Arquivo de 15 de Novembro de 2008

EDUARDO GALEANO - Os espelhos da história

O livro mais recente de Eduardo Galeano, “Espelhos - uma história quase universal”, é lançado em português durante a Feira do Livro de Porto Alegre. No dia 19 de outubro, Galeano recebeu, em Montevidéu, o prêmio Bartolomé Hidalgo, quando participou de uma conversa pública sobre o tema do livro. Publicamos aqui o resumo desta conversa.

Redação - Carta Maior

Eduardo Galeano lança nesta quinta-feira (13), em Porto Alegre, a edição brasileira de seu mais recente livro, “Espejos” (Espelhos), publicada pela Editora L&PM. O escritor uruguaio participa de uma sessão de autógrafos na Feira do Livro de Porto Alegre e depois participa de um debate no auditório Dante Barone, da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.

No dia 19 de outubro deste ano, Galeano recebeu, em Montevidéu, o prêmio Bartolomé Hidalgo, na Feira Internacional do Livro. Na ocasião, Galeano fez uma longa conversa pública sobre o tema de “Espejos”, obra na qual ele se propõe a falar do que não é falado, a contar o que não é contado. O jornal uruguaio La Republica publicou um resumo da fala de Galeano, que reproduzimos aqui.

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“Eu queria compartilhar com vocês alguns dos relatos do último livro que cometi, que se chama “Espelhos” e que está armado sobre seiscentos relatos – não vou ler os 600, que ninguém entre em pânico, ninguém vá embora, não há perigo. Vou fazer uma seleção de uns poucos textos que considero reveladores do que o livro quis ser ou fazer: (muito modestamente), contar nada mais do que a história do mundo até onde se podia chegar.

E isso através de pequenas histórias, não só por sua extensão, mas também porque sempre me ocorre de olhar o universo pelo olho da fechadura, ou seja, redescobrir as grandezas desde o mais pequeno. Viajando desde essas coisas mais pequenas em direção às coisas que, verdadeiramente, têm grandeza (que não são as coisas mais grandes), e recontando a realidade desde o ponto de vista dos que estiveram lá, mas não foram lembrados porque a história oficial os suprimiu.

Há um primeiro relato que vou ler agora que, de alguma maneira, sintetiza toda a intenção do livro e que se chama “O herói”. Diz assim: “Como teria sido a guerra de Tróia contada desde o ponto de vista de um soldado anônimo; um grego a pé, ignorado pelos deuses e desejado só pelos abutres que sobrevoam as batalhas”.

Um camponês metido a guerreiro, cantado por ninguém, esculpido por ninguém. Um homem qualquer obrigado a matar e sem o menor interesse de morrer pelos olhos de Helena.

Teria pressentido esse soldado o que Eurípedes confirmou depois? Que Helena nunca esteve em Tróia; que apenas sua sombra esteve ali.

Que ocorreram dez anos de matanças por uma túnica vazia.

E se esse soldado sobreviveu, o que recordou?

Quem sabe! Talvez o cheiro. O cheiro da dor e somente isso.

Três mil anos depois da queda de Tróia, os correspondentes de guerra Robert Fisk e Fran Sevilla nos contas que as guerras doem.

Eles já estiveram em várias delas, as sofreram por dentro e conhecem esse cheiro de podridão quente, doce, pegajosa, que se mete por todos os poros e se instala no corpo. É uma náusea que jamais nos abandonará.
O livro se propõe falar do não falado, contar o não contado. Tenta responder algumas perguntas que zombem na minha cabeça, a maioria delas há anos – e que provavelmente seguirão zumbindo -, mas que aqui encontraram uma primeira tentativa de resposta como esta pergunta que eu me fiz quando, faz já algum tempo, tive a sorte de ver as pinturas rupestres na caverna de Altamira. As pinturas rupestres mais famosas do mundo em Altamira.

Eu as vi estendido em uma mesa de pedra e olhando para o teto – porque estavam pintadas no texto da caverna – e então me fiz uma pergunta, que é a pergunta que está aqui no texto, que vou ler agora: “Estas figuras estão ali pintadas nas paredes e nos tetos das cavernas: bisões, alces, ursos, cavalos, águias, mulheres, homens…não têm idade. Nasceram há milhares e milhares de anos, mas nascem de novo cada vez que alguém as olha. Como puderam eles, nossos remotos avós, pintar de maneira tão delicada? Como puderam eles, esses brutos que lutavam com as mãos contra animais ferozes, criar figuras tão cheias de graça? Como puderam eles rabiscar essas linhas voadoras que escapam da rocha e ganham o ar? Como puderam eles…ou eram elas…ou eram elas?

Repeti essas perguntas durante muitos anos. Fui lendo os livros que iam aparecendo sobre o tema e comprovei que a pergunta não era muito freqüente porque a ninguém ocorria a possibilidade de que as pinturas pré-históricas fundadoras da beleza no mundo fossem obra de mulheres.

E isso não tem nada de raro, porque as mulheres têm sido transformadas em ninguém pela história oficial e maltratadas pela história real.

Estamos acostumados a condenar com toda razão as atrocidades cometidas pelos fundamentalistas islâmicos contra as mulheres, mas não estamos tão acostumados a inteirar-nos, por exemplo, de que a Igreja Católica – que me formou; eu tive uma infância muito católica – proibiu durante sete séculos e meio, até bem pouco tempo (até mil novecentos e vinte e pouco), que as mulheres cantassem nos templos. E proibiu porque as vozes das filhas de Eva sujavam a pureza do ar.

Tampouco estamos acostumados a inteirar-nos de que a revolução laica por excelência - a Revolução Francesa que chegou para fundar a igualdade de direitos no mundo - proclamou lá por 1793 a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, mas quando uma militante revolucionária, chamada Olímpia de Gouche, propôs uma Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, a Revolução Francesa cortou-lhe a cabeça na guilhotina.

Em outra pergunta que marquei aqui, porque há muitas histórias de mulheres, mas para resolvê-la com uma mais…

Quando eu era menino, havia…creio que ainda há uma rua chamada Concepción Arenal e eu queria saber quem era Concepción Arenal. Ninguém me explicava, ninguém sabia quem era ela. Assim, não tive outro remédio que investigar por minha própria conta e escrevi o seguinte sobre ela: “Passou a vida lutando com alma e vida, contra o inferno das prisões e pela dignidade das mulheres presas nas cadeias, disfarçadas de lares”.

Contra o costume de absolver generalizando, ela clamava “ao pão, pão, ao vinho, vinho”. Quando a culpa é de todos, é de ninguém, dizia.

