Arquivo de Dezembro de 2008

Crise sistémica global: Novo ponto de inflexão em Março de 2009

 

— ‘quando o mundo tomar consciência de que esta crise é pior que a dos anos 1930′

por GEAB [*]

O LEAP/E2020 prevê que em Março de 2009 a crise sistémica global venha a experimentar um novo ponto de inflexão de uma importância análoga ao de Setembro de 2008. Nossa equipe considera com efeito que este período do ano de 2009 será caracterizado por uma tomada de consciência geral da existência de três importantes processos desestabilizadores da economia mundial, a saber:
1. A tomada de consciência da longa duração da crise
2. A explosão do desemprego no mundo inteiro
3. O risco do colapso brutal do conjunto dos sistema de pensão por capitalização.
Este ponto de inflexão será assim caracterizado por um conjunto de factores psicológicos, a saber: a percepção geral pelas opiniões públicas na Europa, na América e na Ásia de que a crise em curso escapou ao controle de qualquer autoridade pública, nacional ou internacional, que ela afecta severamente todas as regiões do mundo ainda que algumas sejam mais afectadas do que outras (ver GEAB Nº 28), que ela atinge directamente centenas de milhões de pessoas no mundo ‘desenvolvido’ e que ela não faz senão pior à medida em que as consequências se fazem sentir na economia real. Os governos nacionais e as instituições internacionais têm apenas um trimestre para se prepararem para este situação que potencialmente é portadora de um risco importante de caos social. Os países menos bens equipados para gerir socialmente a ascensão rápida do desemprego e o risco crescente sobre as reformas serão os mais desestabilizados por este tomada de consciência das opiniões públicas.
Neste GEAB Nº 30, a equipe do LEAP/E2020 pormenoriza estes três processos desestabilizadores (dois dos quais são apresentados neste comunicado público) e apresenta as suas recomendações para enfrentar este aumento dos riscos. Além disso, este número faz também, como todos os anos, uma avaliação objectiva da fiabilidade das antecipações do LEAP/E2020, que permite precisar igualmente certos aspectos metodológicos do processo de análise que executamos. Em 2008, a taxa de êxito do LEAP/E2020 é de 80%, com uma ponta de 86% para as antecipações estritamente sócio-económicas. Para um ano de grandes perturbações, é um resultado de que estamos orgulhosos.

geab30

Como pormenorizámos no GEAB Nº 28 , a crise afectará de maneira diversificada as diferentes regiões do mundo. Contudo, e o LEAP/E2020 deseja ser muito claro acerca deste ponto, ao contrário dos discursos actuais dos mesmos peritos que negavam a existência de uma crise em gestação há três anos, que negavam que ela fosse global há dois anos e que negavam há apenas seis meses que ela seja sistémica, nos antecipámos uma duração mínima de três anos para esta fase de decantação da crise [1] . Ela não estará terminada nem na Primavera de 2009, nem no Verão de 2009, nem no princípio de 2010. É só nos fins de 2010 que a situação começará a se estabilizar e a melhorar um pouco em certas regiões do mundo, a saber na Ásia e na zona Euro, assim como para os países produtores de matérias-primas energéticas minerais ou alimentares [2] . Alhures, ela continuará. Em particular nos Estados Unidos e no Reino Unido e nos países mais ligados a estas economias, em que ela se inscreve numa lógica decenal. É apenas por volta de 2018 que estes países podem encarar um retorno ao crescimento real.
Além disso, não se pode imaginar que a melhoria do fim de 2010 assinalará o retorno a um crescimento forte. A convalescença será longa. As bolsas, por exemplo, precisarão igualmente de uma década para retornar aos níveis do ano de 2007, se elas ali chegarem um dia. É preciso recordar que a Wall Street precisou de 20 anos para retornar aos seus níveis do fim dos anos 1920. Ora, segundo o LEAP/E2020 esta crise é mais profunda e durável que aquela dos anos 1930. Esta tomada de consciência da longa duração da crise vai progressivamente tornar-se clara junto às opiniões públicas no decorrer do próximo trimestre. E ela desencadeará imediatamente dois fenómenos portadores de instabilidade sócio-económica: o medo pânico do amanha e a crítica reforçada dos dirigentes do país.
O risco de colapso brutal do conjunto dos sistemas de pensão por capitalização
Finalmente, no quadro das consequências da crise que afectarão directamente dezenas de milhões de pessoas nos Estados Unidos, no Canadá, no Reino Unido, no Japão, na Holanda e na Dinamarca em particular [3] , é preciso integrar o facto de que a partir deste fim de ano de 2008 vão multiplicar-se noticias referentes a perdas maciças dos organismos que gerem activos destinados a financiar estas reformas. A OCDE estima e US$4 milhões de milhões as perdas dos fundos de pensão apenas para o ano de 2008 [4] . Na Holand [5] assim como no Reino Unido [6] , os organismos de vigilância dos fundos de pensão acabam de lançar gritos de alarme exigindo com urgência um acréscimo das quotizações obrigatórios e uma intervenção do Estado. Nos Estados Unidos, são anúncios múltiplos de aumento das contribuições e de diminuição dos pagamentos que são emitido a um ritmo crescente [7] . E é só nas próximas semanas que numerosos fundos vão poder fazer realmente o cálculo do que perderam [8] . Muitos iludem-se ainda sobre a sua capacidade de reconstituir o seu capital no momento de uma próxima saída da crise. Em Março de 2009, quando gestores de fundos de pensão, reformados e governos vão simultaneamente tomar consciência de que a crise vai durar, que ela vai coincidir com a chegada maciça dos "babyboomers" à aposentadoria e que as bolsas tem pouco probabilidade de recuperar antes de longos anos os seus níveis de 2007 [9] , o caos vai instalar-se neste sector e os governos vão se aproximar cada vez mais da obrigação de intervir para nacionalizar todos estes fundos. A Argentina, que tomou esta decisão há alguns meses, surgirá então como um precursor.
Todas estas tendências já estão em curso. A sua conjunção e a tomada de consciência pelas opiniões públicas das consequências que elas implicam constituirá o grande choque psicológico mundial da Primavera de 2009, a saber, que estamos todos mergulhados numa crise pior que aquela de 1929; e que não há saída possível da crise a curto prazo. Esta evolução terá um impacto decisivo sobre a mentalidade colectiva mundial dos povos e dos decisores e modificará pois consideravelmente o processo do desenrolar d crise no período que se seguirá. Com mais de ilusões e menos de certezas, a instabilidade sócio-política global vai aumentar consideravelmente.
Finalmente, este GEAB Nº 30 apresenta igualmente uma série de 13 perguntas/respostas a fim de ajudar de maneira quase interactiva os poupadores/investidores/decisores a melhor compreender e antecipar os desenvolvimentos a acontecer da crise sistémica global:
1- Esta crise será diferente das crise que anteriormente afectaram o capitalismo?
2- Esta crise será diferente da crise dos anos 1930?
3- A crise será tão grave na Europa e na Ásia quanto nos Estados Unidos?
4- As medidas empreendidas actualmente pelos Estados do mundo inteiro serão suficiente para jugular a crise?
5- Quais os principais riscos que pesam sobre o sistema financeiro internacional? E todas as poupanças são iguais face à crise?
6- A zona Euro constituirá uma verdadeira protecção contra os piores aspecto da crise? E o que poderia ela fazer para melhorar este estatuto?
7- O sistema de Bretton Woods (sob a sua última versão dos anos 1970) está em vias de afundar? O euro deve substituir o dólar?
8- O que se pode esperar do próximo G20 em Londres?
9- Pensa que a deflação seja actualmente a maior ameaça que paira sobre as economias mundiais?
10- Pensa que o governo Obama estará em condições de impedir os Estados Unidos de soçobrar na "Muito grande depressão americana"?
11- Em termos de moedas, para além da vossa antecipação referente à retomada da queda do dólar dos EUA ao longo de todos os próximos meses, pensa que a libra esterlina e o franco suíço sejam sempre moedas de estatuto internacional?
12- Pensa que o mercado dos CDS esteja a ponto de implodir? E quais seriam as consequências de um tal fenómeno?
13- A "bolha dos Títulos do Tesouro dos EUA" estará a ponto de explodir?

16/Dezembro/2008

Notas:
(1) Acerca desta crise é útil ler uma contribuição muito interessante de Robert Guttmann publicada no 2º semestre de 2008 no sítio web Revues.org , apoiado pela Maison des Sciences de l’Homme Paris-Nord..
(2) São as matérias-primas que começam a relançar o mercado do transporte marítimo internacional. Fonte: Financial Times, 14/12/2008
(3) Um vez que são os países que mais desenvolveram os sistemas de reforma por capitalização. Ver GEAB Nº 23 . Mas também é o caso da Irlanda. Fonte: Independent, 30/11/2008
(4) Fonte: OCDE , 12/11/2008
(5) Fonte: NU.NL , 15/12/2008
(6) Fonte: BBC , 09/12/2008
(7) Fontes: WallStreetJournal, 17/11/2008 ; Phillyburbs , 25/11/2008 ; RockyMountainNews , 19/11/2008
(8) Fonte: CNBC , 05/12/2008
(9) E não mencionamos sequer a influência da explosão da bolha dos Títulos do Tesouro dos EUA que também afectará brutalmente os fundos de pensão. Ver Q&A, GEAB N°30.
[*] Global Europe Anticipation Bulletin.
O original encontra-se em www.leap2020.eu

Este comunicado encontra-se em http://resistir.info/ .

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História da Intifada Palestina

Israel: cinco décadas de pilhagem e limpeza étnica

Por Cecília Toledo, jornalista e militante do PSTU,
para a revista Marxismo Vivo

“Foi para uma terra sem povo que lentamente, no final do século passado, começou a se encaminhar um povo sem terra”.1 Essa história, que desde a fundação de Israel em 1948 vem sendo martelada na cabeça dos povos do mundo inteiro, começa a ruir. E já não mais apenas por obra dos marxistas revolucionários, mas dos próprios israelenses. Tom Segev, um dos mais destacados historiadores de Israel da atualidade, entrevistado recentemente pelo jornal Folha de S.Paulo2, demonstra essa falácia. Autor do livro 1949 – Os Primeiros Israelenses, Segev se baseia no diário do pai-fundador de Israel, David Ben Gurion, no qual ele descreve sua política para forçar a saída dos árabes do recém-criado país. O livro, antes repudiado por mostrar que a versão oficial, em voga até então, era fantasiosa e que os árabes não deixaram Israel por vontade própria, mas foram expulsos com requintes de crueldade, já está inclusive sendo adotado nas escolas.

Esse “reconhecimento” por parte da história oficial é um tanto quanto tardio se levamos em conta que outros autores, em especial os marxistas, já haviam, exaustivamente, contado a história real do sionismo e desmascarado uma das mais monumentais falsificações históricas já feitas até hoje. Entre esses historiadores marxistas destacam-se o militante revolucionário Abraham Leon, morto nas câmaras de gás de Auschwitz aos 26 anos, e autor do importante livro A Questão Judia, e Ralh Schoenman, que escreveu a História Oculta do Sionismo, um relato detalhado e que não deixa dúvidas sobre a ocupação judia da Palestina. No entanto, esse reconhecimento é mais uma demonstração de que a situação é tão grave e o avanço da Intifada tão forte que até importantes historiadores israelenses já estão admitindo que a ideologia “da terra sem povo” é pura invencionice, e negam a torrente de mentiras que os sionistas vêm pregando há décadas e que serviram para iludir muita gente.

Judeus: um povo-classe nas sociedades pré-capitalistas

Abraham León parte da proposta de Marx para demonstrar que a suposta originalidade do povo judeu tem causas materiais e históricas, sem qualquer relação com Jeová ou uma pseudo “essência” racial imutável, como supõem tanto os anti-semitas quanto os sionistas. Segundo Marx, para entender a questão judia, “não devemos buscar o segredo do judeu em sua religião, mas o segredo da religião no judeu real” 3. Partir da religião, como normalmente se costuma fazer, não explica a questão judia; para entendê-la é preciso entender o judeu em seu papel econômico e social.

León vai em busca das origens do povo judeu e chega à importante e rica noção de povo-classe. Nas sociedades pre-capitalistas, os judeus foram uma classe social, um povo-classe4, como são, entre outros povos, os ciganos. Os judeus representavam as formas “pré-históricas” do capital, tanto no mundo antigo como no mundo feudal. No feudalismo, as transações com dinheiro ocorriam relativamente à margem do modo de produção, já que essas sociedades eram produtoras de valores de uso e não de troca. Por ser uma atividade marginal, era exercida por “estrangeiros”, por povos-comerciantes, como os fenícios, os judeus e os lombardos. Esses eram povos-classe que, como dizia Marx, existiam nos poros da sociedade produtora de valores de uso. Assim, os judeus são a sobrevivência de uma velha classe mercantil e financeira pre-capitalista.

Sobre essas relações materiais dos judeus se assentava uma superestrutura institucional e ideológica: autoridades comunitárias, uma religião “especial” e o mito de considerar-se descendentes do primitivo povo hebreu que habitava a Palestina no início de nossa era. Essa superestrutura ajudava a manter a coesão do povo-classe mas, ao mesmo tempo, falsificava a verdadeira natureza de sua existência. É o fenômeno da falsa consciência, comum a todas as ideologias. E explica porque não há unidade racial entre os judeus. Oculto sob esse manto ideológico-religioso, ocorria o fenômeno da incorporação de indivíduos ou grupos inteiros ao povo-classe. Isso explica que tenha existido judeus de “raça” mongólica no Daghestão, judeus negros (os falasha) na Etiópia, judeus árabes no Islã e judeus de origem eslava na Europa Oriental. Isso prova que a descendência comum de Abraham ou dos habitantes da Palestina no início de nossa era é puro mito.

Com o desenvolvimento do capitalismo, a velha classe comercial pre-capitalista judia foi perdendo as bases materiais de sua existência como povo-classe. Na Europa Ocidental, especialmente na Inglaterra, os judeus começam a assimilar-se de forma natural. Mas antes que esse processo atingisse a Europa Oriental, de capitalismo mais atrasado, entramos na etapa imperialista do capitalismo, de decomposição no mundo todo.

Os judeus, tanto na Europa Ocidental quanto Oriental, passaram a enfrentar uma situação dramática. Ao colocar a solução do problema judeu nos termos na luta pelo socialismo, o marxismo começou a exercer uma grande atração sobre as massas judias. Seu caminho era fundir-se com a classe trabalhadora em suas lutas contra o capitalismo, porque para as massas judias miseráveis de Varsóvia ou de Kiev, o caminho seguido por seus correligionários mais afortunados da Inglaterra ou da França, da assimilação como burgueses nos marcos do capitalismo, já estava fechado para elas. Na Rússia, enquanto o império zarista alentava os choques entre russos e polacos ou ucranianos, ou destes contra os judeus, e enquanto o Império Austro-Húngaro fazia o mesmo no mosaico de povos que dominava, os marxistas revolucionários chamavam a unidade de todos os trabalhadores (de qualquer língua, nacionalidade ou “raça”) para lutar contra esses regimes e contra toda a burguesia imperialista européia.

Por isso, muitos operários, estudantes e intelectuais de origem judia ingressaram nas fileiras socialistas e se assimilaram aos trabalhadores de seus países. Mas o velho povo-classe, nas condições do capitalismo moderno, era cada vez menos homogêneo. E assim também famílias ricas, como os Rothschild e outros milionários se ligaram à burguesia imperialista dos diversos países europeus. E, entre as saídas burguesas para o problema judeu apontadas por esses setores, a mais importante é o sionismo. Outra saída reformista foi proposta por aqueles que ficaram conhecidos como bundistas.

O que foi o bundismo

Os bundistas eram membros do Bund, a União Geral de Operários Judeus da Lituânia, Polônia e Rússia, fundada em 1897. Surgiram na Rússia como um setor da social-democracia, tanto que, no início, fez parte do Partido Operário Social-Democrata Russo, mas quando este se dividiu, o Bund se colocou contra os bolcheviques5.

A base social do Bund era constituída por setores de artesãos, semiproletários ou operários de pequenas oficinas, especialmente da indústria de vestuário. Era um vasto setor com um pé no velho gueto e outro no proletariado industrial moderno. Isto se refletia na ideologia do Bund que, por um lado se reivindicava marxista e revolucionário e, de outro, negava o internacionalismo ao levantar barreiras entre os operários de distintas nacionalidades. Com a bandeira de defender a cultura nacional, pregava que os operários judeus deviam organizar-se de forma separada dos operários russo, poloneses etc. Assim, acabava por fazer o jogo da burguesia, ao dividir os trabalhadores de cada fábrica ou cidade segundo sua origem nacional ou “racial”.

Esse caráter contraditório, reflexo de uma contradição real de sua base social, determinava que, apesar de sua capitulação ao nacionalismo burguês, o Bund não propunha que os trabalhadores judeus se separassem da luta de classe e se unissem à burguesia judia para ir colonizar a Palestina ou algum outro território. Quem fez isso foram os sionistas.

