Arquivo de 18 de Novembro de 2008

Debate com Cesar Benjamin e Reinaldo Gonçalves

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A crise econômica mundial ganhou notória atenção nas últimas semanas, também não é pra menos, tudo aquilo que foi exaustivamente defendido como sólido, agora, como diria Marx, se desmancha no ar. Quebras em cadeia de instituições financeiras, tombos espetaculares de bolsas de valores em todo o mundo, economias inteiras entrando em recessão e cortes de investimentos e de empregos.
Esses acontecimentos abrem um amplo debate em toda a sociedade. Obviamente que os arautos do neoliberalismo, incluindo aí toda uma gama de seguidores nos grandes meios de comunicação e nos governos, como no brasileiro, não querem dar o braço a torcer e continuam insistindo na mesma receita.
A crise acaba virando pretexto para continuar a marcha cega em defesa do capitalismo e do modelo neoliberal, afinal, trata-se de tentar salvar a economia. O documento do G-20 é um exemplo disso, mesmo no meio de uma baita crise faz olas à defesa do livre mercado.
Mas a crise abre um amplo debate para as forças de esquerda. Idéias ditas superadas reaparecem, análises antes renegadas ganham força. Afinal é possível falar no fim do neoliberalismo ou em crise final do capitalismo. Há saídas à esquerda ou a crise pode significar um fortalecimento ainda maior do conservadorismo.
Para ajudar na discussão sobre estas e outras questões, o mandato do deputado Ivan Valente está organizando o debate: O Impacto da Crise e a Necessária Mudança do Modelo Econômico com Reinaldo Gonçalves e Cesar Benjamin, dois dos economistas que estão na linha de frente do pensamento crítico no Brasil e da análise das conseqüências que esta crise tem para nossa economia e para o futuro do país e do mundo.
Não deixe de participar e de divulgar para seus amigos e camaradas de luta.

Dia 22 de novembro – sábado – às 15 horas.
Local: Rua São Bento, 413 – Centro – Edifício Martinelli – Auditório Azul (Próximo ao Metrô São Bento)

Comentários

É necessária uma Quinta Internacional? - Michael Löwy

A "Quinta Internacional" não é o "espectro vermelho que assombra a Europa e o mundo" de que falava Marx no Manifesto Comunista, mas é uma ideia que começa a circular. Há pouco, um jornal patronal francês “O boletim dos industriais da metalurgia” falava do perigo de uma Quinta Internacional. De onde saiu essa idéia?

É necessária uma Quinta Internacional? - Michael Löwy

Michael Löwy

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As Internacionais

Mas antes de falar da Quinta, é necessário que façamos um rápido balanço das quatro internacionais históricas. O que resta delas, nos princípios do século XXI?
A Primeira Internacional, fundada em 1864, em Londres, teve em Marx o autor do seu Manifesto inaugural, que termina com a célebre fórmula: "A emancipação dos trabalhadores será a obra dos próprios trabalhadores". Partidários de Marx e de Proudhon participam na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) – ainda que o primeiro tenha tido muito mais influência e redigiu alguns dos principais documentos da Internacional - e as suas relações não foram só conflituosas. No Congresso de Bruxelas (1868) a aliança entre marxistas e proudhonianos de esquerda, como Eugene Varlin, futuro herói da Comuna de Paris, permitiu a adopção de um programa coletivista, quer dizer, que propunha a propriedade coletiva dos meios de produção. As relações com Bakunine e seus partidários foram mais complexas, o que levou à cisões e à dissolução da AIT, depois da sua malograda transferência, em 1872, para os Estados Unidos (péssima idéia de Marx!).
A Associação Internacional dos Trabalhadores sobrevive somente na sua  dissidência anarquista, que se considera como herdeira da que foi fundada em Londres, em 1864. A sua existência hoje é muito mais  simbólica, mas as correntes renovadoras do socialismo libertário, mais dinâmicas e abertas, lograram estabelecer, a partir de 2001, uma rede: Solidariedade Internacional Libertária (SIL), que inclui organizações importantes como a Confederação Geral de Trabalhadores (Estado espanhol), Alternativa Libertária (França), a Federação Anarquista Uruguaia, etc. Além disso, assistimos, nos últimos anos, a um desenvolvimento significativo de correntes anarquistas no seio do movimento antiliberal, algumas filiadas na AIT, outras na SIL, mas muitas sem vínculos internacionais.
A Segunda Internacional, fundada por F. Engels, em 1889, decompõe-se em 1914, com a adesão das suas seções à guerra imperialista. Reconstitui-se nos anos 20, com uma orientação já definidamente reformista e volta a reorganizar-se, sob uma nova forma - a assim chamada Internacional Socialista (IS) - depois da Segunda Guerra Mundial. A IS é atualmente una coleção bastante heterogênea de partidos e movimentos, sobretudo da Europa e América Latina, que vão desde as frentes de libertação - como a Frente Sandinista ou Frente Farabundo Martí - até partidos pró imperialistas, como o Partido Trabalhista de Tony Blair. Predomina a social-democracia de tendência moderada, quer dizer social-liberal, como o Partido Social Democrata alemão, o Partido Socialista francês, o Partido Socialista Operário Espanhol. O seu objetivo já não é, como na  época de F. Engels, Wilhelm Liebknecht e Jean Jaurés, a supressão do capitalismo e a transformação socialista da sociedade, mas a gestão "social" do capitalismo neoliberal. A Internacional Socialista não funciona efetivamente como uma organização política, mas muito mais como um clube de discussões, um espaço de negociações político-diplomáticas.
A Terceira Internacional foi a tentativa mais importante de criar uma associação internacional de partidos proletários com vocação anti-imperialista e revolucionária. Apesar de muitos rasgos autoritários e uma disciplina de tipo militar, foi durante os seus primeiros anos (1919-1924) um verdadeiro organismo internacionalista, no qual participaram figuras como António Gramsci, Clara Zetkin, Andrés Nin e José Carlos Mariátegui. Depois da morte de Lenine, transformou-se progressivamente, sob a liderança da burocracia estalinista, no instrumento da política soviética de "construção do socialismo num só país". Ainda assim, sobreviveram aspectos internacionalistas autênticos na militância comunista, como o demonstra a sua importante participação nas Brigadas Internacionais em Espanha (1936-38).
Em 1943, atendendo à petição dos seus aliados Churchill e Roosevelt, Estaline dissolveu a Internacional Comunista, sem que isso tenha reduzido a total dependência política, ideológica e organizativa dos partidos comunistas do mundo ao Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Com a desintegração do mal designado "socialismo real" a partir de 1989, os herdeiros da Terceira Internacional entram numa crise que os leva, com poucas excepções, à marginalidade política ou à conversão na social-democracia. Salvam-se os partidos que, como a Refundação Comunista em Itália, realizam uma verdadeira reorientação, rompendo com o sue passado estalinista e tomando uma nova orientação, radical e aberta às propostas dos movimentos sociais.
A Quarta Internacional, fundada por Leon Trotsky em 1938, nasce da Oposição de Esquerda Internacional, uma tendência antiburocrática no seio da Internacional Comunista. Debilitada pelo assassinato de Trotsky e de muitos outros seus dirigentes - nas mãos seja do fascismo ou do estalinismo - e pelas inumeráveis cisões, nunca conseguiu transformar-se num movimento de massas – mas os seus militantes tiveram um papel importante nos acontecimentos em Maio de 1968 na França, no movimento contra a guerra do Vietname nos Estados Unidos e na resistência contra as ditaduras em vários países da América Latina. A Quarta tratou de salvar do desastre estalinista a herança da Revolução de Outubro e de renovar - com a ajuda de militantes e dirigentes como Ernest Mandel, Livio Maitan, Hugo Blanco, Raul Pont, Alain Krivine e Daniel Bensaid - a teoria e a prática do marxismo revolucionário.
A Quarta Internacional - a cujas fileiras pertence o autor destas linhas – reforçou-se nos últimos anos (existe em várias dezenas de países), mas continua a ser uma organização limitada em números e recursos. Com a excepção das Filipinas e Sri Lanka, o essencial das suas forças  concentra-se na Europa e na América Latina. Os seus militantes participaram, como corrente organizada, na fundação de agrupamentos mais amplos: a Refundação Comunista em Itália, a Aliança Socialista na Inglaterra, o Bloco de Esquerda em Portugal, a Frente Ampla do Uruguai, o Partido dos Trabalhadores no Brasil. Contrariamente a outros grupos ou seitas que se reclamam do trotskismo, a Quarta não se considera como a única vanguarda revolucionária e tem por objetivo contribuir para a formação de uma nova Internacional, com caráter de massas, da qual seria só uma das suas componentes.
Resistência Internacionalista ao Capital
A questão da resistência internacionalista ao capital adquiriu, nos nossos dias, uma atualidade evidente. Nunca antes o capital conseguiu exercer um poder tão absoluto e ilimitado sobre todo o planeta. Nunca antes pôde impor, como hoje, as suas regras, as suas políticas, os seus dogmas e os seus interesses a todas as nações do mundo. Nunca antes existiu uma rede tão densa de instituições internacionais - como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM), a Organização Mundial do Comércio (OMC) - destinada a controlar, governar e administrar a vida da humanidade segundo as regras estritas do livre mercado capitalista e da livre ganância. Nunca antes as empresas multinacionais e os mercados financeiros exercer de maneira tão brutal a sua ditadura global. Enfim, nunca foi tão extenso e tão arrogante o poder da única superpotência imperial, os Estados Unidos da América. Assistimos hoje, como escreveu o subcomandante Marcos na sua mensagem aos "zapatistas europeus" (28 de agosto de 1995), a uma verdadeira guerra do dinheiro e das forças do capital financeiro internacional  contra povos, contra o ser humano, a cultura e a história.
A ofensiva do capital e dos governos neoliberais ao seu serviço - que começou, nos anos 1980, com Ronald Reagan e Margaret Thatcher – teve o seu auge depois da queda do muro de Berlim e da restauração capitalista nos países do Leste. Proclamou-se triunfalmente em todas as capitais do Ocidente "a morte da utopia" (ou da revolução ou do marxismo) e o "fim da história".
É neste contexto de derrota e desorientação da esquerda que surge, como uma chispa de luz na escuridão, o levantamento zapatista de 1994. E, dois anos depois, tem lugar nas montanhas de Chiapas, o Primeiro Encontro Intercontinental pela Humanidade e contra o Neoliberalismo – um evento que teve um impacto mundial e que reuniu, pela primeira vez, em muitíssimos anos, militantes, ativistas e intelectuais de várias tendências, do Norte e do Sul, da América Latina, dos Estados Unidos e da Europa. Sai deste encontro a proclamação histórica "levantar a internacional da esperança" contra "a internacional do terror que representa o neoliberalismo". Como diz a Segunda Declaração de La Realidade, a tarefa – imensa - é a de criar "uma rede coletiva de todas as nossas lutas e resistências particulares. Uma rede intercontinental de resistência contra o neoliberalismo, uma rede intercontinental pela humanidade. Esta rede intercontinental tentará, reconhecendo diferenças e conhecendo semelhanças, encontrar-se com outras resistências de todo o mundo. Esta rede intercontinental será o meio no qual as distintas resistências se apóiem umas às outras". Pode-se considerar o Encontro de Chiapas, em 1996, como o primeiro ato do grande movimento de luta antiliberal que hoje se manifesta ativamente nos quatro pontos do planeta. Ainda que esta iniciativa não tenha tido um seguimento direto - as tentativas de organizar outros encontros deste tipo, inspirados pelo exemplo zapatista, na Europa ou na América Latina não tiveram êxito - foi o ponto de partida, o momento do nascimento de um novo internacionalismo, antiliberal e anti-imperial.
Poucos anos depois, tem lugar o grande protesto de Seattle (1999) e começa a desenvolver-se o principal vetor deste novo internacionalismo, o Movimento de resistência global - falsamente denominado, pela imprensa da direita, como "antimundialização". É este "movimento dos movimentos" que vai desencadear os protestos em Praga, Estocolmo, Bruxelas, Banguecoque, Washington, Barcelona, Génova e, mais recentemente, Florença, Paris, Mumbai… - com a participação de dezenas e em seguida centenas de milhares de manifestantes - assim como o Fórum Social Mundial de Porto Alegre (2001, 2002, 2003) e de Mumbai (2004), o Fórum Social Europeu (2002, 2003, 2004) e outras reuniões locais ou continentais.
Este movimento "altermundialista" - por outro mundo - é amplo e, necessariamente, heterogêneo. Mas nasce de imediato com um caráter mundial, internacional, internacionalista. Apesar da sua diversidade,  unificam-no alguns princípios fundamentais: "o mundo não é uma mercadoria", "outro mundo é possível" e "não à guerra". São princípios gerais, mas se são defendidos a sério têm um profundo potencial subversivo. A unidade faz-se também em torno de algumas reivindicações concretas: a abolição da dívida dos países do Sul; a supressão dos paraísos fiscais e a imposição de uma taxa sobre as transações financeiras; uma moratória sobre os produtos transgênicos, etc. (a lista é bastante grande). Existe, enfim, um amplo consenso na identificação do inimigo: o neoliberalismo, o FMI, o Banco Mundial, a OMC, o império norte-americano. Sobre as alternativas à ordem dominante vemos um amplo leque de respostas: desde a "regulação" do sistema até à sua transformação revolucionária (socialista).
A diversidade pode ser um obstáculo, mas também é uma riqueza. No Movimento de resistência global participam sindicalistas, feministas, marxistas, anarquistas, ecologistas, cristãos pela libertação, socialistas de várias cores e matizes, movimentos camponeses, indígenas e populares, organizações não governamentais (ONGs), intelectuais e muitos jovens, mulheres e trabalhadores sem qualquer filiação, mas que têm vontade de protestar, marchar, lutar e discutir com os demais. É uma ocasião única para o encontro, o debate, a aprendizagem mútua - um processo de intercâmbio cultural no qual cada um, sem abandonar as suas idéias e convicções, descobre as dos outros e trata de as integrar na sua reflexão ou prática. Da mistura e fusão de todos estes ingredientes está a nascer um cocktail explosivo, a nova cultura internacionalista do Movimento de resistência global. Claro, este processo está ainda nos seus inícios, estamos ainda distantes de ter uma orientação comum, mas percebe-se a formação de um espírito comum do movimento, radical, combativo e hostil à recuperação institucional.
Internacional de Geometria Variável
Trata-se de uma espécie de “Quinta Internacional”? Sim e não. Nós estamos ocupados numa espécie de “Internacional de geometria variável”, que se constitua em três níveis. O primeiro, o mais visível, é o Fórum Social Mundial, como lugar de debate e de reencontro, e como afirmação pública mundial do movimento. O FSM, com os seus prolongamentos nos diferentes continentes e regiões, tem já um certo nível de organização internacional. Existe um comitê executivo internacional, bem como comissões continentais. Mas estas organizações, como o próprio Fórum, são muito heterogêneas e não funcionam como uma força política internacional. O seu objetivo é muito limitado a organização do Fórum Social Mundial e dos Fóruns continentais.
O segundo nível, é o da rede internacional dos movimentos sociais, mais militante e mais virada para a acção. Inclui a Via Campesina — compreendeendo o Movimento dos trabalhadores Sem Terra (Brasil) e a Confederação Camponesa (França) — a Central Ùnica dos Trabalhadores (Brasil), o movimento internacional ATTAC, etc. Estas são as principais forças sociais no seio dos Fóruns e elas publicam, no final de cada reencontro internacional, um documento retomando alguns elementos de análise política — anti-imperialista e antiliberal — e, sobretudo, apelam a iniciativas comuns de protesto. Assim foi, em 2002, quando se decidiu, em Florença, no reencontro dos movimentos sociais europeus, uma jornada de protesto contra a guerra imperialista no Iraque para o dia 15 de fevereiro de 2003, que conheceu o extraordinário sucesso que se sabe.
O terceiro nível seria o das forças políticas, mas não existe a não ser no estado virtual. Faz falta ao Movimento dos movimentos uma rede de organizações políticas - partidos, frentes, movimentos - que possa propor, no seio da corrente altermundialista, um projecto alternativo, para além do capitalismo, e a perspectiva de uma nova sociedade, sem opressores, nem oprimidos. Algo do estilo já existe na Europa: trata-se da Conferência da Esquerda Anticapitalista Europeia, da qual fazem parte a Refundação Comunista (Itália), a Liga Comunista Revolucionária (França), o Bloco de Esquerda (Portugal), a Aliança Socialista (Inglaterra), a Aliança Vermelha e Verde (Dinamarca) e vários outros. Apesar das suas diferenças, estas correntes partilham um mesmo repúdio à globalização capitalista, às políticas neoliberais e às guerras imperiais. Partilham a mesma aspiração a uma alternativa "positiva", anticapitalista e antipatriarcal, ecológica e internacionalista: "uma sociedade socialista e democrática, sem exploração do trabalho e sem opressão da mulher, baseada num desenvolvimento sustentável - um socialismo desde baixo, auto-gestionário". (Declaração de junho de 2002 da Conferência da Esquerda Anticapitalista Europeia). Um primeiro reencontro à escala internacional já teve lugar durante o Fórum Social de Mumbai (2004).
Nova Internacional
Se se puder estender esta experiência a outros continentes e construir uma rede que compreenderia, de forma ampla, as sensibilidades políticas mais radicais do grande movimento altermundialista, nós teríamos a nossa "Nova Internacional", que não teria necessariamente que se chamar a "Quinta", porque nem todas as correntes interessadas se reconhecem na história das internacionais operárias e socialistas do passado. Poder-se-ia chamar "Conferência Internacional da Esquerda Anticapitalista" (CIEA), ou "Tendência por uma Nova Internacional" (TNT), ou qualquer outro nome que poderia inventar a imaginação criativa dos participantes.
Esta nova internacional poderia integrar – selectivamente - o contributo positivo das quatro internacionais proletárias. Seria a herdeira de Babeuf e de Fourier, de Marx e de Bakunine, de Blanqui e de Engels, de Rosa Luxemburgo e de Lenine, de Emma Goldman e Buenaventura Durruti, de Gramsci e de Trotsky, de Emiliano Zapata e de José Carlos Mariátegui, de Augusto César Sandino e Farabundo Martí, de Ernesto Che Guevara e Camilo Torres, de Ho-Chi-Minh e Nazim Hikmet, de Mehdi Ben Barka e Malcolm X - e de muitos outros. Mas a sua principal referência seriam os movimentos sociais atuais e, em primeiro lugar, o Movimento da resistência global ao neoliberalismo.
Das internacionais do passado seria talvez a Primeira a que poderia servir de inspiração – ainda que obviamente as condições sociais e políticas de hoje sejam totalmente distintas - como movimento múltiplo, diverso, democrático, no qual opiniões políticas distintas puderam convergir na reflexão e na prática. Isto não quer dizer que a forma como se constituiu e como funcionou a Associação Internacional dos Trabalhadores se possa repetir hoje. É impossível prever que forma organizativa poderia ter esta nova força internacionalista - federação descentralizada, rede organizada, ou somente conferência com reuniões periódicas – mas teria necessariamente que ser flexível, aberta e sem estruturas burocráticas formais. Idealmente incluiria não só partidos e frentes, mas também revistas de esquerda, grupos de investigadores, organizações do movimento social, intelectuais. (ONGS?)
Como se poderia delimitar o campo político-social desta nova internacional? Parece-me evidente que o anti-imperialismo e o anticapitalismo – quer dizer, a convicção de que a supressão do capitalismo como sistema mundial é condição necessária, mesmo se não  suficiente, para a abolição das injustiças sociais, explorações e opressões - são critérios essenciais. A perspectiva de uma nova sociedade, livre, democrática, igualitária, solidária, ecológica, feminista - para mim e para os meus companheiros, uma sociedade socialista, mas isso pode ser uma questão aberta - é outro elemento essencial. Mas é no processo de formação desta rede ou federação, que se definirão as bases comuns e a plataforma política da Nova Internacional.
Uma das primeiras tarefas desta corrente será a de contribuir para o desenvolvimento, reforço, extensão e radicalização do grande movimento altermundialita, atuando no seu seio de forma unitária, democrática e respeitadora da diversidade.
O contributo zapatista
A nova internacional deverá aprender muito com a experiência zapatista. Antes de tudo com o espírito de rebeldia, de inconformismo, de oposição irreconciliável com a ordem estabelecida. O Encontro "Intergaláctico" de 1996 definiu o combate contra o capitalismo neoliberal – quer dizer contra a mercantilização do mundo e mesmo do ser humano- como o objetivo comum de todos os excluídos e oprimidos, os trabalhadores, os camponeses, os indígenas, as mulheres, virtualmente toda a humanidade vítima da loucura neoliberal. Esta luta é, portanto, uma luta pela humanidade, quer dizer pela dignidade dos seres humanos -um conceito que tem a ver com o humanismo revolucionário de Marx e de Che Guevara, mas também com a experiência das comunidades indígenas de Chiapas.
Um outro grande contributo do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) é a articulação entre o local (a luta dos indígenas de Chiapas pela sua autonomia) o nacional (o combate pela democracia no México, contra o domínio imperial norte-americano) e o internacional (a guerra contra o  neoliberalismo e pela humanidade). Na reflexão e na prática dos Zapatistas os três movimentos estão intimamente ligados, numa visão muito mais dialéctica que a pobre fórmula de certas ONGs: "Pensar globalmente, agir localmente".
Finalmente, o zapatismo traz ao internacionalismo do século XXI um novo universalismo, nem abstracto, nem redutor, mas baseado no reconhecimento das diferenças: a aspiração por "um mundo em que caibam muitos mundos".
Por onde devemos começar? Como sublinhava o nosso companheiro Daniel Bensaid (no seu livro Les irréductibles, Théorèmes de la résistance à l’air du temps, Paris, Textuel, 2001), o ponto de partida é a força irredutível da indignação, a rejeição incondicional da injustiça, a não-resignação: "A indignação é um começo. Uma maneira de se levantar e começar a caminhar. Indigna-se, revolta-se e depois se verá."
Se conseguirmos juntar as forças que, nos quatro pontos cardeais do planeta, são motivadas pela indignação contra o sistema existente, a rebelião contra os poderosos e a esperança por um outro mundo possível, teremos os componentes de uma Nova Internacional - com ou sem número.

