Venezuela: 10 anos de Hugo Chávez
Paulo Daniel e Silva[1]
Há dez anos, era eleito Hugo Rafael Chávez Frías presidente da Venezuela, que depois futuramente viria a ser tornar para alguns uma grande liderança da esquerda latino-americana, para outros um militar ex-golpista com um projeto retrógrado de nação. Nesse período, houve vários processos políticos, econômicos e sociais um tanto quanto conturbados, com reforma Constitucional, plebiscitos e até golpe. Mas analisando, mais detidamente os fatos, observa-se alguns pontos interessantes e relevantes nesse período.
Qualquer análise que se faça da Venezuela, após a queda da ditadura de Marcos Peres Jiménez, compartilha a idéia de que o sistema democrático venezuelano, operado entre os anos de 1958 e 1998, tinha como base um “pacto populista de conciliação” de elites.
A expressão material e institucional desse pacto foi o chamado Pacto de Punto Fijo; que era coordenado por dois grandes partidos (AD - Ação Democrática e Copei - Comitê de Organização Política Eleitoral Independente). Arraigado na constituição de 1961, no aspecto institucional, conforme afirma o professor e politólogo da Universidade de Estudos Liberais da Universidade Metropolitana de Caracas, Anibal Romero, “o pacto reconheceu que a existência de diversos partidos e as naturais divergências entre estes podiam ser canalizadas no marco das pautas de convivência e de que existiam interesses comuns na sobrevivência do sistema”.
A partir de 1989, como em toda a América Latina, com o objetivo de dar uma resposta a crise dos anos 80 sob o comando de Carlos Andrés Pérez (AD), inicia-se um processo de privatização, ajuste fiscal e enxugamento da máquina administrativa; em um país onde o Estado e suas empresas sempre foram os principais empregadores.
É neste quadro de crise do modelo de desenvolvimento e de financiamento do Estado que se tornou eleitoralmente viável a alternativa proposta pelo Movimento V República e pela candidatura Hugo Chávez.
A arrasadora vitória eleitoral de Chávez em dezembro de 1998, que recebeu 58% dos votos válidos frente ao adversário Enrique Salas Romer Feo, trouxe importantes alterações para a política e economia venezuelana e porque não dizer, para a própria América Latina.
Quando assumiu em fevereiro de 1999, com os preços do petróleo em baixa (US$9), apatia do setor privado e a prematura hostilidade do capital e instituições internacionais, Chávez adota uma política recessiva, mas jamais desistindo dos seus planos de realizar reformas institucionais e econômicas progressistas, conforme prometera na campanha eleitoral.
Em abril de 1999 foi realizado seu prometido plebiscito, aprovando com 70% dos votos (e abstenção de 55%) a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte, que concluiria seus trabalhos em dezembro de 1999.
A nova Constituição proporcionou importantes mudanças que, diga-se de passagem, é muito similar a Constituição Brasileira de 1988 e, diferentemente da Cubana, pois garante a propriedade privada; ampliou a participação decisória do povo, ampliou o requisito de maior transparência governamental, postulou a integração econômica com a América Latina e Caribe.
Entre suas principais medidas, cabe destacar: Criou o Poder Moral, composto pelo Ministério Público, Controladoria Geral da República e Defensoria do Povo, para fiscalizar a administração pública contra atos que atentem à ética e à moral; reconheceu os direitos das comunidades indígenas (justiça, cultura, língua e território); reafirmou a reserva, ao Estado, do petróleo e de outras atividades estratégicas e proibiu o governo de vender sua participação acionária na PDVSA (Petróleos de Venezuela S/A), podendo, contudo, vender suas subsidiárias; o governo pode tomar medidas para proteger produtores locais contra competição estrangeira; reduziu jornada semanal de trabalho de 48 para 44 horas; garante aos trabalhadores pagamento final (ou indenização) quando cumprir ou quando o empresário romper o contrato de trabalho; saúde, educação e aposentadoria são garantidas a toda a população (antes, só se aposentava quem tivesse contribuído para a Previdência).