O surgimento do sionismo

Também em 1897, quando surgiu o Bund, realizou-se em Basiléia, Suíça, o Congresso de Fundação da Organização Sionista6. O pano de fundo da irrupção do movimento sionista foi a rápida capitalização da economia russa depois da reforma de 1863, que tornou insustentável a situação das massas judias das pequenas cidades. No Ocidente, as classes médias, trituradas pela concentração capitalista, começam a se voltar contra o elemento judeu, cuja competição agrava sua situação.7

Em meio a esse clima, surge na Rússia a Associação dos Amantes de Sion e é publicado o livro de León Pinsker, A Auto-emancipação, preconizando o retorno à Palestina como única solução possível para os judeus. Logo depois, um jornalista judeu de Budapest, Teodoro Herzl, escreve O Estado Judeu, que até hoje é considerado o evangelho do movimento sionista, segundo Abraham Leon.8 Na França, o barão de Rothschild, junto com outros magnatas judeus, se opõe à chegada em massa de imigrantes judeus nos países ocidentais e começa a apoiar a obra de colonização judia da Palestina. “A seus ‘irmãos desafortunados’ a voltar ao país de seus ‘antepassados’, ou seja, a ir o mais longe possível, nada tinha de desagradável para a burguesia judia do Ocidente, que temia, com razão, o crescimento do anti-semitismo”, diz León. Assim, ainda que a Organização Sionista passasse a disputar a mesma clientela que o Bund e inclusive o socialismo revolucionário, seu caráter de classe era marcadamente distinto: aparecia como o programa de um setor da grande burguesia judia, que terminaria sendo dominante dentro dela.

No princípio, o sionismo aparece como uma reação da pequena burguesia judia, duramente golpeada pela crescente onda de anti-semitismo, tendo que se bandear de um país a outro, que quer atingir a Terra prometida a todo custo para livrar-se dessa situação. No entanto, o sionismo procura assentar-se em uma explicação religiosa para justificar sua existência. No ano 70 da era cristã, os judeus teriam sido expulsos de Jerusalém, ocupada pelos invasores romanos. Como na Bíblia, Jerusalém era considerada a pátria dos judeus, eles teriam sido expatriados; foi a famosa diáspora, que espalhou os judeus pelos quatro cantos do mundo.

Voltando a Marx, para entender a questão judia é preciso partir das condições materiais de vida do judeu e não da religião, das fantasias e ideologias criadas ao longo da história. “Enquanto que o sionismo é, realmente, produto da última fase do capitalismo, ou seja, do capitalismo que começa a se descompor, se vangloria de ter sua origem em um passado mais que bimilenário. E se bem o sionismo é essencialmente uma reação contra a crise do judaísmo gerada pela combinação do desmoronamento do feudalismo com a decadência do capitalismo, afirma ser uma reação contra a situação existente desde a queda de Jerusalém, no ano 70 da era cristã”, diz A.León.

Mas o próprio surgimento do movimento sionista refuta essas pretensões. “Como crer que o remédio a um mal existente há dois mil anos só tenha sido encontrado no final do século XIX? O sionismo vê a queda de Jerusalém como causa da dispersão e por conseguinte, a origem de todos os males do judeus no passado, no presente e no futuro. “A fonte de todas as desgraças do povo judeu está na perda de sua pátria histórica e sua dispersão em todos os países”, declara a delegação “marxista” do Poalé-Sión no Comitê holando-escandinavo9.

Essa história dos judeus, como é contada pelos sionistas, trata de criar o pano de fundo para justificar a ocupação da Palestina. Assim, depois da violenta dispersão dos judeus por obra dos romanos, os judeus não quiseram assimilar-se. Imbuídos de sua “coesão nacional”, “de um sentimento ético superior” e de “uma indestrutível crença em um Deus único”, teriam resistido a todas as tentativas de assimilação.10 O que não é verdade, já que, como vimos anteriormente, houve ao longo desses dois mil anos inúmeros casos de assimilação. Mas, de acordo com a histórica construída pelos sionistas, isso jamais teria ocorrido; a única esperança dos judeus durante esses dias sombrios que duraram dois mil anos era retornar à antiga pátria.

Segundo A.León, nunca o sionismo havia se colocado essa questão de forma séria. Por que, pergunta, durante esses dois mil anos jamais tentaram voltar realmente a essa pátria? Por que foi necessário esperar até o fim do século XIX para que Herzl os convencesse dessa necessidade? Por que todos os seus predecessores eram tratados como falsos messias? Para responder a essas incômodas perguntas, o sionismo recorre aos mitos. “Enquanto as massas acreditaram que deviam esperar na Diáspora até a chegada do Messias, foi preciso sofrer em silêncio”, diz Zitlovski.11 No entanto, como diz León, essa explicação não explica nada. Se trata precisamente de saber por que as massas judias acreditavam que deviam esperar o Messias para poder ‘regressar à sua pátria’. Como a religião é um reflexo ideológico dos interesses sociais, a partir do final do século XIX ela começou a deixar de ser um obstáculo para o avanço do sionismo e a se transformar numa cortina de fumaça para seu expansionismo, servindo para encobrir e justificar todas as suas mazelas.

Essas concepções idealistas do sionismo são inseparáveis do dogma do anti-semitismo eterno, ou seja, de que passe o que passe, os judeus serão sempre perseguidos. Dessa forma, o sionismo transpõe o anti-semitismo moderno para toda a história, economizando o trabalho de investigar as diversas formas de anti-semitismo e suas causas, e inclusive omitindo o fato de que em diversas épocas históricas os judeus não foram oprimidos, mas opressores, como membros da classe dominante.

“Na verdade, a ideologia sionista, como toda ideologia, não é senão o reflexo desfigurado dos interesses de uma classe. É a ideologia da pequena burguesia judia, oprimida entre o feudalismo em ruínas e o capitalismo em decadência, sintetiza A.León. Ele ressalta um fato justo, ou seja, que a refutação das fantasias ideológicas do sionismo não refuta, naturalmente, as necessidades reais que o fizeram nascer. É o moderno anti-semitismo e não o mítico anti-semitismo “eterno” o melhor agitador em favor do sionismo. Assim a questão fundamental é saber em que medida o sionismo é capaz de resolver não “o eterno problema judeu” mas a questão judia na época da decadência capitalista.

O defensores do sionismo o comparam com os demais movimentos nacionais. Mas o movimento nacional da burguesia européia é conseqüência do desenvolvimento capitalista; reflete a vontade da burguesia de criar as bases nacionais da produção, de abolir os resquícios feudais. Mas no século XIX, época do florescimento dos nacionalismos, a burguesia judia, longe de ser sionista, era profundamente assimilacionista. O processo econômico que fez surgir as nações modernas lançava as bases para a integração da burguesia judia na nação burguesa. Só quando o processo de formação das nações chega ao fim, quando as forças produtivas deixam de crescer, premidas pelas fronteiras nacionais, surge o processo de expulsão dos judeus da sociedade capitalista e o moderno anti-semitismo. A eliminação do judaísmo acompanha a decadência do capitalismo. Longe de ser um produto do desenvolvimento das forças produtivas, o sionismo é justamente a conseqüência da total paralisia desse desenvolvimento, da petrificação do capitalismo, nas palavras de A Leon. Assim, enquanto o movimento nacional é um produto do período ascendente do capitalismo, o sionismo é fruto da era imperialista. A tragédia judia do século XX é uma conseqüência direta da decadência do capitalismo.12

Com toda razão, A.León lembra que justamente aí está o principal obstáculo para a realização do sionismo, a chave para se compreender a crise que vive a Palestina desde a fundação do Estado de Israel. A decadência capitalista, base do crescimento do sionismo, é também a causa da impossibilidade de sua realização. A burguesia judia se vê obrigada a criar um Estado nacional e assegurar as condições para o desenvolvimento de suas forças produtivas justamente na época em que as condições para isso desapareceram há muito tempo. A decadência do capitalismo, se por um lado colocou de forma tão aguda a questão judia, por outro torna impossível sua solução pela via sionista. E não há nada de assombroso nisso, diz Leon. Não se pode suprimir um mal sem destruir suas causas. O sionismo quer resolver a questão judia sem destruir o capitalismo, principal fonte dos sofrimentos dos judeus”.13

Isso remarca, como ferro em brasa, o caráter de classe do movimento sionista. É certo que os pioneiros da colonização da Palestina eram artesãos, pequenos comerciantes pobres, pessoas sem grandes posses. Dessa forma, tratou-se de criar uma imagem “plebéia” e até “operária” e “socialista” ao sionismo. Seus defensores, principalmente os que se dizem de esquerda, aceitam a idéia de que o movimento sionista não era um fator progressivo na política européia, mas argumentam que isso era secundário frente a um fato essencial: o sionismo seria o movimento de liberação nacional do povo judeu. E do “povo mais pobre”, daí ser uma “causa justa”.

É claro que não estava nos planos de Rothschild e da grande burguesia judia irem pessoalmente à Palestina cultivar a terra. O que fizeram foi um impulsionar um movimento para confinar os judeus mais pobres na Terra Santa e, com isso, afastá-los da luta de classes na Europa e dos partidos de esquerda, e, por outro lado, livrarem-se, eles em primeiro lugar, da fúria antisemita que crescia a olhos vistos. Outro objetivo desse movimento impulsionado pela burguesia judia era transferir essas massas para fora da Europa para constituir um Estado Judeu num ponto estratégico, em meio à maiores reservas de petróleo do mundo, ameaçadas pelo ascenso das massas árabes. Por isso, o Estado de Israel se tornou um enclave do imperialismo na região, o gendarme do mundo árabe.

Uma região “vazia”

Segundo os sionistas, a Palestina era uma região praticamente vazia. “Vastas regiões do país permaneciam inexploradas e pertenciam a senhores feudais ausentes. Estavam infestadas de malária e, além de algumas barracas de beduínos dispersas, estavam desabitadas e, por isso, disponíveis”.14 Nas vizinhanças da Terra Santa havia apenas alguns núcleos heterogêneos, muçulmanos, chequizes, maronitas, cristãos e gregos ortodoxos. Foi para uma terra sem povo que lentamente, no final do século passado, se começou a encaminhar um povo sem terra”.15

Vive-se a época da expansão colonial da Europa na Ásia e África. É nesse marco histórico se inicia o sionismo. E a Palestina, longe de ser uma terra vazia e sem dono, estava ocupada por outro povo, o povo árabe. Isso era um problema para a burguesia judia européia, tanto que Herzl nem menciona a palavra “árabe” em seu livro, apesar de saber, obviamente, da existência dos árabes. Essa falsificação, escondida durante tantos anos, não resiste mais à evidência dos fatos e, principalmente, ao recrudescimento da luta palestina, obrigando até mesmo os historiadores oficiais de Israel a reconhecer que aquela “não era uma terra sem povo”.

Esse foi o papel reservado aos desesperados judeus da Europa Oriental: servir de ponta de lança dos planos colonizadores da burguesia imperialista, em especial os Estados Unidos, interessados em criar uma cabeça de lança no Oriente Médio. Com um discurso filantrópico, a expansão colonial usava as massas miseráveis de judeus para seus fins nada louváveis. Quem poderia se opor a que os pobres judeus saíssem da escuridão dos guetos para o sol da Palestina? Infelizmente, essa troca, por mais benéfica que tivesse sido para eles, foi feita às custas dos árabes, massacrados e, estes sim, expulsos de sua terra de fato, e não por obra e graça de uma história bíblica.

Declaração Balfour: a segunda etapa do sionismo

A política de Teodoro Herzl, o pai do sionismo, e seus sucessores foi a de aproveitar-se do processo de expansão colonial imperialista para ocupar a Palestina. Para isso, precisava que alguma potência imperialista abraçasse a causa sionista. Assim, sua atividade principal foram as gestões perante as diversas potências européias, buscando insertar o sionismo como parte de sua política colonial. Esse apoio veio, em primeiro lugar, da Inglaterra, um império que, desde meados do século, se expandia a todo vapor.

As gestões de Herzl em Londres foram bem acolhidas, mas havia um problema objetivo: a Palestina estava em mãos da Turquia. A Inglaterra então oferece a Herzl colonizar a Uganda ou o Sinai egípcio, mas essa possibilidade não se concretiza. Havia um segundo problema objetivo: o sionismo não era muito forte entre as massas judias. Os que queriam emigrar, o faziam massivamente para a América; tanto que uma das opções discutidas foi a constituição do Estado sionista na Argentina. Pouquíssimos judeus iam para a Palestina. E uma boa parte dos que ficavam eram antisionistas, ou estavam sob a influência dos partidos de esquerda.

Com a I Guerra Mundial, chegara a hora da repartição da Turquia. Para apressá-la, a Inglaterra se serve do movimento nacional dos árabes que havia começado a despertar. E, por outro lado, firma um acordo com a França, de repartição da zona, além de assinar a chamada Declaração Balfour (2/11/1917), que ficou conhecida como a “aliança de casamento” entre o sionismo e o imperialismo inglês.

Assim começava a segunda etapa do sionismo, que culminaria com a criação do Estado de Israel. Além de dar aos ingleses um valioso auxiliar para estabelecer um futuro protetorado em Palestina, a Declaração Balfour colocava em mãos inglesas uma poderosa arma para liquidar o movimento nacional árabe, fortalecer a política de guerra do imperialismo britânico e sua luta contra a Revolução Russa.

O caminho em direção a Israel estava sendo traçado com as seguintes características: 1) por uma declaração unilateral de uma grande potência imperialista; 2) essa declaração impunha o destino de uma região da Ásia que jamais havia pertencido à Inglaterra, que dava de presente a Lorde Rothschild o território de uma nação alheia; 3 não levava em conta os desejos do povo palestino, que era 93% árabe em 1917. Esses 93% eram reduzidos à condição de não-judeus, confinados em um “lar nacional judeu”, ou seja tratados como estrangeiros em sua própria terra.

O mandato britânico (1918-1948)

No final da I Guerra Mundial, os Aliados (Inglaterra, França, Itália e EUA) criaram a Sociedade das Nações, antecessora da atual ONU, que “outorgou” à Inglaterra o mandato sobre a Palestina. Mas naqueles tempos as coisas não corriam muito tranqüilas para o imperialismo. Havia surgido, pela primeira vez na história, um Estado Operário, a URSS que se opunha à expansão colonialista e em todo o mundo colonial começava uma grande onda de lutas antiimperialistas.

Dentro do mundo árabe, o Oriente Médio concentrou as lutas mais importantes contra os imperialismos inglês e francês. A Palestina foi o eixo dessa luta, especialmente durante a insurreição de 1936/39, que começou com uma greve geral que durou seis meses e, para ser sufocada, exigiu a metade dos efetivos de todo o exército britânico, um dos mais poderosos do mundo nesse momento. Centenas e centenas de palestinos foram mortos, detidos e condenados à forca ou a longas penas de prisão. Em 1939, o povo palestino estava derrotado. Essa é a chave para entender a relativa facilidade com que em 1947/48 foi instalado aí o Estado de Israel. 16

A ocupação, explica Jon Rothschild, se deu em base a três pilares do movimento sionista: kibush hakarka (conquista da terra), kibush haavoda (conquista do trabalho) e t’ozteret haaretz (produto da terra)17. “Detrás dessas sonoras palavras havia uma dura realidade. Conquista da terra significava que toda a terra possível fosse adquirida (legalmente ou não) dos árabes, e que nenhuma terra de judeus fosse vendida ou de alguma maneira retornasse aos árabes. Conquista do trabalho significava que nas fábricas e terras de judeus dava-se preferência aos trabalhadores judeus. O trabalhador árabe era boicotado. De fato, a Histadrut, que hoje se diz a Central Operária em Israel, foi criada para impor o boicote aos trabalhadores árabes. Produto da terra significava praticar o boicote à produção árabe por parte dos colonizadores judeus, e manter somente a compra de produtos das terras ou negócios judeus”.18

Essa política de ocupação – da qual os sionistas faziam propaganda dizendo que era uma política “socialista”, que visava ajudar os trabalhadores e pobres judeus – significou a desgraça para o povo palestino, porque foi imposta sobre a terra que eles ocupavam. Apesar de serem minoria no início (depois cresceram muito), os sionistas tinham um poder econômico muito maior que os árabes, além de contar com o apoio do imperialismo. Isso lhes deu força para cair arrasando o povo árabe da Palestina, que ficaram reduzidos a trabalhadores sem trabalho e camponeses sem terra. Muito estranho esse tipo de socialismo, que ataca os trabalhadores. “O árabes eram expulsos ou boicotados nas empresas de propriedade sionista ou de capital estrangeiro (concessões), que geralmente eram administradas por gerentes sionistas. Cerca de 53% das empresas eram concessões e 40% de propriedade sionista, sendo que apenas 6% eram de propriedade de árabes (dados de 1939). Assim, ficava um mercado de trabalho super-reduzido para os trabalhadores árabes.

Outro tanto ocorria com o t’ozteret haaretz (produto da terra), uma política que significava o boicote à força, praticado por bandos armados da Histadrut, de todo produto árabe, uma repressão que não poupava nem mesmo os judeus que ousassem adquirir algum alimento produzido por mãos árabes.

