Arquivo de 23 de Novembro de 2008

Tropicália: uma revolução na cultura brasileira

por Veronica Stigger
Escritora
Entrelinhas - TV Cultura

Em seu livro de memórias, o crítico George Steiner afirma: “A literatura, a música e o pensamento sérios têm o hábito exasperante de serem produtivos sob tirania”. Este é o caso da Tropicália, talvez o fenômeno artístico mais inovador da cultura brasileira, englobando artes plásticas, música, cinema, teatro, literatura. A Tropicália surgiu em plena ditadura militar, um ano antes de ser decretado o nefasto ato institucional número 5, que previa, entre outras coisas, a cassação de mandatos políticos, a censura prévia e a privação das liberdades individuais.

Tudo teve início em 1967. Hélio Oiticica expôs a obra Tropicália no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, dentro da mostra Nova Objetividade Brasileira. Inspirada nas favelas, esta instalação se constituía de dois penetráveis, pelos quais o público caminhava, como num labirinto, no fundo do qual tinha uma televisão ligada. Naquele mesmo ano, Caetano Veloso tomou emprestado o título da obra de Oiticica para uma de suas canções. Ainda em 1967, Caetano e Gilberto Gil surpreenderam o público do terceiro festival da Record com “Alegria, alegria” e “Domingo no Parque”, enquanto José Celso Martinez Corrêa revolucionava o teatro com a montagem de O rei da vela, de Oswald de Andrade. E, no cinema, Glauber Rocha estreava Terra em transe.

Atualmente, uma grande exposição no Rio celebra os 40 anos deste momento da arte brasileira. E o catálogo desta mostra traz seis artigos que fazem uma reavaliação do Tropicalismo, além de reproduzir manifestos e textos críticos da época.

Os ensaios do catálogo reafirmam a importância da figura de Oswald de Andrade para o tropicalismo. Houve, neste momento, uma interessante reapropriação de um aspecto específico do Modernismo brasileiro: a antropofagia, tal como preconizada por Oswald. Ou seja, deglutir as estéticas estrangeiras, para reprocessá-las, para subvertê-las, transformando-as em expressões nossas, singulares, paradoxalmente originais.

No “Manifesto Pau-Brasil”, Oswald de Andrade propôs uma poesia “de exportação”. Esta utopia de uma arte brasileira que pudesse conservar seu interesse mesmo num cotejo com a arte internacional de seu tempo só se realizou de fato depois que ultrapassamos o modernismo. É a Tropicália que vem despertando cada vez mais o interesse do mundo, influenciando os artistas, fascinando os críticos. Se a Tropicália é, nas palavras de Oiticica, “o grito do Brasil para o mundo”, tudo indica que este grito ainda vai ecoar por muito tempo.

Veronica Stigger

Nascida na cidade de Porto Alegre em 1973. Formou-se em jornalismo, mas deixou as redações para dedicar-se à pesquisa universitária. É doutora em teoria e crítica da arte pela USP, com estudo sobre as relações entre arte, mito e rito na modernidade. Desde 2001, vive em São Paulo. “O trágico e outras comédias”, seu livro de estréia, foi publicado primeiramente em Portugal, em 2003, pela editora Angelus Novus. Em abril de 2004, foi lançado em versão brasileira pela 7Letras.

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Impacto global

Ignacio Ramonet, Le Monde Diplomatique Portugal, 6 de novembro de 2008

O apocalipse financeiro não terminou. Está a transformar-se em recessão global. E tudo indica que estamos a caminhar para uma Grande Depressão. As medidas adoptadas na Europa e nos Estados Unidos, por muito espectaculares que sejam, não vão provocar o fim das dificuldades. Admitiu-o o próprio Henry Paulson, secretário do Tesouro estadunidense: «Apesar do nosso grande plano de salvamento, mais instituições financeiras vão falir».

Numa nota de informação sobre as crises dos últimos trinta anos, o Fundo Monetário Internacional (FMI) confirma que as crises cujos protagonistas são os bancos e o setor imobiliário se revelam especialmente «intensas, longas, profundas e prejudiciais para a economia real». Os efeitos já se estão a estender pelos cinco continentes: em poucas semanas, o real brasileiro perdeu 30% do seu valor; o zloty polaco, 22% a rupia indiana, 10%; o peso mexicano, 14%. Pressões semelhantes estão a sentir a Indonésia, as Filipinas ou a República Checa.

As autoridades estadunidenses já injetaram mais de um trilhão e meio de euros (o equivalente ao dobro do que custaram, desde 2001, as guerras do Afeganistão e do Iraque) nos seus diversos planos de salvamento de bancos, caixas de aforros e companhias de seguros. E os grandes bancos do mundo ainda necessitam de uns 500 milhões de euros… Coisa que os leva a restringir o crédito às empresas e aos particulares. Com as consequências muito negativas que isso está a ter na economia real.

Os países avançados, entre eles a Espanha, que recorreram à inovação financeira para garantir altas rendibilidades aos investidores, são os que encaixam o golpe mais duro. O FIM estima que a economia destes países irá ter o crescimento mais fraco desde há 27 anos. O mundo está em vias de passar pelo seu pior pesadelo desde 1929.

Pelas suas inéditas dimensões, esta crise põe fim ao período neoliberal baseado nas teses monetaristas de Milton Friedman, que dominaram o campo capitalista durante três décadas. E ofuscaram também a social-democracia internacional. A queda repentina desse credo deixa a maioria dos dirigentes políticos desamparados. O patético espectáculo dos responsáveis que multiplicam de forma disparatada as reuniões e as «medidas de salvamento» mostra como estes se encontram desorientados.

Nos Estados Unidos, os bancos operaram em condições de liberdade absoluta, concedidas em nome de fundamentos ideológicos. Por isso, a classe política norte-americana tem a responsabilidade do caos actual. O dogma do mercado infalível autodestruiu-se. Em contrapartida, é agora reivindicado o modelo dos países que mantiveram alguma forma de controlo cambial - a China ou a Venezuela, por exemplo. E embora o impacto da crise se vá fazer sentir em todo o planeta, essas economias que não adoptaram a desregulamentação ultraliberal estarão mais bem preparadas. No que diz respeito à América Latina, alguns analistas sublinham o interesse de mecanismos como a Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA), o Banco do Sul ou a ideia de um banco da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), recentemente proposta pelo presidente venezuelano Hugo Chávez.

É um momento histórico [1]. Desmorona-se assim não apenas um modelo de economia, mas também um estilo de governo. Esta situação altera a liderança dos Estados Unidos no mundo. Em particular a sua hegemonia económica. As suas finanças dependem de continuarem a entrar grandes somas de capital estrangeiro. E os países de onde procede esse dinheiro - China, Rússia, petromonarquias do Golfo - vão agora influir no seu futuro.

Em 2006, a China e o Médio Oriente financiaram, em partes iguais, 86 por cento do défice dos países industriais. Em 2013, o superavit chinês irá exceder a totalidade do défice dos países industriais. Tudo isso atribui a Pequim um papel decisivo na manutenção da estabilidade do sistema financeiro internacional. Sendo provável que em troca a China procure obter concessões em questões como as de Taiwan ou do Tibete.

O declive da economia anuncia, em geral, a decadência dos impérios [2]. Poderá a enfraquecida economia estadunidense continuar a assumir a muitíssimo dispendiosa guerra do Iraque? A guerra do Vietnam acabou com a equivalência entre o dólar e o ouro e fez cambalear o sistema de Bretton Woods. A guerra do Iraque, pelos custos que tem, provocou uma transferência de riqueza dos Estados Unidos para os seus concorrentes. A influência dos fundos soberanos e da China reforçou-se. A crise actual está a fortalecer esse movimento, provocando um reequilíbrio fundamental: o centro de gravidade do mundo está a deslocar-se do Ocidente para o Oriente.

Mas uma tal deslocação desencadeia consequências em cascata, como as que levanta o ensaísta britânico John N. Gray: «Se os Estados Unidos se retirarem do Iraque, o Irão ficará a ser o vencedor regional. Como irá reagir a Arábia Saudita? Haverá mais ou menos probabilidades de uma acção militar para impedir que o Irão obtenha armas nucleares?» [3]. É evidente que Washington está a perder poder. A guerra da Geórgia, em Agosto passado, mostrou que a Rússia estava a redesenhar o mapa geopolítico do Cáucaso e que os Estados Unidos não podiam fazer nada.

A situação econômica é tão grave que muitos governos estão a atirar pela borda fora as suas crenças ideológicas, mostrando-se dispostos a adoptar medidas que ainda há pouco eles próprios teriam considerado heréticas. Por exemplo, aumentar as despesas públicas. E relançar os investimentos, como estímulo económico, em obras de infra-estruturas importantes. O próprio FMI defende agora uma intervenção pública mais radical.

Morreu o modelo de capitalismo concebido pelos Estados do Norte para grande proveito dos países ricos. A nova arquitetura de uma economia social de mercado irá ser definida, a partir da reunião do próximo dia 15 de Novembro, em Washington, não só pelos grandes países do G8, mas também, pela primeira vez, por potências do Sul como a Argentina, a África do Sul, o Brasil, a China, a Índia e o México. Já era tempo.

Notas

[1] John N. Gray, «Mucho más que una crisis financiera», El País, Madrid, 11 de Outubro de 2008.

[2] Paul Kennedy, Auge y caída de las grandes potencias, Debolsillo, Barcelona, 2004.

[3] Op. cit.

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Cadê a fita? O banco comeu, ou Duas macroeconomias, dois judiciários

Milton Temer, Fundação Lauro Campos, 10 de novembro de 2008

Para quem, do Brasil neoliberal, pretendia enterrar a luta de classes como dado permanente do desenvolvimento humano: dois exemplos recentes fortíssimos se destacam para incomodar os apóstolos do “pensamento único” que inundam as páginas e espaços de Economia nos jornais e telejornais. Dois exemplos que mostram macroeconomias e judiciários distintos, com o funcionamento dependendo de quem é o agente provocador.

O dinheiro público jogado nos bancos privados, sempre sob o argumento de que crise financeira põe em risco o sistema como um todo, comprova existir uma macroeconomia para o grande capital e outra para o mundo do trabalho e da produção. Porque a ninguém ocorre que, na série quase infindável de lucros pantagruélicos, tenham os banqueiros cogitado reduzir seus juros ou suas taxas por serviços inerentes à essência da própria atividade. A despeito de todas as declarações da área econômica do governo, não se tratou de outra coisa que não a privatização do lucro, garantida pela socialização do prejuízo.

Por outro lado, a insólita sessão em que a quase totalidade dos ministros do Supremo Tribunal Federal se concentrou no ataque ao juiz De Sanctis, pelo pecado mortal de ter decretado a prisão preventiva do predador social Daniel Dantas, simultânea ao inexplicável procedimento em que segmentos da Polícia Federal se empenham para desqualificar o excelente trabalho do delegado Protógenes Queiroz no combate aos inatingíveis de até então, comprova haver uma justiça para o grande capital e outra para o mundo do trabalho e da produção.

Não é de pouca importância lembrar que o presidente daquela egrégia Corte, o causídico Gilmar Mendes, vinha de pronunciamento não menos preocupante, ao comparar torturadores e resistentes à ditadura como criminosos anistiados pela mesma lei de anistia. Refutando, então, a opinião dos que não se permitem absolver a tortura da condição de crime imprescritível.

Também não é de menor importância lembrar que, na campanha contra o delegado Protógenes surgiu a denúncia de um suposto grampo, flagrando uma conversa de Gilmar Mendes com o senador Demóstenes, do PFL. Bizarro grampo que, divulgado pela sempre suspeita revista Veja, apontava conversa entre dois “virtuosos” homens públicos. Ou seja, estávamos diante de um exemplo raro de grampo a favor, pois, pela divulgação do ali registrado, só trazia benefícios às supostas vítimas do “estado policial” que o ministro dizia estar se instalando no Brasil.

Bizarro grampo, aliás, porque resultou em fita até hoje nunca comprovada de existência, um verdadeiro ET carente de atestado de existência real.

Como nada ocorre por acaso, sem dúvida, por trás dos dois episódios citados está a conivência do Planalto, por conta da incontestável contaminação de alguns dos seus principais ocupantes, ou de seus parentes próximos, com os fatos citados. Comprovando, enfim, a serviço de que classe social o atual governo está operando.

Milton Temer é jornalista e presidente da Fundação Lauro Campos.

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Ístvan Mészáros: A crise em desdobramento e a relevância de Marx

Ístvan Mészáros, Resistir.info, 21 de outubro de 2008

Alguns de vocês talvez tenham estado presentes na nossa reunião de Maio deste ano neste edifício, quando recordei o que havia dito a Lucien Goldman, em Paris, poucos meses antes do histórico Maio de 1968 francês. Em contraste com a perspectiva então prevalecente do “capitalismo organizado”, que se supunha ter deixado para trás com êxito o estágio da “crise do capitalismo” - uma visão fortemente asseverada por Marcuse e nessa época também partilhada pelo meu querido amigo Lucien Goldman - insisti no facto de que, em comparação com a crise em que estamos realmente a entrar, “a Grande Crise Económica Mundial de 1929-1933″ se parecer com “uma festa no salão de chá do vigário”.

Nas últimas semanas vocês tiveram uma antevisão do que eu tinha em mente. Mas apenas uma antevisão, porque a crise estrutural do sistema do capital como um todo, a qual estamos a experimentar na nossa época numa escala de era, está destinada a ficar consideravelmente pior. Ela tornar-se-á na devida altura muito mais profunda, no sentido de invadir não apenas o mundo das finanças globais mais ou menos parasitárias como todos os domínios da nossa vida social, económica e cultural.

A questão óbvia que devemos agora tratar refere-se à natureza da crise global em desdobramento e as condições necessárias para a sua solução factível.

A CONFIANÇA E A FALTA DELA

Se tentarem recordar o que foi infindavelmente repetido nas últimas duas semanas acerca da crise actual, há uma palavra que se destaca, ensombrando todos os demais diagnósticos apregoados e os remédios correspondentes. Essa palavra é confiança. Se ganhássemos uma nota de dez libras por cada vez que esta palavra mágica foi oferecida para consumo público nas últimas duas semanas em todo o mundo, sem mencionar a sua continuada reafirmação desde então, estaríamos todos milionários. O nosso único problema seria então o que fazer com os nossos milhões subitamente adquiridos. Pois nenhum dos nossos bancos, nem mesmo os nossos bancos nacionalizados recentemente - nacionalizados ao custo considerável de não menos do que dois terços dos seus activos de capital - poderia fornecer a lendária “confiança” necessária ao depósito ou ao investimento seguro.

Até o nosso primeiro-ministro, Gordon Brown, nos apresentou na semana passada a frase memorável “Confiança é a coisa mais preciosa”. Conheço a cantiga - e provavelmente a maioria de nós também a conhece - que nos diz que: “O amor é a coisa mais preciosa”. Mas a confiança no sistema bancário capitalista ser a coisa mais preciosa?! Tal sugestão é absolutamente perversa!

No entanto, a advocacia deste remédio mágico parece agora ser universal. A palavra é repetida com tamanha convicção como se a “confiança” pudesse simplesmente chover do céu ou crescer em grande abundância em árvores financeiras “capitalistamente” bem adubadas.

Há três dias atrás (a 18 de Outubro) o programa da BBC das manhãs de domingo - o programa Andrew Marr - entrevistou um eminente cavalheiro idoso, Sir Brian Pitman, o qual foi apresentado como o antigo Chefe do negócio bancário do Lloyd’s. Eles não disseram quando ele liderou aquela organização, mas o modo como falou logo o tornou claro. Pois transpirou através das suas respostas respeitosamente recebidas que ele deve ter sido o Chefe do Lloyd’s Bank bem antes da Crise Económica Mundial de 1929-33. Consequentemente, para encorajar os telespectadores, ele apresentou uma grande inovação conceptual no discurso da confiança ao dizer que as nossas perturbações eram todas elas devidas a alguma “Super-confiança”. E imediatamente demonstrou também o significado de “Super-confiança”, ao afirmar, mais de uma vez naquela curta entrevista, que não pode haver problemas sérios hoje, porque o mercado sempre toma conta de tudo, mesmo que por vezes ele vá inesperadamente muito abaixo. Posteriormente ele sempre sobe outra vez. De modo que ele também fará isso desta vez, e subirá infalivelmente repetidas vezes no futuro. A crise actual não deveria ser exagerada, disse ele, porque é muito menos séria hoje do que a que experimentámos em 1974. Pois em 1974 tivemos uma semana de três dias de trabalho na Grã-Bretanha [ainda que em nenhum outro lugar] e agora não temos isso. Temos? E quem poderia argumentar contra aquele facto irrefutável?

A TRÍADE PSEUDO-HEGELIANA

Assim, temos agora a palavra mágica explicativa para todas as nossas perturbações não a apresentar-se como um órfão infeliz, solitário, mas como parte de algo como uma tríade “fukuyamizada” pseudo-hegelina: confiança - falta de confiança e super-confiança. O único constituinte que falta neste discurso mágico explicativo é agora o fundamento real do nosso perigoso sistema de banca e seguros que opera no terreno dos truques de confiança em proveito próprio que mais cedo ou mais tarde estão destinados a serem (e de tempos em tempos realmente têm sido) descobertos.

De qualquer forma, toda esta conversa acerca das virtudes absolutas da confiança na administração económica capitalista assemelha-se muito à explicação oferecida pela mitologia indiana acerca da base de suporte do universo. Pois naquela antiga visão do mundo dizia-se que o universo era carregado, muito reconfortantemente, sobre as costas de elefantes. E os poderosos elefantes?, você poderia perguntar. Ninguém pensaria que isso fosse uma dificuldade. Pois os elefantes são, ainda mais reconfortantemente, suportados nas costas da tartaruga cósmica. Mas, e quanto à própria tartaruga cósmica? Não é suposto que pergunte tal questão, para que não sirva de alimento aos tigres de Bengala, antes de eles serem extintos.

Felizmente, talvez (?), The Economist é um bocadinho mais realista na sua avaliação da situação.

No contexto deste nosso assunto penoso, a agora reconhecida pioria da crise económica, vou apresentar-lhes citações exactas, incluindo alguns números malditos de fracassos capitalistas que já não são negáveis, retirados principalmente de publicações bem estabelecidas e com uma consciência de classe desavergonhadamente burguesa como The Economist e The Sunday Times. Vamos citá-las meticulosamente, palavra por palavra, não só porque elas são eminentes no seu campo como também a fim de evitar que nos acusem de “viés e distorção de esquerda”.