* Michael Löwy - investigador no CNRS, em Paris, militante da IVª International e autor de numerosos livros: “O pensamento de Che Guevara”, “A teoria da revolução no jovem Marx”, “Dialéctica e Revolução”, “Marxismo e Teologia da Libertação”, “ A Guerra dos Deuses”, etc.

Tradução: António José André

Artigo publicado no site do Enlace - Tendência Interna do PSOL

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Umberto Martins: O pacote do G20 vai conter a crise?

Reunida no último sábado (15) em Washington, a cúpula do G20, grupo composto pelas 20 maiores economias do mundo, sugeriu aos que governam o mundo um pacote de 47 medidas para combater a severa crise econômica que eclodiu nos EUA em meados de 2007 e de lá foi irradiada para todo o mundo. A ação desperta naturalmente a pergunta que dá título ao artigo. Será que agora vai?

Por Umberto Martins, editor do Portal da CTB

A resposta definitiva a esta indagação virá com o tempo, mas é sintomático que a notícia que forneceu a matéria-prima das manchetes da nossa mídia no domingo não animou os mercados, que despertaram mal humorados e deprimidos nesta segunda-feira (17), aparentemente fazendo ouvidos moucos aos líderes dos países que, em conjunto, se apropriam de estimados 85% da produção mundial. O dia foi marcado pela notícia de recessão no Japão e as bolsas fecharam em queda na Ásia, na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil, onde o dólar continua em alta.

Senhorita anarquia

Os fatos estão conduzindo à conclusão de que no duelo entre os Estados capitalistas e os mercados esses últimos vêm se saindo bem melhor. Governos e bancos centrais revelam-se relativamente impotentes diante da crise, o que confirma diariamente o caráter objetivo dos fenômenos econômicos, que costumam ser indiferentes à vontade dos indivíduos, inclusive governantes.

As políticas públicas e proclamações altissonantes de autoridades econômicas não são suficientes para anular ou reverter o fato de que a expansão do capital não obedece à voz da razão, é guiada pelos caprichos da senhorita anarquia. Primeiro tivemos a resposta dos EUA, na forma de um plano que vai custar 850 bilhões aos contribuintes de todo o mundo, depois os bilhões da Europa, do Japão, da China e outros países menos poderosos. A crise não foi revertida e já é quase consenso de que ela mal começou e que seus efeitos mais dramáticos estão a caminho.

Afinal, não foram os neoliberais tão radicais em apregoar a supremacia dos mercados sobre o Estado? Eis que vemos nos fatos a supremacia dos mercados sobre o Estado, que de resto foi enfraquecido pelas políticas neoliberais. É uma verdade que nem mesmo o apelo desesperado dos senhores proprietários do capital para a intervenção dos governos nas economias, que contraria e desmoraliza os postulados da ideologia dominante (evidenciando sua falsidade), pode negar.

Transição geopolítica

De positivo, podemos dizer que o G20 tem a virtude de conter implicitamente o reconhecimento da obsolescência do G7, que, em função dos efeitos em médio prazo do desenvolvimento desigual das nações, já não representa sequer as sete economias mais ricas do planeta. Sinaliza, também, o progressivo deslocamento do eixo do poder mundial do Ocidente para o Oriente e dos EUA para a China, o que significa que está em curso um movimento de transição geopolítica, ainda que embrionário. Mas, embora isto tenha lá sua importância, não é tudo.

O G20 agrega ao G7 (EUA, Japão, Alemanha, França, Inglaterra, Itália e Canadá) uma representação da União Européia e de outras doze economias consideradas "emergentes": China, Índia, Rússia, Brasil, Coréia do Sul, África do Sul, Arábia Saudita, Turquia, México, Argentina, Austrália e Indonésia.

