Arquivo de 9 de Novembro de 2008

O poder da rede. Entrevista com Michel Bauwens

Michel Bauwens é considerado, com razão, um dos gurus da Internet pela sua capacidade de recolher algumas tendências sociais presentes na Rede que tem a capacidade de romper as barreiras da tela e condicionar, assim, a realidade fora da web. Nascido na Bélgica, o filósofo é considerado um dos teóricos da “economia global da produção peer”, isto é, daquelas ações de trocar informações, músicas e vídeos que caracterizam a rede e que estão mudando profundamente a realidade. De fato, Bauwens dilata muito o conceito de peer to peer, incluindo nele todas as atividades relacionais que caracterizam a World wide web, mas também aquelas formas de cooperação e compartilhamento que ocorrem fora do ciberespaço.

A reportagem é de Tiziana Terranova, do jornal italiano Il Manifesto, 05-11-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E não é por acaso que um dos textos mais destacados é “Peer to peer and Human Evolution”. O encontro com ele forneceu a ocasião para avaliar o estado da arte da rede e o que, no mundo anglo-saxão, é chamado de network culture, ou seja, o acúmulo de elaborações e reflexões sobre como a rede e as formas de vida ali instaladas estão mudando a realidade.

Há alguns anos, o senhor fundou a “Fundação para alternativas peer to peer” (The Foundation for P2P alternatives). Como o senhor definiria essas alternativas?

O momento chave, para mim, que era um empreender de Internet e consultor para uma grande empresa high-tech, foi poucos meses depois da crise dos dot.com em abril de 2001. Então, me pareceu muito claro que as inovações na Internet, não obstante a crise, estavam acelerando. Era um grande paradoxo, pois, freqüentemente, pensamos nas inovações como atividades empreendedorial e as atividades empreendedoriais como realidade capitalista. Mas na web podíamos ver uma forma de empreendimento social que era desligada de uma lógica capitalista. Coloquei-me, portanto, a pergunta: o que guia essa inovação social? A minha resposta foi: uma agregação de indivíduos que estabelecem uma relação paritária em torno a projetos que criam valor. Essa capacidade de auto-agregação me atingiu imediatamente pelo seu extraordinário e radical potencial de mudar a lógica da nossa economia.

O meu conceito de peer to peer não é ainda tecnológico. Estou, de fato, interessado na forma social do peer to peer que a tecnologia simplesmente facilita. Uma forma social em que, repito, homens e mulheres se agregam para produzir valor sem nenhuma mediação institucional ou empreendedora. O peer to peer reside, portanto, na esfera da (inter)subjetividade humana e do desejo que também as infra-estruturas tecnológicas podem usar a seu favor. Onde eu vivo, na Tailândia, vejo emergir redes de auto-formação peer to peer entre as comunidades de agricultores que quase não têm acesso à Internet. Um outro exemplo são os efeitos de um acesso intermitente à Internet em torno às condições de trabalho e sobre as capacidades de resistência dos trabalhadores migrantes no sul da China.

Nos seus escritos, o peer to peer, para emergir ou se afirmar, não precisa daquilo que os economistas chamariam de um certo tipo de “capital humano” (por exemplo, habilidades técnicas) ou daquilo que os marxistas chamariam de um alto nível de socialização do trabalho, como ocorre nos setores mais avançados da economia. O que, portanto, a lógica peer to peer ativa? E por que emerge logo agora? E sob quais condições?

Muitas fases da inovação, como o projeto ou a invenção, dado que são “imateriais”, isto é, baseadas no conhecimento, podem usar a base do capital intelectual existente. Bittorrent e muitas outras invenções da Internet se desenvolveram, por exemplo, com investimentos limitados. É só quando esses projetos têm sucesso que exigem uma forte “injeção” de capital. O capital intervém, portanto, a posteriori. Isso não significa que o processo inovativo se “divorciou” do capitalismo. Estamos assistindo, no caso, a uma reformulação radical da relação entre comunidade, empresa e autoridade pública. Por isso, não existem grandes obstáculos para se pensar formas alternativas de conectar o planejamento aberto a uma produção “física”, tangível. Os acionistas populares e as empresas cooperativas sempre existiram, mas limitados no espaço e em relação a recursos físicos. Mas o que acontece se os custos de transação e comunicação diminuem a tal ponto em que os indivíduos podem se agregar em pequenos grupos sob escala global, coordenando suas atividades sem uma localização central de recurso? Penso que isso é exatamente o que as tecnologias distribuídas permitem: a coordenação global de pequenos grupos.