Marx costumava dizer que nas páginas de The Economist a classe dominante estava a “conversar consigo própria”. As coisas mudaram um pouco desde aquele tempo. Pois agora até mesmo no campo especializado da “perícia económica” a classe dominante precisa de um órgão de propaganda de circulação em massa, com o objectivo da mistificação geral. No tempo em que Marx viveu a classe dominante estava cheia de “confiança”, e também de um grande bocado de “super-confiança” incontestada, para necessitar disso. Assim, sob as menos arrogantes circunstâncias actuais, o semanário de distribuição em massa com sede em Londres, The Economist, - o farisaico porta-voz do anual “Davos Jamboree” dominado pelos EUA - é cauteloso ao conceder que a crise que estamos a enfrentar hoje refere-se às dificuldades de “Salvar o sistema”, conforme a sua capa do número de 11 de Outubro de 2008.

Podemos admitir, naturalmente, que nada menos do que “salvar o sistema” (ou não) é o que está em causa no nosso tempo, mesmo que a discussão de The Economist deste problema seja um tanto estranha e contraditória. Pois no seu modo habitual de tentar apresentar a sua posição altamente partidária como uma visão objectivamente “equilibrada”, utilizando a fórmula do “por um lado isto e por outro lado aquilo”, o The Economist sempre consegue atingir a sua desejada conclusão em favor da ordem estabelecida. Assim, também nesta ocasião, The Economist assevera no seu artigo principal de 11 de Outubro que “Esta semana assistiu-se ao primeiro vislumbre de uma resposta global abrangente para o fosso da confiança “. Agora, felizmente, espera-se que o “fosso da confiança”, embora reprovável em si próprio, se remedeie graças a uma algo misteriosa “resposta global abrangente”.

Ao mesmo tempo, no lado mais realista, o semanário londrino também reconhece no mesmo editorial que
“O dano para a economia real está a tornar-se aparente. Na América o crédito ao consumidor está agora a contrair-se, e cerca de 150 mil americanos perderam os seus empregos em Setembro, o máximo desde 2003. Algumas indústrias estão seriamente prejudicadas: as vendas de carros estão no seu mais baixo nível em 16 anos pois os aspirantes a compradores são incapazes de obter crédito. A General Motors fechou temporariamente algumas das suas fábricas na Europa. Por todo o globo indicadores prospectivos, como inquéritos de compras junto a administradores, estão horrivelmente sombrios”.
Eles não dizem, contudo, que “o fosso da confiança” pode ter algo a ver com tais factos.

Naturalmente, a defesa do sistema deve prevalecer em cada artigo, mesmo se esta tiver de ser apresentada com a expressão inquestionável de visão pragmática. Neste sentido, “salvar o sistema” para The Economist equivale à identificação totalmente acrítica da revista com a operação de resgate económico ilimitado, e a advocacia incontestável dos mesmo, - a ser cumprida sem quaisquer meios que se afastem dos habitualmente mais dogmaticamente glorificados “recursos do mercado” - em favor do perturbado sistema capitalista. Assim, mesmo os mais queridos e bem testados dogmas da propaganda (de um não só não existente livre mercado, que na realidade nunca existiu) podem agora ser atirados borda fora pela nobre causa de “Salvar o sistema”. Consequentemente, conta-nos The Economist que
“A economia mundial está claramente com um aspecto fraco, mas ela poderia ficar um bocado pior. Este é o momento de colocar dogma e política de lado e concentrar em respostas pragmáticas. Isto significa mais intervenção governamental e cooperação no curto prazo, mais do que os contribuintes, políticos ou na verdade os jornais do mercado livre normalmente gostariam “. [1]
Nós fomos presenteados anteriormente com sermões semelhantes do presidente George W. Bush. Ele disse na sua intervenção na televisão há duas semanas que normalmente e instintivamente ele é crente e apoiante apaixonado do mercado livre, mas sob as actuais circunstâncias excepcionais ele deve pensar em outros caminhos. Ele deve começar a pensar sob estas difíceis circunstâncias, ponto final. Você não pode dizer que não foi advertido.

As somas envolvidas na recomendada solução “pragmática”, as quais advogam varrer para o lado as “preferências normais” dos “contribuintes e jornais do mercado livre ” (isto é, da solução agora defendida a qual significa, na verdade, a necessária submissão das grandes massas do povo a fardos fiscais crescentes, mais cedo ou mais tarde) são literalmente astronómicas. Para citar The Economist mais uma vez: “em pouco mais de três semanas o governo da América, como foi dito, expandiu seu passivo bruto em mais de US$1 milhão de milhões - quase o dobro do custo da guerra do Iraque até agora ” [2] “Bancos americanos e europeus perderão cerca de US$10 milhões de milhões”. [3] “Mas a história ensina uma lição importante: que as grandes crises bancárias são essencialmente resolvidas pelo lançamento de grandes blocos de dinheiro público” [4] .

Dezenas de milhões de milhões de dinheiro público “dado”, e justificado em nome da alegada “importante lição da história”, e naturalmente ao serviço da incontestável boa causa de salvar o sistema, isto é certamente um bloco muito grande. Nenhum vendedor ambulante de gelados poderia alguma vez sonhar com tais blocos. E se acrescentarmos àquela grandeza o facto citado na mesma página da revista de Londres, que só no decorrer do ano passado “o índice de preços dos alimentos de The Economist saltou aproximadamente 55%” [5] e “A alta dos preços dos alimentos no fim de 2007 e princípio de 2008 provocou tumultos em uns 30 países” [6] , nesse caso o bloco em causa torna-se ainda mais revelador quanto à natureza do sistema que agora se encontra, ele próprio, numa crise sempre a aprofundar-se.

Pode alguém pensar numa maior acusação para um sistema de produção económica e reprodução social pretensamente inultrapassável do que esta de que - no máximo do seu poder produtivo - está a produzir uma crise alimentar global, e o sofrimento dos incontáveis milhões inseparáveis disto por todo o mundo? Esta é a natureza do sistema que se espera salvar agora a todo custo, incluindo a actual “repartição” do seu custo astronómico.

Como pode alguém ter algum senso tangível de todos os milhões de milhões desperdiçados? Uma vez que estamos a falar acerca de grandezas astronómicas, pus esta pergunta a um amigo que é professor de Astrofísica na Universidade de Londres. A sua resposta foi que eu deveria assinalar que um milhão de milhões (trillion) apenas é aproximadamente uma centena de vezes a idade do nosso universo. Agora, na escala da mesma grandeza, o número oficial habitualmente subestimado da dívida americana, por si própria, monta nos nossos dias a mais de 10 milhões de milhões. Isto é, um milhar de vezes a idade do nosso universo.

Mas deixem-me citar-vos um curto trecho de uma publicação japonesa. Lê-se isto:
“Quanto dinheiro especulativo está a movimentar-se pelo mundo? Segundo uma análise da Mitsubishi UFJ Securities, a dimensão da “economia real” global, na qual bens e serviços são produzidos e comercializados, é estimada em US$48,1 milhões de milhões… Por outro lado, a dimensão da ‘economia financeira’ global, o montante total de acções, títulos e depósitos, eleva-se a US$151,8 milhões de milhões. Portanto, a economia financeira inchou mais de três vezes relativamente à dimensão da economia real, crescendo rapidamente durante as últimas duas décadas. O fosso é tão grande quanto US$100 milhões de milhões. Um analista envolvido nesta estimativa disse que cerca da metade deste montante, US$50 milhões de milhões, mal é necessário para a economia real. Cinquenta milhões de milhões de dólares valem bem mais de 5000 milhões de milhões de yen, um número demasiado grande para eu realmente compreender”. [7]
Na verdade é mesmo muito difícil compreender, quanto mais justificar, como fazem os nossos políticos e banqueiros apologistas do capital, as somas astronómicas de especulação parasitária acumulada numa grandeza correspondente a 500 mil vezes a idade do nosso universo. Se quiser uma outra medida sobre a grandeza em causa, imagine apenas um infeliz contabilista dos tempos romanos, a quem fosse pedido nada mais do que simplesmente escrever no seu quadro negro o número de 5000 milhões de milhões de yen em algarismos romanos. Ele cairia em desespero total. Simplesmente não poderia fazer isso. E mesmo que tivesse à sua disposição algarismos arábicos, os quais não poderia ter tido, mesmo neste caso precisaria 17 zeros após o número 5 a fim de registar a cifra em causa.

O perturbante, contudo, é que os nossos políticos e banqueiros endinheirados parecem pensar apenas nos zeros, e não nas suas ligações substantivas, quando apresentam estes problemas para consumo público. E esta abordagem provavelmente não pode funcionar indefinidamente. Pois é preciso muito mais do que zeros para escapar do buraco sem fundo do endividamento global a que estamos condenados pelo sistema que eles agora querem salvar a todo custo.

Na realidade, a recente popularidade de Gordon Brown tem uma grande relação com zeros em mais de uma forma. A sua espantosa nova popularidade - que, bem pensado, pode acabar por ser um tanto efémera - foi demonstrada na semana passada pela manchete de primeira página: “From Zero to Hero” (”De zero a herói”). O artigo em questão sugeria que o nosso primeiro-ministro realmente teve êxito em “salvar o sistema”. Aqui está como ele ganhou a grande aclamação.

NACIONALIZAÇÃO DA BANCARROTA CAPITALISTA

A razão porque ele foi louvado desse modo, como um herói, foi ter inventado uma nova variedade de nacionalização da bancarrota capitalista, a ser adoptada com imperturbável “consciência de mercado livre” também por outros países. Aquilo fez até mesmo com que George W. Bush se sentisse menos culpado por actuar contra o seu auto-proclamado “instinto apaixonado” quando nacionalizou um enorme “bloco” da bancarrota capitalista estado-unidenses do qual um único ítem - os passivos das companhias hipotecárias gigantes Fannie Mae e Freddie Mac - montavam a 5,4 milhões de milhões de dólares (o que quer dizer, a soma necessária para 54 anos de execução da guerra do Iraque).

A “novidade pragmática” - oposta “ao dogma e à política” nas palavras de The Economist - da recente nacionalização da bancarrota capitalista pelo “New Labour” é que os contribuintes obtiveram absolutamente nada (por outras palavras, zero-zero-zero quantas vezes queira escrever, mesmo dezassete vezes) pelas imensas somas de dinheiro investido em activos capitalistas fracassados, incluindo nossos bancos britânicos nacionalizados a dois terços. Esta espécie de nacionalização da bancarrota capitalista é algo diferente das versões anteriores, instituídas após a Segunda Guerra Mundial quando a “Cláusula 4″ do Partido Trabalhista - a advogar o controle público dos meios de produção - ainda fazia parte da sua Constituição. Pois em 1945 os nacionalizados sectores em bancarrota da economia capitalista foram transferidos para o controle do Estado, e enquanto durou foram generosamente engordados outra vez a partir da tributação geral com o objectivo da adequada “privatização” no devido momento.

Mesmo a nacionalização da Rolls Royce Company em 1971, sob o primeiro-ministro conservador Edward Heath, seguiu o mesmo padrão embaraçoso de nacionalização abertamente admitida e controlada pelo Estado. Nos nossos dias, contudo, a beleza da solução de Gordon Brown é que remove o embaraço enquanto multiplica muitas vezes os milhares de milhões desperdiçados ao investir na bancarrota capitalista. Certamente ele merece plenamente a sua promoção de “De zero a herói” bem como o máximo louvor de “Salvador do mundo” que lhe foi conferida por alguns outros jornais, devido à sua grande modéstia de ficar satisfeito com o zero absoluto em troca dos nossos - não dos seus - milhares de milhões generosamente dispensados. Mas poderá esta espécie de remédio governamental ser considerada uma solução perdurável para os nossos problemas mesmo em termos de curto prazo, para não mencionar a sua necessária sustentabilidade a longo prazo? Só os loucos poderiam acreditar nisso.

Na verdade, a recentes medidas adoptadas pelas nossas autoridades políticas e financeiras apenas atenderam a um único aspecto da crise actual: a liquidez dos bancos, das companhias de hipotecas e de seguros. E mesmo isso só numa extensão muito limitada. Na realidade as enormes “dádivas de blocos” não representam senão o pagamento dos depósitos, por assim dizer. Muito mais será necessário também quanto a isto no futuro, como as perturbações ainda em desdobramento no mundo dos mercados de acções continuam a enfatizar.

Contudo, bem além do problema da liquidez , uma outra dimensão apenas da crise financeira refere-se à quase catastrófica insolvência dos bancos e das companhias de seguros. Este facto torna-se claro quando os seus passivos assumidos especulativamente e irresponsavelmente, mas nem por isso menos existentes, são realmente levados em conta. Para dar apenas um exemplo: dois dos nossos grandes bancos na Grã-Bretanha têm passivos que montam a US$2,4 milhões de milhões cada um, adquiridos sob a suposição aventureira de que eles nunca terão de ser cumpridos. Pode o estado capitalista salvá-los com êxito com passivo dessa dimensão? Onde poderia o estado pedir dinheiro emprestado com essa grandeza para a operação de resgate necessária para tal finalidade? E o que seriam as necessárias consequências inflacionárias de “repartir tais blocos” da operação de resgate verdadeiramente gigantesca ao simplesmente imprimir o dinheiro requerido na ausência de outras soluções?

Além disso, os problemas não se esgotam de modo algum no perigoso estado do sector financeiro. Pois de modo ainda mais intratável, também os sectores produtivos da indústria capitalista estão com sérios problemas, pouco importando quão altamente desenvolvida e favorecida eles possam parecer estar através da sua posição de vantagem competitiva na hierarquia global do capital transnacional. Devido ao nosso tempo limitado, devo limitar-me a um exemplo, mas muito significativo. Refere-se à indústria automóvel dos Estados Unidos, grandemente humilhada nos últimos anos, apesar de todos os subsídios recebidos do mais poderoso estado capitalista no passado, que se contam em muitos milhares de milhões de dólares.

Deixem-me citar de um artigo publicado sobre a Ford Corporation e suas fantasias globalizantes em 1994, publicado no The Sunday Times. Foi assim que os nossos distintos jornalistas financeiros pintaram naqueles tempos a sua rósea pintura:
“A globalização plena está a ser tentada pelas multinacionais … ‘Isto é definitivamente o bébé de Trotman, disse uma fonte americana. ‘Ele tem uma visão do futuro, a qual diz que, para ser um vencedor global, a Ford deve ser uma corporação verdadeiramente global”. Segundo Trotman, que disse a The Sunday Times em Outubro de 1993, “Como a competição automotiva se torna mais global ao entrarmos no próximo século, a pressão para descobrir economias de escala tornar-se-á cada vez maior. Se, ao invés de fazer dois motores de 500 mil unidades cada um, pudermos fazer um milhão de unidades, então os custos são muito mais baixos. Em última análise haverá um punhado de actores globais e o resto não estará ali ou estarão a lutar para sobreviver’. Trotman e seus colegas concluíram que a plena globalização é o caminho para bater competidores como os japoneses e, na Europa, o arqui-rival da Ford, a General Motors, a qual mantém uma vantagem de custo sobre a Ford. A Ford também acredita que precisa da globalização para capitalizar em mercados emergentes no Extremo Oriente e na América Latina”. [8]
Portanto, a “única” coisa que Alex Trotman - o britânico que era presidente da Ford Corporation naquele tempo - se esqueceu de considerar, apesar da sua impecável qualificação aritmética de saber a diferença entre 500 mil e 1 milhão, foi isto: o que acontece quando não podem vender o 1 milhão (e muitas vezes mais) motores de carros, apesar da estrategicamente contemplada e desfrutada vantagem de custo. No caso da Ford Corporation, mesmo a maciça taxa de exploração diferencial que a companhia podia impor à escala mundial como enorme companhia transnacional - isto é, pagar por exactamente o mesmo trabalho 25 vezes menos aos trabalhadores da “Ford Philippines Corporation”, por exemplo, do que à sua força de trabalho nos Estados Unidos da América - mesmo esta vantagem inquestionável não podia ser considerada suficiente para assegurar uma saída desta contradição fundamental.

É aqui que estamos hoje, não só no caso da gravemente humilhada Ford Corporation como também no da General Motors, independentemente da sua vantagem de custo outrora profundamente invejada até pela Ford Corporation dos Estados Unidos.

Ao falar acerca de um acordo recentemente estabelecido que proporciona subsídios do estado americano às companhias gigantes de automóveis do país, eis como a infeliz situação actual da indústria automobilística estado-unidense é descrita num dos últimos números de The Economist: “o acordo significa que as companhias de automóveis - abençoadas com a garantia do governo - deveriam obter empréstimos com uma taxa de juro de cerca de 5% ao invés dos 15% que enfrentariam no mercado aberto nas condições de hoje”. [9]

Contudo, nenhum montante de subsídio de qualquer espécie pode ser considerado suficientemente satisfatório, porque as “Três grandes” - General Motors, Ford e Chrysler - estão à beira da bancarrota, apesar do facto do bébé de sonho de Trotsman ser agora um adolescente plenamente desenvolvido. Portanto The Economist deve admitir que
“A partir do momento em que subsídios industriais como este começam a fluir, é difícil pará-los. Um estudo recente do Cato Institute, um think-tank de extrema direita, descobriu que o governo federal gastou cerca de US$92 mil milhões a subsidiar negócios só em 2006. Deste total, apenas US$21 mil milhões foram para agricultores, grande parte do resto foi para empresas como a Boeing, a IBM e a General Electric na forma de apoio de crédito à exportação e vários subsídios de investigação.

Os Três grandes já se queixam de que levará demasiado tempo repartir o dinheiro [do estado], e querem acelerar o processo. Também querem outros US$25 mil milhões, possivelmente ligados à segunda versão da lei de resgate da Wall Street. A lógica do salvamento da Wall Street é que as finanças servem de base para tudo. Detroit não pode começar a fazer tal reivindicação. Mas, se o seu lobbying tiver êxito, será que demorará muito para que companhias de aviação aflitas e retalhistas fracassados se juntem à fila?” [10]
A imensa expansão especulativa do aventureirismo financeiro, especialmente nas últimas três ou quatro décadas, é naturalmente inseparável do aprofundamento da crise dos ramos produtivos da indústria e as resultantes perturbações que se levantam com a absolutamente letárgica acumulação de capital (e na verdade acumulação fracassada) naquele campo produtivo da actividade económica. Agora, inevitavelmente, também no domínio da produção industrial a crise está a ficar muito pior.

Naturalmente, a consequência necessária da crise sempre em aprofundamento nos ramos produtivos da “economia real”, como eles agora começam a chamá-la e a contrastar a economia produtiva com o aventureirismo especulativo financeiro, é o crescimento do desemprego por toda a parte numa escala assustadora, e a miséria humana a ele associada. Esperar uma solução feliz para estes problemas vinda das operações de resgate do estado capitalista seria uma grande ilusão.

Este é o contexto em que os nossos políticos deveriam realmente começar a prestar atenção à afirmada “importante lição da história”, ao invés de “distribuir grandes blocos de dinheiro público” sob a pretensa “lição da história”. Pois como resultado do desenvolvimento histórico sob a regra do capital na sua crise estrutural, na nossa própria época atingimos o ponto em que devemos ser sujeitos ao impacto destrutivo de uma sempre a piorar simbiose entre a estrutura legislativa do estado da nossa sociedade e o material produtivo bem como da dimensão financeira da ordem reprodutiva societária estabelecida.