Alijados da terra, do trabalho e da possibilidade de comercializar seus produtos, os palestinos se tornaram uma massa marginalizada e pronta para ser expulsa de suas terras. A resistência palestina, em forma de guerrilha, é praticamente esmagada em 1939 pelo Exército Britânico e a Haganá, o exército extra-oficial formado pelo sionismo, num ataque conjunto para mostrar “quem manda na Palestina”. Nessa época, tinha início a Segunda Guerra Mundial e os sionistas estavam preocupados com o destino da Inglaterra, seu imperialismo protetor, diante de uma nova repartição do mundo em zonas de influência. Queriam garantir para a Palestina a proteção imperialista, já que tudo indicava que os EUA e não mais a Inglaterra seriam daí em diante o grande senhor do mundo. A suposta luta antiimperialista alardeada pelo sionismo era, simplesmente, o desejo de passar de um sócio menos forte para outro mais poderoso. Isso foi expresso com clareza por Ben Gurion:

“Nossa maior preocupação era a sorte que seria reservada à Palestina depois da guerra. Já estava claro que os ingleses não conservariam seu Mandato. Se se tinha todas as razões para crer que Hitler seria vencido, era evidente que a Grã Bretanha, mesmo vitoriosa, sairia muito debilitada do conflito. Por isso, eu não tinha dúvidas de que o centro de gravidade de nossas forças deveria passar do Reino Unido para a América do Norte, que estava em vias de assumir o primeiro lugar no mundo”. 19

Sob a órbita norte-americana, o sionismo começou a dar passos largos em direção à criação do Estado de Israel. Ao final da guerra, as grandes potências, através da ONU, não só fizeram vistas grossas à ocupação e massacre do povo palestino, como deram o status legal à situação colonial criada durante a dominação britânica. Em base a uma proposta de partilha da Palestina feita durante o Mandato inglês20 e que incendiou a revolta em todo o mundo árabe, em 29 de novembro de 1947 vota-se a divisão do país em dois estados: um sionista e outro árabe. Novamente, sem qualquer consulta ao povo palestino e com o aval da burocracia soviética, que enviou armas e aviões para ajudar o imperialismo a massacrar os árabes. Afogada em um banho de sangue a resistência palestina, é proclamado o Estado de Israel, em maio de 1948.

Israel: a tragédia palestina

Em 1947 havia 630 mil judeus e um milhão e trezentos mil árabes palestinos21. Assim, no momento em que as Nações Unidas dividem a Palestina, os judeus eram minoria (31% da população). Essa divisão, promovida pelas principais potências imperialista com o apoio de Stalin, deu 54% da terra fértil ao movimento sionista. Mas, antes de que se formasse o Estado de Israel, o Irgun e as Haganah (organizações paramilitares israelenses) já haviam se apoderado das três quartas partes da terra e expulsado seus habitantes. Assim, dos 475 povoados palestinos que havia em 1948, 385 foram completamente arrasados, reduzidos a cinzas e os 90 que ficaram tiveram suas terras confiscadas. Esse processo ficou conhecido como a “judaização” da Palestina.

Raphael Eitan, então chefe do Estado Maior das Forças Armadas israelenses, não podia ser mais claro quando disse que “Declaramos abertamente que os árabes não têm qualquer direito a um só centímetro de Eretz Israel. Os de bom coração, os moderados, devem saber que as câmaras de gás de Adolf Hitler serão como brincadeira de criança. O único que entendem e entenderão é a força. Utilizaremos a força mais decisiva, até que os palestinos se aproximem de nós de joelhos”.22

David Ben Gurion, em um discurso pronunciado em 13 de outubro de 1936, formulava assim a estratégia sionista: “Quando nos tornemos uma força com peso depois da criação do estado, aboliremos a partição e nos expandiremos a toda Palestina. O estado será somente uma etapa na realização do sionismo, e sua tarefa é preparar o terreno para nossa expansão. O estado terá que preservar a ordem, não com palavras, mas com metralhadoras”.23

E, de fato, assim foi feito. Entre 29 de novembro de 1947, data da divisão da Palestina pela ONU e 15 de maio de 1948, quando foi formalmente proclamado o Estado de Israel, o exército sionista e as milícias paramilitares se apoderaram de 75% da Palestina, expulsando do país 780 mil árabes. Os que ficaram foram vítimas de perseguições selvagens e uma carnificina só comparada ao holocausto nazista.

Assim começou a tragédia palestina que dura até hoje.

Roubo, puro e simples, das terras e dos negócios dos árabes

É preciso entender o alcance e as conseqüências dessa política assassina por parte do sionismo. No território ocupado por Israel depois da partilha havia 950 mil árabes palestinos, vivendo em cerca de 500 povoados e em todas as grandes cidades, entre elas Tiberíades, Safed, Nasaré, Shafa Amr, Acre, Haifa, Yaffa, Lidda, Ramle, Jerusalém, Majdal (Ashquelon), Isdud (Ashdod) e Beersheba. Em menos de seis meses sobraram apenas 138 mil pessoas. A grande maioria dos palestinos haviam sido assassinados, expulsos pela força ou fugido aterrorizados diante dos bandos assassinos das unidades do exército israelense.

Em discurso pronunciado para uma platéia de estudantes do Instituto de Tecnologia de Israel, Moshe Dayan, herói da “guerra dos seis dias”, não se preocupou em esconder o fato de que Israel fora fundada sobre uma tenebrosa falsificação histórica: “Viemos aqui, a um país que estava povoado por árabes, e estamos construindo aqui um estado hebreu, judeu. No lugar dos povoados árabes levantamos povoados judeus. Vocês nem sequer sabem os nomes desses povoados, e não os reprovo por isso, porque esses livros de geografia já não existem. Nem os livros, nem os povos existem mais. Nahalal surgiu no lugar ocupado antes por Mahalul, Gevat no lugar de Jibta, Sarid no lugar de Hanifas e Kafr Yehoushu’a no lugar de Tel Shamam. Não há um só assentamento que não tenha sido construído no lugar que um antigo povoado árabe”.24

Com isso, grandes extensões de terra foram confiscadas ao amparo da Lei de Propriedades de Ausentes, ditada em 1950 em Israel. Até 1947, os judeus possuíam 6% da terra da Palestina. Quando surge formalmente o Estado de Israel, o Fundo Nacional Judeu calcula que tenha se apoderado de 90% da terra. O valor das propriedades roubadas aos árabes era superior a 300 milhões de dólares, em cálculos da época. Se multiplicamos essa cifra pelo valor atual do dólar, cai a máscara: Israel tem pouco a ver com Jeová ou a terra santa, e muito a ver com a pirataria e a pilhagem.

A ocupação das propriedades palestinas era indispensável para que o Estado de Israel fosse viável. Entre 1948 e 1953 foram criados 370 povoados e assentamentos judeus, sendo 350 deles em propriedades de “ausentes”. Em 1954, calculava-se que 35% dos judeus de Israel viviam em propriedades confiscadas de “ausentes” e 250 mil novos imigrantes se haviam estabelecido em áreas urbanas das quais os palestinos haviam sido expulsos.

Dez mil empresas e comércios foram entregues a colonos judeus. Se na zona urbana, o saque foi generalizado, no campo a usurpação corria solta. Todas as plantações de limão dos palestinos foram confiscadas; cobriam mais de 240 mil dunums (correspondentes a 21.200 hectares). Até 1951, um milhão de caixas de limões colhidos de propriedades arrebatadas dos árabes – o que correspondia a 10% de todas as divisas de exportação – estavam em mãos israelenses. Nesse mesmo ano, 95% das plantações de oliveiras de Israel eram feitas em terra palestina ocupada. As azeitonas que produziam representavam o terceiro produto mais exportado por Israel, depois dos limões e dos diamantes. Um terço da produção de pedra provinha de 52 pedreiras palestinas usurpadas. As terras confiscadas dos árabes iam parar num Fundo Nacional Judeu, criado em 1954 pelo governo israelense.

Como lembra Schoenman, a mitologia sionista pretende passar a idéia de que o espírito de sacrifício, de abnegação no trabalho e de perícia dos judeus transformaram a terra desértica, descuidada por seus anteriores guardiães árabes – nômades e primitivos – fazendo florescer o deserto. As plantações palestinas, a indústria, a madeira, as fábricas, casas e fazendas foram espoliadas e saqueadas depois de uma conquista sangrenta: “o barco do estado é um barco pirata, a bandeira que carrega é a caveira com dois ossos cruzados.”25

Racismo contra o trabalhador árabe

Mas Israel não é só isso. A sua é uma história que começou com uma grande espoliação e isso obrigou o país a continuá-la, mais e mais. O barco da espoliação nunca encontrou um porto seguro. Essa viagem macabra continuou em frente, espoliando também o mercado de trabalho dos árabes, tanto no campo quanto nas cidades. Esse processo de judaização do trabalho se assentou em uma ideologia racista contra o trabalhador árabe.

No campo, qualquer relação do homem com a terra era regida por uma lei racista: “O arrendatário deve ser judeu e tem de aceitar realizar todas as atividades relacionadas com o cultivo da terra somente com mão-de-obra judia”. 26 Portanto, a terra não pode ser arrendada por um não-judeu, nem subarrendada, vendida, hipotecada, dada ou cedida a um não-judeu. Os não-judeus não podem ser empregados na terra e nem em qualquer trabalho relacionado com o cultivo.

Em Israel, as terras estatais, que estão nas mãos do Fundo Nacional Judeu, são consideradas “terra nacional”, o que significa terra judia. A contratação de trabalhadores não-judeus é ilegal. Devido a escassez de operários agrícolas judeus, e dado que os palestinos ganham um salário menor que os trabalhadores judeus, alguns agricultores judeus (como Ariel Sharon) contratam mão-de-obra árabe, violando explicitamente a lei.

Schoenman ressalta que Israel emprega todas as expressões normais em um sentido racista. O “povo” significa somente os judeus. Um “imigrante” ou um “colono” só pode ser um judeu. Um assentamento significa um assentamento só para judeus. A terra nacional significa terra judia, não terra israelense.27 Dessa maneira, a lei e os direitos, as garantias e o direito ao trabalho ou à propriedade correspondem somente aos judeus. A cidadania ou nacionalidade israelense corresponde estritamente aos judeus em todas as aplicações específicas de seu significa e jurisdição. Como a definição de judeu se baseia inteiramente num preceito religioso ortodoxo, gerações de ascendência materna judia é o pré-requisito para gozar do direito de propriedade, de emprego e de proteção legal. Atualmente, 93% da terra do chamado Estado de Israel é administrada pelo Fundo Nacional Judeu, sendo que para ter o direito a viver na terra, arrendá-la ou trabalhar nela, a pessoa tem de demonstrar que tem pelo menos três gerações de ascendência materna judia.

O sionismo, o fascismo e os judeus

Se é importante que a história oficial comece a reconhecer que a Palestina não era uma terra sem povo, é preciso também esclarecer outro aspecto tão sórdido quanto esse que envolve a criação do Estado de Israel. Trata-se da relação do sionismo com os próprios judeus e com o nazi-fascismo.

O caráter racista do movimento sionista tem sua face mais abominável na relação que sempre manteve com os próprios judeus. Ralph Schoenman lembra que “os fundadores do sionismo estavam desesperados por combater o anti-semitismo e, paradoxalmente, consideravam os próprios anti-semitas como aliados, porque compartiam o desejo de arrancar os judeus dos países em que viviam. Passo a passo, assimilaram os valores do ódio aos judeus e o anti-semitismo, chegando, o movimento sionista, a olhar os próprios anti-semitas como seus mais fiéis padrinhos e protetores”.28 Ele cita inclusive uma carta que Theodor Herzl enviou ao Conde Von Plehve, autor dos piores pogroms na Rússia – os pogroms de Kishinev – com a seguinte proposta: “Ajude-me a conseguir o quanto antes a terra (Palestina) e a revolta (contra a dominação zarista) acabará. Von Plehve concordou e começou a financiar o movimento sionista

Trata-se, na verdade, de um pedido de colaboração entre a burguesia sionista e as classes dominantes de outros países para combater os judeus de esquerda, que se incorporavam aos partidos revolucionários. Nesse sentido, o sionismo, em sua colaboração com o fascismo, cumpriu um papel sórdido, pois jogava com os sentimentos religiosos dos judeus para massacrar os que fossem de esquerda. O movimento juvenil sionista Betar serviu de bucha de canhão para Mussolini formando esquadrões com camisas negras. Quando Menajem Beguin se tornou chefe do Betar, trocou suas camisas negras pelas beges, como usavam os bandos de Hitler; era o uniforme que Beguin e os membros do Betar usavam em todas as assembléias e concentrações.

A estratégia do sionismo foi recrutar os europeus que odiavam os judeus e alinhar-se com os movimentos e regimes mais perversos, para que apoiassem a criação de uma colônia sionista na Palestina. E essa estratégia incluiu o nazismo. A Federação Sionista da Alemanha enviou um memorando de apoio ao Partido Nazista em 21 de junho de 1933. Dizia: “… um renascimento da vida nacional como o que ocorre na vida alemã… deve ocorrer também no grupo nacional judeu. Sobre as base de um novo estado (nazi) que estabeleceu o princípio da raça, desejamos enquadrar nossa comunidade na estrutura de conjunto de maneira que também para nós, na esfera a nós designada, possa desenvolver uma atividade frutífera pela Pátria…”.29

Longe de repudiar essa política, o Congresso da Organização Sionista Mundial, de 1933, derrotou por 240 votos contra 43 uma resolução que chamava a atuar contra Hitler. Durante esse mesmo congresso, Hitler anunciou um acordo comercial com o Banco Anglopalestino da Organização Sionista Mundial (OSM), que significava o rompimento do boicote judeu ao regime nazista em um momento em que a economia alemã era extremamente crítica. A OSM rompeu o boicote judeu e se tornou a principal distribuidora de produtos nazis em todo o Oriente Médio e Norte da Europa. Fundaram na Palestina o Ha’avara, banco destinado a receber dinheiro da burguesia judia-alemã, com o qual se adquiriu grande quantidade de produtos nazis.

Traindo a Resistência

Um dos reflexos mais sórdidos dessa política foi a ação do sionismo em relação à resistência judaica contra os massacres de judeus na Europa. Em julho de 1944, o dirigente judeu eslovaco, rabino Dov Michael Weissmandel, escreveu aos funcionários sionistas encarregados das “organizações de resgate”, propondo uma série de medidas para salvar os judeus de Auschwitz. Ofereceu mapas exatos das ferrovias e planejou o bombardeio das linhas que levavam aos crematórios. Pediu que bombardeassem os fornos de Auschwitz, que lançassem de pára-quedas munição para 80 mil presos e bombas para explodir o campo e pôr fim à cremação de 13 mil judeus por dia.

Caso os aliados se recusassem a colaborar, Weissmandel propunha que os sionistas, que dispunham de fundos e organização, comprassem aviões, recrutassem voluntários e fizessem a operação.

Weissmandel não era o único a pedir isso. No final dos anos 40 e durante os anos 40, porta-vozes judeus da Europa pediram socorro, campanhas públicas, resistência organizada, manifestações para obrigar os governos aliados a colaborar. Mas sempre se deparavam com o silêncio sionista ou mesmo com sua sabotagem ativa.

O rabino Weissmandel, em julho de 1944, um ano antes de terminar a guerra, enviou aos sionistas uma carta de protesto, publicada em parte em História Oculta do Sionismo, de Schoenman: “Por que não fizeram nada até agora? Quem é o culpado por esta terrível negligência? Não são vocês os culpados, irmãos judeus, que têm a maior sorte do mundo, a liberdade? Enviamos a vocês esta mensagem especial: informamos que ontem os alemães iniciaram a deportação de judeus da Hungria. Os que foram para Auschwitz serão mortos com gás cianido. Essa é a ordem do dia de Auschwitz desde ontem: A cada dia serão asfixiados doze mil judeus – homens, mulheres e crianças, anciãos, crianças de peito, doentes ou não.

E vocês, nossos irmãos aí na Palestina, e de todos os países livres, e vocês, ministros de todos os reinos, por que mantêm silêncio diante desse grande assassinato? Silenciam enquanto assassinam milhares, já são seis milhões de judeus? Silenciam agora, quando dezenas de milhares estão sendo assassinados ou esperam na fila da morte? Seus corações destroçados pedem socorro, choram por vossa crueldade.

São brutais, vocês também são assassinos, pelo sangue frio do silêncio com que olham, porque estão sentados com os braços cruzados sem fazer nada, apesar de que nesse mesmo instante poderiam deter ou postergar o assassinato de judeus.

Vocês, nossos irmãos, filhos de Israel, estão loucos? Não sabem o inferno que nos rodeia? Para quem guardam seu dinheiro? Assassinos! Loucos! Quem faz caridade aqui, vocês, que soltam uns centavos daí, de suas casas seguras, ou nós, que entregamos nosso sangue neste inferno?”

Nenhum dirigente sionista apoiou esta petição, nem os governos ocidentais bombardearam um único campo de concentração.

A colaboração entre o sionismo e o fascismo fez com que o primeiro traísse a resistência e voltasse as costas para o operativo que resultou na morte de pelo menos 6 milhões de judeus. Hoje, quando se lembra mais um aniversário do holocausto, é preciso dizer com toda clareza que o sionismo não lutou de fato para impedi-lo. E, mesmo assim, o utiliza como álibi para massacrar os palestinos. Algo tão indignante que a jornalista israelense Amira Hass, do jornal Haaretz, chegou a exortar os sobreviventes do Holocausto e seus descendentes a não interpretarem o assassinato de seu povo e o de suas famílias na Europa como um eterno aval para suprimir e expropriar o povo palestino e para apresentá-lo como o inimigo que substituiu os alemães 30.

