias, por mais fascinantes, não precisam ser conclusivas. São esquemas de interpretação da realidade que buscam regularidades. Exige-se de uma teoria algo mais: uma lógica irrefutável, a coerência interna de seus fundamentos e verificações confiáveis, ou seja, os critérios de comprovação. No entanto, os dois movimentos que o marxismo sugere para a compreensão das variações de pulsação do capital nos últimos 200 anos foram demonstrados com sólida demonstração estatística. A interpretação econômica achou um nexo coerente nas oscilações entre fases de crescimento e fases de encolhimento da economia mundial, alternando-se os ciclos. A sincronicidade das crises recessivas internacionais aumentou com o processo de globalização de capitais a partir dos anos setenta. A interpretação histórica da seqüência direcionada procurou consistência na apreciação da dinâmica político-social do sistema: os últimos noventa anos foram os mais revolucionários da história da humanidade. A partir de 1914, o capitalismo mergulhou o mundo em duas guerras mundiais e, desde então, a civilização se viu ameaçada pela possibilidade de um holocausto nuclear, por guerras regionais cada vez mais graves entre os países centrais e as nações periféricas, e por uma crise ambiental sem precedentes. Revoluções sacudiram as mais diversas sociedades em todos os continentes.

Duas metáforas sobre o destino do capitalismo
Estas duas metáforas nos permitiriam concluir que o marxismo afirma que o capitalismo caminha de crise em crise até um desmoronamento econômico? Na verdade os marxistas polemizaram entre si sobre tudo e em primeiro lugar sobre o destino do capitalismo. Pioneira na identificação da natureza destrutiva do capitalismo em sua fase imperialista, a obra de Rosa Luxemburgo permanece uma inspiração para os socialistas do século XXI. Mas a hipótese da crise final que ela, entre outros, considerou seriamente, não parece ter passado na prova da história. Não porque tenham faltado crises na economia capitalista, mas pela capacidade do sistema de superá-las, se não triunfa a mobilização revolucionária de massas. Vejamos seus argumentos:

A tendência objetiva da evolução capitalista para tal desenlace é suficiente para produzir muito antes uma tal agudização social e política das forças opostas que terá de pôr fim ao sistema dominante […] Se, pelo contrário, aceitarmos, como os "especialistas", que a acumulação capitalista pode ser ilimitada, desmorona para o socialismo o solo granítico da necessidade histórica objetiva. Nós nos perderíamos nas nebulosidades dos sistemas e escolas pré-marxistas, que queriam deduzir o socialismo unicamente da injustiça e perversidade do mundo atual e da decisão revolucionária das classes trabalhadoras (LUXEMBURGO, 1980, p. 31, tradução nossa).

A questão teórica, como é óbvio, é decisiva, no seu sentido mais grave. Em que medida operam as tendências objetivas, estritamente econômicas, à crise, como um dos fatores estruturais do atual período histórico? A crítica dos clássicos não é um procedimento simples. No entanto, quando a perspectiva de uma avaliação histórica se impõe como necessária, os erros de prognóstico não são incomuns. Os revolucionários socialistas, sem exceção, abraçaram um projeto que tem pressa. Não será surpresa se foram impacientes e vítimas de auto-engano. Não nos devemos decepcionar se alguns, entre os mais capazes, acreditaram que o fim do capitalismo era iminente. O mundo em que nos coube viver é demasiado terrível para que aceitemos que esta ordem mundial deva se perpetuar ainda por muito tempo. É razoável que a ansiedade da revolta tenha, involuntariamente, favorecido hipóteses e prognósticos equivocados. O desejo de abreviar o intervalo da transição histórica alimentou vaticínios errados. As dores de parto da passagem pós-capitalista revelaram-se, contudo, muito mais penosas e longas do que se poderia prever há cem atrás. Mandel recupera, com grandeza, a contribuição de Rosa Luxemburgo:

Rosa Luxemburgo foi a primeira a tratar de elaborar – sobre uma base estritamente científica – uma teoria do inevitável colapso do modo capitalista de produção. Em seu livro A acumulação de capital, procurou demonstrar que a reprodução ampliada […] era impossível no capitalismo "puro". Esse modo de produção, por conseguinte, tinha uma tendência inerente de se expandir num meio não-capitalista, ou seja, de devorar grandes áreas de pequena produção de mercadorias que ainda sobrevivem den¬tro da metrópole capitalista e expandir-se continuamente para a periferia não-capitalista – os países coloniais e semicoloniais (MANDEL, 1985a, p. 233, tradução nossa).

Um juízo crítico da teoria do desmoronamento econômico parece, contudo, incontornável, sobretudo para aqueles engajados em um projeto anticapitalista. Mais do que nunca, a defesa do socialismo exige a firmeza na defesa do que permanece vigente na herança marxista, indissociável, porém, da disposição de revisar o que se demonstrou unilateral.