Compreensivelmente, aquele relacionamento simbiótico pode ser, e frequentemente também acontece ser, administrado com práticas absolutamente corruptas pelas personificações privilegiadas do capital, tanto nos negócios como na política. Pois, não importa quão corruptas possam ser tais práticas, elas estão plenamente em sintonia com os contra-valores institucionalizados da ordem estabelecida. E - dentro da estrutura da simbiose prevalecente entre o campo económico e as práticas políticas dominantes - eles são legalmente bastante permissíveis, graças ao mais dúbio e muitas vezes mesmo claramente anti-democrático papel facilitador da selva legislativa impenetrável proporcionada pelo estado também no domínio financeiro.

A fraudulência, numa grande variedade das suas formas práticas, é a normalidade do capital. As suas manifestações extremamente destrutivas não estão de modo algum confinadas à operação do complexo militar-industrial. Nesta altura o papel directo do estado capitalista no mundo parasitário das finanças é não só fundamentalmente importante, em vista da sua grandeza que tudo permeia, como tivemos de descobrir com chocante clareza durante as últimas semanas, mas também potencialmente catastrófico.

O facto embaraçoso é que companhias hipotecárias gigantes dos EUA, como a Fannie Mae e o Freddie Mac, foram corruptamente apoiadas e generosamente abastecidas com garantias altamente lucrativas mas totalmente imerecidas pela selva legislativa do Estado americano em primeiro lugar, bem como através de serviços pessoais de corrupção política não punida. Na verdade, a cada vez mais densa selva legislativa do estado capitalista passa por ser o legitimador “democrático” da fraudulência institucionalizada nas nossas sociedades. Os editores e jornalistas de The Economist estão de facto perfeitamente familiarizados com as práticas corruptas pelas quais, no caso das companhias hipotecárias gigantes americanas, receberam do seu estado tratamento descaradamente preferencial [aqui cito The Economist ]
“permitiu à Fannie e ao Freddie operarem com minúsculos montantes de capital. Os dois grupos tinham núcleos de capital (como definido pelo seu regulador) de US$83,2 mil milhões no fim de 2007, isto suportava US$5,2 milhões de milhões de dívidas e garantias, um rácio de alavancagem de 65 para um. [!!!] Segundo a CreditSights, um grupo de investigação, a Fannie e o Freddie foram contrapartes em valores de US$2,3 milhões de milhões de transacções com derivativos, relacionadas com as suas actividades de hedging. Nunca seria permitido a um banco privado ter um balanço tão altamente alavancado, [11] nem isto o qualificaria para a máxima classificação de crédito AAA. … Eles utilizaram o seu financiamento barato na compra de activos de rendimento mais alto. [12]

[Além disso,] Com tanto em jogo, não é de admirar que as companhias tenham construído uma formidável máquina de lobbying. Foram dados empregos a ex-políticos. Os críticos podiam esperar uma cavalgada robusta. As companhias não temiam morder as mãos que as alimentavam”. [13]
Não temer “morder as mãos que as alimentavam” refere-se, naturalmente, ao corpo legislativo do estado americano. Mas por que deveriam elas ter medo? Pois companhias tão gigantescas constituem uma simbiose total com o estado capitalista. Isto é um relacionamento que corruptamente se reafirma também em termos do pessoal envolvido, através do acto de contratar políticos que poderiam servi-los preferencialmente, com um impressionante “rácio de alavancagem de 65 para um” e a associada classificação de crédito AAA, mesmo de acordo com a relutante confissão de The Economist.

A gravidade da presente situação é sublinhada de um modo característico pela circunstância relatada nestas palavras por The Economist: ” traders no mercado de credit-default swaps recentemente começaram a fazer apostas sobre o impensável: que a América pode incumprir a sua dívida ” [14] . Naturalmente, os referidos traders reagem mesmo a eventos de tal carácter e gravidade como os que experimentamos hoje da única maneira possível: a espremer lucro disto.

O INCUMPRIMENTO DOS EUA NÃO É IMPENSÁVEL

O grande problema para o sistema capitalista global é, contudo, que o incumprimento da América não é de todo impensável. Pelo contrário, ele é - e tem sido desde há muito - uma certeza que se aproxima. Foi por isso que escrevi há muitos anos (em 1995, para ser preciso que:
“Num mundo de insegurança financeira nada se adequa melhor à prática de jogar com somas astronómicas e criminosamente não seguradas nas bolsas de valores do mundo - prenunciando um tremor de terra de magnitude 9 ou 10 na “Escala de Richter” Financeira - do que chamar as empresas que se dedicam a tais jogos ” Securities Management”; … Quando exactamente e de que forma - pode haver muitas variedades, mais ou menos brutais - os EUA incumprirão a sua dívida astronómica não se pode ver neste momento. Só pode haver duas certezas a este respeito. A primeira é que a inevitabilidade do incumprimento americano afectará profundamente toda a gente neste planeta. E a segunda, que a posição de potência hegemónica preponderante dos EUA continuará a ser afirmada de todas as formas, de modo a fazer o resto do mundo pagar pela dívida americana por tanto tempo quanto seja capaz de fazê-lo”. [15]
Naturalmente, a condição agravada de hoje é que o resto do mundo - mesmo com a historicamente muito irónica maciça contribuição chinesa para a balança do Tesouro americano - é cada vez menos capaz de preencher o “buraco negro” produzido numa escala sempre crescente pelo insaciável apetite da América por financiamento da dívida, como demonstrado pelas repercussões globais da recente crise hipotecária e bancária dos EUA. Esta circunstância traz o necessário incumprimento da América, numa das “variedades mais ou menos brutais”, para muito mais perto.

A verdade desta matéria perturbante é que pode não haver caminho de saída para estas contradições finalmente suicidas, as quais são inseparáveis do imperativo da infindável expansão do capital, independentemente das consequências - arbitrária e mistificadoramente confundido com crescimento como tal - sem mudar radicalmente o nosso modo de reprodução social metabólico através da adopção de práticas responsáveis e racionais muito necessárias da única economia viável, [16] orientada pela necessidade humana, ao invés do alienante, desumanizante e degradante lucro.

É aqui que o obstáculo esmagador das interdeterminações em causa própria do capital devem ser confrontadas, não importa quão difícil isto deva ser sob as condições prevalecentes. Pois a absolutamente necessária adopção e o apropriado desenvolvimento futuro da única economia viável é inconcebível sem a transformação radical da própria ordem socioeconómica e política estabelecida.

Gordon Brown recentemente exprimiu o seu desgosto acerca do “capitalismo sem peias”, em nome da totalmente não especificada “regulação”. Você pode recordar que Gorbachev, também, queria uma espécie de capitalismo regulado, sob o nome de “socialismo de mercado”, e também deve saber o que lhe aconteceu e à sua grotesca fantasia. Por outro lado, na expressão do primeiro-ministro conservador britânico Edward Heath, há muito tempo atrás, o mesmo pecado do “capitalismo sem restrições” era “a face inaceitável do capitalismo”. E apesar disso, o “capitalismo sem peias”, apesar da sua “face inaceitável”, permaneceu todas estas décadas não só “aceitável” como - no decorrer do seu novo desenvolvimento - tornou-se muito pior. Pois o fundamento causal dos nossos problemas cada vez mais sérios não é a “face inaceitável do capitalismo não regulamentado” mas a sua substância destrutiva. É aquela substância opressora que deve resistir e anular todos os esforços destinados a restringir o sistema do capital mesmo minimamente - como, na verdade, realmente se verificou ao efectuar isso também na forma de metamorfose, na Grã-Bretanha, do [partido] social-democrata “Old Labour” no neoliberal “New Labour”. Consequentemente, a fantasia periodicamente renovada de regular o capitalismo de um modo estruturalmente significativo só pode resultar numa tentativa de dar nós nos ventos.

Mas a última coisa de que hoje precisamos é de continuar a dar nós nos ventos, quando temos de enfrentar a gravidade da crise estrutural do capital, a qual exige a instituição de uma mudança sistémica radical. É revelador do carácter incorrigível do sistema do capital que mesmo num momento como este, quando a imensa grandeza da crise em desdobramento já não pode mais ser negada pelos mais devotos apologistas ex officio do sistema - uma crise descrita há poucos dias por nada menos que o vice-governador do Banco da Inglaterra como a maior crise económica em toda a história humana - e nada pode ser contemplado, para não dizer realmente feito, a fim de mudar os defeitos fundamentais de uma ordem reprodutiva societária cada vez mais destrutiva por parte daqueles que controlam as alavancas económicas e políticas da nossa sociedade.

Em contraste com a recente iluminação do seu próprio vice, o governador do Banco da Inglaterra, Mervyn King, não tinha quaisquer reservas acerca da saúde do acarinhado sistema capitalista, nem teve ele a mínima antecipação de uma crise a chegar quando louvou aos céus o livro de Martin Wolf, apologético do capital, com o seu auto-complacente e peremptoriamente assertivo título: Porque a globalização funciona. Ele considerou aquele livro “uma devastadora crítica intelectual dos oponentes da globalização” e uma “civilizada, sábia e optimista visão do nosso futuro económico e político”. [17] Agora, contudo, todos são forçados a terem pelo menos alguma preocupação acerca da verdadeira natureza e das necessárias consequências destrutivas da dogmaticamente saudada globalização capitalista.

Naturalmente, a minha própria atitude para com o livro de Wolf foi muito diferente daquela de Mervyn King e outros que partilhavam os mesmos interesses. Comentei na altura da sua publicação que
“o autor, que é o Comentador Chefe de Ciência Económica do Financial Times de Londres, esquece-se de colocar a questão realmente importante: Para quem ele funciona?, se é que funciona. Ele certamente funciona, por enquanto, e de forma alguma tão bem, para os decisores do capital transnacional, mas não para a esmagadora maioria da espécie humana que deve sofrer as consequências. E nenhuma quantidade da “integração jurisdicional” advogada pelo autor - isto é, em bom inglês, o controle directo mais apertado dos “demasiados estados” deplorados por um punhado de potências imperialistas, especialmente a maior delas - vai conseguir remediar a situação. A globalização capitalista na realidade não funciona e não pode funcionar. Pois ela não pode ultrapassar as contradições irreconciliáveis e os antagonismos manifestos da crise global estrutural do sistema. A própria globalização capitalista é a manifestação contraditória daquela crise, tentando subverter o relacionamento causa/efeito numa vã tentativa de curar alguns efeitos negativos por outros efeitos desejados que projecta, porque é estruturalmente incapaz de tratar das suas causas “. [18]
Neste sentido, as recentes tentativas de conter os sintomas da crise que se intensificam, pela cinicamente camuflada nacionalização de grandezas astronómicas da bancarrota capitalista, através dos recursos do estado ainda a serem inventados, só poderia sublinhar as determinações causais antagónicas profundamente enraizadas da destrutividade do sistema capitalista. Pois o que está fundamentalmente em causa hoje não é simplesmente uma crise financeira maciça mas o potencial de auto-destruição da humanidade neste momento do desenvolvimento histórico, tanto militarmente como através da destruição em curso da natureza.

Apesar da manipulação concertada de taxas de juro e das recentes cimeiras ocas dos países capitalistas dominantes, nada foi perduravelmente alcançado com o “lançamento de gigantescos blocos de dinheiro” no buraco sem fundo do “esmagado” mercado financeiro global. A “resposta global abrangente para o fosso da confiança”, como o desejo projectado de The Economist e dos seus mestres, pertence ao mundo da (não tão pura) fantasia. Pois um dos maiores fracassos históricos do capital, como o há muito estabelecido modo de controle social metabólico, é a contínua predominância dos estados-nação potencialmente mais agressivos, e a impossibilidade de instituir o estado do sistema do capital como tal na base dos antagonismos estruturalmente arraigados do sistema do capital.

Imaginar que dentro da estrutura de tais determinações causais antagonistas possa ser encontrada uma solução harmoniosa permanente para o aprofundamento da crise estrutural de um sistema de produção e de trocas mais iníquo - o qual está agora empenhado activamente em produzir mesmo uma crise alimentar global, por cima de todas as suas outras contradições gritantes, incluindo a sempre mais difusa destruição da natureza -, sem mesmo tentar remediar suas miseráveis iniquidades, é a pior espécie de pensamento ilusório, beirando a irracionalidade total. Pois, auto-contraditoriamente, ele quer reter a ordem existente apesar das suas necessárias iniquidades explosivas e antagonismos. E a chamada “integração jurisdicional dos estados em demasia” sob uns poucos auto-indicados, ou um, como advogado por alguns apologistas do capital, pode apenas sugerir a - igualmente auto-contraditória - permanência da potencialmente suicida dominação imperialista global.

Eis porque Marx é mais relevante hoje do que alguma vez já o foi. Pois apenas uma mudança sistémica radical pode proporcionar a esperança historicamente sustentável e a solução para o futuro.
Notas
[1] Todas estas citações foram retiradas do mesmo editorial de The Economist, 11/Outubro/2008, p. 13.
[2] The Economist, 11 October 2008, special section, p. 3.
[3] Ibid.
[4] Ibid., p. 4.
[5] Ibid.
[6] Ibid., p. 6.
[7] Shii Kazuo in Japan Press Weekly, Special Issue, October 2008, p. 20.
[8] “Ford prepares for global revolution”, by Andrew Lorenz and Jeff Randall. The Sunday Times, 27 March 1994, Section 3, p. 1.
[9] “A bail-out that passed. In the slipstream of Wall’street’s woes, the Big Three land a huge subsidy.” The Economist, October 4th, 2008, p. 82.
[10] Ibid., p. 83.
[11] A Lehman Brothers, um dos principais private merchant banks, tem um rácio de alavancagem de 30 para 1. Isso é bastante mau.
[12] “Fannie Mae and Freddie Mac: End of illusions” , The Economist, July 19-25, 2008, p. 84.
[13] “A brief family history: Toxic fudge” , The Economist, July 19-25, 2008, p. 84.
[14] “Fannie Mae and Freddie Mac: End of illusions”, The Economist, July 19-25, 2008, p. 85.
[15] “The Present Crisis”, quoted from Part IV. of Beyond Capital (published in London in 1995), pp.962-3. (In Spanish in Más allá del capital, Vadell Hermanos Editores , Caracas, 2001, pp. 1111-12.)
[16] Ver a este respeito: “Qualitative Growth in Utilization: The Only Viable Economy”, Secção 9.5 do meu livro, The Challenge and Burden of Historical Time , Monthly Review Press, New York, 2008, pp. 272-93. (Publicado in Herramienta, Numbers 36 and 37.)
[17] Mervyn King’s endorsement, on the back cover of Martin Wolf’s book, Why Globalization Works , Yale University Press, 2004.
[18] In “Education - Beyond Capital”, Opening Lecture delivered at the Fórum Mundial de Educação, Porto Alegre, July 28, 2004. In Spanish reprinted in La educación más allá del capital , Siglo Veintiuno Editores / Clacso Coediciones, Rio de Janeiro, 2008. Ver também o capítulo: “Why Capitalist Globalization Cannot Work?” no meu livro, The Challenge and Burden of Historical Time, Monthly Review Press, New York, 2008, pp. 380-398; Spanish edition: El desafío y la carga del tiempo histórico, Vadell Hermanos Editores / Clacso Coediciónes, Caracas, 2008, pp. 371-389.

[*] Palestra escrita para uma reunião em Conway Hall, Londres, a 21 de Outubro de 2008. Os inter-títulos são da responsabilidade de resistir.info.

O original encontra-se em www.herramienta.com.ar/ e em http://mrzine.monthlyreview.org/meszaros041108.html .
Tradução de JF.

Este ensaio encontra-se em http://resistir.info/ .

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As bombas atômicas desaparecidas da Guerra Fria

Em um desastre de avião em 1968, as forças armadas dos Estados Unidos perderam uma bomba atômica no gelo ártico da Groenlândia. Mas este não foi um caso isolado. Acredita-se que até 50 ogivas nucleares tenham desaparecido durante a Guerra Fria, e nem todas elas estão em áreas desabitadas

Benjamin Maack

Naquele ano, ainda era meio cedo para nadar no Mediterrâneo. Mas no início de março de 1966, Manuel Fraga Iribarne, que na época era o ministro espanhol das Informações, e Biddle Duke, o embaixador norte-americano em Madri, juntamente com as respectivas famílias, mergulharam nas águas geladas da Costa Cálida. Jornalistas de todo o mundo reuniram-se na praia da pequena vila de Palomares para noticiar o banho de mar de primavera das duas famílias. Tal interesse seria surpreendente, se não fosse pelo fato de uma bomba de hidrogênio encontrar-se no fundo do oceano a apenas alguns quilômetros dali. Uma bomba dotada de uma potência explosiva mais de mil vezes superior a daquela que arrasou Hiroshima.

Apenas algumas semanas antes, em 17 de janeiro de 1966, o pior acidente com arma nuclear de toda a Guerra Fria tinha ocorrido na costa sudeste da Espanha. Durante uma manobra de abastecimento aéreo, um bombardeio B-52 e um avião-tanque KC-135 norte-americanos chocaram-se em pleno ar a uma altitude de 9.000 metros, e ambos os aviões explodiram em uma gigantesca bola de fogo sobre Palomares. Havia quatro bombas de hidrogênio no B-52. Uma caiu, intacta, em um campo de tomates perto da vila. Em duas outras o disparador não nuclear detonou, fazendo com que fragmentos e poeira de plutônio caíssem na área onde ocorreu o impacto. A quarta bomba caiu no mar, em algum lugar ao largo da costa, e ficou enterrada em vários metros de lodo. Mas onde exatamente ela caiu?

Nas semanas que se seguiram ao acidente, Palomares parecia o cenário de um filme sobre o apocalipse. Na terra, homens usando roupas de proteção e máscaras azuis manuseavam contadores Geiger para procurar indícios de radiação no solo. Os campos de cultivo foram interditados, e uma safra inteira de tomates apodreceu na plantação. O governo dos Estados Unidos escavou os campos e removeu 1.400 toneladas de terra. O solo contaminado foi transportado para os Estados Unidos para ser eliminado. Dezenas de navios de guerra norte-americanos patrulharam a área litorânea na qual um pescador afirmou ter visto a bomba cair na água. A recuperação da bomba nuclear, que estava em uma profundidade de 800 metros, demorou 81 dias. Expressando perplexidade com os acontecimentos na Espanha, um artigo do diário alemão de Hamburgo, “Abendlatt”, disse o seguinte: “Mais do que qualquer cenário hipotético, este incidente deixa claro o que significa atualmente ‘viver com a bomba’”.