E assim ganhou uns quantos inimigos e, ainda que seu prestígio já fosse indiscutível, seu país custava a acreditar – e não só em seu país, em sua época também.

Por volta de 1840, Concepción Arenal assistiu aos cursos da Faculdade de Direito, disfarçada de homem. Escondia o peito com um duplo corpete. Por volta de mil oitocentos e cinqüenta e poucos seguia disfarçando-se de homem para poder freqüentar as tertúlias madrilenhas onde se debatiam temas impróprios em horas impróprias;

Já por volta de 1870, uma famosa organização inglesa, a Sociedade Howard para a reforma das prisões, nomeou-a representante na Espanha e o documento de sua nomeação foi expedido em nome de “Sir” Concepción Arenal. Quarenta anos depois, outra galega, como Concepción, Emilia Pardo Bazán, foi a primeira mulher catedrática em uma universidade espanhola.

Nenhum aluno se dignava a escutá-la. Dava aulas para ninguém…

Algum amigo, desses perversos que todos temos (e que nunca faltam), me disse: “Por que não para de se incomodar com as mulheres se o sistema já te ofereceu em uma bandeja a Margaret Thatcher, a Condoleezza Rice e agora a Sara Paling que parece ser a pior de todas”.

A questão não é se as mulheres são melhores que os homens, mas sim que o caminho para a igualdade de direitos tem sido muito duro e ainda está pela metade. Os direitos não se presenteiam, se conquistam, e não me parece demais recordar que a igualdade de direitos que as mulheres ainda não conquistaram, mas que evidentemente já avançaram nesta direção, tem sido o resultado do trabalho de muitas mulheres que se engajaram nesta luta.

Tampouco acredito que os negros sejam melhores que os brancos, mas acredito que o mundo está doente de racismo e por isso me parece muito positivo que Obama seja um candidato com boas possibilidades de conquistar a presidência dos Estados Unidos, não porque eu compartilhe tudo o que ele diz, especialmente o que diz quando anuncia que o Irã é o pior inimigo da humanidade, ou quando ameaça invadir o Paquistão, ou quando emprega a linguagem de McCain a tal ponto que causa aborrecimento escutar o mesmo de um lado e de outro.

Mas é um fato positivo pela simples razão de que é a primeira vez que isso ocorre. E ocorre em um país muito racista, gravemente enfermo de racismo. Para começar com outra pergunta: Adão e Eva eram negros?

A viagem humana pelo mundo começou na África. Foi a partir desta região que nossos avós empreenderam a conquista do planeta. Os diversos caminhos fundaram os diversos destinos e o Sol se ocupou de reparti-los em cores. Agora, as mulheres e os homens arco-íris da terra, temos mais cores que o arco-íris do céu, mas somos todos africanos emigrados…somos todos africanos emigrados.

Até os brancos branquíssimos vieram da África. Talvez nos neguemos a recordar nossa origem comum porque o racismo produz amnésia ou que porque nos é impossível acreditar que naqueles tempos remotos o mundo inteiro era nosso reino, um imenso mapa sem fronteiras, e nossas pernas eram o único passaporte exigido.

Quando digo que Obama é importante – sobretudo em um país como os Estados Unidos – estou me referindo a coisas que ocorreram há, digamos, quinze minutos, porque, em termos históricos, por exemplo em 1943, que é logo ali, o Pentágono proibiu as transfusões de “sangue negro”. Os EUA tinham entrado na guerra e não queriam que se fizesse por injeção a mescla de raças proibida na cama. O presidente da Cruz Vermelha era o cientista que tinha tornado possível o desenvolvimento do plasma com suas investigações, tinha tornado possível a conservação do sangue. O homem que salvou milhões de vida disse que ele se negava a cumprir a ordem porque era um disparate, o sangre negro não existia. “Todo o sangue é vermelho, pelo menos o que eu conheço”. Ele foi demitido. Chamava-se Charles Drew e era negro. Era negro.

Passaram-se os anos, pouco tempo depois ele morreu. Agora, há pouco tempo, a Cruz Vermelha dos Estados Unidos resolveu adotar seu nome. Charles Drew não ficou sabendo. Eu não acredito muito nisso, perdão é assim, te peço perdão, sobretudo quando o crime está tão distante, mas quase em nenhum caso também. Palavras para a realidade e sua memória.

O século XX que nasceu anunciando “paz e justiça” morreu banhado em sangue e deixou um mundo muito mais injusto do que aquele que havia encontrado. O século XXI, que também nasceu anunciando “paz e justiça”, está seguindo os passos do século anterior.

Na minha infância, eu estava convencido de que tudo o que se perdia na Terra ia para a Lula, mas…os astronautas não encontraram na Lua sonhos perigosos, nem promessas traídas, nem esperanças frustradas…Se não estão na Lua, onde estão?

Será que não se perderam na Terra? Será que se esconderam na Terra e estão esperando…esperando por nós, os humanos.

Darwin nos informou que somos primos dos macacos, não dos anjos. Depois soubemos que vínhamos da selva africana e que nenhuma cegonha havia nos trazido no bico desde Paris, e não faz muito ficamos sabendo que nossos genes são quase iguais aos genes dos ratos…já não sabemos se somos obras-primas de Deus ou uma má piada do diabo.

Nós, os humanos; os exterminadores de tudo; os caçadores do próximo; os criadores da bomba atômica, da bomba de hidrogênio e da bomba de nêutrons que é a mais saudável de todas porque liquida as pessoas, mas deixa intactas as coisas.

Os únicos animais que inventam máquinas, os únicos que vivem a serviço das máquinas que inventam.

Os únicos que devoram sua casa; os únicos que envenenam a água que lhes dá de beber e a terra que lhes dá de comer; os únicos capazes de alugar-se ou vender-se ou de alugar ou vender os seus semelhantes. Os únicos que matam por prazer; os únicos que torturam; os únicos que violam e também…e também os únicos que riem.

Os únicos que sonham despertos; os únicos que fazem seda da baba da lagarta; os que convertem lixo em formosura; os que descobrem cores que o arco-íris não conhece; os que dão novas músicas às vozes do mundo e criam palavras para que a realidade e sua memória não sejam mudas.

OS ÍNDIOS ERAM CEGOS?
Quando eu estava na escola, a professor nos explicou que Vasco Núñez de Balboa tinha sido o primeiro homem a ver os dois oceanos, a ver os dois mares de uma só vez, o Pacífico e o Atlântico, desde uma montanha no Panamá; o primeiro homem.

Eu levantei e a mão e disse: - Senhorita, senhorita…

- Sim?

- Os índios eram cegos?

- Fora!

Foi minha primeira expulsão.