Voltando à sua pergunta, posso responder simplesmente que a mola que impulsiona a lógica peer to peer deve ser buscado no “sabor” de um trabalho não-alienado que a possui; mas também na possibilidade de um envolvimento apaixonado em um projeto e na conseguinte produção de significado fora das estruturas autoritárias que ela permite.

No momento, o peer to peer “floresce” nas economias chamadas avançadas, mas isso é um estado de coisas temporárias. Não é no Ocidente que eu espero ver um desenvolvimento vigoroso de comunidades de produção “aberta”, mas sim fora dele, isto é, naquelas realidades que têm muito a ganhar com a produção peer to peer, visto que são produções que exigem investimentos limitados para criar infra-estruturas físicas distribuídas. E isso não se refere só à produção de manufaturados “imateriais”, mas também a produtos tangíveis.

Na sua experiência, o que acontece quando um projeto peer to peer encontra/tem necessidade de capital? Estou pensando, por exemplo, na retórica da Web 2.0 como nova oportunidade empresarial, como afirma Tim O’Reilly no seu manifesta pela Web 2.0, que usa a expressão “pôr as rédeas” para descrever a natureza das operações que uma empresa de Web 2.0 deseja para “captar” o poder das redes sociais com o objetivo de produzir valor econômico. O’Reilly, por exemplo, sustenta a importância de manter o controle (isto é, a propriedade intelectual) sobre dados gerados pelos usuários das plataformas Web 2.0.

Se examinarmos a modalidade de adaptação recíproca entre os projetos peer to peer e as empresas, já podemos distinguir vários modelos. A primeira e a mais “capitalista” se baseia sobre uma modalidade crowdsourcing. Nesse cenário, uma plataforma é criada por uma empresa, que usa as contribuições voluntárias que são ofertadas no mercado. Nesse caso, o processo permanece sob o controle do proprietário da plataforma e os contribuintes voluntários são mais fracos porque são motivados pelo lucro financeiro individual.

O segundo formato, a economia compartilhada, vê indivíduos que criam pela própria expressão criativa, pelo valor do uso estético, e não são motivados, primeiramente, pelo lucro monetário. Nesse cenário, os proprietários de plataformas vendem a atenção dos usuários aos publicitários.

O terceiro formato é a verdadeira produção peer to peer e existe quando há uma intenção comum de criar um artefato social; porque essas comunidades têm ligações mais fortes em seu interior, são freqüentemente capazes de criar as suas infra-estruturas cooperativas. Quais são os efeitos quando uma maioria de produtores peer to peer começa a ser pago? Até agora, tínhamos uma situação em que o processo de desenvolvimento “aberto” e os valores da comunidade são preservados. Podemos, porém, dizer que assistimos a duas tendências complementares: de um lado, há um reforço da produção peer to peer e de uma lógica não-monetária; do outro, assistimos a uma integração daquele mesmo processo social em uma lógica capitalista.

Quero acrescentar uma tese provocativa: que a produção peer to peer é hiperprodutiva, especialmente quando pode contar com uma combinação de comunidades que se autogovernam, de associações e de uma “ecologia de empresa”. Segundo, que esse modelo se estenderá de maneira crescente à produção física, tangível, onde comunidades abertas podem se combinar não só com o capitalismo, mas também com novos modelos de cooperação produtiva.

