Arquivo de 29 de Novembro de 2008

Igreja critica ação de Lula para conter crise econômica

 

Documento da Igreja Católica intitulado Análise da Conjuntura, divulgado ontem em congresso internacional em Indaiatuba (SP), critica a ação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva frente à crise econômica e diz que "Lula entregará ao seu sucessor ou sucessora um país em situação tão precária quanto a que recebeu". A reportagem é da Folha de S.Paulo, 27-11-2008.

A análise aponta que "o presidente continua dando força ao agronegócio e à mineração, sem atentar para os danos ambientais", e que isso gerará "a crise ecológica" no país.

"Tudo se passa como se o aumento da produção para a exportação fosse uma solução e não um paliativo que adia a crise econômica, mas antecipa a crise ecológica, que é muito mais grave e que prejudicará mais os mais pobres do que os ricos", diz trecho do texto de dez páginas assinado por padres e teólogos assessores da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

Os religiosos indicam que a política industrial do governo "vai no sentido de favorecer a indústria automobilística, como se ela tivesse futuro".

A análise foi feita a pedido da CNBB para orientar bispos. Apesar disso, há uma aviso que diz que "este não é um documento oficial da CN

Para centrais sindicais, crise já chegou à economia

As centrais sindicais, cujos dirigentes reuniram-se ontem em Brasília, afirmam que a crise internacional já chegou à economia real brasileira. De acordo com documento divulgado ontem pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), e que servirá como base para a marcha que os sindicatos farão no fim do ano a Brasília, não bastam apenas ações para proteger bancos e empresas: o governo tem que garantir a manutenção dos empregos dos trabalhadores brasileiros.

A reportagem é de Paulo de Tarso Lyra e publicada no jornal Valor, 26-11-2008.

Lula participou de jantar ontem com os representantes das principais centrais sindicais, em encontro que havia sido pedido há tempos. Para a CUT, a maior prova que os efeitos da crise não se circunscrevem ao sistema financeiro é o anúncio de férias coletivas e a suspensão dos investimentos programados em setores importantes de nossa economia. "Portanto, é fundamental uma intervenção rápida, correta e decisiva do Estado brasileiro para impedir que estes efeitos se espraiam sobre os vários setores, porque os trabalhadores serão certamente as maiores vítimas, por meio da perda do emprego e da rápida queda do nível de renda", acredita o presidente da CUT, Artur Henrique.

Na visão da central, as ações do governo não podem ser de "socialização das perdas" do setor financeiro. Os sindicalistas apóiam-se em levantamento do Bank for International Settlements (BIS), mostrando que a riqueza em papéis denominados de "derivativos e outras inovações financeiras" é de cerca de US$ 600 trilhões, comparado a um valor de produção efetiva de riquezas, medida pelo PIB mundial, de US$ 65 trilhões.

Dentre as propostas feitas pela CUT, estão: a garantia de que não haverá demissões por conta da crise; a ratificação da Convenção 158 da OIT; a redução da jornada de trabalho para 40 horas sem redução salarial; o fim do superávit primário e a estatização das instituições financeiras com risco de solvência, dentre outros.

Menos Estado e má repartição da riqueza: as razões da crise global. Artigo de Marcio Pochmann

O caráter privado da desregulação mundial termina por gerar situações inaceitáveis, como as atuais crises alimentar e climática. A análise é do economista  Marcio Pochmann, presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em artigo no Valor, 27-11-2008.

Eis o artigo.

A crise econômico-financeira mal iniciou e já produz resultados nefastos que podem superar os de 1929. Somente nos primeiros nove meses de 2008, as bolsas de valores sofreram baixas superiores a 25%, sendo que, para alguns países, com queda acima da verificada nos Estados Unidos e na Inglaterra durante a Depressão de 1929. Parece não terem sido ainda mais profundas por força de uma ampla coordenação mundial de intervenções governamentais, com transferências significativas de recursos públicos aos setores atingidos e com maior poder de pressão. Da mesma forma, prevalece uma intensa articulação política de países, como no caso do G-20, que busca novas brechas para a reversão dos equívocos provocados pela desregulamentação neoliberal e pelos artificiais avanços da financeirização sem fundamentação na produção de riqueza.

Desde o final da década de 1970, quando se tornou dominante a visão do Estado apresentado como obstáculo ao desenvolvimento, a liberalização da economia tomou força somente comparável ao ideário governamental do século 19. Naquela época de predomínio inglês, o capitalismo operava praticamente sem a presença de grandes empresas, apoiado na diversidade de micro e pequenos empreendimentos sem capacidade de impor seus preços a partir da somatória de custos mais margem de lucro. Bem diferente do que vem ocorrendo desde o último quartel do século 20, que demarca o longo processo de esvaziamento dos Estados Unidos enquanto centro dinâmico produtivo e financeiro do mundo. Assim como também aponta para a insuficiência da governança mundial operada a partir do sistema ONU (Organizações das Nações Unidas), por meio de agências multilaterais como Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, entre outras.

De um lado, o peso dos EUA na economia mundial reduziu-se significativamente, com a transferência de parcela do seu setor produtivo para outros países decorrentes da perda de competitividade das empresas e das políticas de enfraquecimento do Estado e do sistema de atenção à produção e emprego. Mesmo assim, os ideólogos do neoliberalismo continuaram a estimular a crença de que seria possível viver como país eternamente super rico num quadro geral de empobrecimento relativo, com consumo superior a 20% da capacidade anual de produção de bens e serviços e o endividamento 3,5 vezes maior que a renda nacional.

