Arquivo de 25 de Novembro de 2008

"Primeira MOSTRA LUTA!" de Campinas

http://camaracom.com.br/mostraluta/

No Brasil, seis famílias (Civita, Marinho, Frias, Saad, Abravanel e Sirotsky) "produzem" praticamente toda a informação que chega aos 184 milhões de habitantes. Quase sem fiscalização, concentram em suas mãos um poder gigantesco de manipulação, contrariando a legislação federal. Para garantir seus lucros e os de seus investidores, essas famílias não hesitam em criminalizar as lutas dos movimentos sociais e distorcer a realidade vivida pelos trabalhadores. Em Campinas, não é diferente: a Rede Anhanguera de Comunicação (RAC) monopoliza os meios impressos na cidade e região (Correio Popular, Diário do Povo, Notícia Já, Gazeta do Cambuí, Gazeta de Piracicaba, Gazeta de Ribeirão). É com esse poder que (de)formam a opinião pública,  tratando, em geral, as manifestações populares como casos de polícia.

A "Primeira MOSTRA LUTA!" surge para afirmar um dos direitos mais básicos do ser humano: o direito à comunicação. De 1 a 6 de dezembro, em Campinas, muitos sem-voz falarão, através de vídeos, sobre sua realidade, sonhos e lutas: a luta dos sem-terra, dos sem-teto, dos sem-trabalho, a luta contra a privatização das nossas riquezas, pela diversidade sexual e pelo acesso à arte e cultura, a luta operária e estudantil, a luta antimanicomial, enfim, a luta geral pela sobrevivência. Esperamos que a população de Campinas não se deixe levar pelo silêncio enorme que nos engole e venha ver, com seus próprios olhos, e discutir, com sua própria boca e cabeça, a realidade que não passa na TV.

Programaçao:
Local: Museu da Imagem e do Som - Palácio dos Azulejos
Rua Regente Feijó, 859 - Centro,  Campinas - SP
telefone: (19) 32367851

Segunda 1/dez - 19hs
Companheiro Arcênio. Presente!

Cilla Amaral e Rafael Prata (TV COT), 2003 - 40′
O vídeo pincela a história do movimento dos trabalhadores de São Paulo da década de 60 aos anos 2000 através da biografia de Arcênio Rodrigues da Silva, um dos fundadores do Movimento Metalúrgico de SP (Momsp).

Lutar Sempre! – 5° Congresso Nacional do MST
Brigada de Audiovisual da Via Campesina, 2007 - 29′
O documentário "Lutar Sempre! – 5° Congresso Nacional do MST" pretende ir além do registro daquele que foi considerado o maior congresso de camponeses da história na América Latina, reunindo mais de 17.500 trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terra de todo o Brasil e convidados. Tem como objetivo ser um material formativo que discuta a situação atual das lutas sociais e a construção de um projeto popular.

Terça 2/dez - 19hs
JanaJana
Identidade, 2007 - 11′46"
Jana e Jana são a mesma pessoa, respondendo às mesmas perguntas, em duas entrevistas gravadas em um intervalo de poucas semanas. Estas duas Janaínas, duas travestis, que são uma, recontam sua história com o ensino formal. Sutilmente, cada narração transfigura o passado, reforçando ou enfraquecendo cada ponto do que é recontado. 

Movimento Passe-Livre Presente!
Denis Forigo e Jefferson Vasques (CAMARÁ), 2005 - 17′
Este vídeo retrata as movimentações do Movimento Passe-Livre em Campinas, em 2005, mostrando sua organização, suas manifestações e a repressão da mídia, polícia e governo.

Do Corpo à Palavra
c. e. m. – Centro em Movimento (Lisboa/Portugal), 2007 - 48′
Um grupo de mulheres com histórias de vida que passam pela prostituição de rua, na cidade de Lisboa, desenvolve um trabalho baseado no corpo e na dança, no contexto de um programa de reintegração social. No âmbito deste programa, participam num laboratório de cinema documental com o objetivo de realizarem um filme coletivo. No decorrer do processo surge a urgência de abordar o tema da prostituição e o direito à maternidade. No dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o grupo organiza um evento público na Igreja dos Anjos, onde é apresentado um vídeo criado por elas, "Mães de Corpo Inteiro", seguido de um debate. O processo de trabalho, momentos do laboratório de dança e de cinema, a preparação do evento, os conflitos, as escolhas, e a reflexão sobre o tema da maternidade, até chegar ao dia da exibição do vídeo, são o fio condutor deste documentário. Uma reflexão sobre a vida deste grupo de mulheres, as suas histórias pessoais, lutas e conquistas.

Quarta 3/dez - 19hs
Loucos por Jornalismo
Cleyton A Jacintho, Andreia Durta e Lucimeire. 2008 -  20′ 
O vídeodocumentário "Loucos por Jornalismo" tem como objetivo mostrar como a comunicação, em especial o jornalismo, pode ser um importante instrumento para inclusão social. O programa é elaborado desde a pauta, produção, edição e locução pelos usuários do Cândido Ferreira. Em cinco anos de existência, o programa tem se revelado fundamental na recuperação da cidadania, auto-estima e inclusão social destas pessoas. Não pretendemos com este trabalho simplificar o processo de recuperação destas pessoas, mas enfocar, em especial, os resultados alcançados pela oficina de comunicação, uma vez que ela está inserida dentro de um contexto muito mais amplo, que é a reforma psiquiátrica e a luta antimanicomial.

Eles não vão a Daslu
Vinicius Zanotti, 2008 - 19′46"
Júlio e Eunice são catadores de recicláveis e vivem marginalizados no sistema capitalista. "Eles não vão a Daslu" traz os conflitos, alegrias e angustias de 1 dia de suas vidas.

Frei Tito
Grupo Risco, 2008 - 20′13"
O vídeo relata as duas semanas da ocupação Frei Tito em Campinas, desde a ocupação do terreno por 3000 pessoas até o despejo, entre março e julho de 2008.

Quinta 4/dez - 19hs
O Protesto
Identidade, 2008 - 7′15"
Em uma noite de sábado, em fevereiro de 2008, a militância LGTTB contabilizou seis assassinatos de travestis em todo o país. Uma delas foi morta em Campinas, com um tiro no rosto, em seu próprio apartamento. No final de semana seguinte, um grupo de ativistas indignados, vestidos de preto, toma a principal rua do centro da cidade. Dentre eles, algumas travestis carregando junto ao peito símbolos que intencionam mostrar às milhares de pessoas que faziam compras e passeavam que elas poderiam ser os próximos alvos da violência.

Excluídos
Video Kulatra, 2007 - 20′
"Excluídos" é um vídeo-manifesto produzido a partir de imagens feitas em Campinas/SP no Grito dos ExcluÌdos, 2007. Tem como objetivo, ao contrário da imprensa entorpecente, demonstrar parte da atual realidade brasileira. O vídeo, no qual a população expressa por si o quanto está farta deste governo discriminatório e opressor, provoca questinamentos acerca da idéia de exclusão, e os conflitos gerados quando a polícia intervém para obrigar a submissão e a exploração.
Sapphadas (lançamento!)
CAMARÁ, 2008 - 30′
"Sapphadas" é resultado do curso "Introdução ao vídeo-documentário como instrumento de comunicação popular" oferecido em parceria com o MO.LE.CA (Movimento Lésbico de Campinas). "Sapphadas" retrata a vida de dois casais de lésbicas: como se descobriram lésbicas, como se conheceram, as dificuldades do relacionamento e os desafios na luta pela afirmação de sua orientação sexual. 

Sexta 5/dez - 19hs
Em defesa da Previdência Pública
Denise Simeão (TV COT), 2007 - 8′
Uma exposição sobre os principais pontos da Reforma da Previdência no governo Lula e suas conseqüências para os trabalhadores.

Deus e o Diabo nas ondas do AR
Júlio Matos (Rádio Muda), 2002 - 16′
Curta que conta um pouco da vivência da Rádio Muda, um Rádio Livre que transmite em 105.7FM a mais de 15 anos.

Manifesto da TV Piolho + 1 programa da tv
Tv Piolho, 2006 -  2′(manifesto); 6′(programa)
Manifesto que marca o início de uma das primeiras, se não a primeira, TV Livre do Brasil - a TV Piolho, que transmite no canal 20 UHF. Um marco na história da comunicação livre.

Chamada a cobrar - 10 anos de privatização do CPqD/Sistema Telebrás (lançamento!)
Cristina Beskow (CAMARÁ e SINTPq), 2008 - 20′
O vídeo-documentário faz uma reflexão sobre a privatização do CPqD/Sistema Telebrás e as consequências deste processo para a população brasileira.

Sábado 6/dez
Sessão das 16hs

Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?
Grupo Risco, 2005 - 12′37"
Imagens do despejo violento da ocupação "Plínio Ramos", prédio ocupado no centro de São Paulo, em agosto de 2005. Capturado com cameras fotograficas digitais.

Prestes (lançamento!)
Grupo Risco, 2007 - 30′14"
Documentário com entrevistas a moradores e imagens da maior ocupação vertical da América Latina, 2 meses antes de sua reintegração de posse. A ocupação, organizada pelo Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC), localiza-se na região da Luz, centro da cidade de São Paulo.

Ninguém leva nossa casa! (lançamento!)
Sérgio Souza, Ike banto e Christhian Osyo, 2008 - 17′37"
No interior de um loteamento na região sudoeste de Campinas, grupos culturais e a comunidade estão organizados para garantir que o casarão histórico da Fazenda Roseira não seja demolido por seu antigo proprietário e que o espaço seja transformado em Casa de cultura, uma historia de luta da periferia consciente contra a especulação imobiliária, e a omissão do poder publico.

Sessão das 19:30hs
Flaskô: Fábrica sob o controle dos trabalhadores
Rafael Prata (TV COT), 2003 - 20′
A política ecônomica nas últimas décadas levou ao fechamento de muitas empresas, atraso de salários e demissões. A CIPLA e a INTERFIBRA (SC) e a FLASKÔ (Sumaré/SP) são exemplos disso. Só que nesses casos a resposta dos trabalhadores foi ocupar e controlar as fábricas, em defesa dos direitos e dos empregos.

Nem um minuto de silêncio
Brigada de Audiovisual da Via Campesina, 2007 - 23′
O documentário Nem um minuto de Silêncio: Fora Syngenta do Brasil foi produzido de forma independente pela Brigada de Audiovisual da Via Campesina Brasil. Camponeses e camponesas, acampados e acampadas, assentados e assentados, todos moradores da periferia rural brasileira, começam a se organizar para produzir um contraponto audiovisual à deturpação e violência engendrada pelas transnacionais e pelos representantes do agronegócio. Uma violência que é legitimada e defendida pela grande mídia - através de suas novelas e telejornais - e por cineastas subjugados à lógica comercial. 
O presente documentário analisa os acontecimentos que levaram ao assassinato - em outubro de 2007 - do camponês Valmir Mota Keno no interior do estado do Paraná, por uma milícia armada contratada pela transnacional Syngenta Seeds. Keno era integrante do MST e já vinha sofrendo ameaças de morte. O documentário pretende aprofundar a discussão sobre a questão agrária brasileira, contrapondo o modelo de desenvolvimento voltado para a produção de transgênicos e liderado por grandes empresas transnacionais - que não descartam a utilização da violência para alcançar seus objetivos -, ao modelo que busca o fortalecimento da agricultura familiar voltado para a garantia da soberania alimentar de todo o povo brasileiro. A  Syngenta é uma transnacional suiça, que dentre outras atividades ilegais, mantinha um campo de testes com transgênicos dentro da faixa de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçu, patrimônio natural da humanidade.