Que ninguém se iluda! Embora mais amplo que o G7, o G20 é composto e dominado por um conjunto de países capitalistas, inseridos na ordem imperialista, globalizada, de reprodução do capital e com ela comprometidos. Por esta razão, em função do seu caráter capitalista, o conteúdo das medidas que o grupo preconiza não ultrapassam os limites dos interesses do capital, não questiona o sistema imperialista em si, nem mesmo suas instituições, limitando-se a sugerir reformas de duvidosa eficácia e aplicação. Não se pode também esquecer que a reunião foi patrocinada por Washington e liderada pelo pato manco George Bush.     

Boas intenções

O documento do G20 cita o compromisso "com o avanço da reforma das instituições de Bretton Woods para que eles possam refletir melhor a mudança no peso das economias do mundo". Sugere, também, o aumento dos recursos à disposição do FMI e do Banco Mundial para lidar com a crise, assim como a expansão do Fórum de Estabilidade Financeira (FEF, que reúne representantes dos países que compõem o G7).

Será que a abordagem remoçada do FMI e do Banco Mundial é aconselhável? As velhas e desmoralizadas instituições de Bretton Woods são passíveis de reformas progressistas? É verdade que o G20 propugna medidas anticíclicas, como a redução dos juros e das restrições fiscais, que não constavam da cartilha recessiva do Fundo, mas ainda faz a ressalva de que só podem ter tais privilégios os países que políticas econômicas consideradas corretas e estão com as finanças em dia. Por este critério, os EUA, que acumularam a maior dívida externa do planeta, deveriam ser deixados de fora, mas a recomendação obviamente não vale para a potência hegemônica, é uma alusão a países rebeldes (como a Venezuela) e aos mais pobres.

O grupo também fez questão de elencar uma série de medidas aparentemente carregada de boas intenções e destinadas a promover uma maior regulação do sistema financeira, como se a crise estivesse restrita ao âmbito financeiro. A crise do capitalismo, contudo, é muito mais abrangente e tem seus aspectos mais dramáticos precisamente no setor produtivo, onde se desdobra na tragédia social do desemprego em massa.

Privilégios do império

Assim como o plano Bush, o documento do G20 sequer menciona a necessidade de adotar medidas urgentes focalizadas na proteção aos interesses da classe trabalhadora, que de longe é a principal vítima da crise capitalista. Nada fala sobre a necessidade de garantir maior estabilidade no emprego, interromper as execuções hipotecárias, defender os salários e brecar a crescente precarização das relações entre capital e trabalho. O texto não contempla o trabalho, objetiva apenas livrar a cara do capital e do capitalismo a pretexto de combater a crise. Finalmente, o grupo também evitou responsabilizar os Estados Unidos e os formidáveis desequilíbrios comerciais e financeiros que cultiva pela turbulência econômica.

Tem razão o líder da revolução cubana, Fidel Castro, ao dizer que a reunião "favorece o império, que não recebe crítica alguma a seus métodos abusivos. No meu ponto de vista, não foram tocados nem com a pétala de uma for os privilégios do império", sustentou o comandante em artigo publicado no Granma. Na mesma direção, os manifestantes ligados aos movimentos sociais que realizaram uma marcha pelas ruas de Washington no sábado encenando um funeral simbólico do sistema capitalista indagaram: "o capitalismo está sendo salvo para quem? Para os ricos e poderosos".  

A reunião do G20 e as medidas por ela preconizadas parecem fadadas ao fracasso, pois não tocam no essencial, que é a necessidade urgente de uma transformação profunda na ordem econômica internacional hegemonizada pelos EUA e não apenas uma regulação maior do sistema financeiro. O G20 não está em sintonia com os interesses da classe trabalhadora e dos povos, é mais um instrumento subordinado ao sistema imperialista e às grandes corporações capitalistas que dele se beneficiam.

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Número de famílias assentadas cai 68% em comparação a 2007

 

18/11/2008
De O Estado de S.Paulo


O número de famílias assentadas nos tartarugaprimeiros dez meses de 2008 mostra que o governo pisou no freio da reforma agrária. De janeiro a outubro, foram fixadas em assentamentos apenas 18,6 mil famílias em todo o País, conforme dados obtidos pelo Estado. A queda em relação às 58,2 mil famílias assentadas no mesmo período de 2007, um ano considerado ruim para a Reforma Agrária, é de 68%. Ainda que o governo acelere os assentamentos no fim do ano, ficará longe do resultado final de 2007, quando 67,5 mil famílias foram assentadas.
O ano de 2008 poderá ser o pior do governo Lula no quesito Reforma Agrária: quando assumiu, em 2003, com todas as dificuldades do início do mandato, o governo assentou 36,3 mil famílias. No total, em quase sete anos, o governo Lula pôs na terra 467,5 mil famílias, incluídas as deste ano. Mesmo sendo baixos ante o compromisso de assentar um milhão de Sem Terra em oito anos, os números apresentados pelo governo ainda são contestados pelos movimentos de luta pela terra.
De acordo com Ariovaldo Umbelino de Oliveira, da Abra (Associação Brasileira de Reforma Agrária), o governo incluiu na conta dos novos assentamentos a reposição de lotes desocupados em projetos antigos e a regularização de projetos de colonização agrária, alguns deles do período getulista.
É o caso de um projeto de colonização do município de Barra do Corda (MA), criado em 1942. Segundo Oliveira, as 947 famílias foram contabilizadas entre as 127,5 mil assentadas em 2005. Naquele ano, a reforma agrária teve o segundo melhor desempenho do governo Lula, atrás apenas de 2006, quando 136 mil receberam terra. Já em 2007, o total de famílias assentadas caiu para 67,5 mil.
Refluxo
Para o diretor da Abra, se considerados os assentamentos "reais" - famílias de Sem Terra que recebem o primeiro lote - os números são bem mais modestos. Este ano, o governo assentou até agora apenas 3.126 famílias, segundo ele. "Das 18.630 anunciadas, 9.196 são de assentamentos anteriores e 5.947, de projetos em áreas públicas, também antigos." Fazendo o "expurgo" dos reassentamentos e das regularizações fundiárias - outorga de títulos de domínio a quem estava havia muito tempo na área - o número de famílias assentadas durante todo o governo Lula cai para cerca de 300 mil, afirma Oliveira.
Ele acha que a questão agrária saiu da pauta, não só do governo, mas também dos movimentos sociais. "O refluxo do movimento de massas e o fluxo dos recursos financeiros governamentais canalizados para políticas compensatórias, tipo bolsas disso e daquilo, parecem que estão aquietando aqueles que lutaram pela Reforma Agrária nos últimos 30 anos. É preciso que seja dito também que o silêncio das massas camponesas é intrigante."
Segundo os dados da CPT (Comissão Pastoral da Terra), o número de ocupações de terras bateu o recorde em 2004, com mais de 76 mil famílias, e levou o governo a intensificar os assentamentos no ano seguinte, quando ocorreram 433 ocupações no País. Em 2006, foram mobilizadas 46 mil famílias, e em 2007, cerca de 37 mil. O número de famílias em acampamentos também despencou: em 2003, um total de 59 mil novas famílias foi para os acampamentos, enquanto em 2006, foram pouco mais de 10 mil. No ano passado, esse número caiu quase pela metade.
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) considera que a Reforma Agrária está paralisada. De acordo com Marina dos Santos, da coordenação nacional, "não existe um programa de reforma agrária em curso para assentar todas as famílias que têm interesse em plantar e produzir nem para eliminar o latifúndio". Segundo ela, há dois projetos em disputa para a agricultura, que coloca em confronto o modelo do agronegócio e a pequena e média propriedade rural.
"O governo dá prioridade total ao agronegócio, com políticas de crédito especial e a renegociação das suas dívidas, deixando em segundo plano a reforma agrária." De acordo com a líder, os assentamentos criados pelo governo se caracterizam como projetos de colonização, na região da Amazônia, ou iniciativas assistenciais para resolver conflitos locais.
"A paralisação da reforma agrária e a opção do governo pelo agronegócio obrigaram parte das famílias que querem plantar e produzir a saírem dos acampamentos, por causa da falta de perspectiva de serem assentadas", disse. Mesmo assim, segundo ela, os trabalhadores rurais ainda querem terra e a reforma agrária, mas percebem que o quadro não é favorável.
Apesar disso, a coordenadora do MST diz que não há refluxo no movimento de massas. "Estamos fazendo protestos para denunciar que empresas estrangeiras querem dominar a agricultura e impor o modelo devastador e concentrador do agronegócio, com apoio do governo." Ela destaca ainda que o movimento continua fazendo ocupações de terras e lutas pela reforma agrária, "que a imprensa não tem dado a atenção correspondente".
Para a líder, os programas assistenciais do governo não estão entres os principais motivos da queda no número de ocupações, "e sim a paralisação da reforma agrária e a falta de perspectiva das famílias de serem assentadas".
Dados parciais
O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) informou que os dados sobre assentamentos em 2008 só serão fechados em janeiro de 2009 e considera prematura uma avaliação com base em dados parciais.
A superintendência do Incra em São Paulo informou que, neste ano, houve problemas técnicos relacionados ao Sipra (Sistema de Informações de Projetos de Reforma Agrária) e está ocorrendo uma revisão dos dados.

Do site do MST

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Fortalecer a resistência negra

Neste dia 20 de novembro, vamos todos e todas às ruas do Brasil celebrar Zumbi e a luta do povo negro. Em São Paulo, a 5ª Marcha da Consciência Negra começa na Avenida Paulista, com concentração a partir das 10 horas da manhã no vão livre do MASP. Leia abaixo pronunciamento do deputado Ivan Valente

 

"Sr. Presidente, sras e srs deputados,

Aproximamo-nos de mais um Dia da Consciência Negra, um dia de luta para todos aqueles que apóiam a resistência do povo negro e lutam pela igualdade racial em nosso país. Este ano de 2008 é marcado por um conjunto de simbologias desta luta. Completamos 120 anos da abolição da escravatura no Brasil. Uma abolição inacabada que, simplesmente decretada por lei, não garantiu a integração do negro na sociedade, muito menos levou à reparação da tragédia histórica que significou, entre nós, a escravização por séculos de negros e indígenas.
Nestes 120 anos, o Estado brasileiro não assumiu a tarefa de desconstruir as estruturas racistas que remontam à formação de seu aparato colonial e que até hoje, combinadas às desigualdades econômicas e de gênero, produzem verdadeiros abismos sociais. Estamos todos cansados de saber que este país está longe de ser uma democracia racial. E os números são sempre importantes para confirmar a permanente manutenção desta desigualdade.
Na região metropolitana de São Paulo, por exemplo, segundo o Dieese, 60,3% dos negros não conseguem terminar o ensino médio. Apenas 3,9% conseguem acessar e concluir uma faculdade. O mesmo estudo mostra que a população negra trabalha mais, porém ganha menos. A cada R$ 4 reais gerados no país, R$ 3 ficam nas mãos dos brancos.
O Brasil precisa de ações contundentes de enfrentamento ao racismo se não quiser que sua juventude negra siga sendo dizimada em nossas periferias. Um estudo recente do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) apontou que a taxa de homicídios entre os negros é o dobro da entre os brancos. A juventude negra é o principal alvo da violência generalizada, da violência policial, da tortura e do desrespeito aos direitos humanos. E as jovens negras são as que mais morrem por conseqüência de abortos mal feitos.
Mais do que tarda, portanto, a reparação histórica do povo negro, com investimentos massivos do setor público em políticas que atendam as populações pobres, jovens e femininas de nosso país, de acordo com suas necessidades e especificidades.
Trata-se de uma reparação que passa, entre outras ações, pelo reconhecimento de terras para remanescentes de quilombos, pela instituição do Dia da Consciência Negra como feriado nacional e pela aprovação imediata da Lei de Cotas (PL 73/1999) e do Estatuto da Igualdade Racial (PLs 3198/2000 e 6264/2005). Entre as medidas previstas no Estatuto estão a instituição de ouvidorias que recebam denúncias de discriminação racial e a criação do Fundo Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Mais de 100 mil assinaturas favoráveis à votação do projeto já foram entregues pelo movimento a esta Casa e ao Senado Federal. Não há nada que justifique a lentidão na votação do Estatuto. Desta Tribuna, reafirmamos o compromisso do PSOL na aprovação desses projetos.
2008 marca ainda 100 anos da morte do escritor negro Machado de Assis e o centenário de nascimento de Solano Trindade, pintor, poeta, ator, folclorista, teatrólogo, militante político e do movimento negro. A trajetória de Solano Trindade transformou a luta em defesa da cultura afro-brasileira, em suas múltiplas expressões, em jornadas pela dignidade do povo negro, contra as injustiças sociais e a opressão. Neste ano, também homenageamos o centenário da umbanda e lembramos com saudades de duas lutadoras do movimento negro que recentemente nos deixaram: Marisa Dandara e Maria da Penha.
Neste dia 20 de novembro, vamos todos e todas às ruas do Brasil celebrar Zumbi e a luta do povo negro. Este é um dever de cada brasileiro e um passo permanente a ser dado, sem o qual jamais atingiremos a plena democracia em nosso país.
Muito obrigado."
Ivan Valente
Deputado Federal PSOL/SP
Brasília, 18 de novembro de 2008

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Grandes expectativas: o que é possível esperar de Obama?