O próprio estopim da crise financeira terminou indicando o quanto a opção pela redução do Estado se mostrou inadequada para substituir as políticas sociais por forças exclusivas do mercado. No caso da habitação para os segmentos de baixa renda, por exemplo, o esvaziamento de políticas sociais específicas estimulou o setor privado americano a operar irresponsavelmente, emprestando em longo prazo a quem tinha oportunidade negada de acesso a empregos e remunerações decentes. A mesma situação se reproduziu às famílias levadas a acreditarem exclusivamente nos fundos previdenciários privatizados frente ao atual registro de quedas significativas no valor patrimonial, capaz de inviabilizar benefícios adequados de pensões e aposentadorias.

De outro lado, o papel quase simbólico atual das agências multilaterais construídas no final da Segunda Guerra Mundial, quando os países eram maiores, em geral, que suas empresas. Nos dias de hoje, as corporações transnacionais tornaram-se superiores ao produto anual de países, sendo o mundo, por isso, governado pelo poder privado de não mais do que 500 grandes grupos econômicos. As três maiores delas possuem faturamento anual superior ao PIB do Brasil, considerado o décimo mais rico do planeta, enquanto o faturamento das cinqüenta grandes corporações do mundo supera o PIB de mais de uma centena de países. Se consideradas somente as famílias enriquecidas pelo processo disfuncional de governança pública do mundo, observa-se que apenas um reduzidíssimo conjunto de menos de 1,2 mil bilionários chega a se apropriar de renda equivalente a da metade da população adulta do planeta.

O caráter privado da desregulação mundial termina por gerar situações inaceitáveis, como as atuais crises alimentar e climática. Com o abandono das políticas de segurança alimentar desenvolvidas no segundo após-guerra, que geralmente buscavam operar estoques reguladores e garantia de renda ao campo, as grandes corporações transnacionais do agronegócio sentiram-se estimuladas a estabelecerem preços inicialmente inferiores aos dos produtores tradicionais. A queda nos preços alimentares durou pouco, porém se mostrou suficiente para que houvesse o maior empobrecimento, quando não a falência dos pequenos agricultores, bem como o aprofundamento da dependência externa de tecnologia (defensivos e fertilizantes agrícolas). Nos dias de hoje, o comportamento dos preços dos alimentos pouco atende aos produtores, mas fundamentalmente às grandes corporações mundiais.

Da mesma forma, o mundo continua a insistir na continuidade do modelo de produção e consumo assentado na profunda degradação ambiental. A consciência de sua insustentabilidade não vem acompanhada da produção e difusão de tecnologias limpas e renováveis, justamente porque isso implica rever a hierarquia do mundo organizada a partir da desregulação operado pelas grandes corporações transnacionais.

Resumidamente, a contenção do papel do Estado por quase três décadas foi acompanhado por inquestionável processo de concentração brutal da renda e riqueza mundial. A liberalização das economias enfraqueceu o poder dos trabalhadores na barganha pela maior participação dos salários na renda dos países. Em geral, a parcela salarial dos trabalhadores caiu quase 20 pontos percentuais no PIB, de mais de 70% para um pouco acima dos 50% nos países avançados nos últimos trinta anos.

Nos países não desenvolvidos, a queda também se generalizou de acima dos 50% para abaixo dos 40% do PIB desde o final da década de 1970. Com o esvaziamento do Estado, as políticas sociais foram abandonando gradualmente a perspectiva da universalização para aderirem à lógica da focalização, tão defendidas até pouco tempo por agencias multilaterais como Bird e FMI. Percebe-se, hoje, como se mostraram incapazes de sustentar o padrão de bem estar social compatível com o grau de avanço econômico dos países. O resultado não poderia ser outro: desigualdade e o quadro geral de relativa regressão socioeconômica.

Mesmo que apresente característica distinta da Depressão de 1929, a crise econômico-financeira atual tende a demandar remédios muito parecidos. Ou seja, o maior fortalecimento do papel do Estado regulador em novas bases, bem como a desconcentração da renda e riqueza no mundo. Tudo isso, no entanto, não deveria ser estabelecido exclusivamente no âmbito nacional, mas, crescentemente no plano supranacional, por ser capaz de por em marcha uma nova ordem mundial comprometida com prosperidade compatível tanto com a justiça social como a sustentabilidade ambiental do planeta.

É hora de construir o planeta social’. Entrevista com Zygmunt Bauman

“O Estado social acabou. É hora de construir o ‘Planeta social’”. Só assim, explica Zygmunt Bauman, se poderá sair da crise global que o mundo contemporâneo está vivendo. A política deve ter a força de reinventar-se em escala planetária para enfrentar a emergência ambiental ou a discrepância crescente entre ricos e pobres. Senão, está condenada à marginalidade em uma dimensão local, com instrumentos obsoletos adaptados a um mundo que não existe mais. O inventor da “sociedade líquida” não acredita em uma capacidade de auto-reforma da política. “Melhor construir uma opinião pública global e confiar-se a organizações cosmopolitas, extra-territoriais e não-governativas”.

A reportagem é de Alessandro Lanni, publicada no jornal La Repubblica, 21-11-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os nossos políticos conseguirão mudar de paradigma, passando do local ao global?