Hipóteses exploratórias e erros de prognóstico
Não há por que temer o afã revisionista. Todos os grandes marxistas foram, em algum aspecto, revisionistas do legado que receberam e, freqüentemente, de si próprios. Polemizaram empolgados, até exaltados, sobre tudo. Inúmeras previsões históricas construídas pelo marxismo não se confirmaram, sem que esses erros diminuíssem a força da teoria. A construção de cenários mais prováveis não deve ser confundida com a adivinhação. Procurar antecipar-se aos acontecimentos, analisando as linhas de força das tendências em presença, considerando seus movimentos internos, corresponde ao estatuto das ciências sociais. As aproximações sucessivas foram e serão inevitáveis. Os equívocos também.

Nesse terreno, não houve marxista que não tenha cometido mais erros do que acertos, e não poderia ser diferente. Os equívocos não se reduziram a questões marginais, mas remeteram até ao desenho do projeto estratégico. Lembremos, a título de exemplo, que o próprio Marx, inspirado pela experiência de 1848, considerava provável que as primeiras revoluções proletárias vitoriosas tivessem como cenário a Europa Ocidental, estendendo-se na forma de vagas ou ondas de um país para outros, e se equivocou. Onde o capitalismo realizou de forma pioneira a industrialização e onde, portanto, as condições materiais para iniciar uma transição socialista eram mais favoráveis, as tentativas revolucionárias foram derrotadas. A Inglaterra permanece um dos bastiões da contra-revolução mundial.

Os erros de prognóstico político não diminuem os acertos de método histórico. Marx errou na escala, porém, acertou na substância. Afirmou que a revolução anticapitalista seria um processo cada vez mais mundial, com refrações nacionais. A primeira vaga das revoluções do século XX, entre 1917 e 1923, sacudiu os fundamentos da dominação burguesa em toda a Europa Central, triunfou no antigo império dos Czares, mas deixou a República dos Sovietes isolada. Uma segunda vaga, depois da crise de 1929, incendiou a Alemanha e a Espanha, atingiu a França, mas também foi derrotada. Lênin previu que, quando chegasse a hora da revolução nas metrópoles imperialistas, soaria a hora da revolução anti-colonial na Ásia e África. Mas, a dinâmica histórica, em grande medida, foi invertida. Foi a revolução na Argélia que fermentou as condições para o Maio de 68 francês, foi a guerra colonial em Angola, Guiné e Moçambique que inflamou as condições para a derrubada da ditadura em Portugal. Foi assim, porque nas três ondas revolucionárias seguintes, o epicentro da revolução mundial deslocou-se para a periferia do sistema [1].

Em mais de uma oportunidade, portanto, o capitalismo esteve seriamente ameaçado no século XX. Não faltaram revoluções que desafiaram o sistema. Na aurora do século XXI, contudo, nem um só país está em transição para o socialismo. O capital inicia o novo milênio estendendo as relações mercantis até mesmo aos países em que a propriedade privada tinha sido expropriada, como China e Vietnam. O destino de Cuba não parece ser, infelizmente, diferente. Uma conclusão peremptória está colocada para os marxistas: a transição pó-capitalista demonstrou-se muito mais complexa do que tinha sido, teoricamente, prevista. As revoluções político-sociais dentro de fronteiras nacionais encontram pela frente uma força muito mais poderosa: a contra-revolução internacional. No entanto, como todos os modos de produção que o precederam, o capitalismo corresponde a um período histórico e está condenado a desaparecer. Mas a burguesia não vai cometer "suicídio coletivo". Não renunciará às suas riquezas sem uma luta encarniçada.

Ainda que todos os projetos de transição ao socialismo tenham encontrado obstáculos insuperáveis em condições de isolamento nacional e miséria econômica e cultural, como na União Soviética ou na China, foi nos países de desenvolvimento retardatário que a ruptura anticapitalista ganhou apoio de massas e revoluções sociais triunfaram. Contrariando as expectativas das três primeiras gerações marxistas, foi nos países coloniais e semicoloniais que o capital foi expropriado. No entanto, elaborar hipóteses de trabalho mais prováveis como antevisões exploratórias correspondia ao método, e permanece uma necessidade.

Resumindo, nunca existiram nem os teóricos nem os dirigentes infalíveis. Os erros dos que nos antecederam não os diminuem diante de suas gigantescas realizações. Entre marxistas não deveriam existir temas tabus. A causa do socialismo não precisa do culto à personalidade de ninguém. Apoiamo-nos nos ombros dos que nos antecederam e nas lições que a história nos legou e, por isso, podemos e devemos fazer correções e revisões.

NOTAS:
*Este capítulo é uma síntese de dois ensaios, um deles publicado, originalmente, em Margem Esquerda, São Paulo, n. 3, p. 147-160, abr. 2004, e outro em Universidade e Sociedade, Brasília, n. 33, p.191-205, jun. 2004.
1. Este tema é o foco do capítulo "As cinco vagas da revolução mundial no século XX", em Arcary (2004).