De fato. Está na hora de Israel deixar de usar o holocausto como justificativa para oprimir e perseguir os palestinos, fazendo com eles o mesmo que os alemães fizeram com os judeus.

NOTAS

1 Frase do livro de Dov Barnir, Os Judeus, O Sionismo e o Progresso, p.486, citada em Revista de América, n.12.

2 A entrevista com Tom Segev está na edição da Folha de S. Paulo de 4 de fevereiro de 2001.

3 A Questão Judia.

4 Abraham León foi um dos máximos dirigentes do sionismo de esquerda europeu até as vésperas da Segunda Guerra mundial. Escreveu A Questão Judia, um dos mais importantes estudos marxistas sobre o tema. León, que chegou a romper totalmente com o sionismo e ingressar nas fileiras da IV Internacional, foi assassinado no campo de concentração de Auschwitz pelas tropas nazistas.

5 Em 1917, o Bund apoiou Kerensky contra Lenin e Trotsky e, até a II Guerra Mundial, manteve grande força na Polônia.

6O termo sionismo deriva da palavra Sion (Tzion, em hebraico), que é o nome de um monte em Jerusalém. Na Bíblia, esse nome era usado tanto para designar a Terra de Israel como “sua capital nacional e espiritual”, Jerusalém. Ao longo de toda a história judaica, Sion foi sinônimo de Israel, e a expressão “retorno a Sion” a bandeira do movimento sionista.

7 A Questão Judia, p.150.

8 Idem, p. 151.

9 Idem, p.151.

10 Idem, p.152.

11 Em Le Materialisme et la Question nationale, ditado por A León, in op.cit. p.152.

12 A Questão Judia, p. 154.

13 Idem, p.154.

14 Dov Barnir, “Os Judeus, o Sionismo e o Progresso”, Inova, Portugal, 1968.

15 Ephraim Tari, O Significado de Israel.

16 Revista de América, p.16.

17 Jon Rothscild, “How the Arabs Were Driven Out of Palestine”, citado em Revista de América nº 12.

18 Idem.

19 Michael Bar-Zohar, em The Armed Prophet: A Biography of Ben Gurion. Citado por Revista de América, p.24.

20 Proposta da Comissão Peel, de 1937, aceita por Ben Gurión.

21 Em 1917 havia na Palestina 56 mil judeus e 644 mil árabes palestinos. Em 1922 havia 83.794 judeus e 663 mil árabes. Em 1931 havia 174.616 judeus e 750 mil árabes. (Schoenman, p.34)

22 Citado por Schoenman, p.40.

23 Citado por Schoenman, p.41.

24 Citado por Schoenman, p. 48,

25 História Oculta do Sionismo, p. 50.

26 Citado por Schoenman, p. 50.

27 História Oculta do Sionismo, p.51.

28 Idem, p.53.

29 Citado em História Oculta do Sionismo, p.54.

30 Publicado pelo Jornal do Brasil de 22/4/01.

Artigo publicado no Portal do PSTU - www.pstu.org.br

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Faixa de Gaza tem cenário de destruição; veja imagens

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Israel promove pior massacre na Faixa de Gaza em 40 anos

Diego Cruz
da redação do site do PSTU

Israel sela o ano de 2008 com mais um brutal ataque aos territórios palestinos. Na manhã desse dia 27 de dezembro, no mais violento ataque à faixa de Gaza nas últimas quatro décadas, aviões israelenses bombardearam a área e deixaram um rastro de destruição com mais de 200 mortos e 700 feridos. À noite, os bombardeios recomeçaram, atingindo uma mesquita e instalando novamente o pânico em Gaza.

Ao final do dia, os palestinos contabilizavam ao menos 227 mortos. A cada hora, os números sáo superados, aproximando-se dos 300. Além de Gaza, os povoados de Jan Younis e Rafah, ao sul da faixa, também foram atingidos. O governo de Israel, como de costume, tentou justificar a ação militar afirmando que os alvos eram instalações do Hamas. Os ataques, porém, foram realizados de forma indiscriminada em área urbana e densamente povoada. Entre as centenas de mortos havia mulheres e crianças.

As imagens de TV mostram cenas dramáticas de hospitais lotados e médicos desesperados, sem a mínima estrutura para atender as inúmeras vítimas da carnificina perpetrada por Israel. Corpos, alguns completamente destroçados, eram alinhados na rua, próximos aos escombros de prédios destruídos pelas bombas. “Há feridos e mártires em todas as casa e ruas. Gaza hoje foi pintada de sangue”, disse o líder do Hamas, Ismail Haniyeh.

O massacre ocorre poucos dias após o Hamas ter se recusado a renovar o cessar-fogo que vigorava há seis meses. A razão: Israel, ao contrário do prometido, manteve nesse tempo o bloqueio e os ataques ao território. O isolamento da área vem provocando uma verdadeira crise humanitária, ampliando o desemprego e a miséria entre a população palestina. Foi o castigo de Israel pelo fato de os palestinos terem dado a vitória ao Hamas nas eleições em 2006.

A direção do Hamas, por sua vez, afirmou que irá resistir “até o último sangue” às ofensivas. O partido conclamou os palestinos a impulsionarem uma terceira Intifada contra a dominação israelense.

Genocídio
Não satisfeito com o ataque covarde, o ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, afirmou que a ofensiva do Exército na faixa de Gaza “não será fácil e não será breve”. As forças armadas cogitam até mesmo um ataque por terra. “Há o tempo para o cessar-fogo, há o tempo para lutar; agora é o tempo de lutar”, afirmou cinicamente Barak, que denomina “lutar” o ato de despejar centenas de bombas sobre a população de Gaza.

A declaração do ministro israelense revela que os ataques ao povo palestino continuarão por mais tempo. É a política oficial do genocídio. “Pode levar tempo e cada um de nós deve ser paciente para que completemos a missão”, afirmou o atual primeiro-ministro Ehud Olmert. E qual missão seria essa? O fim do lançamento de mísseis palestinos ao sul de Israel, como garantem as autoridades? O discurso da ministra de relações exteriores, Tzipi Livni, dá uma pista. “Israel deve derrubar o Hamas e um governo sob minha direção o fará”, afirmou.

Livni é candidata ao cargo de primeira-ministra nas eleições que ocorrem dia 10 de fevereiro. Assim como Ehud Barak. O verdadeiro objetivo de Israel é, portanto, destruir o Hamas e submeter os palestinos a um controle ainda mais duro. O atual governo corre para atingir essa meta e angariar os dividendos políticos para as eleições. Com isso, tentam ainda reverter os escândalos de corrupção que marcam a gestão de Olmert.

O massacre revela, sobretudo, o caráter fascista do Estado de Israel, apoiado pelo imperialismo norte-americano. Israel, esse sim, utiliza o terror e os ataques em massa à população civil para manter e garantir a ocupação da Palestina.

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“Nossa Informação Alternativa é Pouco Eficaz”. Afirma Igancio Ramonet.

Por Rosangela Bion. Brasil

Ignacio Ramonet, diretor-presidente Le Monde diplomatique, dispensou o tradutor e, em espanhol, fez uma crítica pesada à qualidade da informação que circula na Internet. Durante o 14º Curso Anual do Núcleo Piratininga de Comunicação, realizado no Rio de Janeiro entre 19 e 22 de novembro, Ramonet declarou que é cada vez mais difícil informar-se, pois a abundância de informação é a repetição da mesma informação. “Há tanta informação que as pessoas não conseguem ver o que é importante, o que falta”. Contrariando outros palestrantes que o sucederam no evento, na mesa que tratou da “comunicação do Império e a resistência dos movimentos sociais”, o sociólogo e jornalista afirmou que “temos uma nova forma de censura, acontecendo mesmo nos países ditos democráticos: a maioria não acredita que a informação circula de forma democrática. Há uma desconfiança generalizada, uma sensação de que a verdade está sendo ocultada.” Por isso, Ramonet vê espaço para a circulação da informação alternativa, complementar, pois há pouca informação sobre os processos de informação, as lutas dos trabalhadores e os movimentos sociais e, quando ela existe, sai deformada.

Mas, todo esse potencial de liberdade e democratização da informação, na prática, não acontece, na opinião de Ignacio Ramonet. “A Internet é consumida através da busca realizada, principalmente no Google, e as quatro opções iniciais são sítios de meios dominantes. Nossa informação alternativa tem uma pequena audiência, é pouco eficaz”. Ele afirmou que é fácil produzir uma publicação, mas a informação não será lida. “Cada um de nós pode ter um blog que, em geral, não terá grande difusão; é o grande mito contemporâneo: somos todos jornalistas.” Sítios alternativos não têm condições financeiras de realizar os investimentos necessários para realizar as atualizações constantes que a Internet exige, declarou o diretor do Le Monde diplomatique.

Para Ramonet, a invenção da Internet, em 1989, equivaleu a revolução realizada em 1440 por Gutenberg. A Internet reuniu três sistemas de signos: o som, a imagem e a palavra, declarou o palestrante. “Essa concentração refletiu-se também nas empresas de comunicação que fundiram-se, tornando-se ainda mais poderosas e controladoras, fazendo crescer o perigo da manipulação da informação pela mídia.” Ramonet, que também é colaborador do jornal espanhol El País, explicou que a informação já caminhou à velocidade de uma diligência puxada à cavalos, hoje, o tempo entre o acontecimento e a divulgação de um fato é quase zero. “O jornalista virou um comentarista, como qualquer outra pessoa, pois todos vêem a imagem na mesma hora, só que a imagem engana”.

Com o conhecimento de alguém que é consultor da Telesur, rede de televisão pan-latino-americana, criada na Venezuela para se contrapor à hegemonia das grandes redes privadas de TV, Ramonet afirmou que nunca os meios de comunicação de massa tiveram tanto poder na América Latina. Para ele, os meios de comunicação substituíram a oposição e tornaram-se o primeiro poder a atacar os governos que estão fazendo a transformação no continente latino americano. “Em todos os locais do mundo são canceladas licenças de TV, sem gerar tanto debate quanto o provocado pelo cancelamento da RCTV, realizado por Hugo Chaves.” Apesar de tudo, Ramonet acredita que vivemos um momento excepcional na América Latina. “Evo e Hugo não estariam no poder há 15 anos atrás, eles teriam sido assassinados.” Ramonet também defendeu a luta por um setor público de informação, totalmente desatrelado dos governos.

Ramonet avaliou que a atual crise internacional marca o fim do neoliberalismo e terá enormes conseqüências sociais em 2009. “Em outubro de 2008 entramos em outro mundo. 25 bilhões de dólares evaporaram e isso vai engessar o Estado.” O palestrante afirmou que haverá muito desemprego no setor industrial, que na Espanha já existem 200 mil desempregados. “Será um terremoto social nos Estados Unidos.”

Para finalizar o jornalista falou rapidamente sobre o fenômeno dos periódicos gratuitos na França, que fazem a qualidade da informação despencar. O mesmo acontece com os salários dos jornalistas, pois é preciso gastar pouco para produzir informação. Ramonet declarou que os jornais não vendem mais informação, eles vendem os seus leitores para os anunciantes.

“Nuestra Información Alternativa es Poco Eficaz”

Por Rosangela Bion de Assis.

Ignacio Ramonet, director presidente de Le Monde diplomatique, dispensó al traductor y, en español, hizo una crítica pesada a la calidad de la información que circula en la internet. Durante el 14º Curso Anual del Núcleo Piratininga de Comunicación, realizado en Río de Janeiro entre los días 19 y 22 de noviembre, Ramonet declaró que es cada vez más difícil informarse, pues la abundancia de información es la repetición de la misma información. “Hay tanta información que las personas no logran ver lo que es importante, lo que falta”. Contrariando otros conferencistas que hablaron después en el evento, en la mesa que trató de la “comunicación del Imperio y la resistencia de los movimientos sociales”, el sociólogo y periodista afirmó que “tenemos una nueva forma de censura, sucediendo inclusive en los países llamados democráticos: la mayoría no cree que la información circula de forma democrática. Hay una desconfianza generalizada, una sensación de que la verdad es ocultada”. Por eso, Ramonet ve espacio para la circulación de la información alternativa, complementaria, pues hay poca información sobre los procesos de información, las luchas de los trabajadores y los movimientos sociales y, cuando ella existe, sale deformada.

Pero todo este potencial de libertad y democratización de la información, en la práctica, no sucede, en opinión de Ignacio Ramonet. “La Internet es consumida a través de la búsqueda realizada, principalmente en Google, y las cuatro opciones iniciales son sitios de medios dominantes. Nuestra información alternativa tiene una audiencia pequeña, es poco eficaz”. Él afirmó que es fácil producir una publicación, pero la información no será leída. “Cada uno de nosotros puede tener un blog que, en general, no tendrá gran difusión; es el gran mito contemporáneo: somos todos periodistas.” Sitios alternativos no tienen condiciones financieras de realizar inversiones necesarias para realizar las actualizaciones constantes que la Internet exige, declaró el director de Le Monde diplomatique.

Para Ramonet, la invención de la Internete, em 1989, equivalió a la revolución realizada en 1440 por Gutenberg. La Internet reunió tres sistemas de signos: el sonido, la imagen y la palabra, declaró el conferencista. “Esa concentración se reflejó también en las empresas de comunicación que se fusionaron, tornándose más poderosas todavía y controladoras, haciendo crecer el peligro de la manipulación de la información por la media.” Ramonet, que también es colaborador del diario español El País, explicó que la información ya caminó a la velocidad de una diligencia tirada por caballos, hoy, el tiempo entre el suceso y la divulgación de un hecho es casi cero. “El periodista se tornó comentarista, como cualquier otra persona, pues todos ven la imagen a la misma hora, sólo que la imagen engaña”.

Con el conocimiento de alguien que es consultor de TeleSUR, cadena de televisión pan-latino-americana, creada en Venezuela para contraponerse a la hegemonía de las grandes cadenas privadas de TV, Ramonet afirmó que nunca los medios de comunicación de masa tuvieron tanto poder en América Latina. Para él, los medios de comunicación substituyeron a la oposición y se transformaron en el primer poder a atacar a los gobiernos que están haciendo la transformación en el continente latinoamericano. “En todos los lugares del mundo son canceladas licencias de TV, sin generar tanto debate como el provocado por la cancelación de la RCTV, realizado por Hugo Chávez.” A pesar de todo, Ramonet cree que vivimos un momento excepcional en América Latina. “Evo y Hugo no estarían en el poder hace 15 años atrás, ellos habrían sido asesinados.” Ramonet también defendió la lucha por un sector público de información, totalmente desvinculado de los gobiernos.

Ramonet evaluó que la actual crisis internacional marca el fin del neoliberalismo y tendrá enormes consecuencias sociales en 2009. “En octubre del 2008 entramos en otro mundo. 25 mil millones de dólares se evaporaron y eso va a enyesar al Estado.” El conferencista afirmó que habrá mucho desempleo en el sector industrial, que en España ya existen 200 mil desempleados. “Será un terremoto social en Estados Unidos.”

Para finalizar el periodista dijo rápidamente sobre el fenómeno de los periódicos gratuitos en Francia, que hacen que se venga abajo la calidad de la información. Lo mismo sucede con los sueldos de los periodistas, pues es necesario gastar poco para producir información. Ramonet declaró que los diarios no venden más información, ellos venden sus lectores para sus anunciantes.

Traducción: Raúl Fitipaldi, de América Latina Palavra Viva.

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Faleceu o prêmio Nobel de Literatura Harold Pinter

Por TeleSUR. Inglaterra

Pinter foi um grande defensor da Revolução Cubana e do seu líder Fidel Castro, e formou parte do Comitê Internacional para Defender a Slobodan Milosevic, quando o ex-presidente sérvio estava preso na Haia, acusado de genocídio e outros crimes na antiga Iugoslávia.

Por TeleSUR.

O Prêmio Nobel de Literatura 2005, o britânico Harold Pinter faleceu nesta quarta-feira à idade de 78 anos por causa de um câncer que sofria há vários anos, anunciou nesta quinta-feira sua esposa, Lady Antonia Fraser.

Em um correio eletrônico, a agente de Pinter, Judy Daish informou que o dramaturgo morreu de câncer na quarta-feira e que em uma data ainda a precisar, terá os funerais privados e discretos.

Pinter, laureado com o Nobel em 2005, sofria de câncer fazia vários anos. Fraser disse ao jornal The Guardian: “Era um grande e foi um privilégio morar com ele durante 33 anos”.

Entre suas obras se destacam “The Birthday Party” (“A festa de aniversário”) e “The Homecoming” (“O retorno a casa”) e “The Dumb Waiter” (“O ajeitador de pratos”), que recorrem correntemente ao jargão do seu bairro, Hackney, no leste de Londres, onde nasceu em 10 de outubro de 1930.

Filho de um alfaiate judeu, Pinter era conhecido por seus posicionamentos políticos, como sua oposição à guerra do Iraque, que o levou a atacar com dureza ao primeiro ministro britânico Tony Blair y ao presidente estadunidense George W. Bush na mensagem de aceitação do Nobel.

Em 2005, Pinter anunciou que deixava de escrever peças de teatro para concentrar-se na poesia e realiza incursões na interpretação e na escrita de roteiros.