Eu não contaria muito com os governos – de nenhum país, pequeno ou grande que seja – e menos ainda com suas tentativas de colaboração, que terminam freqüentemente em uma poesia de nobres intenções mais do que em uma prosa de concreta realidade. Os poderes que decidem sobre a qualidade da vida humana e sobre o futuro do planeta são hoje globais e, portanto, do ponto de vista dos governos, são extraterritoriais e isentos da sua soberania local. Até que não elevemos a política aos níveis já alcançados pelo poder, as probabilidades de para os desenvolvimentos catastróficos a que estamos conduzindo a nossa vida sobre o planeta são, pelo menos, escassas.

Portanto, de quais instrumentos alternativos a política deve dotar-se para enfrentar as grandes emergências do novo mundo global?

O objetivo de parar as desigualdades globais que tendem a se tornar rapidamente mais profundas não está entre as prioridades das agendas políticas dos Estados-nações mais potentes, apesar de tantas promessas feitas a respeito. Contemporaneamente, faltam ainda uma “agenda política planetária” e instituições políticas globais eficazes e dotadas de recursos que lhes permitam perseguir tais objetivos tornando-os operativos. As prerrogativas territoriais dos Estados-nações obstaculizam a criação de tais agendas e de tais instituições e tornam ainda mais difícil a tentativa de mitigar o processo de polarização.

Os Estados sozinhos não podem fazer isso. Os indivíduos cidadãos têm alguma possibilidade a mais para frear os desconfortos que são anunciados, para organizar uma ação coletiva?

Aqui intervém aquele fator que foi amplamente descrito com o termo “individualização”. Com a progressiva queda da condição de defesa mantida contra os medos existenciais e com o estar menos de acordo com a autodefesa comum, como por exemplo os sindicatos ou outros instrumentos de contratação coletiva, despotencializados pela competição imposta pelo mercado, espera-se que os indivíduos encontrem e coloquem em prática soluções individuais a problemas produzidos pela sociedade no seu complexo. Mas fazer tudo isso sozinhos e com instrumentos necessariamente  limitados é manifestamente inadequado à tarefa prefixada.

Também as mudanças climáticas estão entre os grandes medos e inseguranças que o homem ocidental deve enfrentar.

A insegurança deriva da diferença entre a nossa interdependência planetária geral e a natureza meramente local, ao nosso alcance, dos nossos instrumentos de ação concertada e de controle. Os problemas mais terríveis e assustadores que nos atormentam e que nos levam a provar uma sensação de insegurança e incerteza com relação a tudo o que nos circunda têm origem no espaço global que está além do alcance de qualquer instituição política ora existente. No entanto, esses problemas são descarregados sobre entidades locais – cidades, províncias e Estados –, onde se pretende que sejam resolvidos com aqueles meios disponíveis em nível local: uma tarefa praticamente impossível.

Entrentanto, muitos sustentam que algumas questões relativas à poluição, à produção de energia, aos resíduos, podem ser enfrentados em nível “micro”, de cidade, de governo local.

A poluição atmosférica e a falta de água potável são questões que têm origem no espaço global, mas depois são as instituições locais que devem geri-las. O mesmo princípio se aplica ao problema das migrações, do tráfico de drogas e de armas, do terrorismo, da criminalidade organizada, da incontrolável mobilidade dos capitais, da instabilidade e da flexibilidade do mercado de trabalho, da alta dos preços dos bens de consumo e assim por diante. A esfera política local é sobrecarregada de tarefas e não é suficientemente forte ou dotada de recursos para resolvê-las. Só instituições políticas e jurídicas internacionais – até agora ausentes – poderão reter as forças planetárias atualmente desreguladas e alcançar as raízes da insegurança global.

É um governo planetário que irá salvar o mundo?

No estado de desenvolvimento a que a globalização dos capitais e dos bens de consumo já alcançou, não existe nenhum governo que possa permitir-se, individualmente ou em relação com outros, acertar as contas – e sem acertar as contas é impensável que se possa efetivamente colocar em prática as medidas típicas do Estado social, com o objetivo de reduzir à raiz a pobreza e prevenir que a desigualdade continue a crescer livremente. Além disso, é difícil imaginar governos capazes de impor limites sobre o consumo e aumentar as taxas locais a níveis necessários para que o Estado possa continuar a oferecer serviços sociais com a mesma intensidade ou com maior vigor.

A globalização apaga também o Estado social. Professor Bauman, o senhor não tem esperança em um pouco de justiça e de igualdade no mundo do século XXI?

Não existe uma maneira adequada por meio da qual um só ou mais Estados territoriais juntos possam sair da lógica de interdependência da humanidade. O Estado social não constitui mais uma alternativa válida. Somente um “Planeta social” poderia recuperar as funções que, há não muito tempo, o Estado buscava desenvolver, com destinos diferentes. Acredito que o que pode ser capaz de se dirigir por meio desse imaginário “Planeta social” não são os Estados territoriais e soberanos, mas principalmente as organizações e as associações extra-territoriais, cosmopolitas e não-governativas, que alcançam de maneira direta quem se encontra em uma condição de necessidade, sobrevoando as competências dos governos locais e soberanos e impedindo-os de interferir.

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Número global de desempregados pode passar de 200 milhões

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) fez uma primeira estimativa do impacto da crise sobre a vida cotidiana das pessoas em todos os níveis da sociedade. O número global de desempregados poderá aumentar em 20 milhões, daqui ao fim de 2009 – ultrapassando o número de 200 milhões de desempregados no mundo pela primeira vez na História.