O significado histórico da eleição de Obama não deve ser subestimado. Basta lembrar que ocorreu em um país onde a Ku-Klux-Klan chegou a ter milhões de membros capazes de executar uma campanha de terror e morte contra cidadãos negros com o apoio de um sistema jurídico discriminatório. É um momento horroroso para ser eleito presidente, mas também é um desafio. Que tipo de mudanças podemos esperar com Obama que assume um país em processo de desindustrialização e fortemente dependente das finanças globais?

Tariq Ali - Sin Permiso

A vitória de Barack Obama supõe uma mudança geracional e sociológica decisiva na política dos Estados Unidos. É difícil, nestes momentos, predizer seu impacto, mas as expectativas suscitadas entre a gente jovem que impulsionou Obama seguem sendo grandes. Talvez não tenha sido uma vitória arrasadora, mas foi suficientemente ampla para permitir que os democratas ficassem com mais de 50% do eleitorado (62,4 milhões de votantes) e colocassem uma família negra na Casa Branca.
O significado histórico deste fato não deveria ser subestimado. Basta lembrar o que ocorreu no país em que a Ku-Klux-Klan chegou a ter milhões de membros capazes de executar uma campanha de terror e morte contra cidadãos negros com o apoio de um sistema jurídico discriminatório. Como esquecer aquelas fotos de afroamericanos linchados diante do olhar complacente de famílias brancas que desfrutavam seus piqueniques enquanto contemplavam – para dizê-lo na voz memorável de Billie Holliday – “corpos negros balançando-se com a brisa do sul, um fruto estanho pendurado nos álamos”?
Mais tarde, as lutas dos anos 60 pelos direitos civis forçaram a reversão da segregação e impulsionaram as campanhas a favor do voto negro, mas também conduziram ao assassinato de Martin Luther King e de Malcom X ( justo quando este começava a insistir na unidade dos brancos e negros contra um sistema que oprimia a ambos). Tornou-se um lugar comum assinalar que Obama não faz parte desta lista. Não é assim, contudo, como mostram os 96% de afroamericanos que saíram de casa para votar nele. Pode ser que se desiludam, mas por enquanto celebram a vitória e ninguém pode culpá-los por isso.
Há apenas duas décadas, Bill Clinton advertia seu rival, o progressista governador de Nova York, Mario Cuomo, que os Estados Unidos não estavam preparados para eleger a um presidente cujo nome acabasse em “o” ou em “i”. Há apenas alguns meses, os Clinton cediam abertamente ao racismo insistindo que os votantes da classe trabalhadora rechaçariam a Obama, lembrando aos democratas que Jesse Jackson também tinha ido bem nas primárias. Uma nova geração de eleitores demonstrou que eles estavam equivocados: cerca de 66% dos que tinham entre 18 e 29 anos, ou seja, 18% do eleitorado, votou por Obama; 52% dos que tinham entre 30 e 44 – uns 37% do eleitorado – fez o mesmo.
A crise do capitalismo desregulado e de livre mercado fez disparar os apoios a Obama em estados até então considerados território republicano ou de democratas brancos, acelerando o processo que derrotaria a dupla Bush/Cheney e seu bando de neo-cons. No entanto, o fato de que a dupla McCain/Palin obteve, apesar de tudo, 55 milhões de votos, é uma lembrança da força que a direita estadunidense ainda conserva. Os Clinton, Joe Biden, Nancy Pelosi e muitos outros pesos pesados do Partido Democrata utilizaram este dado para pressionar Obama a fim de que ele permanecesse fiel ao roteiro que lhe permitiu ganhar a eleição. Não obstante, os slogans bem-intencionados e anódinos não serão suficientes para garantir um segundo mandato. A crise avançou demasiado e as questões que preocupam aos cidadãos estadunidenses (como pude comprovar estando lá, há algumas semanas) têm a ver com o emprego, a saúde (40 milhões de cidadãos sem seguro de saúde) e a habitação.
Só com retórica não é possível enfrentar a queda da economia: as dívidas do setor financeiro superam a casa de um trilhão de dólares e ainda ameaçam gigantes bancários; o declínio da indústria automobilística gerará desemprego em uma escala mais ampla e seguirão os efeitos do salto ao vazio ao qual Wall Street hipotecou as futuras gerações de norte-americanos. As medidas adotadas, em meio ao pânico, pela administração Bush, medidas desenhadas e adotados pelo amigo dos banqueiros e secretário do Tesouro Paulson, privilegiaram uns poucos bancos e foram subsidiadas com fundos públicos.
Os democratas e Obama apoiaram os acordos e será difícil para eles desdizer-se e mover-se em outra direção. O aprofundamento da crise, no entanto, pode forçá-los a fazê-lo. As medidas de austeridade sempre atingem aos menos privilegiados, e a maneira como o novo presidente e sua equipe enfrentarão o novo cenário será determinante para seu futuro.
É um momento horroroso para ser eleito presidente, mas também é um desafio. Franklin Roosevelt aceitou esse desafio nos anos 30 e impôs um regime social-democrata de regulação da economia, baseado em empregos públicos e em um apelo imaginativo à cultura popular. A existência de um forte movimento operário e a esquerda estadunidense contribuíram decisivamente para o surgimento do New Deal. E a existência dos Reagan-Clinto-Bush para liquidar seu legado. O que há agora, portanto,é uma economia nova, um país desindustrializado e fortemente dependente das finanças globais.
Terá Obama a visão ou a força para voltar ao tempo e avançar ao mesmo tempo? Em matéria de política externa, a posição de Obama/Biden não diferiu muito da de Bush ou Mc Cain. Um New Deal para o resto do mundo exigiria uma saída rápida do Iraque e Afeganistão e um ponto final a estas aventuras em qualquer outra região do planeta. Biden, praticamente, se comprometeu com a balcanização do Iraque. Mas esta alternativa resulta cada vez mais improvável: o resto do país, o Irã e a Turquia se opõem, se bem que por razões diferentes, à criação de um protetorado norte-americano-israelense no norte do Iraque com bases permanentes dos EUA. Na verdade, alguém deveria aconselhar Obama a anunciar uma retirada rápida e completa. Sobretudo levando em conta que, com a crise, os custos de permanecer no Iraque tornaram-se proibitivos.
O mesmo se pode dizer de um eventual deslocamento de tropas do Iraque para o Afeganistão: só recriaria o mesmo problema em outro lugar. Como numerosos especialistas em inteligência, militares e diplomatas britânicos advertiram, a guerra no sul da Ásia está perdida. Sem dúvida, Washington está consciente disso. Daí as negociações, propiciadas pelo medo, com os neo-talibãs. Só resta esperar que os conselheiros de Obama em matéria de política externa forcem uma retirada também nesta frente.
E o que dizer da América do Sul? Seguramente Obama deveria imitar a viagem de Nixon a Beijing, voar a Havana e acabar com o bloqueio diplomático e econômico a Cuba. Inclusive Colin Powell deu-se conta de que o regime havia feito muito por sua gente. Será difícil para Obama predicar as virtudes do livre mercado, mas, em troca, os cubanos poderiam ajudá-lo a estabelecer um sistema de saúde decente nos EUA. Essa é uma mudança que a maioria dos estadunidenses desejaria. Outros países da América do Sul que previram a crise do capitalismo neoliberal e começaram a reconstruir suas economias há uma década também poderiam oferecer algumas lições.
Se a mudança acabar em nenhuma mudança, então poderá ocorrer que, passados alguns anos, quem apoiou Obama para a Casa Branca decida que a criação de um partido progressista nos Estados Unidos tornou-se uma necessidade.
Tariq Ali é membro do conselho editorial de Sin Permiso. Seu último livro publicado é “The Duel: Pakistan on the Flight Path of American Power”.
Tradução: Katarina Peixoto

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O que o mundo espera de Barack Obama

Obama soube captar algo que estava latente na sociedade e nos jovens em particular: a idéia de mudança. Com essa bandeira suscitou esperança e auto-estima e chamou a atenção para o futuro e para as novas oportunidades que surgirão.

Leonardo Boff

A vitória presidencial do afro-americano Barack Hussein Obama me lembra a frase que um dirigente comunitário de uma região pobre do Brasil disse ao presidente Lula durante sua campanha, que apoiava: “Nesta comunidade estamos fazendo todo o possível e um pouco do impossível”.
É isso que ocorreu nos Estados Unidos: algo praticamente impossível irrompeu na história. Um cidadão negro, de família pobre, nascido no Havaí, à margem do sistema imperial e que viveu longo tempo fora dos EUA, conseguiu superar a barreira racial, chegar a ser candidato presidencial do país mais poderoso da Terra e ganhar por ampla maioria. Podemos tirar esta conclusão: recém agora, 145 anos depois, chega ao fim a Guerra Civil norte-americana. Não é que tenha terminado a discriminação social, mas terminou a discriminação em nível político.
Essa vitória eleitoral encerra muitos significados, mas, antes de tudo, expressa o fim da era dos fundamentalismos: o do mercado, iniciado por Margaret Thatcher e Ronald Reagan que é a causa da atual crise econômico-financeira, e o político-religioso que alimentou a concepção imperial e belicosa da política externa de Washington.
Reagan e Bush acreditavam na iminência do Armagedón (segundo a Bíblia, o combate final entre o bem e o mal, entre Deus e Satanás) e no destino revelado, ou seja, a missão conferida por Deus aos Estados Unidos de levar a todo o mundo os valores da sociedade norte-americana: liberdade, democracia e direitos, no marco de sua visão capitalista e individualista.
Esta idéia de missão explica uma arrogância bem expressa pelo candidato McCain: “Os Estados Unidos são o farol e o líder do mundo. Podemos agir segundo nosso parecer, já que somos o único poder da terra. Os inimigos de ontem e de hoje tem que temer nosso poder”.
Em seu afã de combater o terrorismo muçulmano, Bush fomentou o terrorismo de Estado que se converteu no maior perigo para a humanidade. Não é estranho que tenha provocado uma difundida desmoralização no próprio país e um anti-americanismo generalizado no mundo.
Essa não parece ser a atitude de Obama, que à estratégia da guerra preventiva e do intervencionismo opõe um diálogo aberto a todos, incluindo os talibãs. Ele está convencido de que os Estados Unidos não merece ganhar a guerra contra o Iraque porque ela teve origem em uma mentira e, por isso, é injustificável.
Os latino-americanos esperam que cesse a vontade dos EUA de desestabilizar a Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua e Paraguai, países que estão buscando caminhos próprios de descolonização.
Obama soube captar algo que estava latente na sociedade e nos jovens em particular: a idéia de mudança. Com essa bandeira suscitou esperança e auto-estima e chamou a atenção para o futuro e para as novas oportunidades que surgirão. A mudança chegou aos Estados Unidos e poderá chegar também ao mundo.
Vivemos tempos dramáticos, enfrentando três crises: a ecológica, a climática e a econômica. A ecológica é conseqüência de que o consumo humano ultrapassou a capacidade de recuperação da Terra. Para saciar a demanda atual seria preciso um outro terço mais de planeta disponível. E se a humanidade crescesse a uma média de 3,5%/ano até 2050, o produto mundial que hoje é de mais de 50 trilhões de dólares chegaria a 60 trilhões de dólares, o que é impossível. Como, então, assegurar um desenvolvimento sustentável? Quanto à crise climática, François Houtart sustenta que se não substituirmos o atual modelo econômico em quinze anos desaparecerão de 20 a 30% das espécies que vivem hoje no planeta.
É responsabilidade de Obama, como presidente do maior contaminador mundial, contribuir para identificar alternativas em nível nacional e internacional para garantir a sustentabilidade do planeta e da humanidade.
A crise econômico-financeira é fruto do neoliberalismo, do livre-mercado e da especulação desenfreada. Bilhões de dólares já foram queimados, avança a recessão mundial e aumenta a desocupação. Existe a convicção de que não bastará impor regras e controles ao mercado, mas sim que será necessário introduzir alternativas urgentemente, já que a crise econômico-financeira está associada à ecológico-climática. Segundo o Greenpeace, o capital natural enfrenta perdas anuais de 2 a 4 trilhões de dólares provocadas pela degradação dos ecossistemas, o desmatamento, a desertificação e a escassez de água.
O arsenal conceitual e prático disponível não oferece condições para forjar uma saída libertadora. É preciso uma grande mudança – que é o que Obama proclama – um novo horizonte utópico e coragem para inventar novos caminhos. O pré-requisito é uma figura carismática que inspire confiança para encarar esses cataclismas e conceber uma arquitetura econômica e um tipo de globalização multipolar que respeite as diferenças e possa incluir a todos em um mesmo destino junto à nossa Casa Comum, a Terra.
Barack Obama tem as características dessa figura carismática. Se souber responder à profunda esperança que suscitou criará seu caminho entre as ruínas da velha ordem. Se for assim, poderemos sonhar com um mundo onde haja mais colaboração entre os povos e mais possibilidades de paz.
Artigo publicado originalmente em espanhol na IPS.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Leonardo Boff é teólogo e escritor.

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Moeda é poder. Há hegemonia em uma nota de dólar

A REORDENAÇÃO PÓS-CRISE

 

O Brasil atrelou seu destino à lógica dos mercados financeiros desregulados a partir dos anos 90. A prerrogativa da intervenção pública - sobretudo no setor financeiro - ficou subordinada a regras que protegem grupos de interesses locais e internacionais; os mesmos que ameaçam pôr em movimento uma montanha desordenada de capitais voláteis, cuja força é suficiente para reverter a retomada do desenvolvimento.

