Arquivo de 22 de Novembro de 2008

Os lucros excessivos provocaram a crise

Em 1951, um ex-presidente do Banco Central dos EUA escreveu, a propósito da crise de 1929: “Se a riqueza nacional tivesse sido melhor repartida, se as empresas se tivessem contentado com lucros menos elevados, se as classes mais ricas tivessem auferido rendimentos mais baixos e os agregados familiares mais modestos remunerações mais elevadas, a estabilidade da nossa economia teria sido maior.”

Jean-François Couvrat - DéChiffrages

Quando, daqui a alguns meses, se procurar atenuar a atual recessão através de uma política de investimentos públicos, deveria aproveitar-se a ocasião para erguer um monumento à memória de Marriner Stoddard Eccles, presidente do Banco Central dos EUA, de 1934 a 1948, e aí gravar páginas do seu Beckoning Frontiers [New York: Ed. Alfred A. Knopf, 1951] onde analisa, em pormenor, as causas do colapso económico de 1929-1930 e da grande depressão que se lhe seguiu.

Segundo M.S. Eccles, as grandes desigualdades na repartição do rendimento líquido nacional entre salários e lucros estão na origem da Grande Depressão: salários baixos para a grande massa dos americanos, lucros elevados para as empresas, confiscados por uma minoria:

“Se a riqueza nacional tivesse sido melhor repartida, isto é, se as empresas se tivessem contentado com lucros menos elevados, se as classes mais ricas tivessem auferido rendimentos mais baixos e os agregados familiares mais modestos remunerações mais elevadas, a estabilidade da nossa economia teria sido maior.”

E Eccles acrescenta ainda:

“Se, por exemplo, os seis bilhões de dólares investidos pelas empresas e pelas grandes fortunas na especulação bolsista tivessem sido aplicados numa política de redistribuição baseada na descida dos preços ou em aumentos salariais, com a conseqüente diminuição dos lucros das empresas e dos mais ricos, teria sido possível impedir ou pelo menos atenuar, em grande medida, o colapso econômico desencadeado em 1929.”

Quer se trate do texto original completo de M.S. Eccles quer da tradução francesa, todos os que procuram refletir sobre as reformas do capitalismo neles encontrarão matéria para meditar.

De uma maneira geral, é costume distinguir diferentes tipos de crise: crise do crédito com a correspondente crise bancária, seguida de uma crise bolsista - é a que estamos a viver neste momento; crise bolsista por esvaziamento de bolha especulativa, a de 2000-2001; derrocada da bolsa seguida da ruína do tecido industrial, como foi a crise de 1929. Eccles propõe, todavia, um diagnóstico que pode ser aplicado a todas estas crises.

Quando o excesso de lucros se concentra nas mãos de um punhado de homens, o capital acumulado alimenta a especulação bolsista ou a distribuição de créditos a risco. Quando os salários se mantêm baixos, as famílias consomem a crédito fácil até o esgotarem e despreza-se assim a solvência e o investimento de capital em novos meios de produção.

Nestas condições, o que deverá ser feito para reformar utilmente o capitalismo?

Acabar com as “golden parachute” (reformas douradas) ou estabelecer patamares de remunerações para os banqueiros são medidas populares mas, no fundo, irrisórias. Acabar com os paraísos fiscais, regulamentar os mercados financeiros que três décadas de liberalismo desregrado deitaram abaixo, tudo isto é sensato, mas insuficiente.

Aumentar os salários e reduzir os lucros seria perfeitamente legítimo mas como incrementar tais medidas quando o desemprego atinge níveis elevados e paralisa as reivindicações dos trabalhadores? Na França, o Estado poderia talvez começar por pôr fim aos incentivos fiscais e seletivos, abandonar o slogan “trabalhar mais para ganhar mais” e deixar de culpar os desempregados.

A partir de 1933, Franklin D. Roosevelt tomou três iniciativas no quadro do New Deal: reduziu os horários de trabalho para quarenta horas semanais sem redução dos salários, indenizou os desempregados e colaborou com os sindicatos.

Texto publicado originalmente no blog DéChiffrages.

Tradução de José J. Costa - Esquerda.Net

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Éric Toussaint analisa a interligação das crises

A explosão das crises alimentar, econômica e financeira em 2007-2008 mostra o quão interligadas estão as economias do planeta. É preciso arrancar o mal pela raiz. As soluções para que elas sejam favoráveis aos povos e à natureza devem ser internacionais e sistêmicas. A humanidade não poderá contentar-se com meias medidas. A análise é de Éric Toussaint.

Éric Toussaint

Em 2007-2008, mais de metade da população viu as suas condições de vida degradarem-se gravemente, pois foi confrontada pelo forte aumento do preço dos alimentos. Esta situação originou protestos massivos em pelo menos quinze países na primeira metade de 2008. O número de pessoas afetadas pele fome agravou-se em várias dezenas de milhões, e centenas de milhões viram o acesso aos alimentos restringir-se (e, conseqüentemente, a outros bens e serviços vitais).

Tudo isto seguido das decisões tomadas por um punhado de empresas de setor “agrobusiness” (produtores de agro-combustíveis) e do sector financeiro (investidores institucionais que contribuem para a manipulação do processo de produção agrícola), que se beneficiaram do apoio de Washigton e da Comissão Europeia. No entanto, a parte das exportações na produção mundial de alimentos continua débil. Apenas uma pequena parte do arroz, do trigo ou do milho produzida mundialmente é exportada, a esmagadora maioria da produção é consumida internamente. Mas são os preços dos mercados de exportação que determinam os preços nos mercados locais. Ora, os preços de exportação são fixados nos EUA, designadamente, em três bolsas (Chicago, Minneapolis, Kansas City). Conseqüentemente, o preço do arroz, do trigo e do milho em Timbuctu, no México, em Nairobi, em Islamabad é diretamente influenciado pela evolução do curso desses grãos nos mercados bolsistas americanos.

Em 2008, perante a urgência, e sob pena de serem derrubadas pelos motins nos quatro cantos do planeta, as autoridades dos países em desenvolvimento tomaram medidas para garantir o acesso da população aos elementos básicos.

Se chegamos a esta situação, foi porque durante várias décadas, os governos renunciaram progressivamente ao apoio dos pequenos locais - que são majoritariamente os pequenos produtores - com grãos, e adotaram as receitas neoliberais ditadas por instituições como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, no âmbito dos programas de ajustamento estrutural e de redução da pobreza. Em nome da luta contra a pobreza, estas instituições convenceram os governos a executar políticas que reproduzem, reforçam a pobreza. Mais, durante os últimos anos, numerosos governos assinaram acordos bilaterais (especialmente, acordos de livre comércio) que agravaram ainda mais a situação. As negociações da Rodada de Doha na Organização Mundial do Comércio trouxeram igualmente conseqüências nefastas.

Que aconteceu?