Juan Somavia*

A atual crise atingiu duramente o setor financeiro. Quais as conseqüências para as pessoas e para a economia real? Desconhecemos a gravidade desta crise e sua duração. Mas sabemos que se não agirmos de maneira decisiva as conseqüências para milhões de pessoas e suas condições de vida e de trabalho serão profundas.
Diante da urgência, as propostas se destinarm a uma melhor regulação financeira e a um mecanismo de segurança global mais eficaz. Mas devemos nos projetar para além dos mercados financeiros. A crise não se sentiu apenas em Wall Street, mas nas ruas do mundo inteiro.
O mundo necessita de um plano de resgate econômico para todos aqueles e aquelas que trabalham, investem e asseguram o funcionamento da economia real. Com regras e políticas favoráveis ao trabalho decente e às empresas produtivas. Com o restabelecimento do liame entre produtividade e salários, entre crescimento e desenvolvimento. As pessoas devem reencontrar confiança numa economia que também funciona para elas. Essa mensagem é urgente.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) fez uma primeira estimativa do impacto da crise sobre a vida cotidiana das pessoas em todos os níveis da sociedade. O número global de desempregados poderá aumentar em 20 milhões, daqui ao fim de 2009 – ultrapassando o número de 200 milhões de desempegados no mundo pela primeira vez na História. As pessoas que trabalham na construção, na indústria automobilística, no turismo, na finança, nos serviços e no setor imobiliário serão as primeiras atingidas.
Além disso, o número de pessoas trabalhando e vivendo com menos de um dólar por dia poderá aumentar em 40 milhões e o de pessoas vivendo com 2 dólares por dia em 100 milhões. Por mais sombrias que sejam essas previsões, é temeroso pensar que se trata apenas de uma subestimação, caso os efeitos do desaquecimento econômico e da recessão que se aventam não forem rapidamente controlados.
Devemos concentrar nossa ação sobre as pessoas, as empresas, a economia real. Quatro eixos devem ser observados. O primeiro, restaurar a circulação do crédito. As medidas de urgência já foram tomadas ou estão sendo preparadas. Segundo, dar sustentação aos mais vulneráveis. Uma série de medidas estão ao alcance das mãos, da proteção às aposentadorias ao seguro desemprego, passando pela ajuda às PME (Pequenas e Médias Empresas), que persevera sendo o primeiro nicho de emprego. Terceiro, políticas públicas eficazes e uma regulação inteligente, que recompense o trabalho e a empresa. Nós estamos sofrendo os espamos de um sistema financeiro que perdeu o rumo no plano ético.
Devemos retomar a função primeira e legítima da finança, que é promover a economia real, emprestar aos empreendedores que investem, inovam, criam empregos, produzem. Retomemos o papel primeiro dos mercados financeiros: lubrificar a engrenagem da economia real.
Enfim, e isso é crucial, devemos relevar os desafios fundamentais subjacentes. Muito antes da crise financeira atual, nós já estávamos em crise. Uma crise marcada por uma pobreza maciça em escala mundial, de desigualdades sociais crescentes, de uma informalidade e de um trabalho precário em pleno avanço. Uma crise da globalização que trouxe benefícios consideráveis, mas que, para muitos, é desequilibrada, injusta e não-durável.
É urgente reencontrar um equilíbrio. Este passa pela sustentação das pessoas e da produção. É preciso salvar a economia real. Lembremo-nos de que as pessoas julgam sua vida e seu amanhã em função do seu percurso no trabalho. Mais do que nunca, devemos lutar para que as políticas públicas e os serviços sociais necessários estejam à altura da principal preocupação das pessoas: uma oportunidade justa de ter um trabalho decente.
Para manter abertas as economias e as sociedades, as organizações internacionais responsáveis devem se reunir em torno de um quadro multilateral para uma mundialização justa e duradoura. As negociações comerciais estão em pane; os mercados financeiros vacilam e estão à beira do colapso; a mudança climática está ocorrendo; toda refundação deverá encontrar um método para integrar as políticas financeira e econômica, social e ambiental no âmbito global. A crise das subprimes não será resolvida com políticas tímidas. O tempo é de audácia, de pensamento e ação inovadores, para responder aos imensos desafios que estão postos diante de nós.
* Juan Somavia é diretor geral da OIT (artigo publicado originalmente no jornal Le Monde, em 27 de outubro de 2008)
Tradução: Katarina Peixoto

JUAN SOMAVIA
Número global de desempregados pode passar de 200 milhões
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) fez uma primeira estimativa do impacto da crise sobre a vida cotidiana das pessoas em todos os níveis da sociedade. O número global de desempregados poderá aumentar em 20 milhões, daqui ao fim de 2009 – ultrapassando o número de 200 milhões de desempregados no mundo pela primeira vez
na História.

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"Precisamos assentar nosso crescimento na poupança interna e defender nossos recursos"

ENTREVISTA - ALDO FERRER

"Precisamos assentar nosso crescimento na poupança interna e defender nossos recursos"

Ex-ministro, diretor da cátedra de Estratégia Econômica Internacional da Universidade de Buenos Aires e uma referência intelectual do pensamento econômico latino-americano, Aldo Ferrer destaca, em entrevista à Carta Maior, as dificuldades que a crise atual impõe à luta pelo desenvolvimento regional. E rechaça o fatalismo econômico diante da crise. "Nossos países não têm possibilidade alguma de mudar o mundo, mas temos a responsabilidade intransferível de decidir o lugar que ocuparemos nele".