2 meses e 23 minutos
Rogério Pixote e Fábio Ranzani (MTST), 2007 - 23′
Sob a perspectiva das mulheres e crianças, a luta pelo direito à moradia de 5 mil pessoas organizadas pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-teto) no acampamento João Cândido.

Para informações detalhadas acesse o site do evento: http://camaracom.com.br/mostraluta/

Comentários

Do genocídio facista israelense à heróica saga Palestina

MIGUEL URBANO RODRIGUES

O genocídio que atinge o povo da Palestina será recordado pelo tempo adiante como uma mancha repugnante na historia da humanidade.

Menos transparente é outra realidade. A criação do Estado de Israel, responsável pela tragédia que nos reúne nesta Conferencia, assenta sobre mitos que deturpam a historia.
A acumulação e difusão desses mitos está na origem de situações, actos políticos e crimes que tornaram possível a repetição no inicio do século XXI de uma monstruosidade civilizacional. Apoiado pelos EUA o Estado construído por vitimas do holocausto nazi concebe e executa um moderno holocausto.

Uma pirâmide de falsidades e mentiras sinaliza a estrada do tempo que conduziu a chacinas como as de Sabra, Shatila e Jenin.

Na base delas está o mito básico, o mais trabalhado de todos, aquele que desencadeou o movimento do regresso dos judeus à «Terra Santa dos antepassados».

A esmagadora maioria dos israelenses que vivem no Estado de Israel e se assumem como judeus não descendem do povo que invocam. A saga da diáspora judaica, alavanca das teses de Theodor Herzl que promoveram a «volta à pátria perdida», foi edificada sobre uma inverdade histórica.

Jerusalém era uma cidade pequena quando, por duas vezes, a sua população, maioritariamente de judeus, foi expulsa pelos Romanos. Não eram mais do que alguns milhares os que dela saíram após a revolta esmagada por Tito, no ano 70. Adriano, no século II, arrasou totalmente Jerusalém como castigo de nova insurreição. Os judeus deportados após a mortandade foram também poucos.

Não ha milagres na multiplicação dos seres humanos. Olhamos hoje para os askenazis, vindos da Alemanha, da Polónia, da Europa Ocidental e para os sefarditas, chegados de países muçulmanos, e tudo nos seus traços fisionómicos difere, a denunciar origens étnicas diferentíssimas. Nuns e noutros, a percentagem de sangue judaico, após cruzamentos processados ao longo dos séculos, é mínima. Os primeiros tratam aliás os segundos com sobranceria, considerando-os cidadãos inferiores. E os judeus negros da Etiópia e de outros países africanos?

É a religião e não o sangue que estabelece a ponte do judaísmo entre essas comunidades e a suposta pátria de origem.

Mas, porventura, será hoje a religião o denominador comum aglutinador da nação que se diz descendente de Abraham? A resposta é negativa. Muitos judeus israelenses não praticam actualmente a religião hebraica e as suas convicções religiosas são, pelo menos, débeis.

A tradição, o culto dos antepassados, o acervo de uma cultura defendida com tenacidade e condensada na Bíblia (o Antigo testamento) aí estão as raízes do sionismo e a explicação da especificidade contraditória de um estado confessional cujos filhos duvidam (uma percentagem considerável) da existência de Deus.

É inquestionável que os antepassados dos palestinos árabes chegaram à Palestina há uns 5000 anos, subindo da Península Arábica, muito antes das primeiras comunidades hebraicas. Eram aparentados, como povos semitas vindos de um tronco comum. Uns e outros assumiam-se como descendentes de Sem e falavam idiomas muito parecidos que ainda hoje apresentam grandes afinidades.

Os primeiros fundiram-se rapidamente com algumas das tribos que povoavam a região; os segundos muito menos.

O processo de miscigenação dos antigos palestinos foi tão complexo que a própria palavra Palestina deriva dos Filisteus, descendentes dos chamados Povos do Mar, invasores arianos e não semitas.

Não cabe aqui acompanhar a história dos primitivos hebreus e as suas aventuras desde o Nilo ao Eufrates, com passagem pelo vale do Jordão. Encontramos uma síntese muito interessante no livro de Ernesto Gomez Abascal ,que foi embaixador de Cuba na Síria e na Jordânia (1).

O que me parece útil recordar é que a agressividade genocida do estado de Israel tem um precedente na agressividade expansionista dos judeus vindos do Egipto. Actuavam então por mandato divino, como «povo especial». Segundo o Antigo Testamento, Jeová informou Moisés de que seria dos hebreus todo o território desde o deserto até ao mar e ao Eufrates, isto é, a Palestina, o Líbano, a Síria e parte do Iraque, isto é, o hoje chamado Crescente Fértil.

Como tentaram apossar-se de tão vasta e povoada Região?

O livro de Josué iluminou-lhes o caminho: «Quando tiverdes atravessado o Jordão entrando pela terra de Canaã, afastareis do vosso caminho todos os moradores do país e destruireis todos os seus ídolos de pedra, e todas as suas imagens fundidas e destruireis todos os lugares elevados: e expulsareis os moradores da terra e residireis nela porque eu vo-la dei para que seja a vossa propriedade (cap. 33, vers 50 a 53 ). Porque tu és povo santo para Jeová, o teu deus. Jeová, o teu deus te escolheu como povo especial, mais do que todos os povos que estão sobre a terra (cap. 7, vers 6). E destruíram a fio de espada tudo o que havia na cidade; homens e mulheres, moços e velhos, até os bois, as ovelhas e os burros.» (cap. 8, vers 24 e 26 (…) Subiu logo Josué e todo Israel com ele de Eglon a Hebron e combateram esta (…)matou tudo o que tinha vida, como Jeová, deus de Israel, lhe tinha ordenado.(cap. 10, vers 34 e 40).

Não faltam a Ariel Sharon, como se verifica, fontes bíblicas de inspiração. Jeová nada tinha de humanista, era um deus violento, racista, que fazia da guerra e das chacinas alavanca da historia.

A agressividade actual dos dirigentes israelenses não é, portanto, um fenômeno circunstancial. Tem raízes antiquíssimas.

O movimento sionista nasceu agressivo numa época em que contou com a simpatia da intelligentsia européia, justamente indignada com o anti-semitismo que se manifestava nos repugnantes pogroms da Polônia e da Rússia.

Nos finais do século XIX, na Palestina, então submetida ao domínio turco, 91% da população eram árabes palestinianos. Os judeus, de imigração recente, não ultrapassavam 50 mil. Quase 99 % das terras pertenciam aos camponeses árabes. Mas os pioneiros do sionismo já projectavam o futuro Israel. Theodor Herzl no seu livro «O Estado Judaico», de 1896, escreveu: «em Basileia fundei o estado judaico (se hoje dissesse isso em voz alta todos me responderiam com uma gargalhada). Talvez dentro de cinco anos, mas certamente dentro de cinquenta toda a gente o saberá.»
Em 1914, Chaim Weizman, que seria o primeiro presidente de Israel, escreveu nas suas Memórias: «Na actualidade somos um átomo mas é razoável afirmar que se a Palestina cair na esfera da influencia britânica, e se a Grâ Bretanha incentivar o estabelecimento de um estado judaico, então como dependência britânica, podemos esperar ter ali dentro de 25 a 30 anos, um milhão de judeus, pelo menos, e eles se encarregarão de constituir uma guarda eficaz para o Canal de Suez».

Weizman tinha os dons dos antigos profetas. O que não previu foi que ao decadente império britânico sucederia o vigoroso império norte-americano e que o Estado de Israel, imaginado por ele, se transformaria no seu cão de guarda para todo o Médio Oriente.

Israel, gerado por decisão do imperialismo britânico ao criar o chamado Lar Nacional Judaico, nasceu, não se pode negar a evidencia, de um facto colonial.

Entretanto, transcorrido mais de meio século sobre a partilha da Palestina aprovada pelas Nações Unidas, Israel é uma realidade. Os próprios revolucionários palestinos reconhecem essa evidencia. Os mais de cinco milhões de israelenses que vivem hoje no Estado judaico ali implantado não são colectivamente responsáveis pelas políticas que tornaram possível a sua formação. Israel não pode ser apagado do mapa, por mais monstruosos que sejam os crimes dos seus actuais dirigentes.

Mas a solidariedade com a Palestina árabe exige a desmontagem do edifício de mentiras históricas montado pelo imperialismo e pelo sionismo na tentativa de justificar o injustificável.

Genocídios como os de Sabia e Shatila e o recentíssimo de Jenin não foram tragédias ocasionais.

Nos últimos anos do mandato britânico as organizações terroristas israelenses Haganah, Irgun e Stern cometeram incontáveis crimes numa escalada de violência dirigida contra os árabes palestinos, então amplamente majoritárias. Segundo o censo de 46, os árabes palestinos residentes eram 1 237 000 e os judeus apenas 608 mil. E somente 8% das terras pertenciam aos segundos. O Plano de Partilha aprovado pela ONU atribuiu entretanto ao futuro estado judaico 56% da superfície da Palestina.

E que aconteceu? Os israelenses ocuparam 75% do território, inviabilizando a criação do Estado Palestino. Quando a ONU tentou fiscalizar o cessar fogo, o bando terrorista Stern assassinou em Jerusalém o conde Bernardotte, secretario geral da organização. Em tempo brevíssimo 400 mil palestinos foram expulsos das suas terras. Quase 500 aldeias foram arrasadas numa orgia de barbárie. Em poucas horas a Irgun massacrou 254 palestinos na aldeia de Deir Yassin. Aterrorizar as populações, esvaziar a Palestina de árabes era o objectivo dessas acções de terror. Mais tarde, Menahem Beguin, que foi primeiro ministro, comentou assim a chacina por ele comandada: «O massacre não somente se justificou como o Estado de Israel não existiria sem essa vitoria».(2)

Sob essa apologia do genocídio transparece a política que Yossef Weitz, dirigente do Fundo Nacional Judaico, ordenou numa sentença monstruosa: «Entre nós deve ficar claro que não existe espaço para dois povos neste país (…) não ha outro caminho que não seja a transferência dos árabes para os países vizinhos, a mudança de todos eles; nenhum deles, nenhuma tribo deve permanecer aqui(3)

Três guerras com estados vizinhos irromperam desde a criação de Israel.

Uma Resolução das Nações Unidas, entre todas famosa, a 242, de 22 de Novembro de 1967, intimou Israel a devolver os territórios ocupados pela força das armas. Outra, fundamental também, determinou o regresso dos refugiados aos lugares de onde haviam sido expulsos pelo exercito de Israel.