Tudo isso é muito atraente e quase inevitável! Quero fazer o papel do advogado do diabo e perguntar sobre algumas problemáticas que podem obstaculizar a afirmação de uma economia onde o peer to peer seria o ethos econômico dominante. Refiro-me ao papel exercido pelos governos, classes sociais e entidades financeiras internacionais, como o FMI ou o Banco Mundial, ao impor um modelo econômico que tende a promover uma ulterior acumulação de capital, também com o custo de desencadear guerras. Segundo o que o senhor disse, parece que o senhor espera que a economia peer to peer seja simplesmente aceita. Por exemplo, o que aconteceria se, por exemplo, um governo decidisse construir enormes centrais nucleares em vez de uma rede de energia solar? Parece-me que quando se trata de fazer grandes feitos, a solução peer to peer tende a ser ativamente obstaculizada pelo objetivo de favorecer uma velha economia fundada sobre o lucro. Pergunto-me e lhe pergunto: como uma rede peer to peer pode encontrar a força política de impor os seus modelos? Além disso, sempre me perguntei qual é a qualidade da sociedade nas redes peer to peer. A literatura sobre isso tende a sublinhar um tipo de sociedade espontânea que emerge entre abstratos indivíduos cooperantes. O senhor coloca no centro da sua reflexão o desejo por um modo diferente de produção. Mas a sociedade pode ser algo muito turbulento, que implica relações de afinidade e pertença assim como de conflito e antagonismo entre culturas, perspectivas, modos de vida, interesses, histórias e até identidade. Cooperativas e grupos de todos os tipos freqüentemente tendem a se desintegrar por causa de vários motivos de conflitos entre os seus membros. Como o senhor explica, portanto, o conflito e a parcialidade da sociedade humana nas redes peer to peer?

Você coloca duas problemáticas que é melhor enfrentá-las separadamente. A primeira é se o ethos peer to peer será simplesmente abraçado ou será ativamente combatido e marginalizado. Estou de acordo com você que é realista imaginar uma resistência por parte das empresas e do capital com relação às alternativas peer to peer. Pelo contrário, essa é a situação que estamos vivendo. Temos, de fato, uma florescência de cooperações e inovações, mas, no momento, são, na realidade, freqüentemente ignoradas ou marginalizadas, que não conseguem se difundir por falta de meios, levando muitos dos participantes de tais iniciativas a viver uma vida precária ou na pobreza. Vejo essa condição de minoridade como efeito de uma reação conservadora. No futuro, considero que, de fato, a situação mudará, porque a atual lógica social se tornou destrutiva para a sobrevivência da biosfera. As elites se dividirão em dois campos.

De um lado, estarão aqueles que querem se opor ativamente ao novo modo de produção e socialidade, e podemos ver esse aspecto na obra da guerra generalizada contra a partilha do saber. A pergunta é: podem vencer algumas batalhas, mas vencerão a guerra? Acho que terá lugar um outro tipo de reação, representada pelas posições de Al Gore e George Soros.

Esse segmento das elites vê claramente que não há futuro e que a estrutura global do império precisa de uma profunda reforma: querem uma combinação de keynesianismo global e capitalismo verde. Por esse motivo, buscarão alianças com os capitalistas anárquicos da internet e os empreendedores ambientais. Para esses últimos, uma aliança com as forças peer to peer é uma necessidade natural. Querem que o mercado prevaleça e que mantenha o seu domínio, querem controlar a participação e integrá-la nas suas cadeias de produção de valor, mas sabem também que a participação é essencial para um desenvolvimento econômico sustentável. A escolha, portanto, é entre a destruição da biosfera, o colapso financeiro e uma reforma global do capitalismo. É razoável conjeturar o fato de que no futuro próximo assistiremos ao desenvolvimento de enormes movimentos sociais que desconfiarão do atual status quo e que modificarão radicalmente a ordem do capitalismo global. O que está em jogo é fazer com que o peer to peer se transforme de realidade germinal a uma parte essencial do novo sistema.

Agora passamos à sua pergunta sobre os conflitos sociais. Penso que o peer to peer permite que se enfrente o conflito com o status quo diferentemente que no passado, porque ele não resolve as diferenças culturais ou os conflitos, mas os “rodeia”. A peer to peer governance, por exemplo, não substitui a democracia, mas cria uma esfera de agregação autônoma onde a abundância é possível.