Redação - Carta Maior

Moeda é poder. O consenso aparente em torno da regulação dos mercados nesse momento esconde a dimensão política da crise. Existe hegemonia embutida em uma nota de dólar; explorados e exploradores na definição da taxa de juro. Está em jogo a reordenação da hierarquia entre moedas abalada pelo colapso da ordem neoliberal. A prática não ecoa o consenso reformista dos discursos oficiais. Foi assim também em 1929.
Uma Guerra mundial levou para os campos de batalha a arbitragem de impasses que paralisavam as nações, corroíam regimes monetários e minavam a produção e circulação da riqueza. A nova correlação de forças sancionada pelo argumento bélico foi legitimada em Bretton Woods, em 1944, quando a velha liderança britânica cedeu lugar à supremacia dos EUA, dos seus bancos, da sua indústria e da sua moeda em todo o planeta.
A disputa em marcha no mundo encontra urgências e impasses equivalentes na vida interna das nações. O Brasil não é exceção: US$ 553,5 bilhões de dólares atam o país à ciranda mundial.
Decisões tomadas desde os anos 90, destinadas a atrair, incentivar e garantir a mobilidade do capital estrangeiro na economia nacional restringiram a autonomia da política econômica e podem enfraquecer o Brasil nas respostas para enfrentar a crise. A prerrogativa da intervenção pública - sobretudo no mercado financeiro - ficou subordinada a regras que fortalecem e protegem grupos de interesses locais e internacionais; os mesmos que agora ameaçam por em movimento uma montanha desordenada de capitais voláteis, cuja força é suficiente para reverter a retomada do desenvolvimento.
Hoje esses recursos equivalem a US$ 553,5 bilhões. Um poder de pressão quase três vezes (2,7 vezes) superior à margem de autonomia proporcionada pelas reservas cambiais acumuladas desde 2003 (US$ 200 bilhões). Assimetrias dessa ordem ajudam a entender um paradoxo da crise: a exemplo do Brasil, inúmeras nações da periferia do capitalismo clamam por reformas na arquitetura financeira mundial, mas hesitam em aplicá-las internamente.
Para entender como essa dependência se cristalizou e a dificuldade para reverter algo que aprisiona a economia numa espécie de “caos calmo”, Carta Maior ouviu vários economistas entre os quais a professora Daniela Magalhães Prates, da Unicamp. Especialista em economia internacional, Daniela publicou recentemente um artigo oportuno em parceria com Marcos Antonio Macedo Cintra, também da Unicamp: “Keynes e a hierarquia de moedas: possíveis lições para o Brasil” , texto incluído na coletânea “Economia do Desenvolvimento , teoria e políticas keynesianas”, organizada por João Sicsú e Carlos Vidoto.
I) Recursos voláteis equivalem a quase três vezes o total das reservas brasileiras
Dois pontos reafirmam a pertinência desse debate no momento. O primeiro é a gravidade e a dimensão do que está em jogo. Dada a inexistência de controles de capitais, o montante de dólares que entrou e poderá sair do país a qualquer momento impressiona pelo poder desestabilizador. “Estamos falando”, explica a economista Daniela Prates, "de US$ 553,5 bilhões que formam o Passivo Externo Líquido (PEL) do país”. Trata-se do saldo entre o estoque dos investimentos externos (financeiros e produtivos) existentes na economia; mais o valor da dívida externa; menos investimentos de brasileiros no exterior e reservas cambiais. Daí a denominação passivo “líquido” – uma medida de dependência mais exata que o conceito de dívida externa já que inclui toda ordem de remessas possíveis, desde juros, royalties, lucros a fugas potenciais do dinheiro de curto prazo.
Há uma outra forma de medir esse flanco, segundo a professora Daniela Prates . O saldo, neste caso, contabiliza o montante bruto de passivos de curto prazo, sem descontar as reservas. Hoje isso daria pouco mais de US$ 531 bilhões: 2,7 vezes o total das reservas. São recursos sujeitos a fugas e resgates abruptos, facilitados pelas decisões tomadas a partir dos anos 90 e agora postas em xeque. “Não existe estabilidade econômica numa situação como essa. Para ter segurança em regime de mobilidade de capitais só mesmo com reservas chinesas (US$ 1,5 trilhão)”, alfineta.
II) Armínio Fraga soldou o país ao cassino financeiro; sucessores mantiveram laços
O Brasil, a exemplo da maioria dos países da periferia do capitalismo, atrelou seu destino à lógica dos mercados financeiros desregulados a partir dos anos 90. O governo Collor já havia ensaiado alguns passos nessa direção, mas o ponto central da solda entre o mercado interno e a finança volátil foi consumado pelo então presidente do Banco Central no governo FHC, Armínio Fraga. Ex-funcionário do mega-especulador George Soros, Armínio trouxe para o BC um reconhecido traquejo no jogo pesado das finanças desreguladas. Foi essa experiência e o endosso do governo PSDB/PFL às teses do Estado mínimo que orientaram a decisão política de liberar o entra-e-sai de capitais de curto prazo no país em janeiro de 2000.
A Resolução 2.689 autorizou a aquisição de ações e títulos pelo capital estrangeiro, bem como liberou-o para captar, interligar e especular em mercados de derivativos. Hoje, o ex-presidente do BC beneficia-se dessa medida à frente do Gávea, um “fundo agressivo” aberto a investidores da elite do dinheiro fugaz. Gente selecionada pela carteira e apetite para correr risco altos em troca de retornos sempre acima da média mundial.
Os sucessores de Armínio Fraga, é forçoso dizer, ampliaram em vez de cortar os laços com a ciranda global. Restrições à aquisição e remessas de dólares foram eliminadas em março de 2005 pelo então ministro Antonio Palocci. Em julho de 2006, concedeu-se isenção fiscal na aquisição de títulos públicos por fundos estrangeiros.
“Boa parte da vulnerabilidade brasileira nesta crise decorre das implicações de medidas que facilitaram a mobilidade de capitais na economia”, confirma a economista da Unicamp.
III) Um jogo que dá direito à fatias crescentes da riqueza sem contribuir para gerá-la
Investidores estrangeiros e nacionais dispõem hoje de um variado cardápio de facilidades e “inovações” que garantem salvo-conduto na porta-giratória de um mercado amplamente integrado ao jogo da finança global. Um fundo como o Gems Investimentos de origem israelense, com sede em Londres, que capta recursos no Brasil e centraliza sua contabilidade no paraíso fiscal de Luxemburgo é um exemplo de como as coisas funcionam.
O Gems, como outros, explora uma novidade introduzida no país há dois anos muito apreciada antes crise. O “produto” de ponta da “indústria” de fundos permite captar recursos em reais; aplicar em ativos estrangeiros no exterior (ações, commodities, cotas de outros fundos, sub-primes etc); não deixa marcas de remessas na contabilidade do aplicador; não exige abertura de conta lá fora, nem incorre em ônus fiscal no estrangeiro. Tudo isso legalmente.
Gestores mais criativos seduzem clientes insaciáveis com promessas de metas “alfa". Trata-se de dobrar rendimentos numa sucessão fulminante de apostas globais feitas num curto espaço de tempo e à descoberto (em bom português: apostando o que não se têm). Esse são alguns indícios de que a regulação em pauta requer algo mais do que apelos sensatos à prudência e à temperança na gestão financeira. O que está em jogo é desmontar uma usina de lucros meteóricos que assegura a seus participantes o direito a fatias cada vez generosas da riqueza real, sem contribuir um centavo para que ela cresça em proporções equivalentes. É uma rota de colisão: de um lado, a voragem estrutural do capital fictício; de outro, o risco de colapso da sociedade que já não consegue mais saciá-lo sem se auto-destruir.
IV) Desregulação internaliza instabilidades e, ao mesmo tempo, engessa o Estado
Graças à livre circulação de capitais fundos hedge – assim como bancos e empresas - podem apostar livremente contra e à favor da moeda brasileira na bolsa local de mercadoria. Idealmente, o equilíbrio de contratos entre comprados e vendidos (respectivamente, apostas na alta e na baixa da moeda norte-americana, por exemplo) criaria um espaço de liquidez para proteger operações indexadas ao câmbio, caso do comércio exterior e empréstimos em moeda estrangeira. O colapso atual evidenciou que essa finalidade foi desvirtuada em todo o mundo e aqui também. Operações especulativas muito superiores às necessidades de hedge (proteção) seduziram exportadores e bancos que apostaram maciçamente na direção errada ao prever a queda do dólar no mercado brasileiro.
Estima-se que o mico referente a distintas modalidades de contratos de risco e opções “vendidas” em dólar possa alcançar entre US$ 40 bilhões a US$ 50 bilhões. Os casos da Sadia e da Aracruz ilustram o tamanho do prejuízo que poderá esfarelar balanços, a depender da evolução cambial: a primeira teria assumido posições de risco no valor de US$ 7,6 bilhões; a segunda, de US$ 8,5 bilhões.
V) O especulador entra sem trazer capitais, aluga fiança, aposta alto e altera o câmbio
Uma particularidade das operações com derivativos cambiais na bolsa brasileira é que os contratos são zerados em moeda nacional. Em tese, isso evitaria uma corrida ao mercado físico do dólar; vantagem anulada, todavia, pela mobilidade de capitais que potencializa a instabilidade inerente às apostas em derivativos. “O especulador estrangeiro não precisa internalizar recursos para fazer apostas na bolsa brasileira”, explica a economista Daniela Prates. “Ele pode fixar posições altamente alavancadas ( muito superiores aos recursos próprios) dispondo apenas de uma carta de fiança fornecida por banco local; ou mediante o aluguel de títulos depositados como margem de garantia na bolsa”, esclarece a professora da Unicamp.
Decorrem daí inúmeras distorções que convergem para gerar forte instabilidade na formação da taxa de câmbio, um dos preços decisivos do cálculo econômico. “O governo acumula reservas com base em fluxos físicos de capitais e mercadorias”, esclarece Daniela. “Porém, como dispensam ingresso efetivo de moeda, as operações com derivativos não deixam uma contrapartida equivalente no balanço de pagamento, nem nas reservas. Cria-se assim uma dissociação perigosa. Mudanças abruptas na direção e nos volumes das apostas, associadas a fugas de investidores, emitem um sinal forte que contamina a definição da taxa de câmbio no mercado físico. Como as reservas são inferiores ao deslocamento potencial em jogo, isso gera incertezas que se propagam por toda a economia”, ensina.
VI) Idéias de Keynes em Bretton Woods ainda enfrentam resistências, 64 anos depois
As conseqüências e constrangimentos que a mobilidade de capitais impõe às políticas de desenvolvimento foram exaustivamente estudadas por John Maynard Keynes nos anos 40. Em 1944, como representante inglês em Bretton Woods, ele propôs uma nova arquitetura financeira mundial .A criação de uma moeda global contábil (o bancor) e um banco central dos bancos centrais (clearing union), constituíam mecanismos de coordenação indispensáveis, no seu entender, para harmonizar assimetrias entre economias ricas e pobres e garantir um ciclo estável de prosperidade no pós-Guerra. Impor uma disciplina espartana à mobilidade dos capitais era uma espécie de lei de bronze dessa arquitetura. As propostas de Keynes, como se sabe, foram rejeitadas pela delegação norte-americana que enxergou aí a tentativa inglesa de restringir a liderança mercantil e financeira conquistada pelos EUA durante a Guerra, que dava ao dólar o papel de moeda de reserva universal.
Dizer que os acontecimentos de hoje são uma conseqüência da derrota de Keynes em Bretton Woods é uma parte da verdade. Na realidade, Keynes conseguiu inserir nos estatutos de fundação do FMI - proposta vitoriosa norte-americana - o direito de as nações acionarem controles de capitais em condições críticas. Embora persista formalmente nos estatutos do Fundo, o tempero keynesiano foi sepultado na prática pelo avanço da desregulação nos anos 90. Algo semelhante se deu no Brasil, na medida em que a lei do capital estrangeiro de 1961 (nº 4.131) nunca foi revogada; mas acabou reduzida a um zumbi jurídico por conta das decisões tomadas nos últimos dez anos.
Sessenta e quatro anos depois, os temas e as propostas levantados por Keynes voltam à agenda obrigatória dos chefes de Estado, inclusive do Brasil. O mundo do crash de 2008 é mais complexo; o jogo de forças inclui potências que redimensionaram a geopolítica dopós-guerra; a China e os blocos econômicos ameaçam a hegemonia norte-americana. Ainda assim será difícil vencer a resistência dos EUA em aceitar uma nova hierarquia monetária que reduza seu poder expresso em dólares.
VII) Um dos custos para atrair e manter capitais voláteis é pagar juros paralisantes
A espada de incertezas erguida sobre as políticas econômicas tende a promover uma acomodação baseada em taxas de juros impiedosamente hostis ao desenvolvimento. Em vez de controlar e selecionar investimentos que interessam, recorre-se a uma espécie de taxa- tampão, alta o suficiente para tornar sedentário um capital que por natureza é errático e especulativo. Num momento em que os BCs de todo o mundo reduzem o custo do dinheiro para refrear a espiral recessiva, o Brasil mantém a Selic em 13,75%. E ainda ameaça elevá-la novamente.
VIII) Crise desmente a tese de que livres mercados asseguram liquidez just-in-time
Juros altos radicalizam assimetrias macroeconômicas em torno de objetivos naturalmente díspares mas desejáveis, ironicamente sintetizados na tríade impossível perseguida por todas as escolas econômicas. A saber: simultaneamente sustentar o crescimento, estabilizar o câmbio e controlar a inflação. “Mais que uma defasagem específica entre reservas e passivo externo, a crise põe em xeque a tese de que a liquidez mundial tornaria desnecessário adotar o controle de capitais para estabilizar o crescimento”, explica professora Daniela Prates. Segundo a ortodoxia dos anos 90, a liquidez inerente à desregulação faria do mercado mundial um provedor just-in-time, harmonizando necessidades distintas entre contas correntes, déficits e superávits comerciais.
Sob certas circunstâncias, a panacéia entregou o que prometeu. Mas ao reverter o ciclo de liquidez para uma fuga planetária rumo ao dólar, verificou-se o quanto são frágeis as certezas ideológicas que menosprezam circunstâncias e contradições históricas. No Brasil, a exemplo do que ocorre em muitos países, o caos calmo expresso no passivo externo líquido pode transformar-se em tempestade tropical. “Reverter esse quadro em plena crise, naturalmente, é muito complicado”, admite Daniela Prates. Ainda que alguns avanços ocorram nas cúpulas internacionais, nenhum país escapará, porém, da necessidade de adaptar a agenda da regulação ao seu idioma e circunstância. Desde já o Brasil precisa decidir em que medida vai manter seu destino amarrado a um trem sem trilhos que justamente por isso mostrou-se capaz de descarrilhar o mundo.