A posição israelense sobre essas questões cruciais encontramo-la condensada num cínico comentário de Golda Meier: «Como vamos devolver os territórios ocupados? Não existe ninguém a quem devolver algo. Essa coisa a que chamam palestinos não existe».(4)

A historia recente é melhor conhecida.

Se ha uma palavra que defina bem os acontecimentos que nas ultimas décadas tiveram por cenário a Palestina é a palavra tragédia.

O Estado comandado por Ariel Sharon não renuncia ao cumprimento das profecias da Torah que apontam o caminho da violência para a realização do sonho de Eretz Israel, ou seja, a Grande Israel.

Em Tel Aviv as tácticas e o discurso político mudaram ao sabor do ocupante da Casa Branca, sempre o grande aliado. Mas o objectivo de aniquilar a nação palestiniana manteve-se.

A Primeira Intifada demonstrou claramente que o povo árabe da Palestina não renuncia ao direito inalienável de construir o seu próprio futuro como nação independente, plenamente soberana, no que resta –Cisjordania e Gaza– dos territórios povoados pelos seus antepassados muitos séculos antes da chegada ali das primeiras tribos de judeus.

Seria uma solução aceitável simultaneamente por palestinianos e israelenses. Mas para isso seria, obviamente, necessário cumprir os Acordos. Ora essa nunca foi a intenção dos dirigentes israelenses.

O aparecimento exibicionista, em acto de provocação, de Ariel Sharon na Esplanada das Mesquitas, na velha Jerusalém, assinalou o inicio da Segunda Intifada e da actual escalada genocida contra o povo árabe da Palestina.

Nem a imaginação de um Sófocles ou de um Shakespeare concebeu tragédia comparável à que se abateu sobre as cidades e aldeias dos territórios governados pela Autoridade Nacional Palestiniana. Os bombardeamentos diários de áreas urbanas e rurais, a destruição das estruturas básicas da sociedade, como escolas, hospitais, edifícios administrativos, estabelecimentos comerciais, serviços de luz, água e comunicações, o assassínio de mulheres e crianças, o cerco à sede de Yasser Arafat em Ramallah, e chacinas colectivas como a de Jenin – serão pelo tempo afora recordados como exemplos da barbárie de um estado confessional responsável por uma das paginas mais repugnantes da história da humanidade.

James Petras encontra para Jenin, como analogia, o gueto de Varsóvia destruído pelas SS de Hitler. A José Saramago, a aldeia palestiniana eliminada traz à memória Auschwitz, paradigma da loucura assassina nazi.
A mim faz-me recordar ambos. O buldozer Sharon, como já lhe chamam, é, pelos, métodos e pela ideologia, um discípulo eficiente de Hitler. Creio enunciar uma evidência ao afirmar que em cada um de nós, aqui reunidos no México, por iniciativa do Partido do Trabalho e da OSPAAAL, a angustia e a indignação provocadas pelo genocídio que atinge a nação palestiniana são acentuados pela consciência de que esse crime de lesa humanidade não seria possível sem a cumplicidade e o apoio ostensivo dos EUA

Por si só, Ariel Sharon não teria condições mínimas para empreender o seu plano de destruição da Palestina. Os seus crimes contam com o respaldo de Washington, mais exactamente do sistema de poder que governa os EUA, um sistema igualmente monstruoso cuja estratégia de dominação mundial deixa já transparecer o perigo de uma ditadura militar planetária, ou seja, uma ameaça global á humanidade.

Os povos condenam com firmeza crescente o genocídio palestiniano. Mas a matança prossegue.

É financiada. Ultrapassa 3 mil milhões de dólares anuais a ajuda norte-americana ao estado assassino de Ariel Sharon. A passividade dos governos da União Européia perante o genocídio é outra indignidade. Afirmam lamentá-la, mas a sua atitude é de submissão à estratégia dos EUA, que transformaram o Conselho de Segurança da ONU em dócil instrumento da sua política imperial.

A intima aliança entre a extrema direita israelense e o governo dos EUA contribui para evidenciar o significado internacionalista e humanista da luta heróica do povo árabe da Palestina. Essa pequena e valente nação, ao resistir com firmeza homérica à tentativa de holocausto contra ela comandada pelos filhos e netos das vitimas do holocausto judeu da Segunda Guerra mundial — essa Palestina de raízes milenárias assume na realidade a defesa de valores eternos da humanidade.

A Palestina resiste. O seu povo sobrevive e multiplica-se sob o vendaval de metralha do fascismo israelense. Segundo um estudo da Universidade judaica de Haifa, no ano 2020 a população total de Israel ,da Cisjordania e Gaza terá ultrapassado os 12 milhões. Desse total 58% serão árabes palestinos. De maioria que são hoje os israelenses terão nessa época passado a minoria.

Represento nesta Conferencia o Partido Comunista Português . É com orgulho que aqui lembro ter sido permanente, fraternal e incondicional ao longo do tempo a solidariedade dos comunistas portugueses com o povo épico da Palestina. Ao reafirmá-la calorosamente desta tribuna, expresso a nossa confiança inabalável na vitoria final desse pequeno-grande povo que se bate hoje pela humanidade inteira.
Vocês vencerão, companheiros da Palestina.
________________
(1) Ernesto Gomez Abascal, Palestina – Crucificada la Justicia, Editora Politica, Havana, Abril de 2002
(2) OB.ctda, pg 203
(3) Idem, pg 32
(4) Idem, pg 54

(*) Intervenção na II Conferencia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestiniano, realizada no México em 15/Maio/2002.

Este texto encontra-se em http://resistir.info

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Reflexões de outubro

A intervenção de grandes potências manteve em funcionamento as funções vitais do sistema, mas não pode impedir o efeito-contágio da crise. Turbulências sociais regressivas poderão ocorrer na Europa do Leste, Ásia Central e África - onde assumiriam formas dramáticas

José Luís Fiori

 

13/11/2008)

“Nós decidimos tomar medidas decisivas e utilizar todos os instrumentos à nossa disposição para sustentar as instituições financeiras que tenham importância sistêmica e impedir que elas possam falir”

Plano de Ação do G7, Washington, 10/10/2008

Na segunda-feira, dia 13 de outubro de 2008, o mundo amanheceu em silêncio e ficou em suspense, durante quase todo o dia, à espera do que seria uma espécie de “duelo final”, que estaria se travando nos principais centros financeiros do mundo , entre o poder político e os mercados. No final do dia, entretanto, os primeiros sinais já indicavam que não havia duelo e que o poder político tinha imposto sua autoridade sobre os “mercados financeiros”. Depois de uma semana de pânico, entre 5 e 12 de outubro, os governos das principais economias do mundo conseguiram, em poucas horas, formular um "plano comum" de intervenção maciça e estatização parcial dos seus sistemas financeiros. Ele cumpriu o seu objetivo imediato de estancamento de “sangria” e estabilização do cambio. Naqueles dias, quem quis, pôde ver e aprender que existe uma relação essencial e expansiva entre o poder político e o capital financeiro, e que, apesar de tudo, o que foi dito e repetido nestes últimos anos, o poder político tem uma precedência hierárquica e dinâmica, com relação aos mercados e ao capital financeiro. Ou seja: o poder e a riqueza capitalista se expandem juntos, mas o poder político é uma condição essencial, permanente e dinâmica dos mercados e do capital financeiro. Neste sentido, é interessante observar que o plano de nacionalização dos principais sistemas financeiros do mundo tenha sido formulado pela Inglaterra, com base na experiência da Holanda (e antes de ser aceito pelos EUA e pela União Européia). Logo a Inglaterra e a Holanda, as duas potências marítimas e econômicas que teriam estado na origem do “capitalismo liberal”, e na defesa permanente do laissez-faire.

Nas semanas seguintes, depois do dia 13 de outubro, a própria evolução da crise foi dando maior transparência a uma outra relação que costuma embaralhar a análise dos economistas: entre a moeda estatal e as infinitas moedas privadas e financeiras que coexistem dentro de um mesmo sistema econômico nacional e internacional. Permitiu separar a crise do “mercado financeiro do mundo”, que se estabeleceu nos EUA depois de 1980, de uma crise eventual do dólar e da hegemonia monetária dos EUA, que ainda não aconteceu. Essa foi a estratégia que o governo norte-americano adotou no campo internacional, buscando sustentar a confiança e a centralidade mundial do dólar. Durante todo o mês de outubro, os EUA mantiveram uma comunicação e uma coordenação com os governos e os bancos centrais do Japão e da China - os maiores detentores mundiais de obrigações do estado norte-americano. No caso da China, em particular, estabeleceu-se uma verdadeira parceira estratégica com o Tesouro norte-americano, na defesa do dólar e dos interesses financeiros comuns dos dois países. Na mesma linha de atuação, o Banco Central norte-americano (FED), fechou, depois do dia 13 de outubro, acordos para garantir liquidez em dólares dos BCs da Austrália, Canadá, Dinamarca, Inglaterra, Japão, Nova Zelândia, Noruega, Suécia, Suíça, e com o próprio Banco Central Europeu. Logo depois, no dia 29 de outubro, o FED ofereceu as mesmas facilidades e condições, além de uma linha de 30 bilhões de dólares para cada um dos BCs - do Brasil, México, Coréia do sul e Singapura.

Não há sinais de que os EUA estejam perdendo poder e capacidade de coordenação monetário- financeira, dentro da economia mundial

No mesmo dia em que o FMI anunciou - em acordo com o governo norte-americano -, a criação de uma nova linha de crédito sem condicionalidades para países em desenvolvimento, que estejam sofrendo os efeitos da crise e que mantenham políticas econômicas “sadias”. Ao lado dos programas tradicionais de ajuda do FMI, que vem sendo negociados neste momento, com os governos de quase todos os países da Europa Central, além da Islândia, Turquia, Paquistão e outros prováveis candidatos do sudeste asiático. Ou seja: em poucas semanas, depois do dia 13 de outubro, o Tesouro norte-americano e o FED, junto com o FMI, tomaram a iniciativa dentro e fora dos EUA e passaram a atuar de forma agressiva, coordenada e global, para sustentar a estabilidade e a centralidade do dólar, e não há sinais de que os EUA estejam perdendo poder e capacidade de coordenação monetário- financeira, dentro da economia mundial.

Por isso pode-se dizer – com razoável grau de segurança - que os problemas sistêmicos provocados pela crise financeira, deverão vir de outro lado, e eles já estavam se anunciando nos últimos dias do mês de outubro. Até então, a intervenção das grandes potências manteve as funções básicas do sistema em funcionamento (como se fosse cérebro, coração e pulmão), mas não teve como impedir o efeito contágio da crise, que já passou das finanças para o crédito, e deve atingir a produção, o emprego e as exportações de todo mundo, e de forma muito mais grave, no caso dos países menos desenvolvidos e com menor capacidade autônoma de socorrer seus próprios bancos e produtores. Todos organismos internacionais estão prevendo quedas acentuadas da produção, dos preços e das exportações. E a OIT crê num aumento imediato de 10% do desemprego mundial - mais concentrado nas regiões mais pobres do mundo. Nestas regiões, deve se prever um processo complicado de desintegração social e política. O mais provável é que as revoltas e revoluções sociais voltem à ordem do dia. Elas não serão socialistas nem proletárias, mas adquirirão maior intensidade e violência nos territórios situados em “zonas de fratura” ou de disputas e conflitos geopolíticos crônicos. Isto poderá ocorrer em vários pontos da Europa do Leste, e em alguns países da Ásia Central, e poderá assumir uma forma dramática no continente africano, sobretudo se tal regressão econômica e social coincidir com uma nova corrida imperialista sobre a África, que pode ser um prolongamento muito provável da crise atual.

