Arquivo de Janeiro de 2009

Unicef divulga relatório sobre mortalidade infantil e materna

21.01.09 - MUNDO

Unicef divulga relatório sobre mortalidade infantil e materna

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Cerca de 1.500 mulheres morrem a cada dia no mundo devido a complicações relacionadas à gravidez e ao parto. Desde 1990, estima-se que o número de mortes maternas produzidas a cada ano supere a marca dos 500 mil, representando quase 10 milhões de mortes maternas durante os últimos 19 anos. Os dados estão presentes no relatório "Estado mundial da infância 2009", elaborado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Segundo o relatório, a desigualdade entre os países industrializados e as regiões em desenvolvimento é talvez maior no que se refere à mortalidade materna que em qualquer outro aspecto. Dados de 2005 revelam que o risco de morte como resultado de complicações relacionadas à gravidez e ao parto de mulheres de países menos desenvolvidos é 300 vezes maior que no caso de mulheres que vivem em países industrializados.

O Unicef alerta ainda que milhões de mulheres que sobrevivem ao parto sofrem lesões, infecções, doenças e deficiências relacionadas á gravidez, acarretando conseqüências para toda a vida. A mortalidade infantil também preocupa o organismo. Quase 40% das mortes de menores de cinco anos se produzem durante os primeiro 28 dias de vida, o que corresponde ao período neonatal. Três quartas partes das mortes neonatais ocorrem durante os primeiros setes dias. O maior risco se dá durante o primeiro dia depois do nascimento, quando ocorrem entre 25% e 45% dessas mortes.

Outro ponto abordado pelo relatório se refere à considerável desigualdade sanitária em matéria de mortalidade neonatal. De acordo com o Unicef, um bebê nascido em um país menos desenvolvido tem 14 vezes mais probabilidades de morrer durante os primeiros 28 dias de vida que aquele que nasce no país industrializado. O número de mortes de mães e recém-nascidos é muito maio nos continentes africano e asiático, totalizando 95% das mortes maternas e cerca de 90% das mortes de recém-nascidos.

Dentre as principais causas de morte materna e neonatal, o relatório cita as práticas de aborto e as complicações obstétricas, como hemorragias pós-parto, infecções, eclampsia, as obstruções durante o parto ou parto prolongado. Segundo o documento, a anemia, o HIV e outros transtornos aumentam o risco de mortalidade derivada da maternidade por causa de uma hemorragia.

Já para os recém-nascidos, o Unicef aponta que os maiores riscos se devem a três causas principais: infecções graves, asfixia e os nascimentos prematuros. Essas causas representam em conjunto 86% das mortes neonatais. O Unicef afirma que a maior parte desses transtornos pode ser evitada ou tratada com medidas essenciais como a prestação de serviços de saúde da reprodução de qualidade, a presença durante o parto de trabalhadores de saúde capacitados, acesso à atenção obstétrica.

O relatório acrescenta que se deve criar um entorno propício para a saúde materna e neonatal. Isso quer dizer que é necessário fazer frente às barreiras sociais, econômicas e culturais que perpetuam a desigualdade e a discriminação por motivos de gênero. Entre as recomendações, o Unicef sugere: educar mulheres e crianças e diminuir a pobreza que as afeta; protege-las do maltrato, da exploração, da discriminação e da violência; promover sua participação e sua presença na tomada de decisões relativas ao lar, assim como na vida política e econômica.

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João Goulart foi vigiado até pela empregada no exílio

Documentos inéditos indicam que serviço secreto uruguaio monitorava Jango dentro de sua própria casa. Papéis mostram também que, um mês antes de morrer, ex-presidente brasileiro renunciou ao asilo político

Rodrigo Rangel - Revista Época

Documentos do Ministério do Interior e do Ministério da Defesa do Uruguai revelam que o serviço secreto do país vigiava cada passo do ex-presidente brasileiro João Goulart no exílio. Num deles, há referências a informações repassadas por uma suposta empregada da casa de Jango no Uruguai, identificada como Margarita Suarez.
Margarita, cujo nome aparece entre aspas no documento, teria dado informações acerca de uma viagem de Jango a Paris, para suposto tratamento médico. “Segundo manifestação da doméstica de Marques Goulart, ‘Margarita Suarez’, o mesmo viajou em seu avião particular até Buenos Aires no dia 2 de outubro, e que prosseguiria a viagem em uma companhia internacional até Paris”, diz o texto, datilografado.

 Reprodução

Em documento do serviço secreto uruguaio, a empregada revelava uma viagem do ex-presidente brasileiro a Paris

Os documentos registram, também, os negócios de Jango em território uruguaio – o ex-presidente possuía fazendas e frigoríficos no país – e fazem referência a um golpe financeiro milionário sofrido por ele. O ex-presidente teria tido prejuízo de mais de US$ 20 milhões, em valores da época, com o roubo de um volume considerável de ações ao portador que guardava no exílio.

 Reprodução

Um mês antes de morrer, João Goulart, que presidiu o Brasil entre 1961 e 1964, teria aberto mão da condição de asilado no Uruguai

Outro ofício, encaminhado pelo próprio Jango ao Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, traz uma informação até hoje inédita: um mês antes de morrer, o ex-presidente brasileiro renunciou à condição de asilado político no Uruguai. No documento, Jango escreve que renunciava ao asilo para tentar obter, em seguida, o status de residente no Uruguai. O ofício data de 9 de novembro de 1976. Jango morreria no dia 6 de dezembro do mesmo ano. Pela versão oficial, teria sofrido um ataque cardíaco.
Na mesma época em que Jango renunciou ao asilo, outros brasileiros exilados no Uruguai fizeram o mesmo. Entre eles, o atual ministro da Justiça, Tarso Genro. O ex-presidente buscara asilo no Uruguai após ser deposto pelo golpe militar de 1964.

A data do documento em que Jango renuncia ao asilo coincide com um período em que, no Brasil, circulavam especulações de que ele poderia voltar ao país. O momento era propício. Nos Estados Unidos, Jimmy Carter tinha acabado de ser eleito e assumir um discurso a favor dos direitos humanos no Cone Sul, então dominado por ditaduras. Lideranças de vários países da região que estavam exiladas já planejavam retornar aos seus países de origem, o que passou a ser visto como uma ameaça pelos governos militares.
A exemplo de Jango, algumas dessas lideranças morreram antes de voltar. É o caso do socialista Juan José Torres Gonzáles, que havia sido presidente da Bolívia. Ele foi morto em junho de 1976, em Buenos Aires. Outros importantes dissidentes dos regimes militares morreram no mesmo ano, como os parlamentares uruguaios Zelmar Micheline e Héctor Gutierrez Ruiz e o ex-embaixador chileno Orlando Letelier. Alguns analistas defendem a tese de que a onda de mortes de políticos opositores teria sido coordenada pelos serviços secretos dos governos militares como forma de evitar que eles retornassem aos seus países e passassem a ser uma ameaça às ditaduras de plantão.

 Reprodução

Um mês antes de morrer, Jango abriu mão do asílio no Uruguai: no documento, ele diz que pretendia viver no país como residente

Os papéis foram obtidos junto ao governo uruguaio pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Brasil. Para o presidente da entidade, o advogado Jair Krischke, o material mostra o esforço dos serviços secretos do Cone Sul, à época sob o comando de governos militares, para vigiar políticos inimigos e reforça as suspeitas de que Jango possa ter sido assassinado. “É estranha a coincidência. Com o fim do asilo, a ditadura uruguaia estava livre de qualquer cobrança futura de responsabilidades sobre a segurança de Jango”, afirma Krischke, ele próprio um ex-perseguido da ditadura.
Para Krischke, um dos dados mais relevantes dos documentos está na suposta cooperação da empregada de Jango com os agentes secretos uruguaios. “Em todos os documentos, o nome dela é o único nome que aparece entre aspas, o que indica que na verdade poderia se tratar de um codinome”, diz. Segundo ele, familiares de Jango confirmam que o ex-presidente tinha realmente uma empregada chamada Margarita.
Todo o material será entregue nesta sexta-feira ao Ministério Público Federal. Procuradores do órgão no Rio Grande do Sul conduzem uma investigação destinada a apurar a suspeita de que Jango possa ter sido morto pela chamada Operação Condor, como ficou conhecida a articulação entre serviços secretos dos países sul-americanos durante os anos de chumbo.
Um ex-agente de inteligência do governo uruguaio preso no Rio Grande do Sul afirma que Jango foi envenenado. Mario Barreiro, que cumpre pena no Brasil por tráfico de armas e roubo, diz ter participado da suposta operação que teria culminado na morte do ex-presidente brasileiro.

Revista Época

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Filha de Che Guevara acredita que crise não afetará Cuba

Amanda Cieglinski e Luana Lourenço
Enviadas Especiais

Belém - Filha de uma das figuras mais emblemáticas da esquerda latino-americana, o revolucionário argentino Ernesto Che Guevara, a pediatra cubana Aleida Guevara acredita que a crise financeira internacional não vai afetar o cotidiano nem a economia de Cuba e afirma que os anos de bloqueio à ilha levaram à criação de alternativas internas, que em tempos de crise, podem até ser exemplos para outros países.

“Nunca tivemos apoio financeiro de nenhuma instituição internacional. A crise não nos afeta diretamente. O mundo vai começar a sofrer, mas nós já sofremos há muito tempo, estamos acostumados.”

Em entrevista à Agência Brasil, Aleida também falou sobre as expectativas cubanas referentes ao novo presidente norte-americano Barack Obama, mas adiantou que não acredita no fim do bloqueio econômico imposto à ilha na década de 60. “O fim do bloqueio seria um florescimento da economia interna do país. E essa é uma propaganda que os EUA não  podem se dar ao luxo de promover”.