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A crise e a regulação do sistema financeiro

COMO EVITAR A RECESSÃO (II)

A confiança – ingrediente essencial de qualquer sistema financeiro – foi por água abaixo nos terremotos registrados nas últimas semanas. Desse ponto de vista não há alternativa para fazê-lo funcionar a não ser com garantias públicas. Propor que essas garantias tenham caráter muito limitado ou circunstancial, como ocorreu no caso americano, constitui uma miopia ancorada na ideologia e nos interesses das finanças, o que poderá levar a economia a uma recessão ainda mais profunda. A análise é de Ricardo Carneiro.

Ricardo Carneiro*

 

 

Em vários momentos nas últimas semanas a ideologia neoliberal foi posta de pernas para o ar. Intervenções nos mercados financeiros foram ganhando extensão e profundidade culminando com a virtual estatização dos bancos em vários países da Europa e a aceitação pelo establishment de um grau inusitado de ingerência do governo, nas finanças privadas nos EUA. No Brasil, as intervenções foram variadas e intensas com liberação do compulsório, indução a compra de carteiras de crédito de pequenos bancos pelo Banco Central e intervenção pesada no mercado de divisas.
Em todas as partes, as justificativas para tal ação baseiam-se na idéia de evitar o mal maior. Uma tese correta, mas tão geral que esconde o essencial: a natureza da ação. A atuação do Estado tem assumido feições distintas segundo países e regiões. Veja-se, por exemplo, a clara distinção entre o que fizeram os governos europeus e o americano. Nos primeiros, por meio da participação direta do estado na propriedade das instituições financeiras, e por garantias públicas ao mercado interbancário, o sistema adquiriu uma característica semi-pública. Já nos EUA, essa forma de intervenção demorou a ser admitida pelos interesses dominantes – que antes advogavam apenas a compra de títulos podres com recursos do Tesouro - e quando o foi, privilegiou a menor e a pretendida circunstancial interferência do Estado.
O que está em jogo exatamente nos dois casos? Desde logo, a capacidade de influenciar de imediato os rumos que tomará o sistema financeiro na arbitragem das perdas mas, também, no futuro imediato, a sua capacidade de retomar novos financiamentos à atividade econômica. O essencial aqui é que dado os terremotos ocorridos recentemente, a confiança – ingrediente essencial de qualquer sistema financeiro – foi por água abaixo. Desse ponto de vista não há alternativa para fazê-lo funcionar a não ser com garantias públicas. Propor que essas garantias tenham caráter muito limitado ou circunstancial como no caso americano constitui uma miopia ancorada na ideologia e interesses das finanças e que poderá levar essa economia a uma recessão mais profunda.
As duas formas de intervenção sugerem que o sistema europeu poderá voltar a funcionar da forma normal num espaço de tempo menor. Mas, ainda estamos no plano das ações emergenciais. A medida em que o sistema se recuperar será necessário pensar também numa nova regulação das finanças para evitar a repetição dos episódios recentes. Qual a direção ou filosofia dessa nova regulação? Um bom caminho seria impedir o envolvimento do sistema bancário no financiamento de atividades especulativas, entendidas essas últimas como a aquisição de ativos financeiros nos mercados secundários, evitando, portanto a formação das bolhas de preços de ativos. Outra medida essencial seria a regulação severa do mercado de derivativos limitando a sua alavancagem.
As recentes medidas do Banco Central brasileiro como resposta aos efeitos domésticos da crise, merecem reparos. Do ponto de vista emergencial, as medidas de redução do compulsório foram importantes, mas insuficientes. Por não conterem uma tentativa de direcionamento desses recursos para a o financiamento de outros bancos ou a sustentação do circuito do crédito as medidas evitaram o mal maior, ou seja, a crise de liquidez generalizada. Porém, parte do dinheiro injetado no sistema virou aplicações de curto-prazo em títulos públicos. Ou seja, o Banco Central não enfrentou convenientemente a questão da forte contração do crédito ocorrida nas últimas semanas e a imperiosa urgência da sua retomada.
No mercado de divisas a ação do Banco Central foi também relevante, mas limitada. Fornecer divisas com cláusula de recompra para contornar a escassez temporária de dólares - oriunda do sumiço do crédito externo - é essencial para manter o comércio exterior fluindo. Se necessário for, como anunciado, parte das reservas poderão serão usadas para financiar os bancos e os exportadores brasileiros, o que também é correto. Já realizar vendas à vista de dólares e fornecer proteção cambial aos agentes privados por meio da venda de swaps parece inadequado à luz da institucionalidade do mercado de câmbio brasileiro.
A ação do Banco Central, nesse caso, é de natureza distinta e visa controlar a taxa de câmbio evitando bruscas desvalorizações, e não resolver problemas de liquidez. A dificuldade reside, todavia, na influência decisiva que o mercado de derivativos tem na formação da primeira. Ou seja, vender reservas ou proteção pode ter pouca influência no controle da taxa de câmbio, constituindo um desperdício. A ação mais correta, nesse caso, seria promover, em parceria com o órgão responsável, uma regulação do mercado de derivativos desestimulando a formação de posições especulativas. Se isto não ocorrer, a ação do BC na defesa da moeda nacional pode se revelar inócua. Em resumo, tanto aqui como alhures, a despeito das ações emergenciais, a regulação do sistema financeiro volta a ser um tema crucial.
(*) Professor Titular do Instituto de Economia e Pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da UNICAMP

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Os antecedentes da tormenta

Ao examinarmos todo o período do pós-guerra, este por certo é o momento de maior fragilidade na administração da economia capitalista. Está claro que os efeitos deste novo capítulo da crise, deflagrado pelo estouro da bolha imobiliária, não desacelera apenas a economia norte-americana. O lubrificante da desregulação parece ter esgotado a capacidade de azeitar a engrenagem do sistema. A análise é de Luiz Gonzaga Belluzzo.

Luiz Gonzaga Belluzzo

 