Quem foram os primeiros a nomear o milho, a batata, o tomate, o chocolate, as montanhas e os rios da América?

Hernán Cortez? Francisco Pizarro?

Os que viviam ali eram mudos?

Os peregrinos do My Flower escutaram…Deus dizia que a América era a terra prometida.

Os que viviam ali eram surdos?

Depois, os netos daqueles peregrinos do norte se apoderaram do nome e de todas as demais coisas. Agora, americanos são eles; nós, que vivemos nas outras Américas, o que somos?

Os chamados índios – por um erro geográfico notório de Colombo – preferem chamar-se a si mesmo de nativos, que é uma maneira muito mais formosa de dizer quem são. Eles foram muito maltratados e seguem sendo por uma conquista que continua, século após século, nas terras da América.

Podemos citar ainda um par de exemplos próximos: a maior avenida do Uruguai leva o nome de Fructuoso Rivera que assassinou os últimos charruas, e a estátua mais alta da Argentina é a do general Roca que exterminou os índios da Patagônia.

Milhares de mortos sem sepultura perambulam pelo Pampa argentino. São os desaparecidos da última ditadura militar. A ditadura do general Videla aplicou em escala jamais vista o desaparecimento como arma de guerra. Aplicou, mas não inventou…

Um século antes, o general Roca havia usado contra os índios esta obra-prima da crueldade que obriga a cada morto morrer várias vezes e que condena seus entes queridos a enlouquecerem perseguindo sua sombra fugitiva.

Na Argentina, como em toda América, os índios foram os primeiros desaparecidos. Desapareceram antes de aparecer.

O general Roca chamou a invasão das terras indígenas de “Conquista do deserto”. A Patagônia era um espaço vazio, um reino do nada habitado por ninguém. E os índios seguiram desaparecendo depois.

Os que se submeteram e renunciaram à terra e a tudo foram chamados “índios reduzidos”. Reduzidos até desaparecer.

O CIDADÃO JOSÉ ARTIGAS
O país teve educação laica e gratuita antes da Inglaterra; voto feminino antes da França; jornada de trabalho de 8 horas antes dos Estados Unidos e Lei do Divórcio antes da Espanha.

O presidente José Batlle (don Pepe) nacionalizou os Serviços Públicos, separou a Igreja do Estado; mudou os nomes do calendário. A Semana Santa ainda se chama, entre nós, Semana do Turismo, como se Jesus tivesse tido a má sorte de morrer em uma data assim.

A “arquitetura da morte” é uma especialidade militar. Em 1977, a ditadura uruguaia erigiu um monumento funerário em memória de José Artigas.

Este enorme despropósito foi um cárcere de luxo – foi e segue sendo – construído na Praça…um cárcere de luxo.

Havia fundadas suspeitas de que o herói podia escapar um século e meio depois de sua morte. Para decorar o mausoléu e dissimular a intenção, a ditadura militar buscou frases do prócer, mas o homem que havia feito a primeira Reforma Agrária da Europa, meio século antes que Lincoln, um século antes que Zapata; o general que se fazia chamar “cidadão Artigas”, tinha dito que “os mais infelizes devem ser os mais privilegiados”; que jamais iria “vender nosso rico patrimônio ao baixo preço da necessidade” e que “sua autoridade emanava do povo e cessava diante do povo”.

Os militares não encontraram nenhuma frase que não fosse perigosa. Então, decidiram que Artigas era mudo, e nas paredes de mármore negro não há mais do que datas e nomes.

Há mais de meio século, o Uruguai não ganha um Campeonato Mundial de futebol, mas durante a ditadura militar compensou e conquistou outros duvidosos troféus: foi o país que, proporcionalmente, teve o maior número de presos políticos e torturados.

A prisão com o maior número de presos foi chamada de “Liberdade”. Como rendendo homenagem ao seu nome, palavras presas fugiram de suas grades; escorreram por elas os poemas que os presos escreviam em minúsculos papéis de enrolar cigarros…como este.

Às vezes chove e te quero. Às vezes sai Sol e te quero. A prisão é às vezes…sempre te quero.

Tradução: Katarina Peixoto

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Procuradores criticam opção da AGU por defesa a torturadores