1º Ato - Os países em desenvolvimento renunciaram à proteção aduaneira que lhes permitia colocar os camponeses locais ao abrigo da concorrência dos produtores externos, principalmente das grandes firmas de agro-exportação norte-americanas e européias. Estas invadiram os mercados locais com produtos agrícolas vendidos abaixo do custo de produção dos agricultores e criadores locais, o que os conduz à falência (muitos destes acabam por emigrar para as grandes cidades dos seus países ou dos países industrializados). Seguindo a OMC, os subsídios concedidos pelos países do Norte às grandes empresas agrícolas do mercado interno não constituem uma violação das regras anti-dumping.

Como escreveu Jacque Berthelot: “para o homem comum, existe dumping se exportar a preços inferiores ao custo médio de produção do país exportador; mas já não existe dumping se se exportar ao preço interno, mesmo que este seja inferior ao custo médio de produção”. Em suma, os países da União Européia, dos EUA ou de outros países exportadores podem invadir os mercados dos outros com produtos agrícolas que beneficiam de importantes subsídio internos.

O milho exportado para o México pelo EUA é um caso emblemático. Por causa do tratado de livre comércio entre os EUA, o Canadá e o México, este abandonou a sua proteção aduaneira face aos vizinhos do Norte, As exportações americanas de milho para o México cresceram nove vezes entre 1993 (último ano antes da celebração do tratado) e 2006. Centenas de milhares de famílias mexicanas tiveram de renunciar à produção de milho, pois este custará mais do que aquele importado dos EUA (produzido com tecnologia industrial subsidiada). Isto constitui não apenas um drama econômico, mas também uma perda de identidade, pois o milho é símbolo de vida na cultura mexicana, principalmente, entre povos de origem maia. Uma grande parte dos produtores do milho abandonou os campos e partiu para as grandes cidades industriais mexicanas ou norte-americanas à procura de trabalho.

2º Ato - O México, que doravante depende dos EUA para nutrir a sua população, confronta-se com uma aumento brutal dos preços, provocado, por um lado, pela especulação nas bolsas de Chicago, Minneapolis e Kansas City e, por outro, pela produção de etanol no vizinho do Norte.

Os produtores de milho mexicano já não conseguem satisfazer a procura interna, e os consumidores são confrontados com uma explosão de preços do seu alimento base, a tortilla, este crepe de milho que substitui o pão ou a taça de arroz consumidas noutras latitudes. Em 2007, enormes protestos populares sacudiram o México.

Em condições específicas, as mesmas causas produzirão, grosso modo, os mesmos efeitos. A interligação dos mercados alimentares à escala mundial chegou a um nível jamais conhecido anteriormente.

A crise alimentar mundial coloca a nu o principal motor da sociedade capitalista: a procura do lucro privado máximo a curto prazo. Para os capitalistas, os alimentos não são mais que uma mercadoria que vendem ao maior lucro possível. O alimento, condição essencial para manter vivos os seres humanos, é transformado num puro instrumento de lucro. Deve pôr-se fim a esta lógica mortífera. Deve abolir-se o controle sobre os grandes meios de produção e de comercialização e dar prioridade a uma política de soberania alimentar.

A Crise Econômica e Financeira

Em 2007-2008 estourou igualmente a principal crise econômica e financeira internacional desde 1929. Se não fosse a intervenção massiva e concertada dos poderes públicos, que se tornaram o seguro dos bancos ladrões, a atual crise teria já proporções muito mais amplas. Também aqui, a interligação é impressionante. Entre 31 de Dezembro de 2007 e fins de setembro de 2008, todas as bolsas do mundo sofreram uma baixa muito significativa, entre 25 a 35% - por vezes mais - para as bolsas dos países mais industrializados, até 60% para a China, passando por 50% para a Rússia e a Turquia. A montagem colossal de dívidas privadas, criação pura de capital fictício, acabou por explodir de país em país industrializado, começando pelos EUA, a economia mais endividada do mundo. Com efeito, a soma das suas dívidas pública e privada elevou-se, em 2008, a 50 trilhões de dólares, ou seja, 350% do PIB.

Esta crise econômica e financeira que já afetou todo o planeta, afetará ainda mais os países em desenvolvimento que se crêem ainda protegidos. A mundialização capitalista não soltou ou não desligou as economias. Pelo contrário, países como China, Brasil, Índia ou Rússia não estão ao abrigo da crise e isto é só o início.

A Crise Climática

Os efeitos das alterações climáticas desapareceram da atualidade, suplantadas pela crise financeira. Contudo, o processo está em curso à escala mundial, e também aqui a interligação é evidente. Determinadas populações de países “pobres” serão mais fortemente afetadas do que as dos países “ricos” mas ninguém sairá incólume.

A conjugação destas três crises mostra aos povos a necessidade de se libertarem da sociedade capitalista e do seu modelo produtivo. A ligação entre as crises capitalistas põe em evidência a necessidade de um programa anticapitalista e revolucionário em escala planetária. As soluções para que elas sejam favoráveis aos povos e à Natureza serão internacionais e sistêmicas. A humanidade não poderá contentar-se com meias medidas.

* Éric Toussaint é presidente do Comitê belga para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo.

Tradução de Sofia Gomes (Esquerda.net)

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O crime de Protógenes

Escrito por Léo Lince
21-Nov-2008
Correio da Cidadania

Noel Rosa, no breque do samba, resumiu tudo: “pra quem é pobre, a lei é dura”. Ou seja, o “dura lex sede lex” da expressão latina, infelizmente, não conserva validade para os segmentos dos bem postos no vértice do poder econômico que nos domina. O rumoroso caso Daniel Dantas, que ocupou espaços diários nos jornais do último semestre, é a mais recente confirmação de que o poeta de Vila Isabel sabia das coisas.

A lista dos crimes imputados ao banqueiro pela investigação da Polícia federal é imensa. Corrupção ativa, evasão de divisas, uso indevido de informações privilegiadas, gestão fraudulenta, empréstimos vedados, lavagem de dinheiro, trafico de influência, formação de quadrilha… Os indícios fortíssimos e, em alguns casos, a prova provada (gravação em áudio e vídeo da tentativa de subornar os investigadores) não foram suficientes para lhe restringir a liberdade de movimento. Detido algumas horas, foi salvo pelo plantão noturno do presidente do Supremo Tribunal Federal e já voltou à rotina dos negócios. E, segundo seus porta-vozes, está mais preocupado com a crise financeira, onde costuma ganhar na roleta do cassino, do que com o improvável incômodo da barra dos tribunais. Acima dos percalços menores, ele confia no $upremo.

Filho, neto e bisneto de potentados e barões, ele nasceu em berço de ouro e sempre “serrou de cima”. Desde a mais tenra idade, forjou seu caráter na voracidade dos negócios. Os passos de sua trajetória deixaram rastros na malha de cumplicidades que associa os pontos fortes da economia com os mais altos escalões da nossa sereníssima República. Jovem engenheiro, ele operou na Odebrecht, a empreitara das grandes encomendas governamentais. Graduado em economia, esteve na cúpula do Bradesco, então o maior banco privado do país. Mais escolado, transitou pelo Banco Icatu e empreendeu vertiginosa “carreira solo” no Opportunity, onde se tornaria um dos barões das privatizações. Sempre nos bastidores do poder político, foi convidado para o governo e palpitou no plano Collor e fez parte do grupo que urdiu o Plano Real no governo FHC, no qual foi um dos articuladores e beneficiários da política de privatizações. No governo Lula, depois de breve estremecimento inicial, navega em águas tranqüilas.