Valério Arcary é historiador, professor do Cefet/SP e membro do conselho editorial da revista Outubro

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Estudo aponta que uso de insulina transgênica gera distúrbios físicos e doenças

03/11/2008
Transgénicos Da AS-PTA
Um dos argumentos mais comumente utilizados em defesa da segurança dos alimentos transgênicos é o de que a insulina utilizada no tratamento dos diabéticos há muitos anos é transgênica e não apresenta riscos. O mesmo dizem das vacinas que aplicamos em nossos bebês — ressaltando que em nenhum momento somos alertados sobre o fato de estes produtos terem sido fabricados através da modificação genética.
Entretanto, são numerosos os relatos sobre efeitos colaterais da insulina “humana” transgênica.
Um exemplo é um artigo publicado no South Gippsland Sentinel Times, da Austrália, em setembro deste ano, dando conta de terríveis efeitos vivenciados por um usuário da insulina transgênica.
O autor relata que usando a insulina transgênica seu controle de açúcar no sangue era deficiente. Os resultados de seus testes eram irregulares e normalmente diferentes do esperado.
Após descobrir que usava insulina transgênica e que a insulina animal natural ainda existia no mercado, decidiu mudar. Como resultado, seu controle do açúcar no sangue melhorou imediatamente e substancialmente. O mais surpreendente foi que sua necessidade diária de insulina diminuiu em 15-20%, sem que tivesse havido qualquer mudança em sua dieta, nos exercícios praticados ou na rotina de aplicação das injeções.
O autor diz ter percebido que, olhando para trás, deu-se conta de que foi logo após ter começado o tratamento com a insulina transgênica que ele desenvolveu a doença de Crohn — uma doença inflamatória intestinal cujas complicações incluem artrite, inflamações oculares e erupções de pele. No entanto, após retomar o uso da insulina natural, sua doença de Crohn tem regredido sem o uso de medicamentos.
Mas o problema relatado com mais freqüência, e relatado também pelo autor do artigo no South Gippsland Sentinel, é perda dos sintomas alertando o estado de hipoglicemia, o que pode levar ao coma e à morte em alguns casos. Segundo o autor, também estes sintomas voltaram a se manifestar normalmente quando voltou a usar a insulina animal.
Os outros efeitos colaterais relatados incluíram cansaço extremo, ganho de peso, mal estar freqüente, perda de memória e confusão mental, irregularidade dos açúcares no sangue, sono constante, mudanças de humor e dores nas juntas.
Quinze dias após a publicação deste artigo, um leitor também australiano publicou uma resposta, que começa com os dizeres: “Ao autor do artigo ‘Os efeitos colaterais da insulina transgênica’, não há como agradecê-lo o suficiente por suas informações”.
O leitor diz ser diabético tipo 1 desde pequeno e, após ter usado na infância insulina suína e bovina, foi durante os últimos 20 anos usuário da insulina transgênica, que ele acreditava ser o melhor tratamento disponível.
“Desde que li seu artigo e então comecei a pesquisar sobre o assunto na internet, estou chocado com o repentino despertar para o fato de que sofri durante os últimos 20 anos de um conjunto de sintomas bizarros e não diagnosticados e provavelmente desnecessários. Li, em um fórum sobre diabetes, página após página de experiências de outras pessoas que usaram insulina transgênica. Meus problemas são similares, se não idênticos, aos de sua lista de efeitos colaterais”, continua a carta.
O leitor relata que nos piores momentos sua confusão mental era tão grande que disseram a ele que provavelmente tinha um tumor cerebral. Mas todos os especialistas e exames não deram respostas. Recebeu uma variedade de explicações vagas, tendo até sido sugerido que ele poderia ter epilepsia, mas ninguém sugeriu que a insulina transgênica poderia ser um problema para ele.
Entre os problemas que teve, ele relata fadiga crônica, fibromialgia, severa perda de memória, cansaço, letargia, enxaquecas, variações de humor, depressão, suores noturnos, febres, desmaios, inchaço facial, indisposição matinal, dores no corpo e nas juntas… “eu já havia sucumbido ao fato de que esta era simplesmente a minha sina”, relata ele.
Este leitor também contou que seus sintomas de hipoglicemia haviam sido substituídos por náusea, o que dava a impressão de que seu nível de açúcar no sangue estava alto quando na verdade estava baixo.
“Após ler seu artigo e então pesquisar sobre suas queixas”, continua o leitor, “eu esperançosamente decidi voltar a usar a insulina bovina… Em apenas 12 horas de uso eu fiquei mais ágil, dormi em uma nuvem pela primeira vez em 20 anos, e minhas dores no corpo começaram lentamente a diminuir. Meu inchaço facial que me impedia de sair de casa e o edema em minhas pernas foram embora. Minhas questões neurológicas continuam comigo. Espero que com o tempo passem, mas quem sabe que danos permanentes restarão? Sinto agora pelos meus 20 anos perdidos, que poderiam ter sido tão melhores para mim e para a minha família”.
O autor conclui dramaticamente dizendo crer que sua geração de dependentes de insulina foi usada como cobaia enquanto as indústrias farmacêuticas rolaram em dinheiro e gozaram de boa saúde.
O site da organização Insulin Dependent Diabetes Trust (IDDT) informa que nenhum estudo de larga escala e de longo prazo foi feito comparando insulina “humana” transgênica com insulina animal natural. As pesquisas realizadas até hoje foram grosso modo feitas em condições de laboratório e/ou usando pequeno número de pessoas.
Segundo a organização, a primeira pesquisa sobre insulina “humana” transgênica, feita em 1980 pelo professor Harry Keen, envolveu 17 homens saudáveis e não-diabéticos e, em 1982, a insulina “humana” recebeu a aprovação para uso geral. Este é um prazo incrivelmente curto para a aprovação de uma nova droga, especialmente considerando que a insulina “humana” transgênica foi o primeiro medicamento geneticamente modificado a ser usado em pessoas.
Quando de sua criação, em 1994, o IDDT enviou questionários a todos os que contataram a organização e analisou as 100 primeiras respostas (os questionários recebidos subsequentemente foram todos muitos similares aos 100 primeiros).
As informações recebidas deste primeiro grupo foram as seguintes:
A análise mostrou que em média os efeitos adversos não apareceram antes de 13 meses após o início do tratamento com a insulina “humana” transgênica:
- 41% - perda de sintomas de hipoglicemia
- 34% - extremo cansaço ou letargia
- 9% - sono o tempo inteiro
- 32% - ganho de peso de 9,5 kg ou mais
- 28% - mal estar o tempo todo
- 24% - perda de memória ou confusão mental
- 9% - níveis de glicose no sangue caindo e subindo erraticamente
- 8% - descritos por suas famílias como “não mais a mesma pessoa”
- 5% - mudanças de humor, descritos como de difícil convivência
- 7% - dores, especialmente nas pernas e juntas