Redação - Carta Maior

“Nossos países não têm possibilidade alguma de mudar o mundo; mas têm a responsabilidade intransferível de definir como queremos figurar nele.”
Aldo Ferrer é uma espécie de decano dos economistas argentinos. Assim como Celso Furtado o foi no Brasil, ele carrega uma vasta experiência na luta contra o subdesenvolvimento, tanto na Argentina como na América Latina. Ferrer é diretor da cátedra de Estratégia Econômica Internacional da Universidade de Buenos Aires e um das referências intelectuais do pensamento econômico latino-americano. Durante o governo Nestor Kirchner, foi um dos conselheiros próximos da Casa Rosada, através do Grupo Fênix, nascido na academia, com quem o então Presidente mantinha diálogos freqüentes. Ferrer já foi secretário de Economia da Província de Buenos Aires; ministro de Obras Públicas e ministro do Trabalho na Argentina.
Em entrevista a Carta Maior, ele não sublima as dificuldades que a crise atual impõe à luta pelo desenvolvimento regional. Mas ao mesmo tempo rechaça o fatalismo, esse sentimento tão disseminado hoje no Brasil, e também em outros países, por círculos interessados em abreviar a hegemonia de governos e políticas progressistas na região. “Assim como é hora de Keynes no hemisfério Norte”, rebate Ferrer, “é hora de se voltar a Prebisch e a Celso Furtado na América Latina. É a hora do Estado”.
Ferrer é rigoroso ao cobrar providências internas preliminares dos governos para que se possa, a partir daí - e somente a partir daí, acentua, ordenar estratégias de combate à crise no escopo da integração sul-americana.
Uma das lições do crash , no seu entender, é a reafirmação desse princípio. Manter rigoroso controle das contas externas para preservar o comando dos sistemas nacionais. Sem isso não há muito o que fazer, parece ser a mensagem desse experiente economista, conhecedor profundo das experiências fugazes e funestas de crescimento baseadas no endividamento externo e na valorização artificial da moeda. O governo de Menen na Argentina –“relações carnais com os EUA”—equiparou o peso local ao dólar; destruiu a industrialização do país; quebrou as cadeias produtivas com importações maciças e jogou até a classe média argentina na miséria.
Mas não é preciso retroagir a Cavallo na Argentina, ou ao Real forte no Brasil de FHC ; no ciclo recente de elevada liquidez internacional, cuja reversão agora se assiste com a fuga de dólares e resgates maciços de investimentos especulativos nos mercados locais, praticamente todas as economias sul-americanas reeditaram em maior ou menor grau o erro de permitir a sobrevalorização da moeda.
Falar em equilíbrio cambial e em superávit nas contas externas é simples. A prática, porém, impõe a delicada tarefa de uma administração fiscal discricionária , que não significa apenas prioridade para investimentos e menor espaço ao gasto corrente, mas também seletividade nas despesas financeiras do Estado. Esse, sem dúvida, um requisito difícil quando o pagamento da dívida pública, como no caso brasileiro, por exemplo, consome R$ 160 bilhões em juros por ano; quase dez vezes mais que os R$ 17 bilhões a serem investidos pelo PAC em 2008.
Tais cuidados com o equilíbrio macroeconômico –nem valorizar o câmbio, nem calibrar juros elevados—devem ser associados na visão de Ferrer à disciplina sobre os fluxos de capitais para não semear déficits em contas correntes na reversão do ciclo – velho pêndulo, algoz da soberania e do crescimento na região. “Nossa possibilidade de expandir a demanda efetiva via déficit fiscal é limitada por isso”, explica o decanos dos desenvolvimentistas argentinos e reforça: “temos que ter superávit nas contas externas”.
Nesse sentido, o professor da Universidade de Buenos Aires entende que a principal alavanca keynesiana do mundo neste momento deve ser acionada pelo déficit comercial norte-americano. Como detentores da moeda de reserva, cuja emissão está acima do Bem e do Mal definido pelas equações de equilíbrio macroeconômico, os EUA podem –e devem, no seu entender— gastar mais do que a receita obtida. Seu déficit fiscal/comercial é a poderosa correia de transmissão que pode, como já vinha fazendo, adicionar fôlego econômico ao resto do mundo.
Aldo Ferrer não minimiza a extensão econômica e, sobretudo, a profundidade ideológica do colapso que começou na esfera das finanças nos países ricos e atropela agora, pesadamente, a atividade produtiva em todas as latitudes do planeta, atingindo a América do Sul sobretudo pelo canal da retração da demanda por commodities, mas também pela fuga de capitais combinada com a redução dos fluxos de investimento financeiro e produtivo. Ferrer classifica esse momento como uma mudança de época. Mais que isso, avalia que se abre um vazio no pensamento hegemônico irradiado pelos países centrais “a exemplo do que ocorreu na crise dos anos 30. Foi então que surgiu um ambiente de autonomia intelectual na América Latina e economistas como seu conterrâneo Raul Prebisch e Celso Furtado –que trabalharam juntos na CEPAL— puderam pensar e propor soluções soberanas para impasses seculares do desenvolvimento na periferia do capitalismo.
O professor da Universidade de Buenos Aires não alimenta ilusões quanto a influência desses mesmos países na definição da nova arquitetura financeira que emergirá da crise. “Podemos dar bons conselhos. Nada muito além disso”, minimiza com sólida convicção histórica. Não se conclua daí qualquer endosso à resignação dos condenados da terra. Ao contrário. O realismo de Ferrer destina-se a valorizar o peso das decisões políticas internas às nações. Decisões de Estado que demandam estadistas.