Aleida está no Brasil para o Fórum Social Mundial, em Belém, onde fez apresentações sobre a Revolução Cubana, que em 2009 completa 50 anos.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista com Aleida Guevara:

Agência Brasil: A atual crise financeira afeta Cuba de uma maneira diferente? Como está sendo isso para vocês?
Aleida Guevara: A primeira diferença é que nós não temos apoio financeiro de nenhuma instituição internacional. A partir daí, quando há crise nessas instituições, isso não nos afeta diretamente. Não afeta, portanto, a carência de produtos de outras partes do mundo, porque temos que comprá-los e Cuba sempre tem muito trabalho para adquirir essas mercadorias pelo bloqueio. Às vezes temos que comprar por intermediários, vários intermediários e isso faz o produto muito caro para o país. Sempre tivemos esse problema, então para nós não é novo. O mundo vai começar a sofrer, mas nós já sofremos há muito tempo, estamos acostumados. A solução encontrada é produzir internamente. Agora estamos reativando toda a nossa agricultura apesar dos três furacões horríveis que passaram lá e praticamente destruíram o país. Neste momento, há em Cuba quase mais plantações do que antes do ciclone.
ABr: Que expectativas a eleição do novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, traz para Cuba?
Aleida Guevara:
É interessante essa mudança. Já é histórica por ser o primeiro presidente negro dos EUA, isso é um feito fora de série. No entanto, pela Constituição dos EUA, o presidente praticamente não tem poder. O presidente depende do Senado, como acontece aqui também [no Brasil]. Se você não tem a maioria do Senado, é como se não fosse presidente. E o governo dos EUA está na mão das transnacionais, elas que dizem se há guerra aqui, se há guerra lá, se fazem isso aqui, se mudam um pouco lá. São elas que decidem a política exterior dos EUA. Então, essa mudança não vai ser grande coisa.
ABr: Há alguma expectativa sobre o fim do bloqueio?
Aleida Guevara: Os EUA estão em uma situação muito complicada, enfrentando uma crise econômica bruta e com um efetivo de mais de 60 mil pessoas em guerra com outros povos. O Obama não tem poder, de acabar com o bloqueio a Cuba, só o Senado [norte-americano] pode fazer isso. Mas, para além disso, vamos imaginar que Obama acabe com o bloqueio, o que seria muito justo, mas você imagina Cuba sem bloqueio? Se agora nós podemos mandar 30 mil profissionais da saúde para outras partes do mundo, imagine sem o bloqueio o que nós seríamos capazes de fazer. Seria um florescimento imenso da economia interna do país. E essa é uma propaganda que os EUA não se podem se dar ao luxo de promover.
ABr:
As mudanças que ocorreram na cena política da América Latina atualmente indicam um novo modelo em construção? Está próximo das mudanças que o seu pai queria?
Aleida Guevara: Talvez estejamos no caminho. Parece-me que este é o momento da América Latina retomar o poder e mudar nossa realidade. É um momento especial, mas falta muito. Falta muita unidade entre os nossos povos. As discussões que aparecem por exemplo entre Peru e Chile, Brasil e Bolívia, são coisas que nos colocam a discutir bobagens quando deveríamos buscar a unidade como um objetivo comum dos nosso povos. Melhorar nossa assistência, melhorar nossa vida, ter muitas mais coisas, porque somos ricos como povos. Podemos ter muito mais coisas, mas temos que ser mais solidários uns com os outros.
ABr:
Como é para você ver a imagem de seu pai estampada em tantas camisetas espalhadas aqui pelo Fórum, muitas vezes vestidas por pessoas que nem eram nascidas quando Che morreu?
Aleida Guevara: Às vezes isso se converte em negócio, um mau negócio, porque são vendidas por pessoas que buscam dinheiro. De toda a maneira, buscamos o lado positivo dessa questão. Quando homens e mulheres se perguntam, e esse homem, bonito quem é? Porque meu pai era muito bonito. Mas quando elas se perguntam e averiguam de fato quem era Che Guevara , o que ele fez, por que morreu em combate, se a pessoa souber disso, então é positivo para nós. Simplesmente que a pessoa receba a informação adequada e decida se põe a camiseta só para exibir um homem bonito ou pelo o que esse homem fez por nós.

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Valor da dívida pública federal supera R$ 400 bilhões em 2009

Apenas os gastos públicos com juros representaram uma média de 7% ao ano do total do PIB. Clique aqui para ouvir(1′42′’ / 404 Kb) - Números do Tesouro Nacional mostram que neste ano o valor bruto da dívida pública federal será superior a R$ 400 bilhões. O número representa cerca de 18% do Produto Interno Bruto (PIB) – soma de todas as riquezas produzidas no país. Entre os anos 2000 e 2007 o gasto do governo com o pagamento dos juros da dívida foi de R$ 1,2 trilhão.
No mesmo período, os recursos investidos em educação e saúde totalizaram cerca de R$ 550 bilhões. Apenas os gastos públicos com juros representaram uma média de 7% ao ano do total do PIB. A integrante da Auditoria Cidadã, Maria Lúcia Fattorelli, defende uma auditoria desta dívida e lembra que há décadas ela está sendo paga e tendo prioridade sobre todos os demais gastos.
“Uma auditoria é que vai dizer se esta dívida deve, ou não, continuar sendo paga. E a sociedade brasileira já se manifestou sobre isso, lá em 2000, quando foi realizado aquele grande plebiscito da dívida. Uma das perguntas era exatamente se nós deveríamos continuar pagando a dívida, sem realizar a auditoria prevista na constituição federal brasileira de 1988. Até hoje não realizaram. Mais de seis milhões de pessoas participaram deste plebiscito respondendo não.”
Para continuar arcando com custos, como o do pagamento da dívida, o governo federal anunciou um corte de R$ 32 bilhões de reais no orçamento deste ano. Ministérios como o do Esporte e Turismo poderão perder cerca de 95% das verbas previstas no primeiro trimestre deste ano.
De São Paulo, da Radioagência NP, Juliano Domingues.
29/01/09

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Movimentos cobram mais ação de Chavez, Evo, Lugo e Correa

"Esperamos mais de vocês, queremos mudanças estruturais, não remédios para o capital", disse João Pedro Stedile, dirigente do MST e o principal articulador do encontro dos movimentos sociais com presidentes da Venzuela, Bolívia, Paraguai e Equador. Movimentos defendem programa mínimo para derrotar a crise, com medidas como o rompimento com a dependência externa, a nacionalização dios bancos e uma moeda regional própria.

Verena Glass  - Carta Maior

BELÉM - Pela primeira vez na história do Fórum Social Mundial, o já tradicional diálogo dos movimentos sociais com chefes de estado, que nas edições anteriores de Porto Alegre e Caracas se resumiram ao presidente venezuelano Hugo Chávez, reuniu, nesta quinta (29), quatro mandatários - Hugo Chavez, Evo Morales, da Bolívia, Fernando Lugo, do Paraguai, e Rafael Correa, do Equador - no ginásio esportivo do campus da Universidade Estadual do Pará em um evento sobre integração popular na América Latina.
Coordenado pelo MST, o encontro não incluiu o presidente Lula porque, a princípio, o tema seria a Alternativa Bolivariana para as Américas (proposta alternativa de integração da região puxada pela Venezuela) da qual o Brasil não faz parte.

Primeiro a chegar ao evento, Correa, o menos envolvido historicamente com os movimentos sociais latinoamericanos, aproveitou o tempo de atraso de Chávez para dar provas de um talento artístico até então pouco conhecido. Todo sorrisos ao microfone, cantou acompanhado de músicos cubanos e levantou a platéia, numa demonstração de descontração neste meio não tão familiar.
Apesar da forte cordialidade que marcou o evento, os quatro mandatários também ouviram cobranças. De acordo com a economista equatoriana Magdalena Leon, coordenadora da Rede Latino-americana de Mulheres Transformando a Economia (Remte), é preciso avançar nas atuações conjuntas tanto entre os países quanto na relação dos governos com a sociedade. Para isso, é necessária avançar nas mudanças do modelo de desenvolvimento, posto em cheque pela crise, uma vez que a "situação é radical e exige ações radicais". Além da Alba e do Tratados de Cooperação dos Povos (TCPs, alternativos aos Tratados de Livre Comércio - TLCs), seria necessário construir outros princípios de relação entre governos e sociedade, uma vez que a crise gerou outro nível de demanda à integração alternativa.
Entre as prioridades de ação, Magdalena citou uma nova cúpula das Américas que consolide uma agenda própria da América Latina, uma nova arquitetura para a soberania econômica, energética, estrutural e política da região, e um novo protagonismo mundial diante de temas polêmicos, como as agressões israelenses na Palestina.
Focando seus discursos na crise e nas já logradas mudanças de prática política em seus respectivos Estados, os quatro mandatários buscaram reforçar ações que estriam nas agendas dos movimentos como forma de comprovar os esforços de diálogo e participação social. Primeiro a falar, Correa afirmou que a região se tornou uma "vítima de uma crise da qual não somos culpados, uma vez que é uma crise do capitalismo", e reforçou a idéia de construção de um novo "socialismo do século 21", baseado em ações coletivas para resolver problemas comuns. Do ponto de vista econômico, o presidente equatoriano defendeu um novo planejamento comum das sinergias, uma vez que até hoje o planejamento foi importo pelos países do Norte e pelas empresas transnacionais. "Não tem sentido discutirmos nossos problemas em Washington", afirmou, numa mensão à constituição da União de Nações Sul-Americanas (Unasul).
Ainda sobre o novo modelo de socialismo necessário na América Latina, Correa destacou a necessidade de mudanças nas relações com o meio ambiente e a exploração dos recursos naturais, uma vez que o socialismo tradicional não questionou o capitalismo em seus fundamentos, mas buscou apenas incluir os excluídos num mundo de produção e consumo que hoje se mostra insustentável.
Mais próximo, historicamente, dos movimentos sociais, o paraguaio Fernando Lugo avaliou que a chegada dos quatro mandatários ao poder foi fruto de um longo processo de lutas e contruções dos movimentos sociais da região. "As mudanças não aconteceram de repente, foram fruto de um longo processo de debate nas ruas. Por isso os governos progressistas sabem que os movimentos sociais são a força que pode garantir uma mudança contínua", afirmou. Participante histórico do FSM, Lugo concluiu dizendo que a atual situação na América Latina é prova de que "outro mundo não só é possível, mas está se tornando real".


No mesmo tom, Evo Morales, o mais aplaudido pela militância, reconheceu a importância decisiva da ação dos movimentos sociais em sua eleição. "Se há quatro presidentes aqui é graças à luta de vocês. Não quero que me convidem, mas me convoquem para seguir na luta", afirmou. E adendou: "por favor não me abandonem, nem me esqueçam".
Último a usar a palavra, Chavez fez uma fala curta e bastante coloquial na qual lembrou Fidel Castro e o processo revolucionário de Cuba, mas aproveitou para reafirmar sua posição frente aos EUA. "Oxalá Obama marque uma mudança no espectro mundial, mas não vejo grandes câmbios, o império está intacto".
Para fechar o encontro, o dirigente do MST, João Pedro Stedile, principal articulador do encontro, fez uma curta análise das forças de mobilização dos movimentos sociais, que ainda estariam bastante desarticulados, mas cobrou mais ação de todos os atores. "A luta de classes depende da força que os movimentos conseguem aglutinar, não de discursos". Em seguida, ainda em tom de brincadeira, afirmou que os "governos [presentes] são muito frouxos". "Esperamos mais de vocês, queremos mudanças estruturais, não remédios para o capital. Nas próximas cúpulas regionais, convidem os movimentos de seus países", cobrou.
Stedile também cobrou uma unidade maior em torno de um programa mínimo para derrotar a crise, como o rompimento com a dependência externa e a nacionalização dios bancos, e uma moeda regional própria. "Temos muitas identidades políticas entre estes governos, mas respeitamos nossa independência. Cada um tem sua trincheira, mas temos que construir uma unidade popular contra o neoliberalismo", concluiu o dirigente do MST.