Trás receber tratamento pelo câncer de esôfago que lhe foi diagnosticado em 2002, voltou à cena, conseguindo críticas muito favoráveis pela sua interpretação do monólogo de Samuel Beckett “A última fita” (“Krapp”s Last Tape”), em Londres em 2006.

O sucesso lhe chegou com “The Caretaker” (“O guarda noturno”), obra que transformará em roteiro cinematográfico para ser filmada em 1963.

Pintar escreverá outros roteiros como o de “A mulher do tenente francês”, filmada em 1981 e interpretada por Jeremy Irons y Meryl Streep.

Prolífica carreira

Durante sua prolífica carreira escreveu 29 obras, 21 adaptações para cinema (entre elas “A amante do tenente francês”) e dirigiu 27 produções teatrais.

Ao longo de sua vida ganhou diversos galardões: o Prêmio Nobel de Literatura em 2005, o Prêmio Shakespeare, o Prêmio Europeu de Literatura, o Prêmio Britânico de Literatura David Cohen e o Galardão Olivier, entre outros.

Além do reconhecimento que obteve pela sua produção literária, Pinter era conhecido pelas suas opiniões de esquerda, e fez pública sua oposição à política exterior dos Estados Unidos e do Reino Unido.

Também foi um grande defensor da Revolução cubana e do seu líder Fidel Castro, e formou parte do Comitê Internacional para Defender a Slobodan Milosevic, quando o ex-presidente sérvio estava preso na Haia, Holanda, acusado de genocídio e outros crimes de guerra na antiga Iugoslávia.

También fue un gran defensor de la Revolución cubana y de su líder Fidel Castro, y formó parte del Comité Internacional para Defender a Slobodan Milosevic, cuando el ex presidente serbio estaba preso en La Haya, Holanda, acusado de genocidio y otros crímenes de guerra en la antigua Yugoslavia.

TeleSUR - Afp - Bbc / ff-/IM

Versão em português: Raul Fitipaldi, de América Latina Palavra Viva.

Falleció el premio Nobel de Literatura Harold Pinter

Pinter fue un gran defensor de la Revolución cubana y de su líder Fidel Castro, y formó parte del Comité Internacional para Defender a Slobodan Milosevic, cuando el ex presidente serbio estaba preso en La Haya, Holanda, acusado de genocidio y otros crímenes de guerra en la antigua Yugoslavia.

Por TeleSur.

El Premio Nobel de Literatura 2005, el británico Harold Pinter falleció este miércoles a los 78 años de edad debido a un cáncer que sufría hace varios años, anunció este jueves su esposa, Lady Antonia Fraser.

En un correo electrónico la agente de Pinter, Judy Daish, informó que el dramaturgo murió de cáncer el miércoles y que en una fecha por precisar, tendrá unos funerales privados y discretos.

Pinter, laureado con el Nobel en 2005, sufría cáncer desde hacía varios años. Fraser dijo al diario The Guardian: “Era un grande y fue un privilegio vivir con él durante 33 años”.

Entre sus obras destacan “The Birthday Party” (”La fiesta de cumpleaños”) y “The Homecoming” (”El regreso a casa”) y “The Dumb Waiter” (”El montaplatos”), que recurren a menudo a la jerga de su barrio, Hackney, en el este de Londres, donde nació el 10 de octubre de 1930.

Hijo de un sastre judío, Pinter era conocido por sus posicionamientos políticos, como su oposición a la guerra de Irak, que le llevó a cargar con dureza contra el primer ministro británico Tony Blair y el presidente estadounidense George W.Bush en el mensaje de aceptación del Nobel.

En 2005, Pinter anunció que dejaba de escribir obras de teatro para concentrarse en la poesía y realizar incursiones en la interpretación y la escritura de guiones.

Tras recibir tratamiento por el cáncer de esófago que le fue diagnosticado en 2002, volvió a escena, consiguiendo críticas muy favorables por su interpretación del monólogo de Samuel Beckett “La última cinta” (”Krapp’s Last Tape”), en Londres en 2006.

El éxito le llegó con “The Caretaker” (”El guardián nocturno”), obra que transformará en guión cinematográfico para ser filmada en 1963.

Pinter escribirá otros guiones, como el de “La mujer del teniente francés”, filmada en 1981 e interpretada por Jeremy Irons y Meryl Streep.

Prolífica carrera

Durante su prolífica carrera escribió 29 obras, 21 adaptaciones para cine (entre ellas “La amante del teniente francés”) y dirigió 27 producciones teatrales.

A lo largo de su vida ganó diversos galardones: el Premio Nobel de Literatura en 2005, el Premio Shakespeare, el Premio Europeo de Literatura, el Premio Británico de Literatura David Cohen y el Galardón Olivier, entre otros.

Además del reconocimiento que obtuvo por su producción literaria, Pinter era conocido por sus opiniones políticas de izquierda, e hizo pública su oposición a la política exterior de Estados Unidos y del Reino Unido.

También fue un gran defensor de la Revolución cubana y de su líder Fidel Castro, y formó parte del Comité Internacional para Defender a Slobodan Milosevic, cuando el ex presidente serbio estaba preso en La Haya, Holanda, acusado de genocidio y otros crímenes de guerra en la antigua Yugoslavia.

TeleSUR - Afp - Bbc / ff-/IM

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A grande explicação desse emaranhado

O grau de criticismo em relação ao predomínio financeiro no capitalismo está crescendo abarcando mesmo nomes inesperados. O artigo abaixo foi escrito pelo colunista do The New York Times, Thomas Friedman, um dos principais expoentes da direta não religiosa na grande imprensa estado-unidense. Como em outro artigo recém-publicado, Capitalistas estúpidos, de Joseph Stiglitz, publicado na Vanity Fair, a catástrofe econômica atual aparece como resultado inevitável do funcionamento prévio do capitalismo,da ideologia do livre mercado e do poder político nos Estados Unidos.

Thomas Friedman, do The New York Times. O Estado de S.Paulo, 19 de dezembro de 2008

O estrangeiro, um empresário ocidental, sentou-se ao meu lado durante um almoço da Asia Society em Hong Kong e me fez uma pergunta que, digo honestamente, jamais tinha sido feita até então: “Até que ponto a América está corrompida?” A pergunta veio a propósito da prisão do gestor de recursos e investidor Bernard Madoff, acusado de dirigir um chamado esquema Ponzi que lesou investidores em bilhões de dólares, mas não foi só por isso.

É toda essa maldita confusão que se verificou em Wall Street - o centro financeiro que os financistas de Hong Kong sempre admiraram. E eles se perguntam como nomes de marca do porte de um Bear Stearns, Lehman Brothers e AIG puderam acabar com os pés na lama? Onde, eles perguntam, estava a nossa Comissão de Valores Mobiliários e os rígidos padrões que nós pregamos para eles durante todos estes anos? Um dos mais respeitados banqueiros de Hong Kong, que pediu para não ser identificado, disse-me que a empresa de investimento americana onde trabalha fez fortuna na última década colocando ordem em bancos asiáticos enfermos. E isso foi feito importando as melhores práticas americanas, particularmente o princípio do “conheça o seu cliente” e os rígidos controles de risco. Mas agora, ele perguntou, para onde olhar em busca de uma liderança exemplar? “Antes havia os EUA”, disse ele. Supunha-se que os investidores americanos tinham um conhecimento melhor e agora o próprio país está em dificuldades. Para quem vão vender seus bancos? É difícil para a América adotar os próprios remédios prescritos com sucesso para outros. Já não há mais médicos. O próprio médico está doente.

Não simpatizo com Madoff. Mas o fato é que o seu alegado esquema Ponzi foi apenas ligeiramente mais vergonhoso do que o esquema “legal” que Wall Street conduziu, alimentado pelo crédito barato, parâmetros medíocres e uma enorme ganância. Que nome dar para o fato de se dar a um trabalhador que ganha US$14 mil por ano uma hipoteca sem entrada e sem prestação por dois anos, para comprar uma casa de US$750 mil e depois transformar essa hipoteca em bônus - que a Mooddy’ s ou a Standard & Poors classificam como títulos AAA - vendendo-os depois para bancos e fundos de pensão pelo mundo todo? Era isso o que o nosso setor financeiro estava fazendo. Se não se trata de um esquema de pirâmide, então o que é? Longe de estar fundamentado nas melhores práticas, este esquema Ponzi legal teve por base os corretores hipotecários, pacotes de bônus, as agências de classificação, os vendedores de títulos e os proprietários de imóveis, todos trabalhando segundo o princípio IBG (”I’ll be gone” - já terei partido) quando os pagamentos vencerem ou a hipoteca tiver de ser renegociada.

É revelador e deprimente observar a nossa crise bancária a partir da China. É difícil evitar a conclusão de que Estados Unidos e China estão se tornando dois países e um único sistema.

Como assim? Fácil: diante do enorme pacote de ajuda aos bancos, pode-se agora olhar para os dois e dizer: “Bem, a China tem um enorme setor bancário estatal ao lado de um privado e os EUA hoje têm um enorme setor bancário estatal ao lado de um privado. A China tem grandes setores estatais, juntamente com setores privados e, tão logo Washington preste sua ajuda financeira a Detroit, os EUA terão um enorme setor estatal ao lado de setores privados.

Pode parecer exagero, mas a verdade é que as diferenças começam a ficar menos claras. Por duas décadas, autoridades americanas desfilaram por Pequim, pregando sobre a necessidade de a China privatizar bancos, disse Qu Hongbin, economista chefe do HSBC na China. “Assim, lentamente nós assim o fizemos, e agora, repentinamente, vemos todo mundo nacionalizando os seus bancos”.

É deprimente porque a China, sob vários aspectos, sente-se mais estável do que os EUA hoje, com uma estratégia mais clara para superar a crise. E embora os dois países pareçam mais semelhantes, também parecem estar em trajetórias muito diferentes. Enquanto o capitalismo salvou a China, o fim do comunismo parece ter perturbado os EUA que perdeu os dois maiores concorrentes ideológicos : Pequim e Moscou. Quando o capitalismo americano não precisou mais se preocupar com o comunismo, parece ter enlouquecido.

Os bancos de investimento e os fundos de hedge se endividaram em níveis insanos, pagando para si mesmos salários absurdos e inventando instrumentos financeiros que desconectaram os credores dos tomadores de empréstimos, sem nenhum responsável. É por isso que não precisamos de um pacote de ajuda financeira; precisamos de uma ajuda ética, restabelecer o equilíbrio básico entre nossos mercados.

*Thomas Friedman é articulista

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Mais de 700.000 migrantes foram detidos e 386 faleceram nos EUA em 2008

Adital -

Mais de 700.000 migrantes foram detidos por ingressar ilegalmente aos Estados Unidos durante o ano 2008, enquanto que 386 faleceram por diferentes circunstancias na busca do chamado “sonho americano”, informou a Patrulha Fronteiriça. Do total de detidos, 661.766 são mexicanos e 62,059 são cidadãos de outros países, que em muitos casos ingressaram caminhando desde o México, disse o Escritório de Assuntos Internacionais da Patrulha Fronteiriça.
No total de 723.825 detidos figuram 19,346 hondurenhos, 16,396 guatemaltecos, 12,068 salvadorenhos e 1.466 nicaragüenses. A cifra de mortos foi menor do que os 398 que pereceram durante o exercício fiscal 2007. Entre os óbitos estão nove salvadorenhos, oito guatemaltecos, oito hondurenhos e um nicaragüense.

Em 2008, as autoridades registraram 428 incidentes ocorridos e 1,237 resgates. Em 2007 houve 706 incidentes e 1,274 resgates. Para resguardar 9,000 quilômetros de fronteiras, os Estados Unidos dispõem de 18.000 efetivos da Patrulha Fronteiriça, que utilizam sofisticada tecnologia como câmaras, sensores, aviões não tripulados, centenas de veículos e outros equipamentos.

Na quinta feira, 18, a polícia interceptou na nortenha cidade de Monterrey 19 centro-americanos sem documentos, entre eles três guatemaltecos que haviam caminhado durante 40 dias para chegar aos Estados Unidos, e, no momento de ser detidos, passaram pouco mais de uma semana sem comer.

Ernesto Rodríguez, da Secretaria de Segurança Pública de Monterrey, explicou que o grupo estava integrado por 12 hondurenhos, quatro salvadorenhos e três guatemaltecos, que foram detidos em um bairro da citada cidade, quando pediam ajuda. “Estavam desnutridos e desidratados, e tinham seis dias que estavam vivendo na via pública”, informou a fonte.

Por outra parte, na sexta feira 19, foram deportados para Guatemala 131 migrantes, entre eles 24 mulheres, e 8 menores de idade, com o qual a cifra durante o ano chegou a 27.312. A quantidade de migrantes guatemaltecos deportados supera a cifra registrada em 2007, que encerrou com 23,062.

Além disso, a Igreja Católica tem feito um chamado a favor de uma reforma migratória integral e de um tratamento mais humano para os migrantes sem documentos nos Estados Unidos. A Conferencia Episcopal dos Estados Unidos (USCCB) e os bispos católicos de Minesota somaram esforços em janeiro para criar consciência sobre a necessidade de uma reforma que beneficie aos cerca de 12 milhões de migrantes sem documentos nos Estados Unidos.

A USCCB realizará de 4 a 10 de janeiro, a chamada “Semana Nacional de Imigração”, que incluirá atos públicos a favor de uma reforma.

Adital

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Todas as mulheres do mundo

Como a condição feminina mudou ao longo da história. De primeira dama do paraíso, virgem santíssima e carolas a Madonas, Leilas Diniz e mulheres-maravilha — muitas vezes à beira de um ataque de nervos. Preconceitos, assédios, triplas jornadas de trabalho: a mulher do século 21

Cláudio César Dutra de Souza, Sílvia Ferabolli

Pegamos emprestado o título do filme de Domingos de Oliveira, de 1966, com Paulo José e a paradigmática Leila Diniz no auge de sua beleza e talento, para fazer algumas reflexões pertinentes sobre o panorama histórico da condição feminina.

Há milênios, a mulher é submetida por formas mais ou menos explícitas de violência e contenção. A primeira é descrita no gênesis bíblico, no qual nossa mãe Eva é alçada a uma condição de inferioridade ao homem, primeiro por ser um “subproduto” de uma parte de seu corpo e não o resultado vivo do sopro divino como fora Adão. Em seguida, Eva é feita culpada pela expulsão do Éden, ao tomar parte ativa no processo de desobediência divina, ao dar ouvidos à serpente e, por conseqüência, nos jogando para fora da boa vida paradisíaca.

Segundo o culto mariano católico, mesmo num casamento restrito e monogâmico, a mulher é impura - já que não é possível ser mãe e virgem
Antes de Eva havia o mito de Lilith. No Talmude, ela é descrita como a primeira mulher de Adão que, devido a sua insubmissão a um plano divino que a colocava como naturalmente inferior, foi lançada aos infernos, como Lúcifer, tornando-se, entre outras coisas, o símbolo do desregramento sexual e sedução maligna. Características que alertavam para perigos envolvidos em um papel mais ativo da mulher. Na era cristã, a Virgem Maria apareceu como resgate e modelo para a mulher nos próximos séculos. Infelizmente, o culto mariano impõe à mulher um modelo nocivo ao seu desenvolvimento subjetivo. Mesmo dentro de um casamento restrito e monogâmico, ela jamais seria suficientemente “pura” - ostentando em si a vergonhosa mácula do pecado sexual, visto que a maternidade e a virgindade são obviamente incompatíveis.

Em qualquer revisão histórica que se efetue da condição feminina, chegam-se a conclusões semelhantes que apontam para períodos mais ou menos misóginos [1] no Ocidente. A Igreja Católica de 2008 é contida pelo Ocidente laico que, a partir do Renascimento, vem limitando, a muito custo e com relativo sucesso, o seu poder imperial. Se assim não fosse, as idéias do Vaticano na atualidade não difeririam muito de seus ancestrais medievos. Exemplo disso são as declarações dos últimos dois papas acerca da condição feminina, fatalmente ligadas aos pecados da carne, aborto, sexualidade e comportamentos sociais diversos. “Tirem os vossos rosários de nossos ovários”, bradam as feministas ainda hoje. E com razão.

Em contrapartida, por meio da luta de mulheres e homens, principalmente no século 20, foram formuladas leis de proteção e benefícios fundamentais à correção de injustiças de gênero históricas. Porém, elas, paradoxalmente, não inibem violências das mais diversas contra a descendência de Eva. Ainda hoje, mulheres vivem sob jugo patriarcal e, em certos casos, sofrem violências sob o beneplácito do próprio Estado, que, ou introduz a submissão em seu breviário de leis, ou é frouxo no julgamento e condenação com bases na honra viril maculada. Notadamente presente em países como a China, Tailândia, algumas regiões da África e Oriente Médio e também na América Latina, essa característica possui tentáculos suficientemente grandes para abarcar países do “primeiro mundo”, que não são de modo algum isentos de registros de violência e contenção do gênero feminino.