IHU - Instituto Humanitas

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Os EUA agarrarão a oportunidade da razão? Entrevista com Jürgen Habermas

Um dos mais importantes filósofos vivos, o alemão Jürgen Habermas fala sobre os efeitos da atual crise financeira sobre o futuro dos Estados nacionais. Para ele, as mudanças que o sistema político mundial sofrerá nos próximos anos irá depender necessariamente das posições que os EUA -e seu novo presidente- irão adotar.

Habermas defende que os EUA, mesmo enfraquecidos, ainda permanecerão como a superpotência liberal.

A entrevista é de Thomas Assheuer, publicada pelo jornal Die Zeit e traduzida pelo jornal Folha de S. Paulo, 09-11-2008.

Eis a entrevista.

O sr. deve estar decepcionado com os EUA, que, em sua opinião, foram o cavalo de tração da nova ordem mundial.

O que nos resta a não ser apostar nesse cavalo de tração? Os Estados Unidos sairão enfraquecidos da dupla crise atual. Mas permanecerão por enquanto a superpotência liberal. A exportação mundial da própria forma de vida correspondeu ao universalismo falso, centralizado, dos velhos ricos. Em contraposição, a modernidade se alimenta do universalismo descentralizado do respeito igual por cada um. É do próprio interesse dos EUA não somente deixar de lado seu posicionamento contraproducente em relação à ONU, mas também colocar-se no topo do movimento reformista. Do ponto de vista histórico, a combinação de quatro fatores oferece uma constelação extraordinária: superpotência, mais antiga democracia na terra, a posse de um presidente liberal e visionário e uma cultura política na qual orientações normativas encontram um notável solo de ressonância.

Os EUA sentem-se hoje profundamente inseguros devido ao fracasso da aventura unilateral, à autodestruição do neoliberalismo e também ao mau uso de uma consciência de excepcionalidade. Por que essa nação não poderia, como fez com tanta freqüência, recompor-se de novo e tentar integrar a tempo as grandes potências concorrentes de hoje - e potências mundiais de amanhã - em uma ordem internacional que prescinda de uma superpotência? Por que um presidente - que, saído de uma eleição decisiva, irá encontrar somente um espaço mínimo de ação - não desejaria, pelo menos na política externa, agarrar essa oportunidade razoável, essa oportunidade da razão?

Falando assim, o sr. não arrancaria mais do que um riso cansado dos chamados “realistas”…

O novo presidente americano precisa se impor contra as elites dependentes de Wall Street no próprio partido; ele também deveria ser afastado dos reflexos evidentes de um novo protecionismo. E os EUA precisariam, para uma meia-volta tão radical, do impulso amigável de um aliado leal, mas autoconsciente. Só pode existir um Ocidente “bipolar”, no sentido criativo, se a União Européia aprender a falar para fora com uma só voz. Em épocas de crise, talvez seja necessária uma perspectiva que tenha um alcance mais longo do que o conselho do “mainstream” embonecado do sucesso a qualquer custo.

O sistema financeiro internacional entrou em colapso, e há a ameaça de uma crise econômica mundial. O que mais o inquieta?

O que mais me inquieta é a injustiça social, que consiste no fato de que os custos socializados oriundos da pane do sistema atingem da forma mais dura os grupos sociais mais vulneráveis. Assim, solicita-se da massa composta por aqueles que, de qualquer modo, não pertencem aos que lucram com a globalização que ela de novo pague pelas conseqüências, em termos da economia real, de uma falha funcional previsível do sistema financeiro. Também em escala mundial, esse destino punitivo efetua-se nos países mais fracos economicamente. Esse é o escândalo político. Mas apontar agora bodes expiatórios, isso, sem dúvida, considero hipocrisia. Também os especuladores comportaram-se de forma conseqüente, nos limites da lei, de acordo com a lógica, aceita socialmente, da maximização dos ganhos. A política se torna ridícula quando moraliza, em vez de se apoiar no direito coativo do legislador democrático. Ela, e não o capitalismo, é responsável pela orientação voltada ao bem comum.

Para os neoliberais, o Estado é somente um parceiro no campo econômico e precisa se apequenar. Agora esse pensamento não tem mais crédito?

Isso dependerá do desenrolar da crise, da capacidade de percepção, por parte dos partidos políticos, dos temas públicos.