Esse seria, no seu entender, o verdadeiro trunfo e a principal ferramenta para resistir aos rigores da tormenta mundial. “Nossos países não têm possibilidade alguma de mudar o mundo; mas temos a responsabilidade intransferível de definir como queremos figurar nele”. A frase de Ferrer remete à forma de pensar, e à elegância de se exprimir, dos grandes economistas da escola latino-americana que ousaram rechaçar o subdesenvolvimento como fatalidade; ou como uma etapa inescapável do processo de desenvolvimento. O que ele e tantos outros demonstraram no plano das idéias, e sobretudo na prática, ao provar que suas idéias faziam parte do mundo através da ação, é que o subdesenvolvimento não é um defeito do percurso. Antes, é a forma como se expressa o capitalismo na periferia do sistema mundial sempre que entregue ao arbítrio dos chamados livres mercados. Daí a proeminência que a ação das políticas de Estado assume na matriz desse pensamento, ontem, como hoje novamente.
Em defesa desse ponto de vista, Ferrer recorre ao exemplo argentino, que conhece tão bem. A menção no entanto poderia perfeitamente ser entendida como um recado à política econômica seguida atualmente no Brasil. “Todos os problemas argentinos atuais são de fabricação interna e não resultam da crise internacional”, dispara. Ele admite que a contração da demanda e dos preços das commodities - que desabam nas bolsas mundiais - poderá gerar constrangimentos. Mas há questões prevalecentes, insiste. São elas que magnetizam sua atenção porque sobre elas a ação política, a ação pública, as políticas de Estado têm relevância; e estas dependem de decisões nacionais. “O maior risco para a atividade econômica e o emprego na Argentina hoje”, adverte como se comentasse o país vizinho, “é que o governo siga uma receita de dólar barato e dinheiro( juro) caro”.
A seguir, alguns trechos da entrevista de Aldo Ferrer a Carta Maior:
O papel da integração sul-americana na resistência à crise
O avanço da integração no MERCOSUL e a ampliação das relações políticas e diplomáticas na UNASUL abrem a possibilidade de ações conjuntas frente à crise. Sem dúvida, porém, essa possibilidade é limitada pelas assimetrias de escala, bem como entre níveis relativos de desenvolvimento, ademais, de contextos e políticas macro-econômicas distintas. O fato é que cada país tem a responsabilidade primeira de responder à turbulência externa.
Na medida em que se conseguir colocar a casa em ordem, teremos maior capacidade de criar espaços monetários para uso das moedas locais, bem como instalar clearings (caixas de compensação para ajuste de déficits, impedindo desequilíbrios que inviabilizam o comércio regional), incluindo-se a criação de fundos de contingência e um banco de desenvolvimento regional (do qual Brasil e Argentina podem se beneficiar menos, mas que será muito importante para outros, como Uruguai e Paraguai).
Evitar que a crise promova uma guerra comercial no MERCOSUL
A medida mais urgente de coordenação nesse momento é evitar que o impacto da contração dos mercados mundiais sobre cada país sul-americano seja transferido aos demais. Esse contágio provocaria uma espiral regressiva nas relações comerciais dentro do bloco. É preciso evitar o protecionismo intra-regional; ao mesmo tempo, é imperioso administrar as peculiaridades que afetam o comércio em cada país, acionando a mediação do Mecanismo de Adaptação Competitiva;
Prerrogativa política: definir o espaço a ocupar no mundo pós-crise
Nossos países não têm possibilidade alguma de mudar o mundo, mas temos a responsabilidade intransferível de decidir o lugar que ocuparemos nele. Historicamente não escolhemos bem. Por isso, dois séculos depois da independência continuamos a ser economias periféricas e subdesenvolvidas.
Temos que viver com o que temos; assentar nosso crescimento na poupança interna; defender nossos recursos; consolidar equilíbrios macro-econômicos; repartir melhor a renda e a riqueza; transformar a estrutura produtiva; ampliar o grau de educação e promover a integração das estruturas produtivas nacionais. Essa empresa é, em primeiro lugar, um desafio que cada país deve assumir com seu povo.
Para que possamos fazer políticas regionais, os Estados membros têm que ter capacidade de implementar políticas nacionais. É assim que a integração do MERCOSUL e a UNSAUL poderá fortalecer as esferas nacionais abrindo novas frentes comuns de luta no plano internacional. Hoje, podemos dar bons conselhos, nada muito além disso, no que diz respeito à nova arquitetura financeira mundial.
A Argentina resiste mas não pode incorrer no erro de valorizar o juro e a moeda
A Argentina resiste bem à crise financeira internacional porque o país se financia com poupança interna, sem acesso ao crédito internacional; não tem sofrido bolhas especulativas e seu reduzido setor financeiro está sólido e líquido.
O BC argentino tem bom nível de reservas, cerca de US$ 50 bilhões. Todos os problemas argentinos são de fabricação interna, não resultam da crise internacional. Entre eles, o conflito com os ruralistas; a polêmica sobre o regime de previdência, a inflação e a valorização cambial. O impacto da queda nos preços das commodities sobre o balanço de pagamentos está por vir ainda. Mas o maior risco atualmente, para a atividade econômica e o emprego é que o Governo – ao contrário das políticas que permitiram a recuperação nacional— siga agora uma receita de dólar barato e juro alto.
Leia a seguir (em espanhol) excertos do artigo enviado por Aldo Ferrer para a Carta Maior (publicaremos o artigo na íntegra em português):
I) “(a crise abriu) un vacío en el pensamiento hegemónico de los centros, como sucedió desde la crisis de los años treinta hasta principios de la década de 1970.
Fue en ese escenario que surgió, en América Latina, un pensamiento alternativo liderado, primero, desde la Argentina y, luego, desde la CEPAL, por Raúl Prebisch. Ahora, en el marco de la crisis mundial del 2008 y de los pobres resultados del neoliberalismo en nuestros propíos países, volvemos a confrontarnos con el desafío de analizar la realidad desde nuestras propias perspectivas y diseñar estrategias viables de desarrollo, nacional y regional, dentro del orden global”