Outra marca da trajetória do banqueiro é a sua presença no seleto e poderoso grupo dos financiadores privados de campanhas eleitorais. Sempre através de figuras interpostas e da miríade de empreendimentos sob seu controle, ele comparece sempre na formação dos fundos, contabilizados ou não. Pluralista, distribui com calculada generosidade as suas fichas entre os grandes partidos da ordem. Conserva ligação original com o PFL, cultiva a intimidade do tucanato e, conforme o revelado na CPI dos Correios, despejou milhões no mensalão petista. Dizem as más línguas que ele controla bancadas maiores do que boa parte dos partidos com assento em diferentes níveis do parlamento brasileiro.

Os obstáculos colocados diante da investigação aberta pela Polícia Federal sobre os crimes do banqueiro Dantas se explicam pelos elementos listados acima. Assim como a espantosa desenvoltura com que figuras de proa do alto escalão do Executivo, do vértice do Judiciário e das bancadas de grandes partidos no Legislativo se articulam no movimento que pode ser chamado de “tirem as mãos do banqueiro”. Os rumos do processo, onde o investigador passou a ser investigado, indicam que a lei (”ora, a lei!”) continua a ser vista como um chicote para disciplinar os de baixo. Para muito além dos desvios de tecnicalidades de que é acusado, acreditar que todos são iguais perante a lei foi o verdadeiro crime de Protógenes.

Léo Lince é sociólogo

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Caso Dantas: relações econômicas subjugam instituições jurídicas

Escrito por Gabriel Brito e Valéria Nader
20-Nov-2008
Correio da Cidadania

Em meio às investigações dos diversos escândalos envolvendo Daniel Dantas e todo o aparato político-financeiro envolto em torno de sua figura, abriu-se fogo cruzado entre setores do poder favoráveis e contrários aos métodos de investigação utilizados pela Polícia Federal. O mesmo ocorreu a respeito da co-participação da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) nos trabalhos, dividindo a atenção de todos entre as duas querelas – a da própria investigação e a que se refere aos meios empregados nela.

Para tratar do assunto, o Correio da Cidadania conversou com a socióloga Maria Orlanda Pinassi, professora da UNESP de Araraquara, para quem o atual quadro pode ser considerado de crise institucional, dentro dos poderes e também entre eles. Em sua opinião, todo o caso envolvendo Dantas, e suas organizações, é ilustrativo da sociedade em que vivemos, na qual o crime cada vez mais busca meios de se sustentar dentro das esferas legais, moldadas para estarem a serviço de grupos econômicos e personalidades.

Pinassi crê que, acima de tudo, o que ocorre é um claro desvio de foco do verdadeiro problema, isto é, dos crimes cometidos pelos réus em questão. Fica evidente a falta que faz uma posição mais firme do governo em relação a temas decisivos, como a participação da Abin o e a defesa dos procedimentos investigativos, comuns em operações do calibre da Satiagraha.

Correio da Cidadania: Na época das prisões de Daniel Dantas, discutiu-se a possibilidade de a PF estar agindo com excessos em suas operações, utilizando algemas e expondo publicamente seus investigados. Agora vemos o delegado Protógenes e o juiz Fausto de Sanctis sofrerem pressões e acusações dentro da PF e por parte do Supremo. A que se deveria esse movimento para cima de quem investiga e julga? Não estamos diante de um desvio de focos?

Maria Orlanda Pinassi: Sem dúvidas. Creio haver uma inversão total de papéis. O mocinho é criminalizado e o bandido inocentado. Coloco a questão desta forma, mas o problema é muito mais grave do que podemos supor. Parece-me que chegamos a tal ponto de incompetência, impotência e impossibilidade dos trâmites legais em resolver os graves desvios do capital que é preciso todo tipo de falcatrua para burlar o Estado, ao se chegar a este grau de clareza dos fatos, em que as provas mais que evidenciam a culpabilidade do Daniel Dantas e de toda a rede instalada em volta dele.

E imagino que seja um problema extremamente grave, envolvendo gente pesada, o que, aliás, tem aparecido. Quando começamos a puxar o fio, começam a aparecer inúmeras pessoas, conhecidas e públicas, com problemas gravíssimos envolvendo-as, e não na vida pública, mas na privada.

Vejo, portanto, uma inversão de valores, por sua vez decorrente da impossibilidade de o direito, dentro de suas formalidades, dar conta de tais questões.

CC: Quanto a esta rede de relações que Daniel Dantas teceu nos altos escalões do poder, poderíamos dizer que a ofensiva de seus advogados – entrando com numerosos pedidos de anulação de provas, afastamento dos profissionais que trabalhavam no caso etc. – é estratégia proveniente da confiança que têm em ver seu cliente se safar, vide que é sabida a intenção de seus defensores em levar os julgamentos para as instâncias mais altas?

MOP: Certamente. E Dantas tem obtido bons resultados. É uma vitória em cima da outra, o sucesso que os advogados vêm tendo é inquestionável. Nas últimas tentativas até que não, pois não conseguiram afastar o juiz do caso, mas em todas as outras instâncias eles têm conseguido vitórias, inclusive com o aval da mídia, que está - não diria totalmente, mas parte significativa - em conluio com Dantas. E a mídia, quando não dá esse enfoque diretamente favorável, se coloca como imparcial, o que, neste caso, diante de uma culpabilidade tão clara, é um papel a ser desempenhado no jogo também.

A defesa sabe com quem está jogando, quais instituições estão em jogo, quem participa e decide por elas. Parece que está tudo nas mãos de Dantas mesmo. E quando não está, consegue-se um jeito de cooptar pessoas.

CC: No meio das investigações, criou-se um grande alvoroço quando se soube que a Abin também havia participado dos trabalhos, o que levou até mesmo ao afastamento do diretor da instituição, Paulo Lacerda. Agora, descobre-se que a lei de 1999 que criava o Sisbin (Sistema Brasileiro de Inteligência) daria margem legal a ações conjuntas entre PF e Abin. A que se deve a ocultação de informação tão importante enquanto se deflagrava tamanha crise intra-poderes?

MOP: Eu penso que tais tentativas de questionar, o tempo todo, a forma como a operação foi deflagrada e desenvolvida são uma clara tentativa de desviar o foco do que realmente interessa. Ou seja, de todas as sujeiras levantadas, todos os processos que criminalizam essa figura do Dantas e toda a rede da qual ele faz parte. Trata-se de desviar a questão fundamental para o tema dos mecanismos utilizados, que me parecem até agora absolutamente legais, comuns e usuais em apurações e levantamentos de crimes cometidos por organizações do tipo da que está sendo investigada.