Por que o bem-estar é hoje distribuído de forma tão desigual? O fim da ameaça comunista desinibiu o capitalismo ocidental?

O capitalismo contido no âmbito dos Estados nacionais, cercado por políticas econômicas keynesianas, marcado por um bem-estar incomparável - do ponto de vista histórico -, já havia acabado logo após o abandono do câmbio fixo e do choque do petróleo. De fato, a ruína da União Soviética desencadeou um triunfalismo fatal no Ocidente. A sensação de ter razão, em termos da história mundial, tem um efeito sedutor. Neste caso, inchou uma doutrina político-econômica e a tornou uma visão de mundo que penetra em todas as esferas da vida.

De que o mundo sentiu falta depois de 1989? O capital simplesmente se tornou poderoso demais diante da política?

Ficou claro para mim, ao longo dos anos 1990, que as capacidades políticas de ação precisavam crescer atrás dos mercados, no plano supranacional. À globalização econômica deveria ter seguido uma coordenação política mundial e a legitimação adicional das relações internacionais. Mas as primeiras peças adicionais já ficaram atoladas no governo de Bill Clinton. Desde o início da modernidade, o mercado e a política sempre precisaram se contrabalançar de forma que a rede de relações solidárias entre os membros de uma comunidade política não se rompesse. Uma tensão entre capitalismo e democracia sempre existe porque mercado e política repousam sobre princípios opostos.

Mas o sr. insiste no cosmopolitismo de Kant e acolhe a idéia de uma política interna mundial, introduzida por Carl Friedrich von Weizsäcker. Isso soa bastante ilusório -basta que se observe o estado atual das Nações Unidas.

Mesmo uma reforma basilar das instituições centrais das Nações Unidas não seria suficiente. De fato, o Conselho de Segurança, o Secretariado, as cortes de Justiça precisariam urgentemente entrar em forma para uma imposição global dos direitos humanos e da proibição da violência -em si já uma tarefa imensa. Nesse plano transnacional, há problemas de distribuição que não podem ser decididos do mesmo modo que infrações contra os direitos humanos ou violações de segurança internacional, mas precisam ser negociados de forma política.

Mas para isso já existe uma organização experimentada, que é o G-8.

Isso é um clube exclusivo, no qual algumas dessas questões são discutidas de forma descomprometida. Entre as expectativas exageradas que se ligam a essas encenações e o resultado medíocre do espetáculo midiático sem conseqüências, existe uma desproporção traiçoeira.

O discurso sobre a “política interna mundial” soa antes como os sonhos de um vidente.

Ainda ontem a maioria consideraria não realista aquilo que ocorre hoje: os governos europeus e asiáticos superam-se mutuamente em sugestões de regulamentações em vista da institucionalização insuficiente dos mercados financeiros.

Mesmo que novas competências fossem atribuídas ao Fundo Monetário Internacional, isso ainda não seria uma política interna mundial.

Não quero fazer previsões; em vista dos problemas atuais, o que podemos fazer, na melhor das hipóteses, são considerações construtivas. Os Estados nacionais deveriam, de forma crescente e, com efeito, em seu próprio interesse, se perceber membros da comunidade internacional. Quando hoje falamos de “política”, estamos amiúde falando da ação de governos que herdaram uma autoconcepção como atores coletivos, que decidem de forma soberana. Mas essa autoconcepção de um Leviatã, que, desde o século 17, se desenvolveu junto com o sistema de Estados europeu, hoje já não é mais vigorosa. O que chamávamos ontem de “política” muda diariamente seu estado.

Mas como isso se coaduna com o darwinismo social, que, como o sr. diz, se expande novamente na política internacional desde o 11 de Setembro?