Autores da ação que está sendo contestada pela União pedem a responsabilização de Ustra e Maciel por crimes
SÃO PAULO - A Advocacia-Geral da União (AGU) tinha opção de escolher um lado na ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal que tem por objetivo responsabilizar e condenar Carlos Alberto Brilhante Ustra e Audir dos Santos Maciel, ex-comandantes do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) em São Paulo. E ficou do lado destes últimos, acusados de torturas, mortes e desaparecimentos que lá ocorreram no período da ditadura militar. É o que dizem os procuradores da República Eugênia Fávero e Marlon Weichert, autores da ação que foi contestada pela AGU e tem provocado manifestações pró e contra de ministros como Tarso Genro (Justiça), Paulo Vannuchi (Direitos Humanos), Nelson Jobim (Defesa) e Gilmar Mendes (STF).
"A legislação prevê que a União federal, ao receber a contestação, pode solicitar que não seja recebida como ré, mas como co-autora ou assistente do Ministério Público Federal. Era o que tínhamos expectativa que fosse acontecer. Mas aconteceu o contrário. A União não só se defendeu em relação aos pedidos de ação contra ela, mas defendeu os interesses das pessoas físicas que o Ministério Público considera que são torturadores e responsáveis por homicídios", disse Weichert.
Eugênia tem a mesma opinião: "A AGU tinha a escolha de ficar de um dos lados e ficou do lado dos réus da ação, dos torturadores. A união tem uma posição até privilegiada em ações desse tipo, em ação civil pública e ações populares. Quando ela é acionada como ré, caso ela concorde com a medida daquela ação, pode dizer que não vai contestar e vai atuar ao lado do autor. Foi a opção que deixamos claro na petição inicial".
A ação, explicam resumidamente os procuradores, tem quatro objetivos: declarar a responsabilidade de Ustra e Maciel; pedir que sejam condenados a reembolsar aos cofres públicos o dinheiro gasto com a indenização das vítimas; proibir que ambos exerçam função pública; e declarar a omissão da União em abrir os arquivos sigilosos da ditadura militar.
Ressarcimento à União
"O primeiro fundamento é de que essas mortes geraram indenizações que foram pagas com o dinheiro público. Toda vez que isso acontece, que o governo indeniza particulares por danos causados por seus agentes, por suas autoridades, o governo tem o dever de se ressarcir desses agentes que causaram danos. É reaver esse dinheiro que o governo federal vem gastando", afirma Eugênia. Segundo a procuradora, o valor total gasto com as vítimas do DOI-Codi de São Paulo está na casa dos R$ 9 milhões. "Mas sabemos que não são os únicos (Ustra e Maciel) responsáveis. Deixamos a critério dos magistrados", explicou.
Assim como Eugênia, Weichert ficou surpreso com contestação da AGU, segundo a qual Ustra e Maciel não teriam a obrigação de devolver esses valores aos cofres públicos. "A defesa da União provocou uma surpresa jurídica muito grande. Quando a União diz que não tem esse dever, esse precedente, se for aplicado em casos de corrupção e desvio de dinheiro público, pode significar bilhões de reais de prejuízo à União Federal", disse.
Sobre o argumento da AGU de que o MPF não teria competência para propor esse tipo de ação, Weichert também contesta. "A postura da AGU viola o que está escrito na Constituição brasileira, o que está previsto em tratados internacionais. O MPF não atua em favor das famílias, no interesse exclusivo das famílias. Mas na promoção da Justiça, bem jurídico de interesse de toda a sociedade. Todo o cidadão brasileiro tem o direito de saber a verdade da história do País", defendeu.
Prolongamento da impunidade
Para os dois procuradores, a falta de punição a crimes ocorridos na ditadura militar perpetua uma sensação de impunidade dos agentes públicos que se manifesta ainda hoje. Eles citaram o caso do menino que acusa soldados da 9ª Brigada de Infantaria Motorizada do Rio de tê-lo torturado após invadir uma fábrica desativada do Exército para fumar maconha. "Institutos internacionais provam que esse fatos impunes se mantém. Tudo bem torturar de vez em quando, um absurdo. Fatos graves se repetem", disse Eugênia. "É importantíssimo que as gerações futuras e atuais saibam que o País foi palco de barbáries. E continua sendo, porque continua sendo perpetuada (a barbárie) em algumas delegacias e algumas policias", afirmou Weichert.
Ele cita um estudo da cientista política da Universidade de Minnesota, Kathryn Sikkink, que analisou 100 países que passaram pela transição entre governos autoritários e democráticos. "(Ela) comprovou efetivamente que países que não fizeram a lição de casa, da responsabilização e revelação da verdade, de seus períodos de ditadura e guerra civil, hoje tem o pior nível de respeito ao cidadão e à dignidade humana", explicou o procurador. Ainda segundo ele, o Brasil é um dos mais atrasados da América Latina, está nas últimas colocações, só perde para a Guiana.
Weichert não poupa críticas: "O Brasil adotou uma postura de esquecer, ocultar, mentir, omitir. E isso é uma postura que todos os países do cone sul já superaram porque promovem verdade, justiça, memória e reparação. O Brasil insiste em ser o último participante desse processo. É uma obrigação internacional. Parece que existe ainda no Brasil pessoas que confundem direito à verdade com a preservação de biografias, preservação de currículos políticos. Isso provoca desserviço". (Gisele da Silva, do estadao.com.br)

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Íntegra da entrevista de João Pedro Stedile ao Globo Amazônia