Por: Le Monde Diplomatique

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Cuba em imagens: a ilha ensina a América Latina

Reportagem especial: Cuba em Imagens


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Cuba em imagens: a ilha ensina a América Latina
Texto e fotos de Alexandre Barbosa *
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Museu em CubaEstive em Cuba em janeiro de 1998, uma semana antes da chegada do Papa João Paulo II. Foi um dos períodos mais difíceis na história da ilha, sete anos após o colapso da URSS e cercada por vizinhos ainda dominados pela hegemonia neoliberal.
O Brasil tinha reatado relações com Cuba, mas ainda seguia a cartilha dos EUA não fazia investimentos na economia cubana que era, não pela vontade do povo ou dos dirigentes cubanos, muito dependente de investimentos estrangeiros.
Na época, os EUA tentavam aumentar a condição de quintal das nações latino-americanas com as negociações para a implantação da ALCA. Apenas a vitória, nos anos seguintes, de governos mais populares (ou nacionalistas) na Venezuela e mais tarde no Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Equador, Bolívia e Nicarágua permitiriam à Cuba melhores condições de sobreviver ao bloqueio estadunidense.

O que a indústria jornalística não leva em consideração (clique aqui para ler a crítica à cobertura midiática sobre a renúncia de Fidel Castro ao governo de Cuba) é que a economia e a vida política cubanas não podem ser analisadas apenas pela renda per capita ou por outros fatores típicos de uma nação ocidental capitalista.

Cuba é um outro mundo, forjado desde o século XIX numa luta feroz para se tornar uma nação livre. A revolução de janeiro de 59 foi o maior passo neste processo iniciado por José Martí e o que os cubanos alcançaram: independência, ensino, saúde e educação gratuitos para todos são vitórias que centenas de nações não podem se orgulhar.

Nos primeiros anos da revolução, o governo cubano tentou acelerar a industrialização. As viagens internacionais do então ministro Che Guevara não eram apenas para vender o açúcar mas para trazer tecnologia. Infelizmente, o criminoso bloqueio dos EUA, que condenava a sanções os que negociassem com Cuba, levou a ilha a se refugir ainda mais na proteção, muitas vezes até imperial, da URSS.

Mesmo assim, Cuba sobreviveu. Sobreviveu ao fim da URSS, às tentativas de invasão norte-americanas e até às exigências soviéticas, pois tentou espalhar a revolução popular para outras partes do mundo, com o envio de soldados ou treinamento de guerrilheiros. Como as fotos abaixo mostram, Cuba é um país que cultua sua memória, que tem maravilhas naturais e, apesar do bloqueio econômico, é um povo sorridente e senhor de sua condição de país independente.

A história das lutas de Cuba
A lembrança de Che Guevara
Atrações turísticas
O cotidiano em Cuba

Cuba faz questão de manter vivo seu passado de lutas

José Martí
Memorial José Martí: ao fundo a casa onde nasceu Martí e um trecho de sua poesia mais famosa - Guantanamera, yo soy un hombre sincero

Por toda a parte de Cuba há museus. Na Praça da Revolução, há o Memorial José Martí, em homenagem ao idealizador da independência cubana e que morreu logo no desembarque da primeira investida contra as tropas espanholas.

Outra atração é o Museu da Santería, religião de origem africana, em que é possível ver as divindades que os africanos cultuavam e que ainda são muito fortes no Caribe.

O mais impressionante é o Museu da Revolução. Lá estão guardadas as memórias da luta na Sierra Maestra, o iate Granma usado pelos guerrilheiros para desembarcar em Cuba, armas que combateram os invasores de Playa Girón e centenas de outros objetos.

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Iate Granma
O Granma está imortalizado no Museu da Revolução, com ele, 82 guerrilheiros desembarcaram no litoral cubano para iniciar a revolução.

Jipe utilizado na campanha de Sierra Maestra
Veículo utilizado durante a campanha na Sierra Maestra

Museu da Revolução
Tanque utilizado para combater os mercenários financiados pela CIA durante a invasão de Playa Girón.

Museu da Revolução
O Museu da Revolução apresenta centenas de objetos, desde as carteirinhas de comunistas, passando por fotos até armas e utensílios utilizados durante a guerrilha.

Museu da Revolução

Durante a invasão de Playa Girón, em 1961, Fidel Castro convocou o povo cubano para a resistência. É essa data que marca a virada da Revolução Cubana para uma revolução anti-imperialista e comunista, o que não foi proclamado em 1959. Os mercenários foram detidos e no museu há turbinas de aviões, barcos e outros objetos capturados.

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Museu da Revolução

A presença de Che em Cuba

Plaza de La Revolución
A Plaza de la Revolución é o local utilizado para os grandes discursos de Fidel Castro e sede do governo cubano.

La Cabaña
Como Comandante, o primeiro cargo de Che Guevara no novo governo cubano foi em La Cabanã, fortaleza que guarda a baía de Havana desde a época colonial. Até hoje, está intacta a sala que Che utilizou.

Maca que recolheu o corpo de Che

No mausoléu construído para Che Guevara, há objetos de uso cotidiano com lâminas de barbear, boinas e até a famosa jaqueta de couro utilizada por ele durante a foto de Alberto Korda que o eternizou. Ao lado, a maca em que o corpo de Guevara foi transportado na Bolívia.

Com a morte de Guevara na Bolívia, seu exemplo de guerrilheiro que não se apega a cargos e que dá a vida pela revolução está presente no imaginário cubano. Se Fidel Castro sofreu o desgaste dos anos no poder, Che permanece um ídolo até para os cubanos que estão descontentes com os caminhos da revolução. Ouvi isso de um taxista que trabalha no aeroporto.

Mausoléu Che Guevara
Em Santa Clara, onde Che Guevara venceu uma batalha decisiva para a guerrilha cubana, foi construído um mausoléu. No alto, a estátua lembra a figura do guerrilheiro. Ao dar a volta por esse monumento, o visitante pode entrar no local em que estão os restos mortais de Ernesto Guevara e os outros guerrilheiros mortos na Bolívia.
Há uma praça em frente à estátua, em que músicas em homenagem a Che tocam o tempo todo.

Che e Camilo

Além de Che, outra figura importante na Revolução Cubana foi Camilo Cienfuegos, à direita nesta reprodução em cera. Camilo morreu logo nos primeiros anos da Revolução Cubana e estava presente sempre nos discursos e textos de Che.

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Cuba é um país rico em atrações turísticas

Cubana Aviaciones

Hoje, viajar para Cuba está mais tranqüilo. Há vôos diretos de São Paulo, pela Cubana Aviaciones.

Os aviões são russos e o refrigerante servido é a Tropicola, produzida na Ilha, o que dá um charme diferente para o passeio.

Na cabine do pioto, os comandos estão escritos no alfabeto cirílico, utilizado pela Rússia.

Cubana Aviaciones

Cerimônia do Cañonazo
A cerimônia do cañonazo atrai turistas à fortaleza de La Cabaña. Guardas se vestem com roupas coloniais e disparam um tiro de canhão na baía de Havana. Durante séculos a região teve intenso combate de piratas.

Hotel Nacional
O Hotel Nacional é o mais tradicional de Cuba. Antes da Revolução, servia de ponto para a máfia norte-americana se reunir, pois oficialmente, os encontros eram proíbidos nos EUA. No entanto, até Frank Sinatra fez shows para os mafiososo. Logo após a Revolução foi centro de formação profissional, principalmente para as prostitutas que teriam de aprender um novo ofício. Hoje, é um hotel caro para turistas, mas que oferece os melhores serviços.

Playas del Este
As playas del este ficam a poucos quilômetros de Havana. Quem alugar um carro, pode chegar facilmente em poucos minutos. São praticamente desertas durante a semana além de belíssimas, com um impressionante mar azul. Recomenda-se para quem não quer o agito de Varadero.

La Bodeguita del Medio
La Bodeguita del Medio, ao lado de La Floridita, são os bares mais famosos de Cuba. A tradição manda deixar o nome nas paredes forradas de autógrafos, inclusive de personalidades, como o presidente chileno Salvador Allende.

Bodeguita del Medio

Trinidad

Depois de passar por Santa Clara, outra cidade que merece visita é Trinidad, que mantém construções do século XVII.

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As lições que Cuba ensina

"Os americanos? Nós os chutamos daqui como se fosse uma bola de futebol", disse um cubano de camisa florida e sorriso estampado no rosto. Disse-me essa frase em meio a outras de menor conteúdo político, como que era possível fritar um ovo na calçada nos dias de calor.

Não me identiquei como jornalista para grande parte dos cubanos com que falei. Apenas fiz uma entrevista com um economista, que me recebeu na casa dele depois de uma conversa na rua. Para ele, Cuba vivia numa democracia. "Não chamo de democracia o fato de alguém sair com um cartaz na rua gritando contra o governo, mas poder contar com todas as garantias de educação e saúde gratuitas".

Entre os demais cubanos há os que defendem o regime com força. Geralmente são os mais velhos, que viram o que era o país antes da Revolução e não querem as mesmas interferências e escândalos de corrupção. Não querem abrir mão de suas conquistas. Entre os mais jovens, há dois grupos: os que trabalham com turismo e os que vivem no cotidiano da ilha.

O perigo do turismo
Em Havana, o turismo, apesar de ter sido a salvação inicial para a economia embargada, acabou gerando uma classe de privilegiados, com acesso a dólares o que lhes permite comprar produtos no mercado negro.

Os cubanos podem conseguir produtos para o dia-a-dia nos mercados estatais como azeite e combustível. No entanto, com o embargo econômico, a venda de açúcar não gera dividendos suficientes para fornecer esses produtos em grande quantidade, o que levou ao racionamento. Os cubanos encontraram no mercado negro, movido a dólares, o caminho para complementar os produtos necessários. Nas ruas próximas aos hotéis, há prostitutas e vendedores de rum e cigarro, além de guias que prometem levar os turistas para todos os lugares. Tudo na busca por dólares.

Aos olhos do mundo ocidental, isto poderia soar a fracasso. No entanto, os índices educacionais, de saúde e esportivos mostram que Cuba, nesses quase 50 anos, fez uma opção diferente. Não há carrões pelas ruas, nem casas com piscina ou salas com TV de plasma, verdade. Mas, em Santa Clara, onde dormi uma noite na casa de cubanos comuns, presenciei uma cena que não seria comum em várias casas brasileiras. A cubana Yaldrey acordou cedo para ir ao colégio técnico gratuito, levando de baixo do braço os livros que recebeu gratuitamente e vestindo o uniforme também gratuito. Yaldrey cuida bem de seus livros, porque no próximo ano, outro cubano irá precisar deles. Se Cuba fosse um fracasso, isso não seria uma cena comum.