Talvez se devesse dar um passo atrás e observar uma conjuntura maior. Desde o final do século 18, o direito e a lei permearam o poder do governo, constituído politicamente, e lhe negaram, na circulação interior, o caráter substancial de um simples “poder”. Mas ele guardou para si uma quantidade suficiente dessa substância, apesar da rede de organizações internacionais e da força de coesão crescente do direito internacional. Ainda assim, o conceito de “político”, cunhado no âmbito do Estado nacional, está se liquefazendo. Na União Européia, por exemplo, os Estados-membros, no passado e no presente, guardam o monopólio da força e também transpõem, mais ou menos sem reclamações, o direito que é determinado na esfera supranacional. Essa mudança de forma do direito e da política também se relaciona a uma dinâmica capitalista que pode ser descrita como interação entre abertura forçada funcionalmente e fechamento sociointegrativo em níveis cada vez mais elevados.

O mercado arromba a sociedade, e o Estado social a fecha novamente?

O Estado social é uma proeza tardia e frágil. Os mercados e as redes de comunicação sempre em expansão já tiveram uma força de arrombamento, que, para o cidadão individual, é, ao mesmo tempo, individualizante e libertadora. A isso, porém, sempre seguiu uma reorganização das velhas relações de solidariedade numa moldura institucional expandida. Esse processo iniciou-se no início da modernidade, quando os estamentos dirigentes da Alta Idade Média se tornaram, passo a passo, parlamentares -como na Inglaterra- ou foram subjugados por reis absolutistas - como na França. Essa domesticação jurídica do Leviatã e do antagonismo entre as classes não foi simples. Mas, pelas mesmas razões, a bem-sucedida constitucionalização do Estado e da sociedade aponta hoje, após um surto de globalização econômica, para uma constitucionalização do direito internacional e da esfacelada sociedade mundial.

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O papel da internet na campanha de Barack Obama

Para o espanhol Pere-Oriol Costa, especialista em campanhas eleitorais, uso da internet foi uma das peças-chave da vitória de Barack Obama. “Esta campanha”, defende, “redimensionou o papel da internet nas campanhas eleitorais, confirmando sua importância brutal e amplificando muitas coisas que já estavam inventadas, como arrecadar fundos para a campanha e construir uma poderosa rede de voluntários.”

La Vanguardia

Em entrevista ao jornal La Vanguardia, de Barcelona, Pere-Oriol Costa, especialista em campanhas eleitorais, analisa algumas das principais causas do sucesso da campanha eleitoral de Barack Obama. Entre elas, destaca o papel que a internet desempenhou na caminhada do candidato democrata, desde o início da disputa das primárias, quando superou Hillary Clinton.

“Esta campanha”, defende, “redimensionou o papel da internet nas campanhas eleitorais, confirmando sua importância brutal e amplificando muitas coisas que já estavam inventadas, como arrecadar fundos para a campanha e construir uma poderosa rede de voluntários”. Uma parte expressiva do dinheiro da campanha de Obama veio de pequenas contribuições feitas pela internet, o que garantiu maior poder de fogo ao candidato, especialmente na reta final.

Os principais trechos da entrevista:

Quais foram, do ponto de vista da estratégia eleitoral, os fatores-chave para a vitória de Obama?

Pere-Oriol Costa – Nas primárias, Obama percebeu que Hillary Clinton levava dois anos reposicionando-se ao centro, deixando um flanco à esquerda do Partido Democrata. Hillary falava de Deus, da fé e do exército, esperando conseguir um voto mais conservador, mas os blogueiros e a juventude do Partido Democrata a trituraram, acusando-a de trair o partido. Obama aproveitou esse espaço e encontrou eco dentro do Partido Democrata. Ainda que todo seu discurso seja progressista, não representa exatamente um discurso de esquerda ou de direita, mas sim de caráter geracional.

Essa estratégia era destinada a atrair o voto dos jovens?

POC – Buscava atingir mais o Partido Democrata e os jovens e blogueiros o impulsionaram. No voto das primárias, os mais velhos votaram em Hillary e os jovens em Obama. As primeiras análises que nos chegam das eleições presidenciais mostram que cerca de 70% do voto jovem foi para Obama.

Em que sentido a campanha de Obama foi melhor que a de McCain?

POC – A campanha de Obama foi retilínea e os acontecimentos permitiram que ele seguisse uma linha claramente identificável: equiparar McCain a Bush. Com esta linha, ele desgastou a McCain, que seguiu na campanha sofrendo vários tombos.