1.-Integrantes do MST estão acampados na sede do Incra de Belém exigindo uma mudança da política de reforma agrária na Amazônia. Qual é a proposta do MST para essa mudança?
STEDILE: Não existe uma política de desenvolvimento agrário ou fundiário para a Amazônia.  Os governos, seja estadual ou federal, estão aplicando a fórmula tão simples quanto medíocre de apenas distribuir terras públicas em projetos de colonização. Não há uma política efetiva nem planejamento.  Os governos federal e estaduais optaram pela  distribuição de terras publicas porque não precisam enfrentar o latifúndio e o agronegócio.  Dessa forma, não têm desgaste econômico de fazer a Reforma Agrária nem político com o enfrentamento da bancada ruralista. Por outro lado, se transformam em estatísticas boas para propaganda. Ou seja, são iniciativas oportunistas do governo. Um exemplo: apenas a superintendência do Incra em Santarém teria "assentado" para efeito de propaganda mais de 50 mil famílias. Esse número é superior aos seis anos de assentamentos do Governo Lula somando todos os estados da região sul e sudeste.
É fácil prever que na região de Santarém não tem 50 mil famílias.  E mesmo que tenham loteado as áreas, se trata de distribuição de terras públicas, onde deus e o diabo se inscrevem no Incra e acabam recebendo título. Não existe um projeto nem uma política de desenvolvimento para a região da Amazônia.  As áreas onde há posseiros não têm estrada, luz, escola ou hospital. Uma parte das famílias mais pobres, sem apoio público e formas de gerar renda, se obriga a desmatar os 20% da área para retirar lenha ou produzir carvão para garantir a sua sobrevivência. Com isso, acabam a mercê dos madeireiros, que se aproveitam dos lotes serem legais e exploram a madeira existente em toda a área sem nenhum controle.
Os colonos desses projetos, às vezes, vendem as toras de árvores por preços ridículos; outras vezes, em troca de tábuas para construírem suas casas ou simplesmente para que o madeireiro abra uma estrada para conseguir ir até sua roça. Os colonos pobres são utilizados como massa de manobra para amansar a terra e, atrás deles, vem os madeireiros, os pecuaristas ou latifundiários da soja, que pressionam para comprar suas terras. Com isso, concentra de novo a propriedade da terra, dentro de um círculo vicioso. Está tudo errado.
2.-O MST afirma que defende um modelo de assentamento que respeite o meio ambiente e ao mesmo tempo não destrua a floresta. Como funciona esse modelo?
STEDILE: Em primeiro lugar, o governo precisa acabar com projetos de colonização. Somos contra a distribuição de terras públicas pelo Incra e os institutos estaduais para quem quer que seja. Defendemos com os movimentos sociais da Amazônia a política do Desmatamento Zero, junto com o Greenpeace e entidades da sociedade civil.  A área atual que já foi desmatada é suficiente para a produção de alimentos e para o desenvolvimento da região. Portanto, devemos fazer um grande acordo nacional para garantir nenhum desmatamento raso de qualquer área da Amazônia daqui pra frente.
Em segundo lugar, o acesso à terra às famílias de trabalhadores rurais pobres que habitam a região deve ser garantido com a desapropriação das grandes fazendas de pecuária que já foram desmatadas.  Veja por exemplo o caso do Banco Opportunity: um banco concentra 600 mil hectares de terras no sul do Pará. Daria para assentar 10 mil famílias nessa área! Ou seja, precisamos usar as áreas já degradas e desmatadas para fazer projetos de assentamento, o que é diferente de projeto de colonização sobre áreas públicas.
Os projetos de assentamento precisam de um planejamento para produzir alimentos, de acordo com a vocação agrícola da região, mas também para a produção de leite e frutas e para a criação de pequenos animais. Precisamos combinar a criação do assentamento com a instalação de pequenas e médias agroindústrias cooperativadas para gerar mais renda aos assentados. Com isso, será possível dar valor agregado, industrializar e conservar os alimentos, que poderão ser transportados para regiões urbanas como Santarém, Belém, Manaus, Porto Velho, Marabá, onde se concentra o mercado consumidor da região.
Além disso, em cada projeto é preciso construir uma agrovila, melhorando as condições de vida dos assentados, com luz elétrica, escolas, hospitais, lazer e estrada com segurança. Assim, termina a burrice do Estado brasileiro de colocar famílias de colonos no meio do mato, como se fossem bichos, inviabilizando seu desenvolvimento social e econômico e, depois de derrubada parte da mata, sem condições de gerar renda e garantir a sobrevivência, elas mudam para a cidade e deixam a terra amansada para grande fazendeiro. Precisamos acabar com esse circulo vicioso na região com uma política efetiva do Estado.
3.- O MST dá algum tipo de orientação aos assentados no sentido de evitar que desmatem?
STEDILE: Claro. Lutamos por um outro modelo de uso da terra e produção e (como expliquei acima) somos contra qualquer desmatamento. No entanto, infelizmente, em muitas regiões, trabalhadores rurais recebem essas terras em condições totalmente adversas, em locais afastados do mercado consumidor e sem apoio público, e compreendemos que, para não morrerem de fome, acabam desmatando.
4.-Por que o MST é contra a criação de um novo órgão para a regularização fundiária na Amazônia, como propõe o ministro Mangabeira Unger?
STEDILE: O desafio para a Amazônia foi apresentado pelo próprio ministro: trata-se de ter uma política de desenvolvimento e um re-ordenamento fundiário claro, que permita a todos terem os títulos da propriedade. Mas para isso, não se precisa gastar tempo e dinheiro com um novo órgão, mas ter uma decisão política, coordenar e articular as ações do Incra com os institutos de terra estaduais e com o Ibama. Desconfiamos que a criação de um novo órgão, como foi o GETAT, pode ser apenas uma política centralizadora para facilitar a liberação de latifúndios para grandes grupos econômicos de forma mais rápida, como quer grandes empresas e especuladores.
O problema não é de órgão público, mas a ausência projeto para a região a partir de uma reflexão do futuro do nosso país. Infelizmente, até agora, mesmo no governo Lula, predomina para a região amazônica apenas o modelo de dominação do grande capital nacional aliado com as transnacionais, que enxergam na Amazônia apenas uma grande reserva de acumulação de capital. Para isso, empresas nacionais e estrangeiras como a Companhia Vale e grandes bancos estão investindo bilhões em hidrelétricas, siderúrgicas e em empreendimentos de exploração de minerais e extração de madeira.   Tudo isso vai enriquecer o capital internacional, enquanto o povo da região seguirá passando necessidades. Basta ver que povoados a 60 km da hidrelétrica de Tucuruí, a 2ª maior do mundo, ainda não têm luz elétrica. Isso acontece porque o objetivo dessa obra é viabilizar a produção de alumínio para exportação, não melhorar de vida do povo local.
5.-Há uma reclamação muito forte do setor agropecuário sobre a exigência de manter 80% da mata preservada nas propriedades rurais da Amazônia. Vocês concordam com essa porcentagem?
STEDILE: Isso é o mínimo necessário.  Os grandes grupos capitalistas brasileiros e internacionais gostariam de desmatar tudo e, infelizmente, tanto fazendeiros como empresas  que atuam na Amazônia, se comportam como gigolôs da natureza. Querem a exploração máxima, não importa as gerações futuras nem e a Constituição brasileira, que determina que os recursos naturais pertencem ao povo. Por isso, para impedir esse avanço sobre a floresta, defendemos o Desmatamento Zero.
6.- Assentados do norte de Mato Grosso se queixam de terem lotes muito pequenos. Numa região como aquela, qual seria o tamanho adequado dos lotes para que se pudesse garantir a subsistência de uma família e manter a reserva legal? Que tipo de atividade os assentados deveriam desenvolver lá?
STEDILE: O problema não é o tamanho do lote. Se conceder 50 hectares, vão querer 100, se der 100 vão querer 200; e os latifundiários acham 5 mil ou 10 mil ainda pouco. O problema - como expliquei acima - é que precisamos de uma política de desenvolvimento, na qual os trabalhadores rurais pobres e assentados possam melhorar de vida e aumentar a renda com seu trabalho. Isso não depende exclusivamente do tamanho do lote. Quem quer mais e mais terra é porque sonha em retirar madeira e ver se tem garimpo… Uma família pode viver muito bem com 15 hectares se tiver apoio público para desenvolver atividades que geram renda, como a combinação do assentamento com uma agroindústria.
7.-No ranking das maiores autuações ambientais realizadas pelo Ibama desde 2006, publicada recentemente pelo Ministério do meio Ambiente, o Incra aparece no topo da lista. Se defendendo, o órgão disse que não é ‘razoável’ comparar assentados a grandes desmatadores. Qual a posição do MST em relação à lista divulgada pelo Ministério do meio Ambiente?
STEDILE: A “condenação” do Incra foi uma manipulação vergonhosa de técnicos mal intencionados do Ibama, que entregaram a lista para o Ministro sem nenhum critério. Depois, a imprensa manipulou mais ainda, apenas tentando colocar a culpa nos assentados.  Vários grandes jornais, que não entendem nada de Amazônia, como o jornal O Globo do Rio Janeiro, colocaram em manchetes o MST como campeão de desmatamento, apesar de nenhum daqueles projetos serem do nosso movimento e termos esclarecido previamente isso à imprensa.  Nenhuma das áreas da lista advém de projeto de reforma agrária, mas de projetos de colonização.  Ou seja, dentro de uma política que beneficia latifundiário, madeireiras e grandes empresas, não uma política de reforma agrária.
A cobertura da imprensa sobre esse caso demonstra a manipulação dos grandes monopólios da informação, que usam seu poder para lutar contra a Reforma Agrária. Ninguém fez manchete sobre os 600 mil hectares do Banco Opportunity, do sr Daniel Dantas, fazendo desmatamento. Ninguém faz manchete dos desmatamentos da Vale e suas agressões do meio ambiente para retirar mineiros, enviar para a China e depois depositar o lucro na conta de acionistas no exterior. O povo brasileiro e, principalmente, os povos da Amazônia só ficam com a destruição e com o desmatamento. Isso ninguém fala. Infelizmente, o ministro do Meio Ambiente também se prestou a essa manipulação.
8. O senhor concorda com a idéia de que a reforma agrária no arco do desmatamento é uma válvula de escape para a questão fundiária em áreas do Sul/Sudeste do país? A reforma agrária na região é, de fato, viável?
STEDILE: O governo Lula repete a política do governo FHC e usa os projetos de colonização, a distribuição de terras públicas na Amazônia para criar estatísticas e "provar" que está fazendo Reforma Agrária.  Reforma Agrária é desconcentração da propriedade da terra, com a divisão de grandes propriedades e distribuição aos pobres. Estamos assistindo à maior concentração da propriedade da terra da história, desde o último século. Ou seja,  está em curso uma política real de contra-reforma agrária. Isso está acontecendo em todas as regiões agrícolas do país, em especial no centro-oeste e na Amazônia. (http://www.globoamazonia.com/)