Enfim, é um desvio de atenção, extremamente complicado, creio, pois tudo que se colocou até hoje como mecanismos criados pelo Estado e suas instituições, a fim de levantar crimes cometidos contra o ele próprio e também contra o povo brasileiro, volta-se contra o Estado. Está havendo uma inversão e ela ocorre em cima da hora. Não precisa passar por votação no Congresso, sanção do presidente, nada disso. Se o Gilmar Mendes resolve mudar algo em cima da hora, muda. Se a Ellen Gracie resolve fazer o mesmo, também faz. Assim, começamos a desconfiar seriamente dos mecanismos nos quais sempre confiamos.

CC: A Polícia Federal, por sua vez, ao mesmo tempo em que é vista em operações que atingem criminosos do colarinho branco, é também vista em ações truculentas como, por exemplo, em comunidades indígenas, além de participar de processos de criminalização de movimentos sociais em alguns estados, como no Rio Grande do Sul. Valendo o mesmo para o Ministério Público, a que se deveria tal desalinhamento dentro da própria instituição?

MOP: Essa é uma questão interessante. Dentro dessas instituições – PF e MP –, há um racha, uma divisão interna, podemos dizer, entre aqueles completamente comprometidos com as organizações criminosas, no sentido de serem o braço delas dentro das instituições legais, e aqueles que tentam fazer um trabalho sério. São esses primeiros personagens que estão tentando inocentar Daniel Dantas e companhia, e que também estão passando em cima dos movimentos sociais, estudantis e dos trabalhadores, como se pôde ver naqueles fatos ocorridos em Volta Redonda.

Porém, acredito que há uma parte dessas instituições que procura fazer um trabalho sério, tentando trazer ao público as ações mais importantes e rigorosas, o que a meu ver deveria ser a tônica de tais organismos.

De toda forma, diante do quadro absurdo que vivemos, não me parece ser essa a regra, mas sim uma minoria a que tenta fazer um trabalho decente dentro das instituições citadas.

CC: Como a senhora tem enxergado a postura do Executivo no atual momento, relativamente a todos esses acontecimentos?

MOP: Tenho acompanhado com bastante preocupação essa postura, porque algumas autoridades do alto escalão governamental têm opiniões que oscilam muito. Em alguns momentos, é o caso do Tarso Genro, que às vezes acha que a operação foi bem feita, elogia, e, num momento seguinte, começa a questioná-la e a jogar água no moinho da defesa do Dantas.

A falta de uma postura firme diante dos fatos – o silêncio consente, como diz o ditado – e a vacilação do governo diante de tal quadro me preocupam muito. Não há a tomada de uma política clara diante de crimes de ramificação nacional – e não dá para vermos somente temas localizados; essa rede está embrenhada em todas as esferas brasileiras.

CC: Todo o exposto insinua um forte desalinhamento entre os poderes e mesmo internamente a eles. A senhora acredita que estamos vivendo uma crise institucional?

MOP: Acredito que sim. Acho que a crise é institucional e está dividindo as pessoas que participam dela. A instituição precisa tomar um rumo mais claro, pois essa perspectiva universal do direito das instituições democráticas parece estar sofrendo golpes fortíssimos. Portanto, é necessário definir com um pouco mais de clareza qual o papel, de fato, de tais instituições.

É o caso deste tribunal popular recém-criado e que coloca o Estado brasileiro na berlinda. Não me parece ser uma questão somente brasileira. É claro que temos aqui especificidades bem fortes que levam à desfaçatez e à impunidade, mas creio que a crise das instituições democráticas se dá no mundo todo. Os EUA, a Meca do desenvolvimento capitalista mundial, são um dos países em que mais se violam os direitos dos indivíduos, ao hierarquizarem a qualidade destes.

No Brasil é a mesma coisa. Hierarquizam-se os indivíduos de modo que se saiba quais serão os favorecidos. E tudo passa, fundamentalmente, pela questão da classe. Não é pelo fato de ser negro, ou pelo fato de ser mulher etc., mas sim pelas causas específicas estarem fundadas na questão do trabalho, sobre os trabalhadores, empregados ou não. Esses estão sendo criminalizados e punidos, enquanto a burguesia – seja ela norte-americana ou brasileira – age de forma absolutamente criminosa.

Escrevi uma vez um artigo em que faço uma historicização do crime. Há 100 anos, o mundo do capital se dividia entre um mundo visível do capital e um submundo do crime. Hoje essa divisão não existe mais. Cada vez fica mais claro a todos que o capital visível está totalmente imiscuído com o do submundo. E acho que se trata de um processo. As organizações criminosas foram tomando cada vez mais a dianteira do processo de acumulação de capital. E é difícil para as instituições democráticas conseguirem dar conta das relações que o próprio capital foi criando.

CC: Ou seja, o próprio processo de acumulação de capital, pela maneira como se desenrola na contemporaneidade, agrava a crise das instituições.

MOP: Exato. Um grave problema da contemporaneidade está na total impossibilidade de as instituições democrático-burguesas, constituídas ainda sob a vigência civilizatória do capital, acompanharem a sua atual fase de acumulação, forjada numa simbiose cada vez mais naturalizada da legalidade com o que até aqui era considerado o submundo do crime organizado.

Nesse sentido, se a tendência atual é acumular riqueza mediante práticas crescentemente escusas, criam-se os mecanismos necessários para legalizá-las. O procedimento, antigo na história do capitalismo, vem sendo largamente utilizado por algumas das mais altas autoridades do país a fim de “adaptar” as leis e “higienizar” o que há de mais “avançado” em termos de realização do capital: desemprego estrutural, subtração de direitos trabalhistas, trabalho escravo, monocultura, destruição ambiental, avanço do capital transnacional no país, da nossa tradicional “vocação agrícola”, criminalização dos movimentos sociais etc.

Pensando nisso, observamos que nunca antes na história foi tão transparente e atual o sentido das palavras de Marx, que, na ‘Crítica ao Programa de Gotha’, fazem o seguinte questionamento: “Acaso as relações econômicas são reguladas pelo conceito jurídico? Ao contrário, são as relações jurídicas que surgem das relações econômicas”.