Declarações que também apareceram com freqüência nos questionários foram: “eu não sabia que existia insulina animal”, “eu nunca soube que havia outras alternativas” e “eu nunca tinha me dado conta de que a insulina ‘humana’ não era derivada de humanos”.
Para os interessados, há muito o que pesquisar sobre este tema na internet. Mais uma vez é impressionante constatar as nefastas práticas da indústria biotecnólogica e a terrível irresponsabilidade dos órgãos regulamentadores — a primeira forçando a entrada no mercado de produtos novos, pouco avaliados e cujos efeitos colaterais são verdadeiras incógnitas, e os segundos permitindo que enormes contingentes de pessoas sejam expostos a riscos e mazelas desnecessárias, sequer oferecendo à população a graça da informação.
Pensar nos possíveis riscos das vacinas transgênicas atualmente aplicadas em larga escala em bebês (inclusive recém-nascidos) é aterrorizante. A depender dos órgãos regulamentadores — que seguem rigorosamente o Princípio da Proteção das Indústrias — saberemos dos eventuais problemas depois que forem constatados nas vítimas.

 

Por: MST

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Pobres pagam 44% mais impostos do que ricos

Karen Camacho

Os impostos no Brasil pesam mais sobre os que têm menor renda. Os 10% mais pobres pagam 44,5% mais do que os 10% mais ricos, de acordo com pesquisa elaborada pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Segundo o estudo, a carga tributária representa 22,7% da renda dos 10% mais ricos. Para os 10% mais pobres, no entanto, o peso equivale a 32,8% de sua renda.

Os dados, obtidos pela Folha Online, serão apresentados pelo presidente do Ipea, Márcio Pochmann, nesta quinta-feira ao CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social). O objetivo, segundo ele, é oferecer elementos para a discussão da reforma tributária.

"Esse é mais um elemento que comprova a injustiça tributária, que acentua a desigualdade entre os brasileiros", afirma Pochmann.

A explicação para a diferença entre o peso dos impostos está na forma de cobrança. A base da arrecadação no Brasil é mais forte na chamada tributação indireta, ou seja, embutida em alimentos ou bens de consumo. Como o brasileiro mais pobre gasta a maior parte de sua renda em consumo, paga mais impostos.

Considerando apenas a tributação indireta, a carga dos mais pobres é de 29,1%, contra 10,7% dos mais ricos.

Na comparação apenas da tributação direta, como o Imposto de Renda, os mais pobres pagam o equivalente a 3,7% de sua renda, enquanto que os mais ricos pagam 12%. "O mais pobre compromete mais a sua renda com produtos de sobrevivência, por isso paga mais imposto. A tributação é indireta, que tem estrutura fortemente regressiva", afirmou. Para Pochmann, esse modelo é inaceitável. A pesquisa mostra que, por conta da tributação desigual, a concentração das riquezas continua fortemente nas mãos dos mais ricos. Ele defende a criação de um imposto extra sobre fortunas ou heranças, no caso de patrimônios. A pesquisa do Ipea também mostra um dado inédito. A carga tributária do país, excluindo as transferências de renda e pagamento de juros, cai a 12%, considerada por Pochmann insuficiente para que o Estado cumpra as suas funções. Ipea defende criação de imposto sobre fortunas e heranças.