De outubro de 2001 a março de 2002 o preço do petróleo não ultrapassava US$ 20, diminuindo ainda mais as perspectivas econômicas e com isso tirando graus de liberdade da política econômica de crescimento. Chávez tentou substituir a diretoria da PDVSA, a qual era favorável à privatização do setor, disso gerando uma greve pela Confederação Venezuelana do Trabalho e fortes manifestações públicas. Isso e o freio à economia agudizaram ainda mais o conservadorismo político, que aproveitou-se – fortemente amparado pelos recursos da mídia – e tentou um golpe contra Chávez, propiciado pela rebelião de alguns líderes militares em 11 de abril, encarcerando-o (12-14 de abril) por 48 horas, e anunciando sua “renúncia”.
Segundo o Vice Ministro de Planejamento e Desenvolvimento Regional, Raúl Pacheco, ”logo após a greve na PDVSA e o golpe, ampliou-se, intensificou-se ainda mais o desenvolvimento econômico, via a criação de vários fundos, como o FONDEM (Fundo de Desenvolvimento Econômico), e, social, via a criação das misiones.” De 2001 até o final de 2007, foi investido com recursos da PDVSA, pouco mais de US$ 38 bilhões nesses programas.
Os planos sociais, conhecidos como Misiones, desenvolvem-se em amplos setores populares, e em, no mínimo, um terço de setores de classe média. Tais planos constituem-se de medidas sociais e emergenciais, dentre as quais podem-se destacar três de curto e médio prazos e uma de longo prazo.
Os principais planos de curto e médio prazos são: o programa de Saúde Bairro Adentro, dentro do qual médicos, cubanos em sua maioria, prestam consultas diárias e permanecem em estado de prontidão durante as 24 horas do dia nas regiões mais pobres do país, a população atendida representa 18,3 milhões de pessoas.
O programa Mercal, que são espécies de feiras populares, visa a garantia da segurança alimentar nas quais mais de vinte produtos da cesta básica podem ser compradas a preços subsidiados pelo governo, criou em todo território nacional mais de 16 mil estabelecimentos, beneficiando aproximadamente 16 milhões de venezuelanos e, também, com distribuição gratuita de alimentação pronta a setores populares que vivem em condições de quase indigência.
O plano que possui efeitos de longo prazo concentra-se na área de educação e abrange três frentes: a Missão Robinson, que já alfabetizou mais de 3,5 milhões de pessoas entre os anos de 2003 e 2007; a Missão Ribas, que objetiva o estímulo ao reingresso no subsistema de segundo grau de pessoas que ainda não concluíram seus estudos, beneficiando 2,2 milhões de pessoas.
E, por fim, a Missão Sucre, dirigida à educação superior, cuja realização mais concreta foi a Universidade Bolivariana, que incorporou 500 mil estudantes sem vaga no subsistema de educação superior público e privado.
De acordo com o Banco Central da Venezuela (BCV) depois da greve de finais de 2002 e início de 2003, deu-se uma recuperação substancial da economia no ano de 2004. Em comparação com o ano de 2003, o PIB cresceu 18,29%.
O Governo de Chávez avançou sensivelmente nas políticas sociais, que por sua vez, desencadeia em longo prazo, o desenvolvimento econômico, mas o ponto de inflexão ocorreu logo após a greve geral e o golpe.
Evidentemente, ainda continua uma economia extremamente dependente do petróleo, longe ainda da realização total do processo de substituição de importação.
Algo importante que está sendo construído no Governo de Hugo Chávez é a reconstrução do Estado. E que tipo de Estado? Propulsor do desenvolvimento nacional e ao mesmo tempo, via sua forte política social; uma aposta no futuro.
Será nacional desenvolvimentista ou o propalado socialismo do século XXI? Aí então, será outra história…
Fonte: Banco Central da Venezula
* PIB do ano 2008 projetado
Fonte: Instituto Nacional de Estatística (Ministério do Planejamento e Desenvolvimento)
: Instituto Nacional de Estatística (Ministério do Planejamento e Desenvolvimento)
Fonte: Instituto Nacional de Estatística (Ministério do Planejamento e Desenvolvimento)
[1] Economista, Mestre em Economia Política pela PUC-SP, membro do núcleo de estudo Estado e Políticas Públicas (PUC-SP/CNPq), esteve na Venezuela em julho/2008.