Cubanos
Família de cubanos em Santa Clara. De roupa escura, à frente, a jovem Yaldrey, estudante da escola "Ernesto Che Guevara".

Havana vieja
Rua de Habana Vieja. Não se pode olhar Cuba com o ponto de vista do capitalismo ocidental.

Havana
Vista aéra da cidade de Havana, capital de Cuba.


Na praça dos Correios acontece semanalmente uma feira de livros, paraíso para os leitores de clássicos do marxismo.

Cemitério
Pela ruas de Havana, a cena dos carros velhos é comum.

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* Alexandre Barbosa, idealizador do site latinoamericano.jor.br é jornalista formado pela UMESP (turma de 97), mestre em Ciências da Comunicação pela USP (2005) e especialista em jornalismo internacional pela PUC-SP (2000). Atualmente é professor universitário de cursos de comunicação social e consultor em comunicação institucional.

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As reminiscências de um fotógrafo*

Por Aziz Ab´Sáber

No ensejo de (re)visitar meus numerosos álbuns de fotos, pude compreender o porquê do meu gosto tardio pela arte de retratar cenas, cenários e paisagens. Dos tempos de menino restou uma memória televisiva. Certamente, as recordações de tempos vividos têm um grande valor íntimo. Lembranças de família: saudades sofridas. Até os seis anos, vivi em minha querida São Luiz do Paraitinga (SP) (de 1924 a 1930). Depois, foram dez anos em Caçapava (SP) (de 1930 a 1939). E por mais de meio século em São Paulo, salvo dois anos em que morei e trabalhei em Porto Alegre (RS) (em 1959 e 1960).

Na memória televisiva de menino, nos tempos da inocência plena, sobrou uma seqüência espaçada de acontecimentos. Rústicas brincadeiras na beira da calçada. Na rua de chão de terra. Em seguida, as experiências dos jogos de peteca. E, ao fim das tardes, quando as mulheres sentavam-se na beira da calçada em intermináveis conversas, nós, silenciosos, acompanhávamos um pouco as fofocas do dia. Nossa tarefa era ouvir e tomar conhecimentos singelos sobre fatos corriqueiros da cidade. Conversas que representavam uma comunidade em trânsito.

Forço minhas memórias para saber como passei a gostar de fotografias. As primeiras fotos que vi na minha vida foram retratos de família, o meu primo Luís e eu, ainda bebês, em uma fotografia bizarra do ano de 1924. Algumas raras fotos de meus pais, feitas para figurar em quadros de parede. Mais tarde, em Caçapava, uma foto feita por um cuidadoso retratista profissional em que eu e meus queridos irmãos – Iucef e Lila – fomos cuidadosamente retratados, em 1931. Imagens perdidas ao longo de mudanças atabalhoadas. Mais tarde um pouco, uma foto do conjunto de meus colegas de classe, tomada no espaço do recreio do Grupo Escolar Rui Barbosa. Nenhuma foto, infelizmente, do tempo em que estudei em Taubaté (SP), somente memórias de fatos e conhecimentos dos dois anos e meio em que viajava de ônibus para assistir às aulas do curso secundário no Ginásio Estadual da cidade. E para findar essas lembranças, para muitos pouco importantes, as fotos tomadas sobre cada um dos formandos do Ginásio Estadual de Caçapava destinadas ao tradicional Álbum de Formatura, em 1939, às vésperas de minha vinda a São Paulo para fazer o vestibular de História e Geografia na memorável Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, em fevereiro de 1940.

Quando procurei saber se havia tido sucesso nos exames vestibulares, nos quadros de notas afixado nas paredes do corredor do 3º andar da Escola Normal Caetano de Campos (Praça da República), fiquei eufórico pela nota tirada. Mas li uma carta de recomendação escrita de que a primeira aula seria uma excursão de campo a ser dirigida pelo mestre Pierre Monbeig. No pequeno adendo, nos pediam para vir com roupas adequadas para viagens. A excursão marcou para sempre meu gosto pela Geografia com base na leitura da paisagem. E como eu, infelizmente, não tinha uma máquina para fotografar os cenários das paisagens em trânsito, nos diversos pontos de observação, tive que aprender a fazer pequenos desenhos em meu caderno de notas sobre formas de relevo e o difícil mosaico do espaço agrário. Nessa excursão, percebi, pela primeira vez, a importância de ter uma boa câmera fotográfica.

Agora, há mais de 60 anos dessa memorável excursão de campo, ao folhear meus numerosos álbuns de fotos, vêm à memória as dificuldades que tive para obter uma câmera fotográfica, tão importante para a profissão a que me dediquei. Desde a primeira maquininha inútil ganha (nem cheguei a tirar fotos) de presente durante a adolescência, até hoje, época das máquinas digitais, aconteceu muita coisa comigo, uma história pessoal que não pode ser registrada no momento. O mais relevante a registrar diz respeito às importantes conseqüências das novas tecnologias que possibilitaram o surgimento das câmeras digitais. Para um geólogo, botânico ou jornalista, a nova geração de máquinas tem uma importância até então impensada. Agora, além do caderno de anotações, existe a necessidade de usar-se sistematicamente as máquinas digitais para o registro de excursões, viagens ocasionais, transectos paisagísticos visando ecossistemas naturais, agroecossistemas e centrografia urbana e suburbana com ênfase nos processos do metabolismo urbano, visualização de cidades das mais diferentes ordens de grandeza: metrópoles, capitais regionais, médias e pequenas cidades, aldeias e vilarejos. Importantes acréscimos aos registros fragmentados dos cadernos de notas pertencentes a diferentes profissionais. Além do que, registros de fatos do mundo real em diferentes tempos para se observar mudanças e estudos básicos para planificação.

É nesse sentido que estamos colocando algumas fotografias de tempos diferentes em uma exposição montada e organizada pelo Instituto da Cultura Árabe.

*Trecho editado de texto escrito especialmente para o catálogo da Exposição “Imagens e Paisagens do Mundo Árabe”

Aziz Ab´Sáber, Presidente de Honra do Instituto da Cultura Árabe; Professor Emérito da FFLCH-USP; Professor Honorário do Instituto de Estudos Brasileiros, IEB-USP.

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Frente à crise alimentar, que alternativas?

Esther Vivas, Ecoblogue, 21 de novembro de 2008

A crise alimentar tem deixado sem comida a milhares de pessoas em todo o mundo. À cifra de 850 milhões de famintos, o Banco Mundial soma mais cem, fruto da crise atual. A “tsunami” da fome não tem nada de natural, mas é resultado das políticas neoliberais impostas sistematicamente durante décadas pelas instituições internacionais.

Porém, frente a essa situação, que alternativas se apresentam? É possível existir outro modelo de produção, distribuição e consumo de alimentos? É viável em âmbito mundial? Antes de abordar estas questões, é importante assinalar algumas das principais causas estruturais que tem gerado essa situação.

Em primeiro lugar, a usurpação dos recursos naturais às comunidades é um dos fatores que explicam a situação de fome. A terra, a água, as sementes… foram privatizadas, deixando de ser um bem público e comunitário. A produção de alimentos foi deslocada da agricultura familiar para a agricultura industrial e se converteu em um mecanismo de enriquecimento do capital. O valor fundamental da comida tem derivado de um caráter mercantil. Por esse motivo, apesar de que, atualmente, existem mais alimentos do que nunca, não temos acesso a eles, a não ser que paguemos uns preços cada dia mais elevados.

Se os camponeses não têm terras para alimentar-se e nem excedentes para vender, em mãos de quem está a alimentação mundial? Em poder das multinacionais da agro-alimentação, que controlam todos os passos da cadeia de comercialização dos produtos de origem afim. Porém, não se trata somente de um problema de acesso aos recursos naturais, mas também de modelo de produção. A agricultura atual poderia ser definida como intensiva, “drogo” e “petro” dependente, quilométrica, deslocalizada, industrial… Definitivamente, a antítese de uma agricultura respeitosa ao meio ambiente e às pessoas.

Um segundo elemento que nos conduziu a essa situação foram as políticas neoliberais aplicadas há décadas, com vistas a uma maior liberalização comercial, privatização dos serviços públicos, transferência monetária Norte-Sul (a partir da cobrança da dívida externa) etc. A Organização Mundial do Comércio (OMC), o Banco Mundial (BM), o Fundo Monetário Internacional (FMI), entre outros, têm sido alguns dos principais artífices.

Essas políticas têm permitido a abertura dos mercados do Sul e a entrada de produtos subvencionados, especialmente da União Européia e dos Estados Unidos que, vendidos abaixo do preço de custo, e, portanto, a um preço inferior ao produto autóctone, acabaram com a agricultura, com a pecuária, com a fabricação têxtil… local. Essas políticas têm transformado os cultivos diversificados em pequena escala em monocultivos para a agroexportação. Países que há poucos anos eram auto-suficientes para alimentar a suas populações, como México, Indonésia, Egito, Haiti…, hoje, dependem exclusivamente da importação neta de alimentos. Uma situação que tem sido favorecida por uma política de subvenções, como a Política Agrária Comum (PAC) da União Européia que premia o agronegócio, em detrimento da agricultura familiar.

Em terceiro lugar, devemos assinalar o monopólio existente na cadeia de distribuição dos alimentos. Mega-supermercados, como Wal-Mart, Tesco ou Carrefour ditam o preço de pagamento dos produtos ao camponês / provedor e o preço de compra ao consumidor. No Estado Espanhol, por exemplo, o diferencial médio entre o preço na origem e no destino é de 400%, sendo que a grande distribuição é quem leva o benefício. Ao contrário, o camponês cada vez cobra menos por aquilo que vende e o consumidor paga mais caro pelo que compra. Um modelo de distribuição que dita o que, como e a que preço se produz, se transforma, se distribui e se consome.

Propostas

Porém, existem alternativas. Frente à usurpação dos recursos naturais, temos que advogar pela soberania alimentar: que as comunidades controlem as políticas agrícolas e de alimentação. A terra, as sementes, a água…. têm que ser devolvidas aos camponeses para que possam alimentar-se e vender seus produtos às comunidades locais. Isso requer uma reforma agrária integral da propriedade e da produção da terra e uma nacionalização dos recursos naturais.

Os governos devem apoiar a produção em pequena escala e sustentável, não por uma mistificação do “pequeno” ou por formas ancestrais de produção, mas porque esta permitirá regenerar os solos, economizar combustível, reduzir o aquecimento global e ser soberanos no que diz respeito a nossa alimentação. Na atualidade, somos dependentes do mercado internacional e dos lucros da agroindústria e a crise alimentar é resultado disso.

