A candidatura de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos e seu possível triunfo eleitoral, no contexto da crise mundial, despertou expectativas em setores populares no mundo todo, de que poderia haver uma mudança progressista, favorável aos oprimidos, na política da maior potência imperialista. Por exemplo, pesquisa recente realizada na Argentina, indica que 60% dos argentinos “preferem” Obama (consultora Ibarómetro). Do mesmo modo se manifestaram 78% dos franceses (canal France 24).
Estas expectativas são alentadas pelos meios de comunicação e pela maioria dos dirigentes políticos de direita, de centro-esquerda e até por alguns que se dizem de esquerda. Entre eles, o presidente brasileiro, Lula, manifestou poucos dias antes das eleições que “no mundo existe alegria… em pensar como seria bom que um negro fosse eleito presidente dos Estados Unidos”. A argentina, Cristina Kirchner, considerou Obama “admirável”… por “sua personalidade e seu discurso”.
Por sua vez, Hugo Chávez, mais cuidadoso, afirmou: "Quero uma aproximação com o negro, desde aqui (da Venezuela) já que nós somos indígenas, negros, raça sul-americana… Estou preparado para sentar-me e dialogar… espero que possamos, espero que entremos numa nova etapa" (Reuters).
Esta “obamania” inclui gente que se reivindica de esquerda, antiimperialista e até trotskista, como o panamenho Olmedo Beluche (membro do Reagrupamento Internacional do qual também participam o MES do Brasil, o MST argentino e a Marea Socialista da Venezuela). Beluche elogia Obama de modo inacreditável, falando de seu “progressismo” e de sua “oposição categórica à guerra do Iraque”, o que é falso. Não houve “oposição categórica”, nem de Obama nem do Partido Democrata.
Por que Obama?
O maior imperialismo mundial está metido em uma crise econômica, social e militar muito profunda. Está perdendo as guerras do Iraque e do Afeganistão. É repudiado na América Latina pelos trabalhadores, camponeses e setores populares. Dois de seus embaixadores (na Bolívia e na Venezuela) foram expulsos. E prevêem-se manifestações e greves contra a sua presença militar no Peru. O governo e a nova Constituição do Equador estabelecem que terá que retirar a base de Manta que mantém nesse país. O governo de Evo Morales, na Bolívia, expulsou a DEA (a agência ianque antinarcóticos) por cumplicidade com os golpistas. O presidente Bush termina seu mandato como um dos personagens mais odiados da história mundial, só comparável a Hitler. Este ódio das massas do mundo começou a “contagiar” milhões de norte-americanos arruinados pela crise e pela megafraude dos bancos e financeiras. Cresce a desconfiança de grandes setores da população ianque contra os velhos políticos republicanos e democratas. Isto se expressou nas prévias do Partido Democrata, com a derrota de Hillary Clinton, que até um ano antes era considerada quase imbatível.
Diante desta situação tentam impor, “uma cara nova” à candidatura. Barack Obama, por ser negro, por sua história pessoal com pai africano africano, e com um discurso contra o “establishment” (os dirigentes políticos e empresários tradicionais), com sua consigna “Queremos mudança”, converteu-se no candidato ideal para mostrar essa “cara nova”. Evidentemente, grandes setores populares acreditaram e buscam uma mudança baseados nestas frases e nesta imagem com que se construiu a candidatura de Obama.
Obama é progressista?
Em que pesem todas estas as expectativas populares e o apoio de políticos “progressistas”, nada indica que Barack Obama romperá, ainda que parcialmente, com a política imperialista e de apoio à máfia financeira que levou à crise.
Quando se tentava votar o gigantesco socorro de 700 bilhões de dólares aos bancos, Bush pediu o apoio de Obama e McCain. Ambos os candidatos apoiaram o socorro aos bancos. E, tanto Obama como Mc Cain, reafirmaram esse apoio quando o Congresso, pressionado pelo repúdio popular, votou contra.
Isto não surpreendente, já que ambos os candidatos devem suas campanhas eleitorais ao financiamento das multinacionais e aos próprios bancos socorridos.
Segundo a página www.opensecrets.org, até maio de 2008 “os referidos candidatos receberam mais de 500 milhões de dólares, uma cifra recorde”, distribuídos da seguinte maneira: Barack Obama: 265.439.277; Hilary Clinton: 214.883.437; John McCain: 96.654,783. Entre os bancos é clara a preferência pelos democratas: Goldman Sachs destinou 73% dos 3,7 milhões doados; Citigroup, 61% de 3 milhões e Morgan Chase, 64% de 2,5 milhões.