Os brasileiros mais ricos deveriam pagar um imposto extra sobre suas fortunas ou heranças para reduzir as desigualdades sociais e de renda no país. Essa é a tese defendida pelo presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o economista Márcio Pochmann. Para ele, o sistema tributário atual não ajuda na redução das desigualdades e a reforma tributária deveria incluir essa medida.

"Não há imposto sobre riqueza ou herança. Faltam impostos sobre as fortunas. Apesar das mudanças políticas no país, o rico continua pagando pouco imposto", afirmou. A defesa foi feita com base nos dados de pesquisa do Ipea que mostra a concentração de renda no país e a queda da carga tributária quando são excluídas as transferências de renda, o pagamento de juros e os subsídios a empresas.

Os dados, obtidos pela Folha Online, serão apresentados por Pochmann, nesta quinta-feira, ao CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social). O objetivo, segundo ele, é oferecer elementos para a discussão da reforma tributária.

O estudo mostra, por exemplo, que para os 10% mais ricos a carga tributária representa 22,7%. Para os 10% mais pobres, no entanto, o peso equivale a 32,8% de sua renda. "O Brasil arrecada mal. A carga tributária é pessimamente distribuída", afirmou Pochmann. Para ele, o novo imposto deveria ficar a cargo da Receita Federal. O estudo também mostra que os 10% mais ricos concentram 75,4% da riqueza do país. 10% mais ricos no Brasil detêm 75% da riqueza, diz Ipea.

O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) elaborou um levantamento que aponta as desigualdades no Brasil. Um dos dados mostra que os 10% mais ricos concentram 75,4% da riqueza do país.

Os dados, obtidos pela Folha Online, serão apresentados pelo presidente do Ipea, Márcio Pochmann, nesta quinta-feira ao CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social). O objetivo, segundo ele, é oferecer elementos para a discussão da reforma tributária. A pesquisa também mostra como é essa concentração em três capitais brasileiras. Em São Paulo, a concentração na mão dos 10% mais ricos é de 73,4%, em Salvador é de 67% e, no Rio, de 62,9%.
Para Pochmann, a injustiça do sistema tributário é uma das responsáveis pelas diferenças. "O dado mostra que o Brasil, a despeito das mudanças políticas, continua sem alterações nas desigualdades estruturais. O rico continua pagando pouco imposto", afirmou. Apenas para efeito de comparação, ao final do século 18, os 10% mais ricos concentravam 68% da riqueza no Rio de Janeiro –único dado disponível.

"Mesmo com as mudanças no regime político e no padrão de desenvolvimento, a riqueza permanece pessimamente distribuída entre os brasileiros. É um absurdo uma concentração assim", afirma.

A pesquisa do Ipea também mostra o peso da carga tributária entre ricos e pobres, que chegam a pagar até 44,5% mais impostos. Para reduzir as desigualdades, o economista defende que os ricos tenham uma tributação exclusiva.

Pochmann afirmou que um dos caminhos é discutir uma reforma tributária que melhore a cobrança de impostos de acordo com a classe social.

"Nenhum país conseguiu acabar com as desigualdades sociais sem uma reforma tributária", afirmou. A pesquisa do Ipea também mostra um dado inédito. A carga tributária do país, excluindo as transferências de renda e pagamento de juros, cai a 12%, considerada por Pochmann insuficiente para que o Estado cumpra as suas funções.

Carga tributária líquida é baixa no Brasil, diz presidente do Ipea Levantamento inédito do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) na área tributária refaz as contas em relação a arrecadação de impostos e aponta que quase dois terços dos impostos vai para transferências de renda. Com isso, a carga tributária líquida cai para 12% do PIB.

Os dados, obtidos pela Folha Online, serão apresentados pelo presidente do Ipea, Márcio Pochmann, nesta quinta-feira ao CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social). O objetivo, segundo ele, é oferecer elementos para a discussão da reforma tributária. "Queremos ajudar na discussão da reforma e mostrar porque a desigualdade é tão alta e que a tributação não ajuda a acabar com isso", afirmou.

Para chegar ao índice de 12% o Ipea excluiu os pagamentos previdenciários, as transferências de renda com programas sociais, como o Bolsa Família, o pagamento de juros e os subsídios a empresas. Os dados referem-se à carga tributária de 2005, que bruta chegou a 33,4%. Em 2007, esse índice subiu para 35,7%.

"A carga tributária líquida é baixa para um país como o Brasil, com tantas necessidades. Sempre se fala que a carga tributária é alta no Brasil mas, se excluir as transferências quase imediatas de renda, percebe-se que não é bem assim", afirma.

Para Pochmann, o sistema tributário do Brasil é injusto e acentua as desigualdades. Ele defende uma reforma que considere a justiça na cobrança dos impostos, especialmente dos mais ricos que, para ele, deveriam pagar um imposto extra.