Gabriel Brito é jornalista; Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

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Remembranças de seu Zito

Diante do aniversário de morte de Guimarães Rosa, a CULT apresenta uma entrevista com o vaqueiro Zito, também guia e cozinheiro da tropa que acompanhou o escritor modernista na travessia do sertão

Texto João Correia Filho
Revista Cult

Da viagem que Guimarães Rosa fez pelo sertão mineiro, em maio de 1952, ficaram algumas lembranças na memória dos oito vaqueiros que acompa nharam o escritor, dos quais apenas dois ainda estão vivos. Com a morte de Manuelzão, em 1997, acreditava-se que o legado da viagem havia se perdido por completo. Engano. A CULT viajou até a cidade de Três Marias, a 230 quilômetros de Belo Horizonte, e obteve o depoimento de João Henrique Ribeiro, o seu Zito, vaqueiro que acompanhou o escritor em sua viagem por mais de 40 léguas sertão adentro. Pesquisando os arquivos de Rosa, surpreendentemente, o que se descobre é que Zito foi a grande fonte do escritor, sendo citado em suas anotações como o mais esperto dos vaqueiros que conheceu durante a viagem. Guia e cozinheiro da tropa, Zito ia à frente e era quem conversava com o escritor durante quase todo o tempo, dedicando boa parte de suas horas às indagações e dúvidas de Rosa. Todas as noites, encerrado o trabalho dos vaqueiros, Zito sentava-se à beira da fogueira e escrevia versos que narravam o que havia acontecido durante o decorrer do dia. Esses versos foram registrados nas cadernetas de viagem de Guimarães Rosa, que se encontram atualmente arquivadas no IEB (Instituto de Estudos Brasileiros da USP), em São Paulo. Aos 74 anos, morando numa casa muito simples no interior de Minas Gerais, Zito guarda com orgulho os jornais da época, os quais trazem sua foto ainda jovem ao lado do escritor. Com memória e inteligência assustadoras, seu Zito conta alguns trechos da viagem que marcou a obra do escritor e que está repleta de muitas outras histórias.

CULT - O sr. se lembra do dia em que o Rosa chegou para a viagem?
ZITO - Lembro, foi em 16 de maio de 1952. Foi aquela grande confusão. Foi muita gente ver. O povo achava que o Rosa era Cristo. Ele chegou lá uma tarde e no dia seguinte o padre chegou também. A fazenda era do primo dele, o Francisco Moreira. Eu saí da Sirga (fazenda localizada no município de Três Marias), fui em Araçaí e busquei a besta que ele tá montado na foto que saiu no jornal, que chamava Balalaica. O arreio também foi eu que busquei. Eu trouxe umas vinte rês, uma novilha e essa besta. O Rosa veio num jipe de lá de Araçaí. Ele veio pra Belo Horizonte, pra Sete Lagoas, lá pegaram esse jipe e ele veio mais um compadre de Chico Moreira. Ele chegou três dias antes de sair a boiada pra conhecer um pouco mais. Lá na Sirga mesmo, tinha um lugar em que a água ia batendo no barranco, tem até hoje esse lugar, só que fizeram uma ponte. E lá tinha um sabiá cantando e o Rosa ficou encantado. “Que qué isso São Pedro?” Cadê a chuva? Que que há São Pedro?” (imita o passarinho cantando). O sabiá tava pedindo chuva, ele falava direitinho. Sabiá é aquele marronzinho. O Rosa ficou entusiasmado com aquilo. Aí nós seguimos e encontramos com uma dona, ela era muito bonitinha, era uma comadre minha, tava mais nova, vestindo uma sainha muito curtinha. E Rosa ficou olhando pro lado dela e eu falei: “Rosa isso não é da sua conta não.” (risos) Aí ele brincou, deu risada, e tudo. Tinha umas cachacinhas, mas ele não tomou não, ele não gostava. Eu tomei. Aí subimos e fomos pra casa, passando por uma capelinha. Tinha um horror de gente já arrumando ela, que ia ter que levantar o mastro da festa.

CULT - Então houve uma festa antes da saída da boiada?
ZITO - Teve sim uma festa, no outro dia. À tardinha nós fomos embora. Saímos e fomos nos gerais. É lá que falam que teve uma garrafa com biscoito. Não teve garrafa com biscoito nenhum, eu que estava com ele. Quando foi no outro dia, o padre chegou e teve a missa e ele foi à missa. Eu fiquei ocupado com a festa e não lembro com quem que ele saiu depois. Quando foi no dia seguinte, teve a festa, ele dançou e gostou. Ele fazia tudo quanto há, fazia direitinho. Tinha de tudo, nós dançamos, o Rosa dançou, tinha comida, o padre era muito bom, teve missa, levantou o mastro, era procissão. Nessa época aí era um festão, era só isso que tinha.

CULT - E havia sempre essa festa?
ZITO - Essa festa começou logo que a mãe do Manuelzão morreu. Fazia todo ano, naquela casa que tinha uma cagaiteira (árvore típica do cerrado). Primeiro era só a missa. Lá onde o Manuelzão construiu a capelinha, onde tá enterrada a mãe e a primeira esposa dele. Lá tem um cruzeirão grande, fui eu que mandei fazer, com um compadre meu, o Chico Barbosa. O Rosa gostava muito dele também, que ele tocava rabeca. Tudo isso era uma coisa que ninguém pensava. Passou muito tempo sem ninguém mexer nessas histórias. Sempre lembro de muita coisa, mas às vezes esqueço de tudo. E aí quando foi no outro dia, terminou tudo. Foi no dia 19 que nós saímos pra viagem. Eu juntei o gado e fui apartar. Tem um lugar na história que fala: “na apartação do gado tinha um velho Santana”. Ele tomou um coice, tinha um boi muito bravo, ele chegou o ferrão no boi e o boi deu um coice e ele caiu. Aí eu falei: “traz um pouco de vinagre com rapadura”. Isso tá escrito no jornal e nos cadernos do Rosa. Ele tomou o chá e melhorou. Não tinha remédio, era tudo inventado aqui. Papaconha, cidreira… esses eram os remédios. Até hoje a gente toma, contra gripe. Tudo é por Deus, não por homem, eu, você, a moça não. É por Deus. Deus é que criou isso tudo. Aqui tem um outro remédio chamado tiú. Só acha ele na sexta-feira da Paixão. Você pode andar o campo inteiro e você não acha não. Na sexta-feira ele amanhece todo cheio de folha. É uma batatinha assim ó. É um ótimo remédio pra gripe, pra dor por dentro. É o remédio que a gente tinha pra curar. Você arranca ele e faz um chá. Aqui não tem não, é só na Sirga que tem, nas veredas, e só lá que eu conheço.