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Stedile culpa governo pelo desmatamento nos assentamentos

Para líder do MST, falta projeto de desenvolvimento para a região. Presidente do Incra rebate: ‘temos 286 assentamentos sustentáveis’.
Os assentamentos de reforma agrária criados pelo governo federal na Amazônia não tem agradado o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Em entrevista concedida por e-mail ao Globo Amazônia, um dos principais líderes do movimento, o economista João Pedro Stedile, afirma que a falta de infra-estrutura nas terras concedidas na região leva ao desmatamento dos lotes.
"Não existe um projeto nem uma política de desenvolvimento para a região da Amazônia. As áreas onde há posseiros não têm estrada, luz, escola ou hospital. Uma parte das famílias mais pobres, sem apoio público e formas de gerar renda, se obriga a desmatar os 20% da área para retirar lenha ou produzir carvão para garantir a sua sobrevivência", argumenta o líder do MST.
O presidente do Incra, Rolf Hackbart, discorda de Stedile, e afirma que o governo tem projetos para a região. "Existe o PAS [Plano Amazônia Sustentável] e, por parte do Incra, temos 286 assentamentos sustentáveis, como os PDS [Projetos de Desenvolvimento Sustentável], PAF [Projetos de Assentamento Florestal] e PAE [Projetos de Assentamento Agroextrativistas]”.
“A marioria deles foi criada de 2001 para cá, principalmente no atual governo. Isso é feito pra alterar a forma antiga, tradicional, de se criar assentamentos no formato ‘espinha de peixe’. Nesses 286 assentamentos vivem hoje cerca de 108 mil famílias em 32 milhões de hectares", diz Hackbart.
Infraestrutura
No final de outubro, cerca de 600 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) ocuparam a sede do Incra em Belém (PA) exigindo mudanças na política agrária do governo federal para a Amazônia. A principal reclamação era a de que os assentamentos recentemente criados não davam condições para que os pequenos agricultores conseguissem se manter.
A ocupação do Incra aconteceu poucas semanas depois de o Ministério do Meio Ambiente divulgar uma lista com as maiores multas ambientais aplicadas pelo Ibama desde 2006. No topo do ranking estavam seis assentamentos do Incra em Mato Grosso.
Para Stedile, houve "manipulação" na divulgação da lista. "A ‘condenação’ do Incra foi uma manipulação vergonhosa de técnicos mal-intencionados do Ibama, que entregaram a lista para o ministro sem nenhum critério. Depois, a imprensa manipulou mais ainda, apenas tentando colocar a culpa nos assentados". Ele também alega que nenhuma das áreas que lideravam a lista era ligada ao seu movimento.
Procurado pelo Globo Amazônia, o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, preferiu não comentar a declaração de Stedile.
Hackbart, do Incra, afirma que a maior parte da destruição ocorre em outras áreas. "Um relatório do Tribunal de Contas da união constata que 82% do desmatamento na Amazônia Legal acontece em terras de grandes produtores e dos grileiros”, mas admite que há problema nos assentamentos. “Muitos problemas, pois são comunidades em formação, dezenas de famílias paras as quais o acesso à terra, à escola, já é uma vitória".
O presidente do instituto reforça que tem dificuldades de fiscalizar todos os 2222 assentamentos criados até hoje na Amazônia. "Estamos combatendo todo o desmatamento ilegal e os crimes ambientais, mas nosso maior desafio é a potência do estado brasileiro. Falta política pública com estrutura."
Reforma agrária x colonização
Segundo o líder do MST, os assentamentos recentemente criados na Amazônia – incluindo os que foram autuados pelo Ibama – não representam uma reforma agrária. "Os governos, seja estadual ou federal, estão aplicando a fórmula tão simples quanto medíocre de apenas distribuir terras públicas em projetos de colonização. Não há uma política efetiva nem planejamento", afirma.
Os projetos de reforma agrária implantados na Amazônia, segundo o líder do MST, não permitem que os assentados permaneçam muito tempo no local. "Os colonos desses projetos às vezes vendem as toras de árvores por preços ridículos; outras vezes, em troca de tábuas para construírem suas casas ou simplesmente para que o madeireiro abra uma estrada para conseguir ir até sua roça. Os colonos pobres são utilizados como massa de manobra para amansar a terra e, atrás deles vem os madeireiros, os pecuaristas ou latifundiários da soja

, que pressionam para comprar suas terras", afirma.
O presidente do Incra rebate a afirmação de Stedile dizendo que é necessário utilizar as terras públicas. "Na Amazônia legal, a União detém 102 milhões de hectares de terras públicas federais não destinadas. Elas ainda não são unidades de conservação, terras indígenas nem assentamentos. Essas áreas devem ser destinadas, porque senão os grileiros tomam conta". O presidente do Incra também afirma que o governo tem desapropriado terras, mas esse processo é mais complicado. "Nós estamos enfrentando os grileiros. Temos vários processos de desapropriação que estão parados na justiça", conta.
Desmatamento
Sobre a lei que permite a proprietários de terra desmatar 20% de suas áreas na Amazônia, Stedile defende o "desmatamento zero". Segundo ele, as áreas que já foram desmatadas são suficientes para a produção de alimentos e o desenvolvimento da região. "O acesso à terra pelas famílias de trabalhadores rurais pobres que habitam a região deve ser garantido com a desapropriação das grandes fazendas de pecuária que já foram desmatadas", defende.
O economista argumenta ainda que, se houvesse agregação de valor aos produtos agropecuários da região, os assentados não precisariam de muitas terras. "Uma família pode viver muito bem com 15 hectares se tiver apoio público para desenvolver atividades que geram renda, como a combinação do assentamento com uma agroindústria", diz. (Iberê Thenório Do Globo Amazônia, em São Paulo)