Publicado pela agência Carta Maior - 29/01/09

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Brasileiros querem impulsionar articulação internacional de mídias livres

Jonas Valente – Observatório do Direito à Comunicação - Fórum Mundial de Mídia Livre
29.01.2009

O Fórum de Mídia livre nasceu em 2008 como uma reunião de pessoas e coletivos envolvidos nas mais diversas formas de produção e circulação de informação e cultura, visando articular e potencializar estas experiências. Em junho do ano passado, um primeiro encontro realizado no Rio de Janeiro selou o compromisso de centenas de midialivristas de trabalharem juntos para fortalecer esta modalidade de expressão. Agora, o desafio é expandir esta iniciativa para além das fronteiras nacionais.
Esta foi a principal conclusão do 1o Fórum Mundial de Mídia Livre (FMML), evento preparatório ao Fórum Social Mundial que terminou nesta terça-feira (27) em Belém. Segundo as resoluções do encontro, o Fórum de Mídia Livre Brasil deve assumir "como responsabilidade o esforço por trabalhar pela articulação internacional de mídias livres". Uma vez que o FMML foi uma primeira tentativa e não reuniu um contingente de midialivristas considerado suficiente para a criação de uma organização semelhante ao FML brasileiro, optou-se por buscar, a partir deste, um diálogo que avance nesta direção no plano internacional.
Assim como aconteceu no Brasil, a idéia é colocar frente a frente as várias iniciativas de mídia livre e alternativa em âmbito mundial (de veículos consolidados como o jornal Le Monde Diplomatique e a agência IPS às centenas de milhares de pessoas que utilizam as novas tecnologias digitais, como o YouTube ou o Orkut) para que encontrem uma identidade comum e se articulem de modo a promover a sua visibilidade, o seu fortalecimento e a expansão deste tipo de prática.
Altamiro Borges, editor do Portal Vermelho e um dos integrantes do Grupo de Trabalho Executivo do FML brasileiro, considerou o compromisso assumido "fundamental" e defendeu que ele deve mirar, em um primeiro momento, abarcar as experiências latino-americanas, aproveitando o florescimento e fortalecimento delas no atual contexto de existência de diversos governos de esquerda. "Há meios públicos sendo criados e ampliados e iniciativas comunitárias e livre sendo apoiadas por estes governos. Precisamos conversar com todos estes veículos", propôs.
Na avaliação de João Brant, do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, aos problemas cada vez mais globais da área das comunicações são necessárias reações no mesmo patamar. "Ficou claro que o enfrentamento ao pensamento hegemônico e aos grandes grupos de mídia depende da articulação internacional entre veículos, produtores de mídia livre e organizações que lutam pela democratização da comunicação. É preciso, de um lado, fortalecer as iniciativas desse campo e, por outro, lutar por politicas publicas de comunicação que fomentem a pluralidade e a diversidade, inclusive por meio do apoio a meios de comunicação democráticos", disse.
Renato Rovai, editor da Revista Fórum e também integrante do GTE do FML, considerou o evento foi "bem sucedido". "Tivemos algumas dificuldades estruturais e de mobilização, mas frente a elas acho que o resultado foi bem positivo", concluiu.
Impulsionar as ações locais
Pela grande presença de brasileiros no evento, a plenária final do 1o Fórum Mundial de Mídia Livre incluiu também uma discussão sobre os próximos passos do FML Brasil. Uma das prioridades será a organização do campo para participar da 1a Conferência Nacional de Comunicação, que irá acontecer este ano. "Entramos em um outro patamar agora, e teremos de suar muito a camisa para mobilizar os midialivristas e aqueles preocupados com a democratização da comunicação para que nossa voz seja ouvida", disse Altamiro Borges.
Outro tema que demandará atenção do FML neste ano será o concurso dos Pontos de Mídia Livre, ação do Ministério da Cultura no interior do programa Cultura Viva. A criação de espaços de produção de mídia livre apoiadas por recursos públicos foi um dos principais pleitos da carta do encontro do Rio de Janeiro e agora se concretizou em um edital publicado esta semana no Diário Oficial da União.
A iniciativa foi saudada como uma conquista por alguns participantes, mas olhada com receio por outros: "Ainda não sabemos qual será o teor deste edital. Precisamos ter acesso a ele para formarmos uma idéia melhor a respeito e localizar se devemos apresentar críticas ou sugestões", disse Rita Freire, do portal colaborativo Ciranda.Net. Esta discussão deverá ocorrer em atividade do Ministério da Cultura no Fórum Social Mundial sobre o tema, que acontece no dia 29.
Um terceiro tema que não surge na conjuntura, mas foi muito lembrado na plenária final é a luta pela democratização das verbas de comunicação estatal. Foi criado um grupo de trabalho entre os participantes que irá desenvolver estratégias de pressão junto aos governos federal e estaduais para criar regras mais democráticas e que incluam políticas de destinação destas verbas aos veículos alternativos e livres.
Por fim, foi reafirmado um próximo encontro do FML este ano, a ser realizado na cidade de Vitória (ES), ainda sem data definida.

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Stédile: o MST à espera de um outro governo mais à esquerda

O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) completa 25 anos neste mês com uma peculiaridade: a de empunhar a bandeira da reforma agrária sem precisar de um registro jurídico como o CNPJ, já que "um movimento social de massa".

A coordenação nacional do MST é enfática: “Os brasileiros que lutaram contra a escravidão, pela criação da Petrobras, pelas reformas de base e pelas Diretas-Já não precisaram de registro jurídico para sair às ruas”.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o economista João Pedro Stedile, de 58anos, coordenador nacional do MST, disse que, sem o apoio da sociedade, o movimento teria acabado. Para 2010, afirmou, os sem-terra esperam a eleição de um governo "mais à esquerda" do que a atual gestão de Lula.

Quando o MST foi criado, em 1984, o sr. imaginava que o movimento chegaria aos 25 anos? Quais foram os momentos mais difíceis nessa trajetória?
Estávamos apenas preocupados em construir um processo unificado de luta pela reforma agrária. Nesses anos, vivemos muitos momentos difíceis. Os piores foram os dois anos do governo Collor [1990-1992] e, depois, os últimos dois anos do governo FHC [2001 e 2002].

E os méritos?
Mais de 500 mil famílias foram assentadas. Essas famílias resolveram seus problemas fundamentais, como trabalho, casa e educação para os filhos. Infelizmente, nem todos conseguiram resolver seus problemas de renda.

Por conta de seu novo foco, contra o agronegócio, e da decepção com o governo Lula, o MST passa pelo momento mais delicado?
Não fomos nós que mudamos, mas o foco do capital na agricultura. A reforma agrária foi bloqueada dentro do neoliberalismo, o que politizou a realidade do campo e o MST. Já tivemos momentos mais ou tão delicados como o atual.

O MST e seus militantes parecem bem mais silenciosos. A consolidação do Bolsa Família contribuiu para enfraquecê-lo?
A imprensa brasileira é que nos silenciou, embora não tenhamos parado de falar. O Bolsa Família é uma política para diminuir a fome de milhares de brasileiros, que estão na miséria e não fazem lutas. Não é a base social do MST. A mobilização em ocupações massivas diminuiu porque a reforma agrária está parada, e as ações do Incra, mais demoradas. As famílias ficam desanimadas.

Pesquisas de opinião mostram que os brasileiros são favoráveis à reforma agrária, mas contrários às invasões e à destruição de laboratórios e plantações. O apoio da sociedade interessa ao MST?
O apoio da sociedade ao MST e à reforma agrária continua muito forte. Se não fosse esse suporte, o MST já teria desaparecido.

Alguns analistas dizem que o eventual retorno de um governo de oposição ao atual faria bem ao MST, pois o movimento não ficaria mais nessa "sinuca de bico" entre atacar ou não um governo aliado. O sr. concorda?
É uma leitura equivocada. Nós sempre votamos em candidatos progressistas e, de preferência, de esquerda. Queremos que o próximo governo seja mais à esquerda do que o governo Lula, que foi um governo de composição política. Mesmo assim, vamos seguir a nossa política histórica de manutenção da autonomia em relação aos governos.

Fonte: Folha de S.Paulo

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‘Justiça nos Trilhos’ denuncia violações cometidas pela Vale

Adital -

Ao longo da estrada de Ferro de Carajás, que atravessa Pará e Maranhão, correm a cada dia uma média de 25 trens para o transporte do minério da Vale do Rio Doce. A cada mês os trens atropelam e matam uma pessoa; até agora, a única indenização da Vale para as famílias das vítimas foi a compra do caixão. Vale: mata e ajuda a enterrar.

Na Indonésia, a Vale adquiriu e ocupou terras indígenas para exploração minerária. Foram deslocados povos nativos e a multinacional construiu um hotel com campo de golf bem por cima do antigo cemitério desses povos.

De onde vem essa afinidade da Vale com a morte? Quais as responsabilidades da Vale e dos Estados nacionais na extrema violência ambiental causada pelo modelo de mineração e siderurgia? Por que a Vale tem uma receita tão grande (35 bilhões de dólares por ano, maior do que o PIB de países inteiros como o Quênia) e nosso povo ao lado dos trilhos só vê os trens do saque passar sem que haja uma recaída digna de vida para as pessoas? Voltaram a se abrir as veias da América Latina? (95% do ferro extraído em Carajás é exportado sem nenhum investimento no trabalho local).

São essas as perguntas constantes de muitas lideranças de comunidades afetadas pela "empresa global com sede no Brasil", como Vale gosta de ser chamada, desterritorializando-se e desresponsabilizando-se. A campanha "Justiça nos Trilhos" aproveitou o FSM para recolher essas perguntas, articular o movimento de denúncia, buscar alternativas e devolver força e dignidade a todas as vítimas da Vale.