A recolocação da agricultura em mãos do campesinado familiar é a única via para garantir o acesso universal aos alimentos. As políticas públicas têm que promover uma agricultura autóctone, sustentável, orgânica, livre de pesticidas, químicos e transgênicos e para aqueles produtos que não sejam cultivados no âmbito local, utilizar instrumentos de comércio justo em escala internacional. É necessário proteger os agro-ecossistemas e a biodiversidade, que estão gravemente ameaçados pelo modelo de agricultura atual.

Frente às políticas neoliberais, temos que gerar mecanismos de intervenção e de regulação que permitam estabilizar os preços do mercado, controlar as importações, estabelecer quotas, coibir o dumping, e, em momentos de produção excedente, criar reservas específicas para períodos de entre-safra. No âmbito nacional, os países têm que ser soberanos na hora de decidi seu grau de auto-suficiência produtiva e priorizar a produção de comida para o consumo doméstico, sem intervencionismos externos.

Na mesma linha, deve-se rechaçar as políticas impostas pelo BM, pelo FMI, pela OMC e pelos tratados de livre comércio bilaterais e regionais, bem como proibir a especulação financeira, o comércio a futuros sobre os alimentos e a produção de agrocombustíveis em grande escala para elaborar “petróleo verde”. É necessário acabar com aqueles instrumentos de dominação Norte-Sul, como o pagamento da dívida externa e combater o poder das corporações agroindustriais.

Frente ao monopólio da grande distribuição e do supermercadismo, devemos exigir regulamentação e transparência em toda a cadeia de comercialização de um produto com o objetivo de saber o que comemos, como foi produzido, que preço foi pago na origem e que preço foi pago no destino. A grande distribuição tem efeitos muito negativos na campesinado, nos provedores, nos direitos dos trabalhadores, no meio ambiente, no comércio local, no modelo de consumo… Por esse motivo, devemos propor alternativas ao lugar onde compramos: ir ao mercado local, formar parte de cooperativas de consumo agroecológico, apostar por circuitos curtos de comercialização…, com um impacto positivo no território e uma relação direta com quem trabalha a terra.

Temos que avançar em direção a um consumo consciente e responsável já que se todo mundo consumisse, por exemplo, como um cidadão estadunidense, seriam necessários cinco planetas terra para satisfazer as necessidades da população mundial. Porém, a mudança individual não é suficiente se não vai acompanhada de uma ação política baseada, em primeiro lugar, na construção de solidariedades entre o campo e a cidade. Com um território despovoado e sem recursos, não haverá quem trabalhe a terra e, em conseqüência, não haverá quem nos alimente. A construção de um mundo rural vivo nos corresponde também aos que vivemos nas cidades.

E, em segundo lugar, é necessário estabelecer alianças entre distintos setores atingidos pela globalização capitalista e atuar politicamente. Uma alimentação saudável não será possível sem uma legislação que proíba os transgênicos, o corte indiscriminado de bosques não acabará se não forem perseguidas as multinacionais que exploram o meio ambiente… e para tudo isso é importante uma legislação que seja cumprida e que coloque as necessidades das pessoas e do ecossistema antes do lucro econômico.

Uma mudança de paradigma na produção, na distribuição e no consumo de alimentos somente será possível em um marco mais amplo de transformação política, econômica e social. A criação de alianças entre os oprimidos do mundo: camponeses, trabalhadores, mulheres, migrantes, jovens… é uma condição indispensável para avançar em direção a esse “outro mundo possível”, preconizado pelos movimentos sociais.

Esther Vivas é co-coordenadora dos livros “Supermercados, no gracias” (Icaria editorial, 2007) y “¿Adónde va el comercio justo”? (Icaria editorial, 2006). Artigo publicado em América Latina en Movimiento (ALAI), nº 433. Tradução: ADITAL.

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Fidel Castro, a revolução cubana e a América Latina

FIDEL VENCEU!

O MAIOR LIDER LATINO DO SÉCULO XX
     O MAIOR LIDER LATINO DO SÉCULO XX

Fidel Castro, a revolução cubana e a América Latina
por Luiz Alberto Moniz Bandeira*
De Marti a Fidel: a Revolução Cubana e a América LatinaQuando o ditador Fulgêncio Batista, sem mais condições de manter-se no poder, renunciou durante o reveillon de 1959 e, secretamente, fugiu de Cuba para a República Dominicana, não foi só o seu governo que caiu. Todo o Estado cubano se havia desintegrado e 1959 tornou-se um ano realmente novo. Dias depois, centenas de guerrilheiros barbudos, grande parte de guajiros (trabalhadores do campo), sujos, uniformes rasgados, entraram em Havana, sob o comando de Fidel Castro, Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuegos. Era o clímax de uma epopéia, iniciada por apenas 16 sobreviventes, dos 82 que desembarcaram do iate Granma, no litoral Cuba, em 2 de dezembro de 1956. Fidel Castro tinha então 25 anos e, durante dois anos, comandou a guerra de guerrilhas, juntamente com seu irmão Raúl Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos, organizando o Exército Rebelde, que destruiu a ditadura dos sargentos Fulgêncio Batista, respaldada pelos Estados Unidos.
A revolução cubana foi o fato político mais poderoso e o que maior impacto causou na América Latina, ao longo do século XX, não por causa do seu caráter heróico e romântico ou porque o regime implantado por Fidel Castro evoluiu posteriormente para o comunismo, mas porque ela exprimiu dramaticamente as contradições não resolvidas entre os Estados Unidos e os demais países da região. Não foram os comunistas que promoveram a revolução cubana, no contexto da na Guerra Fria. Conquanto alguns de seus líderes, como Ernesto Che Guevara e o próprio Fidel Castro, em pequena medida, acolhessem idéias marxistas, eles não pertenciam a nenhum partido comunista e não era inevitável que a revolução cubana se desenvolvesse a tal ponto de identificar-se com a doutrina comunista e instituísse a sua forma de governo. Com razão, o historiador Thomas Skidmore, da Brown University, apontou Cuba como ?um estudo clássico do fenômeno nacionalista?, acrescentando que o povo podia ver o caráter autoritário do regime, mas ?o real apelo do regime de Castro era o nacionalismo?. Com efeito, a revolução cubana foi autóctone, teve um caráter nacional e democrático, e a implantação de um regime segundo o modelo dos países do Leste Europeu resultou de uma contingência histórica, não de uma política empreendida pela União Soviética, ma, sim, empreendida pelos Estados Unidos que, sem respeitar os princípios da soberania nacional e autodeterminação dos povos, não aceitaram os atos da revolução, como a reforma agrária, e transformaram contradições de interesses nacionais em um problema do conflito Leste-Oeste.
De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina (editora Civilização Brasileira)Em abril de 1959, quatro meses após a tomada do poder em Havana, Fidel Castro esteve em Buenos Aires, a fim de participar conferência do Comitê dos 21, organismo encarregado de estruturar a Operação Pan-Americana, e seu discurso, segundo o então presidente Juscelino Kubitschek, refletiu ?melhor do que os demais a tragédia da América Latina?, dada a crueza que ressaltava de suas palavras. Causou ?verdadeiro impacto? ao reclamar dos Estados Unidos uma ajuda financeira à América Latina, no valor de US$ 30 milhões. Kubitschek, após conversar com Fidel Castro em Brasília e ter ?a oportunidade de conhecer, em profundidade, seu pensamento?, concluiu que ele era ?um idealista amargurado, que sofrera na carne as conseqüências do apoio dado pelos Estados Unidos às ditaduras na América Latina?, uma vez que Cuba fora marcada por ?longa tradição de tirania? e seu povo, havendo suportado ?o garrote do regime de Batista, não conseguia separar a trágica realidade da situação interna do apoio irrestrito de Washington ao opressor do país?.
Ao regressar de Buenos Aires, Fidel Castro passou pelo Rio de Janeiro e fez um discurso na Praça Barão Rio Branco, organizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e no qual repetiu basicamente o que dissera em Buenos Aires: ?Ni pan sin liberdad ni libertad sin pan?. Lembro-me bem destas suas palavras, pois estava ao seu lado no palanque. E, em Havana, Fidel Castro voltou a reiterar que ?la ideología de nuestra revolución es bien clara; no solo ofrecemos a los hombres libertades sino que le ofrecemos pan. No solo le ofrecemos a los hombres pan, sino que le ofrecemos también libertades?. Ao longo do discurso, durante o qual tratou de definir a ideologia da revolução, Castro, após salientar que no mundo se discutiam duas concepções, a que oferecia aos povos democracia e matava-os de fome e a que oferecia pão, mas lhes suprimia as liberdades, afirmou:
?Nosotros nos vamos poner a la derecha, no nos vamos poner a la izquierda, ni nos vamos poner en el centro, que nuestra Revolución no es centrista. Nosotros no vamos poner un poco más adelante que la derecha y que la izquierda. Ni a la derecha ni a la izquierda, un paso más allá de la derecha y de la izquierda?.
Em abril de 1960, quando estive em Havana, acompanhando Jânio Quadros, então candidato à presidência do Brasil, vi Fidel Castro mostrar-lhe um crucifixo que trazia pendurado no pescoço, indicando que não era comunista e que respeitava a Igreja. Mas, um ano depois, em 16 de abril de 1961, após o bombardeio dos aeroportos de San Antonio de los Baños, Santiago e Havana pelos aviões da CIA, Fidel Castro, após compará-lo, com justo motivo, ao ataque pérfido e traiçoeiro do Japão a Pearl Harbor, em 1941, declarou que os Estados Unidos não perdoavam Cuba porque ?esta es la revolución socialista y democrática de los humildes, con los humildes y para los humildes?.
Ao fazer essa declaração, Fidel Castro buscou comprometer a União Soviética na defesa de Cuba. Ele jogou com o conflito político e ideológico que então eclodira entre Moscou e Pequim e dividira o Bloco Socialista, pois temia que Nikita Kruchev, na linha coexistência pacífica e em entendimento com John Kennedy, trocasse Cuba por Berlim Ocidental, em prol de melhores relações com os Estados Unidos. A proclamação do caráter socialista da revolução cubana, porém, representou igualmente duro golpe nos dogmas cristalizados por Joseph Stalin e outros líderes comunistas, sob o rótulo de marxismo-leninismo, uma vez que ela fora realizada não por um partido supostamente operário, constituído sob as normas do chamado centralismo-democrático e rotulado de comunista, mas pelo Movimento 26 de Julho, uma organização composta, sobretudo, por elementos das classes médias, que, no curso da guerra de guerrilhas, passaram a incorporar camponeses e trabalhadores rurais, os guajiros, ao Exército Rebelde, em benefício dos quais realizaram a reforma agrária.
De conformidade com a ortodoxia stalinista, Cuba não tinha condições materiais senão para realizar uma revolução agrária e democrática, mediante a instalação de um ?governo patriótico?, de união com a burguesia progressista, que se propusesse a impulsionar o processo de industrialização e, libertando o país do domínio imperialista, promover o desenvolvimento econômico e a emancipação nacional. Os dirigentes comunistas, que visitavam Havana, consideravam a revolução em Cuba estranha ao modelo, por eles reconhecido, dado lá não existir um operariado industrial, e julgavam Fidel Castro e seus companheiros um ?grupo inexperiente, com formações ideológicas diversas e pouco definidas?, orientados pelo que qualificaram como ?marxismo amador, ou melhor ainda, como cubanismo?. Ouvi quando Luiz Carlos Prestes, então secretário-geral do PCB, qualificou Fidel Castro como ?aventureiro?, em entrevista à imprensa do Rio de Janeiro, em 1959.
A revolução cubana assim produziu profundas conseqüências na América Latina, onde a tendência das Forças Armadas para intervir, como instituição, no processo político, a partir de 1960, não decorreu apenas de fatores endógenos e constituiu muito mais um fenômeno de política internacional continental do que de política nacional, argentina, equatoriana, brasileira etc., uma vez que fora determinada, em larga medida, pela mutação que os Estados Unidos estavam a promover na estratégia de segurança do hemisfério, redefinindo as ameaças, com prioridade para o inimigo interno, e difundindo, através, particularmente, da Junta Interamericana de Defesa, as doutrinas de contra-insurreição e da ação cívica. Tanto isto é certo que a intervenção das Forças Armadas, a princípio, visou, sobretudo, a ditar decisões diplomáticas, a modificar diretrizes de política exterior, e ocorreu, geralmente, nos países cujos governos se recusavam a romper relações com Cuba. E daí o surto militarista, com a propagação dos golpes de Estado, que tinham como principal fonte de inspiração a Junta Interamericana de Defesa, visando a impedir que outro Fidel Castro surgisse na América Latina.
Fidel Castro foi o mais importante líder da América Latina, no século XX, e o fato de que permaneceu quase meio século no poder, apesar do bloqueio e de todas as pressões, inclusive dezenas tentativas de assassinato pela CIA, representou a maior derrota política que os Estados Unidos sofreram, apesar de seu enorme poderio econômico e militar. http://www.espacoacademico.com.br/082/82bandeira.htm