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Pagamento de juros da dívida é o dobro do gasto com educação, saúde e investimento

O Brasil pagou em juros do endividamento público mais do que o dobro dos gastos com educação, saúde e investimentos somados entre 2000 e 2007, segundo estudo do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) divulgado nesta quarta-feira.
Segundo o levantamento, feito com base em dados do governo, os juros responderam pelo desembolso de R$ 1,267 trilhão de 2000 a 2007. No mesmo período, os gastos com saúde (R$ 310,9 bilhões), educação (R$ 149,9 bilhões) e investimentos (R$ 93,8 bilhões) somaram R$ 554,6 bilhões.
De acordo com o estudo, não apenas os desembolsos devem ser observados, mas também "a qualidade do gasto público". Os juros, por exemplo, responderam por 7% ao ano, em média, do total da renda nacional.
"Ademais de poder ser considerado um gasto improdutivo, pois não gera emprego e tampouco contribui para ampliar o rendimento dos trabalhadores, termina fundamentalmente favorecendo a maior apropriação da renda nacional pelos detentores de renda da propriedade (títulos financeiros)", afirma o Ipea.
Entre 2000 e 2007, os gastos da União com saúde, educação e investimentos corresponderam a 43,8% do total das despesas com juros.
Desigualdade
O estudo faz parte da pesquisa sobre as desigualdades no Brasil e a participação da renda do trabalho no capital nacional. A conclusão do trabalho é que a desigualdade pessoal está em queda. No entanto, a chamada desigualdade funcional (que envolve a renda do trabalho) sofreu brutal recuo em sua participação na renda nacional entre 1996 e 2004. Desde então, vem subindo, mas apenas deve se igualar aos níveis de 1990 (45,4%) em 2011, se mantiver a curva de crescimento de 4% ao ano.
Na comparação entre os mais pobres e os mais ricos, no entanto, o estudo aponta uma queda na diferença. Com isso, houve redução de 10,1% no chamado índice de Gini (que mede o nível de concentração da renda, de 0 a 1), de 0,600 para 0,528, entre 1990 e 2007.
Segundo o Ipea, a redução no índice de Gini esteve condicionada tanto pela elevação dos rendimentos na base da pirâmide social brasileira como pela diminuição real nas remunerações dos ocupados nos principais postos de trabalho do país.
No período em referência, o rendimento médio mensal real dos 10% mais pobres cresceu 44,4% (de R$ 67, em 1990, para R$ 97, em 2007), enquanto os 20% mais pobres aumentou 16,5% (de R$ 202 para R$ 236, no mesmo período). Os valores foram atualizados para 2007.
Já em relação aos 10% dos ocupados melhor remunerados, o rendimento médio mensal real registrou perda de 9,8% (R$ 4.559 em 1990 para R$ 4.114 em 2007). Para o 1% dos ocupados com maior rendimento, a queda foi maior, de 12,7% (de R$ 13.604 para R$ 11.878), entre 1990 e 2007. (Folha Online)

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José Luís Fiori - Reflexões de outubro

DEBATE ABERTO

Pode-se dizer, com razoável grau de segurança, que os problemas sistêmicos provocados pela crise financeira, deverão vir de outro lado, e eles já estavam se anunciando, nos últimos dias de outubro. Todos organismos internacionais estão prevendo quedas acentuadas da produção, dos preços e das exportações.

“Nós decidimos tomar medidas decisivas e utilizar todos os instrumentos à nossa disposição para sustentar as instituições financeiras que tenham importância sistêmica e impedir que elas possam falir.”
Plano de Ação do G7, Washington, 10/10/2008

Na segunda-feira, dia 13 de outubro de 2008, o mundo amanheceu em silêncio e ficou em suspense, durante quase todo o dia, à espera do que seria uma espécie de “duelo final”, entre o poder político e os mercados, que estaria se travando nos principais centros financeiros do mundo. No final do dia, entretanto, os primeiros sinais já indicavam que não houve duelo e que o poder político havia imposto sua autoridade sobre os “mercados financeiros”. Depois de uma semana de pânico, entre os dias 5 e 12 de outubro, em poucas horas os governos das principais economias do mundo conseguiram formular um ”plano comum” de intervenção massiva e estatização parcial dos seus sistemas financeiros, que cumpriu com o seu objetivo imediato de estancamento de “sangria” e estabilização do cambio.

Quem quis, pode ver e aprender, naqueles dias, que existe uma relação essencial e expansiva entre o poder político e o capital financeiro, e que apesar de tudo o que foi dito e repetido nestes últimos anos, o poder político tem uma precedência hierárquica e dinâmica, com relação aos mercados e ao capital financeiro. Ou seja: o poder e a riqueza capitalista se expandem juntos, mas o poder político é uma condição essencial, permanente e dinâmica dos mercados e do capital financeiro. Neste sentido, é interessante observar que o plano de nacionalização dos principais sistemas financeiros do mundo, tenha sido formulado pela Inglaterra, com base na experiência da Holanda, e antes de ser aceito pelos EUA e pela EU. Logo a Inglaterra e a Holanda, as duas potências marítimas e econômicas que teriam estado na origem do “capitalismo liberal”, e na defesa permanente do laisez-faire.

Nas semanas seguintes, depois do dia 13 de outubro, a própria evolução da crise foi dando maior transparência à uma outra relação que costuma embaralhar a análise dos economistas: entre a moeda estatal e as infinitas moedas privadas e financeiras que coexistem dentro de um mesmo sistema econômico nacional e internacional. Permitindo separar a crise do “mercado financeiro do mundo”, que se estabeleceu nos EUA depois de 1980, de uma crise eventual do dólar e da hegemonia monetária dos EUA que ainda não aconteceu. E foi esta a estratégia que o governo americano adotou no campo internacional buscando sustentar a confiança e a centralidade mundial do dólar.

Durante todo o mês de outubro, os EUA mantiveram uma comunicação e uma coordenação com os governos e os bancos centrais do Japão e da China, os maiores detentores mundiais de obrigações do estado americano, Sendo que no caso da China, em particular, estabeleceu-se uma verdadeira parceira estratégica com o Tesouro americano, na defesa do dólar, e dos interesses financeiros comuns dos dois países. Na mesma linha de atuação, depois do dia 13 de outubro, o banco central americano, FED, tomou a iniciativa e fechou acordos para garantir liquidez em dólares dos BCs da Austrália, Canadá, Dinamarca, Inglaterra, Japão, Nova Zelândia, Noruega, Suécia, Suíça, e com o próprio Banco Central Europeu, E logo depois, no dia 29 de outubro, o FED ofereceu as mesmas facilidades e condições, e mais uma linha de 30 bilhões de dólares, para cada um dos BCs, do Brasil, México, Coréia do sul e Singapura.