O seminário internacional, coordenado pelos advogados Guilherme Zagallo e Danilo Chammas, teve a participação de moradores afetados pela Vale no corredor de Carajás, em Minas Gerais, no Canadá, no Moçambique, além de pesquisadores em sociologia e economia da Universidade de São Luís e do Centro Nuovo Modello di Sviluppo da Itália, e de sindicatos importantes como United Steel Workers no Canadá e o Sindicato dos Ferroviários de Pará, Maranhão e Tocantins.

Mining Watch, outra entidade canadense, permitiu ao público uma volta pelo mundo através de seu observatório internacional sobre o impacto da mineração no meio ambiente e nos povos.

Apesar da atual crise econômica, a Vale se encontra numa etapa de forte crescimento e está investindo muito especialmente no corredor de Carajás, para aumentar a extração de minério, a produção de gusa e de aço. "Depois do primeiro ciclo desenvolvimentista para o norte no País nos anos 80-90 (soja e produção de ferro gusa) articulado também pelo sistema logístico da Vale, a gestão da Companhia por financeiros e banqueiros após a privatização abriu um segundo ciclo, aproveitando a entrada da China no mercado, com um aumento significativo do ritmo de produção e exploração", disse o sociólogo Marcelo Carneiro.

Frente a esses novos desafios, é necessário e urgente que também o monitoramento e a pressão sobre a multinacional aconteça através de um articulado e qualificado trabalho em rede. É isso que a campanha "Justiça nos Trilhos" favorece: redes de movimentos e grupos espalhados pelo Brasil, interagindo com outros países do mundo e visando estruturas interconectadas de controle social sobre a Vale.

Cândido Grzybowski, coordenador do Ibase, especifica: "Não rejeitamos a Vale, nem qualquer das empresas. Mas, sobretudo nessa época de crise sistêmica, faz-se urgente uma civilização que nos permita tirar da natureza o que ela nos oferece, de maneira subsidiária e compensatória".

"Objetivo prioritário da campanha Justiça nos Trilhos é implementar instrumentos legais, políticos e econômicos para que, com a pressão e participação da sociedade civil organizada, a Vale seja forçada a redistribuir seu enorme lucro através de indenizações, compensações ambientais e a reconstituição de um Fundo de Desenvolvimento participado pela população", acrescenta Guilherme Zagallo.

A análise econômica do "sistema Vale" logo aponta para numerosas contradições: Francesco Gesualdi relata que "a Vale emprega 153 mil funcionários em todo o mundo, 124 mil no Brasil; desses últimos, 76 mil são contratados por outras empresas, terceirizadas. É uma ótima estratégia para não se responsabilizar pelos empregados". Considere-se que só na região de Parauapebas (PA) a Vale responde a mais de 8 mil processos trabalhistas!

E os lucros dessa grande multinacional? Cerca de 60% entram diretamente no bolso dos donos da privatizada e dos maiores acionistas. Menos de 20% vai aos trabalhadores, enquanto as taxas e royalties garantem ao governo 25%. A Vale, símbolo da abertura do governo brasileiro para a agenda neoliberal, mostra com evidência que seu objetivo é "tornar os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres", conclui Gesualdi. 

A companhia insiste na sua política de expansão e bate à porta de novos países: a testemunha mozambicana relata sobre o projeto da Vale da maior mina de carvão no hemisfério sul. Encontrar-se no FSM com outros impactados e com associações e grupos comprometidos há anos no enfrentamento da Vale ajuda a prever a estratégia da multinacional nessas novas frentes de investimento. Todos os instrumentos legais, a pressão popular e a comunicação interativa são necessários para colocar a Vale nos trilhos da justiça sócioambiental!

*Parceria Adital - Ecooos Cambonianos Brasil Nordeste pela Justiça e Paz  www.combonianosbne.orgwww.justicanostrilhos.org

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2009: crise do capitalismo generalizará e aprofundará a barbárie

Escrito por Valéria Nader

05-Jan-2009

2009 inicia-se sem o costumeiro frescor característico dos anos novos. A explosão da crise financeira mundial em setembro de 2008, ainda que não tenha sido uma surpresa para economistas e analistas que acompanhavam a realidade com seriedade, deixou a todos estupefatos com a velocidade pela qual se propagou do epicentro da crise nos EUA para outros países centrais e emergentes. Em nosso país, encerrou-se precocemente nesse setembro um ciclo de crescimento de 4 anos, aproveitando-se de uma conjuntura internacional extremamente favorável e após longo período de taxas medíocres de evolução de nossa economia

É enorme a quantidade de interrogações a respeito do que reserva este momento para as populações de todo o planeta, que iniciam o ano sob a angústia da incerteza quanto à duração e profundidade da mais severa crise econômica desde os anos 30 do século passado. Para discutir essa crise e os seus possíveis desdobramentos, o Correio da Cidadania entrevistou o historiador Mário Maestri.

Para ele, apesar de o Brasil ter conseguido crescer em outros momentos de crise profunda, como na 2ª Guerra, desta vez a história deve ser distinta. O país se equivoca ao apostar no mercado externo, em detrimento do interno, para evitar a anunciada retração econômica.

Mais do que nunca, o momento seria de retomar a consciência da classe trabalhadora no sentido de se recuperar a unidade perdida no passado, o que tanto a alienou. Porém, tal processo não encontra as melhores possibilidades dentro do Brasil, obrigando os movimentos e o proletariado a ficarem atentos ao perigo de se reafirmarem novas derrotas populares.

Crítico da esquerda, que parece cada vez mais capitular ao jogo institucional burguês, Maestri acredita que se "deve construir uma nova política, que favoreça a constituição do mundo do trabalho como sujeito social central", alertando que tempos de dureza para o povo não necessariamente alavancam revoluções populares e libertárias, como atestam diversos casos do século 20.

Correio da Cidadania: Em entrevista ao Correio da Cidadania em fins de 2007, você afirmava que a economia mundial avançava puxada fortemente pelo consumo dos EUA e da China, já sob o signo de uma próxima crise geral. Na sua opinião, a crise mundial que vivemos é apenas do modelo neoliberal ou do próprio capitalismo?

Mário Maestri: Em dezembro de 2007, lembrava que a expansão da economia brasileira se instalara tardiamente, em relação às nações ditas emergentes, devido à submissão do governo Lula da Silva ao capital financeiro. A economia brasileira incorporou-se, timidamente, apenas em 2006 ao grande boom expansivo geral de 2002. Em 2005, o PIB do Brasil empacava em 2,3%, para avançar timidamente, em 2006, para 3,7%, enquanto países como Argentina, China, Índia, Venezuela dobravam, havia anos, aquela taxa.

Naquele então, os membros e apologistas do governo neoliberal de Lula da Silva declaravam que o atraso da economia nacional em despegar devia-se à construção consciente de bases econômicas "sólidas" e "responsáveis" que garantiriam anos de expansão "auto-sustentada". E não à ditadura dos banqueiros e do pagamento incondicional da dívida.

Após o crescimento do PIB em 2007 em 5,4%, que deve se repetir em 2008, o Brasil se prepara para expansão entre 2 e 3% em 2009, deixando o altaneiro "vôo de águia" pomposamente anunciado pelo senhor Lula da Silva, em agosto, para retornar ao velho "vôo de galinha" espavorida, no melhor dos casos. Em verdade, começamos mal equipados nossa viagem ao coração da tempestade, que se afigura como crise geral da economia capitalista, e não mero solavanco neoliberal.

Em fins de 2007, lembrava que, ao contrário do dito pelos apologistas neoliberais, a situação estrutural do Brasil degringolava, com destaque para a desnacionalização da economia, que obriga à exportação crescente de lucros e dividendos; o enorme atraso da ciência nacional, que motiva sangria de divisas em royalties e compras de equipamentos e tecnologia; a atrofia do mercado interno e hipertrofia do externo, em momento de queda tendencial de preços e de volumes das exportações.

Fragilidade estrutural do país que se deve substancialmente à renúncia e impotência da burguesia brasileira em cumprir qualquer papel de defesa da nação, contente em se acomodar como súcubo do capital global. Isso em um contexto em que o mundo do trabalho não consegue se propor, mesmo programaticamente, como alternativa para a população brasileira, devido à sua fragilidade orgânica e subjetiva.

CC: Para ‘arrumar’ a economia mundial, economistas advogam medidas keynesianas, de regulação e disciplina dos gastos públicos. Outros descrêem de soluções "nacionais", vista a complexa trama de relações do sistema capitalista, controlado por conglomerados mundiais, imbricados ao Estado. É possível regulação da economia mundial? Está em curso algo do gênero?

MM: É patético escutar analistas, que há poucas semanas pregavam devotos a miraculosa capacidade de expansão eterna da acumulação de capitais. Não foram as medidas keynesianas que superaram a grande crise de 1930, mas a II Guerra, com a depressão, por longos anos, do valor do trabalho na Europa; com a destruição de inteiras ramas da produção; com a construção de uma nova hegemonia mundial e imensa acumulação nos EUA etc.

As medidas keynesianas defendem a expansão, e não a disciplina dos gastos públicos, para reativar a economia. O senado dos EUA rejeitou a ajuda às mega-empresas automobilísticas porque os operários se opunham a cortes dos salários, política depressiva, em contexto de regressão do consumo! O problema é a impossibilidade, na sociedade global, de se produzirem automóveis nos EUA, com salários superiores aos dos operários japoneses, brasileiros, chineses e, quem sabe, muito logo, haitianos!

Uma das grandes razões da amplitude da crise foi a enorme desregulamentação das práticas financeiras, bancárias, securitárias, acionárias etc., que pôs em circulação volumes fluviais de capitais, sem correspondência com a riqueza social. Esse ainda desconhecido magma de capitais ajudou a relançar setorialmente o consumo, com destaque para os EUA, e expandiu a produção, privilegiadamente na China, controlada por conglomerados mundiais.

Um arranjo que ensejou que o capital acumulado pela produção chinesa, consumida fortemente nos EUA devido à hegemonia e ao monopólio da moeda mundial, retornasse sobretudo como empréstimos a esse país, alavancando de lambuja a produção de commodities dos países emergentes, sob forte controle internacional, devido às necessidades produtivas do Dragão Asiático.

Uma expansão artificial do consumo que favoreceu o boom mundial de 2002-2008. No Brasil, a expansão artificial do consumo através do crédito, endividando a população, sustentou também o crescimento da produção dos dois últimos anos. A queda dessa pirâmide financeira-industrial vem sendo combatida por injeções astronômicas de capitais, para impedir quebradeira do sistema bancário-financeiro e, eventualmente, reanimar a produção já descolada da capacidade de consumo de população vergada por vinte anos de queda tendencial dos salários e desemprego. Queda dos salários que se pretende agora aprofundar nos EUA, no Brasil e no mundo, como solução da crise! Entre nós, o empresariado já propõe diminuição de horas de trabalho e de salários!