A bomba atômica perdida da Groenlândia
A possibilidade de haver uma bomba atômica perdida, e possivelmente danificada, em algum ponto do fundo do mar é realmente terrível. Atualmente a BBC está provocando um rebuliço com o relato da perda de uma bomba atômica norte-americana em 1968. Quando um bombardeiro norte-americano B-52 caiu no gelo ao largo da costa da Groenlândia, os explosivos convencionais das suas bombas detonaram, fazendo com que uma grande área ficasse contaminada com radiação de plutônio. Mas o que o governo dos Estados Unidos manteve em segredo durante décadas foi que o trabalho de reconstrução feito com os componentes das bombas encontrados no local revelou que faltava uma ogiva nuclear. Ao que parece ela perfurou o gelo e submergiu na Baía Estrela do Norte. A bomba jamais foi encontrada.

“A perda de bombas atômicas não é um acontecimento tão raro quanto seria de se esperar. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos confirmou a perda de 11 bombas atômicas”, afirma Otfried Nassauer, especialistas em armamentos nucleares e diretor do Centro de Informações sobre Segurança Transatlântica, em Berlim. “Acredita-se que até 50 armas nucleares em todo o mundo tenham sido perdidas durante a Guerra Fria”.

A maioria dessas armas extremamente perigosas ainda está no fundo do oceano. Em abril de 1989, um incêndio a bordo do submarino nuclear russo Komsomolez fez com que a embarcação afundasse em um local do Atlântico Norte cuja profundidade é de 1.700 metros, levando consigo dois torpedos e as suas ogivas nucleares. Em 22 de maio de 1968, um outro submarino nuclear, o USS Scorpion, afundou em uma região de 3.300 metros de profundidade cerca de 320 milhas náuticas ao sul do arquipélago dos Açores. Havia duas ogivas nucleares a bordo. Devido às grandes profundidades, nem os armamentos nem os reatores nucleares desses submarinos foram recuperados.

“Flecha quebrada” absurda
Um número muito maior de bombas atômicas desapareceu em desastres de avião sobre o mar aberto. “No período inicial da Guerra Fria, as aeronaves não contavam com autonomia suficiente para atravessar o Oceano Atlântico sem reabastecimento”, explica Nassauer, especialista em armas nucleares. “Alguns bombardeiros colidiram com os aviões de abastecimento, e outros simplesmente não conseguiram fazer contato com estes aviões-tanques, e, após ficarem sem combustível, caíram no mar”.

Entre o final da década de 1950 e meados da de 1960, o período mais crítico da Guerra Fria, bombardeiros norte-americanos armados com bombas nucleares estavam no ar 24 horas por dia, 365 dias por ano. As quatro rotas principais destas aeronaves passavam sobre a Groenlândia, a Espanha e o Mediterrâneo, o Japão e o Alasca. A freqüência dos acidentes só diminuiu quando os bombardeiros tornaram-se capazes de atravessar o Atlântico ou o Pacífico sem reabastecimento.

Provavelmente a mais absurda “flecha quebrada” (”broken arrow”, o código norte-americano para acidentes envolvendo armas nucleares) ocorreu em 5 de dezembro de 1965, a bordo do USS Ticonderoga. O porta-aviões ia do Vietnã para Yokosuka, no Japão, quando um caça-bombardeiro que saía de um dos gigantescos elevadores que transportam as aeronaves do hangar interno ao convés da embarcação simplesmente mergulhou no mar. O piloto, o avião e a bomba nuclear que estava a bordo afundaram a uma profundidade de cinco quilômetros e jamais foram encontrados.

Esse incidente também foi mantido em segredo durante vários, anos, em parte porque, quando foi finalmente divulgado publicamente em 1981, ele provou que os norte-americanos mantinham mesmo armas nucleares no Vietnã. O episódio revelou também que os Estados Unidos violaram um tratado com o Japão, segundo o qual os norte-americanos concordaram em não trazer nenhuma arma nuclear para o território japonês.

Fusíveis queimados
A maneira displicente como os Estados Unidos lidam com os seus brinquedos mais perigosos não se limita a países estrangeiros. Na verdade, sete da 11 ogivas nucleares que estão oficialmente desaparecidas foram perdidas em território dos Estados Unidos. Em 5 de fevereiro de 1958, o piloto de bombardeiro Howard Richardson teve que lançar para fora da aeronave a bomba de hidrogênio que levava após ter se chocado com um avião de caça. A seguir, a bomba desapareceu nas águas rasas de Wassaw Sound, a cerca de 20 quilômetros de Savannah, na Geórgia, uma cidade de 100 mil habitantes. Richardson, um piloto experiente, mal conseguiu aterrissar a sua aeronave na pista próxima da Base de Hunter, do Exército dos Estados Unidos.

A tripulação do B-52 que explodiu em 24 de janeiro de 1961 devido a um sistema de combustível defeituoso teve menos sorte. Antes da aeronave partir-se, os homens conseguiram lançar para fora a carga perigosa. Uma das duas bombas de hidrogênio caiu de pára-quedas, sobre uma árvore, mas a outra foi parar em uma área pantanosa perto da pequena cidade de Goldsboro, na Carolina do Norte, onde afundou no lodo até uma profundidade estimada em 50 metros. A bomba permanece até hoje lá. O local do acidente continua sendo uma zona militar restrita.

Mas o que tornou este incidente famoso foi a bomba que caiu na árvore. Cinco dos seus seis fusíveis projetados para impedir uma detonação falharam, e apenas o último evitou uma explosão nuclear. Após este quase desastre, os sistemas de segurança nas armas nucleares dos Estados Unidos foram revistos, e Washington pediu à União Soviética que fizesse o mesmo.

Terroristas poderiam encontrar uma bomba nuclear?
Até hoje, estes dois incidentes são um tópico de muita polêmica entre especialistas, oficiais militares, adeptos das teorias conspiratórias e cidadãos preocupados de Savannah e de Goldsboro. Será que as duas bombas ainda representam perigo para os moradores dessas cidades? “É muito improvável que as bombas que estão no fundo do oceano explodam”, diz Nassauer. “No entanto, talvez o risco seja maior no caso das bombas perdidas em terra. Mas praticamente não se sabe nada a respeito da probabilidade de tais bombas explodirem espontaneamente”.

Um temor bem diferente surgiu após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. O que aconteceria se terroristas adquirissem uma das bombas perdidas? Segundo Nassauer, este é um medo sem fundamente, já que nem as forças armadas, após utilizarem todos os meios de que dispõem, conseguiram recuperar as bombas. “Várias dessas armas estão em locais que ainda são completamente inacessíveis com os recursos disponíveis atualmente”, diz Nassauer. Os perigos reais residem na área em torno do local de um acidente, e entre eles está a possibilidade de explosão no momento do acidente e os efeitos da corrosão, que poderiam permitir o vazamento de radioatividade no decorrer das décadas.

Em Palomares, por exemplo, o pesadelo continua mais de quatro décadas depois. Depois do acidente essa cidadezinha sonolenta tornou-se parte da próspera indústria turística da região. Mas, em 2004, duas áreas contendo solo radioativo foram descobertas no local de futuros campos de golfe e hotéis de luxo. Estudos amplos do solo revelaram que outras áreas continuam contaminadas. O governo espanhol confiscou a terra afetada, e em 2009 tropas norte-americanas serão novamente enviadas para descontaminar a área. Mais de 40 anos após a primeira bomba ter caído em Palomares, milhares de toneladas de terra contaminada serão mais uma vez transportadas para os Estados Unidos.

Der Spiegel

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Tarsila, o Abaporu e a antropofagia

por Veronica Stigger
Escritora
Entrelinhas - TV Cultura

Em 1928, Tarsila do Amaral pintou uma tela para dar de presente de aniversário ao seu marido Oswald de Andrade. Nela, vê-se uma estranha figura de cabeça pequena, olhos e cabelos escuros e puxados, longos braços e pernas. Aliás, uma perna grossa, com um pé bem delineado e imenso, que contrasta com a pequena cabeça. Ao lado desta figura, está um cacto, atrás, um sol em forma de laranja.

Oswald ficou bastante impressionado com o quadro. Tão impressionado que, imediatamente, chamou o amigo Raul Bopp para vê-lo. O espanto em Bopp não foi menor. A imagem era forte, faltava dar-lhe um nome.

Tarsila, então, tomou seu dicionário tupi-guarani e lá encontrou o título para o seu quadro e o mote para todo um movimento. Batizou-lhe Abaporu, que, em tupi, quer dizer aquele que come homem, em outras palavras, antropófago.

Para Oswald de Andrade, foi Tarsila quem deu, afinal, as primeiras medidas do sonho bárbaro na Antropofagia de suas telas. Para Raul Bopp, Tarsila era, inegavelmente, a “chefa” do movimento antropofágico.

Bopp conta que Tarsila queria um retorno ao Brasil, à sua ternura primitiva. Ela queria remexer nas raízes da terra para tentar recuperar uma imagem de país mais próxima a um suposto momento primordial, a uma suposta primitividade perdida. Por isso o recurso à figura do antropófago.

Para Tarsila, a partir desse retorno a um Brasil desconhecido, seria possível encontrar um caminho próprio a seguir. Dizia ela: “Desse reencontro com as nossas coisas, num clima criador, poderemos atingir uma nova estrutura de idéias. Solidários com as origens”.

Mas não podemos perder de vista que a figura de que Tarsila se apropria não é mais a da negra, que evoca as amas-de-leite da fazenda de sua infância no interior de São Paulo, ou dos tipos populares que encontrou em suas viagens pelas cidadezinhas do Brasil. Mas é a figura de um antropófago. Na figura do antropófago, mescla-se a imagem de uma primitividade a uma imagem de violência e poder. Segundo Oswald, a antropofagia é a devoração ritual do inimigo para a transformação da força dele em força própria. Ao comer o inimigo, come-se junto – isto é, absorve-se – seu poder, sua força. Em suma, como movimento, a antropofagia propõe a deglutição das estéticas estrangeiras, para reprocessá-las, para subvertê-las, transformando-as em expressões nossas, singulares, paradoxalmente originais – como o Abaporu, de Tarsila.

Veronica Stigger

Nascida na cidade de Porto Alegre em 1973. Formou-se em jornalismo, mas deixou as redações para dedicar-se à pesquisa universitária. É doutora em teoria e crítica da arte pela USP, com estudo sobre as relações entre arte, mito e rito na modernidade. Desde 2001, vive em São Paulo. “O trágico e outras comédias”, seu livro de estréia, foi publicado primeiramente em Portugal, em 2003, pela editora Angelus Novus. Em abril de 2004, foi lançado em versão brasileira pela 7Letras.

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A ilha da fantasia no mar revolto

Lúcio Flávio Pinto - Novembro 2008

Viver uma crise quase sempre acarreta não compreendê-la. Ao menos à superfície dos fatos, na qual eles são visíveis, o que mais salta aos olhos é a irracionalidade. Abalado pelo desaparecimento do chão que, antes, sustentava os seus pés, o personagem contemporâneo da crise deixa de raciocinar. Segue como manada. Com o estouro, o impulso que comanda os atos é o desespero. Não fosse assim, o paroxismo que as crises desencadeiam permitiria ao cidadão, ao perceber as contradições, entender melhor as situações das quais antes participava como autômato, na mecânica do comando invisível.
Qualquer um, provocado a falar sobre a atual crise financeira, não hesitaria em dizer que ela começou nos Estados Unidos. Nosso presidente nem tropeçou nas palavras, como de hábito, ao lançar a acusação contra os americanos e imaginar que havia entre eles e nós um Atlântico, fora da sua verdadeira posição geográfica, a nos proteger. A bolha de crédito dos Estados Unidos, que criou bolhas de consumo e investimento, multiplicadas virtualmente sobre uma origem real de proporções muito menores, ao estourar alcançou a Europa, a Ásia e o mundo.

Assustados e amedrontados, os portadores de riqueza entesourada procuraram um porto seguro no meio da tormenta financeira. Onde o encontraram? Na compra de mais letras do tesouro americano. Este é considerado o melhor investimento, garantido pela única potência mundial, que se esvai em sucessivas hemorragias financeiras.

Essa ciclópica perda de sangue monetário, a maior de toda a história do capitalismo, ainda assim talvez seja proporcionalmente menor do que os ganhos que os EUA terão com as compras dos seus papéis. Eles deviam se tornar moeda podre, se o funcionamento do capitalismo seguisse as leis formuladas por seus economistas e os cânones dos seus sacerdotes. Não é bem assim, contudo. O dólar é a moeda mundial. Quem a emite é os EUA. Há muito tempo a emissão de dinheiro não guarda a devida proporção com o lastro do país. Por outro lado, ao fixar os juros internos, a América (conforme preferiam dizer os antigos) estabelece a taxa de remuneração da sua dívida pantagruélica além-mar. O credor fica inteiramente à mercê desse exercício de poder, o maior que há no planeta. Por isso mesmo, o único planetário. Ainda assim, impermeável a raciocínios rasteiros como o do nosso presidente, personagem que brilha na prosperidade e se torna catatônico nas crises.

Só assim se entende a frase lapidar de Lula, quando a bolha começou a estourar, de que não iríamos ser atingidos pelas atribulações made in USA. Como esse isolamento seria possível, se o Brasil é o quarto maior credor individual dos Estados Unidos, abaixo apenas do Japão (594 bilhões de dólares), China (US$ 520 bilhões) e Grã-Bretanha (US$ 290 bilhões), sem contar os países árabes exportadores de petróleo, agrupados (US$ 175 bilhões)?

Temos quase US$ 150 bilhões em títulos do tesouro americano. Esse valor é mais de 70% dos US$ 200 bilhões de nossas tão apregoadas reservas internacionais (que, por sua vez, representam um terço do que o governo paga de juros da dívida interna todos os anos). É uma concentração preocupante, ainda mais quando outros países, naturalmente menos bem orientados por seus presidentes do que o nosso sob o grande timoneiro, estão procurando diversificar suas aplicações para evitar um súbito incêndio em suas contas. Tudo pode virar cinza se o crash persistir.

Na ditadura, o presidente-general costumava nos descrever como uma ilha de paz num oceano encapelado. Na democracia, o presidente eleito repete a mesma frase. Soa não como tragédia: por ser repetição, é pura comédia. Agravada pela decisão brasileira de investir US$ 80 bilhões nos papéis americanos entre dezembro de 2006 e dezembro de 2007. Essa compra projetou o Brasil da 10ª para a 4ª posição entre os países que podem ficar com a brocha na mão, se eventualmente acontecer o pior. Não a quebra do império americano, que parece um risco pra lá de remoto, mas a redefinição dos termos dos rendimentos para os papéis emitidos por Tio Sam. Para se salvar, uma grande potência usa o poder que tem: transferindo o prejuízo para quem estiver em baixo.

Nosso Guia pode amanhecer outro depois dessa ressaca.

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Lúcio Flávio Pinto é o editor do Jornal Pessoal, de Belém, e autor, entre outros, de O jornalismo na linha de tiro (2006) e Contra o poder. 20 anos de Jornal Pessoal: uma paixão amazônica (2007).

Fonte: Jornal Pessoal & Gramsci e o Brasil.

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O Japão enforca sem alarde

Uma mudança no governo reinicia as condenações à morte. Embora pouco violento, o país ainda convive com prisões em delegacias, torturas e um sistema judicial que vê na confissão a prova definitiva do crime

Aurore Brien

O novo primeiro-ministro japonês Shinzo Abe mudou de estilo, mas não de política. Ao contrário de seu antecessor, ele não visitou o santuário Yasukuni, onde se encontram enterrados criminosos de guerra. Porém, enviou um presente como homenagem. No âmbito judiciário, a mudança de ministro da Justiça traduz-se por uma retomada da pena de morte. Seu predecessor a havia abandonado, em virtude de suas convicçőes budistas. Prisioneiros, muitas vezes detidos há décadas, foram enforcados nos últimos meses.

A despeito das pressőes internacionais e, recentemente, internas, o Japão continua a aplicar a pena de morte por enforcamento. O número de execuçőes diminuiu em relação aos anos 1990 (foram doze, desde 2003). Contudo, elas tendem a aumentar. Segundo um porta-voz do Ministério da Justiça, três detentos foram executados em 27 de abril de 2007. Quatro prisioneiros, entre eles dois septuagenários, tiveram o mesmo destino, em 25 de dezembro de 2006. Além disso, em um sistema judiciário acusatório, em que as confissőes são mais importantes do que as provas, o número de condenados à morte que esgotaram todos os recursos cresceu — passando de 53, em 2000, para 96 em 2006.

Com exceção da última execução, que aconteceu em período de sessão parlamentar, elas, assinadas pelo ministro da Justiça, são realizadas durante o período de recesso da Assembléia Legislativa. Evita-se, assim, todo o tipo de debate e publicidade. O lema do ministério da Justiça japonês parece ser “quanto menos se souber, melhor”.

De fato, “o tema é tão tabuizado, que a maioria dos japoneses não sabe como os condenados são executados”, explicou Maiko Tagusari, procuradora pública em Tóquio, durante um encontro nos escritórios da Federação de Associaçőes de Advogados do Japão (Nichibenren). Essa ignorância é reforçada pelos principais meios de comunicação, que não informam praticamente nada sobre o tema, temendo perder postos de trabalho nos clubes de imprensa (kisha kurabu). Esses clubes são ligados às grandes instituiçőes e permitem acesso prioritário às informaçőes, das quais têm, praticamente, o monopólio, em detrimento dos jornalistas independentes.

Chama-se o condenado de improviso, no dia de sua execução
Contudo, o procedimento da execução dos prisioneiros é denunciado por vários organismos, como a Liga Parlamentar para a Abolição da Pena de Morte, que foi criada em 1994, e conta 80 membros sem distinção de partido. O condenado à morte, que pode permanecer por mais de 25 anos na prisão, é chamado de improviso, na manhã de sua execução, sem a possibilidade de contactar seu advogado ou sua família. Esse foi o caso de um dos executados em dezembro de 2006. Ele estava no corredor da morte há mais de trinta anos [1]. Quando a condenação é considerada definitiva (após procedimentos de apelação), a execução pode ser realizada mesmo que o prisioneiro tenha requerido revisão de seu processo ou anistia. Os recursos não têm efeito suspensivo [2].

Nobuto Hosaka, deputado do partido social-democrata e secretário-geral dessa liga, pleiteia, desde 2003, uma moratória para a pena capital, propondo comutá-la pela prisão perpétua. Uma moratória e não a abolição, porque segundo Hosaka, “por enquanto, é realmente impossível obter uma emenda para a abolição da pena de morte”. A Liga Parlamentar é, aliás, apoiada pela Nichibenren.

Desde que a atual Constituição japonesa entrou em vigor, em 1947, as execuçőes foram suspensas apenas duas vezes. Entre 1989 e 1993, sob a influência do tratado de abolição da pena de morte, adotado pela ONU em dezembro de 1989 — e não ratificado pelo Japão. E, depois, durante quase um ano, de outubro de 2005 a setembro de 2006, sob o mandato de Seiken Sugiura, o ministro da Justiça anterior, que em virtude de seu credo budista, recusava-se a assinar ordens de execução.