Inicialmente, Obama se opôs à invasão do Iraque. Mas, logo depois votou nos orçamentos de guerra de Bush. E agora diz que há que se “retirar” as tropas daquele país, mas nega-se a marcar data para a retirada. Por outro lado, várias vezes prometeu, publicamente, aumentar o número de tropas imperialistas no Afeganistão e inclusive atacar, através da fronteira do Paquistão, povos e cidades que considere favoráveis à resistência Afegã. Declarou seu apoio, incondicional, a Israel e aos seus ataques militares. Apóia incondicionalmente a expulsão dos palestinos por parte de Israel e a extensão das colônias sionistas na Cisjordânia. Prometeu atacar militarmente o Irã, se este continuar processando urânio para seus programas nucleares. O candidato a vice-presidente de Obama, Joseph Biden, indicou os "pontos de conflito" (Irã, Afeganistão, Paquistão, Rússia e Coréia do Norte), e expressou que "responderiam com força" diante desses desafios.
Na política interna, Obama aprovou, sem questionar, o socorro de 700 bilhões aos bancos de investimentos; com dinheiro roubado do povo norte-americano. Diante da reclamação dos que perdem suas casas por não poderem pagar as hipotecas, Obama propôs “suspender os despejos por três meses”, isto é, até depois das eleições; depois que votarem nele. Como se, em meio a esta crise, um trabalhador pudesse juntar o dinheiro necessário para pagar a hipoteca de sua casa, em três meses.
Obama propõe intensificar as transferências de fundos governamentais para instituições financeiras mal administradas e corporações capitalistas na falência, a fim de salvar um capitalismo fracassado, em vez de instaurar programas de ajuda ao povo e de obras públicas para gerar empregos para os trabalhadores.
Obama apóia os planos de saúde privados, administrados pelas corporações de seguros, as grandes companhias farmacêuticas e clínicas, o que tornou os custos de saúde os mais altos do mundo e deixa um terço dos norte-americanos sem cobertura médica. Recusa publicamente um programa de saúde nacional e universal baseado no programa federal Medicare. Defende as grandes companhias agrícolas produtoras de etanol, altamente subvencionado e rentável, ajudando o encarecimento mundial de alimentos. Ou seja, não há nenhum motivo para afirmar que Obama fará uma mudança positiva.
Redobrar a luta antiimperialista. Que os capitalistas paguem pela crise!
Expressar simpatia por Obama é colaborar, conscientemente ou não, com a campanha mundial de mentiras, de “cara nova” que o imperialismo tenta impor. Há que se dizer claramente aos trabalhadores e aos povos do mundo que Obama é mais do mesmo. Que se acontecer uma mudança nos Estados Unidos, ela virá das mãos de seus trabalhadores: latinos, negros e brancos, agora também golpeados pela crise, e não de nenhum político imperialista; ainda que se pinte de negro. Que toda mudança positiva que se obtenha será devido à luta: operária, popular, camponesa e indígena no mundo, e não em virtude do novo chefe imperialista. Caso se consiga a retirada ianque do Iraque, será em razão da heróica luta do povo iraquiano, da solidariedade mundial, que devemos redobrar, e do repúdio à invasão existente no próprio povo norte-americano.
São as lutas: do povo boliviano, peruano, venezuelano, dos estudantes e professores italianos, das “greves de advertência” dos metalúrgicos alemães, da greve dos operários da montadora Nissau de Barcelona, de todos os povos do mundo que farão o imperialismo retroceder e podem impedi-lo de nos afundar na miséria para pagar suas negociatas.
Diante da crise capitalista que nos ameaça com uma terrível catástrofe de desemprego e miséria, a UIT-CI (Unidade Internacional dos Trabalhadores-Quarta Internacional) convoca a unidade dos trabalhadores e dos povos oprimidos do mundo inteiro para: enfrentar os planos de tirar-nos o salário e o emprego, construir organizações independentes para lutar por uma mudança real, acabar com o capitalismo imperialista e construir o socialismo com democracia operária.
Fora ianques do Iraque, Afeganistão e do Oriente Médio! Fora o sionismo da Palestina! Fora ianques da América Latina! Suspensão imediata do bloqueio a Cuba! Fora as bases da OTAN da Europa Oriental!
Que os bancos e as multinacionais paguem pela crise mundial!
Comitê Executivo Internacional da UIT-QI. Novembro/2008
Declaração da Unidade Internacional dos Trabalhadores (Quarta Internacional)