A desregulamentação não foi erro ou pecado da globalização; corrigido ou punido, ensejará nova e longa era de capitalismo mais regulado e civilizado, ainda que menos explosivamente rentável. O "outro mundo possível" dos que propõem o controle do neoliberalismo, no seio de uma ordem capitalista que defendem e sugerem como reformável e insuperável.

A desregulamentação foi a solução necessária encontrada pelo capitalismo para valorizar o capital. Ou seja, superar a inexorável queda tendencial da taxa média de lucro, devido ao crescimento do peso do capital morto [máquinas e meios de produção] e queda do capital vivo [trabalho], para valorizar o capital. O grande motivo das crises cíclicas de subconsumo, como lembrava o bom e velho Marx, em O capital, há bem mais de um século!

Terminada a enorme farra, começamos a viver a terrível ressaca. Os dois terços da produção da China voltados à exportação já recuam com a queda das encomendas globais, enquanto o terço orientado ao consumo interno inicia a deprimir-se, com as barbas dos chineses no molho! No seio das nações e entre as nações, já vivemos um "abandonem o barco" em que os mais fortes correm como sempre para os escaleres pisoteando velhos e crianças. Não há solução estrutural fora de reorganização racional da economia. Ou seja, à margem da expropriação e do planejamento social e democrático da grande produção, apenas possível em uma ordem socialista mundial.

CC: No Brasil, encerramos 2008 com crescimento econômico e maiores salários, queda do desemprego e inflação. Essa realidade vai recuar em 2009, com a crise financeira chegando à economia real? Ou estamos mais ‘blindados’ do que outros emergentes, como defende o presidente e seus ministros?

MM: Vamos pagar duramente pela submissão ao grande capital, especialmente financeiro. No momento expansivo, os altos juros transformaram o Brasil no paraíso da especulação, deprimindo o valor do dólar. Agora com a crise, conhecemos maxi-valorização! Com a mundialização dos preços, a queda dos valores das commodities vai se refletir apenas relativamente no Brasil, onde tudo que importamos encarecerá. A importação da inflação corroeria em um vap-vup os desmilingüidos ganhos dos salários dos últimos anos. E, novamente, espera-se conter a inflação importada com a depressão do consumo interno, com os mais altos juros do mundo, sobre os quais se acena para queda tendencial quando a crise estiver plenamente instalada! Política que fortalecerá a tendência já em curso de regressão do mercado do trabalho nacional.

CC: Qual a sua avaliação quanto à atuação do governo brasileiro diante dessa crise econômica global e de seus impactos na economia interna?

MM: Lula da Silva é patético e dramático. No ano passado, lembrava que seu problema não é ser inculto, como se assinala preconceituosamente, mas ser apenas esperto, pouco inteligente e, sobretudo, muito pretensioso. Já plenamente identificado ao neoliberalismo, convenceu-se de que a rápida expansão passada do país deveu-se a seu governo, vivendo a triste ilusão do simplório que crê reger com os movimentos dos braços a ida e a vinda inexorável das ondas do mar.

Em fins de março, dizia que a "crise não" chegara ao país e que o governo trabalhava com a "hipótese de que" jamais chegaria! Agora, com o bafo do bicho no gogó, promete com a mesma desfaçatez despachar a fera em breve lapso de tempo. Em jantar com a oficialidade, disse não acreditar que a crise dure além de 2009, até "porque nenhum presidente vai agüentar mais de um ano com a crise nas costas, gerando desemprego […]". Portanto, os presidentes porão fim à crise para não perderem eleições!

O governo segue jogando a partida como se bastasse ficar empatado no segundo tempo para ganhar o jogo. Segue insistindo no incentivo e financiamento das exportações, em contexto de queda tendencial acelerada do consumo mundial. Parece contar com a violenta desvalorização do real, que empobrecerá a população, para apoiar as vendas no exterior. Promoveu uma enorme facilitação para o sistema bancário e sequer uma medida estrutural. Em verdade, gere os interesses pelos quais é responsável, despreocupado com o país e a população.

Entretanto, historicamente, o Brasil cresceu nas crises mundiais. Em 1914-18, em 1930-34, em 1939-45, o país avançou privilegiando o mercado interno, quando o externo não lhe podia nada oferecer. Essa política é ainda possível, devido ao caráter continental e à diversidade produtiva do Brasil. Porém, só será implementada apoiada em bloco social radicalmente diverso do que se encontra no poder e no governo. Ou seja, através de aliança social que tenha como eixo a moderna classe trabalhadora urbana, já que, hoje, uma política semelhante exigiria reestatização e forte ampliação da área pública privatizada; nacionalização do sistema bancário, do comércio exterior, da propriedade da terra; desenvolvimento da ciência e da tecnologia nacional; política de independência nacional, na diplomacia, na defesa etc.; garantia de trabalho para a população e crescimento sustentado e acelerado dos salários etc.

CC: Conhecendo-se as fragilidades estruturais [sociais, ambientais etc.] da sociedade brasileira, mascaradas pelos últimos avanços ainda que tímidos [da renda, emprego, crescimento], é possível que, de alguma forma, a crise contribua para que a população tenha uma consciência real do modelo econômico atual?

MM: É estranha a euforia de setores da esquerda com a crise. É quase como se ela viesse para confirmar as propostas do marxismo e, sobretudo, para nos tirar do buraco e isolamento em que nos encontramos, ao nos entregar, finalmente, de mão-beijada, a direção do movimento social e, quem sabe, dos destinos do país.

A crise de 1929 ensejou a vitória do nazismo na Alemanha, a consolidação do fascismo na Itália, do salazarismo em Portugal, do stalinismo na URSS, etc., em um momento em que o socialismo e a revolução proletária eram alternativas para imensas parcelas da população, não apenas trabalhadora. Como dito, a grande crise levou à II Guerra, com suas dezenas de milhões de mortos.

A crise atual já caUSA e vai caUSAr tristezas e sofrimentos indescritíveis para imensas parcelas da população, através do desemprego, pobreza, fome, angústia, doenças e, quem sabe, guerras locais e gerais, em possível dura disputa pela manutenção-conquista das posições hegemônicas, entre os principais núcleos capitalistas – EUA, China, Europa, Índia etc. – e destes com as nações periféricas.

Um processo de fortalecimento das contradições entre as nações, ensejado pela difícil situação do grande capital, que já acirra as fricções, na América do Sul, entre o governo Lula da Silva, em defesa do grande capital tupiniquim [Petrobrás, empreiteiras, Gerdau, Itaipu Bi-nacional, Vale etc.], e as nações argentina, boliviana, equatoriana, paraguaia etc.

Não há correlação necessária entre avanço da exploração e salto de consciência. Ainda que a crise fortaleça enormemente o confronto de classe, exigindo que os trabalhadores definam e implementem suas soluções políticas e sociais. Sobretudo no Brasil, onde a desorganização e a alienação do movimento social são grandes, onde não existe ainda organização política socialista de raízes operárias, impõe-se um forte esforço para que essa conjuntura não aprofunde a derrota da população trabalhadora. Para que, ao contrário, se fortaleça o mundo do trabalho como alternativa nacional.

CC: Mediante o caráter severo dessa crise, ela abre possibilidade de emergência de uma sociedade socialista no mundo e no Brasil? Há uma organização política e social efetiva das forças de esquerda de modo a conduzir à ruptura com o regime capitalista?

MM: Cada vez mais, a própria sorte da humanidade depende imperiosamente da superação socialista e revolucionária das contradições capitalistas. A própria destruição ambiental e as modificações climáticas ensejadas pela industrialização desenfreada já vergastam duramente a população do Globo, apontando para crises de crescente gravidade a curto e médio prazo. No Brasil, já vivemos em forma crescentemente dura as seqüelas dessa realidade, que associa crises climáticas, degradação ambiental, empobrecimento da população.

A depressão dos preços das matérias-primas ensejada pela crise está pondo e porá em cheque as propostas populistas e centristas de melhor distribuição dos recursos nacionais, sobretudo energéticos, para melhores condições populares de vida, sem superação da exploração mundial e nacional, como na Venezuela, Bolívia, Paraguai e Equador. O Equador já vive plenamente essa realidade.

Sem os recursos milionários ensejados pela valorização da energia, governos como os da Venezuela e Bolívia terão que optar, muito logo, entre superar suas vacilações ou reprimir a população ou entregar ingloriamente o governo à direita, legal ou ilegalmente. Se Hugo Chávez não avançar no sentido da plena expropriação do grande capital na Venezuela e construção de poder popular, transformar-se-á em uma nota ao pé da história, como o general peruano nacionalista Velasco Alvarado, nos anos 1968-75, já quase esquecido.

No mundo e no Brasil, urge construir programa alternativo para a crise e para a sociedade capitalista em estágio senil, capaz de ser compreendido e abraçado mais e mais pelas classes trabalhadoras e populares, na conformação de um forte bloco social capaz de defrontar e vergar o mundo do capital.

Além das contradições históricas e estruturais do Brasil, a grande dificuldade dessa construção deve-se certamente à derrota histórica conhecida pelo mundo do trabalho, com a vitória da contra-revolução capitalista, em fins dos anos 1980, que ensejou uma violenta e geral regressão da confiança na capacidade de organização da sociedade segundo os valores do mundo do trabalho. Ou seja, uma descrença geral na ordem revolucionária e socialista.

CC: E no Brasil, como essa crise encontra as forças políticas de esquerda, em termos de sua organização e possibilidade para, no mínimo, construir uma plataforma de medidas destinadas a defender as camadas mais pobres dos efeitos da crise?

MM: Muito mal. No Brasil, no contexto de enorme fragilidade política, ideológica e organizacional do mundo do trabalho, o espaço político da esquerda tende a ser ocupado por representantes e propostas de segmentos sociais sobretudo médios, que possuem apenas contradições não essenciais com a ordem capitalista. Mesmo quando eles se reivindicam do marxismo e do socialismo. Uma realidade que contribui para a depressão da situação em que vivemos.

A fragilidade da nossa esquerda constitui reflexo direto da debilidade do movimento social, com destaque para o grande operariado industrial. A chamada crise de direção é reflexo da debilidade de constituição do movimento social. Não temos e jamais tivemos pólo operário que se anteponha ao capital, mesmo programaticamente. Tivemos um esboço de construção desse pólo, em fins dos anos 1970, que resultou na formação do PT e da CUT tendencialmente socialistas e classistas. Movimento que se frustrou, entre outros motivos, devido à vitória da contra-revolução mundial, nos fins dos anos 1980, e ao longo do ciclo econômico depressivo nacional.