No mesmo dia em que o FMI anunciou, em acordo com o governo americano, a criação de uma nova linha de crédito sem condicionalidades, para países em desenvolvimento que estejam sofrendo os efeitos da crise e que mantenham políticas econômicas “sadias”. Ao lado dos programas tradicionais de ajuda do FMI que vem sendo negociados neste momento, com os governos de quase todos os países da Europa Central, além da Islândia, Turquia, Paquistão e outros prováveis candidatos do sudeste asiático. Ou seja: em poucas semanas, depois do dia 13 de outubro, o Tesouro americano e o FED, junto com o FMI, tomaram a iniciativa dentro e fora dos EUA e passaram a atuar de forma agressiva, coordenada e global, para sustentar a estabilidade e a centralidade do dólar, e não há sinais de que os EUA estejam perdendo seu poder e sua capacidade de coordenação monetário- financeira, dentro da economia mundial.

Por isto se pode dizer – com razoável grau de segurança - que os problemas sistêmicos provocados pela crise financeira, deverão vir de outro lado, e eles já estavam se anunciando, nos últimos dias do mês de outubro. Até então, a intervenção das grandes potencias manteve em funcionamento as funções básicas do sistema ( como se fosse cérebro, coração e pulmão) , mas não teve como impedir o efeito contágio da crise, que já passou das finanças para o crédito, e deve atingir a produção, o emprego e as exportações de todo mundo, e de forma muito mais grave, no caso dos países menos desenvolvidos e com menor capacidade autônoma de socorrer seus próprios bancos e produtores.

Todos organismos internacionais estão prevendo quedas acentuadas da produção, dos preços e das exportações. E a OIT está prevendo um aumento imediato de 10% do desemprego mundial, mais concentrado nas regiões mais pobres do mundo. Nestas regiões, deve se prever um processo complicado de desintegração social e política, e o mais provável é que voltem à ordem do dia as revoltas e revoluções sociais. Elas não serão socialistas nem proletárias, mas adquirirão maior intensidade e violência nos territórios situados em “zonas de fratura” ou de disputas e conflitos geopolíticos crônicos. Isto poderá ocorrer em vários pontos da Europa do Leste, e em alguns países da Ásia Central, e poderá assumir uma forma dramática no continente africano, sobretudo se esta regressão econômica e social coincidir com uma nova corrida imperialista, sobre a África, que pode ser uma prolongação muito provável da crise atual.

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Cresce número de cidades que comemoram Dia da Consciência Negra

No Brasil, saltou de 225 para 303 o número de municípios que oficializaram a morte de Zumbi dos Palmares - 20 de novembro - como Dia da Consciência Negra e comemoram a data com feriado. Das 27 capitais apenas São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Manaus (AM), Cuiabá (MT) e Maceió (AL) instituíram feriado. No nordeste, onde a maioria da população é negra ou parda, seis cidades fazem recesso.

Embora a Bahia seja proporcionalmente o Estado com mais negros, há somente um município que reconhece o dia. Em Salvador, Zumbi é lembrado com programações especiais, mas os baianos trabalham. “Para que as cidades comemorem o dia, é necessário ter movimentos negros fortes”, afirma a vice-presidente da Sociedade Afro-brasileira de Desenvolvimento Sociocultural (AfroBras), Ruth Lopes.

Em São Paulo, 90 cidades vão comemorar com um feriado o Dia da Consciência Negra. O número é 164% maior do que no ano anterior, quando 34 prefeituras, entre as 645, reconheciam a data.

Uma das cidades pioneiras foi Itu, no interior paulista, que, em 1998, aprovou o Dia da Consciência Negra. Para Ruth, o feriado é uma conquista, apesar de não ser nacional. “O processo é lento, mas está caminhando.” Ela ainda alerta que as pessoas desconhecem quem foi o líder negro. Por isso, seriam necessários educação, informação e sensibilização da sociedade. Entretanto, ela vê que com o ensino de cultura e história africanas isso pode mudar.

Estátua de João Cândido

No Rio de Janeiro, onde é feriado, o Dia da Consciência Negra vai ser marcado com uma atividade cultural na Praça 15, no Centro do Rio de Janeiro, palco da Revolta da Chibata de 1910. O ponto alto do evento será a instalação de monumento em homenagem a João Cândido, o “Almirante Negro”, que liderou a revolta dos marinheiros – negros em sua maioria – contra os castigos físicos a que ainda eram submetidos 22 anos após a Abolição da escravidão.

Na estátua, criada pelo artista plástico Walter Brito, o Almirante Negro segura o leme em uma das mãos; a outra aponta para o mar. A estátua foi instalada nos jardins do Museu da República, no Rio, e será deslocada esta semana para a Praça 15.

A programação tem início às 14h com shows musicais. Às 16h haverá o lançamento do Projeto Memória da Fundação Banco do Brasil – “João Cândido, a luta pelos direitos humanos”.

Às 17h será inaugurada a Estátua de João Cândido. As saudações serão feitas por Candinho, filho de João Cândido; o ministro da Secretaria de Promoção da Igualdade racial (SEPPIR), Edson Santos e o presidente Lula, que este ano assinou a anistia póstuma a João Cândido e demais líderes da Revolta da Chibata. O encerramento, às 19h30min, será com show de João Bosco e Martinho da Vila.

Abolição inacabada

Em São Paulo, haverá a 5a marcha da Consciência Negra, com o tema “120 Anos da Abolição Inacabada”, na avenida Paulista. Quatro trios elétricos percorrerão o trajeto pela rua da Consolação até o vale do Anhangabaú. A concentração será às 11 horas, no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), e a saída está prevista para 12 horas.

“Zumbi é um herói construído nas ruas, por isso é importante fazer uma manifestação pública”, afirma Hédio Silva Júnior que, em 2005, foi o primeiro secretário de Justiça negro do Estado. Em um palco montado na praça da Sé, ocorrerão apresentações de variados estilos de música negra, com a presença de Seu Jorge e Paula Lima, a partir das 20h30.

No interior paulista, 17 municípios também terão programações próprias em homenagem à data. Santos, que pela primeira vez terá feriado da Consciência Negra, realiza atividades durante toda a próxima semana. Haverá uma caminhada com saída da igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, às 9 horas, e a apresentação da Escola de Samba X-9, na praça Mauá, ao meio-dia, ambos no dia 19. No dia 20, o busto de Zumbi, na praça Palmares, receberá flores às 11h30.

De Brasília
Com agências

Portal Vermelho

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