II) En América Latina estas políticas, definidas como el “Consenso de Washington”, dieron lugar a estrategias que, en la Argentina, culminaron con el endeudamiento hasta el límite de la insolvencia y la extranjerización del control de los principales sectores y empresas de la economía nacional. Los tipos de cambio sobrevaluados, prevalecientes en varios países, en el transcurso de la década de 1990, debilitó la competitividad de las economías y atrajo capitales especulativos, en un escenario de abundancia del financiamiento internacional”.
III) “Las políticas “neoliberales” fueron propicias para la contínua expansión de las corrientes de capitales especulativos(…)Finalmente, la crisis de las hipotecas subprime arrastro a la totalidad de los mercados financieros, incluso a las operaciones interbancarias y al crédito. Entre principios de octubre de 2007 y 2008, la caída de los valores en todos los mercados de capitales del mundo, supero los 27 trilhões de dólares, equivalentes a casi dos veces el PBI de los Estados Unidos y el 40% del mundial”
IV) “En diversos momentos, la especulación globalizada dio lugar al estallido de crisis en los mercados, (…) Sin embargo, en ningún caso, hasta el descalabro del 2008, la crisis comprometió a la totalidad de las plazas de los países centrales (inclusive las operaciones bancarias y el crédito de consumo e inversión) y al mercado financiero internacional ni afecto, como ahora, a la economía real.
V) Las supuestas “expectativas racionales” de los mercados que, en la realidad, son la expresión extrema de la especulación irracional, será rescatada por las “decisiones racionales” de los Estados de las mayores economías industriales.
VI) La magnitud de la crisis del 2008 es solo comparable con la de la década de 1930. Pero las condiciones de la economía mundial han cambiado tanto que la comparación se agota en la magnitud de las caídas de las cotizaciones en mundo del dinero. En aquel entonces los productos primarios representaban 2/3 del comercio mundial y existía un bajo nivel de interdependencia de las mayores economías. Prevalecían, también, las fracturas políticas en el escenario europeo, la baja presencia del gasto publico en la demanda agregada, el predominio del paradigma neoclásico y la emergencia de los Estados Unidos como nueva potencia hegemónica incapaz de ordenar el sistema, como lo había logrado Gran Bretaña hasta la Primera Guerra Mundial.
VII) Estas realidades determinaron las políticas de “sálvese quien pueda” y el consecuente derrumbe de las reglas del orden mundial, incluyendo el patrón oro y el régimen multilateral de comercio y pagos. Finalmente, la crisis financiera arrastró a la economía real y provocó la mayor debacle de la historia del capitalismo.
VIII) Nada de esto es posible hoy en día. El comercio internacional y la cadenas de valor de las principales economías industriales están integradas en un mercado global e interdependiente. Las manufacturas de las industrias de la frontera tecnológica abarcan proporciones crecientes de las transacciones internacionales, las cuales, en una proporción elevada (alrededor del 25% del comercio mundial), son comercio intrafirma al interior de las corporaciones transnacionales.
IX) Aún en el periodo de la hegemonía neoliberal y antes de la reciente intervención masiva, el estado en los países centrales, generaba alrededor del 40% de la demanda agregada. A su vez, las plazas financieras están profundamente integradas como vuelve a revelarlo el alcance global del actual tsunami del mundo del dinero.
X) Por último, los mismos países que impulsaron la restauración neoliberal y la desregulación de la especulación financiera, bajo el liderazgo de Reagan y Thatcher, están encabezando la intervención masiva para rescatar al sistema de sus propios problemas-
XI) El déficit de los pagos internacionales de la economía norteamericana instaló una función keynesiana a nivel global. Algunas de las economías más dinámicas, como fue la del Japón en su fase de expansión y, actualmente, China, tienen una capacidad de generación de excedentes y de ahorro que no es totalmente absorbida por la inversión, aunque supere, como en China, el 30% del PBI.
XII) Pasada la extraordinaria crisis del 2008, se verá que siguen en pie los mismos problemas anteriores al tsunami financiero actual. Vale decir, las asimetrías en la capacidad de los países de de gestionar el conocimiento y crecer, las agresiones al medio ambiente, las amenazas a la paz y la seguridad internacionales
XIII) los países centrales saquen conclusiones de estos hechos y observen que, con esfuerzos muchísimos menores que los empleados para rescatar al sistema de sus propios problemas, sería posible poner en marcha programas de cooperación internacional. Los mismos serían decisivos para acabar, en plazos históricos breves, con las calamidades que afectan a centenares de millones de seres humanos y, en ese contexto, contribuir a erradicar la violencia, el narcotráfico y otros azotes observables en el mundo contemporáneo. Permitirían, también, transferir la actual función keynesiana del déficit de los pagos internacionales de los Estados Unidos a los programas de cooperación para el desarrollo económico y humano a escala planetaria.
XIV)¿Qué enseñanzas nos dejan los acontecimientos actuales a países en desarrollo, como Argentina y los hermanos de América Latina? (…)Así como Keynes vuelve al Norte, aquí, en el Sur latinoamericano, vuelven Raúl Prebisch, Celso Furtado y los otros fundadores del estructuralismo latinoamericano, como referencia esencial para enfrentar con éxito los desafíos que plantea la emergencia de un nuevo orden mundial

