O som e a fúria - William Faulkner
por Andrea Del Fuego
Escritora
Faulkner fica com cem por cento da liberdade, pois se o leitor não se entrega a ponto de reagir com os personagens, a leitura perde a força e o sentido. É o caso de ‘O Som e a Fúria’.
Faulkner, o gigante, recebeu o Nobel e o Pullitzer. Nasceu no final do século XIX em Mississipi, o estado mais pobre dos Estados Unidos. Morreu lá mesmo em 1964. O autor só saiu de sua cidade em missão pelo Ministério do Exterior dos Estados Unidos, ocasião em que conheceu até mesmo o Brasil em 1954.
Publicado em 1929, ‘O som e a fúria’ conta a história da família Compson. A trama se passa no sul dos EUA no começo do século XX. O livro é dividido em quatro partes, o primeiro narrador é um deficiente mental de 33 anos. O segundo é o irmão dele que, com a grana da venda das terras do deficiente, vai estudar em Harvard. O terceiro narrador é outro irmão, o que segura as pontas da mãe, da casa e é dono de um gênio sombrio. A quarta parte é em terceira pessoa e fala dos empregados. Eles não têm voz própria, eles não narram, são narrados. A família Compson se deteriora a passos largos, sendo a empregada negra a última coluna de sustentação da casa, fazendo parte mas sem pertencer. O livro fecha com um apêndice, um resumo de quem é quem, créditos finais que sobem a tela conectando partes, ligando nome à pessoa, pessoas aos fatos.
Um dado sobre o livro dá a dimensão da narrativa. Em Macbeth, Shakespeare escreve que a vida é “ uma história cheia de som e fúria, contada por um idiota e que não significa nada”. Por isso o título, por isso o primeiro narrador, por isso o destino dessa família.
William Faulkner é um Guimarães Rosa americano. Ou você ama ou você não precisa dele. A comparação também vale pela originalidade, o uso livre da palavra, a crueldade rústica. Em o ‘O som e a fúria’, Faulkner diz roseanamente: “O homem é o somatório de seja lá o que for”. É um autor violento e ousado. Trata-se de um criador tão livre que é impossível alcançá-lo. Em seu discurso na entrega do Nobel, em 1949, ele explica sua fúria em uma frase:
“Eu me recuso a aceitar o fim do homem.”
Andrea Del Fuego
Andréa del Fuego nasceu em São Paulo, em 1975. É autora da trilogia de contos “Minto enquanto posso” (O Nome da Rosa, 2004), “Nego tudo” (Fina Flor, 2005) e “Engano seu” (O Nome da Rosa, 2007, projeto contemplado com a bolsa de incentivo à criação literária da Secretaria do Estado de São Paulo) e do romance juvenil Sociedade da Caveira de Cristal (Scipione, 2007). Integra diversas antologias e mantém o blog www.delfuego.zip.net
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