As pressőes da União Européia, como as realizadas por uma delegação da Comissão Européia e presidida por Bernard Zepter, em dezembro de 2005, e pela ONU, continuam sem efeito. Um estudo realizado pelo governo japonês, em 1999, com 3.600 pessoas, cujo resumo foi publicado no Japan Times [3] revelou que 80% dos entrevistados eram favoráveis à pena de morte; consideravam a sentença como algo natural; ignoravam seu retrocesso em outros países; e alguns, até mesmo, acreditavam que a França ainda utilizava a guilhotina. A Liga Parlamentar tenciona tomar medidas para melhor informar a população e tentar mudar a mentalidade, como por exemplo, convidar uma estrela internacional que atraia a cobertura da mídia e seja um grande veículo de publicidade para os abolicionistas.

Para o Estado, “um castigo justo” não inclui “manter a paz de espírito”
A Nichibenren, por sua vez, tomou a iniciativa inédita de enviar um questionário a 79 condenados à morte, detidos em sete prisőes. Cinqüenta e oito responderam. Essa pesquisa, realizada em 2006, e cujos principais resultados foram publicados no Asahi Shimbum [4], revela suas condiçőes de vida. Um detido vive isolado em uma cela de quatro tatames (2 x 4 metros), com um vaso sanitário, uma pia e uma janela com vidro fosco, que o impede de ver o céu. Quando não tem nenhuma atividade, precisa ficar sentado no chão. É filmado 24 horas por dia e a luz fica acesa das 21h até as 6h30, para evitar suicídios. Não tem permissão para se aproximar de outros detentos. Toma sua ducha sozinho e pratica esporte 30 minutos, duas vezes por semana, também sozinho, dentro do quarto ou sobre o teto (2 x 5 metros), com apenas um pula-corda como material. De cada quatro detentos, um declara não receber nenhuma visita. Um deles afirmou que, no seu caso, já faz dezessete anos. Para aqueles que têm autorização, é permitida apenas a visita do advogado e da família.

As respostas à questão “o que você desejaria?” refletem uma necessidade de melhora imediata das condiçőes de vida cotidianas: poder olhar para o céu através das janelas das celas; fazer mais esporte fora da cela e em um espaço menos estreito; receber da família legumes ou frutas, visto que a maioria dos detentos sofrem de avitaminose, devido a uma alimentação deficiente e sem verduras cruas; poder apagar a luz durante a noite; falar com outros presidiários; receber a visita de um amigo; não ter sua correspondência censurada. “Graças à pressão da Nichibenren, uma lei que poderá ser adotada pela Assembléia Legislativa em junho, atenderá a algumas destas reivindicaçőes”, afirma Yuichi Kaido, advogado ativo na defesa dos direitos dos prisioneiros.

Para justificar o fato de os prisioneiros terem permissão de conversar apenas com a família, o poder público apregoa que, com tal medida, os condenados à morte teriam a possibilidade de “manter a paz de espírito” e de aceitar tranqüilamente seu “justo castigo” [5]. Muitos, entre eles, são obrigados a se divorciar e não têm mais nenhum contato com a família. Alguns decidem recorrer, por escrito, a algum membro de um grupo de apoio ou a uma pessoa que não tenha nada a ver com seus familiares. Mas toda correpondência é submetida à censura do presídio, não podendo exceder certo número de páginas, podendo ser destruída, se a autoridade considerá-la como fator de perturbação das condiçőes mentais do prisioneiro.

Confirmando o aparecimento de problemas mentais graves e de neuroses causadas por isolamento e longos períodos de detenção, Kaido citou o caso de um “condenado à morte que cometeu suicídio devido às condiçőes de detenção”. Segundo Kaido, a nova lei será mais amena, ao estipular que, se uma pessoa contribuir para o “equilíbrio mental” do condenado à morte, ela poderá receber autorização para visitá-lo ou para se corresponder por correio.

A reforma deverá também melhor garantir o caráter confidencial das conversas entre o advogado e o detento. Por enquanto, toda conversa é vigiada por um guarda da prisão, que toma notas e decide arbitrariamente a duração da entrevista (de 10 a 30 minutos). O ministério da Justiça afirma que, na maioria dos casos, as conversas não serão mais vigiadas, exceto “em caso de necessidade”. Os defensores dos direitos do prisioneiros esperam que a nova lei esclareça o termo ambíguo “necessidade”.

Justiça considera confissões, muitas vezes forçadas, como provas definitivas
Outra questão delicada no sistema judiciário japonês são as daiyo kangoku (substituto de prisão). Estas celas foram criadas em 1908, dentro das delegacias, para atenuar a falta de espaço nas prisões. Mesmo não havendo mais racionamento hoje em dia, elas continuam a ser utilizadas, o que cria uma confusão entre o sistema de interrogatório e o de detenção, provocando confissőes forçadas de suspeitos encarcerados. Esses não estão sob controle dos guardas penitenciários, mas dos policiais envolvidos nos processos de investigação.

“A Nichibenren solicita a abolição dos daiyo kangoku há 30 anos, e o Comitê Internacional dos Direitos Humanos, desde 1998”, explica o advogado. Contudo, a lei sobre as prisőes, revisada em 2005, manteve o procedimento, que permite à polícia deter um suspeito durante 23 dias consecutivos em uma cela de delegacia, e não em uma penitenciária.

De acordo com a lei, o acusado tem direito a não dar depoimento e ter um advogado, mas na prática tais direitos não são respeitados. Segundo Kaido, “os policiais querem a todo custo resolver o caso, sejam as confissőes verdadeiras ou falsas, porque, se elas são obtidas, o caso é em encerrado”.

Uma vez que na justiça japonesa a confissão é mais importante que a prova, o réu que fez uma confissão não pode mais negá-la perante o tribunal. Durante os interrogatórios, que podem durar mais de dez horas, é aplicada tanto a pressão psicológica como a violência física. O inquiridores perturbam o acusado mostrando-lhe artigos de jornais que o declaram culpado, pois a suposição de inocência é raramente considerada pela mídia. Alguns acusados apresentam cicatrizes ou hematomas no rosto. “Em 90% dos casos, o suspeito é declarado culpado”, afirmaram Yu Terasawa e Miyake Katsuhisa, dois jornalistas independentes que se encontram em Tóquio. É a confirmação do que Masami Ito — jornalista do Japan Times — declarou em uma entrevista.

Quando o acusado pode conversar com um advogado e denuncia os maus tratos sofridos, esse apresenta as confissőes ao tribunal. Com freqüência, os defensores correm risco, para provar que seu cliente sofreu maltratos. Kaido, por exemplo, explicou: “Embora seja proibido, se o acusado tem marcas, às vezes utilizo meu celular para tirar fotos dele”. É arriscado, mas ao menos a prova é aceita.

Enfim, fala-se em instituir os júris. Mas há resistências
A Federação de Associaçőes de Advogados do Japão pleiteia a introdução de câmeras de vídeo para vigiar todos os procedimentos, o que diminuiria particularmente os riscos de confissőes forçadas. Basta ler alguns artigos extraídos do capítulo “Investigação de Suspeitos” do Código de Educação da Polícia, mantido guardado, para compreender os desvios e o comportamento abusivo dos inquiridores. “A necessidade absoluta de obter as confissőes” está indicada de maneira bem clara no Código. Para isso é necessário “ser paciente e persistente; não sair da sala de interrogatório até que o suspeito confesse; desconfiar de suas afirmações; se você (policial) sair da sala, significa uma derrota; durante o interrogatório tem de se fixar o olhar no acusado.”

Oficialmente, Kaido não estabelece nenhuma relação entre o aumento do número de condenados à morte e a utilização dos daiyo kangoku. Ele salienta, todavia, que todos os condenados à morte que obtiveram uma revisão de seu processo e foram libertados por terem sido declarados inocentes haviam sido vítimas de confissões forçadas nos daiyo kangoku.

No entanto, parece haver uma luz de esperança nos olhos dos abolicionistas: a lei de 28 de maio de 2004, que entrará em vigor, em maio de 2009 (cinco anos de prazo, que permitem ao governo informar seus cidadãos e mobilizar o sistema judiciário), autoriza-os a participar dos processos de crimes dolosos, na qualidade de saiban-in (juízes não togados). Rodeados de três juízes profissionais, os nove jurados proferirão a culpabilidade ou a não-culpabilidade do acusado e definirão a sentença. Um sistema jurídico semelhante existiu até 1923, mas foi suspenso em 1943 por falta de uso, pois o acusado podia recusar a presença dos jurados — o que não mais será possível, a partir de 2009.

“Graças a esse sistema, os processos refletirão a opinião geral. Esperamos que a compreensão e a confiança do público na justiça sejam reforçadas. Isto acelerará os processos”, explica-se no ministério da Justiça. Mas o sistema saiban-in está longe de ser popular. A população não quer assumir a responsabilidade, nem perder seu tempo com processos criminais que “não lhe dizem respeito”. Conforme uma sondagem realizada em 2005, pelo governo japonês, os homens seriam mais inclinados a participar do que as mulheres, os urbanos mais do que as pessoas do meio rural, a classe patronal mais do que os empregados (classe média) e donas de casa.

Nos escritórios do Nichiberen, Kazuko Ito, encarregada do governo para promover o sistema saiban-in, tem consciência do atraso a ser superado. “Devemos educar e encorajar o povo a participar e compreender como se torna uma sentença justa”. Tal educação compreende prospectos, simpósios, drama (mini-séries para televisão), o apoio da mídia e a inserção de programas educativos nas escolas e colégios.

Por meio das histórias em quadrinho, difundir a presunção de inocência
Mas isto não faz com que as apreensőes desapareçam. Ao contrário do governo, o Nichibenren não é favorável à participação civil na decisão da pena. Com uma população majoritariamente favorável à pena de morte e uma propaganda afirmando que, graças ao saiban-in, será possível e natural aplicar a pena capital, há pouco espaço para revitalizar o princípio da presunção de inocência. Ele existe no papel, mas é, na prática, ignorado. Contudo, a associação não desiste e faz pressão. “Com a colaboração de Jinpachi Mori, famoso autor de mangás, tentamos midiatizar o sistema saiban-in e o princípio da presunção de inocência por meio das histórias em quadrinho, que são lidas pela totalidade da população japonesa”, declara Kazuzo Ito.

A Liga Parlamentar para a Abolição da Pena de Morte gostaria de instaurar também um debate geral, aberto a todos, em torno da questão “Por que a pena de morte deveria ser aplicada?”. Convidar intelectuais, pessoas conhecidas e especialistas com opiniőes divergentes, permitiria, segundo a Liga, criar verdadeiros debates. “Isto provaria ao público que a pena capital não é a única solução”, concluiu o secretário-geral da Liga.

Resta esperar pelos resultados da aplicação do sistema saiban-in para saber se o número de condenados a morte continuará a aumentar, ou se, ao menos, a novidade será benéfica aos partidários da moratória, visto que a abolição da pena de morte se encontra longe da pauta do dia. Para isso, ainda serão necessários alguns anos.

Le Monde diplomatic

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eu sou 300, eu sou 350 - Mário de Andrade

por Marcelo Coelho
Sociólogo, escritor e articulista
Entrelinhas - TV Cultura

Com o tempo, a imagem de Mário de Andrade foi mudando: crítico de música, pesquisador, grande orientador dos escritores mais jovens, criador do que viria a ser a secretaria municipal de cultura, Mário de Andrade é hoje reconhecido não só como artista, mas como uma figura de erudito, de professor, de teórico também.
Saiu agora pela editora Agir um livro que reúne vários depoimentos sobre Mário de Andrade, feitos por pessoas que o conheceram bastante. Em primeiro lugar, sua prima, Gilda de Mello e Souza, que viveu durante um tempo na famosa casa da rua Lopes Chaves. Mas também os críticos Antonio Candido, Décio de Almeida Prado, a escritora Rachel de Queiroz e o jornalista Mauricio Loureiro Gama.
O título desse livro é tirado de um verso que abre o livro “Remate de Males”, de Mário de Andrade – eu sou 300, eu sou 350. Naturalmente há quem lembre a dedicação, a delicadeza de Mário de Andrade, seu lado de professor; muitos jovens se sentiam intimidados quando o conheciam, ou tinham medo de procurá-lo. É o caso de Mario da Silva Brito. Tinha visto Mário de Andrade muitas vezes tomando chope no bar Franciscano; nunca soube como se aproximar.
Terminou sendo apresentado a ele no final de uma conferência. Mário de Andrade convidou-o para conversar com ele algum dia, mas Silva Brito achou que era mera cortesia. Passa-se o tempo, eles se encontram de novo, e Mário da Silva Brito percebe que Mário de Andrade não se lembrava bem de quem ele era. “Não me reconheceu. E eu fui embora.” Ao chegar em casa à noite, encontra uma carta do Mário. É o poeta pedindo desculpas “são 18 horas, e a primeira coisa que faço é pedir perdão a você, tratei-o de maneira longínqua hoje à tarde!” Silva Brito resume: Mario de Andrade era um ser eminentemente ético.
Sua prima Gilda de Mello e Souza guarda lembranças bem diferentes do convívio familiar. Ela conta que Mário ria muito ao ver as crianças apavoradas com as histórias que contava. “Outra coisa que Mário de Andrade fazia”, diz Gilda, “era sentar-se à mesa e dizer coisas para minha irmã mais velha, que era com quem ele tinha mais lida, fazê-la chorar, porque ela chorava facilmente. Ele se sentava à mesa e dizia: “hoje eu vou fazer Maria chorar”. E ela dizia: “você não me faz chorar coisa nenhuma”. Ela já era mocinha, tinha 15 anos. Ele tantas fazia que ela acabava chorando mesmo. E saía da mesa; ele achava uma graça enorme.”
Crueldade, talvez, mais do que brincadeira. Estranha mistura de agressividade e dedicação, de sacrifício pelos outros e, sem dúvida, de jogo de gato e rato com os outros. Não é simples ser qualquer pessoa. Mas deve ter sido especialmente complicado ser Mário de Andrade. Sem ser indiscreto, este livro traz mais do que depoimentos protocolares sobre o escritor – mostra, quase como se fosse um romance, como sabemos pouco de cada um de nós, e de que modo mesmo um autor conhecido, sobre o qual tanto já se escreveu, continua a ser obscuro, inesgotável e vivo, tantos anos depois de sua morte.

Marcelo Coelho

Nascido em 1959, na cidade de São Paulo. Formado em Ciências Sociais pela FFCLH-USP, mestre em Sociologia com tese sobre a construção de Brasília e o governo Kubitschek. É articulista da Folha de S. Paulo desde 1984. Publicou, entre outros, “Gosto se discute” (Ed. Ática, 1994), “Jantando com Melvin” (Ed.Imago, 1998), e “Folha Explica Montaigne” (Publifolha, 2002). Seu mais recente livro é “Crítica Cultural: Teoria e Prática” (Publifolha, 2006).

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Camus e Sartre: O polêmico fim de uma amizade no pós-guerra

por Manuel da Costa Pinto
Escritor e colunista de literatura
Entrelinhas TV Cultura

Biografia de uma amizade, com o desfecho dramático de uma ruptura pública. Assim pode ser definido o livro do norte-americano Ronald Aronson sobre as relações entre o escritor Albert Camus e o filósofo Jean-Paul Sartre.

O leitor poderá se perguntar: a quem interessa saber dos bastidores de uma briga entre dois intelectuais franceses nos anos 50? Mas o fato é que o livro de Aronson – Camus e Sartre: O polêmico fim de uma amizade no pós-guerra – é muito mais do que uma história sobre intrigas e rivalidades pessoais.

Sartre foi o papa da filosofia existencialista, uma corrente de pensamento na qual a afirmação de que “o homem está condenado à liberdade” se associava a engajamentos políticos. Para Sartre, as circunstâncias históricas eram uma possibilidade de materializar uma idéia de libertação do homem em relação a quaisquer determinações externas (religião, ideologia ou imposições sociais e econômicas).

Durante muito tempo, Camus foi identificado como existencialista. Havia muitas semelhanças entre ambos. No romance O Estrangeiro, Camus cria uma personagem totalmente indiferente às convenções sociais e que assassina um árabe numa praia da Argélia (seu país natal, no norte da África). Ao longo do julgamento, o protagonista diz que matou “por causa do sol” – expressando, uma idéia de acaso, de gratuidade, que parecia próxima à noção sartriana de contingência. E no ensaio O mito de Sísifo, Camus criou uma noção de absurdo da condição humana, de confrontação com a morte, muito próxima à filosofia de Sartre.

Sartre foi amigo e admirador de Camus até o momento em que este lançou O homem revoltado, livro de 1951 no qual atacava as ideologias que transformavam os engajamentos políticos num fim em si mesmo.

Sartre publicou em sua revista, Les Temps Modernes, um artigo que criticou O homem revoltado de modo impiedoso – gerando uma resposta de Camus e uma réplica de Sartre que selou a ruptura entre ambos.

O pano de fundo da polêmica era o fato de que Sartre estava alinhado aos comunistas no momento em que os crimes de Stalin na União Soviética estavam sendo divulgados. Camus se opunha radicalmente à idéia de que os fins justificavam os meios, de que a eficácia política poderia cancelar valores éticos – e por isso foi ridicularizado por Sartre como porta-voz de uma moral de Cruz Vermelha.

O livro de Aronson examina todas as nuances desse período conturbado da guerra fria e traz uma revelação: a existência de uma peça teatral intitulada O improviso dos filósofos, em que Camus satiriza o existencialismo de Sartre e que permaneceu inédita até recentemente. Detalhe importante: Camus escreveu O improviso dos filósofos muito antes da polêmica com Sartre – sinal de que já adivinhava disputas ideológicas que permanecem válidas até hoje.

Manuel da Costa Pinto

Nascido em 1966 na cidade de São Paulo. Jornalista, autor dos livros “Antologia Comentada da Poesia Brasileira do Século 21”, “Literatura Brasileira Hoje”, ambos pela Publifolha, e “Albert Camus – Um Elogio do Ensaio” (Ateliê), foi editor-assistente da Edusp, redator do caderno “Mais!”, da Folha de S.Paulo e de 1997 a 2003, editor da CULT – Revista Brasileira de Literatura. Atualmente, é coordenador editorial do Instituto Moreira Salles, colunista de literatura da Folha de S.Paulo.

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Mariátegui: tão longe, tão perto

Luiz Bernardo Pericás - Julho 2008

José Carlos Mariátegui, considerado o “pai” do marxismo latino-americano, ainda é, em grande medida, um desconhecido em nosso país. Restrita, quando muito, ao meio acadêmico, sua obra ainda não conseguiu penetrar de forma mais incisiva no mercado editorial brasileiro, ainda que alguns de seus escritos tenham sido lançados em anos recentes. Seu livro, os Sete ensaios de interpretação da realidade peruana, publicado há exatamente oitenta anos, é apontado como o mais influente, original e inovador estudo do processo histórico de uma nação realizado por um intelectual na América do Sul.