CULT - Quais eram as fazendas e como foi a passagem por elas?
ZITO - Na saída da boiada tinham dezessete vaqueiros, porque a boiada sai brava, correndo, é pra evitar uma ribada. Quando chegou perto de uma ponte, lá em cima, saindo da Sirga, voltaram oito e seguimos em nove. Saiu da Sirga mesmo. Lá era a casa do Manuelzão. Ele era funcionário do Chico Moreira. Nós que construímos tudo aquilo. De lá fomos pra Tolda, uma fazenda bonita, onde passa um riachinho dentro da cozinha. Na Tolda dormimos na casa de uma senhora chamada Iara Tancredo. Tem a casa até hoje, e onde era o quarto hoje é uma sala. Depois da Tolda, indo pra Andrequicé, tinha uma vereda. Aí o Rosa viu uns passarinhos e de brincadeira pediu pra eu dar um tiro de revólver. Isso tem no livro Tutaméia. Lá em Andrequicé, na casa de Pedro Mendes, ele dançou de novo. Era uma casa de assoalho velho, uma casa velha, um curral bonito e tinha uma vitrolinha de corda. O Rosa gostou muito. Depois fomos pro Catatau e eu pedi pra arrumar uma cama pra ele, e ele dormiu melhor. Era colchão de palha, tudo feito na roça, no chão. Saímos do Catatau e fomos pro Riacho das vacas. Também ia dando cama. Depois do Catatau nós fomos no Meleiro. Lá o velho falou: “Cê vai jantar comigo”. Tinha frango, nós comemos arroz, feijão, carne. Não tinha mais nada. Ah, tinha também um angu de muitos dias, descascava e comia aquilo. Mas o Rosa não quis comer não. “Se eu comer angu que mosquito passeou, barata…”, ele disse. Ele até inventava muita coisa. Aí fomos pro Barreiro do Mato. Lá o Rosa dormiu dentro de uma forma de rapadura. Depois passamos na fazenda do Juvenal, na Fazenda Ventania, Riacho da Areia, que era de um paulista. O Rosa jantou bem. Lá tem até hoje o prato em que o Rosa comeu. Você pede pra Dona Antonieta, mulher do Juvenal, e ela tem o prato, o garfo, a colher, tem a cama, tudo guardado. E o Rosa ficou satisfeito demais. Comeu, comeu. Juvenal tinha um filho chamado Geraldo, que mora em Mascarenhas (pequeno distrito da região de Curvelo), tava doente, de cama mesmo. E aí o Rosa falou: “Deixa eu ver ele”; e falou: “Ele tá com febre, ele tá com sarampo. Você pega umas folhas de laranja e faz um chá.”. O Rosa olhou no bolso da camisa, tinha um Melhoral e deu pra ele. Tomou, em dois dias cortou a febre e o rapaz amanheceu bom. O sarampo saiu. Chá de folha de laranjeira. Isso tudo tá escrito. Aí quando saiu no outro dia eu fui na frente da fazenda de um outro primo dele, o doutor José Saturnino, já chegando em Cordisburgo (cidade natal do escritor). Quando você passa a igrejinha do Rosário você vira à esquerda, antes da entrada que vai pra Gruta do Maquiné. Cheguei na fazenda, chamei, saiu a dona lá. Eu falei: “Tô aqui pra arrumar a pousada, que o Rosa vem aí.” “Ah! Mas eu não quero, não estamos interessados, estamos com muito boi”, a dona falou. Era mentira. Eles tinham medo de “afetosa”. E olha só: dali ele podia ter ido pra casa do avô dele, ali pertinho, mas não quis. Tomava um banho, tudo direitinho… dormia. Mas ele não quis fazer isso não, foi embora, acompanhou a gente todo dia. Aí eu fui na frente outra vez. Cheguei numa fazenda e pedi um frango. “Frango não tem, eu tenho só uma galinha velha”, disse a dona. A dona pegou pra limpar, arrumou tudo, pois pra cozinhar, sentamos pra comer, mas tava muito duro. O Rosa tomou só o caldo. Dormimos, saímos no outro dia e chegamos num lugar que chama Toca do Urubu; tem uma pedreira de muitos metros de altura, e lá mora urubu direto. Chegando nesse lugar, encontramos com o pessoal do Cruzeiro (Álvares Dias e Eugênio Silva - repórter e fotógrafo, respectivamente, do jornal O Cruzeiro que registraram parte da viagem de Rosa pelo sertão). Fizeram foto minha com o berrante e tudo.

CULT - E o sr. era bom de berrante?
ZITO - Ah, eu era bom. Batia, todo mundo suspirava. Às vezes eu batia o berrante e dizia. “Eh, não suspira não que eu vou e volto”.

CULT - Depois de Araçaí, o Rosa foi embora?
ZITO - Entregou a boiada em Araçaí, numa fazenda pertinho de onde hoje é a cidade. Tinha uns currais, nós tiramos mais retratos com ele no curral, eu lacei uma vaca, peguei ela e passei a corda pelo pescoço e amarrei no rabo. Fazia tudo pontuadinho, porque tinha esperteza, tinha ligeireza. Eu cantava verso, tudo direitinho. Poesia é pra ser poeta, poeta não. Deus dá o dom pra pessoa, aquele dom ninguém pode tomar. Só agora com a doença. Ia na lapa do Bom Jesus e via um livro e comprava, comprava outro e guardava. Lia e aprendia. Se eu lesse duas vezes, eu já guardava. Depois, chegando em Araçaí eu fui pra casa do meu pai; eu, o seu Manuel (Manuelzão) e o Bindóia (morto em 98). Dormiram e noutro dia ele pegou um jipe com a carreta e foi embora.

CULT - O sr. era o guia da tropa. Qual a função do guia?
ZITO - O guia vai na frente, que ele sabe da distância. Ele sabe quando é descida, dá sinal pro detrás que e pro boi não correr. Se você sabe que tem um córrego, você dá sinal pra afinar o gado e ele passar na água e não sujar demais pros que vêm atrás poder tomar. O guia fica avisando o que vai acontecer. Você é motorista, quando vai fazer uma curva você já dá um sinal, só que com o gado é com a mão. E o gado acostuma. Chega numa porteira, faz um sinal e o outro já sabe que ali é uma porteira. Tudo que você faz é com a mão, tudo sem gritar. O guia vai na frente, quando o gado chega já está o pasto arrumado, o fogo tá aceso. Já vê se a cerca tá boa, se não tem buraco.

CULT - O sr. também era cozinheiro, além de guia. O guia é sempre o cozinheiro?
ZITO - Não são todas as pessoas, mas eu, durante o tempo que eu viajei com gado, em muitas boiadas eu fui cozinheiro. Eu fazia aquele entalagato. Foi o Rosa que colocou esse nome. Dizia que era comida ruim.

CULT - Então ele não gostou da comida do sr.?
ZITO - Não, aquilo era só pra fazer graça. Mas não tinha nada. Só tinha arroz, feijão e carne. Frango alguma vez. Mas sempre era carne seca, carne de jabá. Eram nove pessoas, eram nove pedaços de toucinho e nove de carne. E tinha também farinha.

CULT - E qual era o nome dos outros vaqueiros que acompanharam a viagem?
ZITO - Era o Tião Leite (ainda vivo), o Santana, o Sebastião de Jesus, o Gregório, o Manuelzão, o Bindóia, eu e o João Rosa. Tem o Aquiles também, um bom violeiro. Ah, e um rapazinho que não é falado. Ele não saiu na reportagem, era menino, mas acompanhou todos os dias, devia ter saído. Tinha uns doze anos. Falado são sempre os oito, nove com o Rosa. Nós levamos trezentos e sessenta bois. Só boi grande. Eu batia o berrante e eles seguiam.

CULT - Mas era o sr. que ia conversando com o Rosa?
ZITO - Conversei durante o tempo todo.

CULT - E sobre o que o sr. ia conversando com ele?
ZITO - Falava tudo quanto era bobagem. Inventava as coisas muito bem pra conversar com ele. Às vezes não tinha mais assunto. Falava de mulher, de moça bonita. Falei muita bobagem pro Rosa e ele escrevia tudo. Eu lia muito livro, sabia tudo de cor, mas não sei mais nada. Sabia tudo quanto é bestagem.

