Arquivo de 19 de Novembro de 2008

Luis Nassif: Os caminhos da recessão

 

A recessão tornou-se global. Na verdade, o que houve esta semana foi apenas a comprovação estatística do que já se sabia. Os dados mostraram o segundo trimestre do chamado “crescimento negativo” (eufemismo para queda) da economia japonesa, alemã, britânica, americana.

Por Luis Nassif, em seu blog

A maneira como a recessão se transmite para outras economias é através de dois canais. O primeiro, o canal do comércio. Uma grande economia entra em recessão. Cai o consumo interno e, com ele, as importações – isto é, as vendas de outros países.

O segundo canal é o do crédito. Com menos dinheiro disponível, são afetados o financiamento das exportações e também o crédito interno das economias mais abertas.

No caso brasileiro, a economia será afetada da seguinte maneira:

1. Com menos crédito, haverá menos consumo. Menos consumo resultará em menor produção. Menor produção levará a menor emprego. Menor emprego a menor consumo.

2. Parte da queda de consumo interno será compensada pela desvalorização do real. As importações ficarão mais caras e haverá alguma substituição por produção interna. Ou seja, a queda das importações deverá ser maior do que a queda do consumo, amenizando um pouco a queda da produção interna.

3. Do lado das exportações, a desvalorização cambial aumentará a competitividade das exportações brasileiras. Mas haverá uma redução substancial na renda agrícola – por conta da redução das cotações e do consumo internacionais; e pelos efeitos da interrupção do crédito. E levará algum tempo para que haja uma reação das exportações de manufaturados, justamente pela crise mundial e pelo tempo que leva para recuperar mercados perdidos no período de apreciação do real.

Na outra ponta, as forças anti-cíclicas (anti-recessão) se concentrarão nos seguintes pontos:

1. Manutenção dos gastos públicos, tanto nos investimentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) quanto na política de transferências – Bolsa Família e Previdência Social. O setor privado investe e produz quando há garantia de mercado. O PAC garante investimentos em equipamentos e as políticas sociais consumo de bens não-duráveis.

2. Tentativa de recomposição de parte do crédito que evaporou.

Em cima desses pontos, há questões macro-econômicas relevantes, a serem tratadas. A principal delas é a volta dos déficits no balanço de pagamentos.

As transações correntes (tudo o que entra e sai em dólares fora do mercado financeiro) eram positivas. Ficaram gradativamente negativas, mas o rombo era compensado pelas expectativas de entrada de investimentos externos.

Agora, as projeções do mercado (através da pesquisa Focus) indicam gradativamente um aumento no déficit do balanço de pagamentos. Ou seja, o déficit nas transações correntes não serão compensados pelos investimentos externos.

Esse ponto explica, em parte, as pressões sobre o dólar, mesmo depois que as empresas que tinham especulado com derivativos deixaram de pressionar o mercado. Ainda não se sabe o resultado final na balança. Há condições objetivas da crise brasileira ser menor que a dos países centrais.

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Quem vai pagar a conta da crise?

Ivan Valente

Nas últimas semanas as maiores economias capitalistas despejaram quase três trilhões de dólares para salvar instituições financeiras. O esforço coordenado, apesar da aparência, não deve nos enganar. Não se trata da ação dos Estados a fim de enfrentar a ditadura do capital financeiro. O que ocorreu é a demonstração de um nível jamais vista de articulação entre capital e governos e o entrelaçamento desses interesses em escala mundial.

Enquanto a crise deverá resultar em pelo menos 200 milhões de desempregados em todo o globo, em poucas horas as principais economias capitalistas despejaram recursos às instituições financeiras suficientes para salvar milhões de homens, mulheres e crianças da fome, da doença, da falta de saneamento básico e de educação.

Nos EUA se praticou uma velha modalidade já conhecida por nós brasileiros: a socialização dos prejuízos depois de um tempo em que o capital financeiro alcançou ganhos insustentáveis, especulou com a vida de milhões, correu riscos desmesurados arrastando parcelas dos mais pobres que agora se vêem sem casas e economias. Trata-se como diria David Harvey, geógrafo, de uma forma de “acumulação por despossessão” que espolia os mais pobres e os transforma em nova fronteira de acumulação capitalista.

Assim, no centro do império quem paga a crise são os mais pobres como mostram as imagens daqueles que perderam suas casas e são arrastados pelo turbilhão desta economia de pirâmide.