Há quem afirme que a publicação dos Sete ensaios marca, de fato, a data de nascimento do marxismo na região. Afinal, Mariátegui, ao contrário de muitos, não “copia” ou “transfere” mecanicamente sistemas teóricos europeus para sua realidade, mas realiza, na prática, o primeiro esforço bem-sucedido para “nacionalizar” o arcabouço teórico de Marx em nosso continente. Mesmo assim, pouco se sabe de sua vida e de seu pensamento.

As primeiras referências a ele conhecidas por aqui datam de 1928, quando o jornalista e teórico peruano troca correspondência com o intelectual paulista Álvaro Soares Brandão, que tinha interesse em publicar um de seus textos na revista Amauta, editada por ele [1]. Depois disso, o nome de Mariátegui irá aparecer rapidamente em 1946, num artigo de Waldo Frank, traduzido por Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça [2]. Luis Carlos Prestes enviará carta ao Comitê Central do Partido Comunista peruano em 1960, em homenagem a JCM [3], que será publicada no órgão Unidad, de Lima, enquanto um texto de Astrojildo Pereira, “José Carlos Mariátegui y su obra”, aparecerá na mesma edição [4].

Nelson Werneck Sodré era admirador dos Sete ensaios (a edição utilizada por ele era a chilena, publicada em 1955) e usou a obra como referência para seu curso no Iseb sobre a formação histórica do Brasil (que começou a ministrar em 1956), curso este que resultaria, mais tarde, em seu livro Formação histórica do Brasil, de 1962 [5]. Neste livro, ele citará os Sete ensaios extensamente em notas. Para alguns estudiosos do pensamento de Sodré, seu pioneirismo seria, inclusive, ainda maior, já que ele teria fundamentado suas teses centrais em JCM, teses estas incorporadas mais tarde no trabalho supracitado. Por outro lado, o mais importante historiador brasileiro, Caio Prado Jr., aparentemente não sofreu influência direta do teórico peruano. Uma avaliação empírica mostra que não consta nenhuma ficha bibliográfica, das novecentas preparadas por ele (atualmente guardadas no Instituto de Estudos Brasileiros da USP), que discuta qualquer livro de JCM.

Ainda que Sodré tenha trazido algumas das idéias do teórico peruano para o debate intelectual dentro das esquerdas brasileiras já no final da década da 1950 e início dos anos 1960, o primeiro grande impulsionador da obra mariateguiana no Brasil foi, de facto, o sociólogo Florestan Fernandes, que somente em 1975 consegue editar, pela primeira vez em nosso território, os Sete ensaios, pela editora Alfa Omega [6]. Um atraso de quarenta e sete anos. Mais tarde, ele coordenaria uma coleção de obras compiladas de “cientistas sociais” na qual estaria incluída uma seleção de textos do jornalista [7] e também publicaria, em 1994, o importante artigo “O significado atual de José Carlos Mariátegui”, numa revista acadêmica [8].

Dos anos 1980 para cá foram publicadas no Brasil algumas coletâneas de JCM, entre as quais uma sobre personalidades políticas de sua época (Do sonho às coisas, Boitempo, 2005), uma reunião de textos políticos (Por um socialismo indo-americano, UFRJ, 2005), duas pequenas biografias intelectuais (José Carlos Mariátegui, Brasiliense, 1983, e Mariátegui, vida e obra, Expressão Popular, 2006), um livro sobre temas de educação (Mariátegui sobre educação, Xamã, 2007) e outro sobre os primórdios do fascismo (As origens do fascismo, Alameda, 2008). [Ver também: J. C. Mariátegui e o marxismo na América Latina, Unesp e Cultura Acadêmica, 2002]

Diversas teses acadêmicas sobre JCM têm sido preparadas e defendidas em distintas universidades brasileiras, e o mais importante movimento social do país, o MST, ministra cursos sobre o teórico político peruano. Mas ainda há um longo caminho a ser trilhado para que o pensamento deste autor (comparado em muitos aspectos a Antonio Gramsci) seja mais bem difundido aqui.

A lenta penetração de JCM no Brasil talvez se deva a três motivos principais. Primeiro, o Peru era um país marginal para o Brasil em termos culturais. Os Estados Unidos, a Europa, e até mesmo a Argentina e o México, apesar da distância física, tinham não só maior contato com nosso país, como possuíam uma estrutura editorial e divulgação literária muito mais fortes do que a nação andina, que também apresentava uma conformação étnica e histórica em vários aspectos bastante diferentes da nossa. Além disso, o Partido Comunista do Brasil, vinculado ao Komintern (a organização que teria condições de divulgar a obra de JCM por aqui), também não teria, necessariamente, interesse em propagar as idéias mariateguianas, que, de acordo com vários membros da IC, eram “desvios” ideológicos, populistas e contrários ao que Moscou defendia. Finalmente, o próprio Mariátegui, que costumava escrever sobre os acontecimentos mundiais e fatos relacionados a vários países, praticamente não menciona o Brasil em suas dezenas de artigos. Ele chegou a escrever sobre nações tão distantes como a Inglaterra, a Irlanda, a Turquia, a França, a Índia e a China, mas, mesmo estando supostamente tão próximo do Brasil, nunca elaborou um texto sequer sobre nosso país. Isso quando ocorriam, no cenário brasileiro, eventos importantes, como o movimento modernista, o tenentismo, a Coluna Prestes e o cangaço. O autor de La escena contemporánea irá mencionar o Brasil muito poucas vezes, apenas em pinceladas, para discutir, rapidamente (mas não exclusivamente), a questão dos negros no continente.

Mariátegui nasceu em uma família humilde e nunca chegou a conhecer o pai. Sempre teve saúde frágil e problemas físicos. Quando menino, recebe um forte golpe em uma das pernas, numa brincadeira escolar. Passará por cirurgias que o deixarão manco pelo resto da vida (nos seus últimos anos ele terá uma de suas pernas amputada). Ele se tornará um garoto recluso e amante da leitura. Por causa de todas as complicações de seu estado de saúde e da situação econômica precária de sua mãe, irá abandonar definitivamente, ainda muito cedo, a escola. Não chegou a concluir o curso primário. Quando garoto e adolescente trabalhou como entregador, linotipista e corretor de provas de um jornal limenho, para em seguida ingressar na carreira jornalística.

Este periodista autodidata aos poucos se aproximará do movimento operário, apoiará greves e será visto como uma pedra no sapato do então governo do presidente Augusto Leguía, que o enviará, num exílio dissimulado, para viver por alguns na Europa. A maior parte do tempo ficará na Itália, onde lerá os mais influentes jornais da época, conhecerá personalidades políticas e literárias do Velho Continente, observará em primeira mão o início do fascismo e presenciará a formação do Partido Comunista daquele país. Ao retornar ao Peru já estava “formado” politicamente e era assumidamente marxista. Seu primeiro livro, La escena contemporánea [9], sairá em 1925, e pouco depois, em 1928, publicará os Sete ensaios de interpretação da realidade peruana [10].

Em sua obra-prima, seu “clássico”, Mariátegui (fundador e principal dirigente do Partido Socialista e da Central Geral dos Trabalhadores do Peru) conseguirá mostrar com profundidade e maestria o painel geral do desenvolvimento histórico de seu país, desde o período pré-colombiano, passando pela colonização espanhola, até chegar às primeiras décadas do século XX, sendo capaz de articular temas fundamentais, como a evolução econômica peruana, a questão do regionalismo e do centralismo, a literatura, a questão agrária e o problema indígena. Criticado por Haya de La Torre e a Apra (Alianza Popular Revolucionaria Americana) e pelo Komintern, JCM será acusado (dependendo de seus detratores) de “europeizante”, “aprista”, “populista”, “intelectual pequeno-burguês”, “bolchevique d’annunziano” e “leninista”. Afinal de contas, suas idéias heterodoxas eram uma “ameaça” política às outras agrupações que lutavam pela hegemonia do movimento operário no país.

Logo depois do desaparecimento físico de Mariátegui, em 1930, ocorrerá uma tentativa de eliminar os supostos “desvios” mariateguistas de seu partido, que começou, a partir de então, a seguir fielmente as diretrizes de Moscou, não aceitando que se construíssem esquemas teóricos que saíssem das fórmulas propostas pelos dirigentes da Internacional. Por algum tempo, portanto, JCM se tornou um “herege” e seu legado acabou sendo desprezado por muitos “comunistas” ortodoxos.

Ao longo dos anos, contudo, isto iria mudar. A primeira edição dos Sete ensaios , com cinco mil exemplares, vendeu lentamente [11]. A segunda só sairia em 1944, preparada por seu primogênito, Sandro, com uma tiragem maior, dez mil livros [12]. A terceira virá à luz somente oito anos mais tarde.

De lá para cá, já foram editadas mais de 70 edições da obra em todo o mundo (incluindo as peruanas e as estrangeiras) [13]. Fato este, é claro, ajudado pela publicação das edições de bolso, vendidas a preços populares em todo o Peru. A primeira destas, lançada em 1956, teve uma tiragem de cinqüenta mil livros. Os Sete ensaios foram publicados (a partir dos anos 1950 em diante) em dezessete países [14]. Com dois milhões de exemplares vendidos, é o livro peruano de não-ficção de maior sucesso da história e com o maior número de edições em todo o mundo.

No Peru, as comemorações dos oitenta anos dos Sete ensaios estão sendo organizadas por um comitê encabeçado pelo filho mais velho de JCM, Sandro Mariátegui, e um conselho consultivo que inclui intelectuais locais e estrangeiros importantes, como Aníbal Quijano, Antonio Melis, Michael Löwy e Alberto Aggio, entre vários outros. Simpósios e publicações estão na pauta da equipe, assim como novas edições e a criação de uma cátedra com o nome de Mariátegui na Universidade de San Marcos. Só falta agora que o público brasileiro conheça mais profundamente este grande intelectual. Novas publicações por aqui certamente ajudarão a divulgar para nossos leitores sua vida e seu pensamento.

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Versão revisada do texto de mesmo título publicado na revista CartaCapital, 4 jun. 2008, ano XIV, n. 498, p. 58-9.

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Notas

[1] Carta de Álvaro Soares Brandão a José Carlos Mariátegui. In: Antonio Melis (Org.). José Carlos Mariátegui: Correspondencia, Tomo II. Lima: Biblioteca Amauta, 1984, p. 407.

[2] Ver Guillermo Rouillon. Bio-bibliografia de José Carlos Mariátegui. Lima, 1963, p. 174.

[3] Carta de Luis Carlos Prestes escrita no Rio de Janeiro, com data de 14 de abril de 1960, dirigida ao Comitê Central do PCP, e publicada com o título “Luis Carlos Prestes a nombre de comunistas y pueblo brasileños expresa su homenage a Mariátegui”. Unidad, Lima, 21 abr. 1960, p. 2.

[4] Astrojildo Pereira. “José Carlos Mariátegui y su obra”. Unidad, Lima, 21 abr. 1960, p. 5.

[5] Ver Paulo Ribeiro da Cunha. Um olhar à esquerda, a utopia tenentista na construção do pensamento marxista de Nelson Werneck Sodré. Rio de Janeiro e São Paulo: Revan/Fapesp, 2002; e Nelson Werneck Sodré. Formação histórica do Brasil. São Paulo, 1962.

[6] José Carlos Mariátegui. Os sete ensaios de interpretação da realidade peruana. São Paulo: Alfa Omega, 1975.

[7] Manoel Belloto e Anna Maria Correa (Orgs.). José Carlos Mariátegui. São Paulo: Editora Ática, 1982.

[8] Ver Florestan Fernandes. “Significado atual de José Carlos Mariátegui”. Revista Universidade e Sociedade, n. 7.

[9] José Carlos Mariátegui. La escena contemporánea. Lima: Editorial Minerva, 1925.

[10] José Carlos Mariátegui. Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana. Lima, 1928.

[11] Correspondência de Sandro Mariátegui com o autor, Lima, 1º de abril de 2008.

[12] Ib.

[13] Ib.

[14] Ib.

Fonte: Gramsci e o Brasil.

Comentários (1)

Vacina e rebelião

Revolta da vacina: um protesto contra a indiferença

Tiago Eloy Zaidan

O Brasil do alvorecer do século XX estava infestado de moléstias e epidemias. A miséria e a total falta de higiene apresentavam-se como uma bomba preste a explodir nos cortiços improvisados onde residentes da classe baixa empilhavam-se. Ninguém escapava às mortíferas “senhoras”: peste bubônica, varíola e a febre amarela. Nem mesmo o filho do então presidente Rodrigues Alves. Então o pai resolveu contra-atacar. Dentre as medidas, realce para a vacinação obrigatória contra a varíola. A população, por sua vez, reagiu com veemência nas ruas do Rio de Janeiro. A primeira vista tudo parecia surreal. Por que o povo protestaria contra algo que visa à erradicação de uma perigosa enfermidade?
Em 1902 a capital federal, Rio de Janeiro, representava um país atrasado e um estado com vista turva quando o assunto era política social. À imensa população desamparada, somavam-se numerosas levas de imigrantes, incentivados a vir ao Brasil para servirem de mão de obra – em condições sofríveis – nas plantações paulistas de café. Nas ruas acanhadas do Rio de Janeiro as epidemias fluíam assustando os navios, que preferiam seguir direto para Buenos Aires. Tal situação incomodava os cafeicultores e mesmo os líderes políticos da época, sedentos por atraírem mais imigrantes e, consequentemente, mais mão de obra prosaica. As elites – demasiadamente consideradas pelo poder público nas primeiras décadas do século XX – por sua vez, não escondiam o constrangimento de viverem num ambiente tão diferente das avenidas européias, especialmente as francesas.
É nessa capital – de beleza natural lendária – que o paulista Rodrigues Alves, assume a Presidência da República. Como era de se supor, Alves era um rico cafeicultor. Já havia “passeado” pelo Ministério da Fazenda nos governos de Floriano Peixoto e Prudente de Moraes e também foi gestor de São Paulo, onde ensaiou sua obsessão por reurbanização, abrindo avenidas e construindo redes de esgotos. Agora era a sua vez de ser alçado ao palácio pelos conchavos entre mineiros e paulistas. Junto à Pereira Passos, prefeito do Rio de Janeiro, Alves deu início à revolução urbana da cidade maravilhosa, mas não sem antes estreitar a dependência do Brasil com a Inglaterra, após contrair um empréstimo de oito milhões de libras.

Oswaldo Cruz

A pressa foi uma das marcas da reconstrução da cidade. A outra foi à insensibilidade com os moradores humildes da região. Completamente indiferente às classes baixas, o projeto tinha como principal meta a construção da “afrancesada” Avenida Central (posteriormente rebatizada de Avenida Rio Branco), iniciada em 29 de fevereiro de 1904. Sem nenhuma reparação, uma considerável leva de residentes miseráveis foi varrida do centro do “novo” Rio de Janeiro, que começava a surgir numa área limitada. Os novos imóveis, que margeariam a moderna avenida, deveriam antes passar pelo crivo de uma bancada de “ilustres” da sociedade de então. Dentro de meses a classe alta da capital poderia passear orgulhosa no belo bulevar tropical. Além da Avenida Central, fora reformada a rua do Ouvidor e construída a avenida Beira-Mar.
Dentro da meta de “civilizar” o centro administrativo do país, proposto por Rodrigues Alves, faltava o combate às enfermidades imundas e impertinentes que fustigavam a urbe. Aqui que entrou em cena o então desconhecido Oswaldo Cruz, com sua obstinação permeada por lances autoritários, visando alcançar os seus objetivos. Nascido em 1872, na pequena São Luís do Paraitinga (SP), formou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1896. No Instituto Pasteur em Paris, tornou-se discípulo do sanitarista Émile Roux, que o indicou para o governo brasileiro. Em 1902, de volta ao Rio, assumiu a direção do Instituto Soroterápico Federal, que mais tarde receberia o seu nome. No ano de 1903 é nomeado Diretor de Saúde Pública com “liberdade de ação”. Pela frente, a peste e a febre amarela, com seus ratos e mosquitos, respectivamente. Foram criados batalhões mata-mosquitos com a intenção de pulverizarem locais de risco. Foi o suficiente para a imagem de Cruz tornar-se freqüente nas ilustrações de caricaturistas da época.
Contudo, foi no combate a varíola que os achincalhamentos evoluíram. Com a medida rígida de se vacinar maciçamente a população, por meio da obrigatoriedade – aprovada pelo congresso no fim de outubro de 1904 – foram estipuladas multas e restrições aos infratores, causando maiores reações. O Atestado de Vacinação passou a ser exigido trivialmente, desde a obtenção de um emprego público ao casamento. A falta de habilidade do governo no tratamento da rejeição popular à medida defendida por Oswaldo Cruz agravou a situação. Para se ter idéia da repressão oficial basta citar o episódio do dia 10 e novembro, quando um orador foi preso no palanque por pregar contra a vacina. Após uma série incontável de medidas arbitrárias da república “Café com Leite” (modo como foi apelidada a era das administrações oligárquicas de 1894 a 1930), tornou-se mais fácil enxergar o estado com desconfiança. Entre os dias 11 e 14 de novembro a massa enfurecida saiu às ruas do artificializado centro do Rio de Janeiro deixando um rastro de “postes envergados (…), vidros fragmentados (…), paralelepípedos revolvidos (…), destroços de bondes quebrados e incendiados (…)” e “vestígios de barricadas feitas pela multidão agitada”, proclamou em tom assustado o Jornal do Commercio de 15 de novembro de 1904.
O mesmo jornal relatou casos de mortes durante a revolta. “(…) Um robusto homem de cor, que vestia calça e camisas pretas, achava-se do alto, numa pequena janela, atirando. Ali o alcançou uma bala de carabina que lhe varou o crânio, prostrando-o instantaneamente morto”. É também relatada a história de um menino de 12 anos que, “(…) chegou à janela na ocasião do conflito e logo foi morto por um tiro que lhe varou a carótida”. A vacinação foi suspensa.

Diante das manifestações descontroladas, Tânia Maria Fernandes em seu livro Vacina Antivariólica: ciência, técnica e o poder dos homens – 1808 – 1920, faz saber, “Oswaldo Cruz tinha como característica não se pronunciar publicamente e assim se manteve mesmo diante de todas as críticas sobre sua conduta frente à higiene. Sua resposta ao episódio da revolta da vacina foi colocar o cargo à disposição do Ministro do Interior J. J. Seabra (…)”.
No dia 15 de novembro, quando se deveria comemorar o aniversário da proclamação da República brasileira, cadetes positivistas da Escola Militar de Praia Vermelha aderiram oportunamente ao movimento popular. Desejavam reassumir o controle da nação, perdido para os cafeicultores desde 1894. Todavia, essa rebelião, especificamente, foi debelada e Lauro Sodré – Tenente coronel que seria agraciado com o cargo presidencial – terminou ferido e preso; sorte menos infeliz que as dos 200 cadetes mortos no levante.
O que ocorreu a seguir foi a decretação de estado de sítio de um mês, adicionado às invasões bestiais de tropas governamentais a favelas e cortiços miseráveis, onde foram presos, praticamente à revelia, diversos indivíduos. Muitos desses foram exilados no longínquo Acre, então recém-anexado ao Brasil. A vacinação foi restaurada e, dentro de meses, a varíola foi erradicada da capital federal. Oswaldo Cruz consagrou-se. Convidado a atuar em outras localidades, entrou para a história da ciência em solo tupiniquim. Rodrigues Alves concluiu o mandato, assumiu novamente o posto de governador de São Paulo em 1912 e tornou a eleger-se presidente da república. Alves, entretanto, não chegou a tomar posse. Ironicamente acabou vítima de uma nova e assombrosa epidemia, a gripe espanhola. Morreu em 16 de janeiro de 1919, no Rio de Janeiro “devidamente” urbanizado, porém, indevidamente humanizado.