O crescimento da última década foi celebrado como a expressão de um triunfo inexcedível da experiência capitalista dos Estados Unidos sobre o resto do mundo. Avaliações peremptórias não hesitaram em apontá-la como superior não só à experiência socialista, como também a de outros tipos de capitalismo, como o japonês e os modelos europeus de sociedade e de economia. (1)
O crescimento desse período teve início na segunda metade de 92, foi lento até mais ou menos 1995/1996 e, paradoxalmente, começou a se acelerar após as crises mexicana, asiática e brasileira. Em boa medida a economia norte-americana se nutriu das crises na periferia do sistema para ganhar nervos e musculatura. O período que vai do final dos anos 70 até esse salto, marca uma lenta recuperação do poderio econômico, militar e financeiro dos Estados Unidos. Ele se fez não só com a derrota política e econômica da URSS, mas também com a imposição do padrão capitalista norte-americano e, sobretudo, do capital financeiro do país às demais nações.
Desde os anos 70, os Estados Unidos já vinham abandonando certas referências que marcaram seu crescimento no pós-guerra, bem como desmontando regras prudenciais de gestão financeira adotadas a partir dos anos 30 e consolidadas durante o esforço bélico. Tais características haviam contribuído significativamente para a recuperação da Europa no pós-guerra, além de abrirem espaços para a industrialização de países do Terceiro Mundo. A existência de um bloco socialista competindo com o capitalismo foi igualmente decisiva na ampliação das oportunidades de desenvolvimento no planeta.
O modelo pós-II Guerra
É importante lembrar que a direção política do capitalismo estadunidense nesse período era bem mais heterogênea do que a atual. Havia, por exemplo, dentro do governo Roosevelt, uma fração muito importante do Partido Democrata que preconizava um futuro salvaguardado pela aliança entre os Estados Unidos e a União Soviética. O inimigo verdadeiro, desse ponto de vista, seria o velho imperialismo europeu, o que explica, em parte, as dificuldades do representante inglês em Bretton Woods, John Mayanard Keynes, para viabilizar suas propostas de reforma do sistema monetário internacional.
Ao contrário do que ocorreu no final da I Guerra Mundial, porém, e que levou à crise do capitalismo desregulado de então, cujo ápice foi a Depressão de 29 e dos anos 30 - em 1944 os EUA tomaram a decisão política de não repetir os erros do passado. O Plano Marshall e o impulso dado à reconstrução européia para a unificação econômica, foram decisivos para as economias alemã e a francesa se rearticularem. Da mesma forma, o financiamento norte-americano foi o divisor que permitiu a reconstrução econômica japonesa.
A impressão dominante naquele momento era a de que o capitalismo estava diante de um sólido e prolongado ciclo de expansão à salvo das flutuações cíclicas violentas inerentes à sua dinâmica de crescimento. Novas formas de regulação e controle do sistema haviam sido introduzidas sob o impulso de forças sociais que emergiram ao final da Guerra, entre elas os partidos comunistas, que tiveram papel relevante na definição das estratégias de reconstrução do capitalismo europeu.Entre as principais características dessa nova institucionalidade estava a admissão de que o Estado, obrigatoriamente, deveria promover a regulação do ciclo econômico.
Os Estados nacionais passaram então a se apropriar e a dispender uma fatia do produto nacional muito superior àquela observada nos anos 20. O maior controle público sobre o excedente evitaria que as flutuações do ciclo econômico redundassem em ajustes baseados na contração quase automática da renda e do emprego como ocorrera até 1929. A segunda característica associada às coligações sociais e políticas que emergiram nesse período foi o crescimento do salário real e dos benefícios sociais, paralelamente ao aumento da produtividade do trabalho. (2) Um terceiro pilar fundamental de sustentação dessa arquitetura foi a instituição do controle dos movimentos de capitais entre os países, sobretudo dos capitais de curto prazo.
Vale lembrar que a reforma que Keynes e Dexter White tentaram aprovar em Breton Woods envolvia, grosso modo, as seguintes balizas: o dinheiro internacional seria simplesmente uma moeda de conta, permitindo que os países trocassem mercadoria por mercadoria. O dinheiro funcionaria assim apenas como referência de cálculo. Os países que tivessem déficit registrariam num banco internacional, em sua conta, a dívida com os demais. A compensação entre os déficits e superávits tornaria desnecessário saldar dívidas através de movimentos de capitais de curto prazo. Keynes, a partir da experiência nefasta dos anos 20, estava convencido de que não era prudente delegar aos mercados a regulação do fluxo monetário internacional. Tampouco eles deveriam assumir a responsabilidade pelo fornecimento de liquidez aos países que porventura registrassem déficit na balança de pagamentos.
Como se sabe, esse sistema não foi aceito em sua totalidade nem pelos Estados Unidos, nem pela Inglaterra. Mesmo assim o acordo de Bretton Woods permitiu que os países controlassem suas contas de capital, proporcionando-lhes maior autonomia na fixação das políticas monetária e fiscal. A prerrogativa de proibir a entrada e a saída de capitais manteve-se até meados da década de 80, inclusive no Brasil, garantindo certo grau de proteção à política econômica contra ondas de volatilidade e movimento especulativo no plano internacional. Ao contrário do que ocorre hoje, caso houvesse uma crise na Bolsa de Nova York, os governos não tinham que elevar a taxa de juro– dispunham de instrumentos para impedir que os efeitos da turbulência fossem integralmente internalizados.
O que se verifica neste dias é exatamente o oposto. Capitais se movem livremente pelo planeta apostando na desvalorização das moedas; promovendo chantagem explícita contra políticas de juro baixo; ou ainda tomando posição nos mercados à vista, ou de contratos futuros, contra economias supostamente dotadas de moedas frágeis. Se esses mercados funcionam livremente, a especulação é inevitável - por definição, eles são mercados especulativos. (3) Falar em controle de capitais tornou-se um anátema a partir dos anos 70– pelo menos foi assim até a emergência da nova crise acionada pelo estouro da bolha imobiliária nos EUA. Na verdade, os grandes protagonistas do processo econômico, a grande empresa internacional e os grandes bancos, frequentemente ganham mais dinheiro no mercado financeiro do que na produção de mercadorias.
Quando uma empresa está localizada em vários mercados, como ocorre hoje, poderá ter um ganho fenomenal se estiver bem posicionada diante de uma alteração cambial –o que não é difícil considerando-se que têm acesso a boas informações e relações estreitas com grandes bancos. Em caso de aposta equivocada, todavia, as perdas, como estamos vendo, podem assumir contornos sistêmicos imprevisíveis.
Para os reformadores de Bretton Woods a estabilidade do câmbio e dos juros era fundamental para a tomada de decisão na esfera produtiva do capitalismo. Uma decisão de longo prazo, como é o caso de um grande investimento, requer um horizonte razoável de segurança e para isso duas taxas devem oferecer certo grau de previsibilidade: a taxa de juros e a taxa de câmbio. Esses são dois preços-chave da economia que informam fundamentalmente a decisão capitalista: a taxa de juros indica qual é a conveniência do detentor da riqueza mantê-la sob a forma de capital monetário ou investi-la sob a forma produtiva, ou qualquer outra forma. Para isso a estabilidade da taxa de juro em um patamar moderado é fundamental. (4) No caso da taxa de câmbio, o que se espera é que ela amplie o horizonte de paridade entre o dinheiro particular – as moedas nacionais – e a moeda de referência mundial. Se esses preços flutuam erraticamente, a decisão do capitalista torna-se totalmente desordenada.
A lógica do controle dos capitais que prevaleceu nos anos 50/60, permitiu que as economias pudessem crescer de maneira mais ou menos equilibrada gerando, não por acaso, aquilo que se convencionou chamar de milagre alemão, milagre japonês, milagre italiano…Tudo ancorado na arquitetura de um capitalismo domesticado, quer dizer, do capitalismo controlado politicamente pela intervenção do Estado em cada país. Essa institucionalidade impediu que fossem reproduzidas as crises dos anos 20, e mesmo as crises do final do século XIX em boa parte do século XX.
Fim de um modelo
A partir do final dos anos 60, essa arquitetura começa a ruir por conta do agravamento de um defeito de origem fundamental na sua engrenagem: a moeda internacional utilizada nesse arranjo era a moeda de um país, o dólar norte-americano. Políticos e técnicos que participaram dos debates de Bretton Woods já haviam identificado os limites dessa ambigüidade.
Somente enquanto essa moeda fosse emitida de maneira moderada, haveria possibilidade de ser aceita pelas demais nações como referência internacional. Embora o fetiche da moeda seja conhecido, a verdade é que ela não tem vida própria, mas reflete um fenômeno social. Sua legitimidade como meio de troca e reserva de valor só subsiste na medida em que figurar aos olhos da sociedade como representação efetiva da riqueza existente.(5)
A partir de meados dos anos 60 esse predicado começou a desbotar nas notas de dólar. A moeda norte-americana passou a se enfraquecer em conseqüência do papel exercido pelo país como polícia do mundo ocidental, o que obrigava o Tesouro a um dispêndio de moeda muito superior ao que seus parceiros estavam dispostos a aceitar.
Apesar da prosperidade geral – e aqui é importante lembrar que 1968 foi um ano de grande prosperidade e esta durou até 1973 – os europeus começaram a contestar a universalidade do dólar, ou o seu papel como representante da riqueza universal. Os primeiros a contestar foram os franceses. No seu entender, o volume de dólares injetado nos mercados pelos EUA excederia o total demandado para as trocas internacionais e os negócios financeiros, conforme havia sido acordado em Bretton Woods. O presidente De Gaulle inicia então a trocar dos dólares excedentes pelo ouro de Fort Knox. Em resposta, em 1971, Nixon, então presidente dos Estados Unidos, declara unilateralmente a inconversibilidade e o fim do padrão concertado em Bretton Woods.
Entre 1968 e 1971, na crise do dólar, começa a se formar o chamado Euro Mercado, cuja característica notável era a expansão de negócios financeiros fora dos controles prudenciais das autoridades monetárias. Sua emergência reflete o excesso de gastos e o déficit da balança de pagamentos norte-americanos. Quando o Banco da Alemanha, um banco central clássico e ortodoxo, acumulava excedentes em sua balança de pagamentos, deslocava o excesso de dólares e o redepositava no Euro Mercado. Essa foi uma das razões do chamado milagre econômico brasileiro, em pleno regime ditatorial.
A farta liquidez externa incentivou o Brasil a se endividar maciçamente em dólar no Euro Mercado, cujas taxas de juros eram convidativas – da ordem de 6% ao ano. Na época, entretanto, esse mercado era relativamente pequeno; só alguns países em desenvolvimento tinham acesso a ele.
Quando os norte-americanos declararam a inconversibilidade, em 1971, e permitiram a flutuação cambial em 1973 (até então, as taxas de câmbio eram fixas e administradas pelo FMI, sendo preciso sua licença para a desvalorização de uma moeda), desencadeou-se a flutuação geral das paridades. Esse foi um dos fatores que deflagrou o aumento do preço do petróleo, fixado em dólares.
Durante toda a década de 70 houve grande controvérsia sobre a substituição do dólar como moeda de reserva, sendo feitas várias tentativas nesse sentido. Os Estados Unidos saíram da guerra do Vietnã derrotados política e militarmente. Foi um período em que se anunciava urbi et orbi o fim da hegemonia norte-americana, o esgotamento de seu poder e a possível substituição da supremacia dos EUA pela da Alemanha. Em 1979, no entanto, na reunião do FMI realizada em Belgrado, os Estados Unidos reafirmaram a hegemonia do dólar posta em xeque pelos interesses europeus.
Primeiro, o governo norte-americano elevou brutalmente as taxas de juros, promovendo a valorização do dólar a ponto de explodir o déficit fiscal do país. Em seguida, Reagan promoveu uma redução de impostos que favoreceu os ricos e a classe média mais alta. Depois, em 1981/1982, iniciou-se a reversão do ciclo de alta dos juros. O declínio das taxas deflagrou um vigoroso ciclo de consumo e de importações na economia norte-americana. Japão, Coréia e Taiwan foram os grandes provedores desse mercado até 1985. O Japão conseguia superávits monumentais à custa dos déficits dos EUA. O que permitia uma dieta pantagruélica ao consumo norte-americano, sem qualquer problema adicional de balança de pagamento, era o fato de deter o controle da moeda de reserva, ou seja, deter a prerrogativa de pagar seu déficit em dólar, e o mundo, de novo, aceitar.
A diferença em relação ao cenário dos anos 70 é que os Estados Unidos passaram a financiar o seu déficit emitindo papéis do Tesouro, como uma espécie de colchão de liquidez. Quando ocorreu a crise da dívida externa na América Latina, devido ao aumento na taxa de juros, o déficit fiscal norte-americano permitiu que os bancos limpassem de seus balanços os créditos podres latino-americanos. Ou seja, a exemplo do que se faz hoje em escala turbinada por um grau de incerteza e de imprudência inéditos, trocaram-se ativos podres por títulos com liquidez de mercado assegurada – e naquele momento a taxas de juros mais convidativas que as atuais. Foi assim que o déficit do Tesouro salvou os bancos norte-americanos enquanto os mais precipitados anteviam a quebra da maior economia do mundo. Como se sabe, tal não ocorreu. Os bancos privados carregaram papéis da dívida norte-americana em suas carteiras, utilizando-os como um mecanismo de transição para o ajuste do sistema financeiro privado. Se o governo dos EUA não tivesse feito um déficit (do tamanho daquele feito por Reagan) e se não tivesse emitido dívida pública, os bancos norte-americanos teriam quebrado.
Os Estados Unidos salvaram seu sistema bancário, ao mesmo tempo em que se transformaram – de credores globais desde o final da I Guerra Mundial – em devedores globais (a dívida pública norte-americana, que em 2001 era de três trilhões de dólares, deve saltar nesta crise de 2008 para algo como dez trilhões de dólares). Os anos 80 foram marcados por essa mudança de posição, em que parecia que os bancos japoneses, por exemplo, iriam superar – e superaram em volume de depósitos internacionais – os bancos norte-americanos.
Durou pouco essa impressão. Em 1985, quando a coisa estava indo longe demais, os Estados Unidos fizeram as famosas reuniões do Louvre e depois do Plaza, que deram origem ao G7. Nessa rodada de peixes grandes os EUA comunicaram que a valorização do dólar fora longe demais. O déficit do país estava exagerado e a indústria norte-americana não suportaria mais a carga da perda de competitividade internacional.
Arremataram anunciando que chegara a hora de seus parceiros assumirem o ônus de reverter esse quadro unilateralmente. Curto e grosso, obrigaram o ien e o marco a se revalorizarem em relação ao dólar, sem que os EUA tivessem que elevar suas taxas de juros para isso.
Foi o início da longa crise japonesa. O Japão foi obrigado a cortar custos, a reduzir lucros e salários de suas empresas. Com o ien excessivamente valorizado, e as moedas dos vizinhos asiáticos ainda desvalorizadas face ao dólar, os investimentos japoneses se deslocaram para o Sudeste Asiático. Isso explica o aparecimento da segunda geração de Tigres Asiáticos – Cingapura, Malásia, Tailândia, resultado da expansão regional do capitalismo japonês .
A partir dessas plataformas as empresas japonesas retomaram a capacidade de exportar para os Estados Unidos. O Japão criou laços profundos com o Sudeste Asiático, mas acabou nocauteado no começo dos anos 90. Os parceiros asiáticos continuaram a crescer até a nova crise de 1997 (recuperarando-se depois, mas de maneira frágil).
Os EUA no centro da crise
Apesar de ter crescido a partir de 1995/1996, a taxa média de expansão da economia norte-americana na década de 90 foi inferior ao desempenho médio verificado entre os anos 50/60. O mesmo ocorreu com a maioria dos demais países: na era dos mercados financeiros desregulados as taxas de crescimento foram muito inferiores às do período anterior, o do capitalismo domesticado, por qualquer critério de comparação (taxa de crescimento, expansão do emprego, crescimento dos salários reais…).
No período Reagan, com a valorização do câmbio, o investimento cresceu muito pouco; sendo basicamente um ciclo de expansão apoiado em consumo. No período mais recente, assistimos a um ciclo de investimento e de consumo com brutal concentração de capital – não só na área produtiva, mas também na área financeira. A contrapartida desse processo, fortemente impulsionado pelo crédito, foi um elevado grau de endividamento do setor privado (famílias e empresas), que alcançou o nível mais alto do pós-guerra.
A valorização crescente do mercado de ações pode servir como fita métrica desse endividamento. Ela exprime a riqueza fiduciária que as famílias e as empresas pensam ter. Na medida em que as ações se valorizaram, famílias e empresas adquirem mais papéis e ações; imaginando que sua riqueza patrimonial se elevou, elas se endividam ainda mais– com as ações servindo como garantia (mais recentemente o mecanismo se transferiu para a valorização do mercado imobiliário). Bancos livres das regras prudenciais acumulam ativos de empréstimos a famílias ancoradas em uma base patrimonial anabolizada especulativamente.
Quando ocorre a correção de preços e o valor das ações cai, quem tem dívida em dólares vê seu patrimônio murchar drasticamente – diz-se desinflou o patrimônio. A poupança das famílias norte-americanas hoje é igual a zero (não poupam nada da sua renda); seu patrimônio líquido perde valor; os ativos que eles possuem estão se desvalorizando e o passivo fixado em dólares cresce e engorda.
Essa, na verdade, é a raiz da crise norte-americana presente desde 2001. Na medida em que as empresas vêem que a relação dívida/patrimônio aumentou muito, elas cortam investimento, e as famílias, seu consumo. Na ponta dessa convergência salta o desemprego, que tende a se agravar com a contração do crédito e da renda. Na medida em que o desemprego aumenta a tendência é um novo degrau de corte de gastos, o que leva a um nova rodada de demissões…
Uma das razões pelas quais os Estados Unidos conseguiram sustentar o padrão de crescimento, via endividamento, foi a capacidade de atrair capitais excedentes de todo o planeta – o Brasil hoje é o quarto maior investidor em títulos do Tesouro norte-americano, sendo a China o primeiro. Ninguém sabe até quando esse processo vai se sustentar. Até agora, a Bolsa cai, as taxas de juros declinam e a economia se desacelera, sem que haja uma fuga expressiva de capitais –ao contrário registra-se até um movimento inverso, uma busca de proteção, com investidores adquirindo papéis do Tesouro a uma taxa de remuneração inferior à inflação.
Qual é o limite dessa engrenagem? Ao examinarmos todo o período do pós-guerra, este por certo é o momento de maior fragilidade na administração da economia capitalista. Está claro que os efeitos deste novo capítulo da crise, deflagrado pelo estouro da bolha imobiliária, não desacelera apenas a economia norte-americana . Será preciso acompanhar a extensão e a profundidade dessa desaceleração sobre o mercado global para uma avaliação mais exata dos seus desdobramentos históricos para a economia capitalista. O certo, porém, é que o lubrificante da desregulação parece ter esgotado a capacidade de azeitar a engrenagem do sistema.
* Luiz Gonzaga Belluzzo é Professor-titular do Instituto de Economia
da Unicamp