Nada contra uma mulher adulta usar o corpo como lhe convier - inclusive fazendo sexo remunerado. O que preocupa é a relação submissa que a prostituiçao cria, sob mediação do dinheiro
Poderíamos pensar que há algo de errado com os homens… Será? Descartando, por ora, aqueles que são mais ignorantes ou provenientes de culturas que reduzem a importância do feminino, nos deteremos naqueles que possuem educação cultural e meios favoráveis para um comportamento menos machista e opressor com as mulheres. Porém, não se furtam de ser cúmplices do turismo sexual do terceiro mundo, de pertencerem a redes internacionais de pedofilia e de perpetrarem de forma oculta aquilo que já não podem fazer às claras.

Donos dos meios de produção, pertencentes à elite branca e dominante, tais homens perceberam, há muito, que existem formas sutis de burlar as regras às quais estão submetidos para poderem dar vazão ao primitivismo que resiste ainda dentro de si. A primeira e mais evidente se dá no território da prostituição. Ela prospera a passos largos no mundo inteiro. Clientes cada vez mais fiéis e assíduos utilizam-na como forma de exercer menos a sexualidade do que uma relação de poder onde, sob a mediação do dinheiro, se tem a mulher que se quer e da forma mais conveniente. A manutenção da indústria da prostituição tem como princípio a miséria de mulheres e meninas nas regiões mais vulneráveis do planeta e a demanda sempre crescente por esse serviço.

Não somos contrários à decisão de uma mulher adulta usar o seu corpo da forma como mais lhe convier, e isso pode incluir o ato sexual mediante remuneração. Contudo, preocupa-nos que esse homem descrito anteriormente está sempre ávido por “carne nova” e, ao que parece, cada vez mais jovem. Para isso não hesita em aproveitar-se da indigência financeira e moral que acomete alguns países do terceiro mundo, cujo comércio de escravas sexuais movimenta altas somas financeiras e destrói a vida de adolescentes e crianças, vítimas das mais cruéis situações de maus-tratos e violência.

Nas grandes empresas, esse mesmo homem aprendeu a valer-se da mão-de-obra feminina. Farta e abundante, está sempre disposta a dar o melhor de si no ambiente laboral, visto que o fantasma de suas avós, dependentes e oprimidas, ainda se faz presente em uma mulher que hoje em dia coloca a carreira em pé de igualdade com o desejo de casar e ter filhos. E por que seriam excludentes ambas as coisas? Infelizmente as pioneiras da década de 50 a 70 pagaram um alto preço pela sua independência. Eram vistas como condenadas a ser pouco atraentes e frustradas no campo amoroso, em troca de ascensão profissional. É algo que a mulher contemporânea já não aceita. E, graças a isso, temos as famosas duplas, triplas e quádruplas jornadas da mulher. Acorda cedo, trabalha o dia todo, dá atenção à cria e de noite é esposa atenciosa e uma amante ardente para o seu marido que, por ser homem, não precisa provar muita coisa, já que, historicamente, esse sempre teve valor em si e, de certa forma, ainda mantém essa premissa interiorizada.

Modelo por modelo, preferimos a Leila Diniz: subversiva sem ser patrulhadora, amante sem acrobacias, maternal sem culpas, trabalhadora consciente de seu valor, sedutora sem ser manipuladora
Nas classes populares percebe-se a incidência cada vez maior de um matriarcado estabelecido a partir de condições sociais que destacam uma situação favorável ao trabalho feminino, em contraste ao masculino. Mulheres da periferia obtêm renda como manicures, cozinheiras, costureiras, babás, faxineiras, ou, na pior das hipóteses prostitutas - trabalhos tradicionalmente associados ao feminino. Os homens nessas mesmas condições percebem a sua capacidade tradicional de trabalho diminuída no que se refere às atividades mais tradicionalmente ligadas ao masculino, seja por terem que dividi-las com as mulheres, seja pela perda de postos de trabalho ou exigências cada vez maiores de qualificação para ocupá-las. Assim não são raros os homens ociosos, alcoolistas e, muitas vezes, violentos com suas mulheres – aquelas mesmas que arcam com o orçamento familiar, custos de criação dos filhos e que, não raro, sofrem com a violência e desprezo masculino, que insiste em negar-lhes o valor merecido. De acordo com a pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), feita no Brasil em 1998, a violência doméstica é a causa de uma a cada cinco faltas de mulheres ao trabalho [2].

É uma premissa comum no universo do liberalismo econômico o de capitalizar as revoluções a fim de domesticá-las e inseri-las em um contexto lucrativo e palatável. E a revolução feminina das últimas décadas parece não fugir a essa mesma regra. Tendo adquirido o direito a uma sexualidade livre, a mulher ainda continua a sofrer com estigmas morais e a perder o seu valor com o declínio da beleza e da juventude. Tendo conseguido ascender ao mercado de trabalho, sofre explorações, assédios e humilhações. Isso reflete-se na vida pessoal, tornando-a estressante e sofrida, o que acarreta em moléstias que vão da depressão, ausência de libido até moléstias cardíacas - que incidem de forma cada vez mais preocupante no universo feminino.

Tais exemplos sugerem que talvez a mulher pós-feminista tenha tornado-se um bom negócio comercial, sexual e laboral. O que poderia ter dado errado em décadas de lutas feministas então? Talvez Camille Paglia tenha algumas respostas. Ela denuncia o feminismo xiita e politicamente correto dos anos 70, que tentou anular algumas premissas básicas em relação á estruturação subjetiva daquilo que nomeamos como o “feminino”, criticando violentamente a geração de Betty Friedan e o feminismo militante que anulava as diferenças entre os sexos. Palavras de Camille na Folha de São Paulo do dia 27 de março de 2006: “No começo dos anos 90 eu declarei guerra contra o stalinismo do politicamente correto no establishment feminista. Isso causou controvérsia, especialmente minha defesa da pornografia e das revistas de moda. Mas, graças à Madonna, minha ala do feminismo ganhou a batalha. Ela influenciou uma geração de mulheres que abraçou novamente o sexo e a beleza.”

Afora os deslumbramentos de Miss Paglia, Madonna certamente é um ícone da modernidade, que fornece algumas pistas para o entendimento das benesses e das armadilhas em que as mulheres se vêem envolvidas atualmente, na ânsia de buscarem o absoluto, que é reservado a poucas (e poucos). Modelo por modelo, ao invés da apolínea popstar norte-americana, optamos pela nossa dionisíaca Leila Diniz que, na década de 60, já previa a multiplicidade de formas e contradições do feminino, que cada vez mais se pronunciam nesse milênio, só que de uma forma mais fluídica e prazerosa. Desobrigada da perfeição estética e da produção maquinal de gozos, Leila era subversiva sem ser patrulhadora, amante sem acrobacias, maternal sem culpas, trabalhadora consciente de seu valor, sedutora sem ser manipuladora, enfim, essa foi a imagem quase arquetípica que dela ficou.

Nunca a mulher desfrutou de tanta liberdade como hoje, em certos agrupamentos sociais. E o avanço da condição feminina só acrescenta, ao universo masculino, a companhia de uma mulher mais plena
Estamos convencidos de que o avanço da condição feminina só acrescenta benesses ao universo masculino, que, ao longo das últimas décadas, desfruta da companhia de uma mulher mais plena e companheira. Nunca ela desfrutou de tanta liberdade em certos agrupamentos sociais como nos dias de hoje. Infelizmente, ecos medievais ainda subsistem nos corações e mentes. Até mesmo nos daqueles que, aparentemente, se apresentam como os mais evoluídos, sendo que ainda estamos longe do ideal de igualdade entre os gêneros, visto que basta a experiência de uma guerra para que o nosso verniz civilizatório venha por água abaixo [3].

Mudar a mentalidade masculina torna-se um imperativo para que possamos reduzir comportamentos agressivos e misóginos no mundo atual. Para isso, entendemos ser necessário uma conscientização feminina no sentido de que as mulheres assumam a sua parcela de culpa na transmissão de inúmeros preconceitos. Principalmente, na educação das crianças, da qual ainda são as grandes responsáveis direta, como mãe e indiretamente como educadoras, visto que a quase totalidade desse ramo profissional, mais incisivamente na América Latina, se constitui de mulheres que, não raro, educam meninos e meninas sob as regras mais conservadoras possíveis - fato que, na maioria dos casos, não lhes é consciente.

Temos esperanças de que as reivindicações e lutas em prol de uma sociedade menos sexista e injusta frutifiquem nas próximas décadas. Mas para que isso se cumpra, ainda há muitas lutas a empreender. Recordemos, por exemplo, que somente com o novo Código Civil, que passou a valer a partir de 2003, o homem deixou de ser considerado como a “cabeça do casal”, bem como foram suprimidos outros arcaísmos humilhantes tal como o bizarro conceito de “mulher honesta” [4]. Que o Dia Internacional da Mulher, que comemoramos no mês de março, não sirva apenas para afagos e flores compensatórias, mas que seja também o dia em que Eva, Lilith, a Virgem Maria, Madonna, Leila Diniz, Condoleeza Rice, a mãe, a virgem, a puta, a trabalhadora, enfim, todos os arquétipos e estereótipos possam se unir em um ser integral pleno de contradições, qualidades, defeitos e subjetividades inerentes a qualquer ser humano, independente do gênero a que pertença.

Le Monde diplomatic

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O clandestino de Belém

Arcebispo e presidente do presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, Gianfranco Ravasi publicou um artigo no jornal Il Sole-24 Ore, 21-12-2008, em que vê na figura do Jesus menino e da pequena família de Nazaré o retrato dos atuais refugiados, fugitivos e exilados. E faz um contraste claro entre a singeleza da descrição dos evangelhos de Mateus e Lucas sobre a fuga do Egito, em comparação à ostentação fantasiosa de alguns evangelhos apócrifos.

Segundo ele, “o cristianismo quis certamente apresentar a vida do seu fundador na grandeza do seu mistério, mas também oculto sob as vestes do sofrimento e os trapos da miséria”. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No último período da sua vida, Renato Guttuso [1], que também tinha uma casa em Velate, nos arredores de Varese, foi convidado a decorar com afrescos uma das capelas do percurso que subia ao famoso Sacro Monte daquela cidade. Foi-lhe confiada a cena da “Fuga ao Egito”, um topos da iconografia cristológica, e ele decidiu representar Maria, José e o pequeno Jesus como uma família de refugiados palestinos, amedrontados, obrigados a abandonar a sua casa errando no deserto (hoje, se deveria pensar no dramático exílio em pátria que é a situação dos habitantes de Gaza).

O povo hebreu, ao qual Jesus estava ligado segundo a carne e o sangue, se autodefinia na Bíblia como uma comunidade de “forasteiros e peregrinos”. Tanto é verdade que eles codificaram esta extraordinária sobre a qual muitos falsos legisladores cristãos também deveriam refletir: “Haverá uma mesma lei para o natural e o estrangeiro que peregrina entre vós. […] Se um estrangeiro vier habitar convosco na vossa terra, não o oprimireis, mas esteja ele entre vós como um compatriota, e tu o amarás como a ti mesmo, porque fostes já estrangeiros no Egito” (Êxodo 12, 49; Levítico 19, 33-34).

Ora, se lemos os 48 versículos dos dois primeiros capítulos do Evangelho de Mateus, a tradicional retórica natalícia se desfaz para deixar entrever uma trama profunda: Jesus nasce em uma gruta-estrebaria, é deposto não em um berço, mas em uma manjedoura, enfrenta logo o pesadelo de uma repressão sanguinária (o “massacre dos inocentes”) e a pequena família deve investir pelo caminho da clandestinidade, protegendo-se no fronteiriço Egito. Como fica evidente, não é nada artificiosa a aplicação da atribulada história dos imigrantes, dos nômades, dos clandestinos que ocupam os nossos jornais à história do menino Jesus de Belém. Podemos dizer que a sombra da cruz se projeta já nos primeiros dias de vida desse neo-nascido e não admira que a escola pictórica de Novgorod [2], a partir do século XV, não tenha hesitado em unir esses dois extremos ensangüentados, representado o pequeno Jesus envolto em faixas funerárias e deposto em um berço em forma de sarcófago!

Séculos depois, um poeta cristão chinês, forçado também ele à clandestinidade enquanto perseguido, Ai Qing (1910-1996), celebrava com estes versos o Natal de 1936: “Da manjedoura, surgem lamentos que arrancam o coração. / Com inumeráveis dedos / a multidão indica a jovem-mãe / desprezada como imundície, / ninguém se dispõe a levar-lhe um vaso para o sangue”. O pensamento se dirige a certas mães estrangeiras (mas não só…), que dão a luz sozinhas, escondidamente, espalhando o seu sangue por terra e arrancando escassamente o cordão umbilical. Deixemos por agora esses paralelos, que deveriam fazer refletir crentes e agnósticos, e voltemos ao texto de Mateus, que citamos na sua essencialidade, distante mil milhas – como veremos – da ênfase miraculosa dos Evangelhos apócrifos.

“Um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar. José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito. Ali permaneceu até a morte de Herodes para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: Eu chamei do Egito meu filho” (2,13-15). Essas concisas palavras evangélicas estão mais preocupadas em oferecer uma interpretação teológica dessa fuga do que de documentar e motivar os mais reais componentes históricos (essa é uma característica geral dos Evangelhos e em particular dos chamados “Evangelhos da infância de Jesus”, presentes nos capítulo 1-2 de Mateus e de Lucas). De fato, com a citação final retirada do profeta Oséias (11, 1), “Do Egito chamei meu filho” – quer-se aludir ao evento capital da história do Israel bíblico que foi o êxodo da opressão faraônica: Cristo percorre emblematicamente suas etapas, encarnando sofrimento e salvação, opressão e libertação, emigração e repatriação. Assim, mais adiante ressoará no Egito o apelo voltado ao pai legal de Jesus, José: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino” (2, 20).

Sob o pano de fundo torcido, há, também, a figura do famoso rei Herodes, cuja biografia – que pode ser reconstruída por meio do historiador José Flávio – foi bem marcada por grandes sucessos políticos, mas também por um implacável punho de ferro aplacar todo mínimo aceno de oposição. Macrobio, historiador romano do século V, atribuirá a Augusto um ditado que se refere a Herodes: perto dele, tinham mais sorte os porcos (não comestíveis para os judeus) do que os filhos (em grego, as duas palavras tem um som semelhante), porque Herodes havia liquidados filhos, mulheres e parentes suspeitos de tramar às suas costas. O Egito, que faz fronteira com a Palestina, constituía uma terra de exílio ideal: já no século X a.C., o então rebelde (e futuro rei de Israel) Jeroboão protegeu-se lá para fugir das forças de Salomão.

Dito isso, devemos baixar as cortinas sobre o caso desse pequeno fugitivo e da sua família. Mas desde as origens a tentação de se refugiar nos céus dourados do mito, desligando-se do realismo histórico da Encarnação cristã, estava pronta para atacar. E eis o florescimento de uma fantasmagoria de prodígios que circundam com uma auréola gloriosa o que, na realidade, era o amargo e fatigante sobreviver de três clandestinos.Páginas e páginas de tantos Evangelhos apócrifos, fruto de uma constante necessidade de decolar do presente áspero rumo às ilusões de salvações fáceis, teceram narrações mirabolantes que se infiltraram até entre as Suras do Corão. Com esses relatos, podemos até desenhar uma espécie de mapa dessa migração clandestina: os pais de Jesus, descartando o chamado “caminho do mar” que costeava o Mediterrâneo e ultrapassava Gaza – caminho mais curto, mas perigoso por causa dos postos de bloqueio das tropas herodianas antes e egípcias depois – se dirigem rumo ao oriente, atravessando o Jordão e procedendo da atual Jordânia, ao longo de um complexo itinerário. Ainda mais minuciosa é a seqüência das etapas em território egípcio: o atual Cairo (que, entre outras coisas, é sede ainda hoje de esplêndidas igrejas dos cristãos coptas, indígenas do Egito, como diz o seu próprio nome, deformação do grego Aigyptos), Ermopólis, Assiut e assim por diante.

Nós nos contentamos agora em oferecer apenas dois exemplos dessa narrativa apócrifa, em que a ênfase do milagre apaga todo realismo da história. Eis alguns fragmentos do longo relato dos capítulos 18-20 do chamado Evangelho do Pseudo-Mateus (conhecido já no século IV-V):

“Chegaram diante de uma gruta para repousar, mas, de repente, saíram muitos dragões. Jesus, então, saiu do colo de sua mãe e ficou de pé sobre seus pés diante dos dragões: eles se colocaram a adorar Jesus e depois foram embora diante deles… Assim também os leões e os leopardos o adoravam e acompanhavam-nos no deserto: em todo o lugar que José e Maria andavam, eles os precediam, mostrando a estrada e curvando a cabeça; serviam fazendo a festa com o rabo e o adoravam com grande reverência… No terceiro dia da viagem, Maria, cansada pelo grande calor do sol e do deserto, vendo uma palmeira disse a José: Repousarei à sombra dessa árvore. Maria olhou a folhagem da palmeira e viu-a cheia de frutos e disse a José: Gostaria de pegar os frutos dessa palmeira. E José: Admiro-me de que tu digas isso vendo a altura dessa palmeira. Eu penso sobretudo na falta de água… Então, o menino Jesus, que sereno repousava no colo de sua mãe, disse à palmeira: Árvore, dobra os teus ramos e restaura com os teus frutos a minha mãe. A essas palavras, a palmeira dobrou rapidamente a folhagem até os pés da beata Maria e permaneceu inclinada esperando a ordem de se levantar por parte de Jesus. Ele lhe disse: Abre com as tuas raízes a veia d’água que está escondida na terra. E logo começou a brotar, das razíes, uma fonte d’água limpíssima, fresca e clara”.