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A reinvenção do existencialismo

Por Alexandre Carrasco
Revista Cult

“A subjetividade é a verdade.” Tal juízo, dito pelo próprio Kierkegaard no seu Post Scriptum não científico às Migalhas filosóficas, poderia ser a nossa deixa para apresentar e definir essa filosofia que, salvo engano, foi a primeira a se designar “existencialista”.

Nada parece, aliás, mais adequado quando igualmente se sabe que o existencialismo que fez fama e fortuna, o francês, não se cansava de anunciar justamente um retorno à “subjetividade” como a cura para todos os males (os passíveis de cura, evidentemente).

Além do mais, há outro elemento, em parte resultado do que se chamou de “renascimento” de Kierkegaard nos anos 1920, que poderíamos adicionar a essa constelação de coincidências que parecem culminar no encontro do existencialismo francês com Kierkegaard: em 1938, Jean Whal publicava seus Estudos kierkegaardianos, e, sem o saber, tornava-se o primeiro leitor qualificado - como seus textos posteriores atestam - para entender a virada da maré existencialista na França, então em curso acelerado.

Entretanto, qual a surpresa quando se depara, ao abrir o primeiro livro de ensaios de Merleau-Ponty, Sentido e sem sentido, com um artigo intitulado “O existencialismo em Hegel”.

Não apenas Kierkegaard havia escrito deliberadamente contra Hegel - ou, como ele talvez preferisse, havia escrito justamente “migalhas” filosóficas, de maneira “não científica”, contra um filósofo do “sistema” e “científico” -, como a própria idéia de uma arena privilegiada para o espetáculo da verdade, a existência, marcada por sua necessária finitude, tem como matriz a oposição que Kierkegaard pretendeu fazer ao famigerado saber absoluto hegeliano, que, como se sabe, afirma peremptoriamente (uma vez que é absoluto) que “a verdade é o resultado, que o resultado é a verdade”.
Daí que, talvez, valha a pena rastrear o que há de Kierkegaard e o que há de Hegel nesse “novo” existencialismo, prestes a ganhar notoriedade no fim dos anos 1940. Como Hegel é um caso muito especial, fiquemos por hora com Kierkegaard.
Tomemos como exemplo o ensaio de Merleau-Ponty indicado acima. Lá, Kierkegaard aparece assimilado a tudo que é “concreto” (e, mesmo com Marx, Merleau-Ponty sugere algum parentesco). Mas não escapa a Merleau-Ponty uma distinção importante: trata-se do cuidado com que ele opõe e separa a “boa” imanência da “má” imanência. A última, a do espírito absoluto que engole a subjetividade; a primeira, a da subjetividade que se dá no mundo. Sua apreciação de Hegel é sintoma desse critério: desde cedo, Merleau-Ponty percebe que o absoluto hegeliano tornar-se-á uma má imanência à medida que traz para o buraco negro do conceito (o mecanismo do absoluto) a existência, que, muitas vezes - senão todas -, é aqui índice da subjetividade. Quer dizer, esvazia a subjetividade da sua capacidade de autoposição ou, diríamos simplesmente, de sua iniciativa.

Ora, tal apreciação põe Merleau-Ponty muito próximo de Kierkegaard e da sua “dialética”, que significa, com todas as conseqüências que se pode tirar disso, uma intransigente ancoragem do sentido na subjetividade (e, tal como a “situação” sartreana, serve de crítica ao hegelianismo das altas altitudes). Isso sugerirá a Merleau-Ponty, nos parece, a possibilidade de retomar uma tradição dialética representada, sem dúvida, pelo próprio Kierkegaard, que se autodenomina dialético em vários textos, e que se dá primordialmente na escala da subjetividade e não na escala do saber absoluto; e tudo, obviamente, em benefício desse existencialismo redivivo do qual ele faz parte.

Vejamos duas passagens de Kierkegaard:

“O problema colocado nesta brochura, sem nenhuma pretensão de o ter resolvido, já que se trata simplesmente de o pôr, seria o seguinte: pode haver consciência eterna baseada num ponto de partida histórico; como um tal ponto de partida pode oferecer um interesse mais que histórico; pode-se fundar uma felicidade eterna num saber histórico?

(…)

“Entretanto, para prevenir toda confusão, lembremos imediatamente que o problema não é aquele da verdade do cristianismo, mas da relação do indivíduo com o cristianismo; em outros termos, ele não concerne ao zelo sistemático que um indivíduo, alhures indiferente, desprende para alinhar em si a verdade do cristianismo, mas no cuidado e no interesse infinitos que ele dá à questão de suas relações com essa doutrina. Em termos tão simples quanto possível (e para submeter-me à experiência): ‘Eu, Johanes Climacus, nascido nesta cidade, hoje com trinta anos, homem ordinário como a maioria, admito que para mim como para um criado e para um professor, há em perspectiva um bem supremo que se chama felicidade eterna; ouvi dizer que o cristianismo condiciona esse bem, eu pergunto como relacionar-me com essa doutrina?’. Ouço um pensador: ‘Que imprudência, ele diz, que atroz vaidade em nosso século 19 teocêntrico e tão importante para a especulação, que ultraje ousar supor um tal peso a seu pobre e pequeno eu!’. Tremo; se não tivesse me firmado contra os diversos tipos do horror, eu me enfiaria no buraco do camundongo. Mas eu me sinto livre de toda acusação nesse sentido, pois não me é própria a insolência; ela me vem, como obrigação, do cristianismo.”1

Nas passagens transcritas (a prosa de Kierkegaard vale a longa citação) de um livro em que o anti-hegelianismo aparece já no título (o caráter “não científico” do post-scriptum), Kierkergaard centra o fogo naquilo que chamará de “pensamento objetivo” e cuja natureza, radicalmente diferente da subjetividade, inviabilizaria a própria subjetividade, se o tomarmos como princípio ou fundamento. Como ele parece estar bem ciente das implicações desse recorte, que diferencia naturezas e não apenas separa quantidades, asseverará adiante (cf. p. 52) que a tese hegeliana “segunda a qual o exterior é o interior; e o interior, o exterior” não vale para o cristianismo justamente porque o cristianismo não será, na versão inventiva de Kierkergaard, a doutrina em forma de compêndio, mas uma relação íntima do eu com a idéia inescrutável, o espaço válido para a liberdade e a invenção do pequeno eu do filósofo.

Há outro elemento-chave para essa conversão pela subjetividade e que não aparece no texto citado: trata-se do instante, descrito em detalhes nas próprias Migalhas filosóficas e em O conceito de angústia. O instante é, por excelência, o limite existencial do tempo, porque é nele que o tempo pode realizar um salto qualitativo. Será no instante que o homem - interessado em sua própria felicidade e, portanto, fazendo uso de sua liberdade -, supera precariamente os limites de sua finitude; é no instante que as palavras do mestre (interior) se convertem em ensinamentos para o discípulo.

Ora, o intrigante desse parti pris é seu resultado. Como dirá Merleau-Ponty, menos que uma outra teologia, as obras de Kierkegaard fundam uma antropologia em que o constante e, por vezes, inusitado desdobramento do sentido interior é a pedra de toque do movimento da subjetividade.

Importante notar, ademais, que a tese hegeliana da reversibilidade interior-exterior é o que mais interessa aos existencialistas, que não desistem da procura de um “existencialismo” em Hegel. Dado que a intencionalidade é, em suma, a posição subjetiva da objetividade, não serão poucos os momentos em que o Hegel da “fenomenologia do espírito”, isto é, o Hegel dos momentos objetivos da “subjetividade”, na tradução dos existencialistas, aparecerá como mais essencial que Kierkegaard e seu existencialismo da “interioridade”, interioridade em relação à qual Sartre e Merleau-Ponty pretendem escapar.

Entretanto, se é o interior que contamina o exterior - e, portanto, deixamos a salvo a consciência -, se é o interior que reduz o exterior às significações válidas para mim, então permanece o ponto de partida de Kierkegaard. Se Kierkegaard não aceita outra dialética senão aquela que ele chama de “comunicativa” e “negativa” (cf. op. cit., p. 61 e ss.), é porque essa subjetividade, mesmo que ganhe ares “objetivos” graças à intencionalidade, não realizará os feitos do saber absoluto, e bem poderá se aparentar à dialética “truncada” sartreana.

Não à toa Sartre descobrirá por meio dela o mundo dos “artistas e dos profetas”. Kierkegaard sentir-se-ia em casa.

Alexandre Carrasco é professor do Departamento de Filosofia da UNIFESP/EPM

NOTAS
1 Kierkegaard, S. Post-scriptum definitivo e não científico às Migalhas filosóficas. Paris: Editions de l´Orante, 1977, p. 14-15.

Revista Cult

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Entrevista com Jean Baudrillard

Revista Cult

O sociólogo Jean Baudrillard fala da banalização como doença do mundo e afirma que “o Brasil, não tanto Lula, permanece como uma esperança”

Fernando Eichenberg

O pensador francês Jean Baudrillard, aos 76 anos, é um elétron livre no cenário intelectual contemporâneo. Crítico das análises ideológicas e do que chama de didatismo pseudo-político dos intelectuais de seu tempo, ele assume uma solitária condição de pária entre os representantes da French Theory, sem por isso sentir-se menos comprometido com as coisas do mundo.

Tradutor de Karl Marx, Friederich Hölderlin e Bertold Brecht, influenciado por Friedrich Nietzsche, Roland Barthes, Georges Bataille e Antonin Artaud, o pensador passou pela patafísica do dadaísta Alfred Jarry até se aventurar a partir do final dos anos 1970 nas trilhas que o levariam a um pensamento “transpolítico”, fragmentário e atraído pela radicalidade. Para se manter como um ativo pensador diante dos absurdos do cotidiano e da irrealidade das coisas, sua inspiração vem do célebre personagem do clássico Bartleby, o escrivão - uma história de Wall Street, de Herman Melville. “Em relação ao mundo político e intelectual, minha solução é um pouco no estilo Bartleby, viver numa espécie de reserva mental, num universo paralelo. Não é uma solução ou uma estratégia da qual se possa fazer uma moral, mas uma tática existencial. Há um mundo selvagem que escapa a essa espécie de intoxicação universal”, diz ele.

Adulado no exterior, seja nos Estados Unidos, Japão ou Brasil, e praticamente ignorado no seu país, recentemente ele teve sua biografia intelectual destacada na França pela prestigiada coleção editorial Cahier de L’Herne. Já a editora Sens & Tonka lançou a série Jean Baudrillard, uma reedição de dez de suas obras mais significativas, e a Galilée tirou do prelo mais um tomo de seu diário de aforismos, Cool Memories V - 2000-2004. Em outubro, o viajante pensador estará mais uma vez no Brasil, para participar, em Porto Alegre, de debates junto ao colega francês Michel Maffesoli. A seguir, os principais trechos da entrevista de Jean Baudrillard à CULT, concedida no seu apartamento-refúgio parisiense, próximo ao belo Jardim de Luxemburgo.

CULT - Em sua vida intelectual, o senhor presenciou alguns dos mais importantes movimentos surgidos na França no século passado, como a moda existencialista, a chegada dos estruturalistas, Roland Barthes, Michel Foucault e Gilles Deleuze, Maio de 68, chegando aos os “Novos Filósofos”. Uma história intelectual do século 20?

Jean Baudrillard - Eu era jovem. Mas comecei com Georges Bataille, Antonin Artaud, no fim dos anos 1940. Depois, Sartre, certamente. Teoricamente e conceitualmente, foi sobretudo Sartre. Nos anos 1950, eu era bastante entrincheirado, não era parisiense nem nada, ficava no meu canto. Havia me aproximado dos patafísicos, no fim do liceu, quando estava em Reims. Começou por esse lado, algo patafísico, poético. E depois tudo isso se politizou com Sartre, a guerra da Argélia. Passou-se a um nível bem mais teórico com Barthes, a semiologia. Houve o Situacionismo, cheguei à universidade de Nanterre nesse momento, e depois veio 1968. Eu não me despolitizei, mas me “transpolitizei”. Minha reflexão política mudou, e no caso da escrita também. Houve os anos 1970, de Marx-Freud-Nietzsche. Mas, apesar de tudo, me encontrava um pouco só.

CULT - Hoje, a produção cultural francesa é vista como um estado de decadência. Essa visão é correta?

J.B. - Houve um apogeu, mas o canto desapareceu, o canto diferencial, enérgico, magnético, que vinha dos anos 1960 até os anos 1980. Desde o começo dos anos 1980, senti um buraco, efetivamente, por causa da desaparição física de um grande número de pensadores, mas sobretudo por uma forma de revisionismo. Houve uma radicalidade muito diferente, da qual eu fazia parte sem, no entanto, pertencer ao mesmo grupo. Houve um núcleo, que talvez já fosse o mesmo em relação aos anos 1930, epigônico em relação a Nietzsche. Mas havia algo de bastante específico, e essa singularidade se diluiu quando chegaram os Novos Filósofos - André Glucksmann e os outros -, que retomaram uma ideologia moral e humanista. O pensamento francês, ainda hoje, tem pouca influência e impacto no mundo, e é sempre a mesma equipe: Foucault, Deleuze, Lacan, eu.

Num dado momento, me lembro que no Brasil e na Argentina ocorriam coisas bem mais interessantes do que aqui, mas todo mundo lá tinha os olhos virados para Paris. Acreditávamos que a teoria estava relativamente adiante, por antecipação, nos anos 1970, e desde então, na minha opinião, ela está em atraso. Mas em relação a quê? Essa é a questão. Não sabemos o que podemos antecipar. O pensamento ideológico, moral, neopolítico como se trama aqui não é uma antecipação. Não se trata de um julgamento de valor absoluto. Tenho mais cumplicidade, hoje, com pessoas como Peter Sloterdjik, Giorgio Agamben. Não creio que a situação atual do pensamento francês tem a ver com o destino político da França.

CULT - Onde está, então, o problema?

J.B. - O problema é muito mais vasto. É que estamos numa situação de uma banalidade mundial. Num certo momento, a França foi emblemática nisso, mas é a situação mundial que se banalizou, exceto por alguns ultra-acontecimentos, que foram bem mais velozes do que nós. Não creio que seja o “intelectual europeu ocidental francês” destinado a interpretá-la. Aliás, será que há uma interpretação possível no sentido clássico, uma análise, uma reflexão, uma consciência moral de tudo isso? Não creio. Essa é a radicalidade da própria situação. Em relação a como nos viramos com isso, o que se pode ver é que, cada vez mais, o que chamamos de intelectual ou intelligentsia, enfim, o pensamento no sentido reflexivo, paradoxal, e mesmo a ironia, tudo isso encolheu e está seriamente ameaçado. Nesse domínio, há uma implosão em favor do desenvolvimento de novas tecnologias, e nasce, suavemente, uma nova tecnologia mental que toma o lugar das idéias, do que chamávamos de idéias. Acho que vemos, talvez, uma espécie em via de extinção. Isso faz parte de toda espécie destinada a desaparecer. Uma época intelectual pode ter o mesmo destino que uma espécie.

CULT - O senhor traça uma linha que vai do crash financeiro de Wall Street de 1929 ao desmoronamento das Torres Gêmeas, em setembro de 2001. O senhor vê entre esses dois acontecimentos um atalho de uma globalização em marcha, numa queda fatal. O que é essa queda?

J.B. - É uma queda. E uma queda é quase sempre fatal. A crise de 1929 foi uma espécie de implosão de um sistema. O 11 de setembro é mais profundo e mais vasto, mas também é um crash. A crise de 1929 propulsou o sistema numa órbita muito mais eficaz. Mesmo no caso das guerras. Houve um tipo de centrifugação das coisas. E esse sistema superdimensionado levou um sério golpe com o 11 de setembro, com conseqüências inacreditáveis, e que pressagia tudo o que se segue. É um processo. Não é o fim, mas o começo de algo. E que como todos os começos, é uma queda fatal. Não sou fatalista, mas ainda prefiro o fatal ao banal. E essa evolução fatal é rica e complexa, não é pessimista, mas uma situação original, radicalizada, diante da qual somos impotentes. Há uma forma de energia diferencial mesmo no crash. Ainda estamos muito próximos do 11 de setembro para saber no que isso vai dar. Não é a continuação do terrorismo pontual - Madri, Londres -, mas no fundo é o lado espetacular, quase uma espécie de banalização.

CULT - O senhor aponta a hegemonia de hoje como uma forma de dominação total, alerta para a ilusão democrática e denuncia aqueles que ainda proclamam a imaginação no poder, como os nostálgicos de Maio de 68. Para aonde estamos indo?

J.B. - O que vemos emergir é uma espécie de energia irredutível. Mais o sistema se globaliza, mais cria discriminações. Essa globalização é também uma fratura total, cada vez mais haverá dois universos paralelos que não terão mais nada em comum. Há nisso uma tensão potencial muito forte. E há uma resistência por todo lado e em todos os níveis contra essa homogeneização total. Se chegarmos ao fim dessa globalização, será a fase terminal, a solução final, a abolição de toda singularidade. Em cada sociedade e em cada indivíduo há algo que resiste a isso, que diz “não”. O “não” do referendo francês contra a Constituição Européia, analisei simbolicamente, além do aspecto político, que não me interessa, mas como uma denegação, uma recusa, como se as pessoas tentassem dizer “parem de se preocupar conosco, parem de trabalhar para o nosso bem”. Recusa-se essa hegemonia, que é o Império do Bem, pois tudo isso é em nome do Bem, da felicidade, da democracia, do progresso, da técnica, pois começa-se a tratar com uma maquinação infernal. E isso as pessoas sentem.

Não é preciso ser politicamente à esquerda ou à direita para sentir isso. Lia há pouco tempo A canção do Carrasco, de Norman Mailer. O condenado à morte quer ser executado. E, em nome da democracia e dos direitos humanos, não se quer mais executá-lo. Ele diz: “Não, vocês escolheram me matar, então me matem, assumam suas responsabilidades”. É uma crítica fantástica da sociedade em suas contradições totais. Eles o condenaram à morte e querem forçá-lo a viver, e ele quer ser executado. Não se pode dar razões particulares a essa denegação, a essa recusa, senão que nos sentimos completamente despossuídos, completamente reféns, e isso ninguém quer. As coisas andam e a máquina funciona, mas acumula-se também, potencialmente, uma espécie de estoque de energia reversível, inversa.