Considerando os dados da pesquisa, os governos ficam com cerca de 35% da arrecadação para cumprir suas responsabilidades. "Além das transferências como Previdência e programas sociais, parte da arrecadação é utilizada para o pagamento de juros a ricos credores. O Estado fica com apenas uma parte, que é pequena para cumprir suas funções. Isso precisa ser discutido", afirma.
Entre essas responsabilidades, saúde, educação e segurança são alguns dos pontos que ficam à espera de investimentos dos governos. "Não dá para oferecer esses serviços à sociedade." Pochmann disse que o estudo será aprofundado, incluindo comparações com outros países e detalhamento dos gastos, assim como a atualização para os índices de carga tributária mais recentes.

Sistema tributário no Brasil é injusto e acentua desigualdades, diz Ipea.

A injustiça tributária tem relação direta com a concentração de riqueza e renda nacional e acentua a desigualdade social. Essa é a conclusão de estudo elaborado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) que aponta os índices de carga tributária de acordo com a renda do brasileiro.

O estudo mostra que 75,4% da riqueza do país está nas mãos dos 10% mais ricos e que os mais pobres pagam até 44,5% mais impostos.

Os dados, obtidos pela Folha Online, serão apresentados pelo presidente do Ipea, Márcio Pochmann, nesta quinta-feira ao CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social). O objetivo, segundo ele, é oferecer elementos para a discussão da reforma tributária. "Queremos ajudar na discussão da reforma e mostrar porque a desigualdade é tão alta e que a tributação não ajuda a acabar com isso."

Pochmann afirmou que a discussão sobre a reforma está focada na eficiência econômica e sobre a administração dos recursos (municipal, estadual ou federal).

"A Justiça da cobrança ocupa uma posição secundária nessas discussões. O debate se restringe sobre a trajetória da carga tributária", afirmou.

Para ele, nenhum país no mundo conseguiu amenizar as desigualdades sem adotar uma tributação justa.

O estudo mostra que a carga tributária atual equivale a 32,8% da renda dos 10% mais pobres, enquanto que os 10% mais ricos pagam 22,7%.

"Há uma desconexão. Enquanto os mais pobres pagam mais, os ricos pagam pouco imposto. Por outro lado, cerca de 65% do que o Estado arrecada vai para transferência de renda e juros e ele não consegue exercer a sua função", afirmou. Karen Camacho é editora-assistente de Dinheiro da Folha Online.

Fonte: Folha Online, 15/05/2008.

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Entrevista revela importante gaúcho da Guerrilha do Araguaia

Leia entrevista realizada pelo historiador Augusto Buonicore com Deusa Maria de Sousa. Ela é a autora do texto biográfico do guerrilheiro José Huberto Bronca. Na verdade, este faz parte de um trabalho mais alentado sobre a vida dos quatro guerrilheiros gaúchos que tombaram assassinados nas matas do Araguaia – uma dissertação de mestrado defendida na Unisinos (RS) em 2006.

Este fato indica que podemos esperar para breve novas e edificantes histórias da trajetória de outros guerrilheiros gaúchos, como o médico João Haas Sobrinho, o economista Paulo Mendes Rodrigues e o líder estudantil Cilon Cunha Brun.

A dissertação de Deusa Maria foi publicada pela Editora Expressão Popular no novo pacote de biografias de sua coleção Viva o povo brasileiro. Esta foi uma das maiores sacadas editoriais dos últimos anos. O objetivo é oferecer, a preços módicos, a história de pessoas que, de alguma forma, contribuíram para emancipação de nosso povo.  Entre os novos títulos se encontram João Cândido, Guimarães Rosa, Henfil, Manoel Bomfim, Patativa do Assaré e Huberto Bronca.

Como surgiu a idéia de escrever sobre os gaúchos que participaram da Guerrilha do Araguaia?

Deusa Maria: Ela surgiu logo após o início do meu curso de mestrado em História, em 2004. Eu havia pensado, inicialmente, em um projeto que vislumbrasse as concepções doutrinárias daqueles que dizimaram os combatentes do Araguaia. Porém senti o interesse existente acerca da trajetória dos quatro gaúchos desaparecidos no conflito do Araguaia. Foi um chamado para meu papel como historiadora, escrever a história de nosso tempo…

Quais foram as dificuldades encontradas para realizar um projeto como este? Sem poder contar com os documentos oficiais não liberados, quais fontes você utilizou para reconstituir a trajetória dos guerrilheiros mortos na guerrilha?

Deusa Maria: Essa foi a primeira e a maior dificuldade que se apresentou ainda no processo de seleção para o ingresso no mestrado. Recordo-me quando um membro da banca avaliadora afirmou-me que dificilmente eu conseguiria desenvolver meu trabalho dado às dificuldades de acesso à documentação oficial que versavam sobre o tema. Eu nunca me esquecerei desse dia! Eu vinha animada da graduação, e queria fazer um trabalho significativo sobre o Araguaia e nada me desviaria daquele objetivo.
Foi então que decidi buscar documentos que possuíam o mesmo valor histórico e que me possibilitasse recontar a trajetória daqueles guerrilheiros, ou seja, me utilizei dos relatos orais e escritos. Localizei seus amigos, colegas de trabalho e de infância. Pesquisei em fontes primárias (muitas vezes esquecidas pelos pesquisadores), como diários de classe, registros de locais de trabalho, cartas de amigos e, principalmente, acervos dos familiares que viabilizaram a composição do mosaico sobre eles, desde a infância até o seu ingresso na Guerrilha do Araguaia. Foi um trabalho árduo e difícil, porém gratificante!