CULT - E o Rosa foi anotando tudo isso?
ZITO - Tudo, ele escreveu tudo. A sucupira ele anotou, era uma baita de uma árvore. Tinha a flor roxa e a flor amarelada; ele anotou qual a diferença que tem. A diferença da madeira. Tudo tá escrito na caderneta dele.

CULT - E os versos que o sr. fez? Eram feitos quando?
ZITO - Era feito durante a viagem, de noite. O que passava no dia, eu escrevia de noite.

CULT - Que tipo de história o Rosa gostava mais?
ZITO - Verso, ele gostava muito de verso. Mas não aprendia nada… (risos). Eu sabia tudo de cor. Ele anotava tudo. Depois que eu adoeci, a memória ficou fraca e esqueci tudo. Depois que eu adoeci, esqueci quase tudo.

CULT - E como era o Rosa, seu Zito?
ZITO - Era uma pessoa excelente, brincalhão. Ele era tão simples que ele veio do Rio e não trouxe nem gilete, nem estojo. Naquele tempo não tinha “prestibarba”, era estojo. Durante todos os dias ficou sem fazer a barba. Eu tinha, mas ele não falou nada e eu não levei. Até hoje a minha barba é pouca. Pra quem tirava a barba toda manhã, ficar dez dias sem tirar, né? A cara ficou vermelha. Mas ele era mesmo muito simples. E na viagem não podia chamar ele de Dr. João. Era Rosa, vaqueiro Rosa.

CULT - E ele sofreu muito durante a viagem?
ZITO - Não tinha garrafa térmica, coava café no bule, tomava ali, e copo de vidro quase não tinha e ele não trouxe. Na beira da estrada não tinha nada, você chegava assim pra comprar um frango, pra limpar, pra picar, mas precisava ter um vasilha. Ele comeu muitos dias feijão de manhã, feijão com carne seca cozida no meio e toucinho. Separava o da janta e tomava um gole de café. À tarde comia outra vez. Se ele tivesse pensado, podia ter trazido uma garrafa, deixava na garupa dele, ué. Podia ter trazido uma marmita. Também não tinha banheiro por aqui. De tarde a gente ia tomar banho no córrego. A água era longe, dormia às vezes sem tomar banho. Não tinha água, que banho todo dia não tinha jeito. Fazenda nenhuma tinha um banheiro. A comida era um pouco pesada pra ele que não tinha costume. Mas o que ele queria era aquilo…

CULT - E na hora de dormir?
ZITO - Tirava sela, lavava o cavalo, jogava ela no chão e era a cama. Forrava ela no chão, põe o pelego, a coberta, a capoteira, você punha a roupa e virava o travesseiro. Era tudo bem arrumado.

CULT - E como o Rosa dormia, era assim?
ZITO - Mesma coisa, ele deitava em qualquer lugar. Dormiu até em cima de espiga de milho. E ainda que à noite ele gemeu… “Você deita igual às galinha quando tá botando ovo”, eu disse. Ele não sabia, amanheceu com um caroço na costela. Dormiu também na tábua de rapadura. Tirava os trem até dar o tamanho dele, botei capim, tudo foi eu que fiz. Chegava na casa de Dona Benedita, na casa da Dona Rita, eu pedia cama pra ele. Eu tinha entusiasmo com o povo. Não deixavam eu sair de manhã sem fazer um engrossado, que é um ovo que você frita na água, sem gordura, põe a farinha, cebola e come. Aquele trem é forte. Comia, ficava bem o dia todo.

CULT - E o Rosa comentou alguma coisa sobre o que faria com o material da viagem, sobre o Grande sertão: Veredas, por exemplo?
ZITO - Aquele livro não foi escrito com o assunto dessa viagem. Aquele livro foi uma viagem que ele fez pra Fortaleza, numa saída de boiada. Foi na saída. E aquele Riobaldo foi alguém que contou pra ele e o resto ele inventou. Vou te contar uma coisa, você põe uma coisa que você acha que dá certo naquela estória, então inventa o resto. É assim que o Rosa fez. O que Rosa escreveu foi dito por nós. Ele não sabia daquilo. O Rosa saiu de Cordisburgo rapaz novo, foi fazer medicina, participou daquela revolução de 32 e abandonou a medicina pra ir pro exterior. Aí quando ele morreu, vieram outras pessoas pra confirmar onde o Rosa passou. Mas ele inventou o resto.

CULT - E a história de que o Rosa conversava com os bois?
ZITO - Ele conversava com o boi mesmo. Conversava toda a tarde. Quando chegava no pouso, eu que já tinha coado café, já tinha desarreado a besta dele, o meu burro, tudo já estava arrumado. Então ele vinha e falava: “meu boizinho tá cansado, tá com a barriga vazia…” Todo dia ele conversava, o boi era mansinho. Foi tirado retrato dele passando a mão no boi, lá no curral da fazenda. Mas eu nunca vi nenhum. Era Tarzan e Cabocla. Cabocla era uma vaca preta que eu furei o nariz dela. Ah… se o boi falasse, a gente morria. Ele só entende o nome. O boi entendia e olhava pra ele.

CULT - Ter encontrado o Rosa mudou a vida do sr.?
ZITO - Vem sempre um povo aqui pra conversar, eu converso. Mas eu não lembro muita coisa. Se for uma pessoa que eu gosto, eu lembro, se não for, eu não tô lembrado de nada. Mas eu gosto de falar do Rosa. Ele queria me levar pro Rio de Janeiro, ele dava lugar pra eu morar, ele pagava meu estudo. Mas na época eu preferi não ir, queria era ser vaqueiro.

CULT - O sr. fica orgulhoso quando alguém o procura?
ZITO - Sinto muito orgulho, é uma coisa muito bonita. Eu sinto alegria em falar das coisas do Rosa. Em maio eu vou pra Sete Lagoas e vou mandar fazer outro óculos pra mim e aí eu vou voltar a ler de novo os livros dele, do Guimarães Rosa.

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Texto originalmente publicado na CULT 43

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Emir Sader: A crise da extrema esquerda brasileira

Os resultados das eleições municipais vieram corroborar o que o cenário político nacional já permitia ver: o esgotamento do impulso da extrema esquerda, que tinha sido relançada no começo do governo Lula. A votação em torno de 1% de dois dos seus três parlamentares, candidatos a prefeito em São Paulo e no Rio de Janeiro, com votações significativamente menores do que as que tiveram como candidatos a deputados, sem falar na diferença colossal em relação à candidata à presidência, apenas dois anos antes – são a expressão eleitoral, quantitativa, que se estendeu por praticamente todo o país, do esgotamento prematuro de um projeto que se iniciou com uma lógica clara, mas esbarrou cedo em limitações que o levam a um beco difícil, se não houver mudança de rota.