Notas
(1) Nos anos 80 estava em voga se falar da excelência do capitalismo japonês, sua diferença e maior dinamismo. Mas essa ilusão com a possibilidade de a hegemonia norte-americana ser substituída por um outro país capitalista foi dissipada já em meados dos anos 80 – exatamente em 1985 –, quando os Estados Unidos forçaram a desvalorização do dólar e obrigaram o Japão a revalorizar o ien; portanto, a encarecer as suas exportações. Obrigaram-no também a abrir financeiramente sua economia. Com isso, impuseram ao Japão o começo de sua maior crise econômica do pós-guerra, e que não conseguiu superar até hoje. A economia japonesa praticamente não cresceu ao longo da década de 90, viveu uma recessão permanente, com pequenas recuperações, mas, nos dez anos que a economia norte-americana cresceu acima da média, ou acima de sua média histórica, o Japão cresceu significativamente abaixo de sua média histórica.
(2) Comparando-se o aumento de produtividade do imediato pós-guerra com o aumento de produtividade do trabalho de agora, mesmo nos Estados Unidos, vê-se que a média foi maior no imediato pós-guerra – coisa que a imprensa não diz!
(3) Especulativos não no sentido popular da palavra. São especulativos porque fazem aposta a partir de uma conjetura sobre o que vai acontecer com o valor de uma denominada moeda, o que vai acontecer com a taxa de juros.
(4) Não é por acaso que, em O Capital, Marx fecha o modelo com o capital a juros. Muitos leitores pensam que ele deixou o capital a juros para o fim porque era menos importante. Mas não é. Porque o capital a juros é a forma acabada – a forma mais aperfeiçoada, como ele diz – do capital, em que este se reproduz a si mesmo. E porque o capital a juros determina as condições de concorrência no mercado capitalista – que sinaliza quais são os capitais que vão sobreviver e quais vão soçobrar.
(5) Vemos na hiperinflação o que acontece: todo mundo foge da moeda, porque não há mais a confiança de que ela possa representar o padrão de medida de troca e de reserva de toda a riqueza existente. Portanto, é um fenômeno quase que convencional, uma convenção consolidada no espírito das pessoas. Não tem nada a ver com a materialidade ou a forma que assume.

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Imprensa cubana questiona se Obama promoverá "reais mudanças"

Havana (Cuba) - Os meios de comunicação oficiais cubanos destacaram o triunfo do democrata Barack Obama nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, mas põem em dúvida uma real "mudança".
O tablóide "Granma", porta-voz oficial do governante Partido Comunista, dedicaram à eleição americana uma de suas oito páginas e um quadro em primeira plano, ambos com o título "Obama na Casa Branca", logo após as eleições nos EUA. Na legenda da foto do futuro presidente pergunta: "O candidato da mudança?".
O jornal acrescenta que Obama chegou ao pleito "com o respaldo da classe dominante dos Estados Unidos" e "da maioria do ‘establishment’ democrata". Sobre o derrotado candidato republicano, John McCain, o "Granma" comenta que "a explosão da crise financeira representou o fim da linha" para suas aspirações.
A agência estatal "Prensa Latina" destacou que Obama "será o primeiro afro-descendente a ocupar a presidência" de seu país, "que herda com suas principais estatísticas no vermelho e enormes desafios".Os discursos de Obama "foram os mais ousados ao abordar assuntos domésticos e de política externa, embora sem sair dos limites do chamado ‘establishment’", afirmou.
O jornal "Juventud Rebelde" abre com o título "Barack Obama, presidente dos Estados Unidos", e segue com o subtítulo "John McCain lhe concede o triunfo em discurso em que chamou à unidade". O diário destaca que estas eleições foram as mais caras dos EUA (US$ 2,4 bilhões).
Toda a imprensa da ilha publicou ontem um artigo do convalescente ex-presidente Fidel Castro, em que voltou a louvar a Obama e atacar a McCain. "A preocupação com os problemas do mundo não ocupa realmente um lugar importante na mente de Obama, e muito menos na do candidato que, como piloto de guerra, descarregou dezenas de toneladas de bombas sobre a cidade de Hanói (…) sem remorso algum de consciência", escreveu Castro.
Até agora, no entanto, o governo cubano, que desde fevereiro é chefiado pelo general Raúl Castro, irmão de Fidel, não se pronunciou sobre a vitória de Obama. (Da Agência EFE, em Havana)

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Fidel diz que Obama se equivocará se persistir com bloqueio a Cuba

O ex-presidente cubano Fidel Castro afirmou na última sexta-feira (07/11) que se os Estados Unidos, que acabam de escolher o democrata Barack Obama como próximo presidente, mantiverem o embargo comercial que impõem à ilha desde 1962 seguirão com uma "política inútil" por mais meio século.
"Há quem ainda sonhe em colocar Cuba de joelhos, mostrando o criminoso bloqueio como instrumento de política externa dos Estados Unidos contra nossa pátria", disse o ex-presidente em um novo artigo divulgado pela imprensa oficial.
"Se esse país (EUA) voltar a cair em tal erro, poderá permanecer por mais meio século aplicando essa política inútil com relação a Cuba, caso o império consiga durar tanto tempo", assegurou Fidel, de 82 anos, sem mencionar o nome do novo governante americano.
O líder cubano também comentou em seu artigo sobre o furacão "Paloma", que se aproxima de Cuba, e disse que rejeitará novamente a ajuda oferecida pelo presidente em fim de mandato dos Estados Unidos, George W. Bush.
"Novamente teremos uma conduta digna se o chefe do império que foi o principal impulsor do bloqueio genocida contra nossa pátria oferecer outra uma vez piedosa ajuda. Com segurança ela será rejeitada", afirmou.
"O que nosso povo exige é o fim do bloqueio contra Cuba, e agora mais que nunca, quando a exigência é unânime em toda a comunidade internacional, em meio à crise financeira que castiga todos os países do planeta, desenvolvidos ou em desenvolvimento", acrescentou Fidel. (Da Agência EFE, em Havana)

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Uma crise à procura de um Bretton Woods

 

 

UMA CRISE À PROCURA DE UM BRETTON WOODS

O que esperar do G-20?

Até que ponto os EUA estariam dispostos a aceitar uma regulação dos fluxos de capitais internacionais cujo efeito seria restringir a globalização financeira? Isto significaria limitar o poderio do dólar, lastreado na dimensão e diversificação dos seus mercados financeiros, garantido em última instancia pelo poder das armas. Seria razoável admitir que os EUA optariam por enfraquecer a sua moeda sacrificando-a ao altar da cooperação internacional? A análise é de Ricardo Carneiro.

 

 

       Ricardo Carneiro

A reunião dos chefes de estado das vinte maiores economias do mundo, a ser realizada em Washington neste final de semana, tem despertado esperanças de mudanças no quadro econômico global e no desenrolar da crise financeira. O fato da iniciativa ter partido do presidente americano, cuja economia, além de epicentro da crise tem um papel central no ordenamento econômico-financeiro internacional, indica sua relevância. Mas, há possibilidade real de encaminhamento de mudanças capazes de alterar de modo significativo as relações econômicas que caracterizaram a globalização?
Para analisar essas possibilidades comecemos com uma distinção na natureza das questões envolvidas. De um lado, temos os problemas de curto prazo de como lidar com o aprofundamento imediato da crise e de outro, assuntos de maior profundidade relativos à construção de uma ordem internacional mais estável e harmônica. Nesses dois planos, cruciais para chegar a um encaminhamento de saídas menos traumáticas e soluções duradouras, os EUA têm demonstrado uma postura distinta dos demais países.
Tomemos a questão mais imediata referente a como evitar o aprofundamento da crise. Aparentemente, os EUA seguiram o padrão dos demais países, pois o eixo da ação foi ampliar a liquidez e evitar o colapso do sistema financeiro. Mas as distinções da forma das ações foi essencial: a Europa preferiu a ação direta, assumido parte da propriedade dos bancos, enquanto os EUA só aderiram a esse princípio relutantemente. Na Ásia em desenvolvimento, o padrão de intervenção é distinto porque, exceto no Japão, o peso do sistema financeiro estatal é muito expressivo.
As ações de liquidez, se bem coordenadas terão como resultado evitar que a crise se aprofunde por meio da perda de valor ainda maior dos títulos, ou seja, a denominada deflação de ativos. Essa perda de riqueza financeira e imobiliária não é inócua, pois o número de participantes do jogo era muito elevado, sobretudo nos EUA. Assim, as empresas e as famílias estão se vendo diante de uma nova realidade; sua riqueza diminuiu enquanto as dívidas permaneceram. Logo, a reação natural será contrair os gastos de consumo ou investimento para pagá-las.
Para compensar o aperto do gasto privado e evitar uma recessão profunda há apenas uma ação eficaz: a elevação dos gastos públicos. Novamente, a postura dos EUA tem sido diferente dos demais países. A Europa, com a França em destaque anunciou uma ampliação expressiva do investimento público. Para não falar da China cujo acréscimo dos gastos públicos da ordem de US$ 600 bilhões é o mais significativo. Essa diferença de postura deverá conduzir a trajetórias distintas na resposta a crise acentuando o desempenho diferenciado dessas economias.
No plano estrutural, o conjunto dos países do G-20, – exceto os EUA – tem defendido a necessidade de uma maior regulação do sistema financeiro. Na prática isso significaria ampliar o controle do Estado sobre os preços-chave do sistema capitalista – taxas de juros e de câmbio – e limitar as ações especulativas nos mercados de títulos evitando a formação de bolhas. Para fazer isto não basta regular os sistemas financeiros nacionais. Dada a sua interligação, a ação para ser efetiva necessita alcançar o plano internacional, ou seja, deverá atingir os fluxos de capitais internacionais impedindo a evasão aos controles domésticos.
Até que ponto os EUA estariam dispostos a aceitar uma regulação dos fluxos de capitais internacionais cujo efeito seria restringir a globalização financeira? Isto significaria limitar o poderio do dólar, lastreado na dimensão e diversificação dos seus mercados financeiros garantido em última instancia pelo poder das armas. Prospectivamente, é possível imaginar uma perda de importância relativa da economia e moeda americanas, em razão do desempenho diferenciado das economias. Mas, seria razoável admitir que os EUA optariam por enfraquecer a sua moeda sacrificando-a ao altar da cooperação internacional? Essa opção não parece crível. O mais provável é que a ação proposta pelos EUA escamoteie algumas questões centrais apontando para a ampliação do peso das soluções nacionais ou regionais no desdobramento da crise.
* Professor Titular do Instituto de Economia e Pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da UNICAMP.

Por: Carta Maior

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Chávez pede a Obama que esqueça empenho americano de dominar o mundo

Os Estados Unidos, no governo do presidente eleito Barack Obama, devem esquecer o empenho de "dominar o mundo" e se concentrar em trabalhar com harmonia com outros países, pediu nesta terça-feira o presidente venezuelano Hugo Chávez.
"Daqui envio uma mensagem ao presidente eleito dos Estados Unidos, o senhor Barack Obama: que ocupe seu lugar na história e esqueça o imperialismo, o empenho dos Estados Unidos em dominar o mundo, atropelar povos, bombardear repúblicas e nações e derrubar presidentes", disse Chávez.
O venezuelano manteve relações tensas com o governo de George W. Bush e chegou a expulsar, em setembro, o embaixador americano de Caracas. Apesar disso, Chávez reiterou que confia que Obama vai "assumir uma posição de dignidade e respeito ao mundo".
Chávez aproveitou para, mais uma vez, para mandar um recado agressivo ao atual presidente dos EUA."Cala a boca Bush (…) Já não tem nada a dizer", afirmou. (Da France Presse, em Caracas)

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As frases de Lula sobre a crise

 

Para enganar o povo e surfar na popularidade, Lula fez de conta que a crise era inofensiva, mas agora parece que mudou de tom. Confira as frases dita por Lula sobre a crise:

30 de março de 2008:"Bush, meu filho, resolve a sua crise"

17 setembro 2008: "Que crise? Pergunta para o Bush"

29 de setembro de 2008: "O Brasil, se tiver que passar por aperto,será muito pequeno"

30 de setembro de 2008:"A crise é muito séria e tão profunda que nós ainda não sabemos o tamanho"

22 de setembro de 2008:"Até agora, graças a Deus, a crise não atravessou o Atlântico"

4 de outubro de 2008:"Lá, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai ser uma marolinha, que não dá nem para esquiar"

5 de outubro de 2008: "Queremos que esse tema da crise seja levado ao Congresso"

8 de novembro de 2008: "Ninguém está a salvo e todos os países serão atingidos pela crise"

chargemarola

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