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Walt Whitman, Marx e a revolução de 1848

Há mais que um paralelismo histórico entre o poema “Resurgemus”, o primeiro publicado por Walt Whitman, que publicamos a seguir na tradução de Rodrigo Garcia Lopes e o “Manifesto Comunista” de Marx e Engels. Marx tinha, então, 30 anos e aquele que, segundo Ezra Pound, “é para a América o que Dante é para a Itália”, 29 anos. Ambas as peças, o poema e o manifesto, têm inspiração direta nas revoluções européias de 1848, que têm como epicentro a França.
Walt Whitman está, então, em New Orleans, cidade sulista povoada de refugiados europeus e que pulsa forte com as notícias do além-mar. “Todo o mundo está em comoção”, escreve Whitman: “em toda parte o povo se levantou contra as tiranias que o oprimem”. O poeta americano, sintonizado com o crescente movimento abolicionista, chega a editar um jornal (“Freeman”, do Brooklin em New York) e chega a participar como delegado na histórica convenção nacional do “Solo Livre”, quando 30 mil delegados de todo o país celebram o movimento que lutava pela aprovação de uma lei de abolição da escravidão em todo o território novo anexado.
Marx, em 1848, exilado na Bélgica, tem a sua entrada agora permitida na França revolucionária e, em abril, desloca-se para Colônia, na Alemanha, onde em junho, com Engels, prepara a criação de um jornal diário, a “Nova Gazeta Renana”, “órgão da democracia”.
Paul Zweig, autor do belíssimo “Walt Whitman. A formação do poeta” (Jorge Zahar Editor, 1988), mostra como “o estilhaçamento do sonho democrático trouxe mudanças ao pensamento de Whitman, que foram definitivas e que, em última instância, fizeram dele um poeta.” Marx termina o ano de 1848, com o luto das revoluções frustradas, afirmando que “na Alemanha uma revolução puramente burguesa (…) é impossível” e que “só é possível a contra-revolução absolutista feudal ou a revolução social-republicana”.
Para Marx, os anos 50 do século XIX seriam anos penosos de construção da sua obra magna, “O Capital”. Para Whitman, seriam os anos mais fecundos da sua vida, resultando na criação de “Folhas da relva”, a mais alta utopia cósmica, erótica e democrática da poesia moderna.

Resurgemus
(Walt Whitman)

De repente de seu covil urinado e sonolento, covil de escravos
A Europa desperta feito um relâmpago… meio surpresa consigo,
Pés sobre cinzas e farrapos… Suas mãos esganando a garganta dos reis.

Ah, fé e esperança! Ah, doloridos fechos de vidas! Tantos doentes de coração!
Concentrem-se neste hoje, e se refaçam.

E vocês, pagos para corromper o Povo… prestem atenção, mentirosos:
Não foi por agonias infinitas, assassinatos, luxúrias,
Para a corte roubar em suas miríades de formas mesquinhas,
Parasitando os salários de fome dos pobres;
Promessas demais foram juradas pelos lábios dos reis,
E quebradas, por isso motivo de riso

E que estando no poder, não foi por isso que ressoamos golpes de vingança pessoal
…ou rolam as cabeças dos nobres;
O Povo tinha nojo da ferocidade dos reis.

Mas a doçura do perdão destilou uma destruição amarga, e os regentes assustados retornaram:
Cada um paramentado com seu séqüito… carrasco, padre e coletor de impostos… soldado, advogado, carcereiro e delator.

Por trás de tudo, repare, tem uma Forma,
Vaga como a noite, interminavelmente drapejada, testa e forma em dobras Escarlates,
Com face e olhos que ninguém pode ver,
Fora de seu manto apenas isso… os mantos mesmos, vermelhos, erguidos
pelo braço,
Um dedo aponta longe para cima, como cabeça de serpente aparecendo.

Enquanto isso cadáveres jazem em túmulos recentes… cadáveres
ensaguentados de jovens;
A corda da forca baqueia com força… as balas dos príncipes voam… os
Poderosos gargalham,
E todas essas coisas geram frutos… e eles são bons.

Cadáveres de jovens,
Esses mártires pendurados nas forcas… com os corações varados de Chumbo,
Frios e imóveis parecem… viver em algum lugar com um vitalidade
imassacrável.

Eles vivem em outros jovens, oh, reis,
Vivem em seus irmãos, de novo prontos pra desafiar vocês:
Foram purificados pela morte… Foram ensinados e exaltados.

Não há túmulo de alguém assassinado pela liberdade onde não
cresça a semente
da liberdade… que por sua vez gera sementes,
que o vento leva pra longe e re-semeia, sendo nutridas por chuvas
e neves.

Não há espírito capaz de deixar livres as armas dos tiranos,
Mas se impõe invisivelmente sobre a terra… sussurrando e aconselhando e
Prevenindo.

Que outros se desesperem com você, liberdade… eu nunca me desespero.

A casa está fechada? O professor saiu?
No entanto fique esperto… e não se canse de esperar,
Ele logo vai voltar…seus mensageiros estão chegando.
(Matéria e poema extraídos do Portal da Fundação Perseu Abramo)

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