Arquivo de 21 de Novembro de 2008

O som e a fúria - William Faulkner

por Andrea Del Fuego
Escritora

Faulkner fica com cem por cento da liberdade, pois se o leitor não se entrega a ponto de reagir com os personagens, a leitura perde a força e o sentido. É o caso de ‘O Som e a Fúria’.

Faulkner, o gigante, recebeu o Nobel e o Pullitzer. Nasceu no final do século XIX em Mississipi, o estado mais pobre dos Estados Unidos. Morreu lá mesmo em 1964. O autor só saiu de sua cidade em missão pelo Ministério do Exterior dos Estados Unidos, ocasião em que conheceu até mesmo o Brasil em 1954.

Publicado em 1929, ‘O som e a fúria’ conta a história da família Compson. A trama se passa no sul dos EUA no começo do século XX. O livro é dividido em quatro partes, o primeiro narrador é um deficiente mental de 33 anos. O segundo é o irmão dele que, com a grana da venda das terras do deficiente, vai estudar em Harvard. O terceiro narrador é outro irmão, o que segura as pontas da mãe, da casa e é dono de um gênio sombrio. A quarta parte é em terceira pessoa e fala dos empregados. Eles não têm voz própria, eles não narram, são narrados. A família Compson se deteriora a passos largos, sendo a empregada negra a última coluna de sustentação da casa, fazendo parte mas sem pertencer. O livro fecha com um apêndice, um resumo de quem é quem, créditos finais que sobem a tela conectando partes, ligando nome à pessoa, pessoas aos fatos.

Um dado sobre o livro dá a dimensão da narrativa. Em Macbeth, Shakespeare escreve que a vida é “ uma história cheia de som e fúria, contada por um idiota e que não significa nada”. Por isso o título, por isso o primeiro narrador, por isso o destino dessa família.

William Faulkner é um Guimarães Rosa americano. Ou você ama ou você não precisa dele. A comparação também vale pela originalidade, o uso livre da palavra, a crueldade rústica. Em o ‘O som e a fúria’, Faulkner diz roseanamente: “O homem é o somatório de seja lá o que for”. É um autor violento e ousado. Trata-se de um criador tão livre que é impossível alcançá-lo. Em seu discurso na entrega do Nobel, em 1949, ele explica sua fúria em uma frase:

“Eu me recuso a aceitar o fim do homem.”

Andrea Del Fuego

Andréa del Fuego nasceu em São Paulo, em 1975. É autora da trilogia de contos “Minto enquanto posso” (O Nome da Rosa, 2004), “Nego tudo” (Fina Flor, 2005) e “Engano seu” (O Nome da Rosa, 2007, projeto contemplado com a bolsa de incentivo à criação literária da Secretaria do Estado de São Paulo) e do romance juvenil Sociedade da Caveira de Cristal (Scipione, 2007). Integra diversas antologias e mantém o blog www.delfuego.zip.net

Entrelinhas - TV Cultura

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Nobel alternativo pede ao Brasil abertura de arquivos

Membro da Associação Americana de Juristas e ganhador do Nobel Alternativo da Paz, o advogado paraguaio Martín Almada afirma que os governos sul-americanos ainda mantêm as fichas de opositores dos regimes militares. Na Itália, Justiça quer interrogar 34 uruguaios envolvidos na Operação Condor.

Maurício Thuswohl

RIO DE JANEIRO – Membro do Comitê Executivo da Associação Americana de Juristas e ganhador do Prêmio Nobel Alternativo da Paz em 2002, o advogado paraguaio Martín Almada, em recente visita ao Brasil, cobrou do governo federal a abertura de todos os arquivos relativos à Operação Condor. Segundo Almada, ainda são mantidos em sigilo no país diversos documentos relativos à operação conjunta realizada nas décadas de 1960 e 1970 pelos governos militares de Brasil, Chile, Argentina, Uruguai e Bolívia com o objetivo de eliminar opositores e militantes de esquerda em todo o continente.

Segundo o advogado paraguaio, as Forças Armadas dos países envolvidos na Operação Condor ainda mantém abertas as fichas de algumas pessoas perseguidas pelos respectivos regimes: “Gostaria que o governo brasileiro liberasse a lista dos que ainda hoje são considerados subversivos para o sistema. Sei que ela existe aqui, assim como também existe no Paraguai e em outros países que participaram das ações de tortura e perseguição nas décadas de 60 e 70”, disse Almada, durante visita à Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.

Martín Almada esteve também em Brasília, na Câmara dos Deputados, onde se reuniu com o presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS). Na conversa com os jornalistas após a reunião, o advogado paraguaio revelou que pediu a ajuda dos parlamentares brasileiros para pressionar o governo a tornar públicos todos os arquivos da ditadura militar: “Seria muito importante que os arquivos de cada país fossem abertos e pudesse haver cópias deles nos outros países também”, disse.

Além do esclarecimento dos crimes ocorridos em todos os países da América do Sul, Almada defende que se faça um levantamento de todos aqueles que, no período da ditadura, enriqueceram graças ao apoio dado aos regimes militares: “Os que foram presos são policiais que praticavam as torturas. Os militares que articulavam todo o processo opressor são praticamente inatingíveis”, disse o advogado, citando o exemplo do Paraguai: “Hoje, há cerca de 20 torturadores presos, mas nenhum deles teve participação ideológica no processo”.

A construção da Usina de Itaipu, segundo o advogado, é o exemplo de um momento onde vários figurões ligados aos regimes militares de Brasil e Paraguai enriqueceram de forma ilícita: “Muitos deles ainda têm grande influência política”, disse Almada. Premiado pela Unesco e pela Anistia Internacional, o paraguaio também trouxe ao governo brasileiro um outro pedido: “Pedi ao ministro da Defesa, Nélson Jobim, que o governo brasileiro finalmente abra seus arquivos sobre a Guerra do Paraguai (1864-1870)”.

Itália pressiona Uruguai

A Operação Condor também voltou a ser tema de debate no Uruguai, graças a uma decisão tomada na semana passada pela Justiça italiana. À frente de um inquérito que investiga a morte de 25 cidadãos italianos durante o período de caça aos militantes de esquerda na América do Sul, o juiz Giancarlo Capaldo intimou 34 uruguaios, ex-militares em sua maioria, a serem interrogados pela suposta participação na Operação Condor. Os intimados receberam prazo de 30 dias para designar advogados na Itália.

Segundo a agência de notícias AFP, Capaldo afirmou que alguns dos intimados já se encontrariam presos no Uruguai, mas a informação não foi confirmada pela Justiça uruguaia. Até o fim do ano passado, o Uruguai já havia recusado 31 pedidos de extradição de cidadãos uruguaios feitos pela Itália, o que demonstra que a colaboração entre os dois países não é das melhores quando o assunto é crimes da ditadura.

Carta Maior

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