O outro exemplo nós o resumimos do capítulo 23 do chamado Evangelho Árabe da Infância, que, em al-Moharraq, próximo da atual Assiut (350 Km ao sul do Cairo), reserva a mais surpreendente aventura egípcia do Jesus menino. Durante a noite, à procura de um refúgio, José e Maria são atacados nessa região infestada de delinqüentes: quem os ataca são dois bandidos, Tito e Dumaco. Tito se comove rapidamente frente a essa pobre família, tocado pela ternura da mãe e do esplendor da criança. Para poder salvá-los da avidez do roubo do sócio, está pronto a oferecer a Dumaco 40 dracmas das suas “economias”, para que deixe a pequena família incólume. Como é fácil imaginar, os dois serão os companheiros de Jesus na crucificação, condenados à morte com ele em Jerusalém, depois de vários episódios, e Tito nada mais é do que o bom ladrão a quem Cristo abre as portas do Paraíso.

Estamos, portanto, bem longes da sobriedade do sucinto relato do Evangelho canônico de Mateus e da realidade dos prófugos de então e de agora. O cristianismo quis certamente apresentar a vida do seu fundador na grandeza do seu mistério, mas também oculto sob as vestes do sofrimento e os trapos da miséria, desde a origem até o trágico desfecho na colina do Gólgota na crucificação. O Cristo real é irmão dos últimos da terra, e é por isso que Bertolt Brecht (sim, justamente o dramaturgo alemão ateu) tinha razão quando, nas suas Poesias (1918-1933), escrevia os versos do seu “Natal dos pobres”: “Hoje estamos sentados, na vigília / de Natal, nós, gente mísera, / em uma gélida salinha, / o vento corre lá fora, / o vento entra. / Vem, bom Senhor Jesus, a nós, / volta o olhar: / porque Tu és verdadeiramente necessário”.

Notas:

1. Renato Guttuso (26 de dezembro de 1911 – 18 de janeiro de 1987) foi um dos maiores pintores italianos do século XX. Suas pinturas mais famosas incluem “Flight from Etna” (1938-39), “Crucifixion” (1941) e “La Vucciria” (1974). Guttuso também criou para o teatro, incluindo cenários e figurinos para a peça “Histoire du Soldat” (Rome, 1940) e ilustrou diversos livros, muitos no mundo de língua inglesa. [voltar]

2. Nizhniy Novgorod (em russo, Нижний Новгород) é a capital de uma província da Rússia com o mesmo nome, fundada em 1221. A Escola de Novgorod refere-se à arte dos ícones e dos afrescos, cuja primeira referência foi a arte bizantina. A Escola alcança sua plenitude no final do século XIV e durante o século XV, quando a influência bizantina desaparece e acentua-se o toque nacionalista. Os pintores evitam o simbolismo abstrato e complicado, desenvolvendo temas simples de clara leitura. A paleta contém cores vivas, puras, intensas e vibrantes entre as quais se destaca os tons de vermelho

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Cego, mas enxergando: o sentido visual subconsciente do cérebro

Benedict Carey

O homem, um médico que ficou cego após dois derrames sucessivos, se recusava a participar do experimento. Ele não podia ver nada, disse, e não tinha interesse em percorrer o trajeto com obstáculos - um corredor com coisas espalhadas - em prol da ciência. Por que se dar ao trabalho?

Quando ele finalmente tentou, algo incrível aconteceu. Ele percorreu em ziguezague o corredor, evitando uma lata de lixo, um tripé, uma pilha de papel e várias caixas como se pudesse ver tudo claramente. Um pesquisador permaneceu próximo dele caso tropeçasse.

“Era preciso ver para acreditar”, disse Beatrice de Gelder, uma neurocientista de Harvard e da Universidade de Tilburg, na Holanda, que com uma equipe internacional de pesquisadores do cérebro relatou sobre o paciente na segunda-feira (22), na revista “Current Biology”. Um vídeo está disponível online em www.beatricedegelder.com/books.html.

O estudo, que incluiu abundantes imagens do cérebro, é a demonstração mais dramática até o momento da chamada visão cega, a habilidade natural de sentir as coisas usando o sistema visual primitivo, subcortical - e inteiramente subconsciente - do cérebro.

Os cientistas informaram previamente casos de visão cega em pessoas com danos parciais nos lobos visuais. O novo relato é o primeiro a mostrá-la em uma pessoa cujos lobos visuais - um em cada hemisfério, sob o crânio na parte posterior da cabeça- foram completamente destruídos. A descoberta sugere que as pessoas com lesões semelhantes podem ser capazes de recuperar certo sentido visual rudimentar com a prática.

“É um relatório feito com muito rigor e a primeira demonstração disto em alguém com aparente ausência total do córtex estriado, a região de processamento da visão”, disse o dr. Richard Held, um professor emérito de cérebro e ciências cognitivas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que juntamente com Ernst Poeppel e Douglas Frost, escreveu o primeiro relato publicado da visão cega em uma pessoa, em 1973.

O homem no novo estudo, um africano que vivia na Suíça na época, sofreu dois derrames quando estava na faixa dos 50 anos, em um intervalo de semanas, e era profundamente cego segundo qualquer medição habitual. Diferente de pessoas que sofrem com lesões nos olhos, ou cegueira congênita na qual o sistema visual se desenvolve de forma anormal, seu cérebro era fora isso saudável, assim como seus olhos, de forma que dispunha das ferramentas necessárias para processar a visão subconsciente. O que ele carecia era dos circuitos que formam uma imagem clara e consciente.

A equipe de pesquisa empregou tomografias do cérebro e imagens de ressonância magnética para ver as lesões, não encontrando evidência de atividade visual no córtex. Ela também não encontrou evidência de que o paciente estava se locomovendo por ecolocalização, como fazem os morcegos. Tanto o paciente, T.N., quanto o pesquisador que o acompanhou, percorreram o trajeto em silêncio.

O próprio homem ficou tão surpreso quanto todo mundo por ter conseguido percorrer o trajeto de obstáculos.

“Segundo minha experiência, quanto mais instrução a pessoa tem”, disse De Gelder, “mais difícil é acreditar que possui esses recursos de que não está ciente para evitar obstáculos. E essa era uma pessoa com formação elevada”.

Os cientistas há muito sabem que o cérebro digere o que entra pelos olhos usando dois conjuntos de circuitos. As células na retina projetam não apenas para o córtex visual - as regiões destruídas neste homem- mas também para áreas subcorticais, que em T.N. estavam intactas. Eles incluem o colículo superior, que é crucial para o movimento dos olhos e pode ter outras funções sensoriais; e, provavelmente, os circuitos que correm pela amídala, que registra a emoção.

Em uma experiência anterior, um dos autores do novo trabalho, o dr. Alan Pegna, dos Hospitais Universitários de Genebra, apontou que o mesmo médico africano tinha visão cega emocional. Quando colocado diante de imagens de rostos atemorizantes, ele contraiu os músculos subconscientemente, da mesma forma que a maioria das pessoas, apesar de não poder ver conscientemente os rostos. O sistema visual primitivo, subcortical, aparentemente registra não apenas objetos sólidos, mas também fortes sinais sociais.

Held, o neurocientista do MIT, disse que nos mamíferos inferiores, estes sistemas parecem exercer um papel maior na percepção. Em um estudo envolvendo ratos publicado na revista “Science” da última sexta-feira, os pesquisadores demonstraram que as células nas profundezas do cérebro eram na verdade especializadas em registrar certas qualidades do ambiente.

Elas incluem células de localização, que disparam quando um animal passa por certos marcos terrestres, e células de direção da cabeça, que rastreiam para onde o rosto está apontado. Mas o novo estudo também encontrou forte evidência do que os cientistas, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, em Trondheim, chamam de “células de fronteira”, que disparam quando um animal está próximo de uma parede ou algum tipo de fronteira.

Todos esses tipos de neurônios, que existem em alguma forma nos seres humanos, também podem ter auxiliado T.N. em seu percurso do trajeto com obstáculos.

Com o tempo, e prática, pessoas com lesões cerebrais podem aprender a fazer maior uso desses sistemas subconscientes ou semiconscientes, e talvez até mesmo começar a construir uma certa visão consciente a partir deles.

“Não se sabe quão aguçada poderia ser”, disse Held. “Provavelmente seria um senso espacial vago, de baixa resolução. Mas poderia lhes permitir se movimentar de forma mais independente.”

Tradução: George El Khouri Andolfato
do The New York Times

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Pela 1ª vez, mundo vê 3 crises ao mesmo tempo

Ignácio Ramonet
Pátria Latina

Nunca havia acontecido antes. Pela primeira vez na história da economia moderna, três crises de grande amplitude – financeira, energética e alimentar – estão em conjunção, confluindo e combinando-se. Cada uma delas interage sobre as demais, agravando, de modo exponencial, a deterioração da economia real.
Por mais que as autoridades se esforcem em minimizar a gravidade do momento, o certo é que nos encontramos diante de um sismo econômico de magnitude inédita, cujos efeitos sociais, que mal começaram a se fazer sentir, explodirão nos próximos meses com toda a brutalidade. A numerologia não é uma ciência exata e o pior não costuma ser previsto, mas 2009 pode muito bem se parecer com o nefasto ano de 1929…
Como temíamos, a crise financeira continua aprofundando-se. Aos descalabros de prestigiosos bancos norte-americanos, como o Bear Stearns, o Merrill lynch e o gigante Citigroup, somou-se o recente desastre do lehman Brothers, quarto maior banco de negócios, que anunciou, em 9 de junho, um prejuízo trimestral de 2,8 bilhões de dólares. Como foi a primeira perda desde o lançamento de suas ações na Bolsa, em 1994, o resultado teve efeito de um terremoto financeiro, nos já violentamente traumatizados EUA.
A cada dia difundem-se notícias sobre novas quebras. Até agora, as entidades mais afetadas admitem prejuízos de quase 330 bilhões de dólares, e o Fundo Monetário Internacional estima que, para escapar da catástrofe, o sistema necessitará de cerca de 950 bilhões de dólares (o equivalente à metade do PIB do Brasil).
A crise começou nos Estados unidos, em agosto de 2007, com a desconfiança nas hipotecas de má qualidade (subprime) e propagou-se por todo o mundo. Sua capacidade de se transformar e se espraiar por meio da contaminação de complexos mecanismos financeiros faz com que se assemelhe a uma epidemia fulminante, impossível de controlar. As instituições bancárias já não emprestam dinheiro entre si. Todas desconfiam da saúde financeira de suas rivais.
Apesar das injeções maciças de liquidez efetuadas pelos grandes bancos centrais, nunca se vira uma seca tão severa de dinheiro nos mercados. E agora o maior temor de alguns é uma crise sistêmica — ou seja, que o conjunto do sistema econômico mundial entre em colapso.
Da esfera financeira, o problema passou para o conjunto da atividade econômica. De um momento para outro, as economias dos países desenvolvidos sofreram um desaquecimento. A Europa encontra-se em franca desaceleração e os Estados Unidos estão à beira da recessão.
O setor imobiliário é onde melhor aparece a dureza desse ajuste. Durante o primeiro trimestre de 2008, o número de vendas de moradias na Espanha caiu 29%! Cerca de dois milhões de apartamentos e casas estão sem compradores. O preço das propriedades continua a desmoronar. O aumento dos juros hipotecários e os temores de uma recessão lançaram o setor numa espiral infernal, com ferozes efeitos em todas as frentes da imensa indústria da construção. Todas as empresas desses setores estão agora no olho do furacão. E assistem, impotentes, à destruição de dezenas de milhares de empregos.
Da crise financeira passamos à crise social. E políticas autoritárias voltaram a surgir. O Parlamento Europeu aprovou, em 18 de junho passado, a infame “diretiva de retorno”. Imediatamente, as autoridades espanholas declararam sua disposição em favorecer a saída da Espanha de um milhão de trabalhadores estrangeiros…
Em meio a essa situação de espanto, ocorre o terceiro choque do petróleo, com o preço do barril em torno de US$ 140. Um aumento irracional (há dez anos o barril custava menos de US$ 10) devido não apenas a uma demanda despropositada mas, especialmente, à ação de muitos especuladores, que apostam no aumento contínuo de um combustível em vias de extinção. Retirando-se da bolha imobiliária, que desinfla, os investidores alocam somas colossais em contratos para entrega futura de petróleo, o que pode levar o preço do barril a algo em torno de US$ 200.
Ou seja: está ocorrendo uma “financeirizacão” do petróleo, com conseqüências como formidáveis aumentos de preços da gasolina, em muitos países, e a ira de pescadores, caminhoneiros, agricultores, taxistas e todos os profissionais mais afetados. Em muitos casos, eles exigem de seus governos ajudas, subsídios ou reduções dos impostos, com grandes manifestações e enfrentamentos.
Como se todo esse contexto não fosse bastante sombrio, a crise alimentar agravou-se repentinamente e chega para nos lembrar que o espectro da fome continua ameaçando quase um bilhão de pessoas. Em cerca de 40 países, a carência de alimentos provocou levantes e revoltas populares. A reunião de cúpula da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), foi incapaz, em 5 de junho, em Roma, de chegar a um consenso para retomar a produção de alimentos no mundo. Aqui também os especuladores, fugindo do desastre financeiro, têm parte de responsabilidade — porque apostam num preço elevado das futuras colheitas. Até mesmo a agricultura está se “financeirizando”.
Este é o saldo deplorável de 25 anos de neoliberalismo: três venenosas crises entrelaçadas. Já está na hora de os cidadãos gritarem: “Basta!”.

Postado em 19/08/2008 ás 16:51

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A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas

Adorno e Horkheimer

Na opinião dos sociólogos, a perda do apoio que a religião objetiva fornecia, a dissolução dos últimos resíduos pré-capitalistas, a diferenciação técnica e social e a extrema especialização levaram a um caos cultural. Ora, essa opinião encontra a cada dia um novo desmentido. Pois a cultura contemporânea confere a tudo um ar de semelhança. O cinema, o rádio e as revistas constituem um sistema. Cada setor é coerente em si mesmo e todos o são em conjunto. Até mesmo as manifestações estéticas de tendências políticas opostas entoam o mesmo louvor do ritmo de aço. Os decorativos prédios administrativos e os centros de exposição industrial mal se distinguem nos países autoritários e nos demais países. Os edifícios monumentais e luminosos que se elevam por toda a parte são os sinais exteriores do engenhoso planejamento das corporações internacionais, para o qual já se precipitava a livre iniciativa dos empresários, cujos monumentos são os sombrios prédios residenciais e comerciais de nossas desoladoras cidades. Os prédios mais antigos em torno dos centros urbanos feitos de concreto já parecem slums [cortiços] e os novos bungalows na periferia da cidade já proclamam, como as frágeis construções das feiras internacionais, o louvor do progresso técnico e convidam a descartá-los como latas de conserva após um breve período de uso. Mas os projetos de urbanização que, em pequenos apartamentos higiênicos, destinam-se a perpetuar o indivíduo como se ele fosse independente, submetem-no ainda mais profundamente a seu adversário, o poder absoluto do capital. Do mesmo modo que os moradores são enviados para os centros, como produtores e consumidores, em busca de trabalho e diversão, assim também as células habitacionais cristalizam-se em complexos densos e bem organizados. A unidade evidente do macrocosmo e do microcosmo demonstra para os homens o modelo de sua cultura: a falsa identidade do universal e do particular. Sob o poder do monopólio, toda cultura de massas é idêntica, e seu esqueleto, a ossatura conceitual fabricada por aquele, começa a se delinear. Os dirigentes não estão mais sequer muito interessados em encobri-lo, seu poder se fortalece quanto mais brutalmente ele se confessa de público. O cinema e o rádio não precisam mais se apresentar como arte. A verdade de que não passam de um negócio, eles a utilizam como uma ideologia destinada a legitimar o lixo que propositalmente produzem. Eles se definem a si mesmos como indústrias, e as cifras publicadas dos rendimentos de seus diretores gerais suprimem toda dúvida quanto à necessidade social de seus produtos.