As últimas eleições mostraram o forte recuo do classismo e socialismo e avanço do oportunismo e eleitoralismo na esquerda, como bem avaliado no Correio da Cidadania. No Rio Grande do Sul, o MES, a maior tendência do PSOL, foi de pires na mão receber o mensalinho legal da Gerdau! O dramático é que a ação espúria não teve sanção eleitoral. A candidata do MES recebeu a maior votação majoritária do PSOL no Brasil. Portanto, o eleitorado de esquerda já considera um tal comportamento aceitável. Não há, assim, por que não aprofundá-lo!

A fragilidade da esquerda e a do movimento social alimentam-se reciprocamente, em uma terrível espiral descendente. É improvável conhecermos reversão próxima substancial dessa realidade sem ruptura paradigmática da relação social de forças, nacional ou mundial, em favor do mundo do trabalho. A esquerda socialista e classista deve se voltar para o favorecimento do surgimento-consolidação de um forte pólo de classe no Brasil. Portanto, deve abandonar a eterna ilusão da fácil conquista da afeição de um movimento social e popular que mal existe.

Temos que construir uma nova política estranha ao oportunismo já endêmico na esquerda, fixada obsessivamente na conquista de posições de representação nas universidades, nos sindicatos e, sobretudo, em avançar, a cada dois anos, no abocanhamento de mais alguns deputados, vereadores, prefeitos etc. Tudo para participar do farto banquete da administração do Estado capitalista. Temos que construir uma nova política que, como proposto, favoreça a constituição do mundo do trabalho como sujeito social central, processo indiscutivelmente inacabado entre nós.

Mário Maestri, 60, rio-grandense, é historiador. Participou da luta social e anti-ditatorial nos anos 1960; refugiou-se no Chile e na Bélgica nos anos 1970; integrou o PT, nos anos 1980; participou da fundação do PSOL nos anos 2000, do qual se desligou. E-mail: maestri@via-rs.net Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

Colaborou o jornalista Gabriel Brito.

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25 anos de luta: partidos, artistas e lideranças saúdam MST

É grande a lista de mensagens divulgadas na página do MST em saudação aos 25 anos do movimento. Entre as mais diversas personalidades, figuram presidentes dos partidos PCdoB, PT, PSTU, PSol, PPS, PCB, entre outros. Também os artistas Eduardo Galeano, Augusto Boal, Leci Brandão, Lucélia Santos, Osmar Prado e Paulo Betti enviaram textos de estímulo e reconhecimento ao movimento fundado entre 20 e 22 de janeiro de 1984.

Conheça abaixo algumas das mensagens enviadas ao MST:

A questão agrária no Brasil — onde se apresenta um forte predomínio do monopólio da terra, de grandes áreas improdutivas e com a presença de gigantescas empresas monopolistas nacionais e estrangeiras — sobre os quais se desenvolveu o capitalismo no campo, é muito importante o papel que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, nestes seus 25 anos de atividade desenvolveu e desenvolve, no sentido da mobilização dos que na terra queiram trabalhar. Ao lado dessa ação permanente, o MST também se destaca no caminho da unificação dos movimentos sociais no país e em toda a América Latina, pela soberania nacional, pela Reforma Agrária por uma verdadeira alternativa civilizacional avançada em nossa terra.

Renato Rabelo, presidente do Partido Comunista do Brasil

O MST desempenhou um papel de grande relevância nesses 25 anos, ao chamar a atenção para a questão da reforma agrária e organizar a luta pelo acesso à terra. Com os movimentos populares em geral, participou ativamente da reconstrução da democracia brasileira, tarefa ainda em curso que exige sempre a unidade na diversidade daqueles que lutam por um país justo e democrático. Parabéns pelos 25 anos.

Ivan Valente - Deputado Federal PSOL/SP

O MST completa 25 anos de vida e de luta como um dos movimentos sociais mais importantes do nosso país. Foi o movimento que colocou e mantém a luta pela reforma agrária na agenda do país, dentro de uma perspectiva transformadora da sociedade brasileira. Isso não é pouco. E não é outra a razão pela qual o movimento tem sido vitima de tanta perseguição do latifúndio e dos governos. Mas é também a razão pela qual o MST é um parceiro privilegiado de todos e todas que, neste país, lutam pelo fim da exploração e da opressão que afligem a vida da classe trabalhadora. Parabéns ao MST pelos 25 anos de vida e de luta. Vida longa ao MST!

José Maria de Almeida - Coordenação Nacional da Conlutas e do PSTU

Para nós que defendemos o socialismo, a reforma agrária é uma necessidade. Poderia ser uma necessidade, também, para os que defendem o capitalismo. Mas o capitalismo no Brasil se desenvolveu de maneira dependente, altamente concentrada e politicamente conservadora. Para este tipo de capitalismo, a reforma agrária é um problema, não uma solução. No Brasil, a reforma agrária ou será uma conquista da luta dos trabalhadores e de toda a esquerda, ou não será. É por isto que o MST é tão importante, uma organização que deve ser apoiada, defendida e protegida pelo conjunto da esquerda brasileira. Só não digo "vida longa ao MST", porque espero que antes cedo do que tarde consigamos viabilizar seu principal objetivo histórico, que é a reforma agrária no Brasil.

Ivan Martins Pinheiro - secretário geral do PCB

O aniversário do MST marca uma data histórica para a luta de todos os movimentos sociais. Foram 25 anos de enfrentamento, de coragem e de combatividade, mantendo acesa a chama da organização dos trabalhadores. Desde sua origem, o movimento trava batalhas na construção de um Brasil mais justo e, neste percurso, conquistou o reconhecimento dos campesinos como sujeitos históricos, assim como transformou a luta pela reforma agrária numa luta nacional, que deve ser inserida num programa democrático e popular para o nosso país. Que o exemplo do MST siga vivo, inspirando cada um de nós na defesa do socialismo."

Ricardo Berzoini – presidente do PT

O MST é o mais profundo e, por isso, o mais importante movimento social brasileiro. Apoiá-lo em todas as suas frentes de luta é lutar pela transformação de nosso país em uma sociedade menos perversa e menos excludentes. Este é o dever de todo socialista e de todo democrata.

Roberto Amaral é escritor, vice-presidente nacional do Partido Socialista Brasileiro e ex-Ministro da Ciência e Tecnologia

O MST é o movimento social mais importante do Brasil. Se a reforma agrária está lenta, estaria praticamente parada se não fosse o MST. Valorizamos as formas de luta e a maneira de o MST se organizar, necessárias, diante da intolerância e da agressividade dos latifundiários, protegidos pelo estado burguês. O MST, de uns anos para cá, deu um grande salto de qualidade, quando passou a participar das lutas democráticas, populares e antimperialistas e por um mundo sem explorados.

Valter Pomar, secretário de relações internacionais do PT

Eu suplico aos deuses e aos demônios que protejam o Movimento Sem Terra e a toda sua linda gente que comete a loucura de querer trabalhar, neste mundo onde o trabalho merece castigo. (yo suplico a los dioses y a los diablos que protejan al movimiento sin tierra, y a toda su linda gente que comete la locura de querer trabajar, en este mundo donde el trabajo merece castigo).

Eduardo Galeano – escritor

O MST é a mais democrática organização social que o Brasil tem ou que já teve. Não esquece as necessidades individuais de cada um dos seus integrantes como costumam fazer as organizações políticas e é capaz de conjugá-las com as necessidades mais amplas da luta pela terra. Não só da luta pela terra, mas da luta pela emancipação do Brasil. Não só do Brasil como nação, mas dos brasileiros como gente.

Augusto Boal - diretor artístico do Centro do Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro

Eu tenho muito prazer em poder parabenizar o MST pela passagem dos seus 25 anos de existência e afirmar que me sinto privilegiada por ter participado de um CD realizado pelo MST em que eu cantei uma música falando sobre a importância da educação e da liberdade. E quero dizer também que a contribuição do Movimento Sem Terra é importantíssima. A contribuição e conscientização que o MST deu para o brasileiro para que isso acontecesse foi fundamental, porque o MST nunca deixou de estar presente nas principais lutas sociais do nosso país, da nossa nação. Por isso, eu me sinto orgulhosa de ter podido participar de vários eventos do movimento sem-terra e dizer que espero que continuem com essa luta, com essa consciência política e que nunca se deixem ser submetidos por oligarquias, por classes dominantes de forma alguma. Se chegamos onde chegamos, o MST também é responsável por isso. Parabéns a todos vocês!

Leci Brandão - sambista

Eu gostaria de parabenizar o MST pelos 25 anos da sua atividade e dizer que esse movimentos tem sido muito importante pro Brasil na questão agrária e na questão social e eu espero que vocês tenham muita saúde, muita paz e muitas realizações nesse ano de 2009.

Lucélia Santos - atriz

Tenho uma grande simpatia e admiração pelo MST. É necessário que haja um movimento organizado de defesa de interesses populares. Evidentemente, o MST visa fundamentalmente a questão da reforma agrária no país, necessária doa a quem doer. É necessário que se reveja a questão agrária no país, até porque a própria colonização portuguesa e a maneira como se distribuiu terras nesse país, desde a colonização, é absurda. É necessário esses movimentos e, paralelamente a isso, o MST estendeu a sua rede para ensino, escolas, como a Escola Florestan Fernandes, de formação cultural e de dar apoio às pessoas que não têm acesso a educação como deveria ser. É um movimento de coragem e de resistência, que a imprensa de um modo geral conservadora sataniza. E chegar como movimento organizado a 25 anos de existência não deixa de ser um grande ato de heroísmo, uma grande vitória.

Osmar Prado - ator

Quero cumprimentar o MST nesta data em que ele comemora os seus 25 anos. Acho que o MST é uma das coisas mais importantes que aconteceram na história recente do Brasil. Acho que o MST teve, tem e terá uma função muito importante na democratização e na distribuição da terra no Brasil. Desejo vida longa ao MST! Desejo muita sorte em seus projetos, muita luta e melhorias para o povo brasileiro que virão através da luta do MST! Um abraço à todos. Parabéns MST pelos seus 25 anos. Parabéns pela importante luta que desenvolve no Brasil e boa sorte.

Paulo Betti - ator

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Reflexos da crise: Greve Geral na França com ampla adesão dos trabalhadores

29-Jan-2009

Esperam-se fortes perturbações nos transportes, apesar da novidade da lei dos serviços mínimos.
Pela primeira vez em muitos anos, os oito principais sindicatos uniram-se para protestar contra o desemprego e o ataque aos serviços públicos e acusam o governo de, perante a crise económica , apenas proteger os banqueiros e os grandes empresários.