CULT - Qual será o destino dessa energia acumulada?

J.B. - Aonde isso vai dar? Não sei. Mas é certo que há uma carga cada vez maior, e o sistema registra essa resistência e a remete na comunicação e também na guerra. Os Estados Unidos fazem o trabalho, mas não são os únicos, não se pode torná-los particularmente responsáveis. Mas todo o trabalho se faz no sentido de compensar essa espécie de defecção, de pessoas que não querem mais jogar o jogo. E o “não” à Europa foi isso. “Essa Europa, essa espécie de jogo com trucagens, que vem de cima, que trama, não compreendemos nada, não queremos, não sabemos bem por que, mas preferimos o não”. O problema é que, efetivamente, não há nada hoje, nem grupo, indivíduo, que possa dispor de um outro jogo e de uma outra regra do jogo. Criticamos todas essas formas lingüísticas, étnicas, religiosas, etc, que chamamos de revisionismo, fundamentalismo, tudo isso é bastante negativo. E é verdade, de uma certa forma pode parecer como uma regressão, mas é um sintoma desesperado de pessoas que procuram uma regra do jogo, porque já não há mais.

CULT - Há uma tendência na Europa de pensar a si mesma como modelo alternativo aos Estados Unidos. Seria isso mesmo verdade? Não se trataria, em última analise, de um mesmo modelo?

J.B. - Eu não acredito nem um instante nessa idéia da Europa como um modelo de civilização alternativa, do universal contra o mundial, mas é o discurso que se mantém. Acho que em termos de inteligência política, nosso novo papa, Ratzinger, foi bem mais forte quando dizia que mais a Igreja se confunde com o mundo, mais ela se torna supérflua. É um pouco a mesma coisa. Há um modelo, e mais o modelo quer se confundir com a realidade que não existe mais, mais ele se torna supérfluo. O papa diz: “Eu quero salvar a Igreja, não quero tentar seguir o curso dos costumes; se a Igreja quiser existir, deve manter sua distância e se fazer como modelo”. Isso é perfeito, acho que ele é de uma grande inteligência política. Eu pouco me importo em salvar a Igreja, mas de seu ponto de vista está correto. E os europeus de Bruxelas não foram inteligentes o bastante para ver isso. E isso vale também para a arte. O que podemos criticar é ela ter desejado se confundir com a realidade, assumir a realidade e reproduzi-la na sua banalidade, e mais isso ocorre, mais se torna supérflua. É a mesma coisa para a mulher. Mais ela busca se confundir com o homem, o feminino com o masculino, assumir o mesmo poder, mais se torna supérflua. Ao dizer isso, claro que não me fiz muitas amizades. Em relação à Europa, no começo eles tinham a arrogância feliz do “sim” triunfante, e agora têm uma arrogância infeliz. Mas nada mudou, eles ainda se pensam como a consciência moral e detentores dos valores universais. Há uma espécie de cegueira nessa boa consciência triunfalista e imperialista.

CULT - Como o senhor vê um país como o Brasil e sua cultura no processo de hegemonia e de “canibalização” do qual fala?

J.B. - O Brasil permanece como uma forma utópica, talvez, mas simbólica, com uma energia simbólica. Mais do que a Amazônia como reserva ecológica, vejo o Brasil como reserva simbólica. Ainda acredito nisso. A política no Brasil vive um momento difícil, mas não é isso que conta mais. Vejo nessa forma de Carnaval-canibal uma espécie de potencial canibalesco, que é uma força adversa, uma estratégia de absorção antagonista em relação à essa potência mundial. Acredito ainda nessa carnavalização do mundo, como um simulacro universal, mas a canibalização como uma reação, uma reversão, uma retomada potencialmente violenta, mas não necessariamente. O Brasil, não tanto Lula, permanece como um ponto de esperança.

(*) A entrevista foi retirada da edição 95, de setembro de 2005.

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Gramsci, 1926: uma carta inédita sobre a prisão

Tania Schucht - Novembro 2008
Tradução: A. Veiga Fialho

Dos arquivos familiares dos Schuchts, e por ocasião do lançamento na Itália do livro A Rússia do meu avô (de Antonio Gramsci Jr.), ressurge uma carta de Tania (Tatiana), a cunhada de Gramsci que morava em Roma. Nesta carta, cuja tradução para o português tenta respeitar as particularidades estilísticas da autora, Tatiana narra pela primeira vez aos seus familiares em Moscou como foi preso o fundador de L’Unità e do antigo PCI. Segue-se à carta, que não tem data mas certamente foi escrita “no calor da hora”, uma pertinente contextualização feita por Giuseppe Vacca, presidente da Fundação Instituto Gramsci, em Roma.

Meus queridos,

Recebi a carta de mamãe e de Julia [Giulia, mulher de Gramsci e irmã de Tania], e o cartão de Assia. Ainda bem que por aí as coisas estão melhorando, esperemos que tudo termine bem e os meninos voltem para casa. Acredito que Julia já tenha recebido a carta de Nedolia [?], na qual comunicava algumas coisas sobre os acontecimentos políticos daqui. Por enquanto não se sabe nada sobre a acusação contra os deputados detidos. Antonio não conseguiu partir [para a Rússia] por um acaso infeliz. Havia viajado à noite para Milão, no dia do atentado contra Mussolini em Bolonha. Não tínhamos tido notícia disso, porque o fato aconteceu num domingo, e além do mais os redatores dos jornais de oposição já há algum tempo tinham sido excluídos da sala de imprensa. Durante o dia Antonio almoçou comigo, como de costume, já que nos últimos dias o clima não estava inteiramente tranqüilo e eu não queria que ele andasse pela cidade; depois ainda veio aqui em casa, como me disse em seguida, por meia hora andou com um companheiro perto da estação e não ouviu falar do atentado, senão por certo não teria viajado. E assim, na chegada em Milão, na estação, comunicaram-lhe que devia voltar a Roma ou apresentar-se à polícia. Fizeram-no voltar a Roma; vocês certamente ouviram falar das maldades que aconteceram aqui durante vários dias; Antonio não foi a lugar algum durante oito dias, almoçava e jantava aqui em casa, inclusive no dia em que o prenderam esteve comigo até as dez e quinze; ao sair, disse a hora. Já o estavam esperando no apartamento, de modo que foi ver diretamente os amigos. Ficamos sabendo no dia seguinte de manhã. Naturalmente me preocupei em lhe mandar comida, e quem levou foi a Marietta. Café, açúcar, frutas, ovos, uma galinha. Desde ontem resolvemos comprar o almoço dele no restaurante e mandar no horário de entrega. Assim será melhor, como precaução. Esperamos que o advogado receba finalmente a autorização para ver os detidos e então lhe transmitiremos as notícias de casa sobre o restabelecimento de Delio, etc. Até pode ser que os soltem antes que transcorram os 15 dias exigidos para apresentar a acusação, e talvez quando o advogado tiver o direito de vê-los. Talvez a prisão deles caiba na definição de “detenção”, prenderam-nos na véspera da abertura do Parlamento. Acredito que Antonio se sinta forte e vigoroso, porque compreende perfeitamente bem a situação e tinha previsto a possibilidade de prisão e busca. Durante toda a semana fez uma “limpeza” e conseguiu despachar as últimas coisas antes da prisão. Organizaram a ajuda material para todos, que assim não devem sentir falta de nada. Assim que estiverem livres, informamos a vocês. Por aqui, por causa do medo generalizado, quase não há trabalho, e me disseram que talvez não tenha nenhum por algumas semanas. Não me preocupo particularmente porque espero arrumar alguma coisa, não sei se aqui mesmo ou de algum outro modo. Dizem que para o posto de plenipotenciário deve vir Kamenev e que sua mulher é uma pessoa muito interessante, que talvez vá se ocupar da questão do instituto internacional. Naturalmente ainda tenho dinheiro, só que me permito não lhes mandar nada neste mês, pois, com a reserva da mamãe, me sinto mais tranqüila e não me agito inutilmente, mas talvez tudo ainda vá se ajeitar bem. Se Antonio estivesse livre, poderia trabalhar para ele, mas não tive nem tempo de lhe comunicar minha conversa com os dirigentes, que ocorreu justamente na manhã do dia em que soubemos da sua prisão. Já tenho o passaporte e por aqui está tudo tranqüilo, não houve aborrecimentos em casa. Quanto ao dinheiro, peço que tenham paciência, porque naturalmente tive de gastar muito até mesmo com Antonio e fazer um depósito na sua conta na prisão, para que tenha a possibilidade de comprar alguma coisa; repito, o partido se interessa por eles e vai cuidar deles mesmo depois, no sentido material e de outras maneiras, de modo que talvez vocês se revejam logo. E assim, se isso não causar muitos problemas, por enquanto vou manter aqui o dinheiro, em vez de lhes mandar. Como sabem, gasto muito pouco e, se ficar sem trabalho por algum tempo, isso não me atrapalha muito, pois tenho uma pequena reserva. Mas naturalmente espero me ajeitar logo e talvez tenha algum trabalho rapidamente. Então, vou lhes mandar imediatamente o dinheiro. Por aqui, depois da sua partida, ainda trabalhava a Glebova. Ela já se demitiu, assim como Janson Stefan, e foi para Moscou. Abram vai partir logo, e também a datilógrafa, daqui a aproximadamente três meses. Sobre as traduções, só Chusik pode me fazer concorrência. Não sei o que farão os dirigentes: dar o trabalho a ele ou a mim? Bem, são tolices, de um modo ou de outro me arrumo. Uma pena que vocês, meus queridos, em vez de encontrar agora Antonio em Moscou, tenham de saber notícias não muito alegres, mas isso também vai passar; preocupam-se com tudo, por exemplo, não vão permitir que seus livros se extraviem, vão trazê-los para nós de modo que fiquem em segurança. Coragem, Julka, lembre que mandamos a Antonio a comida de que ele gosta, e eu também resolvi mandar um remédio, o glicerofosfato, certamente não vai lhe fazer mal. Mas esperemos também que o soltem a qualquer momento, como já soltaram muitos companheiros que foram presos no mesmo período.

Deliulka, você já se tornou moscovita? E Juliancik, quem é? Escreva-me se você se lembra da ricota, agora se pode achá-la e Tatanka comprou algumas vezes. E me conte também sobre os cachos de cabelo; conte com quem ficaram seus cachinhos louros. E o que anda fazendo seu cavalinho com as maçãs? E me diga também o que você está olhando agora e o que não está. Lembra-se dos pombos e dos barquinhos negros? Falou deles à mamãe Lula? Lembra-se dos mosquitos? Como os pegávamos, e batíamos o sapato na parede, e acendíamos os pauzinhos que os faziam ficar grogues? Um beijo grande. T.

Beijo grande para mamãe e papai.

Antonio e a cunhada, ou a odisséia de um prisioneiro, por Giuseppe Vacca

A carta de Tania Schucht, que aqui se publica, foi encontrada recentemente por Antonio Gramsci Jr. no arquivo da família. Está escrita em russo, e sua tradução é obra de Rossana Platone. Endereçada aos familiares, na verdade está dirigida a Giulia, salvo as últimas expressões dedicadas a Delio, o filho mais velho de Gramsci, a quem Tania lembra as emoções da recente visita a Veneza, realizada com ela e a outra tia, Eugenia Schucht, pouco tempo antes do retorno deles a Moscou em setembro de 1926. Tania escreve de Roma nos dias seguintes à prisão de Gramsci, ocorrida na noite de 8 para 9 de novembro. A sua carta constitui um documento importante, porque contém informações inéditas sobre a vida de Gramsci nos dias imediatamente anteriores à prisão e sobre a reação do partido à sua captura; porque ilumina aspectos por nós ignorados da vida de Tania e da sua relação com Gramsci entre 1925 e 1926.

Até agora, o único documento conhecido sobre os dias anteriores à captura e à detenção de Gramsci era a longa carta de Camilla Ravera a Togliatti de 16 de novembro de 1926, publicada por Franco Ferri em Rinascita, em 5 de dezembro de 1964. A carta que aqui se publica é a primeira de Tania aos familiares na qual se fala do mesmo assunto. A carta não tem data, mas pelo seu conteúdo se deduz que foi escrita poucos dias após a detenção de Gramsci. Antes de mais nada, ela nos permite precisar a razão pela qual, malgrado o terror das esquadras desencadeado logo depois do atentado de Anteo Zamboni contra Mussolini, Gramsci partiu mesmo assim de Roma, rumo à Milão, para participar da reunião clandestina do comitê central do partido, convocada para o dia primeiro de novembro nas imediações de Gênova: o dia do atentado, 31 de outubro, era um domingo, e, escreve Tania, “os redatores dos jornais de oposição já há algum tempo tinham sido excluídos da sala de imprensa” de Montecitorio. Portanto, Gramsci viajou para Milão “na noite” do dia 31 porque não estava a par do atentado, ocorrido poucas horas antes, “senão por certo não teria viajado”. Logo em seguida, Tania escreve que “na chegada em Milão, na estação, comunicaram-lhe [evidentemente, os policiais] que devia voltar a Roma ou apresentar-se à polícia”. Os companheiros que o esperavam “fizeram-no voltar a Roma”, e aqui, dada a situação, “Antonio não foi a lugar algum durante oito dias, almoçava e jantava aqui em casa”.

As informações de Tania provêm evidentemente de Gramsci e, portanto, constituem a fonte mais direta sobre os eventos que o impediram de participar da reunião de Valpolcevera (nessa reunião, decidiu-se a posição do PCI sobre a luta em curso entre a maioria dirigida por Stalin e as oposições lideradas por Trotski) e conduziram à sua prisão. São informações de notável interesse, seja porque esclarecem um episódio sobre o qual as versões que nos chegaram não são inteiramente coincidentes, seja porque refutam pela raiz reconstruções fantasiosas, como aquela contida na mais recente biografia de Gramsci (Antonio Gramsci. Storia e mito, de Luigi Nieddu, Ed. Marsilio, 2004), na qual se insinua que sua volta a Roma teria sido orquestrada pelos companheiros da comissão executiva do Partido para impedi-lo de participar da reunião do comitê central, uma vez que sua presença não era do agrado de Stalin, e se sustenta que, nos dias sucessivos, os próprios companheiros (Grieco, Scoccimarro e Ravera) teriam deliberadamente favorecido sua prisão.

Também muito importantes são as informações relativas à ação do partido logo antes e logo depois da prisão de Gramsci. No que se refere aos dias anteriores à prisão, Tania escreve que Antonio a previra e também previra uma busca, de modo que “durante toda a semana fez uma ‘limpeza’ e conseguiu despachar as últimas coisas […]”. Entre estas, estava também o manuscrito do artigo sobre a “questão meridional”, ainda não publicado, que Grieco pediu a Tania por meio de Camilla Ravera poucos dias depois da prisão de Gramsci.

Pela seqüência da carta, deve-se considerar que os papéis alvo da “limpeza” de Gramsci foram levados à embaixada soviética. Mas ainda mais importantes são as referências à possibilidade de que Gramsci fosse logo libertado, graças à intervenção do governo soviético. Como se sabe, nos dias anteriores à prisão Gramsci havia programado ir a Moscou para participar dos trabalhos da VII Plenária da Internacional Comunista, convocada para 22 de novembro, e havia informado à mulher sobre isso. E, como se sabe, o partido italiano, em combinação com o governo soviético, decidira que, depois da participação na VII Plenária, Gramsci iria ficar na Rússia, porque na Itália a situação se tornara perigosa demais. Portanto, a viagem a Moscou equivalia à sua expatriação. Tania deixa transparecer que, apesar de Gramsci ter sido preso, tal possibilidade não desaparecera: antes de mais nada, porque tivera notícias, ainda que vagas, de que ele estivesse só “detido”; em segundo lugar, porque considerava que pudesse ser solto só com a simples intervenção dos advogados do partido, mas sobretudo porque os companheiros (tanto o PCI quanto a embaixada soviética) “preocupam-se com tudo”. Em particular, falando da ação desenvolvida pelo partido em favor dos detidos, Tania escreve: “o partido se interessa por eles e vai cuidar deles mesmo depois, no sentido material e de outras maneiras, de modo que talvez vocês se revejam logo”. Parece-nos ter fundamento daí deduzir que Tania aluda a uma iniciativa do partido, no momento talvez só insinuada, voltada para obter a libertação de Gramsci através de uma intervenção do governo soviético sobre Mussolini. Sua carta, pois, acrescenta uma peça importante ao quebra-cabeça das tentativas de libertação de Gramsci, que, como se sabe, seguiram-se por toda a década da sua prisão. Com base na carta de Tania, podemos considerar que as iniciativas voltadas para obter a libertação e a expatriação de Gramsci para Moscou começaram logo depois da prisão e que todas as vicissitudes da sua libertação constituíram um problema sempre aberto, não uma possibilidade originada periodicamente por circunstâncias tidas como favoráveis pelo partido ou pelo próprio Gramsci.

A segunda ordem de motivos pela qual esta carta constitui um documento importante refere-se à situação de Tania e à sua relação com Gramsci no momento da prisão. Das passagens até agora citadas se estabelece inequivocamente que Tania há muito trabalhava na embaixada soviética e já estava inserida na sua equipe política. Sabemos que Tania foi aceita nas fileiras do partido bolchevique só em 1927, ao passo que, quando Gramsci conseguiu encontrá-la, em fevereiro de 1925, simpatizava com os socialistas revolucionários e não tinha nenhuma filiação partidária. Outros documentos conservados no Instituto Gramsci demonstram que, no curso de 1925, Tania, que se sustentava lecionando no Instituto Crandon, firmou com Gramsci uma relação tão estreita que, por exemplo, colaborava na tradução de alguns capítulos do Manual de Bukharin, que provavelmente deviam servir para as apostilas da escola do partido.

Evidentemente, Tania começara a trabalhar na embaixada soviética graças a Gramsci e, no momento da prisão deste, estava temporariamente sem trabalho porque, como também se deduz desta carta, a embaixada estava reduzindo sensivelmente seus quadros por causa da inclinação cada vez mais agressiva do regime de Mussolini. Mas os elementos mais significativos da carta, no que se refere a Tania, são tanto a informação de que, perdido o emprego na embaixada, poderia trabalhar para Gramsci e para o partido italiano, quanto a prova evidente de que surgiram, do conhecimento de Gramsci, um convívio cotidiano e uma total confiança política. Neste aspecto, a carta constitui o documento mais relevante, pelo que sabemos, sobre as razões pelas quais, depois da prisão de Gramsci, Tania se tornou sua mediação natural com o mundo externo: o mundo político e o mundo afetivo e familiar.

Fonte: L’Unità & Gramsci e o Brasil.

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