A mensagem de mudança, de novidade, defendida por Obama, é uma típica estratégia de marketing?

POC – O slogan marca o eixo de toda campanha. Hillary escolheu como eixo sua experiência e Obama percebeu que o fator da vitória residia em explorar o grande sentimento de mudança que existia na sociedade. Enquanto McCain adotou o slogan “o país primeiro”, uma referência à guerra do Iraque, o slogan de Obama permitiu-lhe assumir e tirar vantagens da mudança de sinal na campanha, provocada pela crise financeira. Quando a campanha deixou de estar centrada no Iraque e passou a focalizar o crack financeiro, McCain ficou fora do jogo.

Nas campanhas atuais, é preciso agarrar-se a uma idéia e repeti-la constantemente?

POC – A comunicação política extrai do marketing a idéia da unique selling proposition (algo como proposta de venda única): para que uma idéia sobre um produto encontre eco na opinião pública é preciso dizer uma única coisa, é preciso ter foco. O marketing político utiliza este sistema e tenta enviar uma só mensagem. Se conseguimos englobar tudo o que queremos em uma só mensagem há muito mais chances de que as pessoas recepcionem essa mensagem.

Obama fez isso e McCain não?

POC - Exatamente. Obama utilizou a mensagem da mudança. Yes, we can (Sim, nós podemos). Esta foi a idéia com a qual ele jogou.

Quais foram os erros de McCain?

POC – A escolha de Sarah Palin como número dois foi um erro gravíssimo. McCain representa a ala mais centrista do Partido Republicano e isso era bom para ele porque fazia fronteira com Obama. Mas ele pensou que podia perder votos mais à direita, sucumbiu às pressões e indicou Palin. Ela representa a ala mais fundamentalista do partido, mas, na verdade, a direita mais religiosa teria votado nos republicanos de qualquer forma. Com esse gesto, ele se situou mais à direita e deixou mais espaço para Obama no centro.

Obama também soube aproveitar ao máximo as possibilidades da internet…

POC – Esta campanha redimensionou finalmente a internet dentro dos processos eleitorais. Ela ganhou uma importância brutal e teve amplificadas muitas coisas que já estavam inventadas, como recolher dinheiro e captar voluntários pela rede. Praticamente todo o dinheiro da campanha de Obama chegou por meio de pequenas contribuições via internet.

O que significa isso?

POC – Creio que será transcendente para o mandato de Obama. O fato de ter recolhido a imensa maioria do dinheiro pela internet através de pequenas contribuições converte-o no primeiro presidente que não depende de lobbies, de pressões nem dos interesses daqueles que habitualmente financiam as campanhas. Bush recebeu dinheiro da Exxon Mobil e agora esta empresa está a ponto de perfurar as costas e o Alaska. Recebeu dinheiro das indústrias armamentista e de abastecimento e inventou duas guerras. Recebeu dinheiro das seguradoras e das empresas farmacêuticas e criou uma lei para rebaixar as responsabilidades das mesmas, freando a difusão de um seguro mais barato. Enfim, há uma dependência direta entre quem financiam a campanha e como atua o presidente. Este é um presidente que, em princípio, não deve nada a ninguém.

A internet também pode servir para regenerar o debate político?

POC - Na televisão, é preciso simplificar muito a mensagem e dizer apenas uma coisa, enquanto que a internet, por sua estrutura, permite a recuperação do discurso e do debate político. Para mim, esta campanha começou quando os blogueiros do Partido Democrata passaram a encurralar Hillary. Foi a internet que permitiu isso. Só com a televisão, não teria sido possível. Tem se dito que o efeito da televisão agora é fundamentalmente o debate entre os candidatos. No caso da internet, ainda que seja um debate virtual, o que ocorre é que este debate é muito mais rico.

Os cidadãos também podem participar mais, não?

PCO – A televisão tinha se convertido no cenário onde ocorria a ação política, usurpando, inclusive, o papel do Parlamento. A internet, sem usurpar o papel de ninguém, converteu-se em um novo meio que traz para a política um debate mais rico e um intercâmbio de mensagens.

Tradução: Katarina Peixoto

Carta Maior

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