Na origem desta greve está uma declaração comum que junta os oito principais sindicatos dos sectores público e privado: "Mesmo não sendo responsáveis, os trabalhadores, os desempregados e reformados, são as primeiras vítimas desta crise. Ela ameaça o futuro dos jovens, prejudica a coesão social e a solidariedade, e agudiza as desigualdades e a precariedade", cita o jornal francês Liberation, que considera esta greve não uma jornada de protesto clássica mas sim um verdadeiro "grito de alarme".
Segundo uma sondagem do jornal Le Parisien, 69% dos franceses apoiam a greve, considerando que Sarkozy devia apoiar desempregados e trabalhadores como foi capaz de acudir aos bancos. Um responsável do sindicato Force Ouviere afirma que "o Estado acaba sempre por encontrar uma forma de ajudar os bancos ou a indústria" mas quando os trabalhadores precisam de alguma coisa a resposta é sempre "não há dinheiro".
Desta vez os trabalhadores do sector privado também se uniram ao movimento de protesto. Trabalhadores da Renault, Peugeot-Citroën, bancos, supermercados, metalúrgicas e até pilotos de helicóptero e operadores da bolsa Euronext anunciaram sua participação na greve.
Tal como em protestos anteriores, o grosso das manifestações deverá ser constituído por professores e alunos, contra as reformas neoliberais na educação. Os despedimentos e as privatizações em vários outros sectores motivam igualmente esta grande onda de revolta, à qual se associa também a Liga dos Direitos do Homem, num amplo arco de alianças contra as políticas de Sarkozy.
Perante tamanha mobilização, Sarkozy foi obrigado a moderar seu discurso. Na semana passada, havia dito "eu ouço, mas não levo em conta", referindo-se às diferentes críticas às suas reformas. Mas na terça-feira, 48 horas antes da greve, Sarkozy preferiu dizer que "ouvia as preocupações dos franceses e as levava em conta".

Esquerda.net

Policiais se colocam atrás de latas de lixo incendiadas durante confronto com manifestantes. Paralisação contra os efeitos da crise mundial contam com apoio de 69% dos franceses, segundo o jornal Le Parisien Mais Bertrand Langlois/AFP

Manifestantes mascarados participam de marcha em Lyon durante greve geral. Paralisação marca preocupação dos franceses com a crise econômica Mais Robert Pratta/Reuters

Protesto em Lyon faz parte de jornada de greve convocadas por centrais sindicais francesas; manifestantes saem às ruas do país para reclamar da política econômica do governo de Nicolas Sarkozy e pedir a manutenção do poder aquisitivo da população frente à crise econômica Mais Fred Dufour/AFP

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Greve geral na França mobiliza mais de dois milhões

Jeferson Choma
da redação do Opinião Socialista

Os trabalhadores franceses deram um grande exemplo neste dia 29 de janeiro. Pela primeira vez em muitos anos, os oito principais sindicatos uniram-se para chamar um dia de paralisações contra o desemprego e ataques aos serviços públicos e acusam o governo de, perante a crise econômica, proteger apenas os banqueiros e os grandes empresários.
Milhares de trabalhadores do setor público e privado cruzaram os braços. Participaram da greve os trabalhadores da educação, transportes ferroviários e aéreos, hospitais, da companhia de gás (GDF) e eletricidade (EDF), da France Telecom, correios, justiça, imigrantes em situação ilegal, aposentados, entre muitas outras categorias. Trabalhadores da Renault, Peugeot-Citroën, bancos, supermercados, metalúrgicas e até operadores da bolsa Euronext.
O destaque foi para o setor de educação que esteve mobilizado no final do ano passado contra um projeto de reforma do ensino. Segundo o sindicato do setor, 67,5% aderiram a greve no ensino primário e 60% no secundário.
As ruas das principais cidades do país foram invadidas por uma maré de gente, faixas e bandeiras. Sob o lema de defesa do emprego e do salário, mais de 2,5 milhões de pessoas participaram das manifestações, segundo as estimativas da CGT (Central Geral dos Trabalhadores). Em Paris, cerca de 300 mil pessoas marcharam, de acordo com a central.
O descontentamento com o presidente Nicolas Sarkozy é cada vez maior. A crise da economia fechou empresas e fez o desemprego explodir. A resposta de Sarkozy, no entanto, foi a edição de um pacote de 20 bilhões de Euros (R$ 34 bilhões) de ajuda aos banqueiros e empresários.
“Mesmo não sendo responsáveis, os trabalhadores, os desempregados e aposentados, são as primeiras vítimas desta crise. Ela ameaça o futuro dos jovens, prejudica a coesão social e a solidariedade, e aumenta as desigualdades e a precariedade”, afirma a declaração comum dos oito principais sindicatos dos setores público e privado.
A greve geral também contou com amplo apoio popular. Uma sondagem do jornal Le Parisien revelou que 69% dos franceses apóiam a paralisação e acham que Sarkozy deveria apoiar os desempregados e trabalhadores como foi capaz de acudir aos bancos. Segundo Guy Groux, membro do comitê nacional da CNRS (sigla em francês para Centro Nacional de Investigação Científica), “existe uma unidade sindical total, algo que não se via desde a mobilização contra o CPE em 2006. Além disso, a simpatia da opinião pública é muito elevada. Não se via isso desde 1995. É inclusive mais importante do que naquela época: 69% dos franceses são favoráveis à greve de amanhã, contra 65% em 1995”.
O jornal francês Liberation considera que a atual jornada de protesto não pode ser encarada como um protesto qualquer, mas sim um verdadeiro “grito de alarme”. Opinião semelhante é do jornal britânico The Guardian que, de maneira lúcida, aponta que a França se encontra numa atmosfera de “medo e ansiedade”. Os jornais expressam o temor da burguesia européia de que qualquer faísca desencadeie uma explosão social de consequências imprevisíveis na França.
Não começou hoje
Já nos primeiros dias de 2009, protestos sociais atormentavam o governo francês, com manifestações de funcionários públicos, juízes, desempregados, trabalhadores de montadoras, sem-teto e estudantes. Nos subúrbios, carros arderam em chamas na noite de Reveillon. Mais de 1,1 mil automóveis foram incendiados, um aumento de 30% em relação à mesma data do ano anterior.
A crise social vem produzindo movimentos que reúnem desempregados e trabalhadores em condições precárias. Um deles é o dos “Robin Wood dos supermercados”, que promove invasões em supermercados nas periferias de Paris e outras cidades para saquear as prateleiras e distribuir alimentos entre as pessoas necessitadas. O episódio pode até parecer banal, mas dá uma boa dimensão do descontentamento social.
Temendo uma explosão social, Sarkozy foi obrigado a recuar nos seus planos de ataques. Pela primeira vez desde sua posse, em maio de 2007, o presidente evita entrar em confronto direto com os trabalhadores e sindicatos e adiou dois nefastos projetos neoliberais: a do ensino secundário e a da liberalização do trabalho aos domingos.
A reforma na educação previa o corte de 13,5 mil vagas de professores e provocou a fúria da categoria e dos estudantes. Sua resposta veio por inúmeras manifestações que sacudiram a França no mês de dezembro. O governo recuou depois de olhar atentamente para a Grécia, onde, simultaneamente, milhares de jovens saíram às ruas e deixaram o governo na corda bamba. Sarkozy temia que uma rebelião semelhante – catalisada pela crise – pudesse chegar a Paris e adiou as discussões sobre a reforma.
Em seguida veio outro recuo. No início de 2009, o governo anunciou o adiamento do projeto que permitia o trabalho aos domingos, amplamente contestado pelos sindicatos. A cautela de Sarkozy contrasta com suas atitudes no início de seu mandato.
Em novembro de 2007, apesar de uma grande greve que paralisou a França por dez dias, o presidente francês não cedeu um centímetro no seu projeto de mudanças no sistema de aposentadorias dos funcionários dos transportes públicos. Há alguns meses, Sarkozy exibia todo seu triunfalismo e arrogância dizendo que quando havia uma greve na França, “ninguém a notava”.
A possibilidade de uma explosão social, porém, forçaram o presidente a adotar um outro tom. Desta vez, o presidente preferiu o isolamento no Palácio Eliseu e declarou um dia antes da greve geral que compreendia as dificuldades dos trabalhadores “mas devo ver isto com sangue frio, com calma e reflexão e não decidir em função do que sai nos jornais ou do que diz aquele que grita mais forte” .
A cautela foi repetida pelo porta-voz do governo Luc Chatel que logo após os protestos disse: “O executivo está atento as inquietudes da opinião pública, no momento em que atravessamos a mais grave crise em anos”. Os manifestantes, porém, não pouparam o presidente e com muita ironia seguravam cartazes dizendo: “Sarko, estamos aqui!”.

Do Portal do PSTU

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Fórum Social Mundial, crise e emprego

O Fórum Social Mundial começa sob o signo da crise econômica. Até o final do ano passado, ela ainda era, para a grande maioria da população brasileira, pouco mais do que notícias nos meios de comunicação. Agora, tornou-se concreta. Seus efeitos palpáveis são demissões maciças realizadas especialmente pela indústria de transformação, com seu efeito multiplicador ramificando-a por toda a economia.