Por: CMI Brasil

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50º aniversário da Revolução Cubana

ENTREVISTA - CARLOS TABLADA

“Repensar o nosso socialismo é a melhor forma de celebrar a Revolução Cubana”

Em entrevista à Carta Maior, Carlos Tablada, professor da Universidade de Havana e autor de livros sobre o pensamento político e econômico de Che Guevara, fala sobre os 50 anos da Revolução Cubana, sobre o marxismo de Che e o socialismo do século XXI.

Clarissa Pont

Revoluçaõ Cubana Com o 50º aniversário da Revolução Cubana se aproximando, Carta Maior conversou com Carlos Tablada, professor da Universidade de Havana e redator da revista Alternatives Sud, do Centro Tri-continental (CETRI), além de Fundador do Fórum Mundial de Alternativas e membro do júri do Prêmio Casa das Américas. Em recente entrevista, quando incitado pela milésima vez a fazer críticas a Cuba, o escritor uruguaio Eduardo Galeano resumiu assim sua análise sobre o país: “Continuo acreditando que a onipotência do Estado não é a melhor resposta à onipotência do mercado e ainda pratico aquele conselho de Fonseca Amador, o fundador do sandinismo na Nicarágua: Amigo, amigo verdadeiro, é quem elogia pelas costas e critica pela frente”. Tablada é da mesma turma, autor de vários livros e dezenas de artigos, licenciado em sociologia, filosofia e doutor em ciências econômicas, ele esteve no Brasil para lançar a primeira edição em português de "O marxismo de Che e o socialismo no século XXI".
Na ocasião da entrevista, passava por Cuba o terceiro furacão deste mês, deixando perdas avaliadas em US$ 8,6 bilhões e quatro mortos. “Nós sabemos que não há como reconstruir uma sociedade sem a possibilidade de repartir tuas coisas com outras pessoas e outros povos. Ou seja, o cubano tem um espírito de solidariedade muito forte, de repartir o pão, não somente com outro cubano, mas também com um estrangeiro. Por exemplo, no período em que o Produto Interno Bruto cubano caiu quase 40%, nós tínhamos mais de 25 mil estudantes estrangeiros com bolsa estudando na universidade e nós não mandamos ninguém de volta. A nenhum cubano passou pela cabeça dizer bueno, agora não temos o que comer, vamos mandar esse pessoal embora, como vamos alimentar e educar mais de 25 mil estudantes estrangeiros¿. Mas é normal. E agora, com os furacões, creio que vai ser a mesma coisa, nos recuperamos”.
Nesta conversa, Tablada defende que é a partir da mesma força solidária de reconstruir Cuba que surgem as comemorações de meio século de revolução.
Carta MaiorO mundo está passando por uma crise do modelo capitalista. Como isso é visto desde Cuba?
Carlos Tablada – Na verdade, nós fomos um dos primeiro países a denunciar isso. E nossos dirigentes e acadêmicos cubanos foram os primeiros que denunciaram a natureza do neoliberalismo e o Consenso de Washington. Nós estávamos totalmente convencidos que isso só traria mais pobreza. O Consenso é como um aspirador de pó para sugar riquezas, uma nova colonização dos países do sul, uma imposição ao resto dos países do mundo a grande especulação financeira. Até economistas europeus e capitalistas como Keynes, já nos anos 30, denunciavam a economia cassino. Hoje em dia os próprios capitalistas estão recorrendo a Karl Marx porque é nele que esta a explicação do desenvolvimento do capital.
E Karl Marx já nos advertia como o desenvolvimento do capital industrial ia levar ao desenvolvimento do capital fictício. E este capital fictício acaba crescendo a um nível maior que o capital real, industrial, de serviços. Assim, simplesmente se traga a economia real. O desenvolvimento da economia fictícia se dá em detrimento ao crescimento da economia real. Keynes faz essa avaliação a partir do que aconteceu na grande crise de 1929, gerada a partir dos Estados Unidos como esta, e alerta que os estados deveriam ter mais controle para que não se convertessem em economias cassino. Ao invés disso, deixou-se de lado o acordo de Bretton Woods, que de certo modo estabelecia uma ordem.
E aí, nos anos 70, quando os Estado Unidos não podiam mais manter economicamente a loucura de Guerra do Vietnã, rompem com Bretton Woods e transladam o custo da guerra que estava chegando ao final ao resto das economias do mundo. Então era evidente o que aconteceria. O neoliberalismo fundamentalmente se converteu em cultura, em domínio nos anos 80 e 90, e foi isso que lhe permitiu o pensamento único, um pensamento pior do que aquele que surgiu do socialismo real do bloco soviético, um dogmatismo incrível. O capital hoje em dia extrai da natureza uma maior quantidade de recursos naturais do que a natureza é capaz de produzir. E, também, a indústria e a forma de vida capitalista devolvem à natureza um nível de contaminação que o planeta não tem capacidade de regenerar. O capitalismo neoliberal gera conseqüências que o planeta não tem mais como encarar, aí estão as mudanças climáticas que são irreversíveis.
Essa é uma crise civilizatória, é um bloco de coisas. E isso independe de você ser comunista, ser de esquerda ou de direita. Os exemplos que estou dando, de economia cassino e mudança climática, fazem referência a dois representantes do sistema que não podem nunca ser acusados de terem sido comunistas. Um é Keynes e o outro é Al Gore, vice-presidente de Bill Clinton e candidato à presidência dos Estados Unidos que ganhou as eleições, mas simplesmente perdeu para Bush por uma fraude. Faço referência a duas pessoas sobre as quais não há duvida de seu tom ideológico e que são partidárias do capitalismo, e até eles concordam que, do jeito que está, ficamos sem capital, sem planeta e sem nada.
CME o que a experiência de Cuba tem a contribuir nesse cenário?
CT – Em primeiro lugar, é necessário aceitar Cuba como uma experiência de construção de sociedade alternativa à capitalista. Quando Cuba triunfou, as revoluções socialistas, e a que tinha mais anos era a da União Soviética, tinha 30 anos, já tinham cometido erros gravíssimos que determinaram seu desaparecimento. Portanto, quando triunfa a Revolução Cubana a humanidade não tinha receita, não havia sido capaz de criar uma cultura alternativa à capitalista ou uma economia real alternativa à capitalista, nem um sistema político participativo alternativo ao capitalismo. Esses três temas estavam pendentes e nós cubanos fomos descobrindo que permaneciam pendentes. Que o que nos vendiam como uma coisa feita, o modelo soviético que deveria ser copiado, não era assim.
Nós cometemos erros próprios e erros semelhantes quando copiamos o modelo soviético. Reproduzimos erros em Cuba cometidos pelos países socialistas e, por outra parte, cometemos erros na busca de um caminho próprio, erros menores, porque sempre que se comete um erro pensando com cabeça própria é melhor. Precisamente é por isso que desaparece o bloco soviético e nós não desaparecemos. Porque a Revolução Cubana se caracterizou sempre por uma grande vitalidade, por uma busca constante de novos caminhos.
A outra coisa que não nos fez perder foi o internacionalismo. Quando Cuba surge como uma nação, surge junto uma posição internacionalista, tanto cultural como política. E é precisamente esse internacionalismo que nos ajudou a não nos perdermos e seguirmos a busca de um caminho próprio. E, por outra parte, é necessário avaliar as condições tão difíceis sob as quais nos desenvolvemos, nós estamos submetidos a um bloqueio criminal, econômico político e financeiro. Os Estados Unidos perseguem aos empresários e os ameaça se negociam com Cuba. Um barco mercante que entra em Cuba tem que esperar seis meses para poder entrar em um porto norte-americano. Tu imaginas, nós compramos na Europa várias coisas. Fora as agressões militares, biológicas e o terrorismo que aplicaram. Tudo isso deixou feridas já reconhecidas e se não fossem elas, nosso desenvolvimento teria sido maior.
Por dezessete anos consecutivos, a Assembléia Geral das Nações Unidas condenou o bloqueio norte americano a Cuba. E das 192 nações inscritas nas Nações Unidas, 185 votaram contra o bloqueio. Somos uma experiência fora do capitalismo que tem justeza ao redor do mundo.
CMO senhor está no Brasil para lançar O marxismo de Che e o socialismo no século XXI, livro que nasce de um processo de 15 anos de estudo…
CT – Em toda Revolução Cubana, a pessoa que mais se preocupou com a organização da nova economia foi Ernesto Che Guevara. O Che foi também um dos primeiros dirigentes cubanos que visitou a União Soviética. Ele era comunista e um observador do que acontecia lá, ainda no México antes de vir para Cuba, fazia parte da Associação de Amizade México - União Soviética. E havia estudado desde os 17 anos o marxismo. Com os revolucionários cubanos, como José Martí e Fidel Castro, tinha aprendido que toda revolução que não leva implícita uma mudança na natureza humana não tem sentido, não vale a pena lutar apenas por coisas materiais, uma revolução é verdadeira e justifica o sangue derramado por ela, se implica uma mudança de espiritualidade, de valores, se desenvolve a individualidade e não o individualismo. Desenvolve a coletividade, mas não o coletivismo burocrático, no qual a pessoa se converte em um número. Isso está presente na cultura revolucionária cubana desde o século 19.
E Che aprendeu isso. Mas quando ele visita as fábricas e empresas do bloco soviético, descobre que não havia tal mudança. Que após 30 anos de revolução, o espírito capitalista estava presente nessas empresas. As empresas eram estatais, e se dizia que eram de todo o povo, mas o administrador seguia realizando suas funções como se fosse um capitalista, o operário não tinha realmente nenhum participação real na tomada de decisões sobre o que ia produzir ou como ia produzir. E foi isso que o levou a pensar e a repensar o sistema econômico socialista. E Che se dá a tarefa de montar na prática um sistema econômico alternativo ao soviético, e o fez com bastante êxito por quatro anos.
Igualmente, começou a teorizar a respeito, dando origem a uma polêmica econômica grande, inclusive com dois intelectuais de renome mundial, Ernest Mandel e Charles Bettelheim. Esse é o ponto principal do Che. Quando ele parte para o Congo e depois para Bolívia a combater com as armas, o Che não havia tido tempo de expor de uma forma positiva e coerente todas essas idéias. E eu me dei a tarefa, em 1969, de descobrir esse pensamento, investigar e recopilar esse material. Isso levou 15 anos. Simultaneamente, comecei a trabalhar no sistema empresarial cubano e apliquei em uma empresa estatal nacional cubana de 2.823 trabalhadores que produzia 20 milhões de dólares ao ano o sistema de Che e vi seus resultados e depois tive que obrigatoriamente estabelecer o modelo soviético e vi seus resultados também.
Pude comparar como cada um atuava sobre a consciência das pessoas e como atuava o outro. Quais os resultados econômicos e os resultados humanos. Daí surgiu "O pensamento econômico de Ernesto Che Guevara", em julho de 1984. Eu comecei a escrever em 1º de junho de 1969, no hospital onde nascia minha filha, o que demorou quase 24 horas. Na sala de espera comecei e 15 anos depois terminei. Esperei três anos até que ele fosse publicado, e quando recebi Prêmio Casa das Américas, o livro se independizou. Já são 33 edições e meio milhão de exemplares.
CMFoi desta obra que surgiu o livro traduzido para o português…
CT – Este livro que eu tive o privilégio de vocês traduzirem para o português, "O marxismo de Che e o socialismo no século XXI", é formado por algumas idéias que não pude expressar no primeiro livro e das minhas reflexões entre 1987 e 2007. O livro tinha algo como 300 e tantas páginas, mas eu disse a mim mesmo que tinha que ser capaz de transformar isso em um livro pequeno. Consegui reduzi-lo a menos de 100 páginas. Eu o coloquei gratuitamente no site Rebelión e para a minha alegria e surpresa vocês aqui no Brasil me escreveram, pediram se poderiam realizar a tradução e eu lhes disse sim, com muito gosto. O livro foi impresso em Cuba e na Bélgica, e atualmente é traduzido em inglês e francês.
Aí está a essência da essência e aí se explica porque é tão importante o pensamento de Che. O Che foi um dos poucos homens do século XX que conseguiu que forças aparentemente contraditórias o atacassem. Foi perseguido por toda máquina cultural do império norte americano e atacado por toda a burocracia do bloco soviético. Todos os pensamentos novos e audazes em essência são perseguidos. Enfim, o pensamento filosófico de Che é muito profundo e inovador, o pensamento econômico é transgressor, o pensamento sociológico é novo. Quando desapareceu o bloco soviético, lembro que diziam que Cuba não resistiria, que éramos um satélite da União Soviética. Não acreditavam que Cuba possuía uma economia própria que poderia levá-la adiante.
E mais, era bom para nós que desaparecesse a União Soviética, porque assim nos estávamos num momento de deixar a certeza na qual estávamos vivendo e alcançar nossa soberania econômica, nossa independência econômica total. O Che é a máxima expressão disso e por isso a importância que ele tem para a América Latina e para os povos africanos até hoje. O socialismo futuro não pode ser um só socialismo. Tem que haver tantos socialismos como experiências de participação real das populações, dos trabalhadores, dos sindicatos.
CMEm janeiro de 2009, comemora-se meio século da Revolução Cubana. Como o país pretende celebrar esta data?
CT – Essa comemoração já está acontecendo, agora, enquanto conversamos. E está acontecendo precisamente do melhor modo. Pensando e repensando o nosso socialismo. A maioria da população cubana não quer voltar ao capitalismo, mas não quer ficar com o socialismo que temos hoje. Há uma insatisfação incrível, gigantesca, em todos os setores da sociedade cubana. A insatisfação é tão grande que inclusive foi manifestada pela máxima direção do nosso país, o companheiro Raúl Castro. Raúl Castro disse:
“Eu não entendo porque o leite deve ser somente para as crianças até os sete anos. Por que um velho não pode ter acesso ao leite? Por que nos conformarmos com a garantia do leite para todas as crianças até os sete anos?”
E olha que no Terceiro Mundo isso é algo muito grande. Porque tu sabes que agora mesmo, desde que começamos essa entrevista, a cada segundo morrem dez crianças. E dessas crianças que morrem, nenhuma tomou leite na vida. Então, o que o povo cubano conseguiu, apesar deste bloqueio criminoso dos Estados Unidos, de que todas as crianças tenham leite gratuitamente é incrível. Mas Raúl Castro quer dizer que não pode ser apenas isso. “Temos que resolver já, de imediato, que todos tenhamos acesso ao leite”, ele disse.
Estou expressando com um exemplo concreto uma grande inconformidade com o que temos, com o nosso sistema econômico e com o nosso sistema político. Então, a melhor forma de celebrar o 50º aniversário do triunfo da Revolução Cubana de 1959 é precisamente tomar esse caráter autocrítico, esse caráter criativo que nos levou ao poder em 1959, no país em que menos se podia pensar isso. Ninguém podia pensar que se poderia tomar o poder a 150 km da costa americana, com uma base militar norte-americana em nosso território. Isso é muito importante. E é assim que o nosso povo recebe o 50º aniversário, mais que com atos grandes, mas com discussões.
Neste momento, há milhões de cubanos que estão discutindo em seus sindicatos uma nova lei salarial. Porque nós caímos em um falso igualitarismo. A gente recebia o mesmo, se trabalhasse ou não. E neste momento estamos fazendo uma reforma salarial profunda e não a estamos fazendo por decreto. Estamos discutindo com todos os trabalhadores, com os estudantes, em assembléia. Essa é a melhor forma de festejar o 50º aniversário da Revolução Cubana.