A Carta aos Brasileiros, anunciando que o novo governo não iria romper nenhum compromisso – nesse caso, com o capital financeiro, para bloquear o ataque especulativo, medido pelo “risco Lula” -, a nomeação de Meirelles para o Banco Central e a reforma da previdência como primeira do governo – desenharam o quadro de decepção com o governo Lula, que levaria à saída do PT de setores de esquerda. A orientação assumida pelo governo inicialmente, em que a presença hegemônica de Palocci fazia primar os elementos de continuidade com o governo FHC sobre os de mudança – estes recluídos basicamente na política externa diferenciada e em setores localizados – e a reiteração de um governo estritamente neoliberal davam uma imagem de um governo que era considerado pelos que abandonavam o PT, como irreversivelmente perdido para a esquerda.

O dilema para a esquerda era seguir a luta por um governo anti-neoliberal dentro do PT e do governo ou sair para reagrupar forças e projetar a formação de uma nova agrupação. Naquele momento se cogitou a constituição de um núcleo socialista, dos que permaneciam e dos que saíam do PT, para discutir amplamente os rumos a tomar. Não apenas cabia uma força à esquerda do PT, como se poderia prever que ela seria engrossada por setores amplos, caso a orientação inicial do governo se mantivesse.

Dois fatores vieram a alterar esse quadro. O primeiro, a precipitação na fundação de um novo partido – o Psol -, com o primeiro grupo que saiu do PT – em particular a tendência morenista – passando a controlar as estruturas da nova agremiação. Isto não apenas estreitou organizativamente o novo partido, como o levou a posições de ultra-esquerda, responsáveis pelo seu isolamento e sectarização. A candidatura presidencial nas eleições de 2006 agregou um outro elemento ao sectarismo, que já levaria a uma posição de eqüidistância em relação ao governo Lula. O raciocínio predominante foi o de que o governo era o melhor administrador do neoliberalismo, porque além de mantê-lo e consolidá-lo, o fazia dividindo e confundindo a esquerda, neutralizando a amplos setores do movimento de massas. Portanto deveria ser derrotado e destruído, para que uma verdadeira esquerda pudesse surgir. O governo Lula e o PT passaram a ser os inimigos fundamentais da nova agrupação.

Esse elemento favoreceu a aliança – já desenhada no Parlamento, mas consolidada na campanha eleitoral – com a direita – tanto com o bloco tucano-pefelista, como com a mídia oligárquica -, na oposição ao governo e à reeleição de Lula. A projeção midiática benevolente da imagem da candidata do Psol lhe permitia ter mais votos do que os do seu partido, mas comprometia a imagem do partido com uma campanha despolitizada e oportunista, em que a caracterização do governo Lula não se diferenciava daquela feita na campanha do “mensalão”. Como se poderia esperar, apesar de algumas resistências, a posição no segundo turno foi a do voto nulo, isto é, daria igual para o novo partido a vitória do neoliberal duro e puro Alckmin ou de Lula. (Se tornava linha nacional oficial o que já se havia dado nas primeiras eleições em que o Psol participou, as municipais, em que, por exemplo, em Porto Alegre, diante de Raul Pont e Fogaça, no segundo turno, se afirmou que se tratava da nova direita contra a velha direita e se decidiu pelo voto nulo.)

Uma combinação entre sectarismo e oportunismo foi responsável pelo comprometimento da orientação política do novo partido, que o levou a perder a possibilidade de formação de um partido à esquerda do PT, que se aliasse a este nos pontos comuns e lutasse contra nos temas de divergência. O sectarismo levou a que sindicatos saíssem da CUT, sem conseguir se agrupar com outros, enfraquecendo a esquerda da CUT e se dispersando no isolamento. Levou a que os parlamentares do Psol votassem contra o governo em tudo – até mesmo na CPMF – e não apoiassem as políticas corretas do governo – como a política internacional, entre outras. Esta se dá porque o governo brasileiro tem estreita política de alianças com as principais lideranças de esquerda no continente – como as de Cuba, Venezuela, Equador, Bolívia -, que apóiam o governo Lula, o que desloca completamente posições de ultra-esquerda – que se reproduzem de forma similar a dessa corrente no Brasil nesses países -, deixando de atuar numa dimensão fundamental para a esquerda – a integração continental.

Por outro, o governo Lula passou a outra etapa, com a saída de vários de seus ministros, principalmente Palocci, conseguindo retomar um ciclo expansivo da economia e desenvolvendo efetivas políticas de distribuição de renda, ao mesmo tempo que recolocava o tema do desenvolvimento como central – deslocando o da estabilidade, central para o governo FHC -, avançando na recomposição do aparelho do Estado, melhorando substancialmente o nível do emprego formal, diminuindo o desemprego, entre outros aspetos.

A caracterização do governo Lula como expressão consolidada do neoliberalismo, um governo cada vez mais afundado no neoliberalismo – reedição de FHC, de Menem, de Carlos Andrés Perez, de Fujimori, de Sanchez de Losada – se chocava com a realidade.

Economistas da extrema esquerda continuaram brigando com a realidade, anunciando catástrofes iminentes, capitulações de toda ordem, tentando resgatar sua equivocada previsão sobre os destinos irreversíveis do governo, tentando reduzir o governo Lula a uma simples continuação do governo FHC, reduzindo as políticas sociais a “assistencialismo”, mas foram sistematicamente desmentidos pela realidade, que levou ao isolamento total dos que pregam essas posições desencontradas com a realidade.

O isolamento dessas posições se refletiu no resultado eleitoral, em que todas as correntes de ultra-esquerda ficaram relegadas à intranscendência política, revelando como estão afastadas da realidade, do sentimento geral do povo, dos problemas que enfrenta o Brasil e a América Latina. As políticas sociais respondem em grande parte pelos 80% de apoio do governo,rejeitado por apenas 8%. Para a direita basta a afirmação do “asisistencialismo” do governo e da desqualificação do povo, que se deixaria corromper por “alguns centavos”, mas a esquerda não pode comprá-la, por reacionária e discriminatória contra os pobres.

Confirmação desse isolamento e de perda de sensibilidade e contato com a realidade é que não se vê nenhum tipo de balanço autocrítico, sequer constatação de derrota da parte da extrema esquerda. Se afirma que se fizeram boas campanhas, não importando os resultados, como se se tratassem de pastores religiosos que pregam no deserto, com a consciência de que representam uma palavra divina, que ainda não foi compreendida pelo povo. (Marx dizia que a pequena burguesia sofre derrotas acachapantes, mas não se autocrítica, não coloca em questão sua orientação, acredita apenas que o povo ainda não está maduro para sua posições, definidas essencialmente como corretas, porque corresponderiam a textos sagrados da teoria.)

Não fazer um balanço das derrotas, não se dar conta do isolamento em que se encontram, da aliança tácita com a direita e das transformações do governo Lula – junto com as da própria realidade econômica e social do país –, da constatação do caráter contraditório do governo Lula, que não deveria ser se inimigo fundamental revelariam a perda de sensibilidade política, o que poderia significar um caminho sem volta para a extrema esquerda. Seria uma pena, porque a esquerda brasileira precisa de uma força mais radical, que se alie ao PT nas coincidências e lute nas divergências, compondo um quadro mais amplo e representativo, combinando aliança a autonomia, que faria bem à esquerda e ao Brasil.

Fonte: Blog do Emir

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