Denise Lobato Gentil e Gilberto Maringoni

O empresariado paulista, reunido em torno da FIESP, está desatando uma pesada pressão sobre os sindicatos. Aproveita-se da fragilidade dos trabalhadores para tentar concretizar uma espécie de reforma trabalhista. Isso significa reduzir salários e retirar direitos, sob o argumento que tais medidas minimizariam reduziriam o desemprego.
A proposta não é nova e volta e meia é colocada sobre a mesa de negociações. Talvez o empresariado não perceba que está dando um tiro no pé. É absolutamente vital para a economia preservar o nível de emprego e de salários e os direitos trabalhistas. A lição de crises anteriores, particularmente a dos anos 1930, mostra que a recessão só é debelada quando os setores da sociedade com mais propensão a gastar têm mais dinheiro na mão. Quem mais tem tendência a gastar são os trabalhadores e a população de baixa renda. Tais grupos precisam manter seu nível de consumo em tópicos vitais, como alimentação, transporte, vestuário e moradia. Isso dinamiza a economia.
Custo do trabalho
Por anos a fio, o patronato alardeou que o altíssimo custo do trabalho no Brasil seria a raiz do desemprego. A conclusão óbvia é que se não houvessem tantos encargos e se o salário mínimo fosse mais baixo, viveríamos uma situação de pleno emprego. Esta é uma daquelas meias-verdades que nunca foram provadas.
Nos anos 1990 houve queda no rendimento médio real do trabalho por vários anos e nem por isso criaram-se mais postos de trabalho. Ao contrário, os índices de desemprego aumentaram. Era de 5%, em 1989, aumentou para 7,2% em 1992, 8,4% em 1997 e 10,4% em 1999. Nos primeiro anos do século XXI, entre 2001 e 2003, não foi diferente: o salário real médio caiu 10% em termos reais, enquanto o desemprego atingia taxas maiores que 9% (PNAD/IBGE). Foram tempos em que predominaram medidas radicalmente conservadoras de combate à inflação, de redução da intervenção estatal e de abertura comercial e financeira.
Crescimento e emprego
A fase mais recente de prosperidade na economia brasileira, iniciada em 2004, tornou-se emblemática. Ficou demonstrado que para crescer é vital a elevação dos salários e do nível de emprego. Entre 2004 e 2007, o rendimento médio real do trabalho cresceu de R$ 831 para R$ 960, ao mesmo tempo em que a taxa de desemprego caía de 9,0% para 8,2% (PNAD/ PME/ IBGE). Em 2004, a participação dos salários na renda era de 39,3%. Subiu para 40,9% em 2006 e estima-se que foi para mais de 41% em 2007.
A maior oferta de empregos decorreu do forte aumento dos investimentos produtivos, puxados pela expansão da demanda interna. Esta, por sua vez, decorreu principalmente de iniciativas do Estado: crescimento do salário mínimo e do gasto social na seguridade social e em programas como o bolsa-família.
A questão central na crise é preservar o mercado interno e impedir que os impactos positivos do crescimento dos últimos anos se percam. Se vingar a proposta da FIESP, o aumento da taxa de desocupação e a queda da renda dos trabalhadores resultarão em redução da demanda para a produção industrial. Com isso, a desaceleração desembocará em uma recessão e novas rodadas de demissões serão inevitáveis. A responsabilidade para evitar um quadro desses não é só da administração pública, mas da iniciativa privada.
Enquanto defende redução de salários e de direitos, o patronato recebe do Estado o seguinte: empréstimos a juros subsidiados, redução do depósito compulsório para os bancos elevarem a própria liquidez, leilões de dólares para cobrir aplicações cambiais especulativas, rápida disponibilidade de crédito para montadoras, setores agrícola, de construção civil e exportador, redução do IOF e do IPI e o socorro a empresas endividadas no exterior. Ou seja, ao primeiro sinal de dificuldades, os senhores correm atrás de dinheiro público. Ao mesmo tempo pontificam o oposto para o trabalhadores, como fez o vice-presidente da GM do Brasil, José Carlos Pinheiro Neto: "Quem garante emprego é o mercado". Mercado nos olhos dos outros é refresco.
Comportamento contraditório
A diretoria da FIESP talvez não perceba que sua política pode se tornar suicida. Os empresários exibem um comportamento contraditório. No horizonte imediato, reduzir salários e demitir trabalhadores aparenta ser uma sábia solução. No médio e longo prazo, menores salários e menos direitos resultarão em contração mais profunda do mercado interno e inibição dos compradores de seus produtos.
A crise não atinge a todos por igual. Em tempos assim não é possível contar com a solidariedade de classes sociais com interesses opostos. Mas a ação do Estado possibilita organizar e gerir demandas contraditórias e evitar a pauperização acelerada da grande maioria da população. A FIESP precisa fazer a sua parte no controle da crise e mostrar que consegue participar de um projeto de país democrático.
Reivindicar do Estado segurança para investir não é o mesmo que advogar um capitalismo sem riscos para os mais fortes e a manutenção de margens de lucro da fase de expansão. Os setores bancário, minerador e automobilístico receberam nos últimos meses vultosos financiamentos públicos. Seria de bom tom mostrar que seus discursos de responsabilidade social não são apenas peças de marketing para dourar a imagem de algumas empresas.
A questão do emprego na crise é uma pauta presente em varios dos debates do Fórum de Belém.

(*) Denise Lobato Gentil é doutora em Economia pela UFRJ, diretora-adjunta de Macroeconomia do IPEA e professora do Instituto de Economia da UFRJ; Gilberto Maringoni é doutor em História pela USP, pesquisador do IPEA, professor da Faculdade Cásper Líbero e autor de A Venezuela que se inventa, poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez.

Carta Maior

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Crise aumenta risco político em 8 países europeus, diz estudo

Protestos na Grécia em dezembro de 2008

Protestos na Grécia em dezembro influenciaram ranking

BBC

A crise econômica global provocou uma queda na estabilidade mundial e colocou oito países europeus em posição de maior risco de instabilidade política, segundo uma pesquisa da seguradora americana Aon Corp, uma das maiores do mundo.

Estônia, Grécia, Hungria, Islândia, Letônia, Lituânia, Eslováquia e Eslovênia caíram na escala de segurança da Aon - de baixo risco para médio-baixo risco - por causa da sua vulnerabilidade à crise.

O Brasil segue na categoria de médio-baixo risco. Na América Latina, o país de menor risco é o Chile. Na mesma categoria que o Brasil, a segunda de menor risco, estão também México e Costa Rica.

A cada ano, a empresa avalia as possibilidades de que vários países do mundo venham a sofrer guerras, atos de terrorismo, greves, rebeliões, interferência política e outros problemas, além da probabilidade de que dêem um calote em suas dívidas ou que tenham sua cadeia de fornecimento afetada.

Mas, segundo a seguradora, em 2009 a previsão de riscos reflete especialmente o impacto da crise econômica.

‘Problema político’

"A crise do crédito está deixando de ser apenas um problema econômico para se tornar um problema político", disse Miles Johnstone, diretor de Riscos Políticos da Aon, nos Estados Unidos.

"Quando uma economia está em baixa, o governo tem menos recursos disponíveis para lidar com algumas questões problemáticas, o que poderia levar a uma instabilidade política", explicou.

A empresa cita como exemplo recentes protestos violentos na Grécia, na Lituânia, na Letônia, na Islândia e na Bulgária.

A crise também fez com que a seguradora criasse a categoria de altíssimo risco para colocar países cujas condições se deterioram ainda mais no ano passado - Afeganistão, República Democrática do Congo, Irã, Iraque, Coréia do Norte, Somália e Zimbábue.

Por outro lado, outros 13 países melhoraram sua situação no ranking de risco, como a Colômbia, a Síria e a Líbia.

Fonte: BBC Brasil

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Os fantasmas da crise assombram Davos

Outrora considerado uma espécie de oráculo, as profecias do Fórum de Davos apenas serviram para empurrar o capitalismo a caminho do abismo. Muitas das suas estrelas empresariais foram despedidas, alguns estão na prisão e um suicidou-se. As novas estrelas são os governos russo e chinês. "Esta é a maior crise econômica desde que Davos começou", reconhece o seu fundador, Klaus Schwab. Ele reconhece hoje, pragmaticamente, que "o pêndulo oscilou e o poder voltou aos governos".

Esquerda.Net

O Fórum Econômico Mundial que se reúne a partir desta quarta-feira na cidade suíça de Davos é uma imagem da crise econômica e financeira que assola o planeta. Outrora considerado uma espécie de oráculo, as suas profecias apenas serviram para empurrar o capitalismo a caminho do abismo. Muitas das suas estrelas empresariais foram despedidas, alguns estão na prisão e um suicidou-se. As novas estrelas são os governos russo e chinês.
"Esta é a maior crise económica desde que Davos começou", reconhece o seu fundador, Klaus Schwab. Professor de economia de ascendência alemã que fundou o Fórum que reunia a nata do capitalismo mundial a partir de 1971, Schwab reconhece hoje, pragmaticamente, que "o pêndulo oscilou e o poder voltou aos governos".
Antes, frequentavam os salões da estância de inverno suíça nomes como John Thain. Principal executivo do banco Merril Lynch, foi chefe da New York Stock Exchange. Depois de ter conduzido o banco ao naufrágio e despedido milhares de funcionários, ainda tentou receber uma gratificação extra de 30 milhões de dólares, lembra o diário italiano La Republica. E ainda gastou 1,2 milhão para redecorar o seu escritório. Quando foi divulgado o último rombo no balanço, estava a esquiar em Vail, Colorado. Se não tivesse sido despedido na semana passada, seria de novo um dos principais oradores de Davos.
Outras estrelas cadentes que deixaram de figurar na lista dos oradores de Davos são o ex-ministro de Bill Clinton Robert Rubin, despedido do Citigroup, Huang Guangyu, patrão do conglomerado chinês Gome, que acabou na prisão, o alemão Adolf Merckle, que se suicidou, o indiano Ramalinda Raju, que no Fórum de 2007 comandava uma enorme campanha publicitária sobre a "incrível Índia" e hoje não pode viajar, por lhe ter sido retirado o passaporte devido a suspeitas de ter alterado fraudulentamente o balanço da sua empresa Statyam Computer Services.
Uma verdadeira galeria de fantasmas que assola Davos.
As estrelas do show business também acharam mais prudente não comparecer. Bono, dos U-2, prefere fazer o lançamento do seu novo CD, e a atriz Angelina Jolie tem outros compromissos. Davos perdeu o glamour.
Também perdeu parte dos seus patrocinadores, como o falido Lehman Brothers. Por isso chegou a hora de economizar. Claro que, quando se trata de Davos, a palavra economia é relativa. O New York Times dá um exemplo: a BB Heli de Zurich, que leva os convidados para Davos de helicóptero, disponibilizou aparelhos menos confortáveis e mais lentos que permitem cobrar 4.250 dólares pela viagem até à montanha, em vez dos 8.500 que custava uma viagem mais rápida de um aparelho de duas hélices.
O grupo de imprensa alemão Burda, que já levou ao Fórum as modelos Claudia Schiffer e Naomi Campbell, decidiu cancelar esses contratos e concentrar-se em tubarões da indústria e da finança que não tenham afundado.
"As pessoas estão reavaliandor o que fazem em Davos e os organizadores encorajaram a sobriedade e querem focar-se na crise", disse ao NYT Marcel Reichart, do Burda.
Assim, as estrelas deste ano são o primeiro-ministro britânico Gordon Brown, o chinês Wen Jiabao, e o russo Vladimir junto com a alemã Angela Merkel. Barack Obama mandou dizer que tem mais que fazer, e Lawrence H. Summers, director Conselho Econômico da Casa Branca, também declinou o convite. Da Casa Branca só vai, assim, uma conselheira, Valerie Jarrett.

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