Os 50 anos da Revolução Cubana

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Agenda do NPC homenageia 20 anos da greve de Volta Redonda

Operários da CSN votam em assembléia

Durante o curso, será lançada a Agenda 2009 do NPC, com o tema a luta dos trabalhadores do Brasil. Vinte anos depois, a agenda lembra a greve de 1988 dos trabalhadores da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda</PERSONNAME />, Rio de Janeiro, e homenageia os três trabalhadores mortos pela repressão.

Willian, Valmir e Barroso: PRESENTE!

[Por Claudia Santiago] No dia 7 de novembro de 1988, os operários da CSN entraram em greve. Lutavam</PERSONNAME /> pela implantação do turno de 6 horas, reposição de salários usurpados por planos econômicos

e reintegração dos demitidos por atuação sindical. A greve envolveu a comunidade de Volta Redonda.

No dia 9 de novembro, soldados do Exército de vários quartéis do estado e do Batalhão de Choques da PM-RJ dispersaram uma manifestação em frente ao escritório central da companhia e invadiram a usina.

. Mataram William Fernandes Leite,

22 anos, com tiro de metralhadora no pescoço.

. Mataram Valmir Freitas Monteiro,

27 anos com tiro de metralhadora nas costas.

. Mataram Carlos Augusto Barroso,

19 anos, com esmagamento de crânio.

Mesmo após os assassinatos e prisões a greve continuou até o dia 23 de novembro.

Os trabalhadores conquistaram todas as suas reivindicações. No dia 1º de maio do ano seguinte foi erguido, na Praça Juarez Antunes, memorial em homenagem aos três operários.

Algumas horas depois uma bomba explode e põe por terra o memorial.

Todos os participantes do Curso Anual receberão a Agenda NPC 2009. É a nossa homenagem aos nossos mártires e um incentivo a todos nós para conservarmos e divulgarmos a “memória operária”, a memória dos trabalhadores.

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A crise e o papel da China

Escrito por Wladimir Pomar

17-Nov-2008

Diante da crise sistêmica internacional, a China enfrenta a ameaça de uma redução significativa de suas exportações, em especial para os Estados Unidos e a Europa, e uma possível redução dos investimentos estrangeiros diretos. Tudo isso pode, certamente, repercutir negativamente sobre a produção industrial chinesa.

Por outro lado, a China não corre perigo em relação à fuga de capitais de curto prazo, nem possui problemas de liquidez. Desde 2000, vinha adotando medidas no sentido de preparar-se para uma situação de crise e recessão mundial. Com 4 a 7 trilhões de dólares em poupança e reservas internacionais, suas três principais políticas consistiram em manter a estabilidade do yuan, promover empregos e aumentar o consumo doméstico.

Paralelamente, a China aumentou os esforços para elevar suas importações e para fazer com que suas corporações agilizassem investimentos no exterior. Em outras palavras, mais do que antes, a construção de um forte mercado interno tornou-se a questão central para a China preparar-se e enfrentar a quase certa crise, cujo foco deveria ser os países desenvolvidos.

Entre 2006 e 2008, ao mesmo tempo em que mantinham controle sobre as políticas monetária e fiscal, e sobre a liquidez do mercado, os chineses extinguiram suas taxas agrícolas, reduziram as taxas de crédito e de reserva bancária, ampliaram o sistema de crédito rural, decidiram universalizar os serviços públicos e passaram a investir pesadamente em infra-estrutura e meio ambiente.

Finalmente, para que não restassem dúvidas sobre suas ações e intenções, o governo chinês anunciou na última semana um pacote de 570 bilhões de dólares para investimentos na construção de moradias de baixo custo e na infra-estrutura rural; melhoria dos sistemas de proteção, captação e distribuição de água; ampliação da geração e transmissão de eletricidade; aumento dos sistemas de transporte; salto na proteção e recuperação do meio ambiente; incremento na inovação tecnológica; apoio às pequenas e médias empresas; racionalização das indústrias; e reconstrução, em novas bases, das regiões atingidas por desastres naturais, especialmente aquelas atingidas pelo terremoto de 12 de maio deste ano.

Adicionalmente, o governo chinês decidiu reformar as taxas do imposto de valor agregado, de modo a reduzir os tributos industriais em cerca de 120 bilhões de yuans, ou algo em torno de 20 bilhões de dólares.

Como esse dinheiro todo não se destina a socorrer bancos, o sistema financeiro internacional não ficou satisfeito e as bolsas continuaram voláteis, torrando boa parte do dinheiro fictício que giravam pelo mundo. Mesmo assim, não há dúvidas de que, com todas essas medidas, a China vai desempenhar um papel muito positivo para evitar que a crise sistêmica do capitalismo atinja profundamente, não apenas a ela, mas a muitos países em desenvolvimento.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Por Correio da Cidadania

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