Os interessados inclinam-se a dar uma explicação tecnológica da indústria cultural. O fato de que milhões de pessoas participam dessa indústria imporia métodos de reprodução que, por sua vez, tornam inevitável a disseminação de bens padronizados para a satisfação de necessidades iguais. O contraste técnico entre poucos centros de produção e uma recepção dispersa condicionaria a organização e o planejamento pela direção. Os padrões teriam resultado originariamente das necessidades dos consumidores: eis porque são aceitos sem resistência. De fato, o que explica é o círculo da manipulação e da necessidade retroativa., no qual a unidade do sistema se torna cada vez mais coesa. O que não se diz é que o terreno no qual a técnica conquista seu poder sobre a sociedade é o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade. A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada de si mesma. Os automóveis, as bombas e o cinema mantêm coeso o todo e chega o momento em que seu elemento nivelador mostra sua força na própria injustiça à qual servia. Por enquanto, a técnica da indústria cultural levou apenas à padronização e à produção em série, sacrificando o que fazia a diferença entre a lógica da obra e a do sistema social. Isso, porém, nãoi deve ser atribuído a nenhuma lei evolutiva da técnica enquanto tal, mas à sua função na economia atual. A necessidade que talvez pudesse escapar ao controle central já é recalcada pelo controle da consciência individual. A passagem do telefone ao rádio separou claramente os papéis. Liberal, o telefone permitia que os participantes ainda desempenhassem o papel do sujeito. Democrático, o rádio transforma-os a todos igualmente em ouvintes, para entregá-los autoritariamente aos programas, iguais uns aos outros, das diferentes estações. Não se desenvolveu nenhum dispositivo de réplica e as emissões privadas são submetidas ao controle. Elas limitam-se ao domínio apócrifo dos “amadores”, que ainda por cima são organizados de cima para baixo. No quadro da rádio oficial, porém, todo traço de espontaneidade no público é dirigido e absorvido, numa seleção profissional, por caçadores de talentos, competições diante do microfone e toda espécie de programas patrocinados. Os talentos já pertencem à indústria muito antes de serem apresentados por ela: de outro modo não se integrariam tão fervorosamente. A atitude do público que, pretensamente e de fato, favorece o sitema da indústria cultural é uma parte do sistema, não sua desculpa. Quando um ramo artístico segue a mesma receita usada por outro muito afastado dele quanto aos recursos e ao conteúdo; quando, finalmente, os conflitos dramáticos das novelas radiofônicas tornam-se o exemplo pedagógico para a solução de dificuldades técnicas, que, à maneira do jam [improvisação jazzística], são dominadas do mesmo modo que nos pontos culminantes da vida jazzística; ou quando a “adaptação” deturpadora de um movimento de Beethoven se efetua do mesmo modo que a adaptação de um romance de Tolstoi pelo cinema, o recurso aos desejos espontâneos do público torna-se uma desculpa esfarrapada. Uma explicação que se aproxima mais da realidade é a explicação a partir do peso específico do aparelho técnico e do pessoal, que devem todavia ser compreendidos, em seus menores detalhes, como partes do mecanismo econômico de seleção. Acresce a isso o acordo, ou pelo menos a determinação comum dos poderosos executivos, de nada produzir ou deixar passar que não corresponda a suas tabelas, à idéia que fazem dos consumidores e, sobretudo, que não se assemelha a eles próprios.

Se, em nossa época, a tendência social objetiva se encarna nas obscuras intenções subjetivas dos diretores gerais, estas são basicamente as dos setores mais poderosos da indústria: aço, petróleo, eletricidade, química. Comparados a esses, os monopólios culturais são fracos e dependentes. Eles têm que se apressar em dar razão aos verdadeiros donos do poder, para que sua esfera na sociedade de massas ─ esfera essa que produz um tipo específico de mercadoria que ainda tem muito a ver com o liberalismo bonachão e os intelectuais judeus ─ não seja submetida a uma série de expurgos. A dependência em que se encontra a mais poderosa sociedade radiofônica em face da indústria elétrica, ou a do cinema relativamente aos bancos, caracteriza a esfera inteira, cujos setores individuais por sua vez se interpenetram numa confusa trama econômica. Tudo está tão estreitamente justaposto que a concentração do espírito atinge um volume tal que lhe permite passar por cima da linha demarcatória entre as diferentes firmas e setores técnicos. A unidade implacável da indústria atesta a unidade em formação da política. As distinções enfáticas que se fazem entre os filmes das categorias A e B, ou entre as histórias publicadas em revistas de diferentes preços, têm menos a ver com seu conteúdo do que com sua utilidade para a classificação, organização e computação estatística dos consumidores. Para todos algo está previsto; para que ninguém escape, as distinções são acentuadas e difundidas. O fornecimento ao público de uma hierarquia de qualidade serve apenas para uma quantificação mais completa. Cada qual deve se comportar, como que espontaneamente, em conformidade com seu level [nível], previamente caracterizado por certos sinais, e escolher a categoria dos produtos de massa fabricado para seu tipo. Reduzidos a um simples material estatístico, os consumidores são distribuídos nos mapas dos institutos de pesquisa (que não se distinguem mais dos de propaganda) em grupos de rendimentos assinalados por zonas vermelhas, verdes e azuis.

O esquematismo do procedimento mostra-se no fato de que os produtos mecanicamente diferenciados acabam por se revelar sempre como a mesma coisa. A diferença entre a série Chrysler e a série General Motors é no fundo uma distinção ilusória, como já sabe toda criança interessada em modelos de automóveis. As vantagens e desvantagens que os conhecedores discutem servem apenas para perpetuar a ilusão da concorrência e da possibilidade de escolha. O mesmo se passa com as produções de Warner Brothers e da Metro Goldwyn Mayer. Até mesmo as diferenças entre os modelos mais caros e mais baratos da mesma firma se reduzem cada vez mais: nos automóveis, elas se reduzem ao número de cilindros, capacidade, novidade dos gadgets [acessórios], nos filmes ao número de estrelas, á exuberância da técnica, do trabalho e do equipamento, e ao emprego de fórmulas psicológicas mais recentes. O critério unitário de valor consiste na dosagem da conspicuous production [produção ostensiva], do investimento ostensivo. Os valores orçamentários da indústria cultural nada têm a ver com os valores objetivos, com o sentido dos produtos. Os próprios meios técnicos tendem cada vez mais a se uniformizar. A televisão visa uma síntese do rádio e do cinema, que é retardada enquanto os interessados não se põem de acordo, mas cujas possibilidades ilimitadas prometem aumentar o empobrecimento dos materiais estéticos a tal ponto que a identidade mal disfarçada dos produtos da indústria cultural pode vir a triunfar abertamente já amanhã ─ numa realização escarninha do sonho wagneriano da obra de arte total. A harmonização da palavra, da imagem e da música logra um êxito ainda mais perfeito do que no Tristão, porque os elementos sensíveis ─ que registram sem protestos, todos eles, a superfície da realidade social ─ são em princípio produzidos pelo mesmo processo técnico e exprimem sua unidade como seu verdadeiro conteúdo. Esse processo de elaboração integra todos os elementos da produção, desde a concepção do romance (que já tinha um olho voltado para o cinema) até o último efeito sonoro. Ele é o triunfo do capital investido. Gravar sua onipotência no coração dos esbulhados que se tornaram candidatos a jobs [empregos] como a onipotência de seu senhor, eis aí o que constitui o sentido de todos os filmes, não importa o plot [enredo] escolhido em cada caso pela direção de produção.

Socialismo e Liberdade

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GOLPE NO MARANHÃO

(por Mário Augusto Jakobskind)

O clã Sarney continua a imaginar que o Maranhão é sua capitania hereditária. Depois de várias décadas dominando o Estado, Sarney foi derrotado na última eleição do Governo do Estado. Jackson Lago, um político íntegro e responsável por uma excelente administração como prefeito de São Luiz, acabou derrotando a filha Roseana Sarney.
O chefe do clã, José Sarney, que serviu à ditadura brasileira com afinco e no final, tal qual fazem os ratos quando constatam que o navio está afundando, bandeou-se para a oposição. Virou Presidente da República porque o titular Tancredo Neves, morreu antes de tomar posse. O homem forte do Maranhão tornou-se Presidente e ampliou o seu poder em todos os níveis, da área midiática a tudo mais.
Em outubro de 2006 pintou na área o doutor (doutor mesmo porque ele é médico) Jackson Lago, que desbancou Dom Sarney derrotando a filhota Roseana. O pai, agora senador do Amapá, nunca se conformou com o resultado. Colocou o seu império midiático em oposição cerrada a Lago. Para se ter uma idéia, a mídia de Sarney no Maranhão repetiu o que as Organizações Globo fizeram no Estado do Rio de Janeiro nos dois governos de Leonel Brizola. Não deu sossego a Lago.
Vendo que o tempo estava passando e nada de resultado para reocupar a máquina estatal maranhense, a turma do Sarney decidiu ingressar na Justiça Eleitoral para desbancar o legítimo representante do povo com argumentos inconsistentes.
Segundo informa o blog do Josias, a coligação da candidata derrotada moveu uma ação contra Lago sob a acusação de que o então governador do Maranhão, o ex-aliado do clã Sarney, José Reinaldo, teria usado a máquina do Estado em favor do candidato do PDT.
Segundo a ação impetrada pela patota de Dom Sarney, Reinaldo teria beneficiado com os convênios supostamente "eleitoreiros" outros dois candidatos anti-Roseana: Edson Vidigal (PSB) e Aderson Lago (PSDB). O argumento não se sustenta, segundo o advogado de defesa de Jackson Lago, Francisco Resek. Ele sustenta que a prevalecer o entendimento de que os convênios visavam favorecer três candidatos, teriam de ser anulados os votos de todos eles. Neste caso, iriam ao lixo mais da metade dos votos "depositados" pelo eleitor maranhense nas urnas de 2006. O que levaria à realização de novo pleito, não à posse de Roseana Sarney, como quer o clã Sarney.
Na verdade, os Sarney não admitem a possibilidade de o Estado do Maranhão ter entrado numa nova etapa com um governo que realmente defende os interesses populares e não do clã. O Ministério Público encampou a tese da acusação. Em parecer de 15 folhas, o vice-procurador Eleitoral Francisco Xavier Pinheiro Filho recomendou a cassação do mandato de Jackson Lago e do vice Luiz Carlos Porto (PPS) Ainda segundo o blog do Josias, levantamento feito pela defesa constatou que o representante do Ministério Público só precisou de 16 dias para examinar 50 volumes. Coisa de 15 mil páginas. Recorde dos recordes, que não teve a mesma prioridade de outros processos do gênero.
Os ministros do Tribunal Superior Eleitoral vão decidir nesta terça-feira a ação que visa tão somente a retomada do aparelho de Estado pelo clã Sarney. Se cassarem Jackson Lago estará caracterizado um golpe de estado por via judiciária.
O PODER DO CLÃ - Para ser ter uma idéia de como o Maranhão sofre com a influência dos Sarney, vale reproduzir informe sobre os nomes de várias instituições e até estradas naquele Estado. E bota influência.
Tem maternidade com nome de Marly Sarney.
Para morar, o maranhense pode escolher uma das vilas: Sarney, Sarney Filho, Kiola Sarney ou Roseana Sarney.
Para estudar, há as seguintes opções de escolas: Sarney Neto, Roseana Sarney, Fernando Sarney, Marly Sarney e José Sarney.
Para pesquisar, apanhe um táxi no Posto de Saúde Marly Sarney e vá até a Biblioteca José Sarney, que fica na maior universidade particular do Estado do Maranhão, que o povo jura que pertence a um tal de José Sarney.
Para inteirar-se das notícias, leia o jornal O Estado do Maranhão, ou ligue a TV na TV Mirante, ou, se preferir ouvir rádio, sintonize as Rádios Mirante AM e FM, todas do tal José Sarney. Se estiver no interior do Estado ligue para uma das 35 emissoras de rádio ou 13 repetidoras da TV Mirante, todas do mesmo proprietário.
Para saber sobre as contas públicas, vá ao Tribunal de Contas Roseana Murad Sarney (batizado com esse nome, coisa proibida pela Constituição, lei que no Estado do Maranhão não tem nenhum valor) .
Para entrar ou sair da cidade, atravesse a Ponte José Sarney, pegue a Avenida José Sarney, vá até a Rodoviária Kiola Sarney. Lá, se quiser, pegue um ônibus caindo aos pedaços, ande algumas horas pelas ‘maravilhosas’ rodovias maranhenses e aporte no município José Sarney.
Não gostou de nada disso? Então, quer reclamar? Vá ao Fórum José Sarney e procure a Sala de Imprensa Marly Sarney. Informe-se e dirija-se à Sala de Defensoria Pública Kiola Sarney.
Precisa dizer mais alguma coisa?

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Brasil - Flexibilizar direitos trabalhistas não evita desemprego

Marcela Rocha *

Adital -
“Essa dicotomia que as empresas apresentam de que só se preserva empregos flexibilizando direitos é falsa. Não existe ‘ou um ou outro’, é possível os dois: manter direitos e preservar empregos”. A análise é de Ricardo Antunes, professor e pesquisador sobre trabalho e sua nova morfologia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Empresários e governo do estado de São Paulo apresentam ao Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador (Codefat) - do Ministério do Trabalho e Emprego - nesta quarta-feira, 17, uma proposta de flexibilizar direitos trabalhistas. Segundo a comissão elaboradora, é uma medida emergencial para atenuar os impactos da crise econômica internacional no emprego formal. O intuito é, por meio de uma medida provisória, suspender temporariamente os contratos de trabalho e, para isto, alterar a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).

Em entrevista a Terra Magazine, Antunes refuta a idéia de que é preciso flexibilizar direitos para assegurar os empregos mesmo num momento de crise.
- Espanha não fez isso, nem os Estados Unidos, nem Inglaterra, França, Itália, Argentina. Por quê? Não há nenhuma experiência mundial que mostre que flexibilizar é garantir empregos - contesta o professor.
Antunes enxerga uma “inversão perversa de valores”, mas acredita ser possível uma negociação diferente. Para o pesquisador, o aumento significativo de desempregados no País significa mais candidatos à miséria e ao aumento da criminalidade.
Ele enfatiza que esses fatores, juntos, alimentam a “economia do narcotráfico”. E completa: “Inclusive este é o único setor que se expande durante crises”.

Veja a entrevista na íntegra:

Terra Magazine - É possível manter os empregos sem flexibilizar os direitos trabalhistas?

Ricardo Antunes - Esta proposta de flexibilização é uma forma falaciosa de diminuir o emprego. Como se eu dissesse: Vou reduzir os seus direitos para garantir os seus direitos. Não é verdade que essa medida asseguraria os empregos. Não só os direitos são perdidos como se abre uma brecha para que eles nunca mais voltem a existir. O único jeito de garantir que isto não aconteça em uma situação de crise é se a empresa reconhecer o quanto ganhou nos últimos anos e que agora é o momento de preservar os empregos. Porque flexibilização é uma forma de precarização.

- Por que flexibilizar a CLT?
- A CLT brasileira já não é rígida, ela abre espaço para negociações entre empresas e trabalhadores, via sindicatos. Mas o grande problema é que estas negociações saem caro para os empregados porque enquanto a empresa lucra não há divisão dos ganhos, mas em momento de crise, as negociações socializam os ônus. Isto é uma visão microcósmica da crise. A Vale, por exemplo, depois da privatização, lucrou muito e manter isto é a clausula pétrea da empresa, e não assegurar os direitos dos seus empregados. Mas quero lembrar que não foram os trabalhadores que entraram na ciranda financeira. Existe uma inversão perversa de valores.

- Pelo que o senhor disse, flexibilizar aumentaria o desemprego ou o número de trabalhadores informais?
- Queria ver se propusessem flexibilizar os lucros das empresas. Estamos em um momento de garantir direitos e não de destruí-los. Isto é, se estivéssemos em um país socialmente mais sério. Se um trabalhador é demitido hoje, num momento de crise profunda, onde ele será admitido? Em lugar nenhum. E os desempregados, fazem o que para sobreviver? Mais candidatos à pobreza e miséria. Aumenta a criminalidade e alimenta a economia do narcotráfico. Inclusive este é o único setor que se expande durante crises.

- Mas flexibilizar os direitos trabalhistas não evitaria o desemprego em massa?
- Há um senso comum de que flexibilizar vai garantir empregos, mas a Espanha não fez isso, nem os Estados Unidos, nem Inglaterra, França, Itália, Argentina. Por quê? Não há nenhuma experiência mundial que mostre que flexibilizar é garantir empregos. Muito pelo contrário, é muito mais próximo de precarizar do que de garantir emprego e estabilidade. É um discurso que não tem sustentação, olhemos para as experiências históricas. No caso do Brasil, o Fernando Henrique Cardoso começou com a flexibilização dos direitos trabalhista ao criar o contrato provisório. Foi bom? Quando faltava um dia para completar três meses em um emprego, o trabalhador era demitido para que não se configurasse como empregado da instituição. Essa maleabilidade é interessante aos empresários, é claro, para que seus lucros não diminuam na altura em que a atual crise quer lhes impor.

- Então não há como negociar?
É claro que é possível negociar. Essa dicotomia que as empresas apresentam de que só se preserva empregos flexibilizando direitos é falsa. Não existe ‘ou um ou outro’, é possível os dois: manter direitos e preservar empregos.

- Como?
- A condição para garantir direitos é preservá-los e ampliá-los. Num passado recente criaram o banco de horas, para que os empregados trabalhassem mais de oito horas. Chega a crise e são obrigados a parar. Como fica a estabilidade da família? Completamente vulneráveis, não sabem se haverá férias, quanto vão receber, se trabalham duas ou 12 horas. Flexibilizar é como uma mola. As empresas reconhecem que com a crise custos precisam ser cortados para que consigam se manter na concorrência global. O problema é: o custo que querem cortar é o custo-trabalho. Precisamos rediscutir qual tipo de sociedade queremos.

- De maneira mais prática, existe a possibilidade de manter ambos, direitos e empregos?
- A OIT já afirmou que até o final de 2009 espera-se 20 milhões de desempregados. Não podemos nem cogitar a idéia de que para manter a competitividade entre as empresas tenhamos que cortar empregos e nem que para mantê-los sejam cortados direitos. É a partir daí que devem começar as negociações.

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