Um das particularidades da vida de José Huberto Bronca é o fato de ele ter sido operário. Foram raros os guerrilheiros pertencentes a esta classe social.  Fale um pouco da vida do operário Bronca em Porto Alegre.

Deusa Maria: Apesar de oriundo de uma família de classe média, Bronca demonstrava especial interesse pelas máquinas e, inclusive, estudou em uma escola técnica. Certamente, após o seu engajamento no Partido Comunista, ainda na década de 50, era na vida cotidiana de operário porto-alegrense que parecia estar mais à vontade. Alguns depoentes me relataram a facilidade que ele tinha em se entrosar com os demais colegas e de se tornar, rapidamente, num representante da categoria. Além de bom orador, ele era um articulador político. Astuto com os patrões e, ao mesmo tempo, um operário muito qualificado nas funções que exerceu.

Na sua pesquisa você deparou com uma tentativa de aproximação entre o PCdoB e Brizola logo após o golpe de 1964. Este é um fato pouco conhecido. Quais os resultados desse encontro?

Deusa Maria: Na realidade foi uma surpresa para mim também, pois não tinha conhecimento que tal encontro pudesse ter ocorrido. Sempre que ia entrevistar militantes antigos esse fato aparecia nas narrativas. Inclusive, a irmã do Bronca me mostrou uma lembrança que ele teria recebido de  Brizola numa visita que fizera no exílio uruguaio. Esta relação é mais um daqueles mistérios que cabe ao historiador pesquisar…

Como foi o processo de ida de Bronca para a região do Araguaia?

Deusa Maria: O processo iniciou-se ainda no período de clandestinidade em Porto Alegre, em abril de 1966; ou seja, mais de dois anos antes dos registros de sua chegada à região do Araguaia. Depois ele foi viver na baixada fluminense em condições muito simples. Sabe-se pouco sobre sua vida neste período - e quem sabe não quer falar! Creio que chegar numa região onde pôde gozar da liberdade de transitar, falar e de se relacionar deve ter sido a redenção para ele. Ele deve ter encarado o Araguaia, naquele momento, com uma alegria imensa!

Fale-nos um pouco da atuação de Bronca na guerrilha e as condições de sua trágica morte?

Deusa Maria: A atuação dele foi muito importante, graças principalmente ao seu exímio conhecimento de montar e desmontar equipamentos. Era conhecido entre seus companheiros como armeiro. Foi responsável pela fabricação e adaptação de várias das armas utilizadas pelos guerrilheiros. Trabalhou também em uma pequena farmácia montada pelos guerrilheiros dentro da mata. Depois ocupou posto de comando até o final da Guerrilha. Sabe-se, segundo relato de moradores, que foi aprisionado com vida pelas forças armadas. Mas, nunca se soube de seu paradeiro nem se teve notícias de onde estariam os seus restos mortais.

Qual a importância de conhecer a saga dos guerrilheiros do Araguaia para as novas gerações de militantes das lutas sociais?

Deusa Maria: Penso que a importância de conhecer a história da Guerrilha do Araguaia seja semelhante a que temos em conhecer qualquer parte da história de nosso país. Acho que para as novas gerações deve ser garantido o direito de saber que homens e mulheres foram movidos por sonhos e que por eles deram a vida. Acredito que o conhecimento destes fatos fará com que as novas gerações tirem lições e reflitam sobre aqueles tempos sombrios, no qual protestar contra o poder oficial poderia significar uma sentença de morte. Que a liberdade que temos de poder fazer isso hoje, ou de nada fazer, passou pela ação corajosa daquelas pessoas e pelas vidas que foram ceifadas. Essas experiências devem ser pensadas à luz de seu tempo e não em função de seus possíveis erros ou acertos.

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A noção de descolamento do Brasil da montanha-russa prova ser infundada

Jonathan Wheatley*

A noção antes popular de que os mercados de capital do Brasil tinham se “descolado” do restante do mundo foi arrasada nos últimos meses. A moeda desvalorizou frente ao dólar de R$ 1,56 em maio para o pico de R$ 2,50 recentemente.

O principal índice de ações da Bovespa caiu para menos de 30 mil pontos na segunda-feira pela primeira vez em três anos; uma perda de mais de 60% em relação ao seu pico de mais de 73 mil pontos em maio. Isso o torna um dos cinco mercados com pior desempenho no mundo nos últimos seis meses.

Na terça-feira, com a perspectiva de um corte nas taxas de juros americanas fornecendo algum alívio para os mercados globais, as ações brasileiras e a moeda se valorizaram juntamente com as do restante do mundo.

“É uma montanha-russa”, disse Dany Rappaport, da Investport, um administrador de fundo de São Paulo. “O movimento é todo baseado no que acontece no exterior, mais alguns fatores locais, como a queda dos preços dos commodities.”