E no Brasil? Quem pagará a conta desta crise?
As primeiras medidas enviadas ao Congresso mostram que além de subestimar o tamanho da crise, o governo Lula continua adotando a mesma receita que levou o Brasil a ser um país economicamente vulnerável. E o teor principal é o socorro aos bancos, empreiteiras e ao agronegócios, ao invés de garantir maior segurança aos trabalhadores e aos mais pobres.
A MP 442, que pode ser apelidada de MP dos banqueiros, não protege os correntistas e nem os trabalhadores. A MP, do qual somente o PSOL votou contrário, ao invés de proteger correntistas, garante apenas a liquidez dos banqueiros. Ao deixar de lado instrumentos de fiscalização e regulação dos bancos, a MP 442 deixa aos bancos a tarefa de ampliar o crédito com recursos públicos. Porém, nas mãos dos bancos o crédito se restringe e a injeção de recursos do governo não surte o efeito desejado.

O Fundo Soberano desvia recursos das áreas sociais para financiar empreiteiras brasileiras no exterior e amplia a dívida pública interna.

O governo deveria proteger os trabalhadores e suas famílias, a classe média, os mais pobres que vivem do trabalho e não da renda e costumam ser mais penalizados nessas situações. Por isso nos preocupam as primeiras notícias na imprensa. Para enfrentar a crise a receita das empresas é retrair investimentos, cortar gastos, demitir e aumentar preços.
É o caso da Companhia Vale do Rio Doce que cortou a produção em Minas Gerais e deu férias coletivas por 15 a 20 dias para funcionários dessas unidades. O setor automobilístico anunciou medidas semelhantes: a General Motors e a Ford anteciparam férias coletivas para os trabalhadores de suas fábricas. Pesquisa da FIESP revela que 57% das 658 indústrias consultadas cortarão investimentos e 78% informaram que o acesso ao crédito estava mais caro e difícil. Isso demonstra que sem regulação os recursos que o governo brasileiro destina aos bancos para ampliar o crédito só alimentarão a especulação.

A chamada fusão entre Itaú e Unibanco foi comemorada apenas do ângulo do mercado e já pode ser visto como um movimento de concentração do capital diante da crise financeira. Não apenas os bancários ficam preocupados, pois fusão no mundo capitalista é sinônimo de demissões e reestruturação, como os correntistas não têm garantia alguma que os bancos serão fiscalizados a fim de controlar o valor das tarifas bancárias que, no caso brasileiro, é das mais altas.

O Brasil é dos poucos países que diante da crise mantém os juros em patamares elevadíssimos, ao invés de reduzi-los drasticamente para ampliar a liquidez e contrabalançar a situação de diminuição dos investimentos. O modelo econômico adotado transformou o país em plataforma de valorização financeira do capital e exportador de bens primários. Por isso, a dívida pública é a verdadeira bolsa banqueiro para especuladores de todas as latitudes que vêm ao Brasil para ganhos de curto prazo. Os altos juros retraem investimentos e garantem a permanência desse capital por pouco tempo, o que torna o país mais vulnerável a uma crise cambial.

Diante desse quadro o governo brasileiro poderia caminhar em direção contrária. O Brasil se transformou numa economia de cassino, com os altos juros e exportador de bens primários, num processo novo de reprimarização. A crise internacional coloca a nu o fracasso do modelo, além do próprio sistema.

A crise deveria ser uma oportunidade para o governo mudar esse modelo que pode deixar o país ainda mais vulnerável diante da crise.

O momento seria de baixar drasticamente a taxa de juros, centralizar o câmbio, controlar o fluxo de capitais, reduzir a carga tributária para os trabalhadores e expandir os gastos públicos. Isso resultaria em enfrentar a crise com medidas efetivas, pois a ortodoxia neoliberal já mostrou seu fracasso até mesmo nos países capitalistas centrais.

Pelas primeiras medidas, porém, a política adotada será o continuísmo que privilegia os mesmos de sempre e não enfrenta as bases da vulnerabilidade financeira do país.

Deputado Federal Ivan Valente (PSOL/SP)

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Ivan Valente - deputado federal PSOL/SP

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Feriado da Consciência Negra homenageia Zumbi dos Palmares

Líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi foi morto em 20 de novembro de 1695; apenas 5 capitais celebram data
SÃO PAULO - Mais de 300 cidades vão comemorar o feriado da Consciência Negra na quinta-feira, 20. No Estado de São Paulo, 97 cidades vão comemorar a data. Na Bahia, onde há maior proporção de negros, apenas a cidade de Itaparica comemora a data. Quem trabalha na cidade de São Paulo, no entanto, não vai poder esticar o descanso, já que sexta-feira é dia de expediente normal. Em Campinas, o feriado poderá ser prolongado porque o dia 21 é ponto facultativo.
Das 27 capitais, apenas São Paulo, Rio, Manaus, Cuiabá e Maceió instituíram feriado. No Nordeste, onde a maioria da população é negra ou parda, seis cidades fazem recesso. Embora a Bahia seja proporcionalmente o Estado com mais negros, há somente um município que reconhece o dia. Em Salvador, Zumbi é lembrado com programações especiais, mas os baianos trabalham. “Para que as cidades comemorem o dia, é necessário ter movimentos negros fortes”, afirma a vice-presidente da Sociedade Afro-brasileira de Desenvolvimento Sociocultural (AfroBras), Ruth Lopes.
História do feriado
O feriado lembra a morte de Zumbi dos Palmares - no ano de 1695. Zumbi foi um dos líderes do Quilombo dos Palmares, o mais conhecido núcleo de resistência negra à escravidão no Brasil. Segundo cronologia publicada no site da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Palmares surgiu a partir da reunião de negros fugidos da escravidão nos engenhos de açúcar da Zona da Mata nordestina, em torno do ano de 1600. Eles se estabeleceram na Serra da Barriga, onde hoje é o município de União dos Palmares, em Alagoas. Ali, devido às condições de difícil acesso, puderam organizar-se em uma comunidade que, estima-se, chegou a reunir mais de 30 mil pessoas.
Muitos dos quilombolas eram índios e brancos pobres, segundo o site da Fundação Joaquim Nabuco, outro órgão federal, com sede em Recife. Nabuco foi expoente do movimento abolicionista. “A vida de Zumbi, o rei do Quilombo dos Palmares, é pouco conhecida e envolta em mitos e discussões”, afirma o texto. Logo, vários dos trechos abaixo são objeto de polêmicas entre os historiadores.
Ao longo do século XVII, Palmares resistiu a investidas militares dos portugueses e de holandeses, que dominaram parte do Nordeste de 1630 a 1654. Segundo o historiador Pedro Paulo Funari, no artigo A República de Palmares e a Arqueologia da Serra da Barriga, em 1644, um ataque holandês matou 100 pessoas e aprisionou 31, de um total de 6 mil que viviam no quilombo.
Funari também afirma que o quilombo era chamado pelos portugueses de República dos Palmares, nos documentos da época, e termos como mocambo foram posteriormente utilizados no sentido pejorativo.
Quilombo dos Palmares
O quilombo era composto por várias aldeias, de nomes africanos, como Aqualtene, Dombrabanga, Zumbi e Andalaquituche; indígenas, como Subupira ou Tabocas; e portugueses, como Amaro; e sua capital era chamada de Macacos, termo de origem incerta. Zumbi nasceu livre, em Palmares, provavelmente em 1655, e, segundo historiadores, seria descendente do povo imbamgala ou jaga, de Angola.
Ainda na infância, durante uma das tentativas de destruição do quilombo, ele foi raptado por soldados portugueses e teria sido dado ao padre Antonio Melo, de Porto Calvo (hoje, em Alagoas), que o batizou de Francisco e ensinou-lhe português e latim. Aos dez anos tornou-o seu coroinha. Com 15 anos, Francisco foge, retorna a Palmares e adota o nome de Zumbi. Aos 20 anos, Zumbi destacou-se na luta contra os militares comandados pelo português Manuel Lopes. Nesses combates, chegou a ser ferido com um tiro na perna.
Em 1678, o governador de Pernambuco, Pedro de Almeida, propõe a Palmares anistia e liberdade a todos os quilombolas. Segundo o historiador Edison Carneiro, autor do livro O Quilombo dos Palmares, ao longo dos quase 100 anos de resistência dos palmarinos, foram inúmeras as ofertas como essa.
Ganga Zumba - possivelmente um título, pois Ganga significa sacerdote e Zumba “possui conotações militares e religiosas”, segundo Funari - então líder de Palmares, concorda com a trégua, enquanto Zumbi é contra, por argumentar que o acordo favoreceria a continuidade do regime de escravidão praticado nos engenhos.
Zumbi vence a disputa, é aclamado pelos que discordavam do acordo e, aos 25 anos, torna-se líder do quilombo. Ao longo da vida, Zumbi teria tido pelo menos cinco filhos. Uma das versões diz que ele teria se casado com uma branca, chamada Maria. Ao longo de seu reinado, Zumbi passou a comandar a resistência aos constantes ataques portugueses.
Em 1692, o bandeirante paulista Domingo Jorge Velho, uma espécie de mercenário da época, comandou um ataque a Palmares e teve suas tropas arrasadas. O quilombo foi sitiado e só capitulou em 6 de fevereiro de 1694, quando os portugueses invadem o principal núcleo de resistência, a Aldeia do Macaco. Ferido, Zumbi foge. Resistiu na mata por mais de um ano, atacando aldeias portuguesas, e em 20 de novembro do ano seguinte, depois de ser traído pelo antigo companheiro, Antonio Soares, Zumbi é localizado pelas tropas portuguesas.
Preso, Zumbi é morto, esquartejado, e sua cabeça é levada a Olinda para ser exposta publicamente. Um dos objetivos de terem feito isso com a cabeça dele, era o de acabar com os boatos que corriam entre os negros escravizados de que o líder quilombola era imortal. (Agência Estado)

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