O Brasil é o principal exportador de commodities industriais e agrícolas, incluindo minério de ferro, aço, soja, açúcar e carne bovina.

Isso aparentemente não corresponde ao que poucos analistas duvidam, o fato do Brasil estar muito melhor posicionado para suportar a turbulência global do que há uma década, quando esteve à beira de um default após as crises asiática e russa terem provocado ataques contra sua moeda.

Muito mudou desde então. O governo é um credor líquido para o restante do mundo, de forma que a recente desvalorização do real reduziu o fardo da dívida soberana, em vez de elevá-la às alturas como no passado. O Brasil tem mais de US$ 200 bilhões em reservas de moeda estrangeira para se defender de ataques especulativos.

Mas as reformas que produziram esta maior resistência incluíram uma reforma dos mercados de capital do Brasil, que os deixou muito mais integrados ao restante do mundo do que antes.

Durante uma série de emissões de títulos entre 2004 e 2006, cerca de 70% do novo dinheiro veio de investidores do exterior.

À medida que a crise se desenvolvia, esses investidores correram para a saída.

Desde junho, os investidores estrangeiros retiraram cerca de R$ 23,5 bilhões da Bolsa de Valores de São Paulo.

E com cada brilho de esperança de que o pior pode ter passado, os preços se recuperam, apenas para despencar de novo.

“Todos sabem que os preços estão muito baratos e alguns poucos investidores estão ousando comprar um pouco, mas é muito difícil saber qual será o ponto mais baixo”, disse Tomás Awad, estrategista da Itaú Corretora, em São Paulo.

“Os preços estão ridiculamente baixos, mas tudo ainda está apontando para baixo”, disse Catarina Pedroso, estrategista da BanifInvest, outra corretora de São Paulo.

Ela cita a queda dos preços das commodities, a desaceleração do crescimento no Brasil e no mundo no próximo ano, e os temores de que centenas de empresas brasileiras sofrerão perdas pesadas com apostas na moeda que deram errado.

O governo agiu rapidamente para prevenir esses temores. Na segunda-feira, ele disse que emprestaria dinheiro a taxas de mercado para empresas incapazes de levantar financiamento em outros lugares, uma de uma série de medidas voltadas a fornecer liquidez aos mercados de crédito semelhantes às do restante do mundo.

Na terça-feira, o banco central leiloaria até US$ 1,2 bilhão em swaps de moeda, parte de até US$ 50 bilhões que disse na semana passada que seriam oferecidos para proporcionar alívio ao real em queda livre.

Entre outras medidas, uma visa permitir que os bancos públicos comprem ações de bancos privados e até mesmo partes da economia “real” como empresas do mercado imobiliário - algo proibido pela Constituição - visando injetar o capital urgentemente necessário.

O banco central também liberou mais de R$ 100 bilhões das rígidas exigências de depósito compulsório em uma tentativa de “irrigar” os mercados de crédito.

Mas por que está tão proativo?

“O governo tem tido muita sorte de muitas formas”, disse Lia da Graça, outra estrategista do BanifInvest. “Ele fará tudo o que puder para manter sua credibilidade.”

Mas para preocupação do governo, o sentimento do investidor está à mercê de fatores além do seu controle.

(Jonathan Wheatley, do Financial Times / Tradução: George El Khouri Andolfato - UOL Notícias)

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Órgão internacional diz que corrupção originou crise financeira

O presidente do Conselho da Conferência Mundial Contra a Corrupção (IACC), Barry O’Keefe, afirmou em Atenas que acredita que uma das principais razões da atual crise financeira mundial é a corrupção e a “falta de moralidade e de ética”.

O’Keefe afirmou que todas as partes envolvidas no problema “sabiam (da crise) e era uma bomba-relógio, que afeta a todos e na qual a corrupção contribuiu em grande parte”.

Ele acrescentou que “houve sinais de aviso (da crise), mas a avareza prevaleceu”.

As declarações foram feitas em entrevista coletiva para a apresentação da 13ª Conferência Mundial Contra a Corrupção, que começa na quinta-feira em Atenas e que reunirá cerca de 1.300 especialistas no assunto até domingo.

Durante a conferência, organizada pela Transparência Internacional e supervisionada pelo Governo grego, especialistas na questão de 130 países tentarão “identificarão as causas e os mecanismos da corrupção e buscarão soluções práticas, como a aplicação de leis e as ajudas a países em desenvolvimento”, ressaltou O’Keefe.

Constantinos Bacouris, presidente da Transparência Internacional grega, afirmou que “se trata de uma das conferências mais importantes do mundo” na qual será abordada este ano a corrupção relacionada com a paz e segurança, a mudança climática, energias renováveis e a globalização sustentável.

“A corrupção está dentro do núcleo dos desafios da humanidade e, por isso, é preciso combatê-la,” afirmou Bacouris, que reconheceu que a Grécia tem um dos índices mais altos de corrupção. (Agência EFE, de Atenas)

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